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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A aceleração da IA e o metabolismo da Terra: extrativismo digital na era dos limites planetários



A narrativa dominante no ecossistema tecnológico global apresenta a Inteligência Artificial (IA) como um salto puramente concetual e desmaterializado - a derradeira vitória da informação sobre a matéria. No entanto, a análise rigorosa dos factos históricos e ambientais revela o oposto: a aceleração da IA é a Quinta Revolução Industrial, e, tal como as quatro que a precederam, assenta fundamentalmente num aumento exponencial do consumo de energia, água e matérias-primas físicas.

1. Perspectiva Histórica: das máquinas a vapor aos agentes autónomos
Cada grande revolução industrial redefiniu a relação da humanidade com a energia e os recursos do planeta. Esta evolução histórica pode ser acompanhada através dos seus marcos fundamentais:
  • Primeira Revolução Industrial (Finais do Séc. XVIII): A invenção da máquina a vapor por James Watt substituiu o trabalho muscular e animal pelo carvão mineral. Esta transição marcou o início da dependência maciça dos combustíveis fósseis e da mecanização da produção têxtil e metalúrgica.
  • Segunda Revolução Industrial (Finais do Séc. XIX): O advento da rede elétrica, do motor de combustão interna e do processamento em grande escala de aço. A produção em cadeia (Fordismo) acelerou a urbanização e deu origem às primeiras multinacionais do setor energético e automóvel.
  • Terceira Revolução Industrial (Década de 1970): A transição do analógico para o digital impulsionada pelos semicondutores, pela computação pessoal e, posteriormente, pela criação da World Wide Web. Inicia-se a perceção ilusória de que a informação é desmaterializada.
  • Quarta Revolução Industrial (Anos 2000 / 2010): A hiperconectividade global, os smartphones e a centralização de monumentais massas de dados em data centers remotos. O poder computacional passou a ser vendido como um serviço de utilidade pública (computação em nuvem).
  • Quinta Revolução Industrial (Década de 2020): A transição do processamento passivo de informação para a geração autónoma e cognitiva. Exige uma reconfiguração física do planeta, dominada pela corrida às GPUs de alta densidade, energia dedicada (incluindo pequenos reatores modulares) e consumo maciço de água potável.
2. A mente dos Arquitetos do aceleracionismo (e/acc)
Para compreender a trajetória desta nova revolução, é fundamental analisar a visão de mundo dos executivos e ideólogos que lideram o ecossistema de Silicon Valley:
  1. Jensen Huang (NVIDIA): Encara a infraestrutura como o novo petróleo. Na perspetiva de Huang, não estamos a construir software, mas sim "Fábricas de IA" (AI Factories). A lei da física superou a Lei de Moore, e a única resposta viável é o escalamento contínuo de clusters gigantescos de GPUs em arquiteturas altamente integradas.
  2. Sam Altman (OpenAI): Opera sob a premissa de que a Inteligência Artificial Geral (AGI) é uma inevitabilidade histórica e que a escassez de computação é o único gargalo real. Esta visão justifica investimentos em infraestruturas energéticas de grande escala (como a fusão nuclear), argumentando que o custo ecológico do treino de modelos é negligenciável quando comparado com a eventual capacidade da IA de "resolver" as crises planetárias.
  3. Marc Andreessen (Andreessen Horowitz) e o Movimento e/acc: O Effective Accelerationism (Aceleracionismo Efetivo) defende que parar ou regular o progresso tecnológico é moralmente errado. A premissa central de Andreessen é que qualquer desaceleração condenará a humanidade à estagnação; assim, os impactos colaterais do extrativismo presente devem ser aceites em prol da abundância tecnológica futura.
3. A ilusão da imaterialidade e o impacto planetário
Vivemos imersos na narrativa da imaterialidade. Vende-se a Inteligência Artificial como uma entidade etérea . uma "nuvem" de conhecimento onde algoritmos limpos processam informação sem deixar rasto no mundo físico. Contudo, por trás de cada modelo de linguagem, de cada gerador de imagem e de cada infraestrutura de supercomputação existe uma engrenagem profundamente material, extrativa e metabolicamente devastadora. A aceleração da IA não é apenas uma corrida de software; é uma aceleração da exploração física do planeta.

4. O que é a aceleração da IA?
A aceleração da IA manifesta-se em três frentes interligadas:
  1. Aceleração computacional: a capacidade exigida para treinar e manter grandes modelos de linguagem (LLMs) cresce a um ritmo que ultrapassa a tradicional Lei de Moore. A procura por GPUs (unidades de processamento gráfico) e chips de alta densidade exige data centers gigantescos com consumo energético desenfreado, equivalente ao de pequenas cidades.
  2. Aceleração extrativista: a construção e renovação constante de hardware dependem da extração maciça de minérios críticos - cobre, lítio, cobalto, níquel, gálio e terras raras -, intensificando o extrativismo nas regiões mais vulneráveis do Sul Global.
  3. Aceleração ideológica (e/acc): impulsionado por setores de Silicon Valley, o chamado "Aceleracionismo Efetivo" defende que o desenvolvimento tecnológico deve avançar sem travões éticos, regulatórios ou ambientais, na ilusão irrealista de que a própria tecnologia resolverá, no futuro, os colapsos que provoca no presente.
5. A colisão entre o algoritmo e a biosfera
A aceleração digital concorre diretamente com os recursos indispensáveis à transição energética. A mesma corrida aos minerais que alimenta os data centers de IA é a que abastece as baterias dos veículos elétricos e os painéis solares, sobrecarregando ecossistemas frágeis em salinas, zonas húmidas e florestas tropicais.

Adicionalmente, a refrigeração desses servidores exige milhões de litros de água potável, frequentemente retirados de aquíferos em regiões afetadas pela seca. A promessa de uma economia desmaterializada revela-se, assim, o seu oposto: um acelerador da rutura metabólica da Terra.

6. Convergência com as análises do BioTerra
Esta perspetiva reflete diretamente as análises e denúncias já detalhadas em artigos publicados no blogue BioTerra:
  1. Geopolítica e dependência do Silício: No artigo Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto de rutura geopolítica, expõe-se como o monopólio da TSMC concentra no ecossistema físico taiwanês mais de 90% da produção de semicondutores de ponta, criando um gargalo onde a pressão sobre a água e a energia expõe a vulnerabilidade planetária da infraestrutura de IA.
  2. A pegada hídrica e os megaprojetos locais: A análise efetuada em Inteligência Artificial e água: a fatura invisível e em O Telhado Chegava alerta expressamente para o caso paradigmático de Sines. O mega-campus de data centers ilustra a forma como o extrativismo hídrico e energético é importado para o território nacional para processar dados em grande escala (Big Data) provenientes do outro lado do Atlântico.
  3. A falácia do mercado e a alternativa ecossocialista do decrescimento: Os artigos A bolha da inteligência artificial vai mesmo rebentar?, O ecossocialismo do decrescimento na era da Inteligência Artificial e A ilusão do consumo e o silêncio da extinção desconstruíram o mito tecnocrático, propondo a sobriedade e o controlo democrático frente à especulação financeira do capital digital.
5. Desmitificar o "Crescimento Verde" digital
Não podemos responder à crise ecológica com o mesmo pensamento produtivista que a originou. Submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo democrático, exigir a soberania digital e aplicar os princípios do decrescimento e da sobriedade computacional são passos urgentes. A capacidade computacional do planeta deve ser direcionada para prioridades sociais e ecológicas reais — como a modelação climática e a saúde pública — e não para a especulação financeira ou o consumo desenfreado.

Referências Bibliográficas e Leituras Recomendadas
1. Livros e Monografias (E-books e Edições Impressas)

2. Artigos Académicos e Relatórios de Investigação
3. Ensaios, Manifesto e Crítica Sociotécnica
Andreessen, Marc (2023). The Techno-Optimist Manifesto. Andreessen Horowitz (a16z). (O manifesto fundacional da ideologia aceleracionista e/acc, útil para a análise crítica dos seus pressupostos).

4. BioTerra (2026). Arquivo Temático de Crítica Ecossocialista do Decrescimento e Sobriedade Digital.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O ecossocialismo do decrescimento na era da Inteligência Artificial: entre o colapso e a esperança emancipatória


Ontem examinámos as causas e os efeitos da rutura ecológica: do fim da estabilidade do Holoceno à supremacia da massa produzida sobre a biomassa viva. Hoje, a aceleração exponencial da IA eleva os riscos e a complexidade a um patamar sem precedentes. Este ensaio examina as propostas da economia ecológica para navegar esta rutura e materializar a transição rumo ao Ecoceno.

Introdução: o empasse do século XXI e o novo vetor digital
Vivemos sob a sombra de uma contradição histórica. À medida que os relatórios científicos confirmam a ultrapassagem dos limites planetários - do aquecimento global à perda acelerada de biodiversidade -, as respostas das elites políticas e económicas continuam ancoradas na promessa do "Crescimento Verde". A narrativa dominante propõe que a mesma lógica de acumulação, concorrência e extração que nos trouxe à crise ecológica será a força capaz de nos salvar, bastando para isso substituir o combustível fóssil pelo eletrão limpo.

Contudo, esta miragem tornou-se ainda mais complexa e perigosa com a emergência da Inteligência Artificial (IA) generativa e da supercomputação. Longe de ser um instrumento neutro de desmaterialização, a IA revelou-se um acelerador extrativista: uma infraestrutura intensiva que exige quantidades astronómicas de energia, água potável para refrigeração de data centers e minerais críticos extraídos do Sul Global.

É perante esta dupla crise - ecológica e sociotécnica - que emerge uma síntese política rigorosa: o Ecossocialismo do Decrescimento. Não se trata de uma coleção de desejos utópicos ou de um apelo ao neoludismo, mas de um diagnóstico sobre os limites materiais do planeta e uma proposta de reconfiguração da civilização humana. Emerge, assim, a questão fundamental: estará nesta síntese a nossa verdadeira esperança?

I. A anatomia da ilusão: o falhanço do crescimento verde e o impacto da IA
Para compreender a urgência desta abordagem, é necessário desmontar o mito do "desacoplamento" (decoupling) entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o impacto ambiental. A evidência empírica demonstra que o desacoplamento absoluto, global e rápido o suficiente para evitar o colapso climático é inviável no âmbito do capitalismo.
O capitalismo exige uma expansão contínua para evitar a sua própria crise de acumulação. Quando uma tecnologia melhora a eficiência no uso de um recurso, o mercado expande a produção total - o histórico Efeito Jevons.

A aceleração da Inteligência Artificial agrava esta dinâmica de três formas centrais:
  1. Aumento metabólico: a expansão da IA está a catapultar a procura por eletricidade em várias regiões, adiando o fecho de centrais a carvão e a gás para alimentar data centers.
  2. Neocolonialismo extrativista: a corrida aos chips e servidores intensifica o extrativismo de lítio, cobalto e terras raras, concentrando a degradação ambiental no Sul Global para servir o consumo digital do Norte
  3. Aceleração da extração fóssil: as maiores empresas de tecnologia (Big Tech) comercializam algoritmos de IA concebidos especificamente para otimizar e acelerar a exploração de novas jazidas petrolíferas.
I. A síntese necessária: decrescimento, ecossocialismo e o planeamento Ex-Ante
O decrescimento reintroduz os limites da biologia e da física na economia. Contudo, como adverte o sociólogo e economista marxista John Bellamy Foster (no ensaio publicado no portal A Terra é Redonda), é imperativo reconhecer o "teorema da impossibilidade": não existe decrescimento dentro do capitalismo. O decrescimento não deve ser visto como uma simples inversão contabilística do PIB, mas sim como um processo de desacumulação de capital focado nas economias hiperdesenvolvidas.

Por outro lado, o ecossocialismo fornece a chave de leitura de classe e o mecanismo prático de transição:
  1. O planeamento democrático Ex-Ante: diferente do mercado capitalista, que atua ex-post (corrigindo danos apenas após a busca desenfreada do lucro), o planeamento ecossocialista atua ex-ante. Isto permite subordinar a produção - e o próprio uso da supercomputação e da IA - à "hierarquia das necessidades humanas reais", desmantelando indústrias destrutivas e expandindo a infraestrutura pública.
  2. A descomodificação da vida: transformação da habitação, transporte, saúde, nutrição e energia em bens comuns (commons), retirando-os da especulação financeira.
  3. Sobriedade digital e soberania tecnológica: submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo coletivo. A capacidade computacional deve ser direcionada para a modelação climática, otimização de redes elétricas renováveis e medicina pública, e não para a criação de bolhas financeiras, vigilância ou publicidade direcionada.
  4. Redução da jornada de trabalho: diminuir a semana de trabalho para redistribuir o emprego e libertar tempo humano, substituindo o consumo hiperativo pela riqueza das relações sociais e da cultura.
O debate interno: desenvolvimento sustentável vs. comunismo do decrescimento
Nesta construção teórica, vale destacar o debate vivo no seio da ecologia política. Se por um lado Kohei Saito argumenta que a obra tardia de Marx já continha a semente de um "comunista do decrescimento", autores como John Bellamy Foster ressalvam que desenhar essa continuidade direta pode incorrer num anacronismo histórico. Marx defendia o desenvolvimento humano sustentável e a superação da ruptura metabólica num mundo industrial ainda incipiente. O ecossocialismo do decrescimento surge, assim, não como um dogma estático do século XIX, mas como a aplicação viva e renovada do materialismo histórico às condições da "economia de mundo cheio" do século XXI.

III. Estará aqui a esperança?
A palavra "esperança" corre o risco de ser esvaziada se for confundida com um otimismo ingénuo. O filósofo Ernst Bloch propôs o conceito de esperança concreta: a identificação das tendências reais no presente que contêm a semente de um futuro transformado.

Neste sentido, o ecossocialismo do decrescimento representa a esperança mais realista de que dispomos.

A verdadeira postura irrealista é continuar a acreditar que a expansão económica infinita - agora acelerada pela IA - pode coexistir com a estabilidade de um planeta finito. Esta síntese oferece uma bússola política que recusa simultaneamente o colapso ecológico e a barbárie social.

A esperança desta proposta não reside na expetativa de que as elites adotem este modelo voluntariamente, mas na sua capacidade de articular lutas históricas dispersas:
  1. Une os trabalhadores do setor tecnológico e da economia em geral - esgotados pelo ritmo de trabalho e ameaçados pela automação - à exigência de semanas de trabalho mais curtas e soberania sobre o seu tempo.
  2. Une as comunidades do Sul Global resistentes ao extrativismo à exigência de reparações históricas e climáticas.
  3. Une os movimentos urbanos que lutam pelo direito à habitação e aos serviços públicos contra a especulação do capital corporativo.
Conclusão: a coragem de imaginar o futuro
O ecossocialismo do decrescimento convida-nos a ultrapassar o "realismo capitalista" - a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Estará aqui a esperança? Sim, mas uma esperança exigente e combativa. Não se trata de uma garantia de vitória, mas de um projeto de emancipação. O ecossocialismo do decrescimento não promete um paraíso de consumo ilimitado nem um ciberespaço infinito, mas propõe algo mais sustentável: uma sociedade assente na abundância de tempo, na justiça social, na soberania tecnológica e na harmonia metabólica com a Terra.

Referências Bibliográficas 
  1. Altvater, E. (2010). O Capitalismo Fóssil e a sua Alternativa Ecossocialista. Em A Crise Socioambiental: Perspectivas Ecossocialistas. Expressão Popular.
  2. Crawford, K. (2023). Atlas da Inteligência Artificial: Poder, Política e os Custos Planetários da IA. Editora Unesp.
  3. Foster, J. B. (2025, 30 de janeiro). Ecossocialismo e decrescimento. A Terra é Redonda.
  4. Hickel, J. (2021). Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo. Editorial Presença / Editora Autêntica.
  5. Jackson, T. (2013). Prosperidade Sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito. Editora Planeta do Brasil / Edições 70.
  6. Kallis, G. (2020). Decrescimento. Editora Autonomia Literária.
  7. Löwy, M. (2014). O que é o Ecossocialismo? (2.ª ed.). Editora Cortez / Editora Boitempo.
  8. Parrique, T. (2022). A Economia do Decrescimento. Tese e síntese executiva.
  9. Raworth, K. (2019). Economia Donut: Sete formas de pensar como um economista do século XXI. Editora Zahar / Sextante.
  10. Saito, K. (2023). O Capital no Antropoceno (Brasil) / Desacelerar: Manifesto pelo Decrescimento Ecossocialista (Portugal). Editora Boitempo / Editorial Presença.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Dia Mundial do Ambiente - Relatório global oferece uma alternativa ao colapso climático, ao extremismo político e às tensões económicas

A humanidade pode elevar os padrões de vida, reduzir a desigualdade e manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C, de acordo com uma visão abrangente para a sobrevivência do planeta.

O relatório do World Inequality Lab (WIL) pretende ser a tentativa mais detalhada até à data de navegar pela policrise que está a empurrar o mundo para o colapso climático, o extremismo político e tensões económicas e sociais cada vez maiores.

O documento oferece um conjunto de propostas políticas ousadas, incluindo impostos pesados sobre a riqueza dos multimilionários, reduções acentuadas no horário de trabalho, uma alteração nas dietas e uma transferência de investimento de setores materialmente intensivos, como a indústria e a mineração, para a educação e a saúde.

Se estas e outras medidas forem tomadas, diz o relatório, os rendimentos de 89% da população mundial duplicariam até 2100 e o aquecimento global seria mantido abaixo dos 2 °C em relação à média pré-industrial.

Os autores afirmam que a sua visão fornece uma alternativa positiva às projeções sombrias dos tecnoextrativistas de extrema-direita, nacionalistas e multimilionários que afirmam que o futuro trará inevitavelmente mais combustíveis fósseis, perturbação climática e desigualdade.

«Está a decorrer uma enorme batalha cultural, intelectual e política. E todos nós temos um papel a desempenhar», afirmou Thomas Piketty, codiretor do WIL e professor na Escola de Economia de Paris.

«A ideologia que vemos com [Donald] Trump e com todos os "pequenos Trumps" que temos por toda a Europa e por todo o mundo simplesmente não vai dar resultados. No final de contas, teremos de chegar a este tipo de redistribuição cooperativa de recursos e de poder, porque a alternativa levará simplesmente a resultados desastrosos, tanto no ambiente e no clima, como a nível social.»

O Global Justice Report (Relatório sobre a Justiça Global), publicado na quinta-feira, tenta superar as lacunas das abordagens tradicionais à policrise, incluindo a ênfase excessivamente materialista dos partidos tradicionais de esquerda, a eficácia questionável do decrescimento económico proposto por muitos ecologistas e a falta de estudos de impacto social por parte do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

O relatório visa retificar essas limitações incorporando estudos sobre a desigualdade, a ciência climática e propostas para a criação de uma coligação política capaz de reformar a arquitetura financeira mundial.

Este «plano para a igualdade e a prosperidade dentro dos limites planetários» é o produto de 45 autores, com base em bases de dados compiladas por mais de 200 investigadores de todo o mundo.

Na sua génese está o conceito de suficiência — a ideia de que as pessoas podem desfrutar de uma vida próspera e saudável sem procurarem constantemente consumir ou acumular mais bens materiais que degradam o mundo natural do qual depende toda a vida.

Para alcançar este objetivo, os autores preveem três etapas: reduzir para mais de metade o tempo médio de trabalho, passando de 2100 horas por ano para 1000 horas (o equivalente aproximado a uma semana de trabalho de dois dias e meio); incentivar as pessoas a comerem menos carne vermelha, que é o principal motor da desflorestação e da destruição ecológica; e redirecionar a economia para atividades de baixo consumo, duplicando o investimento na educação para 8400 € por pessoa e na saúde para 14 400 €.

Piketty explicou: «Um euro extra de PIB na educação e na saúde tem uma pegada material e um consumo de energia três a quatro vezes menor do que um euro extra de PIB no setor transformador. É por isso que as mudanças setoriais são imensamente importantes.»

Combater a desigualdade é um objetivo central. Segundo o plano, o rendimento nacional bruto médio per capita em todo o mundo seria de 5000 € por mês até ao final do século — um aumento para quase toda a gente, com os maiores ganhos no Sul Global. A exceção seriam os megarricos, que seriam fortemente tributados por serem os maiores responsáveis pela crise climática. A quota da riqueza global detida pelos multimilionários, que representam apenas 0,001% da população mundial, cairia de 6% para 0,05%, enquanto os 50% mais pobres veriam a sua quota de riqueza aumentar de 2% para 30%.

A outra prioridade é reduzir os riscos climáticos, cortando as emissões para o valor mais próximo possível de zero. O relatório analisa três cenários de descarbonização até meio do século delineados pela Agência Internacional da Energia (AIE) e projeta-os até 2100. Sob o seu plano mais ambicioso, o capital seria redirecionado dos indivíduos mais ricos do mundo e investido em tecnologia eólica, solar e outras energias renováveis para acelerar a descarbonização total e a eletrificação do abastecimento energético até 2050. Reduções adicionais de emissões viriam da redução do horário de trabalho e da mudança nas dietas e na atividade económica.

Prevê-se que isto mantenha o aumento da temperatura global nos 1,8 °C até ao final do século — consideravelmente abaixo das estimativas catastróficas de 4 °C a 4,5 °C em cenários de descarbonização lenta e de procura cada vez maior de bens materiais. É também um resultado melhor do que os 1,9 °C projetados num cenário de decrescimento económico generalizado.

Entre os passos práticos fundamentais necessários para alcançar as metas do relatório estaria a criação de um fundo de justiça global para financiar a transição energética e supervisionar um aumento dos gastos em educação e saúde para 38% do PIB mundial (atualmente fixado nos 13%). Este trabalho seria apoiado por um fundo soberano mundial, que reequilibraria as detenções globais de riqueza pública e privada para proporções semelhantes às vistas pela última vez em 1970.

«Um século XXI habitável e igualitário é materialmente possível», conclui o relatório. «O que impede a sua concretização não é a impossibilidade técnica, mas sim a escolha política e o trabalho árduo, mas crucial, de construir uma coligação que a apoie.»

Cornelia Mohren, coautora e coordenadora ambiental do WIL, admitiu que o relatório era «visionário e talvez utópico», mas afirmou que isso era necessário para mostrar que outros caminhos são possíveis.

«É bom saber que podemos combinar um mundo igualitário com o cumprimento dos orçamentos de carbono», disse. «Esse é um resultado muito útil. Dá-me esperança. Vimos o que é possível e também vemos o quão difícil é com esta realidade política, o que pode ser deprimente.»

Piketty afirmou que a história recente mostra que os objetivos do relatório são plausíveis. Países como a Suécia e a Noruega já foram extremamente divididos do ponto de vista económico, mas fizeram progressos rápidos na redução da desigualdade graças a políticas governamentais e ao redirecionamento do investimento para a educação e a saúde. Além disso, o horário de trabalho na Europa reduziu-se para metade desde o século XIX, o que vai ao encontro do objetivo traçado no relatório.

A chave, acrescentou Piketty, é abordar a desigualdade e a habitabilidade do planeta em conjunto. Sem essa abordagem dupla, afirmou, os governos correm o risco de repetir os erros que causaram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) na França, contra um imposto sobre o carbono que teria afetado as classes trabalhadora e média muito mais do que os ricos.

«Se não colocarmos isto no centro da análise e se falarmos de políticas verdes e de ambiente de forma abstrata, isto simplesmente não vai funcionar», sublinhou.

O relatório será apresentado e debatido na Conferência Mundial sobre a Desigualdade, que decorre de 4 a 6 de junho em Paris, contando com oradores como Ha-Joon Chang, Jean Drèze, Jayati Ghosh, Mariana Mazzucato, Branko Milanović, Lea Ypi e Gabriel Zucman.

Jason Hickel, professor na Universidade Autónoma de Barcelona e membro sénior visitante na LSE (London School of Economics), afirmou: «É uma intervenção importante e oportuna. Tudo isto é tecnicamente viável de alcançar — podemos ter vidas boas para todos dentro dos limites planetários — mas exigirá uma luta política organizada para que aconteça.»

Toda a informação, com gráficos ilustrativos aqui

Página Oficial do Dia Mundial do Ambiente 2026

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jason Hickel: “Os ricos estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam”


Learn more about Jason Hickel and his work.
Check out Global Inequality to view Jason’s recent project (created in collaboration with a team of fellow researchers) which visualizes data and research on global inequality.

O Colapso Anunciado e a Ilusão do Crescimento
Na sua intervenção, Jason Hickel apresenta uma crítica mordaz à estrutura do capitalismo contemporâneo. O argumento central é que vivemos num sistema que exige o crescimento infinito do PIB para manter a estabilidade social e financeira. No entanto, Hickel recorda que vivemos num planeta com limites biofísicos finitos. Para o antropólogo, a ideia de que podemos continuar a crescer economicamente enquanto "desligamos" esse crescimento do impacto ambiental — o chamado "Crescimento Verde" — não passa de uma fantasia perigosa.

A Responsabilidade da Classe Alta
O título da entrevista, que refere que "os ricos não se importam", prende-se com a análise da pegada ecológica das elites. Hickel argumenta que a classe ultra-rica e as grandes corporações são os principais motores da destruição, não apenas pelo seu consumo ostensivo (como jatos privados), mas sobretudo pelo controlo que exercem sobre os investimentos e a política. Ele defende que este grupo continua a investir na expansão de combustíveis fósseis e na extração de recursos porque o lucro imediato sobrepõe-se à sobrevivência civilizacional a longo prazo.

O Decrescimento como Solução
A alternativa proposta por Hickel é o Decrescimento. Ao contrário do senso comum, ele esclarece que o decrescimento não é uma recessão (que é um colapso caótico de uma economia dependente de crescimento). O decrescimento é uma redução planeada do uso de energia e de recursos no Norte Global, com o objetivo de alinhar a economia com os limites do planeta e, simultaneamente, melhorar a vida das pessoas.

As medidas sugeridas passam por:
1. Abolir indústrias inúteis: reduzir setores que não contribuem para o bem-estar humano, como o marketing agressivo, o armamento ou a obsolescência programada.

2.Redistribuição radical: Tributar as grandes fortunas para financiar serviços públicos universais (saúde, educação, transportes).

3.Garantia de Emprego: assegurar que a transição para uma economia menor não gera desemprego, mas sim uma redução da carga horária de trabalho, permitindo mais tempo livre e partilha de tarefas.

A Urgência Política
Hickel conclui que a tecnologia, por si só, não nos salvará. Embora as energias renováveis sejam fundamentais, elas não conseguem substituir a escala atual de consumo material do Norte Global. A solução é, portanto, política e de classe: é necessário retirar o poder de decisão das mãos de uma elite que beneficia com a destruição e democratizar a economia para garantir a sobrevivência da biosfera.
Fonte

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Podemos ir além do modelo capitalista e salvar o clima – eis os três primeiros passos



Temos uma responsabilidade urgente. O nosso sistema económico actual é incapaz de lidar com as crises sociais e ecológicas que enfrentamos no século XXI. Quando olhamos em redor, vemos um paradoxo extraordinário. Por um lado, temos acesso a novas tecnologias notáveis ​​e a uma capacidade coletiva de produzir mais alimentos, mais bens do que aqueles de que necessitamos ou do que o planeta pode suportar. No entanto, ao mesmo tempo, milhões de pessoas sofrem em condições de extrema privação.

O que explica este paradoxo? O capitalismo. Por capitalismo, não nos referimos aos mercados, ao comércio e ao empreendedorismo, que existem há milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo. Por capitalismo, referimo-nos a algo muito peculiar e específico: um sistema económico que se resume a uma ditadura controlada por uma ínfima minoria que detém o capital – os grandes bancos, as grandes corporações e o 1% que detém a maior parte dos ativos investíveis. Mesmo vivendo em democracia e tendo opções no nosso sistema político, as nossas escolhas nunca parecem alterar o sistema económico. São os capitalistas que determinam o que produzir, como utilizar a nossa força de trabalho e quem beneficia. O resto de nós – as pessoas que de facto produzem – não tem voz.

Para o capital, o objectivo primordial da produção não é satisfazer as necessidades humanas ou alcançar o progresso social, muito menos atingir metas ecológicas. O objetivo é maximizar e acumular lucro. Esse é o objetivo primordial. Esta é a lei capitalista do valor. E para maximizar os lucros, o capital exige um crescimento perpétuo – produção agregada sempre crescente, independentemente de ser necessária ou prejudicial.

Assim, acabamos com formas irracionais de produção como resultado: temos a produção em massa de coisas como SUVs , mansões e moda rápida, porque estas coisas são altamente lucrativas para o capital, mas uma subprodução crónica de coisas obviamente necessárias, como habitação pública e transportes públicos, porque estas são muito menos lucrativas para o capital, ou não lucrativas de todo.

O mesmo acontece com a energia. As energias renováveis ​​já são muito mais baratas do que os combustíveis fósseis. Infelizmente, os combustíveis fósseis são até três vezes mais rentáveis ​​. Assim, o capital obriga os governos a ligar os preços da electricidade ao preço do gás natural liquefeito mais caro, e não ao da energia solar barata. Da mesma forma, a construção e manutenção de autoestradas é muitas vezes mais rentável para os empreiteiros privados, fabricantes de automóveis e companhias petrolíferas do que uma moderna rede de caminhos-de-ferro públicos seguros e de alta velocidade. Por conseguinte, os capitalistas continuam a pressionar os nossos governos para subsidiar os combustíveis fósseis e a construção de estradas, mesmo enquanto o mundo arde.

Desde a eleição de Donald Trump, muitas grandes empresas de investimento abandonaram com entusiasmo os seus compromissos climáticos , que, em prol do bem comum, tinham limitado a sua rentabilidade. Este deveria ser um momento esclarecedor para todos nós: o capitalismo preocupa-se com as perspectivas da nossa espécie tanto quanto um lobo se preocupa com as de um cordeiro.

E aqui estamos nós: presos às prioridades do capitalismo, que são incompatíveis com as da humanidade. O engenho humano legou-nos tecnologias e capacidades esplêndidas. Mas, como divindade cruel, o capital não só nos impede de as utilizar para o nosso bem colectivo, como também nos obriga a empregá-las para a nossa ruína colectiva.

O sistema também nos prende em ciclos intermináveis ​​de violência imperialista. A acumulação de capital nas economias avançadas depende de inputs maciços de mão-de-obra barata e de recursos naturais do Sul global. Para manter este arranjo, o capital utiliza todas as ferramentas ao seu dispor – dívida, sanções, golpes de Estado e até invasões militares directas – para manter as economias do Sul subordinadas.

A solução está mesmo à frente dos nossos olhos. Precisamos urgentemente de ultrapassar a lei capitalista do valor e democratizar a nossa economia, para que possamos organizar a produção em torno de prioridades sociais e ecológicas urgentes. Afinal, somos os produtores dos bens, dos serviços e das tecnologias. É o nosso trabalho e os recursos do nosso planeta que estão em causa. Por isso, devemos reivindicar o direito de decidir o que é produzido, como e com que finalidade.

Como pode ser feito? Existem três condições necessárias para a transformação da nossa economia, de uma ditadura sem futuro para uma economia democrática, funcional e ecologicamente sustentável.

A primeira condição é uma nova arquitectura financeira que penalize “investimentos” privados destrutivos e possibilite o financiamento público para fins públicos. No cerne desta arquitectura, precisamos de um novo banco público de investimento que, em associação com os bancos centrais, converta a liquidez disponível em tipos de investimento compatíveis com a prosperidade comum e sustentável.

A segunda condição é a utilização extensiva da democracia deliberativa para decidir metas sectoriais, regionais e nacionais (por exemplo, em relação ao crescimento ou mesmo à redução de diferentes produtos) para as quais as novas ferramentas de financiamento público serão dirigidas.

E a terceira condição é uma Grande Lei de Reforma Corporativa com o objetivo de democratizar as corporações, favorecendo e promovendo a formação de empresas geridas segundo o princípio de um funcionário, uma ação, um voto.

Vivemos à sombra do mundo que poderíamos criar. Um mundo no qual seríamos capazes de evitar um colapso ecológico quase certo, em vez de estarmos à espera que o capitalismo nos empurrasse para além do ponto de não retorno. Um mundo onde a abolição da insegurança económica, da precariedade, da pobreza, do desemprego e da indignidade seja possível, enquanto levamos vidas com sentido dentro dos limites planetários. Isto não é um sonho distante. É uma perspectiva tangível.

Jason Hickel é professor na Universidade Autónoma de Barcelona e investigador sénior visitante na LSE. 

Yanis Varoufakis é o líder do MeRA25, antigo ministro das Finanças e autor de Tecnofeudalismo: O Que Matou o Capitalismo .

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A Political Strategy for Degrowth


I agree with what Jason Hickel wrote in a recent blog, that we need a mass political party that would implement a degrowth agenda, and that currently the degrowth movement does not have a political agenda or capability. I also agree with Anitra Nelson, Vincent Liegey and Terry Leahy when they wrote that degrowth is a movement. Degrowth is a movement as much as Civil Rights, Marriage Equality, or the Sunrise Movement were or aremovements whether or not they were organized as political parties.

When we proposed last year that all degrowthers should join forces in solidarity, the very first point of our proposal was to decouple recognition from status and merit because we believed, and I still do, that comradery and understanding should be based on egalitarian principles. This proposal has been received with lackluster understanding and support.

More recently, I have advocated for a synergy of bottom-up and top-down strategy. Bottom-up is close to the horizontal anarchist position, however it follows scales from local to regional and (inter)national, rather than political hierarchies. It means that strategy would start at the local. Conversely top-down means strategy begins at the largest scale, being operationalized by respective large-aim institutions.

Here, I would like to add specificity to the idea of building mass parties which builds on the recognition of the tremendous effort that has been done by degrowth activists and practitioners, many of whom work for free, while also having to make a living. These mass parties need both bottom-up engagement, and top-down policy design. Yes, we have to take power, but we cannot do it without mass engagement. We already know that degrowth is popular and its label is a strength not a weakness as many have remarked already.

The 28% support in the US for the label “degrowth” without a description attached is as meaningful as the concept of “free buses” from Zohran Mamdani, the Mayor-elect of New York. Both concepts need to be elaborated in order to make full sense. Degrowth is not more jargony than “free buses”. It just needs unpacking and after it is unpacked it is as good as “free buses” if not better.

The upcoming degrowth-friendly parties should consider the following:
1.Governance based on qualified sortition (random selection)
Roger Halam, co-founder of Extinction Rebellion, Just Stop Oil, Insulate Britain recently said to Novara Media that he is a strong advocate for sortition and he is confident that people selected at random will rise up to the task. Sortition, which is basically a formation of government through various forms of selection by lottery, has been discussed by many authors. Just to name a few: Against Elections by David Van Reybrouck, Legislature by Lot: Transformative Designs for Deliberative Governance edited by John Gastil and Erik Olin Wright, The Trouble With Elections by Terry Bouricius, and George Monbiot in a Guardian article.

The qualification part would be something determined by the entire collective, from a minimum time spent in the organization or not working in executive capitalist jobs. People who meet these qualifications would be placed on sortition lists from which governance bodies would be selected at random, while observing desirable demographics.

Your Party UK has used sortition for the selection of their inaugural launch conference. Let us be super frank: representative democracy is a failure and elections are a circus. If we want to reform democracy, elections have to be abolished. Getting degrowth done would require a separation of policy writing from policy selection. People who write policy should not be the same who vote on turning policy into law.

I cannot stress this enough: a Leninist-type party ran by a camarilla of degrowth cadres and experts defeats the purpose of the political revolution. The mass party must be of the people, by the people, and for the people with governance by sortition.

2. Running popular platforms hard on limitarian policies.
Free buses, rent freezes, and freehealthcare are policies that can win elections. However, all policy ideas, no matter how good or popular they are, can be co-opted by right-wing media and capitalist elites. Degrowth itself is painted with red scare and is associated with austerity by capitalists. A mass party should lead, loud and clear with the idea that having too much is a really bad idea that carves into the liberties and wellbeing of decent citizens and into the resilience of life on Earth. A mass party must lead with anti-capitalist policy proposals and the degrowth label. Moreover, since degrowth owns such a wide canvas of policy instruments, the ones that hit the right-wing ethos hardest are those from the limitarian space: limits on wealth and rationing.

Universal Basic Income, Universal Basic Services, Job Guarantee, and Work Time Reduction continue to be the most popular policies from the degrowth toolkit. They are not exclusionary but rather should be advanced together in the agenda of a mass party. The Job Guarantee may be the easiest to promote, even if it is at $15 hourly pay as suggested for the US by L. Randall Wray in Understanding Modern Money Theory (2025). In all cases, the mass party must include caps on wealth and forms of material rationing.

3.Running candidates in jurisdictions where centrists often rotate with right-wingers.
In Canada, Mark Carney’s Liberal Party won this year not because people love them, but because center-left and left voters who usually vote for the New Democratic Party (NDP) really hated the Conservatives. Similar story in the UK. However, the NDP is not too friendly to degrowth, since they are trying to sideline an ecosocialist degrowther anti-Zionist candidate from their current leadership race.

In Canada and the UK, there is no real alternative to the centrist status quo that has won elections. If a mass party that leads with degrowth policies ran candidates in jurisdictions like these, they stand real chances at winning local and general elections. Perhaps the Green Party UK and Your Party UK are poised to fill this gap. They should be infiltrated by degrowthers and swayed onto a committed path for degrowth.

We should not have to read more books such as More and More and More by Jean-Baptiste Fressoz about the delusions of the energy transition, or books such as The Long Heat by Andreas Malm and Wim Carton about the perils of techno-optimism, to be finally convinced that owning the degrowth label and the toolkit of degrowth policy instruments requires courage and vision.

4. Joining or creating an international political alliance, such as DIEM25 or Progressive International.
We already have the International Degrowth Network (IDN) but it does not function like DIEM25 or Progressive International. It does not collect membership fees, it does not have paid staff, and it does not run political candidates. Upgrading the sociocratic aims of IDN towards a political organization could be the strategy to be considered. Alternatively, IDN members and degrowthers at large could join DIEM25, Progressive International or various ecosocialist parties and infuse these organizations with degrowth. In all cases, the degrowth label should be owned by those advocating for it, and must be qualified and unpacked as the occasion requires.

5. Leaders should not be tainted with perceptions of elitism and credentialism.
A sortition-based governance structure would weed out opportunists and status seekers. Socialist parties are not immune to corruption and special interests. Only sortition can mitigate these risks. Policy making cannot be, as a matter of principle, an affair run by the elite policy wonks. In the Bouricius sortition model, experts can still offer significant input in policy making, but they would not be elected into leadership positions.

6. Significant effort should be deployed to popularize ethics of sufficiency.
Before sortition is realized, when we accept the compromise with representative democracy based on elections, political leaders would have to recognize ethics of sufficiency that are shared by humans that have not been duped by consumerism and material status signaling. The imperial mode of living is something real, even if we choose to place responsibility on the design of capitalism instead on individual lifestyle choices. The imperial mode of living refers to a way of life in the Global North that relies heavily on the exploitation of resources and labor from the Global South, leading to ecological and social inequalities. It highlights how everyday consumption practices are intertwined with global power dynamics and the unsustainable nature of capitalism.

In this approach, degrowth can be presented as an ethic of liberation from the oppression of material status signaling, and expansion of social agency (more personal freedom in a social context). Work Time Reduction, for example, is a great public relations tool for degrowth but it must be framed in a dematerialized and decommodified economy. The same applies to UBI, UBS, and JG.

7. Nifty memes and bitesize ideas must complement storytelling and policy unpacking.
A mass party should not be afraid to embrace simple ideas that can capture the imagination of the people. Something along these lines: What if all products imported from the Global South had QR codes on them that would take you to a website where you could see the working conditions of those humans who made that thing, their names, their salaries, their living conditions, their health status, how much free time they have with their families? What if the same QR code showed you the wealth of the owners of those companies, their names, and their living conditions? Would you still buy that thing? Would you still want to keep this economic system? Moving the imagination of supporters for the mass party toward empathy and an egalitarian global ethic may be the key towards the much-needed delinking of the Global South from the Global North, as I understand them in their geographical sense.

8. Designing policy that aims at the fundamental causal structure of capitalism.
In the bottom-up vs top-down integrative approach, the bottom-up part is experiential and the top-down is structural. The mass parties must offer the experience of a new kind of politics and society, by actually showing up for local causes, listening to its members and citizens at large, and being influenced by them via crowd-sourcing policy proposal. I have suggested a tool for such purpose in the form of a crowd-sourced policy cloud.

Mass parties should be friendly and welcoming, not exclusionary and dogmatic. At the same time, they must aim at redesigning the structure of the economy by attacking and dismantling capitalist hierarchies, by decoupling power from property, and by halting the dispossession of private and common property by capital. Even if Universal Basic Income, Universal Basic Services, Job Guarantee, and Work Time Reduction were all implemented, they may remain confined within national borders. Decolonisation and delinking must also be at the center of strategy.

Where would these mass parties start
To conclude, where would these mass parties start? In which country? In Romania, my country of origin, where the far-right party leads in polls by close to 40% and where there is no party on the left, not even center-left? In Germany, France, Italy? In India or China? Once we deploy the heavy anchor of reality we are hit with terrifying apparent impossibilities. The answer is all of the above, with various caveats. Some countries have parties that may be swung further towards degrowth. Others need the invention of new parties from scratch, such as Romania and Canada. In all cases, a political strategy for a mass party must emerge from the mass of people that it is supposed to serve.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Dia Global do Decrescimento

O decrescimento sustentável desafia a centralidade do PIB como um objetivo de política abrangente e propõe um quadro de transformação para um nível mais baixo e sustentável de produção e consumo, um encolhimento do sistema econômico para deixar mais espaço para a cooperação e os ecossistemas.

O Dia Global do Decrescimento (DGD) é uma iniciativa anual que ocorre no primeiro sábado de junho, promovendo a reflexão e a ação sobre o decrescimento como alternativa ao crescimento económico. A celebração visa destacar o trabalho de cuidado, a justiça social e climática, e a importância de um modo de vida mais sustentável e consciente.

Data:
O DGD ocorre anualmente no primeiro sábado de junho. Em 2024, por exemplo, foi no dia 15 de junho.

Objetivo:
O principal objetivo é promover a reflexão e a ação sobre o decrescimento, um conceito que defende a necessidade de repensar o modelo de crescimento económico e adotar um estilo de vida mais sustentável e consciente.

Temas:
O tema de 2021 foi o "Cuidado", destacando a importância do trabalho de cuidado, tanto doméstico como comunitário e ecológico. Em 2024, por exemplo, o tema foi o tema da "Suficiência".

Iniciativas:
A Rede para o Decrescimento e núcleos locais organizam diversos eventos, atividades e ações locais para celebrar o DGD, como caminhadas, encontros, workshops e tertúlias.

Relevância:
O DGD visa sensibilizar para a necessidade de reduzir o consumo, mudar a relação com o dinheiro e promover um modo de vida mais equilibrado e em harmonia com a natureza.

Podes ver a nossa actividade no mapa internacional dos eventos comemorativos previstos para o dia.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Michal Swider


Biografia

Só me ocorre palavras mais profundas e que desapareceram: ética ambiental, consciência animal e ecologia profunda. O economês e a alquimia que isso provoca é sedutora e ecocida.
Resta-me a arte e literaturae e o activismo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Milionários, economistas e políticos eminentes imploram ao G20 para “tributar os super-ricos”




A pressão aumenta sobre o G20 para liderar um esforço global para aumentar os impostos sobre os cidadãos mais ricos de volta aos níveis anteriores que a maioria das pessoas acredita serem mais justos e mais úteis para a sociedade.

Sem este ajustamento, a riqueza e a desigualdade extremas continuarão a disparar. Na última década, os multimilionários mais do que duplicaram a sua riqueza, de 5,6 para 11,8 biliões de dólares.

Numa carta aberta ao G20, perto de 300 milionários, economistas e representantes políticos de quase todos os países do G20 apelam a um novo acordo internacional sobre impostos sobre a riqueza para “impedir que a riqueza extrema corroa o nosso futuro colectivo”. Diz que as pessoas em todo o mundo estão “desesperadas por mudanças”.

Dinheiro, conhecimento e poder estão unidos no apelo à acção e ao G20 para colocar a tributação dos mais ricos no centro da sua agenda na sua próxima Cimeira na Índia, e não só.

Os signatários incluem a herdeira e filantropa da Disney Abigail Disney, ex-líderes da Roménia, Croácia, República Tcheca e Bulgária, o senador dos EUA por Vermont Bernie Sanders, o representante dos EUA Brendan Boyle, antigos e atuais parlamentares europeus, incluindo Aurore Lalucq, os artistas Brian Eno e Richard Curtis, A ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, Maria Espinosa, e economistas como Gabriel Zucman, Jayati Ghosh, Kate Raworth, Jason Hickel, Lucas Chancel e Thomas Piketty.

A acumulação maciça de riqueza extrema por parte dos indivíduos mais ricos é “um desastre económico, ecológico e de direitos humanos” que está “ameaçando a estabilidade política em todo o mundo”, dizem eles.

Negando a “falsa promessa de que a riqueza no topo beneficiaria de alguma forma todos nós”, dizem que o G20 deve agir agora para desbloquear um regime fiscal mais justo que irá arrecadar os biliões de dólares necessários para enfrentar enormes ameaças globais, como a pobreza e a desigualdade. , deflação salarial e crise climática. Conseguir um acordo internacional sobre como aumentar os impostos sobre os super-ricos “não será fácil, mas valerá a pena”.

“Muito trabalho já foi feito. Há uma abundância de propostas políticas sobre a tributação da riqueza apresentadas por alguns dos principais economistas do mundo. O público quer isso. Nós queremos. Agora só falta a vontade política para o concretizar. É hora de você encontrá-lo.

Morris Pearl, Presidente dos Patriotic Millionaires e antigo Diretor-Geral da BlackRock, afirmou: “Nas últimas décadas, a desigualdade de riqueza disparou em todo o mundo. O fosso crescente entre ricos e pobres desestabilizou a economia global, exacerbou a ascensão de políticas extremistas e desgastou a própria estrutura da nossa ordem social. Como pessoa ultra-rica, representando uma organização de pessoas ricas com ideias semelhantes, peço ao G20 que nos imponha impostos.

“Os líderes das maiores economias do mundo devem coordenar ações rápidas e decisivas para reduzir níveis perigosos de desigualdade; se não conseguirem tributar a riqueza extrema, os resultados serão uma economia global perpetuamente enfraquecida, o declínio das instituições democráticas e o agravamento da agitação social. O G20 deve agir.”


  • Na última década, aqueles com mais de 50 milhões de dólares desfrutaram de um crescimento de 18,3% na sua riqueza, enquanto os multimilionários viram a sua riqueza crescer 109%.
  • Apenas 4 cêntimos em cada dólar de receita fiscal provêm dos impostos sobre a riqueza.
  • Desde 2020, o 1% mais rico capturou quase dois terços de toda a nova riqueza. As fortunas dos bilionários estão aumentando em US$ 2,7 bilhões por dia.
  • Por cada dólar de nova riqueza ganho por alguém dos 90 por cento mais pobres, um dos bilionários do mundo ganhou 1,7 milhões de dólares.
  • Metade de todos os milionários não pagará nenhum imposto sobre herança e repassará US$ 5 triliões livres de impostos para a próxima geração.
  • A taxa média de imposto sobre os mais ricos caiu de 58 por cento em 1980 para 42 por cento nos países da OCDE.
  • Os impostos sobre mais-valias – normalmente a fonte de rendimento mais importante para o 1% mais rico – são de apenas 18%, em média, em mais de 100 países.
  • Nos anos de expansão das décadas de 1950-60, a taxa marginal máxima do imposto federal sobre o rendimento dos EUA era de 91 por cento, o imposto sobre heranças era de 77 por cento até 1975 e o imposto sobre as sociedades acima de 50 por cento.
Notas aos editores

A carta aberta foi organizada pelos defensores da desigualdade Patriotic Millionaires, Institute for Policy Studies, Earth 4 All, Millionaires for Humanity e Oxfam. Baixe a lista completa de signatários .

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

sábado, 22 de julho de 2023

Decrescimento: uma resposta a Branko Milanovic


No final de 2017, Branko Milanovic escreveu uma postagem no blog intitulada “A ilusão do decrescimento num mundo pobre e desigual ”. Ele o escreveu, diz ele, após uma conversa que teve com um defensor do decrescimento, que era eu. Escrevi uma resposta, que atualizei aqui para maior clareza e para dar conta de novos dados.

Para recapitular o argumento de Milanovic: ele imagina um cenário em que limitamos o PIB global aos níveis atuais. Os países pobres então aumentam seu PIB per capita para a média global, enquanto os países ricos diminuem seu PIB per capita de acordo. Ele diz que isso implicaria uma redução da produção e do consumo no Ocidente, com a atividade econômica reduzida a um terço de seu tamanho atual.

Para Milanovic, isso é distópico: “Fábricas, comboios, aeroportos, escolas funcionariam um terço do horário normal; eletricidade, aquecimento e água quente estariam disponíveis 8 horas por dia; os carros podem ser conduzidos um dia em cada três; trabalharíamos apenas 13 horas por semana, etc. - tudo para produzir apenas um terço dos bens e serviços que o Ocidente está produzindo agora. Milanovic chama isso de “o empobrecimento do Ocidente” e o descarta como “nem mesmo vagamente provável de encontrar qualquer apoio político em qualquer lugar”. Esqueça isso, ele diz; precisamos de crescimento. Em vez disso, vamos nos concentrar em reduzir nosso consumo de bens e serviços intensivos em emissões, tributando-os, e “pensar em como as novas tecnologias podem ser aproveitadas para tornar o mundo mais ecológico”.

A visão de Milanovic aqui sofre de uma série de falhas empíricas e analíticas. Deixe-me tentar explicar alguns deles:

1. O PIB médio mundial não é distópico; é mal distribuído e mal utilizado
Primeiro, um pequeno ponto para corrigir o registro. O PIB médio mundial per capita é de US$ 17.600 (PPC). Isso não é distópico. Pelo contrário, é mais ou menos consistente com o limite do Banco Mundial para “alto rendimento”.

Isso é bem superior ao que está associado a níveis muito elevados de desenvolvimento humano. De acordo com o PNUD, algumas nações pontuam “muito alto” (0,8 ou mais) no índice de expectativa de vida com apenas US$ 3.300 per capita (e acima de 0,9 com apenas US$ 8.000) e “muito alto” no índice de educação com apenas US$ 8.700 per capita. Na verdade, as nações podem ter sucesso em todos os principais indicadores sociais representados pelos ODS – não apenas saúde e educação, mas também emprego, nutrição, apoio social, satisfação com a vida etc. – com apenas US$ 10.000 per capita.

Noutras palavras, em teoria poderíamos alcançar todos os nossos objetivos sociais, para cada pessoa no mundo, com muito menos PIB do que temos atualmente, simplesmente investindo em bens públicos e distribuindo renda e oportunidade de forma mais justa (agora os 5% mais ricos capturam quase metade do PIB global), mesmo dentro da lógica dos quadros económicos realmente existentes.

Mas tudo isso é irrelevante para a questão em questão, porque:

2. Decrescimento não é redução do PIB; é sobre recursos e energia
Este é o primeiro erro de Milanovic. Decrescimento não é redução do PIB. Em vez disso, trata-se de reduzir o excesso de recursos e produção de energia, ao mesmo tempo em que melhora o bem-estar humano e os resultados sociais; a literatura é bastante clara sobre isso. Do ponto de vista da ecologia, isso é o que importa.

Neste momento, o uso global de recursos é de cerca de 100 biliões de toneladas por ano; aproximadamente o dobro do que os cientistas consideram ser um nível sustentável. Este é um dos principais impulsionadores da degradação ecológica e da perda de biodiversidade. O uso global de energia também é muito alto. O IPCC deixa claro que precisamos reduzir significativamente o uso global de energia (de 400 EJ hoje para cerca de 240 EJ até 2050) para permitir a transição para energias renováveis ​​com rapidez suficiente para ficar abaixo de 1,5°C ou 2°C (Grubler et al 2018; IPCC 2018).

Crucialmente, o uso excessivo de recursos e energia está sendo conduzido por nações ricas, não por nações pobres. Assim, as nações ricas precisam reduzir o seu uso de recursos e energia. Aceitamos que a redução do rendimento agregado de recursos e energia provavelmente levará a uma taxa mais lenta de crescimento do PIB, ou talvez até mesmo a uma redução do PIB; tudo depende da taxa de eficiência. Mas mesmo que o PIB acabe caindo, tudo bem, como veremos. E isso me leva ao próximo ponto:

3. Quando se trata de bem-estar humano, contar o PIB é irrelevante
O segundo erro de Milanovic é que ele assume uma relação de um para um entre o PIB e o bem-estar humano. Quando você parte dessa suposição, é provável que conclua (como faz Milanovic) que estamos numa situação de escassez: claramente não há o suficiente para que todos vivam bem e precisamos de mais (apesar do ponto 1). Mas esse raciocínio é problemático porque o PIB não é, e nunca teve a intenção de ser, uma medida substituta do bem-estar humano. Em vez disso, é uma medida do valor monetário das mercadorias que produzimos e trocamos por dinheiro. Sem surpresa, não há relação causal entre o PIB e os resultados sociais. Usá-lo para esse fim não é científico.

O que realmente importa para o bem-estar humano é o abastecimento – em outras palavras, o acesso das pessoas aos recursos de que precisam para viver vidas longas, saudáveis ​​e prósperas. A razão pela qual o PIB é uma métrica inadequada aqui é porque ele contabiliza apenas uma fatia muito estreita da atividade econômica; especificamente, o que tem a ver com o valor de troca da mercadoria. Não contabiliza todas as formas de aprovisionamento; na verdade, muito do provisionamento do qual dependemos é totalmente ignorado e irrelevante para o PIB. Milanovic sabe disso .

Portanto, é bem possível que o PIB suba enquanto o provisionamento diminui; por exemplo, se o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido fosse privatizado, o PIB aumentaria, mas o acesso das pessoas aos serviços de saúde seria reduzido (o mesmo vale para praticamente todas as formas de privatização ou confinamento). Da mesma forma, o PIB pode cair enquanto o provisionamento melhora; por exemplo, se o governo do Reino Unido impusesse controles de aluguel ou restaurasse a habitação pública, o PIB poderia sofrer um impacto, mas as pessoas teriam acesso mais fácil à habitação. Essa troca é conhecida como Paradoxo de Lauderdale.

Agora, quando pensamos na questão de provisionamento de recursos, o quadro muda um pouco. Fica claro que não há escassez alguma. Pesquisas recentes descobriram que poderíamos acabar com a pobreza global e garantir uma vida próspera para todos no planeta (para 10 bilhões de pessoas em meados do século), incluindo saúde e educação universais, com 60% menos energia do que usamos atualmente (150 EJ, ​​bem dentro do que é considerado compatível com 1,5ºC ) . Quanto ao uso de recursos, sabemos que nações de alto rendimento poderiam atender às necessidades materiais de seus cidadãos em alto padrão, com até 80% menos uso de recursos , trazendo-os de volta ao limiar sustentável.

Deste ângulo, fica claro que o capitalismo é altamente ineficiente quando se trata de atender às necessidades humanas; produz tanto e ainda deixa 60% da população humana sem acesso até mesmo os bens mais básicos. Por quê? Porque uma grande parte da produção de commodities (e toda a energia e materiais necessários) é irrelevante para o bem-estar humano. Considere esta experiência mental: Portugal tem resultados sociais significativamente melhores do que os Estados Unidos, com 65% menos PIB per capita. Isso significa que US$ 38.000 do rendimento per capita dos Estados Unidos são efetivamente "desperdiçados". Isso soma US$ 13 triliões por ano para a economia americana como um todo; US$ 13 triliões em extração, produção e consumo a cada ano, e US$ 13 triliões em pressão ecológica, que nada acrescentam, por si só, ao bem-estar humano. É dano sem ganho.

Isso não deveria ser uma surpresa, porque o objetivo do capitalismo é a extração de excedentes, a acumulação da elite e o reinvestimento para expansão – não atender às necessidades humanas. Na medida em que o sistema atende às necessidades humanas, isso geralmente é resultado de intervenções políticas (ou seja, sindicatos, direitos dos trabalhadores, sector público, etc.).

É irracional esperar que um sistema organizado em torno do aumento da extração e acumulação irá, de alguma forma, melhorar automaticamente os resultados sociais. Se melhorar os resultados sociais é o nosso objetivo, faz muito mais sentido atingi-lo diretamente, organizando a economia primeiro em torno do que sabemos ser necessário para o florescimento humano, em vez de apenas aumentar o PIB indiscriminadamente e esperar que ele satisfaça magicamente as necessidades das pessoas. E quando se trata de bem-estar humano (ou seja, saúde, educação, longevidade, felicidade, satisfação com a vida), os dados são claros: o que importa são os serviços públicos universais, empregos significativos, democracia e uma distribuição justa de renda.

4. Não é o salário em si que conta; é o poder de compra do bem-estar do salário
Os serviços públicos universais são importantes para esta visão por uma série de razões. Primeiro, eles são mais económicos e menos ecologicamente intensivos do que seus equivalentes privados (noutras palavras, você obtém mais provisionamento com menos impacto). Por exemplo, o sistema público de saúde da Espanha gera resultados significativamente melhores do que o sistema dos EUA (a expectativa de vida da Espanha é cinco anos a mais) com menos de um quarto do custo e uma fração das emissões. O transporte público é menos intensivo do que os carros particulares. A água pública é menos intensiva do que a água engarrafada. etc.

Em segundo lugar, os serviços públicos melhoram o "poder de compra do bem-estar" das rendas. Por exemplo: se as pessoas nos Estados Unidos não tivessem que pagar preços exorbitantes por saúde e educação superior, precisariam de muito menos renda para viver bem. Em resumo, a contabilidade de renda de Milanovic não tem sentido porque não é a renda em si que importa; é o que as pessoas podem comprar com essa renda, em termos de bens de que precisam para viver bem. É o poder de compra da renda que conta.

E o poder de compra da renda do bem-estar não é estático; pode ser significativamente melhorado. Na verdade, esse é o objetivo do decrescimento. Pesquisas em economia ecológica deixam claro que desmercantilizar os bens públicos e fechar os bens comuns é uma boa maneira de aliviar a pressão do planeta, porque permite que as pessoas acessem os bens de que precisam para viver bem sem precisar de altas rendas para fazê-lo (o que também significa menos pressão para trabalhar e produzir coisas desnecessárias, o que, por sua vez, significa menos pressão para o consumo em outras partes do sistema). Em outras palavras, inverte o paradoxo de Lauderdale.

5. O decrescimento não busca reduzir todos os setores; apenas desnecessários e destrutivos
Milanovic imagina um cenário em que todos os setores da economia são reduzidos a um terço da sua capacidade atual: fábricas, aeroportos e escolas, em igual medida. Se isso acontecesse, seria realmente desastroso. Mas não é isso que o decrescimento exige; e, novamente, isso é algo que Milanovic saberia se lesse a literatura.

Na economia existente, operamos com base no pressuposto de que todos os setores devem crescer, todos os anos, para sempre, independentemente de realmente precisarmos ou não. Em outras palavras, há uma espécie de lógica totalitária no growthismo. Não é preciso muito para perceber que isto é um absurdo, tanto em termos de necessidades humanas quanto de ecologia. O decrescimento exige uma abordagem mais razoável: vamos conversar sobre quais setores ainda precisam crescer (como energia renovável, serviços públicos, trens, etc.), quais setores já são grandes o suficiente e quais setores são muito grandes e precisam decrescer significativamente (ou seja, combustíveis fósseis, SUVs, publicidade, obsolescência planejada, McMansões, armas, carne bovina industrial, jatos particulares etc. ) .

Num cenário real de decrescimento, o objetivo seria reduzir a produção ecologicamente destrutiva e socialmente menos necessária (o que alguns podem chamar de parte do valor de troca da economia), ao mesmo tempo em que protege e até melhora partes da economia organizadas em torno do bem-estar humano e da regeneração ecológica (a parte do valor de uso da economia). Por outras palavras, é o oposto do cenário de miserabilidade de Milanovic.

6. O crescimento verde não é uma coisa
Milanovic acredita que a tecnologia virá em nosso socorro e tornará o crescimento “verde”. Infelizmente, há um forte consenso contra essa suposição. Revimos as evidências empíricas relevantes aqui (“ É possível o crescimento verde? ”), examinando as emissões de CO2 e o uso de recursos.

Resumidamente, sobre o CO2, a questão não é se o PIB pode ser dissociado das emissões (sabemos que pode ser), a questão é se isso pode ser feito com rapidez suficiente para permanecer dentro de orçamentos de carbono seguros e, ao mesmo tempo, aumentar o PIB. E a resposta para isso é não. Mais crescimento implica em mais uso de energia, e mais uso de energia torna ainda mais difícil atender a essa demanda com energias renováveis. Os únicos cenários que conseguem reduzir as emissões com rapidez suficiente para nos manter abaixo de 1,5 ou 2°C envolvem uma redução no uso de recursos e energia (em outras palavras, decrescimento). Eu discuto isso com mais profundidade aqui . Esta revisão de 2020 examina 835 estudos empíricos e conclui que a dissociação por si só não é adequada para atingir as metas climáticas; requer o que os próprios autores chamam de cenários de “decrescimento”.Este artigo na Nature Sustainability chega a conclusões semelhantes.

Quanto aos recursos: o uso de recursos continua a aumentar junto com o PIB (apesar de melhorias significativas de eficiência e uma mudança significativa para serviços e conhecimento como parcela do PIB) e, de fato, todos os modelos existentes indicam que é improvável que ocorra dissociação absoluta, mesmo sob fortes condições políticas. Veja aqui e aqui para mais.

Ward et al (2016) descobrem que mesmo as projeções mais otimistas de melhorias de eficiência não produzem dissociação absoluta no médio e longo prazo. Os autores afirmam: “este resultado é uma refutação robusta à alegação de dissociação absoluta”; “a dissociação do crescimento do PIB do uso de recursos, seja relativo ou absoluto, é, na melhor das hipóteses, apenas temporária. O desacoplamento permanente (absoluto ou relativo) é impossível… porque os ganhos de eficiência são, em última instância, regidos por limites físicos.” Schandl et al (2016) encontram a mesma coisa. Mesmo em sua projeção de melhor cenário, o consumo global de materiais ainda cresce de forma constante. Os autores concluem: “Nossa pesquisa mostra que, embora algum desacoplamento relativo possa ser alcançado em alguns cenários, nenhum levaria a uma redução absoluta na pegada de energia ou materiais”.

Nossa revisão foi publicada em 2019 e a literatura sobre isso cresceu desde então: ou seja, aqui e aqui o último artigo revê 179 estudos sobre dissociação publicados desde 1990 e não encontra “nenhuma evidência de dissociação absoluta de recursos em toda a economia, nacional ou internacional, e nenhuma evidência do tipo de dissociação necessária para a sustentabilidade ecológica”. Aqui está uma meta-análise de 2020 de todos os dados disponíveis sobre PIB e uso de recursos, que chega à mesma conclusão.

Em suma, é irracional esperar, contra as evidências, que o nosso sistema económico atual proporcione os resultados de desenvolvimento que desejamos e, ao mesmo tempo, reverta o colapso ecológico. Precisamos ser mais espertos do que isso. O decrescimento fornece uma alternativa empiricamente informada: um caminho para reduzir o excesso de recursos e uso de energia e, ao mesmo tempo, garantir uma vida próspera para todos. Dados os riscos da crise que enfrentamos, devemos estar abertos a novos pensamentos.