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sábado, 17 de maio de 2025

WLT - Daughter - Medicine

Apesar de já ter 12+ anos em que foi produzido, confesso que venho aqui todos os dias porque é literalmente a coisa mais curativa do mundo.
Melhor som aqui

Pick it up, pick it all up
And start again
You've got a second chance
You could go home
Escape it all
It's just irrelevant

It's just medicine
It's just medicine

You could still be
What you want to
What you said you were
When I met you

You've got a warm heart
You've got a beautiful brain
But it's desintegrating
From all the medicine
From all the medicine
From all the medicine
Medicine

You could still be
What you want to be
What you said you were
When you met me

You could still be
What you want to
What you said you were
When I met you
When you met me
When I met you

Ooh

A poética da ausência: uma análise existencial, literária e visual de "Medicine"
A canção "Medicine", do projeto britânico Daughter (liderado por Elena Tonra), é uma obra profundamente melancólica e intimista que aborda a dor de testemunhar a autodestruição de alguém querido, geralmente interpretada sob a ótica da dependência química, do abuso de substâncias ou do definhamento causado por uma depressão severa. A letra descreve a perda gradual da identidade de uma pessoa que outrora possuía um "coração caloroso" e um "cérebro bonito", mas que agora vê a sua essência "destinada a degradar-se por causa de todos os medicamentos/remédios". Existe um apelo doloroso por uma "segunda hipótese", um desejo de que o indivíduo consiga escapar daquela realidade e regressar a ser quem era quando se conheceram. A música não foca na raiva, mas sim numa empatia desoladora e na impotência de quem observa o outro a tentar anestesiar a própria existência.

No que diz respeito ao vídeo específico desta performance acústica ao vivo para o canal Watch Listen Tell, gravado num caminho pedonal em Canonbury, o significado visual reside na crueza e no despojamento. Ao despir a canção das suas camadas eletrónicas e de estúdio originais, restando apenas a voz vulnerável de Elena, um violão e o som orgânico e quase fúnebre de um harmónio (órgão de fole manual), o vídeo amplifica a sensação de solidão e isolamento. O cenário natural, à beira de um canal ladeado por vegetação densa e sob uma paleta de cores frias e ligeiramente desbotadas, funciona como uma metáfora visual para a estagnação. A água parada reflete o estado de suspensão em que a pessoa cantada se encontra, enquanto o ato de tocar ao ar livre, expostos aos elementos, reforça a fragilidade emocional e a honestidade brutal da composição.

Do ponto de vista das influências literárias, a escrita de Tonra evoca fortemente o confessionismo poético de escritoras como Sylvia Plath, onde a dor mental, o peso da medicação e a fragmentação do eu são expostos sem filtros ou floreados românticos. Há também traços do Romantismo sombrio, onde a beleza e a decadência caminham lado a lado. Em termos filosóficos, a canção dialoga com o Existencialismo (especialmente na linha de Jean-Paul Sartre), ao explorar a angústia da perda de liberdade interna: o sujeito da canção abdicou da sua agência e da sua essência ("aquilo que disseste que eras") para se tornar um reflexo anestesiado determinado por um elemento externo (a "medicina"). Há ainda uma forte ligação ao conceito budista e filosófico do apego e da impermanência, ilustrando o sofrimento gerado pela tentativa desesperada de nos agarrarmos à versão passada de alguém que já se transformou ou se dissolveu diante dos nossos olhos.

domingo, 13 de novembro de 2022

Música do BioTerra: Neil Young with Crazy Horse - Love Earth

Neil Young! Fez ontem anos (nasceu a 12 de novembro de 1945). Lançou este tema muito bonito há cerca de um mês. Além do seu activismo bem conhecido entre nós, foi considerado o 17º melhor guitarrista do mundo, pela revista Rolling Stone.


Love Earth
And your love comes back to you
Love Earth
Such an easy thing to do
Love Earth
Till the water and the air is pure
From the birds in the sky
To the fishes deep in the sea

Love Earth

The place where all the children can live
(Love Earth)
Really nothing better to give
(Love Earth)
And your love comes back to you
So I’m calling out
So I’m calling out to you

Love Earth

The sky was blue and the air so clean
The water crystal clear
We lived by the sun and have it all
We were living in a dream

Love Earth

We can bring the seasons back
(Love Earth)
Can you imagine that
(Love Earth)
Your love comes back to you

So I’m calling out
So I’m calling out to you
Love Earth
The sky was blue and the ear so clean
The water crystal clear
We lived by the sun and have it all
We were living in a dream
Love Earth

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Documentário - O Cante é como eu


Documentário - O Cante é como eu
O Cante Alentejano em Ferreira do Alentejo


Video da própria UNESCO (legends in English)


Na região do Alentejo, este é um género musical composto por um grupo de amadores sem instrumentos, onde existem duas vozes a solo alternadas com o restante coro.

Antigamente, este estilo musical era feito de forma espontânea por um grupo de pessoas, na qual frequentemente se juntavam aquando os trabalhos do campo. A sua importância era marcada como estímulo, cantando ao ritmo do trabalho da ceifa ou como por exemplo na apanha da azeitona, através do manuseamento da vara. Com o passar dos anos, as formas de trabalhar foram-se alterando e isso fez com que o Cante Alentejano deixasse de ter a importância de outros dias. Passou assim a ser cantado em tabernas, sítio que na altura estava proibido às mulheres. Por esse motivo, o papel das mulheres desapareceu do Cante Alentejano, sendo que apenas depois do 25 de abril é que puderam voltar a constituir grupos femininos e a sua ingressão em grupos masculinos. Também antes do 25 de abril o cante não era bem visto, pois os seus temas eram e são usualmente tristes, dando a conhecer os sentimentos, as saudades, as recordações das suas raízes, amor, melancolia e ainda como cantos de intervenção, o que para o regime era uma afronta. Um grande impulso foi o Grândola Vila Morena de José Afonso que se eternizou na história de Portugal. Após 1974, os grupos de Cante Alentejano voltaram em força a dar voz às suas raízes, cantando sobre memórias passadas referentes às opressões do regime fascista.

Mas claro, também existem canções com humor e cheias de ironia que nos encantam e que as sabemos trautear de cor. Para mim a mais marcante é “Eu ouvi um passarinho”:

O passarinho cantou..." , música que o meu pai me cantava quando era pequenina e que me foi acompanhando na infância. Recordo ainda hoje com saudade esses momentos.

O Cante Alentejano é uma tradição que se ouve e que se entranha. É um estilo musical cheio de alma e carisma que nos remete a um intenso sentimento transportado por um povo através das suas puras vozes.

Todos nós sentimos que temos uma “costela” alentejana quando ouvimos os grupos a cantar de coração cheio. É parte da identidade portuguesa e, por este motivo, foi considerado no ano de 2014 Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, tal como o nosso Fado.

Ao longo dos anos começaram a aparecer mais grupos e projetos de ensinos do Cante em várias zonas do Alentejo e até em Lisboa. Atualmente existem grupos formados por cerca de 15 a 30 elementos, sendo grupos mistos, femininos ou masculinos que continuam a eternizar a nossa cultura, cantando as nossas raízes e passando-as de geração em geração.