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sábado, 1 de junho de 2024

Conto: Arlindo


Num mundo onde as estrelas sussurravam segredos e a lua brilhava com uma familiaridade perturbadora, vivia um homem chamado Arlindo. Seu rosto alongado exibia a expressão cansada de alguém que tinha visto muito e entendido muito pouco. Ele vagou por uma paisagem de árvores esqueléticas e pontiagudas e estruturas de pedra em ruínas, cada passo ecoando um som oco que reverberava pela noite.

As noites de Arlindo eram passadas sob o céu sinistro e rodopiante, onde as estrelas tremeluziam como os olhos de espíritos vigilantes. Os corpos celestes acima pareciam pulsar com vida própria, lançando um brilho fraco e assustador sobre o mundo abaixo. A lua, perpetuamente cheia, estava baixa e pesada, lançando longas sombras que se contorciam e giravam como gavinhas de sonhos esquecidos.

Uma noite, enquanto Arlindo caminhava por um caminho ladeado por pedras irregulares, ouviu uma voz. A princípio foi suave, um zumbido suave que parecia surgir da própria terra. Ele parou, olhando em volta, mas não viu nada. A voz ficou mais alta, mais distinta, formando palavras que envolviam sua mente como os tentáculos das sombras.

"Arlindo", sussurrou a voz, "você procura a verdade?"

Arlindo estremeceu, a sua respiração visível no ar frio da noite. "Quem é você?" ele perguntou, a sua voz pouco mais que um sussurro.

“Eu sou a voz das estrelas”, respondeu. "Eu sou o guardião dos segredos e o revelador das verdades. Você vagou por tanto tempo, em busca de um significado. Você deseja saber o que está além?"

O coração de Arlindo batia forte no peito. Ele passou a vida tentando compreender os mistérios do mundo, a estranha beleza do céu noturno e as sombras que pareciam ter vida própria. "Sim", disse ele, com a voz trémula de medo e esperança. "Eu quero saber."

A voz suspirou, um som que parecia carregar o peso do universo. "Então siga o caminho para a montanha. No pico você encontrará as respostas que procura."

O caminho para a montanha era traiçoeiro, serpenteando por florestas de árvores esqueléticas e planícies áridas. Quanto mais Arlindo se aproximava da montanha, mais o ar parecia vibrar com energia, as estrelas acima ficavam mais brilhantes e intensas. Ele sentiu como se estivesse sendo observado, guiado por forças invisíveis.

Quando finalmente atingiu o pico, Arlindo estava exausto. O vento uivava ao seu redor, trazendo consigo os sussurros das estrelas. No centro do cume havia uma única e antiga árvore, os seus galhos alcançando o céu como se estivesse em súplica.

"Toque na árvore", ordenou a voz.

Arlindo hesitou e depois estendeu a mão trémula. Assim que os seus dedos roçaram a casca áspera, o mundo ao seu redor mudou. As estrelas acima explodiram numa luz brilhante e o chão abaixo dele pareceu desaparecer. Ele se viu flutuando no vazio, cercado pelo cosmos rodopiante.

Naquele momento, Arlindo compreendeu. Ele viu as conexões entre todas as coisas, a delicada teia da existência que unia o universo. Ele viu o passado, o presente e a miríade de futuros possíveis, todos dispostos diante dele como uma tapeçaria. Os segredos das estrelas eram dele para serem vistos e, com eles, o fardo do conhecimento.

Quando ele voltou ao mundo, Arlindo mudou. A paisagem era a mesma, as árvores esqueléticas e as pedras em ruínas inalteradas, mas ele agora via a beleza na sua decadência, a poesia na sua existência. Os sussurros das estrelas já não o assombravam, mas o guiavam, companheiro constante na sua eterna busca pela compreensão.

E assim, Arlindo continuou a vagar, um guardião silencioso dos segredos do universo, sempre ouvindo os sussurros das estrelas e as histórias que elas tinham para contar.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Conto: Artur


Na quietude da noite, sob o cobertor sufocante do brilho neon da cidade, havia um homem chamado Artur. Artur morava num apartamento pequeno e bagunçado à beira do esquecimento, ou pelo menos era assim que ele se sentia. A sua vida era um labirinto de prazos, cada um deles um minotauro que o perseguia incansavelmente. O tique-taque dos relógios, o zumbido do computador, os bipes incessantes das notificações – o tempo era uma fera com muitas cabeças, e cada uma delas estava com fome.

Artur trabalhava como jornalista, mas não do tipo que escrevia sobre acontecimentos importantes ou pessoas influentes. A sua batida era o mundano, o despercebido, o esquecido. Ele narrou a vida daqueles que viviam nas fendas da sociedade, os invisíveis. Ele sempre sentiu afinidade por eles, talvez porque também se sentisse invisível na maior parte do tempo. As suas palavras eram seu único refúgio, uma forma de dar sentido ao caos que o cercava.

Mas ultimamente, Artur sentia um aperto no peito, uma sensação torturante de que o seu tempo estava a acabar. Não eram apenas os prazos – eles sempre existiram, como velhos amigos que demoravam muito para serem bem-vindos. Não, isso era algo mais profundo, mais insidioso. Ele se viu a olhar para o relógio, vendo os segundos escaparem como grãos de areia por entre os seus dedos. Ele sentiu como se estivesse na costa de um vasto oceano, a maré subindo inexoravelmente, ameaçando puxá-lo para baixo.

Uma noite, sentado à sua mesa, cercado pelos detritos de sua vida – chávenas de café vazias, papéis amassados e refeições pela metade –, ele recebeu um e-mail. A linha de assunto dizia: “Seu prazo final”. Era de uma mulher chamada Elara, um nome que parecia brilhar na tela. O e-mail era breve, quase enigmático: "Encontre-me na antiga torre do relógio à meia-noite. O seu tempo está a acabar."

O coração de Artur disparou. Ele nunca tinha ouvido falar de Elara, mas havia algo na mensagem que parecia urgente, inegável. A antiga torre do relógio estava abandonada há anos, uma relíquia de uma época passada. Ficava nos arredores da cidade, uma sentinela silenciosa vigiando a vida daqueles que passavam sob a sua sombra.

À medida que se aproximava a meia-noite, Artur viu-se parado na base da torre do relógio. O ar estava denso de neblina, e a torre assomava acima dele como um monólito, com os ponteiros congelados a um minuto da meia-noite. Ele empurrou a pesada porta de madeira e entrou.

O interior estava escuro, exceto por uma única vela tremeluzindo sobre uma mesa no centro da sala. Sentada à mesa estava uma mulher, o rosto parcialmente obscurecido pelas sombras. Ela ergueu os olhos quando ele entrou e ele viu que os olhos dela eram de um azul profundo e penetrante, como as profundezas do oceano.

"Você deve ser Artur", disse ela, com a voz suave e melódica. "Eu estive à espera por você."

"Quem é você?" Artur perguntou, sua voz tremendo ligeiramente.

"Eu sou Elara", ela respondeu. "Estou aqui para ajudá-lo a encontrar o tempo que você perdeu."

Artur franziu a testa. "O que você quer dizer?"

Elara apontou para o relógio na parede. "O tempo é uma construção, Artur. Ele pode ser dobrado, esticado ou até mesmo pausado. Mas para você, tornou-se uma prisão. O seu tempo está a acabar porque se esqueceu de como viver no presente."

Artur balançou a cabeça. "Eu não entendo."

Elara levantou-se e caminhou até ele. "Feche os olhos", ela sussurrou.

Ele obedeceu e, ao fazê-lo, sentiu um calor inundá-lo, uma sensação de ser levantado, sem peso. Imagens passaram diante de seus olhos – memórias da sua infância, momentos de alegria, tristeza, amor e perda. Ele se via quando menino, correndo pelos campos de trigo dourado, rindo com os amigos, brincando na chuva. Ele viu seu primeiro amor, o toque da mão dela, o calor do seu sorriso. Ele viu os seus pais, com os rostos marcados pela idade, mas cheios de orgulho e amor.

E então ele se viu curvado sobre a mesa, o peso do mundo sobre os ombros, o relógio sempre correndo, sempre em contagem regressiva.

Quando ele abriu os olhos, ele estava de volta à torre do relógio. Elara havia desaparecido, mas a vela ainda tremeluzia, lançando um brilho suave. O relógio na parede começou a se mover novamente, os seus ponteiros avançando continuamente.

Artur respirou fundo e saiu. A neblina havia-se dissipado e as primeiras luzes do amanhecer surgiam no horizonte. Ele sentiu uma sensação de clareza, de propósito. Ele sabia agora que o tempo não era seu inimigo, mas uma dádiva – uma dádiva a ser valorizada, a ser vivida plena e completamente.

Ao voltar para o seu apartamento, resolveu escrever a sua história, não apenas dos esquecidos, mas dos momentos encontrados, dos momentos que faziam a vida valer a pena. Afinal, não se tratava de ficar sem tempo, mas de fazer valer cada momento.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Poema - Dakini

Foto: Yevgeniy Repiashenko

Dakini
"Entre o sussurro dos passos e o eco da música,
dança a bailarina na sua própria sinfonia,
entrelaçando sonhos com cada movimento,
escrevendo poesia no ar com a sua graça divina.

Os seus pés pintam versos sobre o chão,
enquanto o seu corpo se torna um poema em movimento,
expressando emoções que as palavras não podem capturar,
transformando o espaço num universo de encanto.

A cada giro e cada salto, conta histórias sem falar,
com a elegância de um verso e a paixão de uma estrofe,
a bailarina tece uma tela de emoções e melodias,
onde a arte e a poesia se fundem numa só harmonia.

Em cada arabesco, em cada voo, em cada queda,
revela-se a essência da vida na sua dança,
e em cada movimento, em cada gesto, em cada olhar,
descobre-se a poesia que habita na alma da bailarina."

João Soares, 11.05.2024

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Conto: Leonardo


O ar da noite estava carregado com o cheiro da terra encharcada pela chuva e com o zumbido distante da cidade. Sob o brilho suave de um poste de luz, um homem estava sozinho, a sua silhueta era uma figura escura e imóvel contra o mundo inquieto. Seu nome era Leonardo, um homem preso às rotinas e à reconfortante previsibilidade de uma vida meticulosamente planeada.

Leonardo passou a última década no mesmo apartamento, com os mesmos móveis dispostos da mesma maneira, cercado pelo mesmo papel de parede desbotado. Todas as manhãs, ele acordava exatamente às 6h30, preparava uma chávena de café preto e lia o jornal de frente para trás. Ele tinha um emprego que não amava nem odiava, voltando para casa todas as noites para jantar com frango grelhado e legumes cozidos no vapor.

Mas esta noite foi diferente. A rotina foi quebrada, os pedaços espalhados como folhas ao vento de outono. Mais cedo naquele dia, Leonardo recebeu um e-mail inesperado de seu senhorio: o prédio havia sido vendido a um incorporador que planeava demoli-lo para dar lugar a condomínios de luxo. Leonardo tinha trinta dias para desocupar seu apartamento, o lugar que ele chamava de lar há tanto tempo.

O choque o deixou entorpecido, à beira de um futuro desconhecido. A estabilidade a que se agarrou durante tantos anos estava a dissolver-se, deixando-o à deriva num mar de incerteza.

Enquanto Leonardo estava ali, ele sentiu o mundo girando ao seu redor, cada vez mais rápido, puxando-o para seu turbilhão vertiginoso. Ele se lembrou das palavras de seu pai, ditas há muitos anos, numa noite muito parecida com esta. "A vida é uma mudança, Leonardo. Apegar-se ao passado é como segurar uma folha durante um furacão. Você tem que se desapegar."

As palavras sempre pareceram tão distantes, abstratas. Agora, eles soavam com uma clareza dolorosa. Leonardo sempre se orgulhou de sua estabilidade e da sua resistência ao caos da mudança. Mas agora, confrontado com a realidade inegável da sua situação, ele sentiu uma sensação desconhecida: medo.

No entanto, por trás do medo, havia algo mais. Um lampejo de excitação, um sussurro de possibilidade. E se, pensou ele, isso não fosse o fim, mas um começo? E se, no meio às ruínas de sua antiga vida, ele pudesse construir algo novo, algo melhor?

Ele respirou fundo, sentindo o ar fresco da noite encher os seus pulmões. Lentamente, ele começou a andar, cada passo afastando-o da vida que conhecia e aproximando-o do futuro desconhecido que o aguardava. À medida que se movia, sentiu o peso das suas antigas rotinas se dissipando, sendo substituído por uma leveza que não sentia há anos.

A cidade se estendia diante dele, um labirinto de possibilidades. Ele passou por lugares antigos, por ruas desconhecidas e entrou no coração da noite vibrante da cidade. Os sons de risadas, música e sirenes distantes enchiam o ar, uma sinfonia de vida em toda a sua beleza caótica.

Pela primeira vez em anos, Leonardo sentiu-se verdadeiramente vivo. Ele percebeu que aceitar a mudança não significava render-se ao caos, mas abraçar a possibilidade de crescimento. Tratava-se de encontrar força na vulnerabilidade e coragem na incerteza.

Quando a primeira luz do amanhecer começou a surgir, Leonardo viu-se parado na periferia da cidade, olhando para o horizonte. O céu estava pintado em tons de rosa e dourado, uma promessa de um novo dia. Ele sorriu, sentindo uma sensação de paz tomar conta dele.

A mudança, ele percebeu, não era um fim, mas uma transformação, uma jornada rumo ao desconhecido. E pela primeira vez na vida ele estava pronto para abraçá-lo.

A noite deu lugar a um novo dia e, com ele, surgiu um novo Leonardo – alguém que não estava mais preso ao passado, mas livre para explorar as possibilidades ilimitadas do futuro. E ao dar o primeiro passo neste novo mundo, sentiu um profundo sentimento de gratidão pela jornada que tinha pela frente.

segunda-feira, 20 de março de 2023

D. Matilde, a doce


Conheci a D. Matilde, nossa caseira (assim se chamavam antigamente os inquilinos) tinha ela 54 anos. Não sabia o ano de nascimento, porque os pais não a baptizaram, mas gostava de pensar que nasceu em 1918, no fim da Guerra. Não me falava muito dos seus pais. Sabia que o pai andou na Guerra e foi filha única. Uma infância triste, pois brincava sozinha todo o ano, à excepção de Agosto, em que a casa de infância se enchia de primos.

Jurou que quando casasse teria muitos filhos. E assim foi. Tinha 15 anos, cabelos loiros, morena, sorridente e olhos azuis, atraía muitos pretendentes. Rejeitou um militar, um polícia e até um estudante de filhos ricos. Conheceu o marido, pedreiro e fadista, de origem alfacinha, numa festa de baile. Dançava a valsa como ninguém. Foi amor assolapado. Tiveram 7 filhos, todos varões. Enviuvou cedo. Tinha apenas 35 anos. A doença dos mineiros, a silicose. Dos sete filhos, 4 zarparam para França.

Prometiam regressar no Natal, para a ver. Os anos passaram, nem telefonemas, nem cartas. Não sabia nada deles. Os outros 3 ficaram, mas só o Fernando a visitava. D. Matilde, agora era uma viúva, toda de escuro, que vivia numa casa-quarto muito escura. Sem electricidade nem água canalizada. Ia tomar banho a uma vizinha no andar de cima, mais ou menos uma vez por semana. Para entrar na casa dela, os meus olhos tinham que se adaptar à escuridão e só depois lá via a sua figura franzina. Cintinha de vespa (quem diria que nasceram 7 filhos?) e a cama, a candeia e a panela de ferro.

Fazia ensopados e sopas como ninguém. Trabalhou na agricultura. Agora, são as vizinhas que a socorrem. Está cansada. 45 anos de trabalho agrícola e de feirante esgotaram-na. Mas sempre que me via, tinha que provar os seus cozinhados. Fazia questão. E que saborosos eles eram. A sopa de favas, de ervilhas, de tomate, de abóbora e couves e feijão eram as minhas favoritas. Quando ela fazia ensopados de borrego ou de coelho, guardava para mim. Depois da Escola, passava por lá, interesseiro, mas ela gostava. Não se importava nada. Aquecia e dava-me o manjar dos deuses.

O Fernando era alto. Não saía à mãe em altura mas ostentava cabelos loiros. Meio-careca. Tinha problemas de álcool. A aldeia ficou em choque, certo dia. A má nova: Fernando, numa noite de muita chuva tinha morrido afogado numa poça num bosquete ali perto. Choramos todos.
D. Matilde nunca mais foi a mesma. Foi morrendo aos poucos. Deitava-se de acordo com as estações do ano. Às 17.00, durante o Inverno. Às 20.30 ou mais tarde um pouquinho, no Verão. No dia seguinte era ouvi-la a falar com os galos, logo às 6-7 horas da manhã. No dia 15 de Agosto de 1975, deitou-se às 18.30. Nunca mais acordou.
Pintura: Salvadore Mangione

domingo, 9 de outubro de 2022

O meu primeiro campismo (sem ser dos escuteiros)


Éramos três, eu, o Pedro e o Bernardino. Pedro era calmo, muito inteligente, um aluno que tirava grandes notas. Já estava encaminhado para ser médico. A minha turma de 10º ano era de elite de Gaia. Não estivesse lá o filho do director. Também ele tirava muito boas notas e seguiu medicina. Com o Filipe, era o seu nome, partilhávamos o gosto pela pintura e carros. Éramos 21 jovens, dávamo-nos todos bem.Seriam meus companheiros de estrada entre o 10 e 11º Ano. O 12º na altura era só à noite. Foi aí que nos separamos e tive uma turma diferente.

O Bernardino era o mais desajeitado de todos. Mais distraído nas aulas e só concluiu o 12º ano tinha 20 anos. Isto porque desistiu do curso científico-natural e queria economia. Foi complicado para os pais, mas foi o que fez melhor. Ainda hoje trabalha como contabilista na mesma empresa (assistência técnica e venda de caldeiras a gás) há mais de 30 anos.

Então nós os três queríamos muito buscar fósseis em São Pedro da Cova. Durante os intervalos e à noite telefonávamo-nos para saber quais os autocarros, o fim de semana e o que levar para jantar. Então ficou decidido que o Pedro levava frango assado e a tenda, eu levava o martelo, batatas fritas e rissóis que a minha mãe fazia muito bem e o Bernardino levaria arroz.

Chegou o dia. De Sol, era Junho. Divertidos, relaxados, olhávamos o Douro do nosso lado direito. Às vezes o autocarro escondia-o numa contra-curva. Chegamos ao local seria 7 horas. Ainda andamos para dentro do pinhal até que encontrarmos uma clareira perto dos montes que o Pedro nos garantiu que seria a região com trilobites. Sentamo-nos em cima de uma cama de fetos e já estávamos com fome. Bem, quando o Pedro tira da mochila o apetitoso frango assado, o Bernardino mudou de cores. De pálido passou a vermelho-rosa corado de vergonha quando o eu tirei a embalagem com os rissóis e batas fritas. Viráramo-nos para ele e perguntamos: “O arroz?” e ele apresentou-nos um saco de quilo de arroz, comprado na mercearia naquela manhã. Bem, já imaginam como se conclui a história. Regressamos para casa. 🤐

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Pedro, “vem-te”


Estamos em 1976. Na aldeia onde vivi, Lamaçães (Pedroso- Gaia), na rotunda, existe um cruzeiro medieval que anunciava este povoado como roteiro dos padres beneditinos até ao Mosteiro de Pedroso.
Em frente a ele e ao cimo da minha rua estava uma casa por alugar, há uns anitos. De repente, ou seja, de madrugada, chegou uma novidade. Ninguém ouviu nada, mas certamente que foi durante a madrugada que os novos habitantes fizeram a mudança com uma Citroën  2cv com móveis e bens que eram da D. Mariana e do pequenito Pedro.

De manhã, sábado, ainda me lembro, surgiu da casa a D. Mariana. A aldeia em peso ficou chocada. Era uma jovem, teria 26 anos e destacou-se logo por ter cabelo curto (?), fumar (?), conduzir (?), mãe solteira (?) e vestir calças (?). Outra revolucionária, comunista e puta!

A minha irmã Cindinha foi a pioneira nessas terras do Demo a usar calças. Pois, em 1965, teve logo a aldeia em peso condenando o seu atrevimento. Chegou a ser agredida e por onde passava insultavam-na. A aldeia também apontava o dedo à minha mãe, costureira, questionando a ousadia de coser essas calças. Era a mocidade, a rebeldia, o querer ser diferente, a idade de afirmação social e de manifestação terrena que está cá na Terra por muitos anos, era gente, mais uma pessoa com ideias na cabeça, pouco se importando perante uma sociedade retrógrada, caduca e bafienta. A minha mãe costurou mais de vinte calças num mês. Depois era hábito e passou a ser novamente a modista da aldeia, alinhavando saias e calças ao mesmo tempo.

A D. Mariana estava a marimbar-se para esta gente. Tinha cursado o 9º ano industrial, culta e lia muito ao fim de semana. Mãe adolescente, nasceu o Pedro. Era feminista. Não esteve com paciência para se subjugar às manias e ordens machistas do seu companheiro. Trataram do baptizado do menino, no Porto e cada um seguiu a sua vida.

Adorava capinar. A casa, que estava cheia de mato e silvas e ervas e jarros e rosas velhas, com um diospireiro ao fundo e uma linda cameleira perto do pátio da casa, ao fim de três meses estava transformada e exibia um terreno lavrado, roseiras novas, um pessegueiro jovem e um limoeiro. A Mariana adorava sumos de limão e de pêssego.

Matriculou o filho na Escola Básica dos Carvalhos e inteirou-se sobre qual era a minha turma. Disseram-lhe não havia vaga. Teve de o matricular noutra. E agora? Horários diferentes, ela a trabalhar, a aldeia em estado de sítio. “Pensa rápido, Mariana, pensa rápido. Fogo, tu consegues. Dás sempre a volta por cima”. Telefonou à mãe. Talvez a minha mãe, professora de várias costureiras, com a criançada a brincar no grande pátio da casa, não se importaria de ficar com o seu filho. E assim foi. A aldeia foi mastigando a intrusa. A aldeia viu que afinal até trabalhava no campo. Foi abrindo gradualmente as portas e deixou-se de impropérios. Estava arrependida. O Pedro brincava comigo, por vezes, pois tínhamos horários distintos.

Mas a aldeia esperava pelo belo momento em que a Mariana, regressando a casa do trabalho, chamava a bons pulmões: “Pedro, vem-te!”. Estalavam sorrisinhos marotos e carinhosos entre as mães da aldeia.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Maria Ceguinha


Era uma mulher robusta, uma pele invejável, carinhosa e muito minha amiga.
O marido dela trabalhava na recolha do lixo e tinha sempre um livro ou dois para me dar. Aos domingos de manhã, depois da missa e da catequese, passava pela casa deles. Não tinham televisão. Era um T0, em termos de linguagem actual. Cozinhava muito bem. 
Por vezes convidavam para almoçar com eles. Mas tinha outros planos. Queria chegar a minha casa para não perder nenhum episódio do Verão Azul. Lá vinha muito contente pela rua abaixo com mais um livro ou dos "Sete" ou dos "Cinco" de Enid Blyton. Li-os todos graças ao casal. 
Os domingos de tarde, por vezes, ocupava-os a ver o Júlio Isidro. Outras vezes tinha reuniões de escuteiros nos Carvalhos, onde ia com muito gosto. Certos domingos, ia desafiar o Pedro para irmos aos gambuzinos. Era um riacho que passava numa pradaria ali perto onde ele vivia. Quando chegava a casa punha-os num jarro grande mas morriam todos. Grandes e pequenos. Nem eu, nem minha mãe sabiam o que comiam. Deixei de trazer gambuzinos. Foi a decisão mais correcta. 
Certa vez capturei uma salamandra-lusitânica e um tritão-ibérico. Das duas vezes, a minha mãe passou-se. Não gostava mesmo nada destes animais viscosos. Lá ia eu retorná-los à Natureza, com pena minha porque queria estudá-los.
A D. Maria não era totalmente ceguinha. Dizia que via os vultos e algumas cores. Era amigo de a ajudar. Quando podia, estava ela a fazer compras, ajudava-a a carregar os sacos e dava-lhe o meu braço para ela não cair e estar segura até chegar a casa.

terça-feira, 22 de março de 2022

D. Jaquina, atira o soco

D. Jaquina, atira o soco

Era uma mulher truncada, muito alta (1.85 m ou mais) e algo disforme. Os braços e pernas muito musculadas e um peito estreito e pequenas mamas. Era mais alta que o marido e muito mais nova. Faziam uma diferença de 20 anos. Nazarena, vestia com rigor e usava sempre as sete saias. O marido, pescador, natural de Gaia, apaixonou-se pela D. Jaquina e vieram viver para a minha aldeia, Lamaçães (Gaia). Os pratos principais eram quase sempre peixe, que o Zé da Afurada, seu marido, trazia e vendia também para nós. Ambos eram ateus convictos. Não havia em sua casa retratos de Nossa Senhora de Fátima, Jesus Cristo nem estatuetas religiosas. As testemunhas de Jeová eram corridas `porta fora. Jaquina vivia e ficava feliz e menos ansiosa com limpezas. Ela adorava o que fazia. Ganhava o dinheiro como empregada de limpeza de algumas famílias ricas. Não podia ver uma nódoa em lugar algum. Um pouco de poeira e já a víamos atarefada a limpar o pó. Lavava a roupa num tanque comunitário e em Gaia transportava em cima da cabeça quilos de roupa dos ricos. Não se importava. Queria era limpar e lavar. Cortinados, lençóis, cobertores, toalhas, roupa… lavava com precisão e com toda a vontade.

D. Jaquina tinha um defeito: linguaruda, adorava cosquice e enfrentava como um toiro qualquer mulher que se lhe opunha. Peixeira, como se diz. Soltava merda e foda-se como o ar que respirava. Chamavam-lhe a atenção que a PIDE podia ouvi-la e ter chatices. “Eles que venham que eu lhes atiro um soco e espeto-o na tola deles”. E aí ficou o cognome D. Jaquina atira o soco. Eu e os rapazes da aldeia quando a víamos chegar, escondíamo-nos numa esquina e gritávamos “Jaquina atira o soco” e ríamo-nos despregados. Ela ficava confusa e ralhava connosco. Depois passou.

Isto tudo a propósito da religião. Até aos meus doze anos o meu mundo era católico. Estava preparado para receber o Crisma. Era estimado pelo padre da aldeia e pelos meus catequistas. Ia aos encontros católicos e era escuteiro. Mas já tinha as minhas dúvidas. Porque faleceu tão cedo o meu pai? Tinha apenas 70 anos. Porque fui tão doente na infância: 6 cirurgias, 6 hospitalizações, 6 doses de morfina, 12 doses de penicilina, vida quase entre escola, ambulâncias, hospitais e casa. Via a minha irmã mais velha a sofrer do coração e isso entristecia-me. Quando mudei de casa fui viver para o centro de Gaia e fui ao cinema pela primeira vez. O filme Apocalypse Now foi como um soco que me atiraram à cabeça. Tinha 13 anos. A partir daí questionei a religião e muitos anos fui estudando as várias religiões. Condeno os fundamentalismos, sou anti-fatimista, condeno os exércitos religiosos e o terrorismo baseado na religião. Sou ecofeminista, pelo empoderamento dos povos indígenas. Acredito profundamente num mundo sem armas, no pacifismo. Não aceito um plano inteligente de Deus na criação do Mundo. Sou pela despenalização do aborto desde muito cedo e sou a favor da eutanásia. Mas gosto muito dos textos de Leonardo Boff, aprecio imenso os cantos gregoriano e ortodoxo e bizantino. Gosto muito de S.Francisco de Assis, Santo António e Santo Agostinho. Falo com eles como se fossem irmãos. Vejo agora a religião mais do ponto de vista literário, filosófico (aprecio imenso Espinoza) e artístico. Completamente ateu não sou. Considero-me um cristão crítico.

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Artista médico revela como era Jesus Cristo usando ciência forense