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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mudar regimes tem sido uma aposta arriscada para os EUA


A posição dos EUA que levou à Guerra do Iraque ameaça agora criar problemas sérios na Venezuela.

Os Estados Unidos são o país que mais intervenções externas liderou para impor mudanças de regime. Calcula-se que tenham derrubado 35 governos estrangeiros nos últimos 120 anos. Este recorde assenta numa combinação perigosa de forte poder militar e um grande número de actores considerados inimigos — além de uma excessiva autoconfiança que se tem revelado sistematicamente errada.

Ninguém se tem mostrado mais tentado a recorrer às forças armadas e à economia mais fortes do mundo para vencer discussões, conquistar territórios, derrotar adversários e intimidar aliados do que Donald Trump. Neste momento, Washington tem em curso uma campanha militar e dos serviços secretos cada vez mais intensa contra o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, depois de já ter atacado o Irão e o Iémen e de ter ameaçado, de forma mais vaga, a Nigéria, o México, o Panamá e mesmo a Dinamarca e o Canadá.

O derrube de líderes de outros países é uma tática suficientemente frequente para ter direito a uma sigla específica entre os académicos: FIRC, ou foreign-imposed regime change (mudança de regime imposta pelo estrangeiro).

De acordo com um levantamento realizado por Alexander Downes, professor associado e cientista político da Universidade George Washington e autor do livro Catastrophic Success: Why Foreign-Imposed Regime Change Goes Wrong (Sucesso Catastrófico: Porque Falham as Mudanças de Regime Impostas pelo Estrangeiro), entre 1816 e 2011, os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de um terço das 120 destituições forçadas de líderes por uma intervenção externa em todo o mundo.

As mudanças de regime e outras intervenções violentas raramente correm de acordo com os planos. Pela sua parte, algumas das ameaças agora lançadas por Trump — como entrar «aos tiros» na Nigéria, onde há grupos extremistas armados e fortes conflitos étnicos e sectários — têm tudo para correr muito mal. Os fracassos do passado deveriam servir para recordar os americanos de que a arrogância pode ter consequências catastróficas, seja para os indivíduos, seja para os Estados.

Veja-se o caso da mudança de regime estrangeiro n.º 34, imposta pelos EUA ao Iraque, cujo resultado eu pude testemunhar numa série de patrulhas militares que acompanhei como repórter em Bagdad, em maio de 2006.

Três anos depois de os Estados Unidos terem derrubado Saddam Hussein com base em alegações falsas sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, não havia sinais da vaga de democratização que a equipa do presidente George W. Bush vaticinara para o Médio Oriente. Pelo contrário, quando as acompanhei, as patrulhas da 10.ª Divisão de Montanha tinham-se convertido num serviço de remoção de cadáveres. Todas as noites, recolhiam e transportavam os cadáveres de iraquianos que outros iraquianos deixavam abandonados nas ruas e nas calçadas de Bagdad.

Os mortos, na sua maioria jovens, alguns com as mãos estendidas no ar em choque ou amarradas atrás das costas pelos seus assassinos, foram vítimas de uma guerra civil sectária que a administração Bush não antecipou. Derrubar o governo sunita de Saddam e as suas forças de segurança foi uma tarefa fácil para as Forças Armadas dos EUA. Não se pode dizer o mesmo relativamente à luta pelo poder entre as milícias xiitas iraquianas, apoiadas pelo Irão, e os grupos revoltosos sunitas, nascidos do vazio de segurança que se seguiu à intervenção norte-americana. O desenrolar dos acontecimentos acabou por deixar o Irão mais forte, além de ter criado as condições para o surgimento do Estado Islâmico enquanto ameaça global. Há tropas americanas na região até hoje.

Muito tempo depois de as forças americanas terem expulsado Saddam, os cidadãos iraquianos ainda sentiam na pele as consequências dessa intervenção. Todos os dias, enfrentavam sequestros, torturas e assassínios, carros armadilhados, bombas suicidas, entre outros ataques.

Certa noite, em Bagdad, as tropas americanas foram atingidas por uma bomba de fabrico artesanal. A explosão deixou alguns dos jovens soldados a coxear ou atordoados. Já um motorista iraquiano que circulava ali perto foi atingido na cabeça e morreu.

Naquela noite, Will Shields, o segundo-tenente de 23 anos que liderava a patrulha, dirigira-se a um posto da polícia de Bagdad — uma das forças de segurança controladas pelos xiitas que os Estados Unidos tinham criado para impor a ordem no Iraque. Entre exortações e negociações, Shields incitou os polícias xiitas assustados a saírem dos seus gabinetes para, sob a proteção americana, ajudarem a patrulha dos EUA a recolher os corpos daquela noite durante o tempo que fosse necessário.

«Vocês têm noção de que é o vosso trabalho?», perguntou o frustrado tenente norte-americano à polícia iraquiana naquela noite. «Como é que podem esperar que os americanos façam alguma coisa, se vocês não fazem nada?»

A dimensão dos assassínios com motivações sectárias impediu que fossem atribuídos nomes e histórias de vida aos mortos iraquianos, reduzindo-os a uma sucessão de ferimentos, registados pelos soldados enquanto atiravam os corpos para dentro dos veículos de caixa aberta.

O caso da Venezuela representa o regresso a uma longa tradição de interferência dos EUA na América Latina. Segundo a investigação de Downes, cerca de 20 das 35 mudanças de regime apoiadas pelos EUA ocorreram na América Central, na América do Sul ou nas Caraíbas.

Em alguns desses países, os governantes foram sucessivamente afastados e substituídos pelos Estados Unidos, numa cadência digna de quem sacode uma máquina de venda automática para que caia o chocolate certo. Só em 1954, por exemplo, Washington D.C. destituiu três líderes guatemaltecos.

A nível mundial, um terço de todas as quedas forçadas de regime resultaram, nos dez anos seguintes, em guerras civis no país intervencionado, concluiu Downes.

Um caminho frequente rumo ao desastre é o que se verifica quando os regimes entram em colapso total, deixando as forças de segurança armadas, insatisfeitas e desnorteadas. Outro rumo desastroso frequente é quando as potências estrangeiras colocam no poder um novo líder, o qual é obrigado a uma tremenda ginástica para ir ao encontro de prioridades diversas do seu povo e da potência estrangeira que o colocou no poder.

«O grande problema das mudanças forçadas de regime é a tendência para não se pensar no que vem depois, não se saber qual é o plano para o futuro», afirmou Downes. «E é incrível a frequência com que isso acontece», acrescentou. «Os países continuam a interferir e, das duas, uma, ou não pensam no que vai acontecer a seguir ou acreditam... que as coisas vão ser diferentes naquele caso.»

Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro levando-o a abandonar o poder, seja para forçar a sua saída de cena.

De acordo com as estatísticas, as mudanças forçadas de regime têm mais hipóteses de conseguir levar a uma democracia consolidada se ocorrerem em países com prévia experiência democrática, que sejam economicamente prósperos e tenham uma população relativamente homogénea, como o Japão ou a Alemanha no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, concluíram Downes e os seus colegas de investigação.

Quando esses critérios não se verificam, surgem situações como o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ou a ascensão da República Islâmica depois de os Estados Unidos e o Reino Unido terem ajudado o xá do Irão, afastando o seu adversário político. Após duas décadas de assassínios e rebeliões, o Iraque alcançou um certo grau de estabilidade, mas o custo de todo o processo assustou os restantes países da região, tornando-os ainda mais relutantes em relação a eventuais experiências democráticas. Alguns especialistas veem com alarme qualquer tentativa de impor uma mudança de regime na Venezuela, um país produtor de petróleo onde a má governação do autocrata socialista Maduro e do seu antecessor Hugo Chávez, agravada pelas sanções internacionais, destruíram a economia e criaram milhões de refugiados.

A administração Trump acusou Maduro de ligação ao tráfico de droga, mas os Estados Unidos exageram o papel da Venezuela no contrabando de droga para os Estados Unidos. Para reforçar a presença militar, Washington enviou o seu maior porta-aviões para a região. Dezenas de pessoas foram mortas em ataques norte-americanos contra lanchas que, segundo os Estados Unidos, mas sem que tenham sido apresentadas provas, transportavam droga.

A administração Trump tem sido vaga quanto às intenções dos EUA, nomeadamente se pretendem usar a força para expulsar Maduro (que manipulou as eleições para se manter no poder), ou se, com as suas ações militares — como os ataques aéreos —, visam encorajar os venezuelanos a tratarem eles mesmos do assunto.

A estratégia mais pacífica que caracterizou o primeiro mandato de Trump — com imposição de sanções financeiras para aumentar a pressão sobre Maduro e a proposta de um acordo de partilha de poder para facilitar a sua saída — não serviu, ao contrário do que se esperava, para capacitar a oposição venezuelana. Neste novo mandato, Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro, levando-o a abandonar o poder, seja mesmo para o forçar a sair de cena.

Os opositores de Maduro consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, que para os EUA e outros países, é o vencedor das presidenciais de 2024

«Já vimos este filme antes», declarou Jacqueline Hazelton, especialista no tema do impacto político do poder militar e anteriormente professora do Naval War College, hoje editora da revista International Security, segundo a qual este tipo de intervenções costuma desencadear o choque violento entre fações.

A Venezuela tem uma oposição democrática forte e motivada, liderada por Maria Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2025. Porém, Maduro dispôs de vários anos para reforçar e diversificar o seu domínio sobre as instituições do país. Corina Machado não tem capacidade para quebrar esse domínio e reprimir adversários, disse ainda Hazelton.

Como argumento em prol de uma intervenção dos EUA na Venezuela, os seus defensores invocaram a 31.ª mudança forçada de regime liderada pelos EUA, ocorrida no Panamá em 1990, em que o governo militar foi substituído por um governo democrático.

O Panamá, no entanto, é um país muito mais pequeno do que a Venezuela, quer em território, quer em população, e estava aí baseado um contingente militar dos EUA, o que não acontece na Venezuela, observou Downes.

Os defensores da intervenção dos EUA na Venezuela têm-se esforçado por responder a quaisquer dúvidas sobre esta opção. Ao ponto de um escritor da oposição venezuelana, defensor da intervenção dos EUA, ter rejeitado que seja apropriado usar a expressão «mudança de regime», no caso do seu país.

Maduro chefia uma rede criminosa de tráfico de drogas, por isso não se trata de derrubar um governo legítimo, disse-me Walter Molina, que fugiu da Venezuela de Maduro e vive agora em Buenos Aires. Molina e outros opositores ao regime consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, o qual, segundo os Estados Unidos e outros países, venceu as eleições presidenciais de 2024, mas que foi posto de lado por Maduro, e que aguarda as condições para regressar.

Qualquer intervenção dos EUA servirá «para respeitar a vontade do povo venezuelano», declarou Molina.

Até pode ser verdade — talvez a conjugação entre o desagrado interno face à má governação de Maduro e uma intervenção forte do exterior sejam suficientes para derrubar um autocrata e instaurar a democracia. A incerteza, contudo, é suficiente para justificar cautela. O mundo, aliás, já assistiu mais vezes a este tipo de abordagem, como quando Dick Cheney, então vice-presidente dos EUA, declarou que as forças armadas norte-americanas seriam «recebidas como forças de libertação» no Iraque.

Sobre a imposição de mudanças de regime em países terceiros, Downes comentou: «É tentador simplesmente avançar, dizendo: “Bem, aconteça o que acontecer, não pode ser pior do que está”. Só que isso por vezes não é verdade.»

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Kumi Naidoo on U.S. Skipping COP30: Why Rich Nations Must Pay a Climate Debt, Gaza, Sudan & More




As Democracy Now! broadcasts from the COP30 U.N. climate summit, we speak with Kumi Naidoo, the longtime South African human rights and environmental justice activist who is president of the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative. He discusses U.S. absence from climate talks, Gaza, and wealthy countries refusing to take accountability for the climate crisis. “We’re not asking the rich nations for a charity here. We are asking them to pay their climate debt.”

AMY GOODMAN: This is Democracy Now!, democracynow.org. We’re broadcasting from the U.N. climate summit, COP30, from the Brazilian city of Belém, the gateway to the Amazon. I’m Amy Goodman.

We’re joined now by Kumi Naidoo, the longtime South African human rights and environmental justice activist, former head of Greenpeace International and Amnesty International, now president of the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, a global effort to accelerate a transition to renewable energy.

It’s great to have you back with us, Kumi. It seems that at these U.N. climate summits, that’s kind of the only time we get to talk right now or see each other in person. Can you talk about the significance of this moment when it comes to the climate catastrophe in the world?

KUMI NAIDOO: So, the reality is, the science told us in Paris that we need to be below 1.5 degrees. We are already pushing there. We are seeing that there is a big disconnect between the words that political and business leaders say and what actions happen on the ground.

So, for the last week, let’s just have a quick recap what’s happened. So, one, we see that there’s absolute corporate capture here again. There was 1,600 fossil fuel lobbyists. And even though it’s a struggle to get the F-word said here — by the “F-word,” we mean fossil fuels. It took 28 years before 86% of the primary cause of climate change would be even mentioned in a COP outcome document. That’s like Alcoholics Anonymous holding 28 years of conferences before they can get a backbone to mention alcohol, which is the problem. And so, that’s one challenge.

But the big debate is right now around finance. We’re really stuck on finance. So, there’s two blocs that have emerged. So, China and the G77 are talking about a seriously funded mechanism called the Belém Action Plan. And the EU has put an alternative proposal on the table, which is about — basically, developing countries are saying this will be another talk shop with no money. So, like, if you take — the money is really a big, big issue here, because, like, you’ll remember a couple of years ago we finally got a Loss and Damage Fund set up, right? And the governments have just committed $250 million to this fund, when what is needed is $400 billion a year, right? So, there’s such a big task

AMY GOODMAN: And talk about why you think — I mean, many people in the U.S., certainly Trump himself, the president, would say: Why should they be putting money into these countries?

KUMI NAIDOO: So, basically, first and foremost, it’s in self-interest, right? That in the end, if developing nation — if the rich nations of the world don’t support poor nations to transition and survive, the end result is that there will be growing emissions from the Global South, which makes it worse, and more forest fires in California and more intense hurricanes and tornadoes in Florida and elsewhere.

But the historical issue is the facts are clear that this old process that started 30 years ago said that we should have common and differentiated responsibilities, that all nations need to work together because this challenge is so big. But it also differentiated. It said countries like the U.S. and Europe, who decimated the forests historically, that built their economies on dirty energy, and the historical emissions in the atmosphere are coming from those emissions. It’s not to say that developing countries are not rising, as well, right now, but the historical accumulated responsibility still exists. And so, basically, we’re not asking the rich nations for a charity here. We are asking them to pay their climate debt. It’s about, you know, compensation.

AMY GOODMAN: Well, I wanted to ask you about the historically number one greenhouse gas emitter, and that’s the United States. On Monday, yesterday, I caught up with the prince of the Netherlands, Jaime de Bourbon de Parme. He’s here at COP30 as the Dutch climate envoy.

AMY GOODMAN: I wanted to ask your thoughts on President Trump not sending a high-level delegation here, and what that means.

JAIME DE BOURBON DE PARME: So, it’s truly up to any government to decide who it wants to send in what conference, so I’m quite open to say, well, it’s his choice not to send someone here. I think we need all parties to be constructively thinking about the future. So I would like to see a constructive U.S. present at the COPs, as we’ve seen in the past, as well. And for the — for now, what it is is people are looking for new equilibrium to see who’s taking what role in the absence of the U.S. at this COP. So, we’re doing that. And we’re looking for new partnerships, working with new governments in different ways, because of the absence of the U.S.

AMY GOODMAN: What do you say to President Trump, who calls climate change a hoax, who says it’s a con?

JAIME DE BOURBON DE PARME: So, I would say, I always use the analogy of a doctor. If I’m sick, and I take temperature, and I’ve got facts and figures that I’m sick, I can ignore it or not. So, it’s up to him to listen to the doctor or not. But it’s wise to listen to the facts. And it’s truly — the science tells the story. I’m not telling it. It’s not my opinion. It’s just listening to the experts that tell us that climate is a fact.

AMY GOODMAN: Finally, can you just tell us what you announced today?

JAIME DE BOURBON DE PARME: So, we’re here with the NDC Partnership, a wonderful organization that is — that is helping countries write the climate plans and how to implement them. And so, we’ve added to what we’re really doing for NDC Partnership, another 10 million euros to work on water-food nexus to really focus on water management on these countries, because climate eventually affects water.


AMY GOODMAN: Thank you very much.

JAIME DE BOURBON DE PARME: Thank you, as well.

AMY GOODMAN: So, that was the prince of the Netherlands, Jaime de Bourbon de Parme, who is at COP30 as the Dutch climate envoy, speaking along with other climate ministers. I asked him about the Trump administration not sending a high-level delegation. Does that make it easier to get work done around limiting fossil fuels, or is there a huge problem with that? What do you think? And also President Trump saying that climate change is a hoax.

KUMI NAIDOO: I think the position that the U.S. administration is currently taking is not in the interests of the United States and its people, it’s not in the interests of the world, and it’s not in the interests of global cooperation. However, having said that, let’s be blunt about it: U.S. participation at these COPs have often been negative. They have held back progress. They have brought down ambition levels and so on.

So, the good news, though, is that it’s not that U.S. people are not here and are not represented. There are lots of governors that are here. There are lots of cities’ mayors that are here. There’s civil society here. So, you know, Gavin Newsom, for example, had a very prominent role here in the first couple of days.

And we would urge the U.S. people to convince the current Republican-led administration to recognize that we need them at the table. But if they’re not here, we’re going to move ahead, as we’re doing with the fossil fuel treaty. So, Colombia has called for a standalone diplomatic conference in April next year, after Easter. We will move to negotiate this treaty outside of the U.N. system, as the landmine treaty was done, and then we’ll bring it into the U.N. system for ratification. So, Global South countries are going to move ahead without the dominant polluters. And people should not assume that the old world order, where what the U.S. and a few rich countries do can hold everybody back — ideally, we want the U.S. at the table, but they cannot hold us hostage forever. We’re going to try and move ahead without them.

AMY GOODMAN: Kumi Naidoo, speaking here at COP30 last week, you said, “Today, the leaders of the fossil fuel industry occupy the same moral equivalent position that in a different era controlled the so-called slave industry.” Explain what you mean.

KUMI NAIDOO: Well, the leaders who were trading in human lives in slavery had the same political access to power as the fossil fuel industry has. They had the same ability to control the narrative by what they could spend in the media of that time, as we have the same domination by the fossil fuel industry to confuse people about the urgency of the situation. And basically, ethically, trading in human lives then and now was never morally acceptable. Banking on a energy system that is killing people, that threatens not the planet — let’s be clear: The planet will survive. This is threatening humanity’s capability to survive on this planet. And people must be clear that this is being done for profit and greed and that they are being called out now.

And thankfully, at this COP, the one progress — and, Amy, I think I met you at the Copenhagen COP for the first time in 2009. At that time, you’ll remember, you could hardly hear the word “fossil fuels.” Yeah, certainly on the streets, it’s all about “The root cause is fossil fuels. We need to turn the tap and stop the flow of fossil fuels.” So, no longer can they escape what the root cause is. And I think that we will come out here, because President Lula, in the first day, said we need a fossil fuel phaseout plan coming out of this. The appetite is not there. We’re still pushing. But whether we get it here or not, we certainly will push in April to do so in Colombia.

AMY GOODMAN: Kumi, before we go, I want to ask you about two other issues. I mean, you are from South Africa. That’s the country that brought the genocide case against Israel at the International Court of Justice. You have always lived at the intersection of human rights, also climate, and you were former head of Amnesty and Greenpeace. If you can comment on what’s happening now? I mean, yesterday, the U.N. Security Council approved a U.S.-backed plan for a so-called international stabilization force in Gaza. We still have the human rights situation where far less than half Israel’s letting of humanitarian aid come into Gaza, and people are still being killed and attacked, either in Gaza or the occupied West Bank.

KUMI NAIDOO: My experience of South Africa teaches me that when those in power in context of conflicts speak about stabilization, what they are talking about often is stabilizing injustice, stabilizing the status quo. And here, what we are concerned — obviously, we want the peace to return as best as it was, recognizing that the Palestinian people have not lived with peace for decades and decades. But having said that, of course we support a ceasefire and so on. But what we are concerned about is that the way this resolution potentially can be implemented, it will stabilize the occupation, stabilize militarization, stabilize the undermining of international law, which Israel, more than any nation in the world, has consistently done.

So, the world — the eyes of the world are watching this. We don’t think that people should read this resolution as fundamentally a good thing, because the devil is going to be in the detail about how it is implemented. And right now, since the so-called ceasefire, we don’t take comfort about the fact that lives are being lost, both in Gaza and also on the West Bank, as we talk.

AMY GOODMAN: And as we talk about hunger, I want to move to Sudan. In this last minute we have, if you can talk about the humanitarian catastrophe in Sudan, in your continent of Africa?

KUMI NAIDOO: So, I think it’s important to recognize that 12 million people, firstly, have been displaced. Twelve million. Most countries in the world don’t have 12 million population. Secondly, what has recently happened in Darfur? The numbers are not clear, but people are talking about bodies everywhere, absolute mass murder

AMY GOODMAN: They’re talking about the RSF ravaging El Fasher.

KUMI NAIDOO: Ravaging through, yeah. We’re talking about — people are talking about tens of thousands of people. I don’t want to comment to the figure, because there’s a news blackout. But there is every reason to believe that that’s happening.

And let me just say, the global media has been pathetically complicit in their silence by just ignoring this. And that’s why many people in Africa are now saying this is not just a problem with mainstream media. This is also a problem with “whitestream” media, in the sense that Black lives don’t really seem to happen. If this was happening in North America or Europe, I mean, the whole world would be seeing saturation coverage.

We need RSF and the previous army to comply to a negotiation process to stop this immediately. And the U.N. and the international community must raise the visibility and the energy in addressing this, because history will judge this as bad as we judged Rwanda at the end of the day.

AMY GOODMAN: I want to thank you, Kumi Naidoo, for being with us, South African human rights/environmental justice activist, president of the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, former head of Greenpeace International and Amnesty International.

Happy birthday to Iván Hincapié! Thank you to Charina Nadura, Denis Moynihan, Nermeen Shaikh, María Tarcena and Sam Alcoff, who are here on the ground with us in Belém, Brazil, at the U.N. COP30. I’m Amy Goodman.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Netanyahu admite que Israel "mobilizou" milícias rivais do Hamas em Gaza, incluindo o ISIS: "O que há de errado nisso?"



O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reconheceu esta noite que seu governo armou clãs armados na Faixa de Gaza que estão em desacordo com o Hamas , após uma figura da oposição e ex-ministro acusá-lo de fazer isso. "Mobilizamos clãs em Gaza que são rivais do Hamas. O que há de errado nisso?", disse Netanyahu num vídeo publicado em sua conta no X. "É simplesmente bom. Salva vidas de soldados."

A declaração do presidente ocorre horas depois de o líder da oposição e ex-ministro Avigdor Lieberman dizer numa entrevista na rádio pública israelita Kan que o governo está fornecendo armas para outras milícias em Gaza.

No seu vídeo, Netanyahu defendeu a estratégia como uma medida apoiada por autoridades de segurança e acusou Lieberman de comprometer a operação ao torná-la pública. "Revelar essa informação só beneficia o Hamas", disse ele.

De acordo com algumas ONGs e meios de comunicação, esses grupos estariam roubando ajuda humanitária e alimentos, causando ainda mais caos no enclave.

Lieberman, que foi ministro da Defesa de 2016 a 2018, quando Netanyahu também era primeiro-ministro, afirmou que Israel está fornecendo armas a "criminosos" que se identificam com o Estado Islâmico (EI, ISIS ou Daesh). Segundo ele, essa política não foi aprovada pelo Gabinete, mas foi executada com o conhecimento do chefe do Shin Bet, a agência de inteligência doméstica.


A Suprema Corte israelita decidiu que a demissão do chefe da Inteligência Nacional, Ronen Bar, que liderou a investigação do Qatargate, foi "ilegal".

Na terça-feira, um novo grupo armado de Gaza, autodenominado Forças Populares, pediu aos palestinianos na Faixa de Gaza que se mudassem para o leste de Rafah, uma área proibida para o exército israelita, para receber comida, remédios e abrigo, de acordo com sua conta no Facebook.

O líder do grupo, Yasser Abu Shabab, foi acusado pelo Hamas, ONGs e pela media internacional de saquear camiões que transportavam ajuda humanitária, enquanto as forças israelitas supostamente assistiam sem intervir.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Dia Mundial da Biodiversidade

24-hour armed guards protect the last remaining Northern White Rhinos

Uma recente fotografia viral de um guarda armado 24 horas sentado ao lado de um dos últimos rinocerontes brancos do norte na Reserva Ol Pejeta, no Quénia, trouxe esta situação crítica à tona.
Esta imagem emocionante destaca as medidas desesperadas tomadas para proteger estas majestosas criaturas da extinção.

Em Março de 2018, Sudan faleceu. Houve tentativas de reprodução assistida (fertilização in vitro) para tentar preservar a espécie, mas sem sucesso.

A população total estimada de rinocerontes brancos, incluindo rinocerontes brancos do sul e do norte, é de cerca de 17.464. Os rinocerontes brancos do sul são a subespécie de rinoceronte mais abundante. No entanto, o rinoceronte-branco-do-norte está criticamente ameaçado de extinção, restando apenas dois indivíduos.

Apesar da caça ilegal contínua, os esforços para salvar as populações de rinocerontes e elefantes da região continuam. O rinoceronte-branco-do-sul serve como um farol de esperança no campo da conservação da vida selvagem. Como subespécie distinta, testemunhou uma reviravolta notável, graças aos esforços conjuntos de governos e conservacionistas dedicados no Sul de África. Estavam quase extintos com uma população de menos de 100 indivíduos. No entanto, as medidas de conservação proativas e sustentadas conseguiram aumentar os seus números para mais de 16.000. Esta incrível recuperação é uma prova do que pode ser alcançado através de esforços estratégicos e da colaboração internacional.

Conclusão
A fotografia emocionante do guarda armado e do rinoceronte-branco-do-norte serve como um poderoso lembrete dos desafios e responsabilidades que enfrentamos na conservação da vida selvagem. Salienta a necessidade de vigilância contínua, financiamento e cooperação global para proteger os tesouros insubstituíveis do nosso mundo natural. À medida que assistimos à potencial extinção do rinoceronte-branco-do-norte, precisamos de garantir que o seu destino não se repete com outras espécies ameaçadas.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Naomi Klein on Trump, Musk, Far Right & "End Times Fascism"


Uma aliança entre a extrema-direita e os oligarcas de Silicon Valley deu origem a uma forma de "fascismo do fim dos tempos", afirma a jornalista Naomi Klein, que detalha num ensaio recente escrito em coautoria com Astra Taylor como muitas elites ricas se estão a preparar para o fim do mundo, mesmo contribuindo para a crescente desigualdade, instabilidade política e crise climática. Klein diz que, enquanto os multimilionários sonham em escapar para enclaves isolados ou mesmo para o espaço, o presidente Donald Trump e outros líderes de direita estão a transformar os seus países em estados-fortaleza militarizados para manter os imigrantes do estrangeiro afastados e aumentar o controlo autoritário internamente.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Genocídio do Ruanda - 30 anos depois


O genocídio no Ruanda, ocorrido em 1994, foi uma das maiores tragédias humanitárias do século XX. em apenas 100 dias, estima-se que cerca de 800 mil a 1 milhão de pessoas foram brutalmente assassinadas. a esmagadora maioria das vítimas pertencia à minoria étnica tutsi, além de moderados da maioria hutu que se opunham à violência.

O contexto e as raízes do conflito
  1. A divisão entre hutus (historicamente agricultores, a maioria da população) e tutsis (historicamente pastores, a elite minoritária) foi aprofundada durante o período colonial.
  2. Colonização alemã e belga: o território começou por ser uma colónia alemã, mas passou para as mãos da Bélgica após a primeira guerra mundial. foram os belgas que transformaram a divisão social numa separação racial rígida, introduzindo bilhetes de identidade com indicação étnica na década de 1930 e favorecendo a minoria tutsi.
  3. A inversão de poder (1959-1962): uma revolta hutu derrubou a monarquia tutsi e levou o país à independência. Milhares de tutsis fugiram para países vizinhos (como o Uganda) e formaram a frente patriótica ruandesa (RPF), um grupo rebelde armado.
  4. O estopim (6 de abril de 1994): o avião do presidente ruandês, Juvénal Habyarimana (um hutu), foi abatido em Kigali. Extremistas hutus culparam imediatamente os rebeldes tutsis e iniciaram a matança organizada na manhã seguinte.
Como o genocídio aconteceu
Diferente de outros genocídios industrializados da história, o horror no Ruanda foi perpetrado de forma extremamente direta e descentralizada, mobilizando civis comuns.
  1. Armas: a maior parte dos assassinatos foi cometida com catanas (facões), paus e enxadas.
  2. Milícias interahamwe: o exército oficial foi apoiado por milícias civis extremistas chamadas interahamwe ("os que atacam juntos").
  3. O papel da comunicação social: a estação de rádio estatal RTLM desempenhou um papel crucial, transmitindo discursos de ódio, identificando os tutsis como "baratas" e revelando esconderijos, nomes e matrículas de carros das pessoas a abater.
A inação internacional
Um dos aspetos mais marcantes e dolorosos do conflito foi a passividade do resto do mundo. a força de paz da ONU no terreno tinha ordens estritas para não intervir militarmente, servindo apenas como observadora.

Após a morte de 10 soldados belgas da ONU que protegiam a primeira-ministra ruandesa, a Bélgica retirou as suas tropas e o conselho de segurança da ONU reduziu o contingente militar no país para uma presença simbólica de menos de 300 homens, mesmo ciente do massacre em curso. Países como os EUA e a França evitaram ativamente classificar a situação como "genocídio" para não assumirem a obrigação legal de intervir.

O fim do conflito e consequências
O genocídio terminou em meados de julho de 1994, quando a frente patriótica ruandesa (RPF), liderada por Paul Kagame (que se tornou presidente do país), conseguiu avançar militarmente a partir do Uganda e capturar a capital, Kigali.
  1. Êxodo em massa: temendo represálias do novo governo dominado por tutsis, cerca de 2 milhões de hutus fugiram para o vizinho Zaire (atual República Democrática do Congo), gerando uma crise humanitária monumental.
  2. Justiça e reconciliação: o tribunal penal internacional para o Ruanda julgou os principais mentores do massacre. contudo, para lidar com a quantidade massiva de suspeitos locais, o governo recorreu aos tribunais comunitários tradicionais chamados gacaca, focados na confissão, no perdão e na reintegração comunitária.

Hoje, o Ruanda é um país amplamente pacificado, com uma economia de crescimento rápido e leis rigorosas que proíbem qualquer discurso baseado em divisões étnicas. o termo "hutu", "twa" ou "tutsi" foi abolido dos documentos oficiais; todos são agora, simplesmente, ruandeses.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Transformando Tradições em Novos Ciclos


Hoje lembrei-me de África. Um super-continente riquíssimo de recursos naturais, mas politicamente cheio de regimes ditatoriais, milícias, refugiados, exploração e escravidão. Incontáveis os maus momentos, mesmo desumanos.
Quem vai a África fica marcado. Há uma sensação em nós que foi ali a diáspora do Homo Sapiens.
Os céus de dia são de um azul cobalto. Os céus de noite amplos e luminosos. Milhões de estrelas e galáxias.
O calor e o sorriso das gentes de várias tribos. Imensas lições de bondade e família quando regressamos.
O exotismo da fauna e flora também incluídos.
Os dias parecem demorar mais que 24 horas.
Porém as mudanças por uma democracia e autodeterminação dessas gentes são muito lentas e bem merecidas. Muito culpa nossa, o Norte Global e a China.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Investigação: a floresta de sangue dos mercenários de Putin

Uma empresa ligada ao Wagner Group começou a explorar uma floresta tropical na República Centro-Africana, em troca de apoio militar dado ao governo no combate aos rebeldes. Na Europa, incluindo em Portugal, as autoridades não têm como impedir a importação desta madeira exótica. Uma investigação do Expresso com o consórcio EIC e com a equipa All Eyes on Wagner do coletivo OpenFacto.
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Os diamantes costumavam ser os melhores amigos dos mercenários internacionais em África. São muito pequenos e fáceis de esconder. Podem passar despercebidos em voos de regresso à Europa. Em Angola era assim que russos e israelitas eram pagos pela ajuda dada ao governo de José Eduardo dos Santos para eliminar as forças rebeldes de Jonas Savimbi. Mas os tempos mudaram. Para o Wagner Group, um exército privado de Vladimir Putin que tem sido uma das organizações paramilitares mais prolíficas dos últimos anos no Médio Oriente e no continente africano, a flexibilidade, o pragmatismo e uma grande dose de despreocupação abriram caminho a outras formas de pagamento.

Para ler este artigo na íntegra clique aqui

Read about how the Central African Republic gave away its forest to the private military group Wagner. Because of the inefficiency of the timber controls in Europe, Wagner conflict timber cannot be stopped from reaching European clients, despite existing sanctions.

Timber for Mercenaries was conducted in collaboration with All Eyes on Wagner, a project by the French NGO OpenFacto. Read also about the methodology of doing such an investigation here.

domingo, 3 de julho de 2022

Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar.


As guerras sempre invocam motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e se por via das dúvidas, se não bastassem tantas mentiras , existem os grandes meios de comunicação de massa dispostos a inventar inimigos imaginários para justificar a conversão do mundo em um grande hospício e um enorme matadouro.
Em Rei Lear, Shakespeare escreveu que neste mundo os loucos guiam os cegos e quatro séculos depois, os donos do mundo são loucos apaixonados pela morte que fizeram do mundo um lugar onde a cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças e cada minuto são gastos 3 milhões de dólares, três milhões de dólares por minuto na indústria militar, que é uma fábrica de morte.
Armas requerem guerras e guerras requerem armas e os cinco países que administram as Nações Unidas, aqueles que têm direito de veto nas Nações Unidas também são os cinco principais produtores de armas.
Alguém se pergunta quanto tempo? Por quanto tempo a paz mundial estará nas mãos daqueles que se ocupam da guerra?
Por quanto tempo continuaremos acreditando que nascemos para o extermínio mútuo e que o extermínio mútuo é nosso destino?
Até quando?"

(Marcha pela paz e não-violência - outubro de 2009)

Ver site: Costs of War



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Fundamentalismo Budista




1. O Budismo Nacionalista
O fundamentalismo budista moderno raramente foca em "interpretação literal de escrituras" (como ocorre em vertentes de outras fés). Em vez disso, ele foca na proteção da nação e da cultura. A ideia central é que o país é o "guardião" do budismo puro e que outras religiões ou minorias étnicas representam uma ameaça a essa pureza.

Myanmar (Birmânia): O movimento 969 e a associação Ma Ba Tha, liderados por monges como Ashin Wirathu, têm sido figuras centrais na retórica contra a minoria muçulmana Rohingya. O argumento usado é que o budismo está sob "cerco" e que medidas violentas seriam formas de "autodefesa" da fé.

Sri Lanka: Grupos como o Bodu Bala Sena (BBS) — ou Força de Poder Budista — promovem uma agenda nacionalista cingalesa. Eles frequentemente entram em conflito com minorias muçulmanas e cristãs, alegando que o Sri Lanka deve ser um Estado exclusivamente budista.

Tailândia: Embora menos centralizado, há facções de monges que pedem que o budismo seja declarado a religião oficial do Estado na constituição e que defendem uma postura agressiva contra insurgências no sul do país.

2. A "Doutrina" da Defesa da Fé
Diferente do fundamentalismo cristão ou islâmico, que pode focar em leis morais (como criação versus evolução ou a Sharia), o fundamentalismo budista costuma criar uma distorção do conceito de Karma e Dharma:

Violência Justificada: Alguns líderes extremistas argumentam que matar para proteger o Budismo não gera o mesmo karma negativo que um assassinato comum.

Identidade vs. Espiritualidade: O foco muda do desapego do "eu" (uma base do budismo) para o apego à "identidade nacional".

Por que isso acontece?
O budismo, como qualquer instituição humana, está sujeito a pressões políticas e sociológicas. O fundamentalismo surge geralmente em contextos de:
  1. Insegurança económica.
  2. Legado colonial (sentimento de que a cultura nativa foi suprimida).
  3. Uso político da religião por governos que buscam uma base de apoio sólida e emocional.
Nota: É importante distinguir a prática espiritual de milhões de budistas — que seguem os preceitos de não-violência — desses movimentos políticos radicais que utilizam a simbologia da religião para fins de exclusão.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Steve Earle - Copperhead Road



[Verse 1]
Well, my name's John Lee Pettimore
Same as my daddy and his daddy before
You hardly ever saw Grandaddy down here
He only come to town about twice a year
He'd buy a hundred pounds of yeast and some copper line
Everybody knew that he made moonshine
Now, the revenue man wanted Grandaddy bad
Headed up the holler with everything he had
Before my time, but I've been told
He never come back from Copperhead Road

[Verse 2]
Now, Daddy ran the whiskey in a big-block Dodge
Bought it at an auction at the Mason's Lodge
"Johnson County Sheriff" painted on the side
He just shot a coat of primer, then he looked inside
Well, him and my uncle tore that engine down
I still remember that rumblin' sound
And then the Sheriff came around in the middle of the night
Heard Mama cryin', knew somethin' wasn't right
He was headed down to Knoxville with the weekly load
You could smell the whiskey burnin' down Copperhead Road

[Bridge]
Hey
Hey, hey

[Verse 3]
I volunteered for the Army on my birthday
They draft the white trash first 'round here, anyway
I done two tours of duty in Vietnam
I came home with a brand-new plan
I take the seed from Colombia and Mexico
I just plant it up a holler down Copperhead Road
And now the DEA's got a chopper in the air
I wake up screamin' like I'm back over there
I learned a thing or two from Charlie, don't you know?
You better stay away from Copperhead Road

[Outro]
Whoa
Copperhead Road
Copperhead Road
Ha, Copperhead Road

Significado
"Copperhead Road" (1988), uma das composições mais célebres de Steve Earle, cruza a sonoridade do country-rock com uma narrativa linear que expõe as fraturas sociais e económicas da América rural profunda. A letra acompanha três gerações da família Pettimore na região dos Apalaches, no Tennessee, ilustrando a transição do negócio ilegal da destilação de uísque (moonshine) praticado pelo avô e pelo pai, para a plantação de marijuana conduzida pelo neto, John Lee Pettimore III, após o seu regresso da Guerra do Vietname. O protagonista utiliza o próprio treino militar de guerrilha que o governo lhe forneceu na selva asiática para defender o seu território e a sua colheita contra as autoridades federais.

Do ponto de vista da análise ideológica, este caso e a postura política que a canção reflete são comummente designados como populismo de esquerda com fortes traços de libertarismo de esquerda (ou left-libertarianism). Embora Steve Earle seja um reconhecido ativista do espetro socialista e progressista norte-americano, a canção adota a perspetiva da cultura redneck e hillbilly, historicamente marcada por uma profunda desconfiança em relação ao Estado centralizador.

Politicamente, o cenário enquadra-se nas seguintes correntes e conceitos:
  1. Antiestatismo popular: a música retrata o governo federal não como uma força de proteção, mas como um agente opressor e hipócrita (seja através do "fisco" que persegue os pequenos produtores de álcool, seja através da agência de combate às drogas, a DEA, que surge com helicópteros no final da narrativa).
  2. Crítica ao imperialismo e ao abandono social: Existe uma denúncia explícita do cinismo do complexo militar-industrial. O Estado recruta jovens das classes desfavorecidas para combater numa guerra imperialista (Vietname) e, ao devolvê-los à pátria traumatizados e sem perspetivas económicas, empurra-os de volta para a marginalidade.
  3. Soberania individual e de subsistência: o caso ilustra o choque entre as leis federais de propriedade e de fiscalidade e o direito consuetudinário das comunidades isoladas de gerirem os seus próprios recursos e subsistência à margem do controlo governamental.
Em resumo, a canção funciona como um manifesto político-musical que utiliza uma base cultural tradicionalmente associada à direita conservadora americana para tecer uma crítica anticapitalista, antibelicista e anti-autoritária, tipificando o conceito de resistência popular periférica contra a hegemonia do Estado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Serenidade



A floresta tem tudo: o buriti é de mil utilidades, as ervas medicinais, o sal extraído do aguapé, as canoas feitas de tronco, as flechas, o urucum, o pequi e todos os frutos. [fonte: Memórias de Lula Araújo]
"Velho burocrata, meu camarada aqui presente, nunca houve quem te ajudasse a evadir-te, e a culpa não é tua. Edificaste a tua paz, à força de tapares com cimento, como as térmitas, todas as saídas para a luz. Rebolaste-te na tua segurança burguesa, nas tuas rotinas, nos ritos asfixiantes da tua vida provinciana; ergueste essa humilde muralha contra os ventos, contra as marés, contra as estrelas. Não queres a inquietação dos grandes problemas, e muito te esforçaste por esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante, não te pões questões sem resposta: tu és um pequeno burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando era tempo ainda. Agora, a argila de que és formado secou, e endureceu, e ninguém seria capaz, de futuro, de acordar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrónomo, que talvez te habitasse de início." ~ Antoine Saint-Exupéry, Terra dos Homens

Outras leituras
Antoine Saint-Exupéry (wiki PT)
Antoine Saint-Exupéry (wiki FR)