Mostrar mensagens com a etiqueta Bioengenharia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bioengenharia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de maio de 2026

Pintassilgo (Carduelis carduelis) macho


"Eu não compreendo como alguém consegue olhar para uma ave e não ver um milagre da engenharia evolutiva. Cada pena, cada osso oco, cada batimento cardíaco acelerado é um poema escrito pela seleção natural para vencer a gravidade."
Richard Dawkins, biólogo evolutivo e autor do livro Flights of Fancy: Defying Gravity by Design and Evolution (2021)

Ao longo da sua vasta obra, o célebre biólogo evolutivo britânico defende que a seleção natural atua como um engenheiro cego, esculpindo cada detalhe anatómico ao longo de milhões de anos através de um processo implacável de tentativa e erro. No seu livro Flights of Fancy, Dawkins explora precisamente a forma como a vida animal desafia a gravidade, traçando paralelos impressionantes entre a engenharia mecânica humana e os mecanismos biológicos. Ele explica que a evolução não possui um plano abstrato numa folha de desenho; em vez disso, ela otimiza os organismos sobreviventes ao eliminar cruelmente os protótipos menos eficientes. É esta triagem contínua que justifica a perfeição aerodinâmica das penas de queratina, a resistência estrutural dos ossos pneumáticos reforçados por trabéculas e a eficácia incomparável do sistema respiratório de fluxo unidirecional das aves. Quando observamos o voo de um falcão ou a leveza de um passarinho, estamos a testemunhar uma obra-prima de design sem designer, onde cada batimento cardíaco acelerado é o resultado de uma pressão adaptativa extrema. Dawkins recorda-nos frequentemente de que a complexidade do mundo natural dispensa o sobrenatural, pois a ciência e a teoria da evolução oferecem uma explicação muito mais poética, elegante e mensurável para a beleza que nos rodeia.

Aqui estão alguns dos "milagres" de engenharia que fazem das aves o que são:
  1. Penas: não servem apenas para voar. A estrutura molecular das penas, composta por queratina, cria um isolamento térmico perfeito e uma aerodinâmica inigualável. As penas de voo combinam leveza extrema com uma resistência mecânica notável.
  2. Esqueleto Pneumático: para vencer a gravidade, o peso precisa de ser minimizado. Muitas aves possuem ossos ocos que são internamente reforçados por pequenas hastes (chamadas trabéculas). Isto garante a rigidez necessária para suportar a força dos músculos peitorais sem adicionar peso extra.
  3. Sistema Respiratório: o voo exige uma quantidade massiva de energia e oxigénio. Ao contrário dos mamíferos, as aves possuem um sistema de sacos aéreos que permite um fluxo unidirecional de ar. Isto significa que o oxigénio flui continuamente pelos pulmões, tanto na inspiração como na expiração, garantindo máxima eficiência a altitudes elevadas.
  4. Metabolismo e Coração: para alimentar o voo, o metabolismo é extremamente acelerado. Os corações das aves são proporcionalmente maiores e mais eficientes que os nossos, permitindo bombear o sangue a uma velocidade e pressão elevadas.

Richard Dawkins on reverse engineering evolution’s optimal beauty
Análise do livro Flights of Fancy

segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A probóscide de um mosquito pode revolucionar a bioimpressão 3D


Li recentemente na revista de divulgação científica New Scientist, uma notícia que mostra de forma extraordinária como a biodiversidade continua a surpreender-nos e a alimentar soluções tecnológicas em áreas que vão da medicina à engenharia de precisão. Não resisto a partilhar a descoberta, pelo modo como revela o papel notável da ciência e os horizontes sempre inesperados da investigação. Uma equipa de investigadores da Universidade McGill, no Canadá, descobriu que a tromba (probóscide) de um mosquito pode funcionar como um bico ultrafino para impressoras 3D, abrindo caminho para fabricar estruturas delicadas usadas na criação de tecidos e órgãos artificiais.

A equipa enfrentava um problema recorrente na bioengenharia: os bicos convencionais disponíveis eram demasiado grossos para produzir detalhes microscópicos. Em busca de alternativas naturais, analisaram diversas estruturas animais até concluírem que a probóscide das fêmeas de Aedes aegypti - o mesmo mosquito que transmite dengue, zika e chikungunya - apresentava as características ideais. O apêndice, evoluído para perfurar pele humana com precisão, permitiu imprimir filamentos com apenas 20 micrómetros de espessura, cerca de um quarto da largura de um cabelo.

A técnica, batizada 3D necroprinting, distingue-se também pela simplicidade e pelo baixo custo. Um técnico treinado consegue produzir cerca de seis bicos por hora, cada um por menos de um dólar, e estes podem ser acoplados a impressoras 3D já existentes. Quando congelados, mantêm-se utilizáveis durante um ano, embora aproximadamente 30% apresentem falhas após duas semanas de uso intensivo.

Nos testes realizados, os investigadores utilizaram estes bicos naturais para imprimir estruturas com uma bio-tinta usada na construção de andaimes de tecidos biológicos, incluindo moldes de vasos sanguíneos - um passo essencial na engenharia de tecidos. Especialistas externos sublinham que este avanço ilustra algo mais vasto: a engenharia continua, muitas vezes, a tentar acompanhar a sofisticação das soluções produzidas pela evolução ao longo de milhões de anos.

Para além da curiosidade tecnológica, este trabalho reforça uma ideia fundamental para a economia e para o futuro da inovação: a biodiversidade é uma reserva viva de engenhosidade, repleta de soluções que não conseguimos prever. Cada espécie - mesmo as mais discretas ou incómodas - encerra potencial para inspirar avanços em saúde, materiais, robótica e muitas outras áreas. A probóscide de um mosquito transformada em ferramenta de impressão é apenas um exemplo entre muitos outros.

Nota final: esta descoberta sublinha também a importância de continuar a estudar a biodiversidade de forma sistemática e profunda. Só conhecemos uma fração da variedade de formas, estruturas e estratégias que a vida desenvolveu ao longo da evolução. Investir em investigação biológica não é apenas preservar conhecimento: é ampliar o leque de soluções possíveis para desafios futuros, muitos dos quais ainda nem conseguimos antecipar. Cada organismo estudado é uma nova oportunidade de aprendizagem, inovação e, potencialmente, transformação tecnológica.

Saber mais:

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Adeus às embalagens de plástico? Jovens portugueses criam cápsula de algas com gel de banho que se dissolve na água



Todos os anos, 120 mil milhões de embalagens de plástico são descartadas. Os produtos de higiene, por exemplo, são usados durante semanas, mas as embalagens têm vida longa e acabam muitas vezes nos oceanos ou em aterros.

Para reduzir a quantidade de plástico que é desperdiçada, quatro jovens da Maia criaram uma alternativa biodegradável que cabe na palma da mão: a Clea é uma cápsula com gel que se desfaz durante o banho.

Este novo tipo de embalagem para produtos de higiene, tem gel de banho no interior, mas poderá ter também champô ou amaciador. A cápsula é compatível com a pele e sustentável já que é feita a partir de uma substância extraída das algas.

Foi no ano passado, na Escola Secundária da Maia, que tudo começou. Numa disciplina de opção do 12º ano, os alunos foram desafiados a desenvolver um projeto inovador sobre sustentabilidade. Para isso, a secundária da Maia tem protocolos com vários parceiros científicos, como a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde os alunos têm oportunidade de desenvolver produtos, testar soluções e criar protótipos.[vídeo]

O produto já foi até distinguido com vários prémios, incluindo uma bolsa da National Geographic Society. Mais difícil tem sido convencer as marcas a apostarem nesta inovação.

Isabel Oliveira, Nuno Aroso, Maria Toga e Vasco Cardoso sonharam, a escola secundária deu-lhes asas e a ideia ganhou forma nos laboratórios da FEUP. Agora, só o mercado pode fazer a diferença.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Cientistas alertam para riscos de 'vida espelho' com potencial devastador


Cientistas internacionais emitiram um alerta sobre a ameaça existencial representada por "vida espelho", micro-organismos sintéticos criados como reflexos estruturais de micróbios naturais. Esses organismos poderiam superar as defesas naturais de seres humanos, animais e plantas, causando danos irreversíveis, segundo um grupo de 40 pesquisadores, incluindo dois ganhadores do Prêmio Nobel.
Em um artigo divulgado na revista Science, publicado pelo Financial Times, os pesquisadores argumentam que os avanços na biologia sintética, embora promovam importantes inovações na saúde, também trazem o risco de gerar novos organismos potencialmente mortais, seja por acidente ou intencionalmente.

O perigo da "vida espelho"
A "vida espelho" baseia-se no fenômeno científico da quiralidade, ou "mão única", em que moléculas possuem a mesma composição química, mas são estruturalmente diferentes por serem imagens espelhadas. Micróbios espelho poderiam evadir o sistema imunológico humano e as defesas naturais de outros organismos, causando infecções letais e superando espécies naturais em diversos ecossistemas.

Segundo Jack Szostak, professor da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina, "a liberação de bactérias espelho no ambiente poderia ser pior do que qualquer desafio enfrentado anteriormente, e muito além de nossa capacidade de mitigação".

Michael Kay, bioquímico da Universidade de Utah, acrescenta que esses organismos seriam a "última espécie invasora", com capacidade de superar as defesas naturais de corpos humanos e ecossistemas.

Avanços tecnológicos e riscos globais
Os cientistas enfatizam a necessidade de ação internacional para regulamentar o desenvolvimento dessa tecnologia antes que ela se torne viável.

Com o rápido progresso nas tecnologias de biologia sintética impulsionadas por inteligência artificial, a criação de células vivas espelho deve ser possível em apenas 10 anos, segundo Vaughn Cooper, professor de microbiologia da Universidade de Pittsburgh.

O artigo no Science também aponta que os avanços recentes mostram que bactérias comuns, como a E. coli, podem crescer com fontes de alimentos que não possuem uma especificidade quiral, refutando a ideia de que organismos espelho seriam inviáveis por falta de nutrição adequada.
Medidas regulatórias urgentes

Os autores sugerem a adoção de modelos de regulamentação, como as Diretrizes de Biossegurança de Tianjin, elaboradas em 2021. Essas diretrizes promovem a colaboração internacional para monitorar e limitar tecnologias que poderiam facilitar a criação de organismos sintéticos perigosos.

Apesar das incertezas, os cientistas concordam que a ameaça é grave. "Bactérias espelho poderiam causar uma onda de infecções devastadoras se escapassem de um laboratório", alerta Eörs Szathmáry, professor de biologia evolutiva da Universidade Eötvös, na Hungria.

O avanço da biologia sintética trouxe benefícios inegáveis para a humanidade, mas também apresenta riscos consideráveis. O desenvolvimento de micro-organismos sintéticos "espelho" requer atenção global imediata para evitar um potencial desastre ambiental e biológico que poderia ameaçar todas as formas de vida conhecidas.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Como conter enchentes, segundo criador das 'cidades-esponja': 'Barragens estão fadadas ao fracasso'

Eventos atmosféricos extremos com períodos prolongados de fortes chuvas e inundações, como as ocorridas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas, se tornarão cada vez mais comuns e intensos, segundo os cientistas.

Mas o que as cidades podem fazer para evitar ou mitigar esse tipo de tragédia?

Para o criador do conceito de cidades-esponja, o arquiteto chinês Kongjian Yu, a resposta está em parar de "lutar contra a água" e investir em soluções duradouras e baseadas na natureza.

"Temos uma escolha a fazer: investir em grandes barragens e diques que estão fadados a fracassar ou apostar em algo que é duradouro, sustentável e ainda bonito e produtivo", questionou o decano da faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim em entrevista à BBC News Brasil.

Para Yu, as soluções tradicionais baseadas em barragens de cimento e tubulações impermeáveis já se mostraram incapazes de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas, já que as chuvas são cada vez mais intensas e o nível da água de rios e mares não para de subir.

Como alternativa, o arquiteto propõe adotar uma infraestrutura verde, baseada em um balanço hídrico artificial que seja o mais parecido possível com o natural e dê espaço e tempo para que a água seja absorvida pelo solo.

Em outras palavras, criar espaços e infraestruturas capazes de absorver, reter e liberar a chuva de forma que ela retorne ao ciclo natural da água sem causar estragos.

O conceito já foi aplicado pela equipe de Yu em diversas cidades na China e também na Tailândia, Indonésia e Rússia — e por outros arquitetos em todo o mundo.

Segundo o chinês, ele pode ser reproduzido em qualquer lugar, inclusive no Brasil.

"Funciona em qualquer lugar. As cidades-esponja são uma solução para climas extremos, onde quer que eles estejam", diz.

"E o Brasil pode se dar muito bem com elas, porque tem muitas áreas naturais, o que dá mais espaço para a água escoar."

De acordo com o arquiteto, além de impedir inundações, o modelo também pode ser útil durante os períodos de seca, já que a água armazenada pode ser utilizada para irrigação e para manter as árvores e plantas da cidade em boas condições.

Além das fortes chuvas, períodos mais prolongados de seca também são efeitos das mudanças climáticas.

Antes de sofrerem com as inundações, muitos produtores gaúchos já haviam sido castigados pela falta de água no ano safra de 2021/22.

Mas para que o conceito das cidades-esponja funcione, ele deve se basear em três grandes estratégias, segundo Kongjian Yu.

1. Contenção da água
O primeiro princípio adotado nos projetos do chinês é reter a água assim que ela toca o solo. Segundo Yu, isso pode ser alcançado por meio de grandes áreas permeáveis e porosas, não pavimentadas.

Da mesma forma que uma esponja com muitos orifícios, a cidade deve conter a chuva com lagos artificiais e áreas de açude alimentados naturalmente ou por canos que ajudam a escoar a água de rios e represas.

Telhados e fachadas verdes, assim como valas com áreas verdes com camadas de solo permeáveis ​​por baixo também são usadas para esse propósito.

Kongjian Yu explica que, em áreas cultiváveis, reservar 20% do terreno para operar como um sistema de açude é suficiente para impedir que o restante do lote seja inundado. Essa área pode ainda ser adaptada para colheitas resistentes à umidade e para posteriormente abastecer o restante das plantações em épocas de seca.

Apesar de ser algo recente, a base teórica na qual as cidades-esponja resgata as antigas tradições chinesas da agricultura e da gestão da água.

"Temos que aprender com a aquacultura como fazer essa terra fértil, quais culturas podem sobreviver e usar essas áreas para isso", diz. "O arroz é um exemplo de uma plantação que pode funcionar."

2. Redução da velocidade
Em seguida, o arquiteto aconselha pensar no manejo da água coletada. Isto é, desacelerar o fluxo d'água.

Em vez de tentar canalizar a água rapidamente para longe em linhas retas, rios tortuosos com vegetação ou várzeas reduzem a velocidade da água.

Eles oferecem mais um benefício, que é a criação de áreas verdes, parques e habitats para animais, purificando a água escoada na superfície com plantas que removem toxinas poluentes e nutrientes.

Yu conta que se interessou pelo tema da urbanização e da contenção das águas após vivenciar uma experiência com inundações durante a infância.

Na época com apenas 10 anos, o chinês vivia em uma fazenda na Província de Zhejiang, perto de Hangzhou. Durante um período de fortes chuvas, o córrego da região inundou os campos de arroz da comunidade agrícola e Yu foi pego pelas águas, carregado pela enchente.

Mas as plantas, troncos e salgueiros ao longo do córrego reduziram a velocidade do fluxo do rio, permitindo que ele se agarrasse à vegetação e saísse das águas.

"Se o rio fosse como muitos são hoje, nivelados com paredes de concreto, certamente eu teria me afogado", contou Yu à BBC.

As técnicas usadas pelo arquiteto em seus projetos atuam da mesma forma que a vegetação no córrego na fazenda de Yu, desacelerando a água.

3. Escoamento e absorção
A terceira estratégia é adaptar as cidades para que elas tenham áreas alagáveis, para onde a água possa escorrer sem causar destruição.

"Em vez de construir barragens e ir acumulando a água em áreas de cimento, precisamos nos adaptar à água, deixa a cidade lidar com a água de forma saudável", diz Yu.

A principal forma de fazer isso é criar grandes estruturas naturais alagáveis para que a água possa ser contida por um tempo e, depois, absorvida pelo lençol freático.

Yu defende que essas áreas alagáveis permaneçam desocupadas, evitando-se construções nas áreas baixas.

Nos casos de infiltração, podem ser feitas caixas infiltrantes, que facilitam a entrada da água no solo.

Algumas cidades usam "jardins de chuva" que armazenam o excesso de chuva em tanques subterrâneos e túneis. A água só é descartada nos rios depois que os níveis diminuem.

Plantas que absorvem água também podem ser usadas para dar conta do alto volume de chuvas.

"A natureza se adapta. O conceito de cidade-esponja é baseado no princípio de que a natureza regula a água", diz o arquiteto. "Não é apenas a natureza em si. Sistemas feitos pelo homem devem ser certamente usados, mas a natureza deve ser dominante."

Yu afirma ainda que, para conter as grandes inundações previstas para os próximos anos, é preciso expandir essa estratégia por várias regiões e criar um "planeta-esponja" onde a força das águas possa ser dissipada e desacelerada aos poucos.

Ainda na visão do chinês, além de parques adaptados e áreas cultiváveis capazes de absorver mais água, lagoas e pântanos podem coexistir com rodovias e arranha-céus.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Tic tac. Estamos a 90 segundos do fim, continua a marcar Relógio do Apocalipse



O Relógio do Apocalipse diz, de novo, que estamos a 90 segundos da meia-noite, o que significa a destruição da humanidade.

Os especialistas da revista Bulletin of Atomic Scientist acertaram esta terça-feira os ponteiros e, tal como no ano passado, continuamos bem perto do dia do "juízo final", ou seja a 90 segundos da meia-noite, que é como quem diz para a auto-destruição da humanidade.

Pela 77ª vez, o Dooms Day Clock é acertado e representa um alerta que a comunidade científica faz à humanidade, uma chamada de atenção para o dia em que tudo termina.

"A humanidade continua a enfrentar um nível de perigo sem precedentes", refere a Bulletin of Atomic Scientist, responsável por acertar o relógio, que mantém-se a 90 segundos da meia-noite, tal como em 2023, ano em que a proximidade da humanidade ao dia da auto destruição foi justificada pela guerra na Ucrânia, mais concretamente a ameaça nuclear proveniente da Rússia.

Este ano, os ponteiros do relógio voltaram a ser acertados, mas mantemo-nos a 90 segundos, apenas um minuto e meio, da meia-noite. O que não significa estagnação. "A nossa decisão não deve ser tomada como um sinal de que a situação da segurança internacional se atenuou. Em vez disso, os líderes e os cidadãos de todo o mundo devem encarar esta declaração como um aviso severo e reagir com urgência, como se hoje fosse o momento mais perigoso da história moderna. Porque pode muito bem ser", alerta o Conselho de Ciência e Segurança do Boletim.

Aliás, o mundo enfrenta mais uma guerra, agora no Médio Oriente, entre Israel e o grupo extremista palestiniano Hamas.

Além da guerra na Ucrânia, o mundo enfrenta a ameaça das armas nucleares, com a deterioração dos acordos de redução deste tipo de armamento, as alterações climáticas, que levaram a que 2023 fosse considerado como o ano mais quente já registado. Os avanços nas tecnologias de engenharia genética, bem como os registados na área da Inteligência Artificial também preocupam.

"Não se deixem enganar: acertar o relógio a 90 segundos para a meia-noite não é uma indicação de que o mundo está estável. Muito pelo contrário. É urgente que os governos e as comunidades em todo o mundo ajam. E o Boletim continua esperançoso – e inspirado – em ver as gerações mais jovens liderar a luta”, refere Rachel Bronson, presidente e diretora executiva do Bulletin of Atomic Scientist, em comunicado.

Para Jerry Brown, presidente executivo do Boletim, é como se os líderes mundiais "estivessem no Titanic". Afinal, "estão a conduzir o mundo para a catástrofe – mais bombas nucleares, grandes emissões de carbono, patógenos perigosos e inteligência artificial". "Só as grandes potências como a China, a América e a Rússia podem fazer-nos recuar. Apesar dos antagonismos profundos, eles devem cooperar – ou estaremos condenados", conclui o responsável.

Fundado em 1945 por Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer e cientistas da Universidade de Chicago que ajudaram a desenvolver as primeiras armas atómicas no âmbito do Projeto Manhattan, o Bulletin of the Atomic Scientists criou o Relógio do Apocalipse dois anos mais tarde, em 1947, "um indicador universalmente reconhecido da vulnerabilidade do mundo a catástrofes globais causadas por tecnologias criadas pelo homem".

Saber mais:

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Ética e Inteligência Artificial - Deveriam os Robôs assemelhar-se aos Humanos?



No seu artigo “Questões Éticas na Inteligência Artificial Avançada”, o filósofo Nick Bostrom argumenta que a inteligência artificial tem sim a capacidade de provocar a extinção humana. Ele afirma que a super-inteligência seria capaz de ter uma iniciativa independente, e de fazer os seus próprios planos antecipando-se a nossas possíveis reações.

Em teoria, uma IA super-inteligente seria capaz de produzir praticamente qualquer resultado possível e impedir qualquer tentativa de sabotar o seu plano inicial, podendo surgir assim muitas consequências não-intencionais, não-controladas (ou seja, antes de pensar em desligar a máquina da tomada, ela vai se antecipar a isso e criar uma defesa para que isso não impacte o funcionamento dela). Ela poderia prever e simular milhões de cenários muito mais rápido que nós, protegendo-se assim de uma possível sabotagem humana.

Sabemos que esse assunto não é novo e que inspirou grandes filmes de ficção científica como Matrix, 2001, Her, e muitos outros. Será que o tal futuro dos filmes de ficção chegou?

No entanto, vale ressaltar o lado bom: a super-inteligência também poderia nos ajudar a resolver muitos problemas difíceis, como doenças, pobreza, engenharia, viagem espacial, destruição ambiental, entre muitos outros — podendo também quem sabe nos ajudar a melhorar nós mesmos.

A pergunta que não quer calar é: deveria mesmo a inteligência artificial se passar por um Humano? Isso é “certo”?

O que nos faz Humanos?

Essa também é uma questão muito profunda discutida há milhares de anos, abrange os campos da Filosofia, Antropologia, Biologia, Psicologia, entre outros.

O professor de filosofia Barry C. Smith da Universidade de Londres explica que um dos principais fatores que nos torna humanos é “o fato de que falamos dentro das nossas mentes, além da nossa capacidade de linguagem para fazer tal coisa, isso nos permite conhecer nossas próprias mentes e outras mentes de uma maneira que nenhum outro animal faz”.

Existem uma série de outras teorias e estudos sobre esse assunto, que é um tema sem dúvida bem complexo. Entre outras coisas que nos fazem Humanos podemos destacar:

- Habilidade de sentir Empatia e Compaixão por outros seres
- Nossa Mente e nossa Consciência 
- Nossos sentimentos e emoções 
- Nossa relação com um possível Deus e com o transcendente
- Nossa capacidade de improvisar rapidamente
- Nossa criatividade e intuição

Será que um dia a IA vai evoluir a tal ponto de conseguir ter essas capacidades, da mesma forma que nós evoluímos e adquirimos essas capacidades? Depois do lançamento do ChatGPT confesso que tenho minhas dúvidas.

Tanto Elon Musk quanto Stephen Hawking já se pronunciaram e nos alertaram sobre os potenciais perigos da IA quando usada para o mal. Não precisa ser um historiador para conseguir olhar para a evolução e história humana e ver que somos sim capazes de usar novas tecnologias também para o mal e para a guerra. Infelizmente nosso individualismo tem falado muito mais alto do que nosso senso de coletivismo e isso é muito preocupante.

Acho importante é ter em mente que não queremos uma relação “Homem vs Máquina”, isso tudo não deveria ser uma competição, mas sim uma relação de colaboração, mas será que conseguimos controlar isso?
Só o futuro nos dirá como iremos usar isso para o bem e para o mal, mas uma coisa é certa: a nossa geração irá presenciar grandes mudanças na humanidade, e eu acho isso muito empolgante!

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Árvores de má sorte


Os tubos de proteção estão vazios; as árvores morreram; sobrou lixo plástico a salpicar a paisagem. As plantações de árvores autóctones falham sistematicamente. Porquê?
Há sempre a hipótese das proveniências, mas a principal causa talvez não ande por aqui ...
A vala e cômoro foi a técnica mais usada nos grandes projetos de arborização pública do séc. XX: espreite-se o GoogleEarth: até parece que as montanhas do norte e centro foram cardadas pelo pente de um gigante. Estas arborizações tiveram como ponto de partida (condição inicial) montes cobertos por um mosaico de arbustos e pastagens graminoides perenes e anuais, estabilizado pela combinação de pastoreio e fogo pastoril – herbivoria pírica assim se diz agora. No tempo zero, o stock de carbono orgânico do solo atingira um máximo em equilíbrio com o macroclima. As arborizações de pinheiro-bravo a vala e cômoro prosperaram graças à "formação de solo" (sobretudo nos xistos), à concentração da água na vala, ao controlo da vegetação natural (os diásporos e propágulos foram arrojados para o fundo da cova), e à disponibilização de nutrientes através da mineralização da matéria orgânica do solo. Não fosse o fogo ...
Nas atuais plantações ao covacho com baixas densidades em solos martirizados por fogos severos (que consomem a matéria orgânica do solo), as árvores sofrem, ainda num estado precoce do desenvolvimento, as investidas da vegetação natural e passam sede e fome – falta-lhes, sobretudo, o azoto reduzido e o boro. Nestas condições, inevitável, o sucesso das plantações depende da fertilização química da terra e da contenção da progressão sucessional, através do controlo mecânico da vegetação ou do herbicida. O fogo controlado entra em seguida. A não perturbação do solo e esta insistência de que a floresta não precisa de ser fertilizada podem, afinal, ser contraproducentes.
Para serem eficazes e eficientes nos seus propósitos, a agricultura e a silvicultura enfrentam restrições biofísicas cuja mitigação/solução não está nas micorrizas, nos extratos de algas, nas misturas de aminoácidos, no imprinting epigenético, ou nas laudas desconexas aos benefícios da flora infestante ou de um microbioma que ninguém sabe como é, por exemplo. Os princípios fundamentais há que os procurar nas velhas agronomia e silvicultura. E, acrescento, convém que os ecólogos agrícolas e florestais entendam os mecanismos básicos da produção agrícola e florestal para que os ganhos sociais e ambientais dos atuais projetos de investigação no tema sejam reais. Por outras palavras, aproveita aprender umas coisas das engenharias agronómica e silvícola.

sábado, 11 de março de 2023

O que é a madeira impressa em 3D e irá reduzir o desperdício?


À medida que nos aproximamos do futuro, o que costumava acontecer apenas na natureza está a ter lugar em laboratórios. No novo mundo da agricultura celular, os cientistas estão a produzir carne sem matar animais. E agora é a vez das árvores viverem, uma vez que os cientistas descobriram como imprimir madeira em 3D. Em vez de serem cortadas e transformadas em cadeiras, jornais, papel de parede, caixas de ovos, sacos, caixas e papel higiénico, em breve as árvores poderão continuar a crescer, escreve o “Inhabitat”.

Precisamos de árvores e madeira

Segundo a mesma fonte, à medida que a população humana global foi aumentando para oito mil milhões, com muitas dessas pessoas a precisarem de muitas coisas, continuámos a cortar árvores para fornecer uma multiplicidade de produtos. Desde o início da civilização humana, eliminámos 54% da população de árvores da Terra, de acordo com um inquérito florestal global. E enquanto nos preocupamos em proteger os elefantes e os rinocerontes dos caçadores furtivos que procuram o marfim, o produto selvagem mais traficado é na realidade o pau-rosa. Da Tailândia para Madagáscar, onde existe pau-rosa, há pessoas a tentar cortar a árvore em vias de extinção e vendê-la ao mercado de mobiliário chinês. O emaranhado com os caçadores furtivos de pau-rosa “é tão perigoso que a árvore ganhou o apelido de ‘madeira de sangue’”.

“Mas uma árvore não tem de ter madeira adequada para tornar o mobiliário adequado para que as dinastias imperiais sejam valiosas”. As árvores fornecem sombra para arrefecer os nossos bairros, remover o carbono da atmosfera, filtrar a água, limpar o nosso ar e abrandar os surtos de tempestade. Assim, a capacidade de imprimir madeira em 3D “é uma boa notícia para os seres humanos, bem como para as árvores”.

Génios do MIT revolucionam a madeira

Cientistas afiliados ao Massachusetts Institute of Technology e ao Charles Stark Draper Laboratory publicaram o seu progresso na revista Materials Today no ano passado. Iniciaram o seu trabalho a fim de reduzir o desperdício e a perturbação ambiental, aumentando ao mesmo tempo os rendimentos e as taxas de produção.

Começaram com células dos Zinnia elegans, também conhecidos como zinnias.

“Em princípio, o esforço para produzir materiais vegetais na ausência da planta de apoio não é totalmente diferente da engenharia de tecidos em sistemas de células animais”, escreveram os autores do estudo. “Em ambos os campos, as células num ambiente de crescimento estruturado e rico em nutrientes podem ser orientadas para crescer e transformar-se em produtos semelhantes a tecidos”.

As células vegetais requerem vias metabólicas diferentes das células animais, mas os cientistas foram capazes de construir sobre o campo mais desenvolvido dos mamíferos. Até agora, a maioria dos esforços de engenharia de tecidos tem-se concentrado na cultura de células animais. Os autores do estudo salientam que o seu é o primeiro trabalho a utilizar a abordagem da agricultura celular para gerar material vegetal. Pode ler aqui todos os pormenores suculentos do estudo.

Uma start-up de impressão em madeira 3D

Os cientistas do MIT podem ser os primeiros a fazer madeira a partir de células zínnias. Mas não são os primeiros a experimentar formas alternativas de fazer madeira. Há já alguns anos que uma startup chamada Forust é a madeira de impressão 3D, começando com os resíduos de madeira de serradura e lignina. Este último ingrediente é um polímero orgânico que é um dos principais constituintes da madeira.

“Percebemos muito rapidamente que os resíduos de madeira são um material que poderia ser transformado para impressão em 3D”, disse Virginia San Fratello, presidente do departamento de design da Universidade de San Jose State e um dos fundadores da Forust, à Fast Company em 2021. O seu processo envolve camadas de serradura e aglutinantes não tóxicos para recriar o grão da madeira.

“Uma árvore é feita de lignina e celulose”, disse Ric Fulop, CEO da Desktop Metal, uma empresa de impressão 3D maior que inclui a Forust, como relatado pela Fast Company. “Quando se fazem coisas a partir de árvores, quer seja mobiliário ou papel, está-se essencialmente a desmaterializar a árvore… o que estamos a tentar fazer é voltar a juntá-la”. Pode soar um pouco como um aglomerado de partículas. Mas o grão na madeira impressa em 3D percorre todo o material, para que se possa lixá-lo e acabá-lo tal como a madeira.

E há bastante serradura e lignina em excesso. A poeira desvia estes materiais dos aterros sanitários.

“Centenas de milhões de toneladas métricas de resíduos são geradas todos os anos só nos Estados Unidos”, disse Fulop.

Redução de resíduos

Uma das coisas interessantes sobre estes dois processos é que os objetos podem ser impressos em 3D nas suas formas finais. As empresas podem imprimir uma cadeira ou mesa em 3D – sem desperdício. Podem também imprimir formas complexas. Talvez o melhor de tudo, a impressão em 3D possa levar a um processo circular para a fabricação de madeira. Quando a sua velha cabeceira se desgasta ou parte, pode enviá-la de volta para o fabricante, onde pode ser moída e impressa em 3D numa estante ou cadeira ou qualquer outra coisa que o mercado exija. O mobiliário poderia ser feito de uma forma totalmente nova, livre de resíduos.

“Claro que a tecnologia de impressão em madeira 3D ainda se encontra nas fases iniciais. Mas os cientistas do MIT estão esperançosos. O seu estudo espera um futuro em que os materiais possam ser produzidos localmente, em qualquer parte do mundo, sem necessidade de luz solar ou terra”, conclui o “Inhabitat”.

sábado, 4 de março de 2023

Os minúsculos seres que sequestram algas


O acoel (Symsagittifera roscoffensis), um ser vivo minúsculo, agrega-se em acumulações maciças parecendo algas marinhas (aqui fotografadas na frente atlântica de Almada). Os corpos espalmados são transparentes, mas, no interior, vivem algas Tetraselmis, que contêm clorofila e são capazes de realizar a fotossíntese. “Migram para as camadas mais profundas do sedimento durante a noite e voltam à superfície quando aparece a luz do dia”, explica Marco Rubal García, biólogo do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto.

Os cloroplastos das microalgas dão a cor verde ao organismo de 2 a 4mm. As algas Tetraselmis convolutae podem atravessar vários ciclos de vida nos corpos destas criaturas, absorvendo a luz solar através da pele clara, fotossintetizando alimentos e produzindo oxigénio. Por sua vez, beneficiam de protecção, ambiente estável e alimento, pois reciclam os resíduos do hospedeiro e o dióxido de carbono do indivíduo.

Após investigação na zona de Olhos de Água, um artigo da engenheira biológica Liliana Carvalho e colegas do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve, publicado em Marine Pollution Bulletin, conclui que o acoel mostra um grande potencial como sequestrador natural de nitratos produzidos pela actividade humana, desempenhando assim um papel importante na “reciclagem” natural nas zonas de fronteira entre mar e terra, com a vantagem de não ter efeitos tóxicos associados.

Os benefícios do castor

O estudo Renaturalizar com o Castor na Península Ibérica – Potencial Económico para Restauro Fluvial, da autoria de Daniel Veríssimo e Catarina Roseta-Palma, acabou de ser publicado na revista científica Nature Based Solutions. O documento partiu da análise do programa de recuperação de rios e ribeiros desenvolvido pela Agência Portuguesa de Ambiente. Este programa, com um custo aproximado de 12 milhões de euros, incluiu muitas intervenções que poderiam ser feitas de forma equivalente pelo castor livres de custo, como suavizar as margens das ribeiras, criar pequenas barragens com ramos, promover a dispersão de sementes ou até controlar espécies invasoras.

O regresso do castor
Duas das estatísticas mais notáveis que surgiram do recente Relatório de Regresso da Vida Selvagem de 2022, encomendado pela Rewilding Europe, ilustram o quão longe o castor chegou num espaço de tempo relativamente curto – principalmente devido à proteção legal, uma redução dramática na pressão de caça e reintroduções e translocações. A abundância destes engenheiros aquáticos aumentou uns incríveis 16.000% entre 1960 e 2016, com a atual população europeia (excluindo a Rússia) totalizando mais de 1,2 milhões!

Além disso, a sua distribuição em todo o continente europeu aumentou cerca de 835% entre 1955 e 2020. Concluindo, os castores estão em alta, o que é uma ótima notícia para a biodiversidade e para uma grande variedade de outras espécies que beneficiam do impacto desta espécie na paisagem.

Gerador de biodiversidade
As lagoas e os canais de água que os castores criam à volta dos seus alojamentos através da construção de diques, atraem uma infinidade de insetos, peixes e anfíbios. Isso, por sua vez, atrai pássaros, morcegos e outros pequenos mamíferos. À medida que derrubam árvores sobre a água, os castores ajudam a criar um habitat vital de madeira morta, bem como a abrir áreas de floresta, o que estimula uma maior diversidade de crescimento de plantas em clareiras ensolaradas e prados alagados.

As árvores ribeirinhas, como os salgueiros, evoluíram com os castores e geralmente não morrem quando um castor abre caminho através do tronco. Em vez disso, isso estimula o crescimento de novos caules, o que gera uma maior complexidade estrutural que beneficia muitas espécies. Sabe-se que os répteis usam-nos como abrigo, enquanto as lontras e martas usam tocas abandonadas. Grandes represas podem até atuar como corredores ecológicos na paisagem, funcionando como pontos de passagem que poupam energia para espécies de topo à base da cadeia alimentar.

Defensor de cheias
As represas dos castores, a teia de cursos de água que se estendem ao seu redor e todos os galhos e ramos usados para criá-las podem reter grandes quantidades de água. Isso ajuda a diminuir a velocidade geral do fluxo a jusante e a recarregar os lençóis freáticos subterrâneos, podendo reduzir os impactos das inundações em terras agrícolas e em áreas urbanas. Os diques agem como esponjas, libertando água lentamente através da sua estrutura permeável, o que significa que imensas pequenas lagoas e riachos podem formar-se em áreas mais altas.

Essa redistribuição da água interrompe e diminui o leito máximo do rio à medida que se move em direção às áreas de planície. Permitir que os rios libertem gradualmente os seus benefícios hídricos beneficia também a terra à sua volta, pois evita que o precioso solo superficial seja arrastado durante períodos de chuvas fortes.

Bombeiro
Os ambientes aquáticos do castor também podem fornecer santuários à prova de fogo que salvam vidas para uma grande variedade de plantas, animais – e até pessoas. Com os incêndios florestais a aumentar tanto em frequência como em intensidade, como resultado das mudanças climáticas, o valor dos castores não pode nem deve ser subestimado. Como um sábio disse uma vez: “água não queima!”

Quando as habilidades magistrais de engenharia do castor têm rédea solta numa escala grande o suficiente, o habitat que eles criam pode até tornar-se uma barreira natural que impede que o fogo se espalhe ainda mais. No mínimo, a exuberante vegetação verde encontrada dentro e na envolvência dos habitats dos castores irá amortecer o progresso de um incêndio – ao contrário da vida vegetal combustível, muitas vezes seca, normalmente encontrada em áreas sem castores, que podem alimentar incêndios florestais. E a vegetação costuma ser um salva-vidas para herbívoros no calor do verão e nos períodos de seca também.

Purificador de água
Os castores também nos podem ajudar na luta contra a poluição. As suas represas podem atuar como peneiras gigantes que retêm sedimentos contendo nitratos e fosfatos da agricultura, que podem desenvolver proliferação de algas nocivas. Estas algas podem impactar negativamente a vida selvagem, o gado e as pessoas, pois podem produzir toxinas perigosas.

Estas também consomem todo o oxigénio da água e bloqueiam a luz solar, que pode ser fatal para a vida aquática. A poluição por nitrogénio, em particular, pode ser bastante reduzida, já que as bactérias que prosperam em lagoas com castores podem digerir nitratos, com qualquer excesso confinado a sedimentos. Esta é uma boa notícia para as pessoas, já que o nitrogénio e o fósforo precisam de ser removidos da água para esta se tornar segura para beber.
 
Mitigador de secas
Toda a água que as zonas húmidas criadas pelos castores retêm pode ser muito útil durante os períodos de seca. A necessidade que o castor tem de lagoas e canais profundos significa que, quando tudo à sua volta está a ser afetado pela seca, a região habitada por castores não. Esse fluxo constante de água a jusante e nos solos circundantes pode ser vital durante os períodos quentes de verão: um serviço gratuito de armazenamento de água que pode ser uma tábua de salvação para uma infinidade de espécies. A temperatura da água nas lagoas com castores também permanece fria no verão, enquanto os rios mais rasos sobreaquecem – um potencial assassino para algumas espécies de peixes, como os salmonídeos. Essas lagoas também são uma fonte vital de água no inverno, pois a sua profundidade significa que são as últimas a congelar.

Apoiar o regresso do castor
Em todas as áreas rewilding da Rewilding Europe – através do restauro de zonas húmidas e da criação de iniciativas de turismo de vida selvagem – estamos a apoiar o incrível trabalho dos castores e as suas contribuições para o rewilding. A última área a sentir os amplos benefícios do castor foi a área ucraniana do Delta do Danúbio, com avistamentos a surgirem na Reserva da Biosfera do Danúbio em 2021. Os castores já estão bem estabelecidos na Lapónia sueca e no Delta do rio Oder, onde são uma importante fonte enquanto presa para jovens lobos. Um estudo polaco também descobriu que estes beneficiam populações de aves invernantes em florestas temperadas.

Os castores também estão presentes na área de rewilding das Affric Highlands, na Escócia, onde uma união de proprietários de terras públicas e privadas acaba de finalizar uma consulta pública – realizada pela Trees for Life – sobre uma proposta de reintrodução em Glen Affric. Nenhuma decisão foi ainda tomada, mas já foi identificado um habitat adequado num estudo realizado em junho de 2022. Também sabemos que os castores vivem perto das áreas rewilding dos Cárpatos do Sul e dos Apeninos Centrais, com o seu regresso natural a ser esperado nas próximas décadas.

O castor de regresso a Portugal?
Na Península Ibérica, registos históricos indicam que a espécie esteve presente pelo menos até ao final do século XVI. Em 2003, o castor regressou a Espanha através de uma reintrodução não autorizada na bacia do rio Ebro. Desde então a espécie, catalogada como espécie protegida neste pais desde 2011, tem recolonizado novas áreas do Ebro, chegando também às bacias do Douro e do Tejo. Recentemente foram avistados indícios de presença de castor no rio Tormes, a cerca de oito quilómetros da fronteira com Portugal, e portanto muito próximos do lado português do Parque Natural do Douro Internacional. Apesar de ainda não existirem dados sobre qual o tamanho da população nesta zona e ritmo de expansão, é possível que brevemente o castor se disperse pelo noroeste da bacia do Douro desde este novo núcleo no Tormes e regresse a Portugal após a sua extinção na idade média.

Na Rewilding Portugal, encaramos esta possibilidade com grande optimismo e com vontade de ajudar a preparar a paisagem e as pessoas para o regresso desta espécie-chave.

Com a proteção e o habitat adequados, esperamos que os castores continuem a recolonizar mais da Europa, renaturalizando-a com todos os benefícios que trazem!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Este fungo de aspeto estranho pode ser uma alternativa biodegradável ao plástico


O fungo tinder (Fomes fomentarius) tem algumas propriedades surpreendentes, que podem fornecer uma alternativa natural e biodegradável a certos plásticos e outros materiais no futuro, descobriram investigadores.

O fungo tinder (Fomes fomentarius) tem algumas propriedades surpreendentes, que podem fornecer uma alternativa natural e biodegradável a certos plásticos e outros materiais no futuro, descobriram investigadores.

Como o seu nome sugere, o fungo devorador de madeira tem sido historicamente utilizado para detetar a faísca de incêndios, embora também tenha sido incorporado no vestuário e utilizado na medicina.

Agora poderá ter todo um novo nível de utilidade como alternativa biodegradável aos plásticos, graças à forma como o micélio F. fomentarius  é montado.

Composto por filamentos finos conhecidos como hifas, o micélio forma redes radiculares que se espalham pelo solo ou material em decomposição. No caso do fungo tinder, esta rede pode ser dividida em três camadas distintas, diz a equipa de instituições de investigação na Finlândia, Holanda e Alemanha.

“O micélio é o componente primário em todas as camadas”, dizem os investigadores. “Contudo, em cada camada, o micélio exibe uma microestrutura muito distinta com orientação preferencial única, relação de aspeto, densidade, e comprimento de ramo”, acrescentam.

Os investigadores analisaram a composição estrutural e química do corpo frutífero de F. fomentarius, utilizando amostras recolhidas na Finlândia. Testes de resistência mecânica foram combinados com varreduras detalhadas do fungo para examinar as suas características em detalhe, revelando três camadas: uma crosta exterior dura e fina que reveste uma camada espumosa por baixo e pilhas de estruturas tubulares ocas no núcleo.

Partes do fungo eram tão fortes como o contraplacado, pinho, ou couro, relata a equipa – embora também fossem mais leves do que esses materiais. É uma combinação que não está normalmente associada à parte carnuda de um fungo como este.

Os investigadores descobriram que os tubos ocos, que constituem o grosso dos corpos de frutificação de F. fomentarius, podem resistir a forças maiores do que a camada espumosa, tudo sem sofrerem grandes deslocamentos ou deformações.

Contudo, talvez não seja assim tão surpreendente: este fungo tem de ser construído para resistir aos rigores das estações em mudança, bem como aos ramos de árvores que caem de cima para baixo. Este é o tipo de tenacidade que pode inspirar novos materiais sintéticos.

Normalmente, mais fortes, mais rígidos ou materiais são também mais pesados e mais densos – mas não neste caso.

“O que é considerado extraordinário é que, com alterações mínimas na sua morfologia celular e composição polimérica extracelular, formulam diversos materiais com desempenhos físico-químicos distintos que ultrapassam a maioria dos materiais naturais e humanos que são normalmente confrontados com trocas de propriedade”, escrevem os investigadores.

“Acreditamos que os resultados devem atrair um vasto público da ciência dos materiais e não só”.

O fungo F. fomentarius já desempenha um papel fundamental na natureza, na forma como se agarra a árvores mortas e liberta nutrientes importantes que de outra forma permaneceriam na casca. Agora, poderia ser ainda mais útil no campo da ciência dos materiais.

É necessário determinar exatamente como e onde este fungo poderia ser utilizado, mas compreender as suas camadas é um passo importante: sabemos agora como é construído a nível celular.

Faz parte de um corpo crescente de investigação sobre o potencial dos materiais vivos, utilizando células vivas de forma controlada e programada para alcançar determinados resultados finais – que, neste caso, seriam tipos particulares de materiais.

“Estes resultados poderiam oferecer uma grande fonte de inspiração para a produção de materiais multifuncionais com propriedades superiores para diversas aplicações médicas e industriais no futuro”, escrevem os investigadores.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Mushrooms Provide Hope for Our Plastic Planet


As soluções de embalagem nem sempre exigem inventar coisas novas, mas sim perceber quais coisas úteis já existem e colocá-las para funcionar. Quando fazemos embalagens de cogumelos aproveitamos a incrível “tecnologia” da natureza. Ao utilizar recursos que normalmente são considerados resíduos e de baixo valor - como cascas de milho, cascas de sementes e serragem - e combiná-los como matéria-prima com micélio de cogumelo, podemos criar substitutos naturais e compostáveis para espumas plásticas que, em vez de poluir o planeta, nutrem a Terra. Meghan Olson, Diretora, Embalagem Mushroom® da Ecovative

Como Diretora de Comercialização do negócio de Embalagens Mushroom® da Ecovative, Meghan lidera o desenvolvimento de negócios, vendas, desenvolvimento de produtos e sucesso do cliente para Embalagens Mushroom®. Meghan está focada em acelerar o crescimento e construir participação no mercado global para o produto Mushroom® Packaging por meio de vendas diretas, parcerias e licenciamento, ao mesmo tempo em que avança a visão estratégica da Mushroom® Packaging e cultiva uma rede de parceiros estratégicos. Meghan é responsável por garantir o sucesso comercial integrado das embalagens Mushroom® e de outros produtos MycoComposite™.

Meghan possui um MS. em Engenharia Mecânica e um duplo B.S. em Engenharia Mecânica e Design, Inovação e Sociedade pelo Rensselaer Polytechnic Institute e é apaixonada por tecnologias de micélio há mais de uma década, desde que conheceu os fundadores da Ecovative e a sua história com o seu falecido mentor e antigo campeão da Ecovative, Burt Swersey. Meghan traz experiência técnica em vendas e desenvolvimento de negócios da empresa de tecnologia Vyv e iniciou a sua carreira numa função de design de engenharia de sistemas de fluidos na GE Power, após o seu mestrado em Engenharia Mecânica com foco em fabricação aditiva de compósitos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Portugal é dos países da UE com uma das taxas de circularidade mais baixas


Portugal apresentou uma taxa de utilização de materiais recicláveis de 2,3% em 2021, tendo ocupado o 24º lugar entre os 27 Estados-Membros da União Europeia. Em 2020, tinha registado uma percentagem de 2,5%.

Os Países-Baixos, com uma percentagem de 34%, registaram, no ano passado, a maior taxa de circularidade, tendo ocupado o primeiro lugar. A Bélgica ficou na segunda posição, com uma percentagem de 21%, e o terceiro lugar foi ocupado pela França, com uma percentagem de 20%. A Roménia ficou em último lugar (1%) e ficou atrás da Finlândia e da Irlanda, ambas com uma taxa de circularidade de 2%.

Para além disso, a taxa de circularidade registou algumas variações, de acordo com o tipo de material. O Eurostat revelou que, no ano passado, os minérios metálicos registaram uma taxa de 23%, a biomassa (20%), os materiais não metálicos (14%) e os materiais/transportadores de energia fóssil (3%).

A taxa de utilização de material circular registou, em 2021, uma percentagem de 11,7%, em 2020, de 11,8% e 12% foi a percentagem em 2019. A taxa de circularidade na União Europeia, pelo segundo ano consecutivo, apresenta um decréscimo.

Relacionados:

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Pele de cogumelo pode ser usada para criar chips eletrónicos biodegradáveis


O mundo está em constante mudança e nós, claro está, temos que mudar a avançar com ele. Neste sentido, as investigações trazem novidades com regularidade, como, por exemplo, novas formas mais sustentáveis de criar os produtos que usamos no nosso dia-a-dia.

Assim, dados mais recentes indicam que a pele dos cogumelos pode ser usada como substrato para a criação de chips eletrónicos biodegradáveis.

Pele de cogumelo para fazer chips biodegradáveis

Com a exigência da produção de cada vez mais chips eletrónicos para responder às necessidades do mercado, a indústria depara-se com um problema a curto e longo prazo relacionado com a poluição desses mesmos componentes. Como tal, é fundamental que sejam encontradas soluções para lidar com este problema que nos afeta a todos.

Assim, as investigações científicas realizadas por cientistas austríacos podem agora ter encontrado uma alternativa amiga do ambiente. Trata-se de uma pesquisa designada MycelioTronics e consiste no uso de pele de fungos como forma de substrato para a criação de PCBs (Printed Circuit Boards) biodegradáveis. Os investigadores descobriram que assim que a pele é removida e seca, esta consegue desenvolver muitas das propriedades encontradas nos PCBs que são usados em todos os dispositivos eletrónicos do mercado.

A pesquisa baseia-se no fungo Ganoderma lucidum para a criação de chips e PCBs, cuja pele é fina, flexível e pode ser dobrada mais de 2.000 vezes, preservando ainda assim a sua integridade estrutural. Para além disso é também um bom isolante e pode suportar temperaturas acima dos 200 graus, o que é mais do que os PCBs conseguem suportar.

Mas, como é normal, tudo isto tem que ser aplicado na prática para ver se é ou não viável. Assim, os investigadores já realizaram várias experiências onde revestiram a pele seca do fungo com uma camada de cobre, crómio e ouro de forma a melhorar a condutividade. Por cima usaram um laser para imprimir trilhos condutores e descobriram que o produto se comportava como um PCB, tendo ainda como vantagem o facto de ser biodegradável.


O fungo Ganoderma lucidum é uma espécie de cogumelo muito popular na Ásia, sendo também conhecido pelo nome Reishi e usado na medicina tradicional chinesa há mais de 4.000 anos. Há quem o descreva como cogumelo da imortalidade.

Assim, quem sabe daqui a uns anos os chips dos nossos equipamentos tecnológicos não serão baseados neste cogumelo, evitando assim enormes quantidade de resíduos?

sábado, 26 de novembro de 2022

Sobre Cold Wave, Darkwave e Cibergótico


O termo cold wave (onda fria) apareceu na edição de novembro de 1977 da revista musical inglesa Sounds. No texto de capa, mostrando Ralf Hütter e Florian Schneider do Kraftwerk podemos ler "New musick: The cold wave".Naquele ano, o Kraftwerk publicou o Trans-Europe Express. 


O termo foi repetido na semana seguinte no Sounds pela jornalista Vivien Goldman, num artigo sobre Siouxsie e os Banshees. Nesse artigo de Dezembro de 1977 descreveram a sua música como "fria, mecânica e apaixonada ao mesmo tempo", e a revista Sounds profetizou sobre a banda: "[eles] soam como uma fábrica industrial do século 21 [...] Ouça ao rugido das ondas frias dos anos 70 aos anos 80".

Essas influências aparecem em bandas como Joy Division, The Cure e Bauhaus.

KaS Product, Martin Dupont, Asylum Party, Norma Loy, Clair Obscur, Opera Multi Steel e Trisomie 21 são algumas das principais bandas representantes desta corrente musical.

Kraftwek e os Cabaret Voltaire foram os pais fundadores da darkwave. Como já referi o álbum Trans-Europa Express teve influencia na banda pós-punk Joy Division, tendo o seu baixista, Peter Hook, referido que: "conhecemos os Kraftwerk através de Ian Curtis, que insistia em tocar Trans Europe Express sempre que íamos entrar em palco."


Aliás, o álbum "Closer" (1980) é uma obra-prima da coldwave, pós-punk. Para sempre um álbum irrepetível. 

Dark wave (também escrito como darkwave) é um género musical que surgiu na Europa e Reino Unido no início da década de 1980 entre a  coldwave, rock gótico e a música eletrónica.

Dark wave é um termo usado para se referir a uma versão sombria da new wave (ou do synth-pop), sendo considerado uma antítese e uma resposta dark e melancólica da new wave que estava em alta na década de 1980. O género começou a aparecer no meio musical europeu, coincidindo com a ascensão popular da new wave e do synth-pop. Composições de dark wave são amplamente baseadas em tonalidades-chave menores (sonoridade sombria), bateria eletrónica, teclados, samplers, sequenciadores e sintetizadores que constroem uma instrumentação eletrónica e dançante, porém, gótica e atmosférica.

Após o surgimento do rock gótico na Inglaterra através da cena pós-punk, a música dark wave foi de principal importância para caracterizar a subcultura gótica na década de 1980 e seguintes. No Reino-Unido foi uma explosão de bandas, umas mais célebres que outras: Attrition, In The Nursery, Pink Industry, Alien Sex Fiend, Specimen, The Cure, Bauhaus, Christian Death, Sisters of Mercy, Current 93, etc.

O movimento underground da coldwave/darkwave disseminou-se pela Europa e um pouco mais tarde no resto do mundo. Bandas como Clan of Xymox (HOL), Mittageisen e Young Gods (SUI), Poesie Noire (BEL), Laibach (Eslovénia), Psyche (CAN) e The Awakening (África do Sul).

As bandas italianas The Frozen Autumn, Ataraxia, Nadezhda, Litfiba e Diaframma tiveram um relativo sucesso.

A coldwave francesa é muito melancólica, falam do infortúnio, das sombras e baseada em ritmos electrónicos espectrais e fantasmagóricos. Nesta levada estão incluídas bandas como: Corpus Delicti, Die Form, KaS Product, Martin Dupont, Asylum Party, Norma Loy, Clair Obscur, Opera Multi Steel, The Breath of Life e Trisomie 21.

Os grupos de dark wave na Alemanha dos anos 1980 misturavam cold wave com o rock gótico, ou usando elementos da Ambient music e do post-industrial music. Ficaram associados ao  movimento Neue Deutsche Welle, que incluía bandas como Asmodi Bizarr, II. Invasion, Unlimited Systems, Mask For, Moloko †, Maerchenbraut, Liaisons Dangereuses, Einstürzende Neubauten   e Xmal Deutschland. 

Entre 1987 e 1995, surgiram novas bandas darkwave, com outras temáticas góticas tais como tabús eróticos, religião e épicos. As sonoridades principais são dark-ambient, industrial, militar, electro-indsutrial: Die Form, Skinny Puppy, Front Line Assembly, Wumpscut,  Armageddon Dildos e  And One.

A forte influência na Alemanha
Após o desaparecimento das cenas grandes da new wave e do pós-punk em meados da década de 1980, o dark wave ressurgiu, entre 1993-95 como um movimento underground com bandas da Alemanha, como Deine Lakaien, Love Is Colder Than Death, Love Like Blood, Diary of Dreams, além de Project Pitchfork e Wolfsheim. Ao mesmo tempo, um grupo grande de artistas alemães, que incluía Das Ich, Relatives Menschsein e a banda Lacrimosa, desenvolveram um estilo mais teatral, inspiradas na poesia germânica e em letras mais metaforizadas, chamando essa subdivisão de Nova Arte Fúnebre Alemã . Outras bandas, como Silke Bischoff, In My Rosary e Engelsstaub misturavam o dark synthpop ou o rock gótico com elementos do Neofolk ou do Neoclassical Dark Wave.

Diversidade de estilos nos EUA
Após 1993, nos EUA, o termo dark wave (como variante do jargão darkwave) foi associado com a gravadora Projekt Records, pois esse era o nome usado em seus catálogos, além de ser usado para denominar artistas alemães nos EUA, como o Project Pitchfork. A gravadora tinha bandas como Lycia, Black Tape for a Blue Girl, e Love Spirals Downwards, todas caracterizados por ter vocais femininos. Essas bandas tocavam uma nova vertente do wave, de origem das bandas dos anos 80, como Cocteau Twins, sendo o estilo classificado como ethereal wave. A gravadora também listava uma longa associação com o Attrition, que havia aparecido nas suas primeiras compilações musicais. Outra gravadora americana nessa área foi a Tess Records, que gravava os discos do This Ascension e Faith and the Muse. Ainda nos EUA, a darwave é mais variada que a da Europeia. EUC, por exemplo incluem elementos psicadélicos. Um grande número de outras bandas americanas misturaram a dark wave e a ethereal wave com outros projetos na música eletrónica. Love Spirals Downwards, Collide, e Switchblade Symphony incorporaram elementos do trip hop, enquanto o The Crüxshadows combinava uma série de electronic dance music contemporâneo com elementos do rock alternativo baseado nos elementos do estilo synth. A dark wave disco, foi uma tentativa fundada em 2004 na cidade de Chicago com a intenção de mesclar a dark new wave music com o atual indie-electro music. Seu legado foi o ressurgimento da new wave e da brand new electro nights em Chicago. No começo dos anos 2000, Jay Reatard formou o híbrido prolífico de garage punk/dark wave chamado Lost Sounds. 

Em Portugal
A coldwave portuguesa não teve muita expressão. Não passaram de bandas de garagem. Sem o saber, alguns temas de António Variações. Algumas músicas iniciais do Paulo Bragança, enquadram-se no gótico (influências de Nick Cave, Birthday Party). Bandas darkwave que duraram pouco tempo: Croix Sainte, Anamar, Diva, Essa Entente, Linha Geral, SPQR, A Jovem Guarda, Linha Geral, Bye Bye Lolita Girl, Grito Final, Bastardos do Cardeal, Magudesi, Extrema Unção e Os Cães, A Morte & o Desejo.  Surgiram projectos muito interesantes e únicos- os Pop_Dell'Arte e  Mler Ife Dada.  Agora em termos rock gótico temos os Mãos Morta e Rádio Macau. Uma banda de rock indie e alternativo foram os Sétima Legião.

Surgiram novas tendências:  Emo; Dark electro; AggrotechElectro-industrial;  EBMFuturepop

No Japão surgiram as subculturas Visual keiLolita fashion; Cosplay e Otaku

Cibergóticos
O termo 'Cybergoth' foi cunhado em 1988 pela Games Workshop para o seu jogo de RPG- Dark Future. Surgiram, entretanto, vários video jogos retrofuturistas ou pelo contrário, futuristas, como Shadowrun

O cybergótico é uma combinação de elementos da estética industrial com "gravers" (ravers góticos). Mas o estilo de moda não existia até uma década depois. 

A estética Cybergoth teve o seu momento ao sol graças a um vídeo que se tornou viral nos primeiros dias do YouTube, que desde então se tornou um marco na cultura dos memes. A partir de 2000 era habitual encontrar então cibergóticos: é baseado em cores fluorescentes e usa pvc, vinil e outros materiais de aparência artificial para criar um estilo de aparência futurista. O cabelo é tingido em cores não naturais e adornado com mechas coloridas, também conhecidas como cyberlox, que podem ser feitas de lã, espuma, borracha ou tecidos. A androginia é comum.

Também comum:
  • Tecidos brilhantes/brilhantes ou foscos
  • Cabelos coloridos e extravagantes, com mechas sintéticas
  • Maquiagem com cores claras
  • Placas de circuito de LED
  • Modificação corporal (tatuagens/piercings)
  • Máscaras de gás
  • Óculos retro ou metalúrgicos 
  • Botas com salto
  • Calças ou coletes pretos apertados
  • Redes de pesca
  • Aquecedores de perna de pele falsa ("fofo")
Bandas famosas de cibergótico: Angels on Acid; Toxic Nation; Otto Dix; The Prodigy; Carmilla;V2A; Front 242; Naked Underrated; Black Elves; Test Dept e Clock DVA

A Alemanha produziu muitas bandas techno-punk /underground techno/ cibergótico: Salted Bomb; The Siren; Crossbow; Hilbert Space; Mayday; Roentgens; LF05 - Lukas Freudenberger; Dosis; I feel Youth; Numbers; Melodrama; Mind Grabber; Party Favors; Shelter of Sin; Eye of The Beholder e Cortechs.

As últimas tendências cibergóticas Deep Dark and Hard Techno podem ser descobertas no canal Fear N Loathing

Os cibergóticos (a sua indumentária e dança exuberantes) reflectem sobre a crise ecológica, questionam este mundo cheio de pesticidas, nanobiotecnológico, radioactivo (ficção gótica da era pós-apocalipse nuclear, posição crítica em relação à tecnologia HAARP e 5G), o progresso acelerado da inteligência artificial, o desdém/paixão pela robótica e perscrutam o alarme totalitário da Big Tech. Era comum o uso de máscaras. Não imaginávamos era que vinha mesmo aí a crise pandémica. E estamos na revolução 4.0 e "impreparados" para os seus efeitos. A ver.

Outras subculturas cibergóticas: Cyberpunk; Steampunk; Dieselpunk; Biopunk; Arcologia; Rivethead 

2022
Actualmente ainda estão no activo bandas darkwave consagradas: Laibach, And Also The Trees, Clan of Xymox, She Past Away, Young Gods, She Wants Revenge, The Knife, The Frozen Autumn, Lebanon Hanover e Drab Majesty.

Para estar actualizado de novas bandas góticas, sintonize Atmosphère - Radio Arverne

Saber mais:

The Story of Goth in 33 Songs

Sites interessantes:
Fantasporto - Oporto International Film Festival
Gothic Beauty Magazine
Gothic Culture Magazine
Goth Wiki
Subculture List
Urban Dictionary