Mostrar mensagens com a etiqueta Minas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Minas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de janeiro de 2026

Kumi Naidoo : For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels


Why is a global fossil fuel treaty needed and what should it look like?
For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels. We have been standing in a flooding room, mopping the floor instead of turning off the tap. Eighty-six per cent of climate change is caused by coal, oil and gas, yet the global system still allows – even subsidises – their expansion. A treaty will give us a clear, fair and binding plan to end fossil fuel expansion, phase out existing production and support a just transition for workers and communities.

An ambitious treaty would have three pillars: no new investments in coal, gas or oil projects, a phase-out of existing production, based on science and equity, and a fast, funded transition that supports communities, workers and global south countries. This is a roadmap to turn off the tap at the source, something the current global system has failed to do.

The First International Conference for the Just Transition Away from Fossil Fuels, co-hosted by Colombia and the Netherlands, will take place in Santa Marta, Colombia, on 28 and 29 April, bringing together governments, experts and communities to develop policies for a transition in line with the Paris Agreement.

How can a treaty succeed where the COP series of climate summits has failed?
The COP process requires consensus from almost 200 governments, including many captured by fossil fuel interests. This leads to deals that are full of loopholes and not very binding. In contrast, a treaty can be negotiated by a coalition of the ambitious, set binding rules to stop expansion and deliver a governed, financed just transition.

This approach works. Think of the Landmine Convention or the Ozone Treaties. They didn’t need every country to start, just enough courageous ones to lead. Almost every major treaty began with a small group of pioneers. Once they move, they can set new global norms, shift finance away from fossil fuels and create economic and moral pressure on those lagging behind. A treaty supported by even 20 or 30 determined states can reshape diplomacy and global markets.

And the courage is already emerging. It’s coming from those on the frontlines of climate impacts: Caribbean and Pacific Island states and even some fossil-fuel exporters such as Colombia, Pakistan and Timor-Leste.

Of course there are obstacles. Powerful fossil fuel corporations drive corruption and political capture. Governments fear losing revenue from fossil fuel extraction and old patterns of global inequality continue to shape the global response. But as has been said before, first they ignore you, then they laugh at you, then they fight you – and then you win.

What’s civil society bringing to the process?
Civil society is not just at the table – it’s the one that built the table. This treaty initiative grew directly out of the work of climate justice networks, communities, frontline organisers, Indigenous peoples and youth activists. Over 2,000 civil society organisations now support the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, alongside 101 Nobel laureates, 3,000 scientists and academics, the European Parliament and the World Health Organization. In 2023, Pacific civil society groups launched the Naiuli Declaration, the first endorsement of the treaty by an entire region’s civil society groups, demonstrating the power of grassroots leadership in this movement.

Civil society brings moral courage where governments hesitate, people power where institutions stagnate and art, culture and storytelling that reach the heart in ways data cannot. From the anti-apartheid movement in my youth to Greenpeace to Amnesty, I’ve seen that movements are the midwives of progress. There is vast space and an urgent need for civil society leadership.

Why should organisations and states join this initiative?
Because our children will one day ask us a simple question: when the moment of truth came, did you turn off the tap, or did you keep mopping until the flood swept us away?

Joining the treaty means choosing justice over delay, courage over convenience and solidarity over short-term profit. The treaty must directly improve people’s lives, reduce inequality and safeguard democratic space. It’s not about saving the planet, because the planet will survive us. It’s about saving ourselves, our human dignity and our shared future.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Ucrânia: 13.500 km² de vias navegáveis ​​​​contaminadas por minas e explosivos


Aproximadamente 13.500 km² de vias navegáveis ​​na Ucrânia, incluindo o rio Dnieper, lagos e a costa do Mar Negro, estão potencialmente contaminadas por minas e restos explosivos de guerra, estimou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) a 12 de novembro. Esta área é comparável em tamanho ao Montenegro, observou a agência da ONU.

Até à data, os mergulhadores do Serviço Estatal de Emergência da Ucrânia conseguiram limpar apenas 190 km², ou 1,4% da área contaminada, e removeram mais de 2.800 engenhos explosivos, segundo o PNUD. Para acelerar os esforços de desminagem, a Ucrânia está a utilizar robôs subaquáticos capazes de localizar munições a profundidades até 300 metros, mesmo em condições de baixa visibilidade e fortes correntes.

Desde 2014, enfrentando um conflito no leste do país e a anexação da Crimeia, e desde 2022 uma invasão em grande escala, a Ucrânia é agora o país mais contaminado por explosivos do mundo. Segundo o governo ucraniano, 136.952 km², ou 23% do território, continuam afetados por minas terrestres e munições não detonadas.

Já em 2024, Natalia Gozak, diretora da Greenpeace Ucrânia, alertou à Reporterre que a guerra era “um fardo tóxico para gerações”. Em três anos de guerra, a invasão russa da Ucrânia gerou o equivalente a 230 milhões de toneladas de CO₂, de acordo com um estudo da Initiative on Greenhouse Gas Accounting of War, publicado em fevereiro.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Ministro invocou motivos de agenda para não receber Francesca Albanese



Francesca Albanese veio esta semana a Portugal para dar algumas conferências sobre o genocídio em Gaza e o Direito Internacional. Na quarta-feira esteve no ISCTE, esta quinta-feira irá ao CCB e na sexta é a vez da Universidade de Coimbra. Pelo meio está previsto um encontro no Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas o ministro Paulo Rangel, que recentemente teve de recuar na sua posição sobre a bandeira portuguesa no navio que transporta explosivos para Israel, invocou motivos de agenda para não a receber. E em vez de ser recebida por um secretário de Estado, será um diretor-geral do Ministério a marcar presença no encontro.

Na manhã desta quinta-feira, a relatora especial da ONU foi recebida por deputados na Assembleia da República. No final do encontro, a coordenadora bloquista Mariana Mortágua lamentou que o ministro tenha optado por não receber Francesca Albanese “como era sua responsabilidade como representante do Governo português”. E considerou a ausência como “mais uma das contradições do Governo” no que diz respeito à Palestina, a juntar à da defesa dos dois estados sem reconhecer o Estado da Palestina. E para o Bloco a prioridade agora passa por reconhecer o Estado da Palestina e parar o massacre, caso contrário “não vai ter população para reconhecer daqui a uns meses”.

Mariana Mortágua destacou a importância da presença de Albanese no Parlamento português, elogiando a forma clara e simples como coloca o problema que está em causa: que “as ações de Israel só podem ser enquadradas num projeto racista, expansionista, de ocupação do território palestiniano e extermínio da sua população” e que por isso “não se trata de uma resposta, de uma defesa, não se trata sequer de uma vingança, mas sim de “um plano de longo prazo” para a Palestina com aquelas características.

A coordenadora do Bloco criticou ainda o ministro Paulo Rangel por dizer na ONU que Israel tem o direito à legítima defesa mas que cometeu “excessos” em Gaza. “O genocídio não é excesso, é crime internacional”, prosseguiu Mariana, concluindo que o argumento dos “excessos” não faz mais do que revelar “a natureza da cumplicidade” de muitos estados com Israel. A coordenadora do Bloco agradeceu ainda a pressão feita por Albanese para a retirada da bandeira portuguesa do navio Kathrin, considerando-a “decisiva” para a “vitória da mobilização popular e da pressão que fizemos” junto do Governo que tinha começado por negar que houvesse navio e depois que houvesse explosivos a bordo.

Em conferência de imprensa na quarta-feira, Albanese congratulou-se com a retirada da bandeira do cargueiro Kathrin, mas sublinhou que “a questão mais urgente é saber o que é que Portugal vai fazer para não ter qualquer relação política, diplomática ou económica com Israel que possa prejudicar os palestinianos. O que é que o Governo vai fazer sobre o reconhecimento do Estado da Palestina. O que é que é preciso?”, questionou.

Albanese diz acreditar que “os arquitetos deste genocídio vão ser responsabilizados” e que a pressão sobre os governos para aplicarem o Direito Internacional “é um imperativo moral para todos nós”. Questionada sobre se o corte de relações diplomáticas com Israel não seria um passo excessivo, responde que “há um genocídio a acontecer, e mesmo se não lhe quiserem chamar genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade, o que seja: não se apoia um país no momento em que este comete atrocidades, e isto não começou ontem.”

A relatora das Nações Unidas defendeu que “este deve ser o momento para o Governo de Portugal ter um papel exemplar. Eu vejo como o vosso país vota nas Nações Unidas. Este é o momento de passar à ação. Qual é a coerência em dizer que concordam com a autodeterminação mas não reconhecem o Estado da Palestina? Isto é uma incoerência. Onde está o compasso moral da Europa?”, voltou a perguntar, contrapondo que “[os palestinianos] têm o direito de existir como povo num ou em dois Estados”.

Francesca Albanese foi também questionada pelos jornalistas sobre o recente anúncio de considerar o secretário-geral da ONU como persona non grata. “Já não há palavras. O mandato do secretário-geral vai ser marcado por este genocídio. Ele tem estado debaixo de grande pressão mas foi muito corajoso. Quanto ao facto de ter sido declarado persona non grata, já somos dois. É o que é”, concluiu.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Ucrânia tem 139.300 km2 de território minado - o equivalente a um Portugal e meio


Minas terrestres custam 10 mil milhões de euros por ano à Ucrânia, aponta relatório

As minas terrestres custam à Ucrânia 10 mil milhões de euros por ano, segundo um relatório do Ministério da Economia do país e do Tony Blair Institute for Global Change publicado esta terça-feira.

O relatório aponta que as minas forçam a criação de zonas de exclusão, o que dificulta as exportações e a captação de impostos.

"Esta não é apenas uma questão ucraniana, é um imperativo global. O mundo deve unir-se para apoiar a desminagem urgente da Ucrânia, não só para apoiar a resiliência e a recuperação económica da Ucrânia mas também para garantir a estabilidade do abastecimento alimentar a centenas de milhões de pessoas vulneráveis em todo o mundo", disse Tony Blair, presidente do instituto com o seu nome, citado pela Reuters.

De acordo com um relatório da ONU e do governo ucraniano, publicado em fevereiro deste ano, a Ucrânia é neste momento o país mais minado do mundo. As regiões mais afetadas são Kharkiv, Sumy, Chernihiv e Mykolaiv.

Atualmente, 139.300 quilómetros quadrados de território ucraniano - uma área superior à de Inglaterra - estavam minados, conclui o relatório.

Uma estimativa do Banco Mundial, citada pela Reuters, afirma que serão necessários mais de 31 mil milhões de euros para desminar todo o território da Ucrânia.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

RD Congo - Transição ecológica, a que custo? Relatório expõe face oculta da extração de cobalto e cobre


A expansão das minas industriais de cobalto e cobre na República Democrática do Congo (RDC) para baterias de veículos elétricos e outras tecnologias verdes levou à expulsão forçada de comunidades inteiras e a graves violações de Direitos Humanos, desde agressões sexuais, fogo posto ou espancamento, denunciou a Amnistia Internacional.

A República Democrática do Congo é um dos maiores produtores mundiais de cobalto - um mineral utilizado para fabricar baterias de iões de lítio para veículos elétricos e outros produtos - mas também é o maior produtor africano de cobre, uma matéria-prima utilizada em veículos elétricos ou noutros sistemas de energia renovável.

No relatório "Powering Change or Business as Usual?", divulgado esta terça-feira, a Amnistia Internacional e a organização Initiative pour la Bonne Gouvernance et les Droits Humains (IBGDH), com sede na República Democrática do Congo, descrevem o modus operandi das empresas multinacionais para expandir as operações mineiras que resultam na expulsão das comunidades das suas casas e das suas terras, sem uma reinstalação adequada.

A procura crescente das apelidadas “tecnologias de energia limpa” criou uma corrida das empresas a determinados metais, como o cobre e o cobalto, indispensáveis ao fabrico de veículos elétricos ou telemóveis.

Enquanto a bateria de um telemóvel requer sete gramas de cobalto, a bateria média de um veículo elétrico requer mais de 13 quilos. Desde 2010, a procura de cobalto triplicou. E prevê-se que atinja 222 mil toneladas até 2025.

"O mundo precisa urgentemente de se afastar dos combustíveis fósseis, que são os principais fatores da crise climática, mas a que custo?", questiona a Amnistia Internacional.

A organização reconhece a função vital das baterias recarregáveis na transição energética dos combustíveis fósseis, mas considera que “a justiça climática exige uma transição justa” e não à custa da violação de Direitos Humanos.

“A descarbonização da economia global não deve conduzir a mais violações dos direitos humanos, nem impedir as comunidades de usufruírem do seu direito à habitação”, defende em comunicado.

“Há minerais aqui”, têm de sair
A expansão das minas de cobalto e cobre à escala industrial no país tem conduzido a desalojamentos forçados, através de ameaças ou intimidações à população, conta o relatório das duas organizações de defesa dos Direitos Humanos.

Candy Ofime, uma das investigadores e co-autoras do relatório, explica o que está acontecer na RDC, num vídeo publicado pela Amnistia Internacional na sua conta da rede social X (antigo Twitter).

Em 2022, a Amnistia Internacional e o IBGDH estiveram na cidade de Kolwezi, na província de Lualaba, no sul do país, onde entrevistaram mais de 130 pessoas de seis projetos mineiros diferentes, que relataram a expulsão forçada de várias comunidades das suas casas e terras agrícolas.

A maioria testemunha que as comunidades não foram devidamente consultadas ou informadas e os planos de expansão das minas nunca foram tornados públicos. Em três dos quatro locais visitados, na cidade de Kolwezi e nos seus arredores, há testemunhos fortes de casos de violência sexual, fogo posto e espancamento.

"Não pedimos para ser deslocados, a empresa e o governo vieram e disseram-nos: 'Há minerais aqui'", contou Edmond Musans, de 62 anos, que teve de desmantelar a sua casa e partir, da cidade de Kolwezi.Desde que uma vasta mina de cobre e cobalto a céu aberto foi reaberta em 2015, pela Compagnie Minière de Musonoie Global SAS (COMMUS), uma empresa comum entre a Zijin Mining Group Ltd, uma empresa chinesa, e a Générale des Carrières et des Mines SA (Gécamines), a empresa mineira estatal da RDC.

Já na zona de Mukumbi, perto do local do projeto Mutoshi, gerido pela Chemicals of Africa SA (Chemaf), uma subsidiária da Chemaf Resources Ltd, com sede no Dubai, os antigos residentes testemunharam que foram forçados a partir das suas casas pelo representante do Chemaf e que os militares queimaram uma povoação e agrediram fisicamente a população para os obrigar a sair.“Têm de sair da aldeia agora", recordou Kanini Maska, um antigo residente, de 57 anos. "Não conseguimos recuperar nada, não tínhamos nada para sobreviver e passámos as noites na floresta”, acrescentou.

Também perto de Kolwezi, o projeto Metalkol Roan Tailings Reclamation (RTR), gerido por uma filial do Eurasian Resources Group (ERG), com sede no Luxemburgo e cujo maior acionista é o governo do Cazaquistão, levou ao despejo forçado de uma comunidade de agricultores.

Vinte e um foram expulsos, sem aviso prévio de despejo, por um destacamento de soldados que ocuparam a área, com alguns cães, enquanto os campos que tinham eram demolidos.

Uma mulher grávida relatou que, estava a tentar a recuperar as suas colheitas antes de serem destruídas quando foi violada em grupo por três soldados, enquanto outros soldados assistiam. Mais tarde, precisou de assistência médica e confessou ter tido medo de comunicar à Metalkol ou às autoridades locais.

"Direitos das comunidades não devem ser espezinhados"
Depois das autoridades nacionais da RDC terem levado a cabo ou facilitado a expulsão de comunidades inteiras e a violação de Direitos Humanos, o relatório “Powering Change or Business as Usual?” insta as autoridades do país a cessarem imediatamente estas ações.

A organização apela também à criação de uma comissão de inquérito imparcial sobre a situação e no reforço da aplicação das leis nacionais relacionadas com a exploração mineira e a proteção dos direitos das pessoas, em conformidade com as normas internacionais em matéria de Direitos Humanos. Nomeadamente, o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais e nos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos.

"As empresas mineiras internacionais envolvidas têm bolsos fundos e podem facilmente dar-se ao luxo de fazer as mudanças necessárias para salvaguardar os direitos humanos, estabelecer processos que melhorem a vida das pessoas na região e remediar os abusos sofridos”, afirmou Donat Kambola, diretora do IBGDH, em comunicado.

De acordo com a Amnistia Internacional e a IBGDH, os compromissos das multinacionais que alegadamente aderem "a elevados padrões éticos revelaram-se vazios", por não garantirem que as suas atividades não prejudicam as comunidades locais. As empresas mineiras presentes no país têm a responsabilidade de investigar os abusos identificados, proporcionarem uma reparação efetiva dos danos ou agirem prontamente para evitar mais danos.

"A República Democrática do Congo pode desempenhar um papel fundamental na transição mundial dos combustíveis fósseis, mas os direitos das comunidades não devem ser espezinhados na corrida à extração de minerais críticos para a descarbonização da economia mundial”, concluiu Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Minas são usadas em 'quantidades surpreendentes’ na Ucrânia, que pode ter 30% de seu território contaminado



Simples, mortais e eficientes: as minas explosivas são usadas em "quantidades surpreendentes" na Ucrânia, incluindo alguns tipos proibidos por tratados internacionais, tornando o país um dos maiores campos minados do mundo, segundo especialistas.Contexto: Minas terrestres fazem mais de 5 mil vítimas por ano no mundo

Cerca de 30% do território ucraniano poderia estar contaminado com minas, mas é "impossível contá-las e cartografá-las" num país em guerra, admitiu Baptiste Chapuis, organização não governamental Handicap International, após uma visita à Ucrânia.

Do ponto de vista militar, a guerra na Ucrânia marca o grande retorno do uso de minas — disse Stéphane Audrand, especialista em riscos internacionais, observando que elas são usadas em "quantidades surpreendentes" no conflito iniciado em fevereiro do ano passado.

As minas terrestres convencionais direcionadas a veículos inimigos são permitidas, mas dispositivos antipessoal que buscam mutilar ou matar humanos são proibidos pelo Tratado de Ottawa, assinado em 1997 por mais de 160 países. A Ucrânia é signatária da convenção, mas grandes potências como Rússia, China e Estados Unidos não.

Munição proibida
Minas são um componente chave da linha defensiva russa. De acordo com um relatório recente do centro de estudos Rusi, com sede em Londres, “a Rússia espalhou extensivamente minas antitanque e antipessoal. Estas últimas são frequentemente colocadas com múltiplos mecanismos de ativação para evitar que [tropas inimigas] cruzem" as linhas de defesa.

Em conformidade com a convenção de Ottawa, a Ucrânia começou a destruir suas minas antipessoal, mas suspendeu o processo em 2014, no início da guerra no Donbass, quando a Rússia anexou à força a península da Crimeia.


As minas antipessoal foram usadas por todos [na guerra russo-ucraniana], mas não em proporções comparáveis — disse à AFP uma fonte humanitária sob condição de anonimato.

As minas podem matar ou ser projetadas para, principalmente, mutilar, arrancando extremidades do corpo ou atingindo o abdômen. E mesmo após o fim de um conflito armado, esses artefatos podem permanecer enterrados, com enorme risco para a população civil.

As minas “prejudicam civis há décadas e põem em risco o retorno da vida econômica e social por muito tempo”, explicou Chapuis.

Especialistas acreditam que a desminagem na Ucrânia pode levar décadas, complicada pelas inundações causadas pela recente ruptura da barragem de Kakhovka.

Antes disso, "sabíamos onde estavam os perigos", disse Erik Tollefsen, chefe da Unidade de Contaminação com Armas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Agora não sabemos. Esta é uma grande preocupação porque vai afetar não só a população mas também quem vem ajudar — acrescentou. — As partes no conflito não divulgaram o número de minas, sabemos apenas que são enormes.

Diversidade preocupante
Algo "específico do conflito ucraniano é a excepcional diversidade nos tipos de munição utilizados", disse Chapuis. Além das minas antitanque e antipessoal, os grupos de monitoramento documentaram o uso extensivo de bombas de fragmentação, que dispersam minibombas em uma área mais ampla.

As minibombas não detonadas com o impacto permanecem no solo como minas e são uma ameaça letal — esses artefatos podem permanecer sem explodir em 15% a 30% dos casos. Isso motivou a elaboração da convenção de Oslo de 2008 contra seu uso, mas Rússia e Ucrânia não são signatárias e ambas as teriam usado durante a guerra, de acordo com a ONG Coalizão Contra as Bombas de Fragmentação.

As forças russas são conhecidas por esconder dispositivos explosivos improvisados, plantando-os em animais ou carcaças, além de criar armadilhas elaboradas em estradas, campos e florestas.

Mesmo no mar, as minas são amplamente utilizadas.
No início do conflito, os ucranianos possivelmente impediram que os navios russos chegassem às suas costas com minas no Mar Negro — disse Audrand, acrescentando que essas minas são "muito eficazes, baratas e, em termos de impedir o acesso, funcionam", mas, ao mesmo tempo, representam um grande risco para o tráfego naval.

    sexta-feira, 12 de novembro de 2021

    Six areas where action must focus to rescue this planet


    For some time, the Earth’s natural resources have been depleted faster than they can be replaced. The Intergovernmental Panel on Climate Change has set a 2030 deadline to reduce heat-trapping emissions by half to avoid climate change that is both irreversible and destructive.

    With colleagues, we coauthored a climate emergency warning paper in 2019. It has now been co-signed by 14,594 scientists from 158 countries. We also produced an extension in 2020 and a grim update in 2021. Our warnings are supported by thousands of research studies, many referenced in the Intergovernmental Panel on Climate Change papers.

    In our new paper, we move beyond warnings and call for concrete actions. These must happen in six areas, at six levels – from household to community, city, state, nation and global – and on three timescales.

    In the next three decades, the world must dramatically decrease greenhouse gases in the atmosphere to return to a more stable climate. To do this, we identify priority actions for energy, pollutants, nature, food, population and economy.

    This takes place on three timescales – by 2026, 2030, and 2050. By 2050, carbon dioxide emissions must not exceed removals. After that, we must lower atmospheric concentrations by taking enough carbon out of the atmosphere.

    Our paper, summarised here, is intended to guide society, decision makers, planners, managers and financial investors with a framework for action. Yet humanity’s biggest challenges are not technical, but social, economic, political and behavioural.

    Energy: less, cleaner, more with less
    It is essential to reduce demand for energy by increasing energy productivity. That means getting more energy services – heating, cooling, lighting, transport, electricity and mechanical work – out of less primary energy. Fossil fuels are the largest sources of heat-trapping carbon dioxide and methane, and must be replaced. Our paper recommends the following:
    1. Follow much more ambitious road-maps for energy transformation to halve carbon dioxide emissions by 2030.
    2. Create economic incentives to provide energy services with less primary energy.
    3. Replace primary energy from coal, oil, natural gas and wood with solar, wind, geothermal, tidal and hydro energy, wherever ecologically appropriate.
    4. Account for all emissions and black carbon (soot) from burning bioenergy.
    5. Levy high carbon prices on air travel, inefficient vehicles, appliances, buildings and carbon intensive goods.
    Pollutants: reduce and remove
    Methane, nitrous oxide, hydrofluorocarbons, black carbon and other atmospheric pollutants add directly to global heating. Our warming world is melting permafrost, releasing heat-trapping methane. Policies must:
    1. Rapidly reduce methane emissions from agriculture, industry, and oil and gas production.
    2. Develop effective atmospheric methane removal practices.
    3. Require large methane producers to pay for atmospheric removal.
    4. Reduce methane, nitrogen oxides, carbon monoxide and non-methane hydrocarbons that produce heat-trapping pollutants.
    5. Reduce emissions of hydrofluorocarbons from refrigerants, solvents and other sources.
    6. Reduce nitrous oxide emissions from fertilisers, fossil fuel combustion and industrial processes.
    7. Natural climate solutions
    Biodiverse natural ecosystems, including forests, wetlands, grasslands, peatlands and oceans, are essential for our planet to function. This includes carbon management. They remove and store 56% of annual carbon emissions, preventing additional warming.

    Society needs to:
    • Protect carbon dense ecosystems to cover 30% of the Earth’s surface by 2030 and remove all emitted carbon dioxide by 2050.
    • Halt destruction of these essential systems.
    • Restore degraded ecosystems.
    • Greatly reduce land conversions by 2026 and halt them by 2030.
    Food system reform
    Agricultural production is failing to sustain Earth’s nearly 8 billion people without unacceptable damage to climate, land and water. The global food system generates more than 25% of greenhouse gas emissions and consumes 70% of freshwater. Expanding inefficient agriculture causes deforestation and nutrient runoff. It creates coastal low oxygen dead zones. To avoid widespread famines this century, leaders and farmers must:
    1. Shift production to foods that use land and water more efficiently.
    2. Use farming methods that regenerate the environment and store carbon in soils.
    3. Support farmers in these transitions, especially small farmers.
    Population stability
    Population growth undermines efforts to protect nature and people. Leaders and civil society should:
    • Embed population actions in economic, social and political agendas.
    • Invest more in family well-being through health, education and economic policies.
    • Support poorer families to advance economically and educationally.
    • Protect everyone’s right to life purposes other than parenting.
    • Increase aid for family planning.
    Economic reform
    Economies must operate within planetary boundaries. Leaders need to:
    1. Correct market failures through appropriate taxes, subsidies and regulations.
    2. Create economic frameworks for profitable activities that protect and restore nature.
    3. Introduce reforms to sustain farm and forest lands, oceans, rivers and wetlands.
    4. Introduce land rights and urban planning models that encourage efficient land use.
    5. Develop economic policies that halt loss of wild lands.
    6. Introduce policies to reduce climate altering emissions and restore socially efficient local production.
    We must accelerate these transformations, while maintaining social, economic and political stability. Effective and timely actions are still possible on many, but not all fronts. Avoiding each tenth of a degree increase in global temperature improves the lives of billions of people, thousands of species and ecosystems.

    Humanity can choose cooperation, wisdom, innovation, and ethics – or not. People can learn from past mistakes and create better societies. Leaders’ main challenge in the next decade may be to hold the rudder steady as society transforms on an almost impossible timescale. Our actions, or inaction, will determine whether we meet the challenges of the coming decades, and persist as civilised societies.

    quinta-feira, 1 de julho de 2021

    Magawa, o rato herói que deteta minas no Camboja, vai reformar-se

    Ao longo de uma carreira de cinco anos ajudou a limpar cerca de 225 metros quadrados de terreno e detetou 71 minas e 38 munições que não explodiram.
                                      

    Magawa, um rato gigante africano, vai reformar-se depois de cinco anos a trabalhar na deteção de minas no Camboja, uma experiência que ajudou a salvar muitas vidas e até lhe rendeu um prémio por bravura.

    "Ele já está um pouco cansado", disse à AFP Michael Heiman, chefe do programa de desminagem do Camboja da organização não-governamental belga Apopo. "O melhor é que se reforme", acrescentou.

    Nos últimos cinco anos, Magawa ajudou a limpar cerca de 225 mil metros quadrados de terreno, cerca de 42 campos de futebol, segundo a ONG, que treinou Magawa durante um ano na Tanzânia, seu país de origem.

    No total, o roedor detetou 71 minas e 38 munições que não explodiram.

    Em setembro, Magawa recebeu uma medalha de ouro da British Animal Protection Association (PDSA), que anualmente recompensa um animal por bravura. Magawa foi o primeiro rato a receber esta recompensa.



    De acordo com o PDSA, entre 4 e 6 milhões de minas foram instaladas no Camboja entre 1975 e 1998 e mais de 64 mil pessoas morreram por causa delas.

    A ONG belga Apopo, que atua na Ásia e em África, treina ratos para ensiná-los a identificar a tuberculose e também os usa para localizar minas, já que estes animais têm um talento especial para tarefas repetitivas quando são recompensados com as suas refeições preferidas. Além disso, por serem pequenos, estão protegidos das explosões.


    Para detectar a dinamite dos explosivos, o rato sabe que precisa de mover a terra para alertar os humanos para a sua descoberta.

    Essa técnica é mais rápida do que um detetor de metais.

    Magawa, que mede 70 centímetros, consegue inspecionar uma área equivalente a um campo de ténis em 30 minutos, tarefa que levaria quatro dias por um humano com detector de metais.

    Segundo a ONG, um grupo de cerca de 20 ratos especialmente treinados acaba de chegar ao Camboja e iniciará sua missão no país para detectar minas.

    Mas vai levar tempo para que igualem Magawa, que é "um rato extraordinário", de acordo com Michael Heiman. "Sentiremos a sua falta", acrescentou.

    segunda-feira, 7 de junho de 2021

    Zionism and Hindu Nationalism Bring Israel and India Together


    When Israeli warplanes, artillery positions and armed drones rained missiles and bombs upon Gaza for 11 consecutive days last month, killing 253 Palestinians, 66 of whom were children, the Israeli Government received predictable support from the United States, but the words of solidarity it received from India has raised eyebrows around the world.

    Whereas Congressional Republicans and Democrats in the U.S. offered boilerplate talking points in defense of Israeli military aggression against a largely defenseless civilian population, members of India’s ruling party – Bharatiya Janata Party (BJP) – and its allies unabashedly pontificated their solidarity with the self-proclaimed Jewish state on social media.

    Indian journalist Rana Ayyub reviewed tweets posted under these hashtags and found that “a common thread that runs through is a visceral hatred for Muslims and a bloodlust to see Muslims massacred and shown their place,” adding, “Most handles followed by one or more BJP minister or the PM himself.”


    These tweets echoed pronouncements made by members of Prime Minister Narendra Modi’s Government, including Member of Parliament Tejasyi Surya, who posted on Twitter, “We are with you. Stay strong, Israel,” and a BJP spokesperson, Guarav Goel, who posted, “Dear Israelis, you are not alone, we Indians stand strongly with you.”

    These expressions of solidarity with Israel by members of India’s ruling party and its supporters make it easy to forget that the Indian relationship with Israel has been anything but close or even cordial, with previous Indian administrations expressing hostility towards Israel for its persecution of the Palestinian people and occupation of the Palestinian Territories.

    “Palestine belongs to the Arabs in the same sense that England belongs to the English or France to the French,” Mahatma Gandhi wrote in 1938. A decade later India would become one of only 13 countries to vote against the United Nations Partition Plan, which divided historic Palestine into two separate states – thus forming the foundation of the Israeli state in 1948.


    India also voted for a UN resolution that condemned Zionism as “a form of racism and racial discrimination,” stating, “The racist regime in occupied Palestine and the racist regime in Zimbabwe and South Africa have a common imperialist origin, forming a whole and having the same racist structure and being organically linked in their policy aimed at repression of the dignity and integrity of the human being.”

    India’s Cold War alliance with the Soviet Union also made it a natural opponent of the United States’ geopolitical orbit, while its large Muslim population helped the country maintain close ties with the Arab world, particularly the Palestinians – but when the Communist superpower collapsed in 1991, New Delhi hit the reset button on its relationship with Tel Aviv.

    A natural thawing of relations between the two former British ruled colonies has blossomed into a full blown “special friendship,” with many likening the bond between Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and Modi as a full blown “bromance,” one that oversaw a record $1.5 billion arms deal in 2016, making Israel the second-largest weapons exporter to the Indian state. Bilateral trade between the two countries has ballooned from $200 million in the early 1990s to nearly $6 billion today.

    This fledgling Modi-Netanyahu “bromance” is not only driven by trade deals, but also by shared values, as both Hindu nationalism and Zionism draw from the same spring of hate – ethno-nationalist ideologies. Whereas Hindu nationalists seek to transform India into a Hindu Rashtra (nation), one absent non-Hindu religious minorities, but particularly Muslims, Zionism aims to cleanse the Palestinian Territories of non-Jews, but particularly Muslims.



    At the core of the Modi Government’s ideological DNA is the militant Hindu organization Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), which has long admired Israel’s brutality of the Palestinian people. RSS chief Mohan Bhagwat gave voice to this sentiment when he said in 2016, “Israel was attacked by surrounding Islamic countries on five occasions, but the Israeli people repulsed their aggressions and extended their boundaries due to strong resolve to save motherland.”

    Somdeep Sen, an associate professor of international development studies at Roskilde University in Denmark, accurately observes, “The electoral successes of the BJP have meant that what was once a fringe Hindu nationalist love affair with Israel has now become a matter of public policy.”

    It’s no surprise then that India has modelled its settler-colonial-project in Kashmir on Israel’s settler enterprise in the Palestinian Territories by turning military outposts into settlements, and settlements into bona fide towns and even small cities. In both projects, the occupying force rules over a restive Muslim majority population, and it’s for this reason India has turned to Israel for its supply of occupation management tools and strategies.

    domingo, 13 de dezembro de 2020

    Breve viagem à lógica do horror

    Por Helena Araújo

    Com o intuito de facilitar a leitura, transcrevo para aqui um thread bastante longo de Francisco Feijó Delgado no Twitter. Espero que ele não me leve a mal. 

    Diz, portanto, Francisco Feijó Delgado ( @sheeko ):
     
     O @cvazmarques  foi acusado de tirar a afirmação de JRS fora de contexto. Vendo a entrevista toda e lendo a clarificação adicional, há pouca dúvida: é JRS que tira do contexto e produz afirmações de uma ligeireza enorme. Vejamos.


    Quem vê a entrevista e lê a justificação sai com a seguinte ideia transmitida por JRS: que os nazis, nas suas cabeças, justificaram o extermínio dos judeus – um mal necessário – com razões humanitárias para com os judeus. 

    Deixo claro que não estou a acusar o JRS de revisionismo ou sequer de dizer que acha que as acções dos nazis foram humanas. Claro que não. O que contesto é que haja qualquer consideração humanitária para com os judeus como razão para o holocausto. 

    Os nazis podiam invocar considerações “humanitárias”, só que não há, no processo, qualquer desejo de minimizar o sofrimento das vítimas, mas sim de distanciar progressivamente os carrascos das suas vítimas.

    A historiografia do processo que culminou com o extermínio em massa dos Judeus é complexa, em parte pq se desenvolveu sob o conceito de “trabalhar para o líder”, em que os diversos agentes procuravam interpretar e executar aquilo que consideravam ser os desígnios do Führer. 

    É por isso que não existe uma ordem ou directriz de Hitler a mandar exterminar os judeus.

    JRS invoca a preocupação pelos judeus, citando uma carta de um oficial nazi, Höppner, a Eichmann em que propõe um método de morte rápida para lidar com os judeus de Łodz: uma “solução mais humana”. Mas é JRS que tira tudo isto do contexto e faz uma afirmação pouco cuidadosa. 

    É JRS que tira Höppner do contexto, tira a palavra “humanidade” do contexto, e tira o gasear dos judeus do contexto.

    A palavra humanidade significa compaixão, benevolência. Ser-se humano preocupar-se, minorar o sofrimento de outros e dar-lhes dignidade. Ignorando casos individuais, é possível dizer que houve compaixão pelos judeus no criar do processo que iria levar ao seu extermínio?

    A própria frase é um paradoxo, a não ser que se deixe de tratar os judeus como humanos, mas como sub-humanos. Então aí sim, podemos matar indivíduos de forma humana, como matamos animais. Foi isso que aconteceu? Já lá iremos.

    JRS cita Höppner para atribuir um lado compassivo ao processo dos nazis. “Estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana.”

    Antes de mais, não questiona sequer onde está a humanidade no porquê de estarem a morrer de fome, ou no porquê de não os poderem alimentar? Como é que uma pessoa pode ser “humana” na morte doutrem, sendo que em tudo desumaniza a sua vida?

    Vale a pena contextualizar: Höppner era o chefe do Gabinete Central de Reinstalação (UWZ), especialista em deportações. Na altura os judeus estavam a ser deportados em cada vez maior número com a ideia de os colocar no Governo Geral, e se no início eram os das províncias ocupadas, em breve viriam a ser também os da Alemanha. A ghettização facilitaria o controlo e a deportação. Mas trazia problemas logísticos que se agravaram com a demora nas deportações e pouca orientação de Berlim, deixando líderes locais a ter de decidir por si. 

    Uns advogavam o declínio e a morte dos judeus, usando a fome deliberadamente, e outros o uso dos judeus como trabalhadores forçados. É neste contexto que Höppner escreve o memorando, numa altura em que a existência do ghetto, pensada como temporária, se eternizava: os judeus incapazes para o trabalho iriam morrer de fome, porque inicialmente a ideia era vender-lhes comida, extorquindo-lhes os bens, mas os bens acabaram. 

    O superior interesse do povo alemão era incompatível com subsidiar publicamente a alimentação dos judeus inaptos. 

    Havia portanto *um problema* a resolver. Não era a primeira vez que Höppner advogava, embora não tão explicitamente, a liquidação de indivíduos que causavam problemas burocráticos. Já em 1940:



    E ainda em 1940, um ano antes do tal memorando, em polaco, mas com rápida tradução em inglês:



    Nessas alturas, Höppner não teve qualquer pejo em propor a liquidação de pessoas para resolver os *problemas* com que se deparava. Em nenhuma dessas vezes achou por bem justificar as acções com razões humanitárias. 

    Vale a pena voltar ao memorando, q não acaba com «Seria melhor do que deixá-los morrer à fome», mas «Auf jeden Fall wäre dies angenehmer, als sie verhungern zu lassen.», i.e, “em qualquer dos casos, seria mais agradável do que deixá-los morrer à fome”. Agradável para quem?

    No parágrafo seguinte, num outro "exemplo de compaixão": propõe a esterilização das mulheres para acabar com o problema judaico naquela geração. Ficam as perguntas: - Houve alguma compaixão em Höppner? - Houve alguma preocupação em minorar o sofrimento dos judeus? 

    O uso da palavra “humanidade” está presente no discurso de muitos outros oficiais nazis, começando pelo próprio Hitler.



    Wilhelm Kube recusou-se a mandar liquidar judeus por fuzilamento enquanto não houvesse uma forma mais discreta e “humana”, tendo o seu superior, Heydrich, desautorizado-o.


    Kube, que no massacre do Ghetto de Minsk atirou rebuçados para crianças que estavam num fosso de areia para morrer, foi mais tarde assassinado.

    Himmler, que não apreciara a sua relutância relativamente às acções contra os judeus alemães, considerou o seu assassinato uma benção, que de qualquer maneira, o homem já tinha lugar marcado num campo de concentração.

    O facto é que há inúmeros exemplos de que as tais “razões humanitárias” eram humanitárias para os carrascos, não para as vítimas. O extermínio já tinha começado, mas matar pessoas com esquadrões de fuzilamento em grande quantidade é difícil: 




    A evolução foi tudo menos “humana” e, mais uma vez, com o objectivo de tornar o extermínio mais exequível. Até morte por explosivos foi testada, mas ir apanhar restos de corpos nas árvores não era agradável:





    O facto é que Hitler e os nazis criaram um ambiente que, como afirma Kershaw, não fez do genocídio um acidente, sem qualquer ponta de compaixão ou consideração pelos judeus.


    E Goebbels rejubilava com a vingança sobre a praga judia: «a única maneira de lidar com eles é com a brutalidade necessária»:



    As palavras têm de ser postas no contexto, interpretadas e calibradas. Alguém insuspeito que entrasse em Auschwitz até poderia pensar que o trabalho liberta. 

    Eichmann, no seu julgamento disse «nunca matei ninguém, nunca dei ordem para matar». E no entanto, foi um dos operacionais do extermínio dos judeus. Assassino não é só quem aperta o gatilho, e humano não é só quem se apressa a matar.

    Da mesma maneira que os nazis invocaram “razões humanitárias”, também Eichmann invocou que o trabalho dele não era matar ninguém. 

    A “humanidade”, era, no seu aspecto sistémico, uma qualidade interesseira, em que a compaixão era dirigida aos carrascos. Era uma maneira de eles se próprios se libertarem:

    De facto, a deturpação do conceito de “humanidade” tornou tudo ainda mais perigoso.


    JRS diz que eram pessoas normais nos campos, e pergunta o que levou essas pessoas a participar em acções de extermínio. Mas as pessoas normais já se tinham envolvido nas matanças. O que esta forma “humana” fez, foi facilitar ainda mais isso.





    Mas quem assiste à entrevista e lê o que escreve, vê JRS afirmar que os nazis eles próprios estavam convencidos de que estavam a fazer um mal necessário e que ainda tinham em conta o sofrimento dos judeus, tentando minorá-lo.

    A tal “humanidade” não era uma razão para o extermínio, como JRS diz, mas sim o instrumento fundamental para pôr uma indústria daquela escala a funcionar. Em Auschwitz, finalmente, poucos alemães teriam que directa e pessoalmente matar alguém.

    Eram meros operadores, técnicos especializados, que “só” tinham que deixar cair o conteúdo de uma lata por um tubo. Muito mais “humano” do que metralhar mais uma fila de judeus deitados sobre a fila que tinham metralhado há instantes.