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quarta-feira, 18 de março de 2020

Livro: Corporação 2020 – como transformar as empresas para o mundo de amanhã


Pavan Sukhdev, um economista ambiental, principal autor do relatório The Economics of Ecossystems and Biodiversity (TEEB), da ONU, publicou em 2012 o livro “Corporação 2020 – como transformar as empresas para o mundo de amanhã”. 

No livro ele analisa as Corporações 1920, empresas que se desenvolveram no século passado, operaram e prosperam através da expansão e criação de demanda, inovação dos produtos e produção barata, com pouca limitação às responsabilidades para seus acionistas e com redução de qualquer restrição imposta às suas atividades em questões de tempo, local e propósito. E compara com as Corporações 2020, empresas do futuro, que precisam de um novo DNA que inclua metas sociais, aumento do bem-estar humano, igualdade social, harmonia comunitária, e que reduza a escassez ecológica e os riscos ambientais de suas operações e forma de prosperar.

2020 chegou. E as Corporações 1920 ainda operam em nosso meio sem os elementos necessários deste novo DNA de Sukhdev. Mas existem sinais claros que estamos vivendo um processo de transformação na gestão de negócios e de marcas em direção à sustentabilidade.

Pela primeira vez a conferência de Davos do World Economic Forum indicou que os 5 principais riscos ao desempenho da economia mundial são ambientais. O manifesto publicado após a conferência prega que as empresas precisam envolver todas as partes interessadas para a criação de valor compartilhado e sustentando, não devem atuar apenas como uma unidade económica geradora de valor aos seus acionistas, deve também atingir objetivos ambientais, sociais e de boa governança para realizar as aspirações humanas e sociais como parte de um sistema social mais amplo. Isto é o chamado para o desenvolvimento de um novo tipo de capitalismo, o “stakeholder capitalism”, que impõe um novo propósito ao mundo dos negócios, maior que simplesmente o lucro no curto prazo.

Larry Fink, do fundo de investimento Black Rock, em carta aos CEOs 2020 deixa claro que os riscos de investimento apresentados pelas mudanças climáticas devem acelerar uma realocação de capital com a busca de portfólios de investimento mais resilientes com foco em retornos mais estáveis para o longo prazo. Declarou que a sustentabilidade deve ser o novo padrão de investimento. Nos anos anteriores Fink já anunciava a importância do propósito para as empresas, não como slogan ou campanha de marketing, mas como razão fundamental para gerar valor para as partes interessadas, não apenas lucro para acionistas. Para ele o propósito orienta a cultura e proporciona tomadas de decisões consistentes para sustentar resultados de longo prazo.

Em setembro de 2019 o Pacto Global e a Accenture Strategy, publicaram um estudo com 1.000 CEOs de 21 indústrias de 99 países. Foi preparado para checar a contribuição das empresas com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), para refletir sobre oportunidades e desafios em relação à sustentabilidade e como as empresas devem intensificar suas ações e mudar sistemas de mercado nesta década de entrega dos ODS da Agenda 2030 da ONU. OS CEOs reconhecem que devem ter uma contribuição maior para alcançar uma economia e uma sociedade global sustentável até 2030: 78% de empresas asiáticas e norte-americanas acreditam que precisam dissociar o crescimento económico do uso de recursos naturais e da degradação ambiental; 76% afirmam que  a confiança dos cidadãos será fundamental para a competitividade das empresas em seu setor nos próximos cinco anos; 88% acredita que os sistemas económicos globais precisam se concentrar novamente no crescimento equitativo.

A tradicional pesquisa sobre Tendências Globais de Consumo (2020) da Euromonitor revela consumidores mais preocupados com a sustentabilidade, querendo modelos de negócios circulares, com menor geração de resíduos, que utilizem compartilhamento, reutilização, reposição, aluguel e produtos mais duradouros, aspirando marcas que desenvolvam produtos e serviços mais acessíveis, que apoiem a diversidade e inclusão para todos, que reduzam preconceitos, com marcas que estejam conscientes quanto ao seus impactos à poluição do ar e ao aquecimento global.

A cada dia reunimos mais dados e conhecimento suficientes para afirmar que a transformação do modelo de negócio das empresas é inevitável, tanto pelo lado mais romântico da sustentabilidade, que considera a manutenção da resiliência ambiental com a geração de bem estar para as gerações de pessoas, como pela certeza que seguir a rota do modelo de desenvolvimento de 1920 impactará no curto prazo a prosperidade dos negócios, definindo a própria sobrevivência das empresas.

Sukhdev alertou que a transformação das empresas não iria simplesmente acontecer, é um desafio complexo. Mas agora, em 2020, ano que o amanhã chegou, é preciso saber como transformar as empresas para o mundo de hoje. 

Nenhum modelo de negócio 1920 se justifica mais em 2020. Mas a janela de tempo para transformar as corporações está acabando. É preciso começar agora uma gestão de negócios e marcas para a sustentabilidade que respeite os limites impostos pelo planeta, com o compromisso de gerar riquezas e bem estar para todas as pessoas, que inclua o pensamento circular no sistema de produção e consumo. É a única forma das organizações prosperarem.

E-Livro

terça-feira, 7 de julho de 2015

Palestra: O Novo Capitalismo - Pavan Sukhdev


O palestrante internacional será o economista indiano Pavan Sukhdev, principal autor do relatório The Economics of Ecossystems and Biodiversity (TEEB), da ONU, que falará a respeito da importância e do valor da biodiversidade para a sociedade e as empresas, e autor do livro “Corporação 2020 – Como transformar as empresas para o mundo de amanhã.” A obra traz uma visão perspicaz a respeito da história das empresas no mundo, chamando a atenção para as características marcantes da “corporação 1920” – que prioriza o crescimento a qualquer custo e a publicidade voltada, exclusivamente, para a ampliação dos mercados – e para a necessidade de fazer a transição para a “corporação 2020”.

O novo modelo corporativo proposto por Sukhdev é baseado em novos incentivos e regulamentações que permitam às empresas aumentar o bem-estar humano e a igualdade social, diminuir os riscos ambientais e os prejuízos ecológicos e continuar a gerar lucro. Para ele, o tempo, porém, está passando. O indiano trabalha com um horizonte de apenas sete anos para consolidar as mudanças corporativas.

Em seu livro, no prefácio, alerta: “O principal agente da economia atual – a corporação – não foi ainda persuadido ou incentivado a produzir uma economia verde. Se isso não acontecer, o relatório Teeb ficará apenas decorando prateleiras, sem nunca ser usado”.

Sukhdev diz que não se trata de querer mudar o mercado global. “Estamos nos concentrando em criar algumas políticas corporativas específicas, sobretudo mecanismos de cooperação e de transparência global. E, por outro lado, estabelecer ferramentas de regulação e controle para atividades importantes, entre elas o financiamento e a tributação internacional. Também é importante ter regras relacionadas à propaganda e, finalmente, divulgar o impacto ambiental da atividade comercial. O que queremos destes diferentes setores é a cooperação para chegarmos à economia verde, na qual os custos naturais de produção também são agregados ao mercado”, afirma.

Segundo ele, em janeiro de 2009, em seu discurso de posse, o presidente Barack Obama foi eloquente sobre a sua visão de “aproveitar o sol e os ventos e o solo para abastecer nossos carros e movimentar nossas fábricas”. Dessa forma, parecia claro que a ideia era alcançar a independência energética dos EUA por meio do combustível alternativo e isso era de fato um objetivo nobre, tanto para a segurança nacional e para a sobrevivência da biosfera.

“Mas, claro, pouco se ouviu falar sobre essa meta nos próximos anos de seu mandato, e quando fez finalmente ouvir, a visão tinha se transformado além do reconhecimento. Não era mais sobre as energias renováveis, mas sim mais combustíveis fósseis. E o herói improvável foi o gás natural. Os investimentos foram feitos e quem seria o maior beneficiado: a indústria de petróleo e gás, apoiados por seus banqueiros”.

Acrescenta que uma estratégia ostensiva da Arábia Saudita e da OPEP parece ser a de colocar o xisto fora do negócio e os seus objetivos são claros: eles estão produzindo petróleo bruto suficiente para manter os preços abaixo de US $ 75-80/bbl (barril). “Eles parecem estar muitos confortáveis com a ideia de fazer isso, porque os seus custos de produção são mais perto de USD 5/bbl. Além disso, alguns analistas encontraram evidências de uma visão estratégica entre as autoridades sauditas que as suas receitas petrolíferas são mais bem aproveitado internamente para transformar seu país para uma economia mais ampla, mais diversificada, mais duradoura. Se eles estiverem certos, a produção saudita tem outra razão mais estratégica para continuar alta”.

“A aposta estratégica da Arábia tem sérias consequências: ela põe em causa quanto tempo outros países da OPEP (não menos importante Irã, Rússia, Venezuela) poderão manter os preços baixos do petróleo em uma época de estresse orçamental. O que isto significa em termos de instabilidade política é sempre uma incógnita, e que poderia ser um final macabro de baixos preços do petróleo se um desses países produtores de petróleo não suportar a pressão orçamental mais e explodir em caos”.

Ele acha que os grandes produtores nacionais de petróleo e as principais empresas de petróleo e gás terão de repensar todos os seus investimentos de alto custo, especialmente em novas instalações no mar e em xisto. Contudo, não são apenas os grandes produtores que estão em risco. “Nos EUA, a produção de xisto é tradicionalmente liderada pelos chamadas wildcatters ou empresas independentes, e apenas cerca de 30% é com os grandes produtores. Quão seguras é o futuro dessas empresas menores? O colapso dos preços do petróleo vai prejudicar os produtores de petróleo e gás de xisto, especialmente os produtores de gás de xisto e seus subprodutos (indexado ao preço do petróleo) para financiar as operações de perfuração. Formações de xisto oferecem plena produção por períodos curtos e reduzem significativamente depois. Portanto, normalmente estes produtores de xisto dos EUA operam em com linhas de crédito mensais e necessitam de injeções de capital frequentes para perfurar e gerar fluxo de caixa livre. Tal necessidade de regular capital e a perfuração, coloca esses produtores em uma posição muito diferente em comparação com os convencionais, que podem investir e manter a produção a partir de um único ativo de dez a 30 anos. Sem uma perspectiva de lucro de curto prazo positivo, o refinanciamento do xisto poderia secar e as falências podem se tornar mais regra do que exceção”, assegura.

Conforme revela, até agora, os grandes exploradores de petróleo e os produtores estão muito bem capitalizados através de algumas décadas de operações de alta margem de lucros com base em concessões de baixo custo de perfuração, exploração eficaz e os preços elevados do petróleo. “No entanto”, observa, “nem esses recursos valem mais, então o meu palpite é que os EUA e outros governos terão de tomar uma decisão difícil: ganhar a ira da sociedade, fazendo o que sempre fizeram: salvar os seus amigos no mundo dos negócios, ou admitir que eles tenham uma política energética completamente errada. Eles não seriam o primeiro a fazê-lo”.

A visão do Antropoceno, uma era onde nós, seres humanos, tornaram-se a força geológica dominante, era de fato a do presidente Obama em 2008 ou 2009. Ou seja, a estratégia era de investir em combustíveis alternativos e não mais em combustível fóssil. “A política seria reduzir e eliminar gradualmente os subsídios de USD 1 trilião aos preços e produção concedidos aos combustíveis fósseis (esse número sobe para USD 2 triliões) se for incluído, como quer Fundo Monetário Internacional (FMI), os custos económicos das emissões. Em vez disso, na medida em que se refere à energia, estamos continuando coletivamente em 2015 com a visão nublada, estratégia errada, políticas confusas e maus investimentos. Eu tenho um simples pedido aos governos em 2015. Por favor, não resgatem aqueles que fazem más decisões económicas mais uma vez , apenas permitam que falhem. Vai ser bom para a economia e emprego, e ainda melhor para a nossa existência planetária segura”, acrescenta.

Pavan Sukhdev é fundador presidente da IST Advisory, uma consultoria colaborativa que avalia o desempenho de governos, empresas e ONGs. Pavan foi premiado em 2011 com o McCluskey Fellowship da Universidade de Yale, e escreveu seu livro “Corporação 2020”, enquanto ensinava na Universidade de Yale entre 2011 e 2012.

E-Livro: Corporation 2020

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pavan Sukhdev e a Corporação 2020


No livro "Corporação 2020", Pavan Sukhdev defende a transição para um novo modelo corporativo, que priorize o bem-estar humano e a preservação da natureza, sem deixar de gerar lucro.

“Corporação 2020 é a metáfora da mutação que vai revolucionar o próprio sentido da atividade empresarial para que a riqueza se traduza em prosperidade e o crescimento não vá além das fronteiras ecossistêmicas”, define o sociólogo Ricardo Abramovay, autor de "Muito Além da Economia Verde", primeiro livro publicado pelo selo Planeta Sustentável.

A obra ainda conta com dois prefácios escritos pelos especialistas Nicholas Stern, economista e autor do Relatório Stern – que mostra os custos das mudanças climáticas para a economia mundial – e Jochen Zeitz, ex-CEO da Puma. “Precisamos sair da era dos negócios que causam danos colaterais para a dos negócios que geram benefícios colaterais”, diz Zeitz no livro.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quanto vale a natureza?


Kiri Te Kanawa canta "Lo Fiolaire" dos Chants d'Auvergne por Cantloube


“Tornar visível o invisível”. Assim o economista indiano Pavan Sukhdev explica a missão da metologia TEEB – A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade – desenvolvida para atribuir valor econômico aos serviços prestados pela natureza. Incontáveis benefícios gerados pelo trabalho silencioso e constante dos ecossistemas e da biodiversidade: polinização, regulação do clima, fertilidade do solo, bem-estar… Serviços que, apesar de fundamentais, não entram no cálculo convencional da riqueza de uma nação, não fazem parte do planejamento estratégico de uma cidade ou de uma atividade econômica.
No site do TEEB,  encontra os relatórios que explicam em detalhes a metodologia, que foi apresentada na COP 10, em Nagoia, no ano passado, e vem sendo usada pela ONU para valorar os serviços ambientais (o site é em inglês, mas alguns relatórios estão disponíveis também em português). O Brasil, que pode ser considerado o país mais rico do mundo em termos de capital natural, já prepara um relatório TEEB nacional (clique aqui para saber mais).
Veja a matéria completa no "Cidades e Soluções" por André Trigueiro

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pavan Sukhdev: Coloquem um valor na natureza!


Todos os dias usamos materiais da Terra sem pensar e de graça. Mas se tivéssemos que pagar por seu valor real, isto nos faria mais cuidadosos sobre o que usamos e gastamos? Pense em Pavan Sukhdev como um banqueiro da natureza, que avalia as riquezas naturais da Terra e mensura valores para cada elemento natural. Nesta palestra do TED Global, ele apresenta gráficos reveladores que farão você pensar de uma forma diferente sobre o custo do ar, água, árvores e outros seres do planeta.

“Estou aqui para falar para vocês sobre a invisibilidade económica da natureza. A má notícia é que o setor de cobrança da Mãe Natureza ainda não funciona, então as faturas não são emitidas. Mas precisamos fazer algo sobre este problema”, diz o palestrante, que faz parte do projeto TEEB, criado em 2007 para medir o quanto de capital natural estava sendo perdido (na ordem de US$ 2 triliões a US$ 3 triliões) e o que pode ser feito para frear isso.

Ao longo da palestra, Sukhdev cita exemplos de invisibilidade económica da natureza, como as chuvas geradas pela floresta amazónica que mantêm a agricultura de países como Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil, sem receber nada em troca, ou ainda a polinização feita por insetos como as abelhas, responsável por 8% do total da produção agrícola mundial.

“A invisibilidade económica da natureza não pode continuar, porque incentivo e desincentivo económicos são muito poderosos. A economia tornou-se a moeda das políticas públicas. E a menos que tratemos dessa invisibilidade, teremos os resultados que nós vemos agora, que são a perda e degradação progressiva desse valioso bem natural”, diz Pavan Sukhdev.

Para o palestrante, essa falta de preocupação com os recursos naturais acontece por causa de uma inabilidade dos homens de perceber a diferença entre benefícios públicos e lucros privados. “Nós constantemente tendemos a ignorar a riqueza pública, simplesmente porque é uma riqueza comum, são bens comuns”, diz ao citar o exemplo de um mangue na Tailândia que, utilizado como fazenda da camarão valeria 16 vezes mais do que se mantido intacto. Porém, ao incluir os custos de recuperação da área degradada e benefícios naturais do mangue, a diferença é invertida para a casa dos 200%.

“Eu penso que a primeira coisa a fazer é reconhecer o capital natural. Basicamente, a matéria da vida é o capital natural, e precisamos reconhecer e criar isto em nossos sistemas. Quando medimos o PIB como índice de performance económica em nível nacional, não incluímos nossa maior riqueza em termos de país. Quando medimos performances corporativas, não incluímos nosso impacto na natureza e o que nosso negócio custa à sociedade. Isto tem que parar”, afirma Pavan Sukhdev.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pavan Sukhdev: A invisibilidade económica da natureza é um problema



In Ecosfera
A economia está a invadir o raciocínio conservacionista da natureza e a desafiar o que tem sido a prática dominante: vivemos orientados para o lucro privado, não para o bem público. O segredo está em fazer com que a perspectiva tenha sentido económico para as pessoas, até que as políticas sejam suficientemente pressionadas e mudem.

Pavan Sukhdev é o economista indiano que interrompeu a sua carreira de banqueiro no Deutsche Bank para liderar o projecto que liga os europeus, o G8 e as Nações Unidas: convencer as sociedades de que tanto a destruição como o usufruto da biodiversidade e dos ecossistemas têm um valor. A realidade vai dando razão ao trabalho da equipa de Sukhdev, que terminará antes da cimeira da biodiversidade, a realizar em Outubro, em Nagoya, no Japão.

Se tivesse Tony Hayward (BP) à sua frente, o que diria ao presidente da segunda maior companhia petrolífera do mundo sobre o que ter em conta em relação ao problema ambiental que causou no golfo do México?

Há várias maneiras de olhar para o problema. A primeira é que a BP e a indústria devem investigar se o que aconteceu foi não ter havido um equipamento que travasse automaticamente a fuga. Se foi esse o caso, foi por causa da regulação local, de uma decisão da companhia ou de ambas? É preciso investigar o que aconteceu em termos de segurança.

A outra é que toda a indústria petrolífera tem de entender que é preciso avaliar as externalidades [efeitos tradicionalmente considerados colaterais e que não são considerados no preço de mercado dos bens, neste caso, o petróleo].

De que forma é que o estudo que tem liderado pode contribuir para que as empresas ganhem mais consciência disso?

O estudo está praticamente pronto, temo que seja um bocado tarde para isso. Este acontecimento vai fazer com que a opinião pública exija a divulgação das externalidades, e isso estender-se-á, a prazo, a outros sectores. As indústrias têm externalidades, que não são apenas emissões de dióxido de carbono (CO2), mas também de utilização de água e outras. Por exemplo, uma empresa mineira tem custos externos de desflorestação e uso do solo. São externalidades que deveriam ser calculadas e divulgadas nos relatórios anuais das companhias. Não chega pôr os dados nas declarações de responsabilidade social ou nos relatórios de sustentabilidade, porque os analistas e os investidores nem sempre lêem esses relatórios.

No relatório intercalar, menciona as lições tiradas com o desastre do Exxon Valdez, em 1989, nomeadamente princípios mais severos do poluidor-pagador. E agora?

O Exxon Valdez, no Alasca, foi um acontecimento mais limitado [derrame de um petroleiro]. Aqui é diferente. É importante que as companhias ganhem capacidade de avaliar a dimensão económica deste impacto. Vimos as notícias sobre as negociações entre a administração dos EUA e a BP para financiar um fundo. Isso é, no entanto, uma questão pós-desastre. O que é necessário fazer é perceber o verdadeiro custo deste tipo de fugas, ou seja, o custo das suas externalidades. No golfo do México, é necessário estudar os custos sobre a pesca, o turismo e até sobre os indivíduos que se vêem privados de, simplesmente, usufruir de um passeio pelo mar. As externalidades têm de ser estimadas, para que a sociedade tenha uma melhor noção do que é o custo real destes acontecimentos.

Claro que já há um imenso custo para a humanidade, para as pessoas que morreram na plataforma, para as famílias. Mas além destes, há ainda os custos externos a estimar.

Os 20 mil milhões de dólares do fundo que a BP vai financiar gradualmente não lhe parece que cobrem esses custos?

É uma solução para a dor e para as perdas, mas não é uma solução sistémica. Esta ocorrerá quando as companhias reconhecerem e publicarem as suas externalidades e os riscos que se podem tornar externalidades.

Há para si uma ligação entre o grau de exigência de avaliação económica e de regulação?

Claro. A economia é a moeda da política. Não importa quão bem fundamentado possa ser o meu argumento do ponto de vista humano e de responsabilidade. A menos que consiga que tenha sentido económico, é provável que não seja ouvido. É preciso que os decisores políticos percebam que o "caso ambiental" não é apenas respeitar os recursos piscícolas ou defender os passeios de barco no golfo do México. O "caso ambiental" é entender que há um custo económico, do mesmo modo que há um custo humano e um custo ambiental.

É o mais difícil?

É, mas é muito necessário fazer isso, caso contrário não há pressão para a mudança de políticas.

Em 2006, o economista Nicholas Stern fez um estudo sobre o impacto económico das alterações climáticas. Tanto esse como o seu têm números que impressionam, mas o de Stern ficou mais no ouvido. Tinha números mais "sexy" ou é a biodiversidade que é difícil de entender?

Sir Stern quis avaliar os impactos de acontecimentos, probabilidades e riscos futuros sobre a economia, com base em complexos modelos climáticos. Na biodiversidade, a complexidade é de outra natureza. Aqui não falamos de efeitos futuros, mas do presente, sempre a três níveis simultâneos.

Um é a nível local. Tem a ver com a vida das comunidades locais, por exemplo, se têm ou não acesso a produtos florestais não lenhosos ou às pastagens. O efeito a nível regional já é à escala do país, com os problemas de acesso a água por parte de uma população que lhe permita manter os campos férteis, dos quais dependem não só os agricultores, mas toda uma sociedade. Depois há o efeito global. Por outras palavras, é o impacto de não se ter mais floresta ou recifes de coral.