Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Franco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Franco. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Olga Sacharoff

                        "Mulher apoiada na mesa" (1915)

Olga Sacharoff (1889–1967) foi uma figura singular na cena artística do século XX, servindo como uma ponte cultural entre a vanguarda russa e o espírito boémio de Paris e Barcelona.

Biografia Resumida
Nascida em Tbilisi (Geórgia), então parte do Império Russo, Olga estudou Belas-Artes em Tbilisi antes de se mudar para Munique em 1910, onde absorveu o expressionismo alemão. Em 1911, fixou-se em Paris, tornando-se parte ativa da "Escola de Paris" em Montparnasse.
Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, refugiou-se em Barcelona com o marido, o pintor Otho Lloyd. Embora tenha retornado a Paris nos anos 20, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial levaram-na a estabelecer-se definitivamente na Catalunha, onde se tornou uma figura central nos círculos intelectuais até à sua morte.

Estilos e Evolução
A obra de Sacharoff é marcada por uma transição fluída entre correntes, mantendo sempre uma identidade muito pessoal:
  1. Cubismo e Futurismo (Fase Inicial): Nos seus primeiros anos em Paris, experimentou a fragmentação geométrica, mas de uma forma mais suave e decorativa do que os seus contemporâneos.
  2. Realismo Mágico e Naïf: É frequentemente associada a um estilo "ingénuo" (naïf) sofisticado, com influências do mestre Henri Rousseau, mas com uma execução técnica muito mais refinada.
  3. Noucentisme: Em Espanha, a sua obra integrou-se no movimento catalão que privilegiava a ordem, a clareza e um retorno ao classicismo mediterrânico, mas sempre com um toque de fantasia.
Temas Centrais
O universo de Sacharoff é íntimo, poético e, por vezes, ligeiramente irónico:
  1. O Mundo Feminino: Retratos de mulheres, cenas domésticas e de lazer.
  2. Natureza e Animais: Pássaros, cavalos e cães são presenças constantes, muitas vezes coexistindo com figuras humanas em cenários idílicos.
  3. Naturezas-Mortas e Flores: Composições vibrantes que revelam o seu domínio da cor.
  4. Retratos de Grupo: Ficou famosa pelas suas cenas de "garden parties" e reuniões sociais, que capturavam a atmosfera da alta burguesia e da boémia intelectual.
Técnica e Estética
A técnica de Olga Sacharoff destaca-se pela delicadeza e pela atenção ao detalhe:
  1. Paleta de Cores: Evoluiu de tons frios e cinzentos (fase cubista) para uma explosão de cores pastéis, verdes suaves e rosas vibrantes na maturidade.
  2. Traço: Linhas finas e precisas que definem contornos claros, conferindo às suas figuras uma aparência quase de porcelana.
  3. Textura: Utilizava frequentemente o óleo e a aquarela, conseguindo transparências que davam leveza e uma aura onírica às suas telas.
Curiosidade: Olga era conhecida como a "pintora dos gatos", devido à sua enorme afeição por estes animais, que frequentemente apareciam como protagonistas ou observadores silenciosos nas suas pinturas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

[Intro]
Here he comes now

[Verse 1]
Here he comes gliding down the street
Thousand dollar trainers on his feet
All the monkeys part to let him pass
Thinks he's Jesus riding on an ass

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king, dancing the tango
With opinions, roasted minions
Bow as they're kissing the ring

[Chorus]
Saviours are a dangerous thing
Saviours are a dangerous thing

[Verse 2]
Here he comes to sweep you off your feet
With his little orange parakeet
Bringing as he offers something sweet
Suck-suck-suck-suck-sucking on the teat

[Pre-Chorus]
Young Narcissus and his sisters swoon
In the madness they bring, dancing the fandango
Celebration population sings
Dancing the king

[Chorus]

[Bridge]
Far from you, I feel so very far from you
From everything you say and do, I feel so very far from you

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king

[Chorus]

[Outro]
I feel so very far from you
From everything you say and do
I feel so very far from you
From everything you think is true
Here he comes now, saviours are a dangerous thing

Significado da canção
A canção "Saviours Are A Dangerous Thing", lançada pelo The Chameleons em 2024 (do álbum Arctic Moon), é uma crítica contundente ao cenário político global e ao perigo de seguir cegamente figuras messiânicas ou autoritárias.

De acordo com o vocalista e compositor Mark Burgess, o significado central gira em torno de três eixos:

1. Crítica ao Populismo e Autocracia
Burgess afirmou em diversas entrevistas que a letra reflete como as pessoas tendem a buscar "salvadores" em tempos de crise. Ele mencionou especificamente o comportamento de oficiais do governo que "fazem fila para beijar o anel de palhaços" que se comportam mais como reis autoproclamados do que como funcionários eleitos. A música faz referências visuais e líricas (como o "pequeno periquito laranja") que muitos interpretam como uma crítica à figura de Donald Trump e outros líderes populistas similares.

2. Ecos da História (Anos 1930)
O compositor declarou ver muitos paralelos perigosos entre o clima político atual e a década de 1930 na Europa — o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e viu a ascensão do fascismo. A canção alerta que a propaganda sedutora muitas vezes usa a "máscara da esperança" para esconder ideologias perigosas.

3. A Sedução da Propaganda
A letra explora como a humanidade se rende facilmente a promessas vazias de salvação, apenas para acabar presa por "algemas invisíveis". Termos como "Super Nero" e referências a Narciso na letra reforçam a ideia de líderes egocêntricos que queimam o mundo enquanto sorriem, enquanto seus seguidores (os "minions") os adoram cegamente.

Resumo do Conceito
O título já resume a tese da banda: "Salvadores são uma coisa perigosa". A mensagem é um chamado à vigilância individual e ao ceticismo diante de quem promete soluções fáceis para problemas complexos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Brigade Internationale - Remember My Death


O nome Brigade Internationale (Brigada Internacional) é uma referência direta às unidades militares compostas por voluntários estrangeiros que viajaram para a Espanha para lutar ao lado da Segunda República Espanhola contra as forças fascistas de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Ao escolherem este nome, a banda evoca uma estética de resistência antifascista, idealismo político e melancolia histórica, temas comuns na subcultura coldwave da época.

Regard Extrême é uma das músicas mais conhecidas da banda, presente no álbum/cassete Regard Extrême lançado em 1984 pela gravadora Wallenberg Produktion.

A canção: Mantém a sonoridade característica do género, com sintetizadores sombrios, linhas de baixo marcantes e uma atmosfera minimalista e melancólica.

Significado da Letra: O título "Remember My Death" (Lembre-se da minha morte) reforça a temática existencialista e fúnebre do grupo, possivelmente ligando-se ao sacrifício dos voluntários das brigadas originais

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O que a Grokipedia diz sobre Sánchez ou Feijóo? As diferenças entre a nova enciclopédia de Elon Musk e a Wikipédia tradicional


"Diga a verdade, toda a verdade e nada além da verdade." Sob esse lema, o bilionário Elon Musk anunciou o lançamento da Grokipedia , uma nova enciclopédia online gratuita com a qual espera desafiar a Wikipédia, que ele criticou em diversas ocasiões por ser, em sua opinião, excessivamente tendenciosa em relação à ideologia woke e aos princípios progressistas . Lançada esta semana com mais de 800 mil artigos (ainda muito longe dos mais de 7 milhões que a Wikipédia possui em inglês), a intenção de Musk é expandir seu acervo usando seu modelo de Inteligência Artificial (Grok) e, aos poucos, conquistar a adesão dos usuários.

Por ora, as diferenças e nuances ideológicas já são mais do que evidentes em alguns artigos, a começar por aquele que se refere ao próprio Musk. Segundo a Wikipédia, ele "apoia figuras, causas e partidos políticos de extrema-direita em todo o mundo", enquanto para a Grokipedia, ele "influenciou debates mais amplos sobre progresso tecnológico, declínio demográfico e vieses institucionais (...) em meio a críticas da media tradicional, que apresenta uma cobertura consistentemente de esquerda".

Essas inconsistências também são observadas em artigos que fazem referência a Donald Trump, Joe Biden e outras figuras públicas, como George Floyd , cuja morte nas mãos da polícia desencadeou uma onda de protestos antirracistas nos EUA . Sobre Floyd, a Wikipédia inicia seu artigo afirmando que ele "era um homem afro-americano que foi morto por um policial branco em Minneapolis" após ser preso "depois que um funcionário de uma loja suspeitou que Floyd estivesse usando uma nota falsa de 20 dólares". A introdução da Grokipedia é bem diferente: "Ele era um americano com uma longa ficha criminal que incluía condenações por roubo à mão armada, posse de drogas e furto no Texas, de 1997 a 2007".

Existem também diferenças nas definições do movimento feminista Me Too ou simplesmente na palavra "gênero" em referência ao sexo biológico de uma pessoa. De acordo com a Wikipédia, "género é o conjunto de aspectos sociais, psicológicos, culturais e comportamentais de ser homem (ou masculino), mulher (ou feminina) ou um terceiro género", e enfatiza que "embora o género frequentemente corresponda ao sexo biológico, uma pessoa transgénero pode se identificar com um género diferente do sexo que lhe foi atribuído ao nascer". A Grokipedia, por outro lado, afirma que "género se refere à classificação binária dos seres humanos como masculino ou feminino de acordo com seu sexo biológico, definido pelo tipo de gâmetas produzidos e pela anatomia reprodutiva associada". Afirma ainda que "evidências empíricas apoiam o sexo biológico como um binário estrito em humanos, com distúrbios do desenvolvimento sexual (condições intersexuais) afetando aproximadamente 0,018% dos nascimentos e representando anomalias de desenvolvimento, e não terceiros sexos viáveis".

Mas as diferenças entre a Grokipedia e a Wikipédia também são evidentes em artigos que se referem à Espanha , a começar pelo que menciona o primeiro-ministro, Pedro Sánchez. Aqui estão alguns exemplos (comparando a versão em inglês da Wikipédia, já que a Grokipedia está disponível apenas em inglês):

Pedro Sánchez
O artigo da Grokipedia enfatiza, em seus parágrafos iniciais, que sob sua liderança, a Espanha experimentou um "crescimento do PIB superior à média da zona do euro nos últimos anos", mas também cita sua "relutância em cumprir as metas de gastos com defesa da OTAN , o que diferencia a Espanha de seus aliados em termos de compromissos de segurança". Menciona ainda "as recentes investigações de corrupção envolvendo sua esposa" e que ele aceitou uma lei de anistia "para permanecer no poder".

A Wikipédia, por outro lado, não menciona as investigações judiciais sobre o círculo de Sánchez até depois dos primeiros 20 parágrafos e salienta que as acusações contra a sua esposa foram feitas pelos Manos Limpias, "um sindicato de extrema-direita".

Alberto Núñez Feijóo
No caso de Alberto Núñez Feijóo, a Wikipédia menciona, em seus parágrafos iniciais, a infame foto dele com o narcotraficante Marcial Dorado , "amplificada por adversários políticos durante a campanha de 2023", e indica posteriormente que o líder do PP "negou qualquer irregularidade, afirmando que os contatos foram casuais e anteriores à sua presidência, e que não havia acusações legais contra ele". A Wikipédia, que dedica cinco parágrafos a essa fotografia em sua versão em espanhol, mal a menciona em inglês, afirmando apenas que "em 2013, membros da oposição pediram sua renúncia após a publicação de fotografias de meados da década de 1990 nas quais ele aparecia com Marcial Dorado, que mais tarde foi condenado por narcotráfico".
Santiago Abascal

A Wikipédia o define como "um político espanhol que é presidente do Vox, um partido político de extrema-direita, desde 2014", enquanto a Grokipedia não menciona o Vox e afirma que ele o fundou "para defender a unidade constitucional espanhola, o controle rigoroso da imigração ilegal, a defesa das estruturas familiares tradicionais e o liberalismo econômico", além de mencionar que ele recebeu "duras críticas da grande mídia e de instituições de esquerda".

Arnaldo Otegi
"Na sua juventude, foi membro da ETA, uma organização armada separatista, e foi condenado. Participou ativamente nas negociações de paz malsucedidas em Loyola e Genebra em 2006, bem como nas negociações subsequentes que culminaram no cessar-fogo definitivo da ETA em 2011 e no seu desarmamento completo em 2017", afirma a Wikipédia no seu primeiro parágrafo. No entanto, as ligações do líder do EH Bildu à ETA são detalhadas muito mais extensivamente na Wikipédia: "Ele é um político separatista basco e antigo membro da ETA , o grupo armado nacionalista basco responsável por mais de 800 mortes na sua campanha pela independência de Espanha. Juntou-se à ETA na adolescência, durante a transição espanhola para a democracia na década de 1970, participou nas suas operações de comando e fugiu para França em 1977 para evitar a prisão, antes de ser encarcerado pelo seu envolvimento num rapto."

Franco
Ambas as enciclopédias online definem Franco como um ditador, embora a Grokipedia afirme que sua liderança "pôs fim à instabilidade política e à violência revolucionária da Segunda República Espanhola , que testemunhou greves generalizadas, incêndios de igrejas e assassinatos cometidos por milícias de esquerda".

Ler mais: 

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Fascistas, novamente? Não obrigado!

"Sou um homem, sou pai de família, sou avô e... sou fascista!" Foi dito publicamente na última 6.ª Convenção Nacional do Chega.
Pois bem, meus caros. Não esquecemos! Não esquecemos nem queremos recalcamentos nem pós-verdade. Ainda há muito silêncio e carrascos fachos que não chegaram à barra dos tribunais.
A Ditadura Nacional (1926–1933) e o Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933–1974) foram, conjuntamente, o mais longo regime autoritário na Europa Ocidental durante o séc. XX, estendendo-se por um período de 48 anos. Teve impacto global.
O regime franquista foi igual. Global. O Franquismo foi um regime totalitário de caráter nazifascista fundado pelo ditador Francisco Franco, que dominou a Espanha e os países ibero-americanos durante os anos de 1939 a 1975.
Por favor voltar a rever este excelente documentário.
O Silêncio dos Outros, retrato da luta das vítimas do franquismo é um dos mais importantes e premiados documentários do ano 2019.
Produzido por Pedro Almodóvar e realizadado por Almudena Carracedo e Robert Bahar, o filme conquistou, nos prémios mais importantes do cinema espanhol, o Goya de Melhor Documentário e venceu o Prémio do Público da secção Panorama no Festival de Berlim.
O Silêncio dos Outros mostra a luta épica das vítimas dos 40 anos da ditadura de Franco, em Espanha, que continuam hoje a procurar justiça. Filmado ao longo de 6 anos, o filme acompanha várias vítimas e sobreviventes, enquanto organizam o "Processo Argentino" e enfrentam uma amnésia imposta pelo Estado perante crimes contra a Humanidade num país, que após quatro décadas de democracia, continua dividido.

Desde sua morte, em 1975, o corpo de Franco esteve no Vale dos Caídos, um imponente mausoléu a 50 quilómetros de Madrid. Por decisão do próprio ditador, o local foi construído por milhares de presos políticos espanhóis nos anos 1940 e 1950. Neste templo católico, onde se destaca uma cruz de 150 metros de altura, também estão os restos mortais de 27 mil combatentes leais a Franco e das vítimas de seu regime, 10 mil republicanos, retirados de fossas comuns e cemitérios e levados para o local sem aviso prévio às famílias. O franquismo e o salazarismo tiveram impactos globais. Salazar com a Guerra Colonial e Franco estendendo o seu impacto nos países ibero-americanos.
Não esquecemos!

terça-feira, 28 de março de 2023

Documentário: Censura - O Lápis Azul

O Lápis Azul

Pedaços de um Portugal censurado
Foi o símbolo de uma época. O "lápis azul" riscou notícias, fados, peças de teatro e livros, apagou anúncios publicitários, caricaturas e pinturas de parede. Sendo proibida qualquer referência ao material censurado, poucas foram as oportunidades de ver o que se perdeu. A exposição ?O Lápis Azul: A Censura do Estado Novo?, mostra uma pequena parte desse espólio. Mas ilustra o grande alcance da actuação censória que vigorou 48 anos, desde o Golpe Militar de 28 de Maio de 1926 aos regimes de Oliveira Salazar e Marcello Caetano.

Rolha na boca. Óculos na ponta do nariz. O jornalista não pode "falar". Tem uma faca à cabeça. E uma tesoura aberta entalada no pescoço. Na lâmina da faca lê-se "Lei de Imprensa"; na tesoura, "Censura". Os traços são de Francisco Valença que desenhava assim uma caricatura alusiva à "censura prévia". Viriam a ser publicados no semanário satírico Sempre Fixe a 8 de Julho de 1926. Um pequeno texto acompanha a gravura: «Na impossibilidade de desenharmos e escrevermos no "Diário do Governo", teremos de transformar o Sempre Fixe em jornal de modas. Já temos mesmo uma linda colecção de figurinos de "dolmans", calças à Chantijly, capotes, etc., para a presente estação. Vamos desbancar o Depósito de Fardamentos!»
Personificada numa mulher volumosa a "Censura" aparece também caricaturada nas páginas de uma das edições do semanário Agora de 16 de Fevereiro de 1969. Está sentada nas magras pernas de um ardina de sacola à tira colo. No chão um amontoado de páginas riscadas com uma cruz. À caricatura da autoria de Luís Trindade segue-se em legenda uma advertência ao leitor: «Explicação Necessária: Por motivos óbvios somos forçados uma vez mais a publicar a gravura alusiva ao facto. Decerto os nossos amigos compreenderão.» A caricatura política assumia-se desde logo como uma arma pronta a ridicularizar o regime e por isso interdita. A ditadura receava o humor.

Censura na Imprensa
Apresentada como uma medida transitória por se encontrarem suspensas as garantias constitucionais da República, a Comissão da Censura é instituída a 22 de Junho de 1926. Os jornais passam a ser obrigados a enviar a esta comissão quatro provas de página e a não deixar em branco o espaço das notícias censuradas. A implicação desta medida causa a indignação nas redacções. Em 1933 a Censura viria a ser legalmente instituída através da Constituição.
Começa assim a saga do "lápis azul" que conhecerá dois momentos. Um até Setembro de 1968, sob a alçada de António de Oliveira Salazar e com a designação de Comissão da Censura. O outro com a nomenclatura de Comissão do Exame Prévio durante o governo de Marcello Caetano, que só terminará a 25 de Abril de 1974.
Quando a 27 de Setembro de 1968 António de Oliveira Salazar é afastado do poder, Marcello Caetano sucede-lhe. Aproveitando a mudança na Presidência do Conselho, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, deputados da ala liberal do regime, apresentam em 1970 um projecto de lei de imprensa onde propõem uma redução do âmbito da Censura. A resposta de Marcello Caetano surge em 1971. O Diário do Governo publica a Lei 5/71 onde se decreta apenas uma mudança de nomenclatura. Na prática, a imprensa periódica continua sujeita às proibições e correcções da Censura.
A 1 de Junho de 1972, o Diário de Lisboa noticia em primeira página a entrada em vigor da Lei de Imprensa (decreto-lei n.º 150/72) onde se estabelece como regra a "liberdade": «É lícito a todos os cidadãos utilizar a imprensa de acordo com a função social desta e com o respeito dos direitos de outrem, das exigências da sociedade e dos princípios da moral».
 E como "excepção" o regime de Exame Prévio: «A publicação de texto ou imagens na imprensa periódica pode ficar dependente do exame prévio, nos casos em que seja decretado o estado de sítio ou emergência».
A razão apontada para esta excepção lê-se no parágrafo final da notícia. «Dado que nos encontramos oficialmente em estado de emergência (após a resolução de 20 de Dezembro passado) a imprensa periódica fica sujeita a exame prévio. Assim, o que até ontem era regra (a autorização administrativa prévia para a publicação de texto ou imagem) é, a partir de hoje, excepção.»
No jornal República, de 9 de Junho de 1972 é publicada uma advertência semelhante onde se faz uma referência a uma outra implicação do decreto-lei 150/72: «Nos textos ou imagens publicados não é consentida qualquer referência ou indicação de que foram submetidos a exame prévio». A Primavera Marcelista faltava à promessa de uma maior abertura do regime.

Mentalidades
A actuação do censor variava entre a proibição total da matéria submetida a exame e a aprovação com cortes. Entre a actualidade informativa algumas temáticas pareciam mais "predispostas" a receber o carimbo "Cortado".
É o caso de um inquérito sobre namoro, casamento, relações pré-conjugais e controle de natalidade destinado a ser publicado no Notícias da Amadora de 17 de Janeiro de 1968. A propósito de alguns dados divulgados no Anuário Demográfico pedia-se a opinião de alguns jovens sobre aquelas temáticas. Uma estudante universitária, de 18 anos confessava-se «católica mas a favor do controle de natalidade». As estatísticas do Anuário mostravam um decréscimo no número de partos: 221736 em 1964, 214824 em 1965 e 211452 em 1966. Um jovem, estudante e empregado de 16 anos confessava-se a favor das relações sexuais pré-conjugais e do casamento pelo registo por considerar «um erro o casamento pela igreja face à mudança de mentalidade entre os jovens». O artigo é totalmente censurado

Más condições de vida
O mesmo tratamento merece um artigo sobre o flagelo do Bócio Endémico a publicar no Jornal do Fundão. As provas de página das edições de 26 e 28 de Janeiro de 1968 dão conta de um estudo médico exaustivo sobre esta doença, realizado pelos médicos Fernando Dias de Carvalho e José Lopes Dias, nos meios rurais do concelho de Oleiros, e terras dos concelhos de Castelo Branco, Fundão, Prença e Sertã.
Com base num inquérito sanitário a 10481 indivíduos (2/3 da população de 147 localidades), dava-se a conhecer as más condições de vida daquelas gentes: «carências alimentares», «excesso dos trabalhos rudes e pesados», «envelhecimento precoce agravado no sexo feminino pela sobrecarga das gestações e dos partos repetidos». Era ainda denunciada a existência de 4533 casos identificados de Bócio.

O Ultramar
O trabalho minucioso do censor é visível num memorando relativo a uma edição (sem data) do diário portuense O Primeiro de Janeiro. Numa lista, as diferentes secções do jornal aparecem enumeradas e classificadas quanto à sua publicação ou não. Censurados estava a secção Noticiário do Ultramar e alguns artigos relacionados com a actuação dos tribunais, o aborto e a PIDE.
Outras notícias seriam publicadas mas com cortes. Um artigo sobre o envio de tropas para a guerra ultramarina recebia a atenção do censor que advertia para o corte da referência ao número de homens, ao seu destino e à quantidade de armas.
Não raras vezes a pena pela publicação de notícias censuráveis que escapavam ao controle do censor era a suspensão das publicações por tempo a determinar. O jornal A Voz Africana, na sua edição de 16 de Fevereiro de 1968 destaca um desses casos na sua primeira página: a suspensão por 30 dias do Diário de Moçambique. O motivo ficara a dever-se ao facto de este jornal ter relatado uns incidentes ocorridos no Norte da província moçambicana dos quais resultara a morte de um militar.

Artes
Na prova de página do Notícias da Amadora de 2 de Março de 1968 está uma notícia sobre o compositor Fernando Lopes-Graça autorizada pelos Serviços da Censura onde se podem ver os cortes efectuados.
No primeiro parágrafo suprimido lê-se alguns elogios ao génio de Lopes Graça que o censor decide apagar: a descrição do compositor como «um homem cuja vida é uma luta exemplar contra a ignorância e o modo de dizer "estou aqui"; e o elogio às «canções que recolhe do sangue do nosso povo».
Umas linhas depois segue, sem cortes, o motivo da notícia: a projecção internacional que o compositor português atingira pelo facto de Rostropovich, um reconhecido violoncelista russo, lhe ter encomendado o "Concerto para Violoncelo", classificado pelo o jornalista como "a sua última obra de fôlego". Mas logo depois a censura volta a cortar uma parte incómoda deixando o leitor sem saber que a primeira audição mundial daquele concerto do compositor português fora interpretada por Rostropovich durante as comemorações da Revolução Bolchevista.

Internacional
O tratamento da informação internacional merecia algum "cuidado" censório. Exemplo, os cortes efectuados num artigo de Francisco Mota, sobre a crescente apreensão nos meios internacionais com a Alemanha Ocidental, a publicar na edição de 11 de Maio de 1968 do Notícias da Amadora. São cortadas informações sobre escândalos que se abatem sobre o governo alemão e a acusação feita pelo jornal Der Spegel de que o presidente Lubke teria "colaborado na construção de campos de extermínio de judeus durante o reinado hitleriano".

Desporto
Outro caso de suspensão de publicação acontece com o jornal desportivo A Bola devido a uma reportagem publicada a 25 de Março de 1946. A matéria, não censurada, reportava  um desafio de futebol amigável entre a Selecção Portuguesa e, de acordo com o jornalista responsável pela peça "onze marinheiros britânicos da Home Fleet tomados como a selecção Britânica". Portugal vencera por 11-1.
O jornalista escrevia assim: " A luta não foi equilibrada, foi indiscutivelmente correcta ou não estivessem em campo 11 'cidadãos' britânicos (?) só para se ver como se perde com uma 'cara alegre? e sorriso nos lábios a grande maioria ? mas muito grande ? dos assistentes ao espectáculo não deve ter dado por mal empregado o dinheiro gasto com os bilhetes da entrada? No entanto outro motivo de indiscutível sucesso houve, por milagre, para justificar a deslocação de tantos milhares de pessoas ao vale do Jamor (?) a exibição da Banda de Música Inglesa durante o intervalo do desafio. A compostura, o garbo e a afinação daquele conjunto compensou de sobejo o 'sacrifício' da tarde. Com aquela pequena amostra de um breve quarto de hora o público ficou deliciado, aplaudindo merecidamente.".
Os comentários custariam ao jornal um mês de suspensão por «falta de respeito para com um país Velho Aliado e para com Sua Majestade, a rainha», lê-se num comunicado da Comissão de Censura.

O largo alcance da Censura
Música
A censura estendia-se a outros domínios que não a Imprensa. A realização de um espectáculo público dependia de uma solicitação de autorização submetida à Comissão da Censura. E nem as letras dos fados a serem cantados escapavam ao exame da Inspecção dos Espectáculos, Serviços de Censura.
Foi o que aconteceu com a noite de fados marcada para o dia 9 de Dezembro de 1939 no Café Mondego, em Lisboa. As letras das canções haviam sido enviadas para a Inspecção dos Espectáculos, Serviços de Censura, a fim de serem examinadas antes de ser decidida a sua exibição em público.
Entre os visados o fado "Tejo- Canção da Saudade" da autoria de Aureliano Lima da Silva merecera a aprovação sem cortes. Já um outro fado do mesmo autor intitulado ?A Guitarra? fora aprovado mas com alguns cortes. Na primeira quadra cantava-se «Querida guitarra/ Alma bizarra/ és imortal? mas omitia-se o final: "A tua história/ é a gloria de Portugal". A última quadra sofria um corte semelhante. Cantava-se «Guitarra querida/ a tua vida/ está gravada dentro de nós? e cortava-se "Por que és a voz/ da pátria amada"
Menos sorte teria o "Fado Socialista", escrito em 1927 por Ramada Curto que seria proibido. A letra não deixava ao censor margem para dúvidas: «Gente rica e bem vestida/ P´ra quem a vida é fagueira/ Olhem que existe outra vida/ N´Alfama e na Cascalheira!  Mas um dia hão-de descer/ Os lobos ao povoado?/ Temos o caldo entornado/ Vai ser bonito de ver/ Não verá quem não viver/ O fogo dessa fogueira/ Soa a hora derradeira/ De quem é feliz agora?/ Às mãos da gente que chora.»

Cinema
Mas se alguns dos cortes da censura são "óbvios" pelas mensagens subversivas ao regime político fascista, outros são menos claros. Num panfleto de divulgação do filme "A Casa Encantada" de Alfred Hitchcock, a navalha que um homem segura enquanto abraça uma mulher é apagada. Um outro filme, "Bonnie e Clyde" de Arthur Penn é visado pela censura e vê cortada a crítica cinematográfica presente na prova de página da edição de 11 de Maio de 1968 do Notícias da Amadora. 

Publicidade
Um anúncio de uma marca de vestuário, de homem e senhora apresentava uma foto com dois casais vestidos em primeiro plano e outra em segundo plano onde o grupo aparecia sem roupa, ainda que não se percebesse a nudez dos seus corpos, o slogan "Ou Daga ou nada" explicava a imagem. A Censura autorizava o anúncio mas cortava a segunda imagem.

Pintura
Em 1947 Júlio Pomar pintava um fresco numa das paredes do interior do Cinema Batalha, no Porto. Depois do trabalho acabado a censura manda tapar a pintura com tinta branca. Hoje, passados 55 anos ainda lá está coberta a obra.

Teatro
Pela mesa censória passavam também os guiões das peças teatrais, antes da sua exibição. A revista "Travessa da Espera" da autoria de Vasco Sequeira e António Cruz com exibição marcada para Dezembro de 1945 no Teatro Maria Vitória viu cortados pela censura 2/3 do seu texto. E um dos seus actores chegara a ser repreendido por ter proferido diálogos cortados.
Para além dos guiões o material de divulgação das peças eram também objecto de censura. Em comunicado, a PSP do Porto informa o Circulo de Cultura Teatral do Teatro Experimental do Porto da apreensão decorrida a 18 de Março de 1972 de diversos cartazes anunciando a peça "A Casa de Bernarda Alba" de Frederico Garcia Lorca por determinação do Governador Civil do Porto. O cartaz exibia uma mulher nua da cintura para cima.

Livros
A Ave sobre a Cidade, Papiniano Carlos
A Campanha, Fiana H. P. Brandão
A Classe Operária irá desaparecer?, N. Gaouzner
A Esperança Agredida, José Manuel Mendes
A Revisão do Contrato Colectivo de Trabalho dos Metalúrgicos
Minha Senhora de Mim, Maria Teresa Horta
Moçambique pelo seu Povo, José Capela
O Motim, Miguel Franco
O que é a Reforma Agrária, Blasco Hugo Fernandes
Oração Fúnebre por Ernesto Guevara, Fidel Castro
Os Clandestinos, Fernando Namora
Podem Chamar-me Euridice, Orlando da Costa
Poesia Portuguesa Erótica e Satírica  Séculos XVIII - XIX
Revolução Sexual na União Soviética 1917-1944
Um Homem Não Chora, Luiz de Sttau Monteiro

domingo, 22 de maio de 2022

Música do BioTerra: Anne Etchegoyen e Le Choeur Aizkoa - Hegoak (As asas)



Letra
Hegoak ebaki banizkio
Neuria izango zen
Ez zuen alde egingo

Hegoak ebaki banizkio
Neuria izango zen
Ez zuen êlde egingo

Bainan horrela
Ez zen gehiaqo xoria izanqo

Bainan horrela
Ez zen gehiaqo xoria izanqo

Eta nik, xoria nuen maite
Eta nik eta nik, xoria nuen maite

Bainan horrela
Ez zen gehiaqo xoria izanqo

Bainan horrela
Ez zen gehiaqo xoria izanqo

Eta nik, xoria nuen maite
Eta nik eta nik, xoria nuen maite

The Wings

If I had cut off its wings,
He would've been mine
(But) He wouldn't have left

If I had cut off its wings,
He would've been mine
(But) He wouldn't have left

Yes, but there you are!
(But) he would've no longer
Been a bird!

Yes, but there you are!
(But) he would've no longer
Been a bird!

And for me,
He was a bird that I loved
And for me,
He was a bird that I loved16

Lala lala
lala lala, lala

An extract from an article summarizing the metaphor:

“That song is about a bird, but essentially about the character of this bird….about this bird that is very free and wild and how it is a struggle to love a creature that is wild and free,” Igoa said. “But you wouldn’t love the bird if it wasn’t who it was. So all the things that are hard about loving this creature are also what you love about it.”

“Hegoak” is also a metaphor for the Basque people. It would have been easier to give in, to only call themselves Basque and subsume their culture to their occupiers. But then they would not be truly Basque. And so they have fought to remain themselves, to be free within their captivity as a nation, for centuries.

Tema da Música "Hegoak"
A música "Hegoak" (que significa "As Asas" em basco) é, na verdade, uma versão da famosa canção "Txoria Txori", escrita pelo poeta Joxean Artze e musicada por Mikel Laboa durante a ditadura de Franco.

O tema central é a Liberdade.
A letra utiliza a metáfora de um pássaro para falar sobre o amor e a posse:

O eu lírico diz que, se tivesse cortado as asas do pássaro, ele seria seu (não fugiria), mas deixaria de ser um pássaro.

A mensagem é que "para amar alguém, é preciso deixá-lo ser livre". No contexto histórico, a canção também foi um hino de resistência cultural e política para o povo basco e sua língua (o Euskera).

domingo, 26 de dezembro de 2021

Romancero de Durrutti - Chicho Sánchez Ferlosio



0:00 Por alli viene Durrutti... 
0:58 Historia de tres amigos... 
3:13 Canta garganta... 
4:58 Fotografías de presos políticos coleccionadas por un policía 
5:46 Yo soy del campo... 
6:56 El ejército español... 
7:54 Malditas elecciones... 
9:12 19 de noviembre malos tiempos me recuerdas... 
10:47 Los de Oviedo 
12:36 Aunque en Madrid y en Paris... 
14:12 Para tierras africanas...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Joan Baez - Txoria Txori


Hegoak ebaki banizkioNeria izango zenEz zuen alde egingo
Hegoak ebaki banizkioNeria izango zenEz zuen aldegingo
Bainan, honelaEz zen gehiago txoria izangoBainan, honelaEz zen gehiago txoria izango
Eta nikTxoria nuen maiteEta nikTxoria nuen maite
Hegoak ebaki banizkioNeria izango zenEz zuen aldegingo
Bainan, honelaEz zen gehiago txoria izangoBainan, honelaEz zen gehiago txoria izango
Eta nikTxoria nuen maiteEta nikTxoria nuen maite

Tradução

Pássaro Pássaro
Se eu tivesse cortado as asas dele
Teria sido meu
Não teria voado

Se eu tivesse cortado as asas dele
Teria sido meu
Não teria voado

Mas, assim
Não seria mais pássaro
Mas, assim
Não seria mais pássaro

E eu
Amava o pássaro
E eu
Amava o pássaro

Se eu tivesse cortado as asas dele
Teria sido meu
Não teria voado

Mas, assim
Não seria mais pássaro
Mas, assim
Não seria mais pássaro

E eu
Amava o pássaro
E eu
Amava o pássaro

Liberdade e identidade em "Txoria Txori", letra de Joxean Artze, cantado por Mikel Laboa e lançada em 1974, no álbum Bat-Hiru

A música "Txoria Txori", de Mikel Laboa, usa a imagem do pássaro para discutir a relação entre amor e liberdade. O verso “Hegoak ebaki banizkio / Nerea izango zen / Ez zuen aldegingo” (Se eu tivesse cortado suas asas / Seria meu / Não teria ido embora) mostra o conflito entre querer prender quem se ama e respeitar sua autonomia. A canção foi composta durante o regime franquista, período em que o idioma basco era proibido. Por isso, o pássaro também simboliza a identidade basca, que só pode existir plenamente se for livre.

A repetição de “Eta nik / Txoria nuen maite” (E eu amava o pássaro) reforça a ideia de que o verdadeiro amor está em aceitar o outro como ele é, sem tentar limitar sua liberdade. O poema, que Mikel Laboa  encontrou por acaso e transformou em músicae transformou em música, traz uma mensagem universal sobre liberdade, autenticidade e respeito. "Txoria Txori" se tornou um símbolo de resistência cultural e um lembrete de que tentar controlar alguém ou uma cultura leva à perda do que há de mais precioso.
(concerto ao vivo em 1988, em Bilbao)

sábado, 7 de agosto de 2010

Federico García Lorca

A 19 de Agosto de 1936, Federico García Lorca era assassinado pelo fascismo de Franco.
Leiamos a sua poesia.
Garcia Lorca por Khadzhi-Murad Alikhanov

poeta pede a seu amor que lhe escreva
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

[…] Era inevitável que o resgate dos restos de Federico García Lorca, enterrado como milhares de outros no barranco de Viznar, na província de Granada, se tivesse convertido rapidamente em autêntico imperativo nacional. Um dos maiores poetas de Espanha, o mais universalmente conhecido, está ali, naquele páramo, aliás em um lugar acerca do qual existe praticamente a certeza de ser a fossa onde jaz o autor do Romancero Gitano, junto com três outros fuzilados, um professor primário chamado Dióscoro Galindo e dois bandarilheiros anarquistas, Joaquín Arcollas Cabezas e Francisco Galadí Melgar. Estranhamente, porém, a família de García Lorca sempre se opôs a que se procedesse à exumação. Os argumentos alegados relacionavam-se, todos eles, em maior ou menor grau, com questões que podemos classificar de decoro social, como a curiosidade malsã dos meios de comunicação social, o espectáculo em que se iria tornar o levantamento das ossadas, razões sem dúvida respeitáveis, mas que, permito-me dizê-lo, perderam hoje peso perante a simplicidade com que a neta de Dióscoro Galindo respondeu quando, em entrevista numa estação de rádio, lhe perguntaram aonde levaria os restos do seu avô, se viessem a ser encontrados: “Ao cemitério de Pulianas”. Há que esclarecer que Pulianas, na província de Granada, é a aldeia onde Dióscoro Galindo trabalhava e a sua família continua a morar. Só as páginas dos livros se viram, as da vida, não.

José Saramago, in O Caderno de Saramago