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quinta-feira, 26 de março de 2026

Análise: como o capitalismo digital e o tecnofascismo estão a reproduzir antigas estruturas de dominação


Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil publica uma série sobre os efeitos políticos, sociais e institucionais das redes digitais. Nesta edição, o investigador Vinício Carrilho Martinez, professor da UFSCar, analisa de que modo algoritmos, plataformas e a concentração de poder tecnológico reorganizam o espaço público, intensificam a polarização e abrem caminho para novas formas de autoritarismo. Para ele, o tecnofascismo é uma forma contemporânea de dominação em que a vigilância, o controlo e a indução de condutas passam a operar por meio de plataformas e algoritmos, sob a aparência de liberdade.

O momento global e, em especial, o brasileiro — num ano de eleições gerais no país —, não pode ser entendido apenas como um período de grande aceleração tecnológica, crise política conjuntural e geopolítica ou ainda como uma mutação do capitalismo. Há algo mais além do que a vista alcança: está em curso uma convergência entre o capitalismo digital, a reorganização das formas de controlo e a manutenção de estruturas históricas de dominação.

À escala mundial, as plataformas transformaram dados, atenção e comportamento em mercadoria e em instrumento de poder. No Brasil, este processo agrava-se porque encontra um terreno já marcado pelo racismo institucional, pelo patriarcalismo e pelo pensamento esclavagista. É desta articulação entre a hipermodernidade tecnológica e o passado que emerge a gramática do tecnofascismo.

Podemos considerar o capitalismo digital como uma atualização do próprio capitalismo. O centro da acumulação, porém, desloca-se da produção material para a produção de dados, da mercadoria física para a mercadoria informacional. O dado humano — ações, desejos, medos, rotinas, cliques, palavras digitadas — passa a ser o núcleo da valorização. O humano torna-se objeto de exploração total, já não apenas como força de trabalho, mas como fonte permanente de informação e vigilância.

A fórmula segundo a qual "o produto és tu" ajuda a descrever uma parte do problema, mas não o esgota. Mais do que mercadoria, o sujeito torna-se um trabalhador invisível deste sistema: produz circulação, gera envolvimento (engagement), alimenta plataformas, treina mecanismos, deixa rastos, sustenta cadeias inteiras de rentabilidade sem que essa produção apareça como trabalho. E sem qualquer remuneração.

Convém retomar o problema desde as suas bases. A neutralidade técnica, neste contexto, é uma ficção conveniente. A própria internet, de acordo com as suas origens, não nasceu isenta: surgiu como um projeto militar. A ARPANET (rede de computadores criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no final dos anos 1960) é considerada a precursora da internet. A Guerra Fria (1947–1991), a ideia de vantagem estratégica no campo das comunicações e da guerra futura mostram que a técnica emergiu articulada com as necessidades do poder.

Houve processos de democratização, sem dúvida, mas ainda insuficientes para apagar a base originária de controlo. Esta associação entre técnica e política é antiga. O nazismo já o tinha demonstrado com a rádio, convertida em instrumento de difusão ideológica e de concentração do discurso autorizado. Hoje, o dispositivo mudou; a lógica autoritária de exclusão da crítica e de centralização da palavra não desapareceu. Apenas mudou de roupa.

Controlo por adesão
A compreensão dos algoritmos contém essa visão. Eles não são, obviamente, uma abstração neutra. Os algoritmos não se organizam sozinhos, não se responsabilizam, não se corrigem sozinhos e tendem a reproduzir e a aprofundar o imaginário social sedimentado. É o caso da IA (inteligência artificial) que reproduz uma reunião empresarial composta por homens brancos, regista a participação de mulheres apenas de forma subordinada e não consegue inserir a presença de uma mulher negra.

Pois bem: isto não é um erro lateral do sistema, é estrutura, uma codificação da exclusão. O mesmo vale para o regime de visibilidade: um vídeo vindo de uma comunidade indígena, ainda marcada pela sua ancestralidade, não circula; ao passo que a misoginia convertida em espetáculo e a brutalização transformada em recurso mediático encontram ampla difusão. O algoritmo organiza o visível e o invisível. Define o que aparece e o que desaparece.

É justamente aí que o tecnofascismo se diferencia do fascismo histórico e, ao mesmo tempo, o prolonga. O fascismo clássico dependia da coerção visível, da violência direta, da censura, da polícia, do aparato estatal ostensivo. No tecnofascismo, a dominação é internalizada. Torna-se difusa, invisível e quotidiana. O sujeito acredita estar a agir livremente, mas está dentro de uma arquitetura de controlo projetada por algoritmos e sistemas automatizados.

O tecnofascismo não precisa de calar, porque a própria lógica digital já define o que é visível e o que desaparece. O controlo não é imposto de fora; dá-se de dentro, pela adesão ao sistema. É por isso que pode ser definido como o fascismo do algoritmo, o fascismo do like, o fascismo do controlo sedutor. Disfarça-se de liberdade, mas opera como vigilância permanente e como colonização da subjetividade.

O eterno retorno
No plano global, as grandes plataformas (big techs) constituem o núcleo duro deste processo. Não são apenas empresas; configuram-se como novos impérios. Controlam a infraestrutura da comunicação global, privatizam a esfera pública, transformam a comunicação humana em negócio. O capital digital extrai valor do tempo, da atenção e da emoção. Trata-se, em sentido rigoroso, de um capitalismo da vigilância e da extração psíquica. O que se compra e se vende não é apenas consumo, mas comportamento.

Estas corporações não apenas registam o que fazemos; orientam o que devemos desejar, amar, temer ou odiar. O que antes aparecia como um poder mais difuso, hoje apresenta-se de forma ostensiva, mediática, visível. O Estado-plataforma deixou de ser uma hipótese e tornou-se uma realidade dominante.

No Brasil, porém, este processo encontra uma formação histórica específica. Quando se fala em modernidade tardia, não se trata apenas de um atraso cronológico em relação às economias centrais. Trata-se de um passado que está sempre presente, que não se descola. Patriarcalismo, patrimonialismo, nepotismo, racismo institucional, pensamento esclavagista: tudo isto se recompõe e reaparece. Muda de roupa, mas retorna.

O caso da professora negra aprovada em primeiro lugar para uma vaga em linguística africana e atingida pela anulação do concurso mostra exatamente isso: o passado a reaparecer por via do próprio Estado. O racismo institucional não é um acidente. É permanência histórica. É uma das formas pelas quais o passado continua a bater à porta.

A mesma lógica vale para a exploração do trabalho análogo à escravatura. A formação social brasileira entra na hipermodernidade sem ter rompido com formas económicas e mentais pré-capitalistas. A "uberização" talvez seja o exemplo mais evidente da atualização tecnológica da escravização.

O trabalhador sem garantias, sem proteção, sem estabilidade, sem direitos, submete-se ao ritmo de trabalho que conseguir suportar, ao bel-prazer da empresa a cada chamada, a cada serviço, a cada fatia retirada do seu trabalho, sem a contrapartida correspondente. Vale para o motorista, para o estafeta (motoboy), para o trabalhador da cultura, para o professor submetido à plataformização do ensino. Passado e presente, no caso brasileiro, estão absolutamente juntos.

Um passado que permanece presente
É baseado nesta junção entre capitalismo digital, pensamento esclavagista, regime algorítmico de visibilidade e mobilização política reacionária que o tecnofascismo ganha uma forma histórica concreta. A misoginia, o racismo, a adultização, a proliferação neonazi, os discursos anticientíficos e antivax (vacinas) não circulam apenas porque existem produtores desses conteúdos, mas porque há uma economia política da atenção que os favorece.

O envolvimento (engagement) do algoritmo premeia o extremismo. A lógica das plataformas amplia os conteúdos que melhor mobilizam o medo, o ódio e a adesão. O tecnofascismo encontra aí a sua base social real. Se antes ainda se podia insistir na categoria da manipulação, hoje isso já não basta. O que se vê é identificação. O sujeito não apenas consome o discurso; ele reconhece-se, adere à sua gramática, incorpora e reproduz os seus valores.

Os efeitos destes fenómenos são mais intensos no Brasil não apenas porque a regulação é insuficiente, mas porque as condições estruturais são terrivelmente frágeis. A democracia está em processo de fortalecimento, com marcos históricos recentes e fundamentais, como a responsabilização de militares de alta patente por crimes contra a democracia.

Mas isso também evidencia que a disputa segue aberta. O terreno continua fértil para o tecnofascismo porque aquilo que ainda coloniza o Brasil não foi superado. A hipermodernidade não o dissolveu; apenas lhe forneceu novos meios, novas linguagens e novos dispositivos. Talvez por isso a melhor definição do nosso tempo seja mesmo a de realismo trágico. Não se trata de uma distopia futura. Trata-se da forma contemporânea de uma tragédia já instalada no presente.

terça-feira, 12 de julho de 2011

UBUNTU - No ano internacional do Voluntariado, gosto da ideia base- diálogo intergeracional

"Ubuntu" é de origem Sul-africana.

"Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo" - Arcebispo Desmond Tutu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness)



Critica-se muito a geração poder das flores (flower power) e Maio 68.
Pois a geração flower power conseguiu muitas coisas boas: o crescimento da consciência verde e que o ambiente é necessário na equação económica-política (surgimento de partidos Os Verdes), a emancipação da mulher em definitivo, o planeamento familiar, cuidados maternais e infantis, o aparecimento e crescimento de muitas organizações ambientais (Greenpeace, WWF, Friends of Earth, Quercus) e a própria consciência europeia (ampliação da UE, projectos Comenius e Erasmus). "Culpo" mais a era 90, a era do yuppie (juventude rapidamente rica, birrenta e mimada) do sobre-endividamento familiar, estatal e privado, os anos da proliferação da globalização e do dinheiro tóxico e finalmente uma ideia colectiva de HIPERMODERNIDADE 
No entanto, devido a esta crise a vários níveis, mais do que atirar "pedras" e fazermos mais "barulho" e "violência" de discursos,devemos dizer UBUNTU- significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"
Atentem para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos... 

Como diz um bom amigo meu José Gomes 
Peço à Vida para me dar amanhã, aquilo que eu hoje quero para os outros. É solução para todos os problemas pessoais e sociais. É entender O SENTIDO DA VIDA.É a Nova Era, o Novo Mundo. Era assim no Princípio.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A Hipermodernidade - compreender a crise dos nossos tempos noutra perspectiva

Para Lipovetsky o termo Pós-Moderno se tornou vago e não consegue exprimir o mundo atual, o pós de pós-moderno se referia ao passado como se este já estivesse morto, antes de afirmar o fim da modernidade, assiste-se ao seu arremate, que se concretiza no liberalismo globalizado, na mercantilização dos modos de vida e numa individualização galopante. Mas esta modernidade, que também é denominada de supermodernidade é integradora, a qual estamos saindo era negadora: não mais destruição do passado, e sim, sua integração com as lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Ao definir o conceito de hipermodernidade, Lipovetsky propõem “superar a temática pós-moderna e reconceptualizar a organização temporal que se apresenta”. Sugere o termo hipermoderno, pois surge uma nova fase da modernidade, que foi do pós ao hiper: “a pós-modernidade não terá sido mais que um estágio de transição, um momento de curta duração.”(Lipovetsky, 2004:58).

A Hipermodernidade é caracterizada por uma cultura do excesso, do sempre mais. Todas as coisas se tornam intensas e urgentes. O movimento é uma constante e as mudanças ocorrem em um ritmo quase esquizofrénico determinando um tempo marcado pelo efêmero, no qual a flexibilidade e a fluidez aparecem como tentativas de acompanhar essa velocidade. Hipermercado, hiperconsumo, hipertexto, hipercorpo: tudo é elevado à potência do mais, do maior. A hipermodernidade revela o paradoxo da sociedade contemporânea: a cultura do excesso e da moderação. (Ler mais aqui , aqui e aqui).

O fim das grandes utopias e o surgimento de uma nova cultura individualista, que privilegia a imediatismo, o consumismo e o hedonismo. Esse é o fio condutor do livro Cartas sobre a Hipermodernidade, do filósofo Sébastien Charles, lançado recentemente pela Editora Barcarolla. Por meio de dez cartas, o autor revela uma sociedade hipermoderna, caracterizada pela indiferença ao bem público, pela prioridade frequentemente dada ao presente, em detrimento do futuro, pela valorização dos particularismos e dos interesses corporativistas, pela desagregação do sentido de dever ou da dívida com a colectividade. “Um novo pacto social é, portanto, mais indispensável do que nunca”, afirma o filósofo. Segundo ele, essa valorização do presente, embora justa, está desfasada com a ideia de pós-modernidade, quando se indicava o desaparecimento da modernidade. Não vivemos, afirma Charles, “o fim da modernidade, mas uma nova modernidade, elevada à uma potência superlativa. Não estamos em uma era ‘pós’, mas ‘hiper’.

Ler ainda esta entrevista (em francês)

domingo, 18 de fevereiro de 2007

A sabedoria de um homem está em usar seu sofrimento como alicerce de sua maturidade


O lamento é o suspiro dos fortes, é o alicerce da maturidade do Homem e da Humanidade. Só passando por certas perdas é que se adquire em nós essa profundidade. O resto é "capa" desta era hiper-moderna e (muito) medíocre.

 
Ashes and Snow by Gregory Colbert from Gregory Colbert on Vimeo.

"A sabedoria de um homem não está em não errar, chorar, se angustiar e se fragilizar, mas em usar seu sofrimento como alicerce de sua maturidade."~Augusto Cury
Ler sobre Hipermodernidade
Video retirado do projecto Ashes and Snow

sábado, 24 de setembro de 2005

Blixa Bargeld, Einstürzende Neubauten - Silence Is Sexy


Blixa Bargeld e os Einstürzende Neubauten são de nacionalidade alemã, tendo surgido na vibrante e vanguardista cena de Berlim Ocidental no início dos anos 80. No que diz respeito ao estilo musical, a banda é historicamente reconhecida como a pioneira do movimento Industrial e do Rock Experimental, mas no tema Silence Is Sexy a sua sonoridade evolui para um registo assente no Minimalismo e no Avant-Garde Pós-Industrial. Afastando-se do ruído caótico dos primeiros anos, a composição constrói-se de forma subtil através de uma linha de baixo hipnótica e de elementos percussivos invulgares, onde o próprio som de Blixa Bargeld a acender, a fumar e a sacudir a cinza de um cigarro é utilizado como metrónomo e instrumento musical.

A mensagem central do vídeo e da performance artística gira em torno da valorização do vazio e da sensualidade do silêncio numa sociedade contemporânea permanentemente saturada de barulho. Blixa Bargeld aborda o silêncio não como uma mera ausência de som, mas como uma presença física, tensa e profundamente provocadora. Através de cortes abruptos na música que forçam o espetador a confrontar-se com o silêncio absoluto em tempo real, a obra funciona como um manifesto conceptual que defende que a verdadeira intimidade, o erotismo e a força da arte residem na capacidade de abrandar o ritmo do mundo e escutar os espaços vazios que existem entre cada nota.

sábado, 21 de agosto de 2004

Kesang Marstrand: Carry On Crickets

Letra
Carry on crickets
Sing your song
The sun has set
And the day is gone

Sing to the night
Sing to the moon
And Ill listen too
From here in my room

Carry on
Carry on

Carry on breeze
Whisper and sigh
The night has come
And the moon is high

Whisper to the hills
Whisper to the trees
Whisper to the fields
Carry on breeze


Carry on
Carry on

Kesang Marstrand é uma cantora e compositora norte-americana, nascida em Woodstock, Nova Iorque, filha de mãe dinamarquesa e pai tibetano. A sua música é uma fusão delicada de folk indie, acústico e dream pop, caracterizada por arranjos minimalistas e pela sua voz etérea e cristalina.

A canção "Carry On Crickets" funciona como um abraço sonoro. É construída sobre uma melodia suave e repetitiva de guitarra que imita o canto constante e rítmico dos grilos à noite. A letra é um mantra de aceitação e presença, incitando o mundo natural a continuar a sua canção como forma de ancorar o ouvinte no "agora". Transforma a potencial solidão da noite numa experiência partilhada com o universo.

A experiência visual do vídeo intensifica isso com imagens suaves e nebulosas que remetem para um sonho em transição para a realidade. O texto flui pelo ecrã com uma graciosidade deliberada em câmara lenta, garantindo que cada palavra carrega o peso de um segredo sussurrado. Esta sinergia entre o "texto em movimento" e os sons orgânicos da natureza cria uma atmosfera meditativa que encoraja o espectador a respirar mais profundamente e a encontrar a quietude no meio do movimento do mundo.