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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Eclipse Solar 2026 em Portugal: vale a pena Montesinho ou ir para Espanha?

Vale a pena milhares de pessoas no aeródromo de Bragança para ver o eclipse solar, durante uns meros 20s e apenas 90%? [É a "loucura": farmácias de Bragança em rutura de stock de óculos para o eclipse]

No dia 12 de agosto de 2026, a Península Ibérica será o palco principal de um dos eventos astronómicos mais aguardados do século: um eclipse solar total. Contudo, apesar do entusiasmo mediático e do orgulho nacional, a realidade geográfica e astronómica impõe uma conclusão inequívoca: tentar assistir ao eclipse em solo português é uma escolha errada e um investimento de tempo sem garantia de retorno. Se o objetivo é vivenciar o fenómeno em toda a sua plenitude - a descida abrupta da noite em pleno dia, a queda de temperatura e a visão a olho nu da coroa solar -, a decisão racional passa por cruzar a fronteira e rumar ao Norte de Espanha. Veja aqui o mapa real.

Em quase todo o território de Portugal Continental, do Porto a Lisboa e ao Algarve, o eclipse será apenas parcial, variando entre 92% e 99% de ocultação. Os pareceres divulgados pelo Planetário do Porto / Centro Ciência Viva e por diversos astrónomos são perentórios nesta distinção: um eclipse 99% parcial não oferece 99% da experiência de um eclipse total, oferece 0%. Enquanto restarem escassos raios solares desprotegidos, o céu não escurece totalmente, é estritamente proibido retirar os óculos de proteção certificados e a coroa solar permanece invisível. Para a maioria dos residentes em Portugal, a experiência resumir-se-á a olhar através de filtros escuros para um simples "crescente de Sol".

O único ponto de Portugal Continental rasgado pela faixa de totalidade é a extremidade nordeste do Parque Natural de Montesinho, na aldeia de Guadramil em Bragança, mas focar os planos nesta região ou no Aeródromo Municipal de Bragança revela-se um erro estratégico. De acordo com o mapeamento e as diretrizes disponibilizadas pela Comissão Nacional Eclipse 2026, a duração da totalidade na aldeia de Guadramil será de escassos 26 segundos, enquanto no aeródromo o tempo cai para míseros 15 a 18 segundos. Além desta duração ínfima - onde qualquer nuvem ou ajuste de câmara faz perder o momento -, o evento ocorre pelas 19h30 com o Sol a escassos 10° acima do horizonte, correndo o risco de ficar tapado pelo relevo ou pela bruma ao nível do solo. Soma-se a isto o alerta das autoridades para a falta de capacidade da rede viária de montanha em Montesinho e do próprio aeródromo para acolher milhares de visitantes, criando um risco real de bloqueio no trânsito na hora do fenómeno.

Enquanto Portugal hesita na preparação de infraestruturas, Espanha já percebeu o enorme potencial económico do astro-turismo e está a mobilizar-se em força. Em regiões do Norte de Espanha como Galiza, Astúrias e Castela e Leão, o impacto comercial já se faz sentir com grande intensidade: a procura disparou de tal forma que estadias de 3 noites em pontos estratégicos de montanha, como na zona de Riaño em Leão, chegam a atingir valores inflacionados de 850 euros, com muitos alojamentos esgotados com longa antecedência. A razão para esta corrida ao mercado espanhol é simples: ao avançar no interior do país vizinho, a duração da noite solar salta para valores entre 1 minuto e 30 segundos e quase 2 minutos, o Sol encontra-se numa posição mais favorável no céu e a rede de autoestradas e planaltos permite acolher o público com muito maior segurança. Faça bem a sua escolha: ficar em Portugal no dia 12 de agosto de 2026 é arriscar uma enorme frustração, pelo que atravessar a fronteira em direção ao Norte de Espanha é a única forma de garantir a experiência de uma vida. Ou ver, descansado e gratuito, ao vivo em live stream na página da ESA

Mais info:

NASA - Total Solar Eclipse 2026

sábado, 25 de julho de 2026

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo


Por Julian Fernandez Quilez
Quando uma morte pode ser evitada, ela deixa de ser um acidente e torna-se um fracasso coletivo.
Há notícias que magoam especialmente, e esta, sem dúvida, é uma delas.
Como amante da natureza e fotógrafa que dedicou inúmeras horas a observar, documentar e admirar a fauna da nossa região, esta notícia me entristeceu profundamente. Meu coração se desolou ao saber que Urze, uma ibex feminina que representava a esperança de recuperação da espécie em nossa região, perdeu a vida junto com os seus dois filhotes em um barco de irrigação coberto de plástico na área de Isso.
Não posso evitar sentir uma imensa impotência. Não porque foi um evento imprevisível, mas precisamente porque foi uma tragédia que poderia ter sido evitada.
Urze chegou à área de Isso dois anos atrás equipada com um colar de rastreamento. Ela mal começou a sua nova vida quando perdeu o seu companheiro, Libre, um macho que morreu após ser atropelado na estrada perto do território onde ambos se haviam instalado. Apesar desse duro golpe, Urze avançou e conseguiu salvar a ninhada que estava no seu útero quando chegou à nossa região. Ela era um símbolo de esperança, prova de que o ibex estava lentamente voltando ao seu lugar, onde nunca deveria ter sido perdido.
A coisa mais triste é que essa tragédia foi totalmente evitável.
Barcos cobertos de plástico são verdadeiras armadilhas mortais. Suas superfícies lisas impedem qualquer possibilidade de escapar. Não são apenas lince, também mares, jardineiros, cervos, raposas, gatos, lagartos monitor, répteis, anfíbios e até mesmo pássaros de prédio que desempenham uma atividade de caça e que caem para beber ou tentam capturar alguma prática que está presa na água.
Não estamos a falar de um novo problema. Há anos, Castellana, a primeira lince feminina a chegar à área de Albatana, foi casada com um macho chamado Lucero. Ele também acabou se afogando em outro barco de plástico. Hoje, a história se repete.
Quantos outros animais têm de morrer antes de tomar medidas?
Não é suficiente lamentar quando uma desastre ocorre. É necessário prevenir. Existem soluções simples, econômicas e eficazes que já estão a ser usadas em muitos lugares e devem ser obrigatórias em todas as barcas de irrigação:
  1. Instale rampas de escape que permitam a qualquer animal que caia na água sair.
  2. Coloque redes ou redes de resgate nas laterais.
  3. Incorporar plataformas ou cordas flutuantes que servem como refúgio temporário até que o animal possa sair da barca.
  4. Instalar escadas e escapatórias flutuantes em cortiça 
  5. Adaptar todas as lagoas existentes e exigir que as novas se incorporem a esses sistemas desde a construção.
O custo dessas medidas é insignificante em comparação com a valorização de uma vida, e ainda mais quando estamos a falar sobre uma espécie cuja recuperação exigiu décadas de trabalho e um enorme investimento económico e humano.

Mas os barcos não são a única ameaça que continua a tirar vidas.
As estradas que cruzam ou fronteiram as áreas onde o lince vive continuam a ser um dos seus maiores inimigos. O companheiro do Urze morreu logo após se estabelecer na área. Dois anos depois, Urze e os seus filhotes morreram num barco. Duas tragédias diferentes com o mesmo comum denominador: ambas poderiam ter sido evitadas.
Portanto, além de adaptar barcos de plástico, é essencial agir nas estradas que cruzam os territórios desta espécie: 
  1. É necessário implementar reduções de velocidade nos pontos mais conflitivos
  2. Colocar sinalética animal
  3. Instalar radares, melhorar a identificação específica para a fauna 
  4. Construir cruzeiros de fauna com cercas que lhes permitam ir para onde for necessário. 
Não podemos continuar a esperar por cada nova morte para nos lembrar do que já sabemos.
A recuperação do lince da Ibéria exigiu décadas de esforço, milhares de horas de trabalho e milhões de euros em investimento público. Seria uma grande contradição voltar a eles para que possam continuar a morrer de ameaças que conhecemos perfeitamente e que têm uma solução. A conservação não termina quando um lince é libertado; começa no mesmo momento. Devemos garantir que possa viver e criar seus filhotes num ambiente seguro.
Também quero fazer uma reconhecimento muito especial aos Agentes Ambientais, cuja dedicação diária é essencial para o monitoramento, proteção e conservação do lince ibério. Graças ao seu trabalho, a recuperação desta espécie foi possível e continua a progredir. Mas nem mesmo o melhor trabalho de campo pode impedir mortes que dependem exclusivamente de nós colocarmos soluções onde sabemos que há um problema.

Este artigo não pretende procurar culpados, mas sim despertar consciências. É um apelo às administrações, às comunidades de caçadores, aos proprietários de barcos e a todos os órgãos competentes para agir agora. Porque conservar uma espécie não é apenas sobre reprodução e liberação; é sobre eliminar as ameaças que continuam a acabar com a vida dela.

Não pedimos o impossível. Pedimos a força de vontade. Instalar uma rampa de escape num barco, colocar uma rede, um cortejo flutuante ou reduzir a velocidade em uma trilha perigosa é muito pouco. O que é inestimável é a vida de uma espécie que temos tanto esforço para recuperar.

Escrevo estas palavras com grande tristeza, mas também com a esperança de que servirão para mudar as coisas. Espero que a morte de Urze, dos seus dois filhotes, do Libre, do Lucero e de tantos outros não seja apenas mais uma história de notícias, mas o impulso definitivo para tomar medidas reais e eficazes.
Que esta seja a última vez que tenhamos que chorar pela morte de um lince por razões que estavam nas nossas mãos para evitar. O lince ibércio merece algo melhor. A nossa natureza também. Por favor, partilhem isto, isso tem de mudar.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Força Portugal!


Sabiam que temos um insecto que veste as cores verde e vermelho de Portugal? É o gafanhoto-de-asas-vermelhas (Oedipoda germanica).  A natureza realmente vestiu-se com as cores da nossa bandeira para esta partida. Força Portugal!

With the big Portugal vs. Spain Iberian derby coming up, I was looking through my photography and found the ultimate, natural-born supporter!
I snapped this shot , and it perfectly captures the verde e vermelho spirit. At first glance, this Red-winged grasshopper (Oedipoda germanica) looks completely camouflaged against the stone. But the moment it takes flight, it flashes those brilliant, fiery red wings—perfectly framed by the green moss in the background! Nature truly dressed up in our national colors for this match.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espanha: Elétricas e PP propagam notícias falsas culpando as renováveis pelo apagão

A Greenpeace denunciou quatro notícias falsas que estão sendo propagadas por empresas elétricas e pelo Partido Popular (PP), com o objetivo de culpar as energias renováveis pelo apagão e justificar a manutenção de centrais nucleares e de gás:

1: “Havia energia renovável em excesso”
Realidade: O apagão foi causado por falhas no controle de tensão atribuíveis a centrais de gás e nucleares (que não forneceram os serviços de segurança pelos quais foram pagas). Países com maior participação renovável (Alemanha, Grécia) não sofreram apagão.

2: “Não podemos prescindir da energia nuclear para evitar novos apagões”
Realidade: A nuclear foi um peso durante a crise. Mais de metade do parque nuclear estava operacional, mas não ajudou a estabilizar o sistema (inclusive há processos contra centrais como Almaraz, Ascó e Vandellós II). Além disso, centrais nucleares são lentas para religar (levam dias), ao contrário de outras tecnologias.

3: “Sem gás não podemos viver”
Realidade: Embora as centrais de gás tenham ajudado na recuperação pós-apagão, 16 centrais de gás também falharam em controlar a tensão para evitar o colapso (e estão sendo sancionadas).

4: “Só com renováveis não podemos funcionar”
Realidade: Um estudo da Greenpeace (Energia para viver melhor) conclui que Espanha e Portugal podem abandonar completamente os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040, com redução de 39% da procura energética total e abastecimento 100% renovável (eólica, solar, hidráulica, armazenamento e gestão da procura).

A Greenpeace sugere a aplicação de um imposto específico sobre as grandes empresas elétricas (que aumentaram lucros pós-apagão) para financiar o combate à pobreza energética e uma transição energética justa.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Relatório aponta aumento da mortalidade pelo calor extremo na Galiza e norte de Portugal


Cidades da região espanhola da Galiza e do norte de Portugal têm registado um excesso de mortalidade, em alguns casos até 60%, como consequência do calor extremo, segundo um relatório do Eixo Atlântico divulgado na quarta-feira.

Esta investigação, apresentada pela organização em Pontevedra, revela que cidades como o Porto, Viana do Castelo, Ourense, Braga, Guimarães e Lugo registaram entre 50% e 60% de excesso de mortalidade durante períodos de altas temperaturas.

O estudo, liderado por Francesc Cárdenas, diretor da Agência de Ecologia Urbana do Eixo Atlântico, propõe que se preste “especial atenção” à conceção dos espaços públicos e à integração da saúde em todos os processos de planeamento urbano e territorial.

Cárdenas indicou que é necessário promover uma “cultura do calor”, que inclua a adaptação das cidades, a criação de refúgios climáticos e a elaboração de planos de ação para as ondas de calor, de forma a proteger os cidadãos.

Argumentou ainda que “padrões mais rigorosos” para a qualidade do ar e o controlo do ruído devem ser implementados para melhorar a saúde ambiental e humana nas cidades.

“Precisamos de uma mudança cultural”, enfatizou o diretor do relatório, que indicou que 80% dos fatores que influenciam a saúde humana dependem do planeamento urbano.

O documento salienta que o limite crítico de 1,5 graus Celsius de aquecimento global já foi ultrapassado em 2024, o que exige ações com “microcirurgia urbana”.

Neste sentido, o relatório inclui também boas práticas como os corredores ecológicos de A Coruña, as rotas escolares seguras e as zonas de baixas emissões de Pontevedra, a via verde de Vigo e as rotas termais de Ourense.

Vázquez Mao insistiu que as câmaras municipais devem decidir “como e onde construir” para garantir que as novas áreas residenciais não se tornam blocos habitacionais sem vida e insalubres.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Hoje é o Dia Internacional do Lince-Ibérico


Espécie emblemática dos ecossistemas mediterrânicos da Península Ibérica, esteve praticamente extinta em Portugal Continental durante mais de duas décadas. Graças a um programa de reintrodução que ocorreu no Parque Natural do Vale do Guadiana, por pressão da União Europeia e em contrapartida do financiamento comunitário para a barragem da ribeira de Odelouca, existem actualmente mais de 350 linces em território nacional, estando a maioria nos concelhos de Mértola, Serpa e Alcoutim. Décadas atrás, a espécie também estava presente nas serras da Malcata, São Mamede, Espinhaço Cão, Monchique ou Caldeirão, no Tejo Internacional, Alentejo Litoral e Costa Vicentina, ou na região de Moura-Barrancos. A redução drástica das populações de coelho-bravo, a caça furtiva, a destruição de habitat ou o recurso a venenos foram as principais causas da sua extinção no território português. Em boa verdade, o lince-ibérico foi salvo sobretudo pela acção das autoridades espanholas, que conseguiram garantir a sobrevivência de duas populações até ao início do século, em Doñana e na zona mais oriental da Serra Morena. Se dependesse apenas de Portugal, hoje já não existiria o lince-ibérico.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Estudo confirma pelo menos 10 castores em afluentes espanhóis do Douro, junto à fronteira portuguesa


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José Jambas e Francisco Álvares, que participaram num estudo luso-espanhol sobre a nova população de castores, explicaram à Wilder o que a equipa encontrou e quais são as expetativas para o futuro.

Um novo estudo, publicado na revista científica Galemys, confirma que há castores a reproduzirem-se nas margens do rio Tormes, onde foram encontrados os primeiros vestígios na bacia hidrográfica do Douro, mas agora também no Uces, outro rio próximo da fronteira portuguesa. A nova população foi estudada em observações diretas destes mamíferos, registados também por câmaras de foto-armadilhagem e por inúmeros vestígios – como troncos cortados, ramos com marcas de dentes e construção de abrigos – e ainda por um estudo genético.Castor no Tormes. Vídeo: José Jambas

“Confirmamos a presença de pelo menos 10 castores em dois afluentes do Douro, incluindo dois grupos familiares com reprodução em 2023 e um possível terceiro [grupo com reprodução]”, escreve a equipa de sete investigadores responsáveis pelo estudo recentemente publicado, liderada por Teresa Calderón, da Universidade de Saragoça.
  
A investigadora espanhola já tinha estado à frente do estudo anterior, que em 2023 anunciou a presença da espécie no rio Tormes e concluiu que esta terá resultado de uma libertação não autorizada de castores. Isto porque está demasiado distante a outra população mais próxima desta espécie, em Espanha, onde a espécie regressou em 2003 em resultado de outra libertação ilegal.

No entanto, os cientistas suspeitam agora de que a nova população recém-descoberta na bacia do Douro resulta de pelo menos duas libertações realizadas separadamente, uma no rio Tormes e a outra no rio Uces. Isto, como explicam, devido à “distância relativamente grande” entre estes dois rios e à existência de barreiras que dificultam a passagem de um curso de água para o outro, incluindo “grandes cascatas”.

Por outro lado, para além de confirmarem a presença de dois grupos familiares reprodutores, um no Tormes e outro no Uces, a equipa admite também a hipótese de haver um segundo casal com crias no primeiro rio, com base em observações diretas e vestígios encontrados.

Esta possibilidade, embora ainda sem certezas, é apoiada pela descoberta de vários montes de cheiro nas margens do Tormes. Trata-se de pequenas pilhas formadas por lama e vegetação misturadas com castóreo, uma substância oleosa glandular que estes mamíferos utilizam para marcar território e impermeabilizar o pelo.

Os vestígios de castores encontrados junto a este rio estendem-se por 15 quilómetros, desde a barragem espanhola de Almendra até ao estuário onde o Tormes se une ao Douro, “apenas a uns poucos metros de distância da fronteira portuguesa”, descrevem no estudo.

Muito menor é a área onde a equipa identificou sinais de castores no Uces, “ao longo de dois quilómetros do rio, a maior parte concentrados num charco durante o verão, tal como nalguns pontos isolados das margens”.

O que se passa em Portugal?
Embora o trabalho de campo cujos resultados foram agora conhecidos se tenha realizado essencialmente em 2023, desde então mantiveram-se os trabalhos de monitorização nesta zona que pertence ao Parque Natural Arribes del Duero. Esta área protegida espanhola está colada ao Parque Natural do Douro Internacional, do lado português da fronteira, onde a equipa tem estado igualmente atenta a sinais no terreno – até porque em julho passado foram divulgadas imagens de pelo menos um castor no estuário do Tormes, “apanhado” em território português por câmaras de foto-armadilhagem.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Satélites revelam que o sul da Europa está a ficar sem água. E nós somos o sul


Durante anos, a seca foi uma imagem associada a outros continentes. Agora, os mapas gravíticos que “pesam” a água do subsolo mostram uma mancha em aceleração sobre o sul e o centro da Europa. Em duas décadas de medições, os cientistas vêem aquíferos em queda de Espanha à Roménia e avisam que o que falta debaixo dos nossos pés pode transformar-se depressa em problema à superfície: nas torneiras, nos campos e nas prateleiras dos supermercados

Vastas reservas de água doce na Europa estão a encolher, sobretudo no sul e no centro do continente, com efeitos anunciados para a agricultura, os ecossistemas e o abastecimento urbano.

A conclusão resulta de uma análise a dados de satélite entre 2002 e 2024, conduzida por investigadores da University College London (UCL) em colaboração com a organização Watershed Investigations e o jornal britânico The Guardian, que desenha um mapa em contraste: o norte e o noroeste da Europa, incluindo partes do Reino Unido e de Portugal, aparecem mais húmidos, enquanto grandes áreas do sul e do sudeste, da Península Ibérica à Roménia e à Ucrânia, surgem cada vez mais secas.

Para chegar a estas tendências, a equipa recorreu a satélites que medem variações no campo gravitacional da Terra e permitem “pesar” quanta água está armazenada em aquíferos, rios, lagos, solos e glaciares, já que a massa da água altera o sinal.

Quando cruzaram esses registos com bases de dados climáticos, as curvas bateram certo. “A quebra do clima” está escrita ali, no subsolo, resume Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de risco na UCL, citado pelo The Guardian. Shamsudduha lembra que já não se discute realisticamente limitar o aquecimento global a 1,5 °C e que o mundo caminha para mais 2 °C face à era pré-industrial, "com consequências já visíveis".

Uma análise específica à água subterrânea mostrou um desenho muito parecido ao da água total em terra, o que confirma que até as reservas consideradas mais resilientes estão a ser esvaziadas. No Reino Unido, nota este académico, o sinal é cada vez mais claro: o Oeste fica mais húmido, o Leste mais seco, com chuva total estável ou ligeiramente crescente, mas concentrada em aguaceiros intensos e verões com períodos longos sem precipitação, o que favorece cheias repentinas e menos recarga dos aquíferos.

Estratégia de resiliência hídrica
Do lado das pressões humanas, os dados da Agência Europeia do Ambiente indicam que, entre 2000 e 2022, o volume total de água captada de origens superficiais e subterrâneas na União Europeia desceu, mas as captações de água subterrânea subiram 6 %, puxadas pelo abastecimento público e pela agricultura. Em 2022, os aquíferos garantiam 62 % da água que chega às torneiras e um terço da procura agrícola nos Estados-membros.

Bruxelas responde com uma “estratégia de resiliência hídrica” que quer adaptar a gestão à nova climatologia, construir uma “economia inteligente em água” e melhorar a eficiência em pelo menos 10 % até 2030, com prioridade a reduzir perdas numa rede onde as fugas variam entre 8 % e 57 %.

É nesse contexto que vozes como a da hidróloga Hannah Cloke, da Universidade de Reading, também citada pelo jornal The Guardian, descrevem como “angustiante” ver confirmada estatisticamente a perda de água subterrânea num país, a Inglaterra, que tem atravessado grandes secas e avisos de chuva abaixo da média.

A Agência Europeia do Ambiente já pediu à Inglaterra que se prepare para a possibilidade de a seca se prolongar até 2026, e o Governo britânico anuncia nove novos reservatórios para reforçar a resiliência, mas Cloke contrapõe que infra-estruturas que só estarão prontas dentro de décadas não resolvem o problema imediato e defende mais reutilização, menos consumo, separação clara entre água potável e água reciclada e soluções baseadas na natureza para desenhar cidades e novas urbanizações.
“As alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos”

Os investigadores avisam que o padrão de secagem observado em muitas regiões europeias terá impactos “de longo alcance” sobre a segurança alimentar, a actividade agrícola e os ecossistemas dependentes de água, em especial os habitats alimentados por aquíferos.

A redução das reservas em Espanha, exemplifica Mohammad Shamsudduha, pode sentir-se directamente num Reino Unido que depende fortemente de frutas e legumes importados daquele país e de outros parceiros europeus. E lembra que o que agora se vê no mapa europeu é uma versão próxima de fenómenos há muito descritos no Sul global, do sul da Ásia a partes de África e do Médio Oriente.

Secas prolongadas e aquíferos em queda estendem-se hoje também pelo Médio Oriente, Ásia, América do Sul, costa oeste dos EUA, Canadá e regiões frias como a Gronelândia, a Islândia e Svalbard. No Irão, Teerão aproxima-se do “dia zero” em que deixará de ter água canalizada, o Governo prepara racionamentos e o Presidente, Masoud Pezeshkian, já admitiu que a capital poderá ter de ser evacuada se essas medidas falharem.

Perante este quadro, Shamsudduha insiste na mesma ideia: é preciso aceitar “que as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos” e usar isso como ponto de partida para uma outra forma de gerir a água, abrindo espaço a soluções que ainda soam pouco convencionais, como a captação generalizada de água da chuva em países como o Reino Unido.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A nova mega-fábrica de Leonardo DiCaprio à porta de Portugal: um investimento que promete agitar a Península Ibérica



A poucos quilómetros da fronteira portuguesa, a Extremadura prepara-se para receber um dos maiores projectos tecnológicos da Europa. Trujillo, na província de Cáceres, foi escolhida para acolher uma fábrica de semicondutores de última geração da Diamond Foundry — a empresa norte-americana que tem Leonardo DiCaprio entre os seus investidores mais mediáticos. A dimensão do investimento, a inovação envolvida e o impacto económico esperado estão a transformar este anúncio num dos temas mais relevantes da indústria tecnológica ibérica.

A decisão surge após aprovação do Conselho de Ministros espanhol, que deu luz verde a um plano que prevê 2.350 milhões de euros até 2029. Esta quantia avultada não serve apenas para erguer um complexo industrial de ponta: representa também uma estratégia nacional para posicionar Espanha — e em particular a Extremadura — como um novo pólo europeu na área da microelectrónica. Trata-se de um sector dominado por gigantes asiáticos e norte-americanos, e cuja relevância ficou evidente nos últimos anos, quando a escassez global de chips paralisou indústrias inteiras.

O impacto no emprego será igualmente significativo: cerca de 500 postos directos altamente qualificados e outros 1.600 indirectos, ligados à cadeia logística, à produção auxiliar e aos serviços que inevitavelmente crescerão à volta da fábrica. O envolvimento da SETT — Sociedade Espanhola para a Transformação Tecnológica — reforça a aposta estratégica: o organismo público ficará com 32% do capital, contribuindo com cerca de 752 milhões de euros. As projecções económicas também impressionam: estima-se que, só nos primeiros dez anos de actividade, a fábrica injete 2.150 milhões de euros no PIB espanhol.

Mas o que distingue verdadeiramente este projecto não é o volume de investimento — é a tecnologia. Trujillo será o primeiro local do mundo a produzir semicondutores com diamante monocristalino sintético como substrato. Este material, muito mais resistente que o silício tradicional, oferece vantagens decisivas em aplicações de alta exigência: temperaturas extremas, frequências elevadas, inteligência artificial, defesa, sistemas industriais avançados e automóveis eléctricos de nova geração. Para muitos especialistas, esta tecnologia poderá representar um salto evolutivo comparável ao que o silício significou há várias décadas.

A escolha da Extremadura, uma região historicamente distante dos grandes centros industriais, não é um acaso. Espanha tem vindo a canalizar políticas públicas para desconcentrar a produção tecnológica, aproveitando regiões com espaço, capacidade de expansão e ligação directa a Portugal, cuja proximidade geográfica poderá favorecer projectos conjuntos no futuro. O objectivo é claro: reduzir a dependência externa e criar autonomia num sector onde a Europa tem falhado repetidamente.

Ao mesmo tempo, o facto de Leonardo DiCaprio estar envolvido neste investimento acrescenta-lhe uma curiosidade inevitável — o actor é conhecido pelo seu activismo ambiental, e a Diamond Foundry destaca justamente a sustentabilidade do processo de produção de diamante sintético. No entanto, o que está realmente em jogo é algo muito maior do que uma manchete com um nome famoso: é o aparecimento de um novo centro tecnológico à escala europeia, potencialmente decisivo num mercado cada vez mais competitivo e estratégico.

Para Portugal, a notícia não é indiferente. A poucos quilómetros da fronteira, uma das indústrias mais críticas do futuro está prestes a instalar-se, com potencial para atrair empresas associadas, investigação universitária, mobilidade laboral e oportunidades económicas que poderão atravessar a linha que separa os dois países. A Península Ibérica, tantas vezes vista como periférica em termos tecnológicos, pode estar a ganhar um novo ponto de influência — e este nasce com um brilho muito particular: o de milhões de euros e o dos diamantes.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes".

Zigurate em Ur (moderno Tall al-Muqayyar, Iraque).

Quando a civilização suméria florescia na Mesopotâmia (aproximadamente entre 5.500 e 2.000 a.C.), a Península Ibérica também já era habitada — mas por povos pré-históricos que se encontravam na transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze.
A Mesopotâmia foi uma região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Atualmente, corresponde aos territórios do Iraque, Irão e Jordânia, no Médio Oriente. O termo mesopotâmia tem origem grega e significa “terra entre rios”, uma referência à sua localização geográfica. Os povos que habitaram a região foram os babilónicos, assírios, sumérios e acádios. Os persas derrotaram os acádios em 539 a.C., encerrando o apogeu dos povos mesopotâmicos. A astronomia e a arquitetura são alguns legados culturais deixados pelos povos que habitaram a Mesopotâmia.

𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 à 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲? 𝗡ã𝗼 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗶𝗮. É𝗿𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗽𝗼𝘃𝗼𝘀 𝗶𝗯é𝗿𝗶𝗰𝗼𝘀 𝐞... 𝐢𝐦𝐢𝐠𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬.
Muitos milénios depois dos mesopotâmicos. Aqui vai um resumo claro do que se passava na Península Ibérica nessa altura:

1. Neolítico Final e Calcolítico (c. 3500–2200 a.C.)
As comunidades eram agrícolas e pastoris, com uso de ferramentas de pedra polida e cerâmica.
Começavam a formar-se aldeias permanentes e havia cultivo de cereais, criação de gado e tecelagem.
Surgiam monumentos megalíticos (como antas e dólmens) usados para sepulturas coletivas e rituais.
No sul da Península (especialmente no atual Alentejo, Andaluzia e região de Los Millares), aparecem as primeiras metalurgias do cobre — daí o termo Calcolítico (ou Idade do Cobre).
2. Início da Idade do Bronze (c. 2200–1500 a.C.)
Desenvolve-se a metalurgia do bronze (liga de cobre e estanho).
Surgem sociedades mais hierarquizadas, com chefes locais e fortificações.
O famoso sítio arqueológico de Los Millares (Almería, Espanha) é um dos melhores exemplos dessa época.
Mais tarde, o povo de El Argar (também no sudeste ibérico) representa uma cultura avançada com estruturas sociais complexas e trocas comerciais.
Resumindo: Os primeiros povos que habitaram a Península Ibérica foram os iberos e os celtas, que mais tarde se fundiram nos celtiberos. Os iberos eram oriundos de África e estabeleceram-se na região, enquanto os celtas chegaram da Europa Central, trazendo consigo novas técnicas, como a metalurgia do ouro e ferro.

Anta de Zedes

𝐄 𝐨𝐬 𝐋𝐮𝐬𝐢𝐭𝐚𝐧𝐨𝐬? 𝐍ã𝐨 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐨𝐬 ú𝐧𝐢𝐜𝐨𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐚𝐜𝐭𝐮𝐚𝐥
Os Lusitanos foram um dos povos indo-europeu ou pré-celta, formados entre 800 e 600 a.C., que ocuparam a região do Douro e Tejo, sem escrita própria, de organização tribal e rural.
Além dos Lusitanos, também tinham uma implantação muito importante os Túrdulos, Célticos, Cónios, Galaicos (ou calaicos), Gróvios, e Vetões, entre outros que continuam a ser objeto de estudo conforme se realizam descobertas arqueológicas

𝐄 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞 𝐭𝐫𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐛𝐢𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐟𝐚𝐥𝐚𝐧𝐝𝐨?
Eram Homo sapiens, como nós — descendentes das populações que chegaram à Península após o fim da última glaciação (c. 10.000 a.C.).
No entanto, a forma mais segura de averiguar se nós, os humanos modernos, temos ou não antepassados neandertais era sequenciar o genoma destes últimos. Tal conquista, que parecia impossível, foi realizada pelo cientista sueco Svante Pääbo e valeu-lhe o Prémio Nobel em 2022. Sabemos agora que muitos seres humanos transportam – ou transportamos – uma pequena percentagem de genes neandertais nas células. Portanto, há 40 mil ou 45 mil anos, vieram ao mundo crianças mestiças, que teriam pai neandertal e mãe sapiens, ou vice-versa.

Saber mais:

domingo, 2 de novembro de 2025

Azam Ali - Portals of Grace - Ai Ondas


Maravilhosa interpretação da cantiga de amigo Galaico-Português "Ai Ondas" da Iraniana Azam Ali 
"Ai ondas que eu vin veer,
se me saberedes dizer
por que tarda meu amigo sen min.
Ai ondas que eu vin mirar,
se me saberedes contar
por que tarda meu amigo sen min."

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Amazon lança Centro de Excelência Water-AI Nexus


Numa era em que a tecnologia avança a passos largos e os desafios ambientais se intensificam, surge uma aliança sem precedentes, que promete redefinir a gestão dos recursos hídricos globais. A Water Environment Federation (WEF), a Amazon.com, Inc., o The Water Center at the University of Pennsylvania (WCP) e a The Leading Utilities of the World (Leading Utilities) anunciaram hoje a criação do Centro de Excelência Water-AI Nexus. Esta colaboração pretende assegurar infraestruturas de Inteligência Artificial (IA) sustentáveis no uso da água e alavancar o poder da IA na procura de soluções para a crise hídrica global.

O Water-AI Nexus
O anúncio do Centro de Excelência decorreu na Climate Week NYC, o maior evento climático anual nos Estados Unidos, o que sublinha a urgência e relevância da iniciativa. O Water-AI Nexus dedicar-se-á principalmente a duas missões:

  • Água para a IA – para garantir que a infraestrutura de IA utiliza a água da forma mais eficiente possível, com a otimização do consumo dentro das Regiões AWS e Zonas de Disponibilidade que albergam as cargas de trabalho de IA.
  • IA para a Água – aproveitar as vastas capacidades da Inteligência Artificial (e Machine Learning), em plataformas como o Amazon SageMaker e outras, de análise de dados, para resolver desafios urgentes de escassez e gestão hídrica. O que inclui análises preditivas de procura, deteção de anomalias em redes e otimização de processos de tratamento.

Ralph Erik Exton, diretor executivo da WEF, sublinha a importância desta união: “As empresas de água em todo o mundo, enquanto servem comunidades que dependem de serviços de água fiáveis e acessíveis, enfrentam desafios sem precedentes devido às alterações climáticas e a infraestruturas envelhecidas. O Water-AI Nexus vem acelerar a inovação e conectar profissionais da água com especialistas em IA para que desenvolvam soluções que beneficiem ambos os setores, e as comunidades. Esta plataforma colaborativa promove o desenvolvimento de soluções nativas na cloud e a otimização da gestão da água com recurso a dados.”

Boas Práticas Para o Uso Sustentável da Água
Uma das principais iniciativas do Centro de Excelência Water-AI Nexus é a criação de diretrizes e padrões para o uso responsável da água no setor de IA. O objetivo é promover as melhores práticas na indústria e estabelecer critérios de conformidade para a eficiência hídrica em centros de dados.

Nesse sentido, foi hoje lançado o guia de boas práticas “Princípios para o Uso Sustentável da Água por Data Centers”, um roteiro essencial para operadores de data centers minimizarem os seus impactos hídricos, mas continuarem a maximizar o avanço tecnológico.

Este guia estabelece quatro princípios essenciais:
  1. Design e localização inteligentes – considerando dados e impacto ambiental),
  2. Otimização operacional – com monitorização em tempo real e automação),
  3. Uso de fontes de água sustentáveis – integrando-se com tecnologias como AWS IoT) e
  4. Reposição de água nas comunidades – alinhado com as metas de responsabilidade social).
  5. A partilha de conhecimento é fundamental pelo WATER-AI NEXUS, e garantem estudos de caso e resultados divulgados em eventos como o AWS re:Invent, e outros fóruns, assim como a colaboração intersetorial – ligação entre empresas de água, desenvolvedores de IA, investigadores e o governo – vai ser incentivada para promover a inovação.
O consumo de água é uma grande preocupação entre os principais desenvolvedores de data centers. De acordo com um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), um centro de dados típico de 100 MW nos EUA consome cerca de dois milhões de litros de água por dia. À escala global, a AIE estima que o sector dos centros de dados consuma actualmente mais de 560 mil milhões de litros de água por ano, podendo este número aumentar para 1,2 biliões de litros anualmente até 2030.

A Amazon adotou várias medidas para tornar o seu uso de água mais sustentável. Em junho, a empresa anunciou que estava a expandir o número de locais que utilizam águas residuais tratadas para arrefecimento de data centers de 20 para 120.

Inovação hídrica da Amazon na Península Ibérica
Na Península Ibérica, o compromisso da Amazon com a inovação na gestão hídrica e energética já é visível. Em março deste ano foram anunciados três novos projetos hídricos na região de Aragão, sede da Região AWS Europa. Com um investimento total de 17,2 milhões de euros, estas iniciativas visam proteger 700.000 residentes de Saragoça contra inundações, modernizar infraestruturas críticas e otimizar o uso da água na agricultura através da Inteligência Artificial (IA).

Os projetos incluem:
  1. Sistemas de alerta precoce baseado na cloud e IA para prevenção de inundações,
  2. Programas de apoio agricultores locais na implementação de IA para maximizar a produtividade e reduzir a pegada hídrica.
  3. Melhorias nas infraestruturas de abastecimento de água em Huesca.
  4. Outro exemplo claro de inovação e tecnologia aplicada na gestão da água é o da SPHERAG. Esta empresa espanhola utiliza soluções de IA, machine learning e IoT da AWS para melhorar a eficiência hídrica no setor agrícola, demonstrando como a tecnologia pode transformar a gestão deste precioso recurso e contribuir para o compromisso global da Amazon de devolver mais água às comunidades e ao ambiente do que utiliza nas suas operações até 2030.
As organizações dos setores da água e da tecnologia são convidadas a participar neste esforço colaborativo em Water-AI Nexus

A Google, a Microsoft e a Meta também adotaram iniciativas para apoiar o uso mais sustentável da água e comprometeram-se a atingir a positividade hídrica até 2030.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Portugal violou direito de acesso à informação no caso da mina do Barroso


O Comité da Convenção de Aarhus concluiu que três instituições portuguesas retiveram de “maneira deliberada e infundada” informação durante a participação pública no processo de avaliação ambiental da mina do Barroso, em Boticas, após queixa apresentada em 2021.

A queixa foi apresentada em 2021 pela Fundação Montescola, uma organização não-governamental (ONG) espanhola, e a conclusão do Comité da Convenção Aarhus foi divulgada esta terça-feira, em comunicado.

A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) e a MiningWatch Portugal foram observadoras no processo.

As três ONG consideram que o Comité “vem corroborar que o processo de avaliação de impacte ambiental não garantiu o direito à participação pública” e defendem a anulação da Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

A mina de lítio a céu aberto obteve uma DIA condicionada em 2023 e a Savannah prevê iniciar a produção de lítio em 2027, no concelho de Boticas, no distrito de Vila Real.

A queixa remonta ao período da consulta pública da primeira versão do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) após terem sido negados vários pedidos de acesso a documentos ligados ao procedimento de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA).

O Comité da Convenção de Aarhus concluiu que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Norte (CCDR-N) retiveram “de maneira deliberada e infundada informação”.

Entre outros, o comité considerou que a APA não respondeu ao pedido de informação ambiental no prazo estabelecido pela Convenção, que a APA e a CCDR-N retiveram informação ambiental alegando um critério de recusa infundado e que a DGEG incumpriu a Convenção ao remeter o pedido para outra entidade quando se encontrava na posse da informação solicitada.

Aponta ainda que a APA não garantiu um período razoável para a participação pública no âmbito do EIA reformulado (2023) e considera que a legislação portuguesa incumpre vários artigos da Convenção, como, por exemplo, manter um período de consulta de 10 dias úteis no caso do EIA reformulado que incumpre o artigo 6.º da Convenção, recomendando alterações que permitam um alinhamento com o tratado subscrito pelo Estado português.

A Convenção da Comissão Económica para a Europa das Nações Unidas (CEE/ONU) sobre acesso à informação, participação do público no processo de tomada de decisão e acesso à justiça em matéria de ambiente - conhecida habitualmente como Convenção de Aarhus - foi adotada em 25 de junho de 1998, na cidade dinamarquesa de Aarhus.

Em Portugal, a Convenção entrou em vigor em setembro de 2003.

“Esta deliberação é muito importante porque acaba com a ideia que as críticas que temos feito à condução do processo de avaliação são infundadas. A violação do direito ao acesso à informação e à participação pública é um motivo mais do que suficiente para anular a DIA e para começar o processo de avaliação do zero”, afirma, citada no comunicado, Carla Gomes, da UDCB.

Para Nik Völker, da MiningWatch Portugal, “as conclusões do Comité da Convenção têm consequências para além do projeto de lítio no Barroso”, questionando que garantias “oferecem aos territórios onde decorrem ou poderão vir a decorrer novos processos de avaliação ambiental”.

“Estas entidades saem descredibilizadas por via das suas ações e isto é mau para todos. Algo tem de mudar, e a anulação da DIA seria um sinal forte nessa direção”, salienta.

Em nome da Montescola, Joam Evans congratulou-se com a decisão e afirmou que esta ONG “trabalhará com a UDCB e a MiningWatch para garantir a proteção do Património Agrícola Mundial do Barroso", esperando que a "deliberação não seja atirada para debaixo do tapete".

“Queremos ações concretas por parte do Estado Português (...) A DIA tem de ser anulada e não descansaremos até o conseguirmos”, frisa.

A Junta de Freguesia de Covas do Barroso iniciou em 2023 uma ação legal para anular a DIA.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Gata-Malcata, colaboração transfronteiriça para a mitigação de incêndios florestais e a conservação da água


A Serra da Malcata e a Serra de Gata formam uma região transfronteiriça caracterizada por paisagens, potencialidades e desafios comuns. Ambas as áreas são rurais, pouco povoadas e enfrentam economias frágeis. Esta região foi selecionada como piloto devido à sua classificação como "ecorregião", que denota uma unidade substancial de terra e/ou água, caracterizada por climas únicos, atributos ecológicos e diversas comunidades vegetais e animais.

Em ambos os territórios, prevalece uma consciência coletiva dos riscos ambientais, que impactam o quotidiano da população local. Os riscos ambientais decorrem principalmente das alterações climáticas, que afectam ambas as regiões de forma semelhante, tornando-as profundamente conscientes das suas vulnerabilidades ambientais.

À luz destes desafios comuns, este projecto defende o estabelecimento de um espaço transfronteiriço concebido para abordar a mitigação dos incêndios e incentivar as transformações no uso do solo. Esta iniciativa visa não só prevenir os incêndios florestais, mas também contribuir para a conservação da água, explorar fontes de energia alternativas e promover a cooperação internacional.

Visando a construção de uma instituição colaborativa, o projeto procura facilitar a cooperação entre as duas regiões e promover iniciativas participativas. O objectivo central deste esforço conjunto é alavancar as práticas existentes em ambos os lados da fronteira, partilhar o conhecimento disponível de organizações da sociedade civil, investigadores e particulares, e criar uma plataforma para a apresentação de propostas e iniciativas dedicadas ao combate ou mitigação de incêndios e à escassez de água.