Mostrar mensagens com a etiqueta Geração X. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Geração X. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rosetta Stone - Shadowban

Melhor som aqui
A banda Rosetta Stone é uma referência histórica do rock gótico britânico, tendo surgido em Liverpool no final da década de 1980 pela mão do vocalista e compositor Porl King. Ao longo dos seus anos de atividade, o grupo protagonizou uma metamorfose sonora marcante: começou enraizado no som sombrio e guitarrístico da segunda vaga do gothic rock britânico, muito próximo de nomes como The Sisters of Mercy, mas foi progressivamente incorporando caixas de ritmos pesadas, sequenciadores mecânicos e pulsos sintéticos rígidos. É precisamente essa viragem para a eletrónica negra e para estruturas rítmicas repetitivas que faz com que temas recentes como "Shadowban" soem tão próximos da EBM - a Electronic Body Music de pioneiros belgas como os Front 242 -, aliando uma urgência industrial a vocais frios e robóticos.

Em termos de narrativa visual e temática, o videoclipe oficial de "Shadowban" utiliza imagens da longa-metragem surrealista de terror gótico Magick Mtn. (2026), um projeto cinematográfico imerso no universo do ocultismo de Laurel Canyon, feitiçaria e estéticas do deathrock. Essa simbiose visual encaixa na perfeição com o significado da própria canção. O termo shadowban alude ao bloqueio subtil e invisível de conteúdos no espaço digital, e Porl King transforma essa metáfora numa reflexão sobre o silenciamento algorítmico, a perda de agência individual e a alienação na era moderna, onde a voz humana é absorvida pela hiper-realidade dos ecrãs.

Essa abordagem encontra eco em influências literárias e filosóficas profundas. O conceito do filme e da própria faixa dialogam diretamente com o misticismo e a magia cerimonial de Aleister Crowley, ao mesmo tempo que recuperam a atmosfera febril e a decadência psicológica evocar no clássico A Montanha Mágica de Thomas Mann. No plano filosófico, a ideia do silenciamento invisível aproxima-se da teoria do simulacro de Jean Baudrillard, onde os códigos e os algoritmos substituem o mundo real, deixando o indivíduo a gritar num vazio em que ninguém o consegue ouvir.

domingo, 16 de agosto de 2026

A carne vegetal entre a urgência planetária e a realidade do prato

A transição para um sistema alimentar de base vegetal vive atualmente um dos seus momentos mais paradoxais. Se, por um lado, a comunidade científica mundial reforça que mudar a forma como nos alimentamos é uma urgência ambiental e de saúde pública, por outro, a realidade dos supermercados e o comportamento dos consumidores mostram que a aceitação da carne vegetal continua a enfrentar barreiras profundas.

Do ponto de vista da urgência global, o diagnóstico da ciência é inequívoco. Como lembra a Plant Based Foods Association (PBFA) na sua tomada de posição sobre o Relatório da Comissão EAT-Lancet, a chamada "Dieta da Saúde Planetária" não é uma tendência passageira, mas sim um modelo desenhado por especialistas globais para garantir a nutrição humana sem ultrapassar os limites ecológicos da Terra. A redução drástica do consumo de carne animal e o aumento de alimentos de origem vegetal surgem aí como imperativos para mitigar as alterações climáticas, conter a desflorestação e prevenir doenças crónicas. Esta urgência é suportada pela evolução geral do mercado, onde o mais recente relatório State of the Marketplace 2024-2025 da PBFA revela que quase 60% dos lares norte-americanos já consomem produtos de base vegetal com regularidade, impulsionados pela procura de hábitos mais saudáveis.

Contudo, este crescimento no setor plant-based não se traduz de forma direta na adesão aos análogos da carne. Quando a teoria científica chega ao prato do dia a dia, esbarra na psicologia e no orçamento do consumidor habitual de carne. Um estudo da Universidade de Adelaide, publicado no Journal of Marketing Management, revela que os apelos publicitários e a consciência ambiental não chegam para vencer a perceção de risco dos consumidores. Segundo a investigação australiana, a maioria dos comedores de carne continua a rejeitar as alternativas vegetais devido ao seu elevado preço (price premium), a dúvidas quanto ao sabor e textura, e à preocupação de que estes análogos sejam produtos altamente processados. Na verdade, dados de mercado de entidades como o Good Food Institute em parceria com a Euromonitor confirmam que o chamado "Triângulo da Adoção" (Sabor, Preço e Conveniência) é o fator decisivo:mesmo em mercados maduros, a principal razão para o abandono das alternativas vegetais não é a falta de consciência ambiental, mas sim o preço elevado e expetativas frustradas quanto à textura e sabor.  A este cepticismo soma-se a percepção de risco nutricional revelada por investigações em revistas especializadas como a Appetite e a Food Quality and Preference. Muitos consumidores flexitarianos hesitam em trocar um corte de carne simples por análogos vegetais que associam a produtos ultraprocessados e com listas extensas de ingredientes. Cria-se, assim, um paradoxo: o desejo de fazer uma escolha sustentável colide com a receita da saúde e do orçamento diário. Para a grande maioria dos comedores de carne, a transição só ganhará escala real quando a indústria superar a barreira dos rótulos e entregar produtos genuinamente saborosos, acessíveis e transparentes.

Concluindo, o fosso entre o relatório EAT-Lancet e as conclusões do estudo de Adelaide demonstra que a transição alimentar não se concretizará apenas com discursos morais ou campanhas publicitárias emocionais. Enquanto as alternativas vegetais à carne não garantirem uma verdadeira paridade de preço, transparência nos ingredientes e uma experiência gastronómica equivalente à carne convencional, a sustentabilidade continuará a despertar o interesse dos consumidores na teoria, mas poucas mudanças no carrinho de compras.

Veja a íntegra da edição de 2025 do relatório e um resumo em português da Comissão EAT-Lancet aqui


domingo, 9 de agosto de 2026

Suede - Saturday Night

Melhor som aqui

Letra
[verse 1]
Today she's been walking
She's been talking
She's been smoking
It's gonna be alright
'Cause tonight we'll go dancing
We'll go laughing
We'll get car sick

[verse 2]
And it'll be okay like everyone says
It'll be alright and ever so nice
We're going out tonight
Out and about tonight

[refrão]
Oh, whatever makes her happy
On a Saturday night
Oh, whatever makes her happy
Whatever makes it alright

[verse 3]
Today she's been sat there
Sat there in a black chair
Office furniture
It'll be alright
'Cause tonight we'll go drinking
We'll do silly things
And never let the winter in

[verse 2]

[refrão]

[verse 4]
We'll go to freak shows and peepshows
We'll go to discos, casinos
We'll go where people go and let go

[refrão] 2X

Oh oh
La la la la la la (5X)

A cidade subterrânea e a poética do escapismo em "Saturday Night"
O videoclipe de "Saturday Night", dirigido por Pedro Romhanyi e rodado nos túneis e plataformas do metro de Londres - com destaque para a icónica e desativada estação de Aldwych e alusões a Holborn-, funciona como uma alegoria perfeita sobre a alienação e a solidão nas metrópoles contemporâneas. Toda a narrativa visual constrói um contraste marcante entre o anseio coletivo de festa e celebração associado ao sábado à noite e a crua realidade do isolamento urbano. No centro deste cenário subterrâneo, o vocalista Brett Anderson assume o papel de um flâneur baudelaireano modernizado: um observador poético e solitário que deambula pelas carruagens e corredores de betão, testemunhando a existência de diversas figuras à deriva. Ao longo do percurso, a câmara cruza-se com casais em momentos de intimidade, trabalhadores exaustos, um idoso a carregar um peixe num saco de plástico e jovens imersos numa festa improvisada. Cada uma destas imagens traduz a busca desesperada por pequenos fragmentos de felicidade, afeição ou evasão, refletindo a premissa central da canção de anestesiar a rotina e o peso da vida quotidiana através do hedonismo noturno.

Esta reflexão sobre a melancolia e o escapismo urbano ganhou forma com o lançamento original do tema no aclamado álbum Coming Up, editado a 2 de setembro de 1996, tendo sido posteriormente lançado como o terceiro single do disco a 13 de janeiro de 1997 pela Nude Records. Mais do que uma simples balada de pop-rock, a escrita de Brett Anderson em "Saturday Night" assenta num denso substrato literário e filosófico. A canção dialoga diretamente com o Existencialismo e o Absurdismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, retratando a tentativa de conferir sentido à existência através do prazer e da evasão temporária diante do vazio da vida moderna. Da mesma forma, a influência do escritor J.G. Ballard é evidente na psicogeografia do videoclipe, onde os transportes subterrâneos e a arquitetura pós-industrial se tornam símbolos da alienação humana. Por fim, a estética decadente da banda inspira-se no romantismo trágico e na ironia de Oscar Wilde, consolidando "Saturday Night" como uma celebração trágica e melancólica do quotidiano nas margens da grande cidade.

A assinatura singular dos Suede: quando a herança transforma-se em identidade
As grandes bandas da história da música raramente surgem num vácuo cultural. A verdadeira originalidade não reside na invenção de uma linguagem inteiramente sem antecedentes, mas sim na capacidade de reunir referências díspares, filtrá-las através de uma vivência própria e devolvê-las ao mundo sob a forma de uma assinatura artística inconfundível. No caso dos Suede, embora a sombra lírica de David Bowie, o romantismo dramático dos The Smiths e a densidade atmosférica do post-punk dos anos 80 estejam presentes no seu ADN, a banda britânica construiu um universo estético e sonoro genuinamente único, que redefiniu o panorama do rock alternativo nos anos 90.

No início dessa década, numa altura em que a cena musical do Reino Unido se encontrava refém do grunge americano e desprovida de uma identidade própria, os Suede irromperam como o catalisador de uma revolução. Eles foram os verdadeiros arquitetos do movimento que mais tarde viria a ser batizado de Britpop, resgatando a essência e a urgência da cultura urbana britânica antes de qualquer outra banda da sua geração. Contudo, enquanto os seus pares versavam sobre o quotidiano da classe trabalhadora com tom satírico ou festivo, a escrita de Brett Anderson fundou um léxico poético singular, frequentemente apelidado de gutter glamour. Anderson transformou a sordidez dos subúrbios cinzentos, a ambiguidade sexual, a decadência das noites de aluguer, o consumo de drogas e o romance trágico dos marginalizados em autênticas odes orquestradas e melodramáticas.

Essa poeticidade decadente encontrou a sua tradução musical perfeita na simbiose entre a vocalidade visceral de Anderson e a arquitetura de guitarra de Bernard Butler nos primeiros discos, e mais tarde na energia vibrante de Richard Oakes. Os Suede refundiram a agressividade áspera das guitarras do post-punk com a grandiosidade e o brilho do glam rock, criando paredes de som dramáticas e melodias de uma sensibilidade pop angustiada que não tinham paralelo na época. O resultado foi uma discografia coesa e marcante - desde a densidade concetual de Dog Man Star ao imediatismo efervescente de Coming Up -, que provou que os Suede não eram uma mera soma das suas influências, mas sim uma das vozes mais originais, audazes e influentes da história do rock britânico.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

She Past Away - Ritüel e o filme The Craft (1996)

Melhor som aqui e aqui

Ritual noturno: por que "The Craft" é a trilha sonora visual ideal para os She Past Away
Este tema formidável Ritüel dos turcos "She Past Away" tem inspirado fãs a elaborar videoclipes, uma vez que a banda não tem um videoclipe oficial. Desta feita, as cenas são do filme The Craft (1996), de Andrew Fleming, que moldou uma geração.

A estética e o som dos She Past Away - o influente duo turco de post-punk e darkwave formado por Volkan Caner e Doruk Öztürkcan - habitam na intersecção perfeita entre o luto, a escuridão e o esoterismo existencial. A sua obra-prima, a faixa "Ritüel", desenrola-se como uma dança hipnótica de submissão e dor, pontuada por sintetizadores frios e uma linha de baixo grave que ecoa a necessidade humana de transformação e pertença. Nenhuma obra cinematográfica encarna essa mesma energia ritualística e sombria tão perfeitamente quanto o clássico de culto de 1996, The Craft (Jovens Bruxas).

O filme dirigido por Andrew Fleming conta a história de Sarah Bailey, uma adolescente conturbada com dons psíquicos inatos que se muda para Los Angeles e encontra abrigo num trio de jovens ostracizadas: Nancy, Bonnie e Rochelle. Juntas, formam um coven de quatro bruxas - uma para cada ponto cardinal e elemento da natureza. O grupo recorre à magia para tentar curar traumas pessoais e desferir vingança contra um ambiente escolar tóxico, invocando a entidade criadora Manon. No entanto, a espiral de ganância e loucura desencadeada por Nancy transforma a busca por poder num duelo trágico, no qual a magia deixa de ser um refúgio para se tornar numa maldição.

Sob a superfície do melodrama jovem dos anos 90, The Craft carrega influências literárias e filosóficas profundas. O filme herda o fascínio do Romantismo Gótico presente nas obras de Mary Shelley e Edgar Allan Poe, onde a beleza surge intrinsecamente ligada à decadência e a figura marginalizada encontra a sua força naquilo que a sociedade teme. Do ponto de vista filosófico, a fita traduz o conceito de alteridade e a angústia existencial teorizada por Jean-Paul Sartre, usando a magia como uma tentativa desesperada de recuperar o controlo sobre a própria vida. A narrativa é também fortemente guiada pela Lei do Retorno espiritual, uma variação do princípio kármico que dita que as intenções lançadas ao universo voltam multiplicadas para quem as originou. Ou seja "A Lei de Três" (Rule of Three), que dita que tudo o que envias para o mundo -seja bem ou mal - retorna a ti triplicado. O filme serve como uma parábola moral sobre a hbris (arrogância) e a responsabilidade ético-espiritual.

Essa profunda ancoragem na feitiçaria real não foi acidental: The Craft tornou-se um marco geracional precisamente porque a produção contratou Pat Devin, uma sacerdotisa real da Covenant of the Goddess, para garantir a autenticidade das encantações, dos rituais e do simbolismo em cena. Ao afastar-se das caricaturas históricas de bruxas com verrugas e chapéus pontiagudos, o filme deu voz à revolta adolescente e ao empoderamento feminino através de uma estética goth inconfundível - marcada por maquilhagem escura, crucifixos, gargantilhas de veludo e botas militares. Como resultado direto, a longa-metragem funcionou como a porta de entrada de milhares de jovens para o Wicca, uma religião neopagã contemporânea sistematizada na primeira metade do século XX por Gerald Gardner. O Wicca caracteriza-se pela celebração dos ciclos da natureza, o culto à Deusa Tripla e ao Deus Chifrado, o respeito ao livre-arbítrio e a ausência de dogmas punitivos ou estruturas hierárquicas rígidas.

É neste ponto que a música dos She Past Away e o universo de The Craft se fundem em simbiose absoluta. Quando Volkan Caner canta "Acıyı hisset! Benimle dans et" ("Sinta a dor! Dance comigo") nos versos de "Ritüel", ele convoca o mesmo transe noturno em que as quatro protagonistas do filme se entregam na praia à beira-mar. Ambas as obras tratam o ritual não como um truque superficial, mas como uma purga emocional, um espaço seguro onde os desajustados dançam com as suas sombras, transformando a dor e a exclusão num espetáculo de pura libertação visual e sonora.

1. O filme completo está aqui
2. Banda sonora do filme aqui e toda informação aqui
4. Tudo sobre Wicca

sexta-feira, 31 de julho de 2026

The Durutti Column - Scammer


Por Vitor Belanciano
O novo álbum de The Durutti Column, “Renascent”, chega como um regresso que mais do que cronológico ė sensorial: uma reabertura da luz que sempre habitou a guitarra de Vini Reilly, minimalista, ambientalista, lírica, tão espontânea e singular, quanto clássica. Dezasseis anos depois, o timbre mantém a mesma fluidez íntima, aquela forma de avançar como quem pensa em voz baixa. Mas agora há uma lentidão nova, talvez nascida dos 
 anos de doença e do silêncio, que transforma cada nota numa espécie de respiração cuidada.
As colaborações (para além do omnipresente Bruce Mitchell na percussão há  o produtor e multi-instrumentista Keir Stewart, a pianista e cantora Caoilfhionn Rose ou Lucas Elliot) surgem como superfícies de acolhimento. Não interrompem a solidão luminosa da guitarra. antes, oferecem pequenas variações de temperatura, como se o disco respirasse em conjunto. São presenças que prolongam o gesto de Reilly, permitindo que a fragilidade se torne método e não limitação. É um disco que tanto evoca os tempos de definição de um estilo - os primeiros e maravilhosos álbuns dos anos 80 - como outros registos da fase em que diversificou a sua assinatura abrindo-se a muitos estímulos exteriores. 
Este regresso acontece num momento curioso: Reilly é hoje citado como influência por nomes muito distintos, de Brian Eno a Blood Orange, ou o mais improvável Harry Styles). Há algo de comovente nesta inversão temporal. O músico que sempre pareceu deslocado do seu próprio presente encontra agora diferentes geraçoes que o reconhecem como origem. O novo álbum não capitaliza essa atenção. Limita-se a existir com a mesma delicadeza de sempre, fiel ao gesto inicial.
O acontecimento está precisamente aí: na persistência de uma linguagem que nunca precisou de se reinventar para continuar a ser necessária. O disco avança como um murmúrio, uma memória que regressa não para repetir, mas para mostrar que ainda sabe iluminar.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Cientistas conseguem transformar plásticos em combustível: o sistema que os converte em energia

Este novo processo alcança três resultados de uma só vez: transforma o plástico mais comum em hidrogénio de alta pureza e, ao mesmo tempo, solidifica o CO2, evitando assim a sua libertação na atmosfera.

Quanto plástico existe realmente no planeta? É uma pergunta para a qual, quase certamente, nunca teremos uma resposta. Independentemente das estimativas que possamos fazer, a preocupação com a situação cresce — ainda que lentamente — em contraste com a rápida escalada do problema em si; a realidade é que, a cada minuto que passa, há mais plástico no planeta.

No meio de diversas iniciativas e campanhas voltadas para mitigar a questão, cientistas de todo o mundo continuam a procurar soluções eficazes para erradicar o problema rapidamente, sem causar mais danos ao planeta e às suas esferas (ou seja, sem criar novas fontes de poluição da água, do ar ou do solo).

Das profundezas dos oceanos às nuvens - e até mesmo no nosso sangue -, o plástico alcançou todos os espaços no nosso redor, persistindo no meio ambiente e permanecendo com as futuras gerações por séculos.

Um dos projetos de investigação mais interessantes a apresentar resultados promissores recentemente - em julho deste ano - foi publicado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), e pela Ewha Womans University, na Coreia do Sul.

Este estudo não apenas desenvolveu com sucesso um processo capaz de transformar a reciclagem de plásticos no futuro sem gerar poluição adicional, mas também oferece uma via nova e altamente eficiente para a geração de energia limpa.

Do plástico ao hidrogénio: uma transformação sem emissões
Misturar plásticos para transformá-los? O resultado desta nova proposta é nada menos que hidrogénio de alta pureza, obtido pela combinação de três tipos comuns de plástico: PET, polietileno e polipropileno.

Isto é alcançado através de um novo processo chamado tratamento térmico alcalino, que utiliza temperaturas até 400 °C mais baixas do que as empregadas em processos convencionais de gaseificação, permitindo que o dióxido de carbono libertado durante o processo seja capturado e transformado na sua forma sólida.

Ao utilizar hidróxido de sódio e uma diferença de temperatura tão significativa (este processo geralmente opera em temperaturas entre 700 °C e 1300 °C), esta técnica requer menos energia e, ao mesmo tempo, produz hidrogénio com pureza superior a 90% - um nível muito próximo do padrão exigido para aplicação em tecnologias de energia limpa.

Além disso, a capacidade de capturar o dióxido de carbono emitido durante o processo evita que o gás seja libertado na atmosfera e a polua, criando também a oportunidade de aproveitar o material sólido resultante; uma vez transformado, este material pode ser utilizado em setores como manufatura e construção civil, entre outros.

Segundo dados da UCLA, menos de 10% do plástico descartado é reciclado, quase 80% acaba em aterros sanitários e nos oceanos, enquanto cerca de 10% é incinerado, libertando gases poluentes na atmosfera durante o processo.

Embora este projeto ainda esteja em fase experimental e precise de passar por um processo de implementação industrial fora do laboratório, os resultados são promissores no que diz respeito à redução de custos na triagem e separação de materiais plásticos, à produção de hidrogénio de alta pureza e à gestão e aproveitamento dos resíduos remanescentes.

Um problema que tem uma janela de oportunidade
Desde 2020, diversas iniciativas de investigação e projetos surgiram na tentativa de mitigar este problema crescente, visto que a maioria dos bens essenciais atuais contém, infelizmente, algum tipo de plástico.

Em 2025, investigadores japoneses publicaram uma descoberta sobre o desenvolvimento de um plástico à base de celulose altamente durável, que se degrada completamente em água salgada; e, no início de 2026, foi anunciado um projeto que decompõe o plástico utilizando enzimas, degradando com sucesso até 90% das garrafas PET.

É importante realçar que a adoção de bioplásticos no quotidiano e a implementação de novas estratégias para mitigar o impacto deste material ainda podem levar muito tempo; portanto, a melhor oportunidade de promover mudanças nessa questão está na decisão de cada um de nós de gerar a menor quantidade possível de resíduos plásticos no nosso dia a dia.

Ler mais:

Nove em cada dez europeus ponderam emigrar: estes são os destinos preferidos

Como já tinha referido aqui, há uma mudança global nos passaportes e destinos.

Quase metade das pessoas que vivem em França, Alemanha, Itália e no Reino Unido espera vir a viver noutro país algures no futuro, revela um novo inquérito.

Realizado para a seguradora digital Feather, o estudo mostra que a crise do custo de vida é o principal motivo que leva as pessoas a ponderar uma vida no estrangeiro, apontado por 53% dos britânicos, 48% dos franceses, 43% dos alemães e 32% dos italianos.

Apenas um em cada dez europeus em cada um dos mercados analisados – com 500 adultos inquiridos em cada país – afirmou que, em caso algum, se mudaria para o estrangeiro.

Embora o destino preferido varie de país para país, Espanha surge como a escolha destacada.

Tanto britânicos como italianos identificam Espanha como a opção de eleição, com 24% e 20% a indicar o país, respetivamente, enquanto este ocupa o segundo lugar em França e Itália, com 16% e 12% a sugeri-lo como principal opção.

No caso de França, o destino número um é o Canadá, mencionado por 17% como um lugar onde gostariam de viver no futuro, à frente de Itália, assinalada por 14% dos inquiridos.

Os alemães não parecem querer afastar-se muito de casa: 17% escolhem a Áustria, seguida de Espanha e Suíça, ambas com 12%.

Já os britânicos mostram-se bastante disponíveis para mudar para destinos longínquos, com 19% a escolher a Austrália, 15% o Canadá e 10% a Nova Zelândia.

Embora o Dubai seja frequentemente referido como um dos principais destinos para expatriados, apenas 3% dos britânicos disseram estar a ponderar essa opção. Ainda assim, o inquérito foi realizado no final de junho, pelo que as respostas terão sido inevitavelmente influenciadas pelos ataques do Irão contra os Emirados Árabes Unidos nos últimos meses.

Ascensão dos ‘semi-pats’
Ao analisar o futuro dos expatriados, a Feather falou também com a especialista em viagens Holly Rubenstein.

A autora do podcast “The Travel Diaries” nota que a versão tradicional da vida de expatriado, em que se escolhe um único país e aí se constrói toda a vida, está a perder terreno.

“A versão que está a emergir é muito mais flexível: passar seis meses num lugar, trabalhar remotamente, experimentar um estilo de vida e criar ligações em vários sítios”, sublinha.

“A geração Alpha vai crescer com a ligação remota como norma. Para estas pessoas, carreira, amizades e identidade já não terão de estar concentradas num único lugar.”

domingo, 26 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins e "Zero": niilismo de Nietzsche, o primeiro alter-ego de Billy Corgan e a tragédia que mudou o rumo da banda

Melhor som aqui
Letra
[Verse 1]
My reflection, dirty mirror
There's no connection to myself
I'm your lover, I'm your zero
I'm the face in your dreams of glass

[Pre-Chorus]
So save your prayers
For when we're really gonna need 'em
Throw out your cares and fly
Wanna go for a ride?

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me

[Bridge]
Emptiness is loneliness
And loneliness is cleanliness
And cleanliness is godliness
And God is empty just like me

[Verse 2]
Intoxicated with the madness
I'm in love with my sadness
Bullshit fakers, enchanted kingdoms
The fashion victims chew their charcoal teeth

[Pre-Chorus]
I never let on
That I was on a sinkin' ship
I never let on that I was down

[Guitar Solo]

[Pre-Chorus]
You blame yourself
For what you can't ignore
You blame yourself for wanting more

[Chorus]
She's the one for me
She's all I really need, oh yeah
She's the one for me
She's my one and only

Mergulho no abismo do niilismo e na mente de Billy Corgan para desvendar um dos capítulos mais explosivos e trágicos do rock alternativo dos anos 90. 
Se em "The Everlasting Gaze" assistimos a um Billy Corgan focado no gnosticismo e no despertar espiritual, foi anos antes, em "Zero", que o músico atingiu o ponto mais alto do niilismo dos anos 90.

Lançada em outubro de 1995 como uma das faixas mais emblemáticas do lendário álbum duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness, "Zero" marcou um ponto de viragem definitivo na carreira dos The Smashing Pumpkins. Antes de Billy Corgan mergulhar no gnosticismo e na busca espiritual de "The Everlasting Gaze", foi em "Zero" que o músico atingiu o ponto mais alto da apatia e da dor existencial. A canção destaca-se de imediato pelo seu riff pesado e cortante em afinação drop D, pontuado por um uso brilhante de harmónicos de guitarra modulados com efeitos de flanger e whammy, conferindo ao tema uma sonoridade mecânica, agressiva e quase industrial.

Apesar de já terem passado mais de três décadas desde o seu lançamento, o impacto de "Zero" e da era Mellon Collie continua a ecoar na cultura pop e na história da música. O álbum, que vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos Estados Unidos e alcançou a certificação de Diamante, provou que a banda conseguia rivalizar com o fenómeno do grunge mantendo uma visão estética grandiosa. A fusão única de heavy metal, rock industrial e shoegaze pesado abriu caminho e influenciou diretamente a sonoridade de bandas como Deftones, Marilyn Manson, Garbage e grande parte do movimento nu metal do final da década de 90.

O videoclipe oficial do tema foi assinado pela aclamada artista visual e fotógrafa tcheca Yelena Yemchuk, na altura namorada de Corgan e responsável por toda a identidade gráfica de Mellon Collie. O clipe abdica de uma narrativa linear para apostar numa atmosfera barroca, soturna e claustrofóbica. Filmado numa sala decadente com iluminação fria e sombras profundas, o vídeo coloca a banda a atuar enquanto é observada em silêncio por espetadores voyeuristas e enigmáticos. O objetivo do vídeo foi tecer uma crítica crua à objetificação dos artistas pela indústria cultural, capturando a sensação de isolamento, a paranóia trazida pela fama e a desconexão da banda com o mundo exterior.

Durante este período, Billy Corgan encarnou a estética da canção através do seu primeiro alter-ego, "Zero": cabeça completamente rapada, calças prateadas e a icónica t-shirt preta com a palavra ZERO e o logótipo do coração na manga. Esta persona funcionava como a personificação do niilismo, da dormência emocional e da alienação da "Geração X". É precisamente esta figura que, anos mais tarde, na narrativa do álbum Machina/The Machines of God, "morre" para renascer como a personagem Glass.

Tanto a letra como o conceito por trás de "Zero" estão fortemente impregnados de referências filosóficas e literárias. A constante alusão ao vazio em versos marcantes como "God is empty just like me / Emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness / And cleanliness is godliness, and god is empty just like me" reflete a marca do niilismo de Friedrich Nietzsche e do existencialismo europeu, abordando a perda de absolutos e o absurdo da existência. A par do pensamento nietzschiano, a canção e o álbum duplo absorveram a melancolia trágica e o tom dramático dos poetas do Romantismo (como William Blake e Lord Byron), enquanto a estrutura conceptual da obra evocava uma perda da inocência infantil próxima da literatura de transição do século XIX e do universo de Alice no País das Maravilhas.

No entanto, a verdadeira dimensão e a tragédia da era Mellon Collie acabariam por ser severamente marcadas em julho de 1996, em Nova Iorque, no auge da digressão mundial. O teclista contratado Jonathan Melvoin morreu num quarto de hotel vítima de uma overdose de heroína. O baterista Jimmy Chamberlin, que estava presente na mesma noite e também sofreu uma overdose, sobreviveu, mas o incidente levou a banda a tomar a decisão drástica de o demitir devido ao seu historial crónico de toxicodependência.

O choque emocional causou um trauma profundo no grupo e a ausência forçada da bateria orgânica e virtuosa de Chamberlin mudou radicalmente a orientação artística dos The Smashing Pumpkins. Este trágico acontecimento forçou-os a abandonar as guitarras pesadas e a enveredar por uma sonoridade eletrónica, acústica e profundamente soturna no álbum seguinte, Adore (1998). É precisamente esta transição entre o peso de "Zero", a dor de Adore e a busca espiritual de Machina que faz do percurso da banda uma das jornadas artísticas mais fascinantes e complexas do rock moderno.

domingo, 5 de julho de 2026

Dogstar - All In Now

Letra
You keep touching, you'll get burned
You think by now that you'd have learned
That there's more here than you can handle
You keep betting everything
Always try your best to please
But sometimes, things are bigger than us

Run, run away
From what holds you tight
And dims your light
There's other ways
Keep you warm at night
Without the fight

No one to save your life tonight
It's up to you to do what's right by your heart
Whatever's left
You can flip it upside-down
Helps you get from lost to found
And the world will be riding by your side

There's nothing to lose
You've gone all in now
Think you know by now
That this was what it should be
But thoughts of breaking free
Wouldn't come to be

A banda norte-americana Dogstar, (mundialmente conhecida por ter o ator Keanu Reeves como baixista) é originária de Los Angeles, Califórnia. Apresenta na sua música "All In Now" uma sonoridade profundamente enraizada no rock alternativo e no pós-grunge dos anos noventa, misturando melodias cativantes do indie rock com guitarras distorcidas e uma linha de baixo pulsante. Para além dos riffs enérgicos, a faixa carrega uma forte carga reflexiva. Sob uma perspetiva filosófica, a canção flerta com o existencialismo e o estoicismo ao pregar a resiliência e a urgência de se viver o momento presente, evocando a ideia de aceitação e superação diante das incertezas da vida. Esta atmosfera de estrada, melancolia urbana e busca por identidade ecoa o espírito de romancistas da Geração Beat, como Jack Kerouac, e a crueza do realismo sujo de Charles Bukowski. Poeticamente, a letra traduz um lirismo confessional e nostálgico que aborda a efemeridade do tempo e a vulnerabilidade das ligações humanas, transformando o desapego do passado e a entrega emocional num convite direto para que o ouvinte se lance por inteiro no agora.

sábado, 20 de junho de 2026

Nobel defende imposto sobre mais ricos para diminuir desigualdades


O Prémio Nobel da Economia de 2019 Abhijit Banerjee considerou, em entrevista à agência Lusa, que se deve tributar os mais ricos para diminuir a desigualdade e possibilitar mais margem orçamental para medidas de combate à pobreza.

Para o economista, desde a pandemia da Covid-19 tem havido uma série de choques que prejudicaram os rendimentos das famílias mais pobres, que têm vindo a estagnar.

"Até à pandemia, os rendimentos reais dos mais pobres estavam a aumentar e agora, em muitos sítios estão a estagnar", o que considerou não ser surpreendente tendo em conta a subida dos preços da alimentação, bem como as mudanças no mercado de trabalho.

Para Abhijit Banerjee, "há algo que mudou depois de 2019 no mundo e isso é mau para os mais pobres", disse.

O economista apontou ainda que se tem espalhado uma ideia de que o Estado-social talvez seja "demasiado generoso", nomeadamente pelos partidos de direita, mas ainda assim, "a desigualdade está a explodir por todo o mundo".

"Não entendo por que esta ideia tem recebido alguma legitimidade", confessou, salientando que "muitos países têm sistemas de providência social bem desenvolvidos na Europa, por exemplo, e poderiam fazer mais através desse sistema".

No entanto, tal pode não acontecer porque o envelope orçamental está a ser gerido da forma errada, "principalmente porque não estamos a conseguir taxar os ricos".

O Nobel considerou que há uma oportunidade para fazer este avanço, ainda que constatando que "os muito ricos são muito bons em desinformar as pessoas e tentar criar 'loop holes' (lacunas)", fingindo que não têm rendimentos nenhuns por forma a não serem taxados.

"Não estão a pagar taxas, está-se a cortar tudo o resto" e isso "parece insustentável", afirmou, sinalizando esperança de que "as pessoas realmente aceitem que isso é insustentável".

Os impostos sobre os mais ricos dariam margem orçamental para o Estado-social, tendo em vista mitigar as desigualdades, mas também para fazer face às consequências da implementação da Inteligência Artificial no mercado de trabalho, em particular na classe média, defendeu.

Quanto às medidas para mitigar as desigualdades, afiançou que não é preciso inventar políticas, mas sim assegurar que chegam às pessoas certas, apontando que em Espanha, onde foi feito um estudo, "muitas pessoas pobres não aproveitam os subsídios porque o acesso é muito complicado".

"A questão não é desenvolver mais complicações, mas ser relativamente generoso, especialmente no mundo de hoje com desigualdade e raiva social", apontou, acrescentando que "qualquer Governo que realmente queira ter durabilidade e bom impacto tem de pensar em como fazer bem o Estado-social".

"E isto não é sobre reduzir o Estado-social, é sobre aumentar os fundos e voltar a aplicar tributação aos mais ricos", concluiu.

Abhijit Banerjee recebeu o prémio Nobel da Economia de 2019, em conjunto com Esther Duflo e Michael Kremer. Os três economistas foram premiados pela "abordagem experimental para aliviar a pobreza global", segundo a Real Academia de Ciências da Suécia. 

Os trabalhos conduzidos pelos laureados "introduziram uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre a melhor maneira de reduzir a pobreza no mundo", adiantou a Academia.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Pearl Jam - Jeremy


Vídeo original aqui

At home
Drawing pictures
Of mountain tops
With him on top
Lemon yellow sun
Arms raised in a V
The dead lay in pools of maroon below

Daddy didn't give attention
To the fact that mommy didn't care
King Jeremy the wicked
Ruled his world

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

Clearly I remember
Pickin' on the boy
Seemed a harmless little fuck
Oh, but we unleashed a lion
Gnashed his teeth
And bit the recess lady's breast
How could I forget
He hit me with a surprise left
My jaw left hurtin
Oh, dropped wide open
Just like the day
Like the day I heard

Daddy didn't give affection
And the boy was something mommy wouldn't wear
King Jeremy the wicked
Ruled his world

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

Try to forget this... (try to forget this)
Try to erase this... (try to erase this)
From the blackboard

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

A Vida Fascinante e a Morte Trágica de Trevor Wilson, a Estrela do Vídeo "Jeremy" dos Pearl Jam

O videoclipe de "Jeremy" dos Pearl Jam esteve em alta rotação na MTV em 1992, tornando-se um marco visual para a "geração grunge". Para o jovem ator Trevor Wilson, que interpretou o perturbado Jeremy com apenas 12 anos, o vídeo trouxe uma fama avassaladora, mas curta. O artigo da Billboard, publicado na altura do 25.º aniversário do lançamento do teledisco, revelou que Wilson teve uma vida fascinante longe dos holofotes e que faleceu tragicamente em agosto de 2016, aos 36 anos.

A escolha para o papel
O realizador do vídeo, Mark Pellington, explicou à Billboard que procurava alguém que não parecesse o típico "totó" ou o cliché do rapaz rejeitado da escola secundária. Quando viu a cassete de audição de Trevor Wilson, soube imediatamente que tinha encontrado o ator certo.

"Ele estava doente no dia em que gravou a audição", recordou Pellington. "Ele não tentou agir de forma forçada ou dizer 'Ah, vejam como estou angustiado'. Estava apenas ali sentado, com um olhar entorpecido, meio apático e confuso. Só mais tarde soube que ele estava febril, mas tinha uma enorme expressividade sem ser histriónico."

No estúdio, Pellington disse a Trevor para olhar fixamente para a câmara e não dizer nada, acontecesse o que acontecesse à sua volta. O diretor de fotografia, Tom Richmond, elogiou o profissionalismo do rapaz, referindo que ele estava "100% focado, mas ao mesmo tempo relaxado e amigável".

A fama e a rejeição de Hollywood
O sucesso do vídeo foi imediato e Trevor Wilson tornou-se uma das caras mais conhecidas da MTV. Em 1993, os Pearl Jam ganharam o prémio de "Vídeo do Ano" nos MTV Video Music Awards e levaram Trevor com eles ao palco. O vocalista Eddie Vedder apresentou-o ao público dizendo: "Este é o Trevor. Ele está vivo."

Apesar do sucesso e de uma ligação forte com a banda — a mãe de Trevor revelou que o grupo lhe prometeu bilhetes vitalícios para qualquer concerto que dessem em Nova Iorque —, o jovem não ganhou gosto pela fama. Ele começou a achar a atenção desconfortável e rejeitou as cartas de fãs e o mediatismo. Decidiu abandonar a representação muito cedo para viver a vida nos seus próprios termos.

Uma vida dedicada ao Mundo
Depois de se afastar de Hollywood, Wilson focou-se nos estudos, desenvolveu uma paixão pela literatura clássica e pela política internacional. Teve uma vida repleta de viagens e de causas humanitárias:
  1. Fez um estágio no Egito através da Organização das Nações Unidas (ONU).
  2. Passou por vários projetos de desenvolvimento internacional e, pouco antes de morrer, estava a preparar-se para assumir um posto oficial na ONU em Myanmar (Birmânia).
O trágico acidente
Em julho/agosto de 2016, enquanto passava férias em Porto Rico antes de iniciar o seu novo trabalho na Ásia, Trevor Wilson foi nadar sozinho na praia de Ocean Park, em San Juan. Infelizmente, foi apanhado por uma corrente forte e acabou por se afogar. Um banhista ainda tentou salvá-lo e os paramédicos tentaram reanimá-lo no local, mas sem sucesso.

A mãe de Trevor, Diane, partilhou uma reflexão emotiva no artigo: "Tenho de pensar que era a hora dele, independentemente de tudo. Partir daquela forma foi muito pacífico, ele estava a fazer o que adorava e estava muito feliz, o que para mim é o mais importante."

A história real por trás da canção é profundamente trágica. Jeremy Wade Dell foi o rapaz real que inspirou Eddie Vedder a escrever a música "Jeremy".

Fonte: Texas History


Se a história de Trevor Wilson, o ator do videoclipe, é fascinante, a história real por trás da canção é profundamente trágica e tornou-se um dos casos mais marcantes e discutidos dos anos 90 nos Estados Unidos sobre saúde mental juvenil e isolamento social. O rapaz real que inspirou Eddie Vedder a escrever a música chamava-se Jeremy Wade Dell e tinha apenas 15 anos quando o incidente aconteceu, na manhã de terça-feira, 8 de janeiro de 1991, na Richardson High School, no Texas. Jeremy chegou atrasado à sua aula de Inglês e a professora, Fay Barnett, indicou-lhe que ele precisava de ir à secretaria obter uma autorização de atraso para poder entrar na sala. O jovem saiu do espaço, mas em vez de se dirigir à secretaria, foi até ao seu cacifo, onde tinha guardado um revólver Magnum de calibre .357 que tinha trazido de casa. Ao regressar à sala de aula, caminhou firmemente até à frente da turma, olhou para a professora e disse que já tinha o que realmente procurava. Antes que alguém conseguisse reagir, Jeremy colocou a arma na boca e disparou, morrendo instantaneamente à frente da docente e dos seus 30 colegas de turma.

Ao contrário do que o videoclipe dos Pearl Jam sugere, onde o ambiente escolar e familiar é dramatizado para fins artísticos, a realidade de Jeremy era muito mais complexa. Os seus pais eram divorciados e ele vivia com o pai, Joseph Dell. Embora a letra da música mencione que o pai não lhe dava atenção e a mãe não se importava, a família e os amigos mais próximos contestaram firmemente esta imagem mais tarde, afirmando que o pai tentava apoiar o filho e que o jovem sofria de problemas psicológicos profundos que iam além da dinâmica familiar. Jeremy tinha sido transferido recentemente de outra escola secundária e era descrito por alguns colegas como um rapaz tímido, calado, triste e com grandes dificuldades em integrar-se no novo ambiente escolar. Ele faltava muito às aulas, frequentava sessões de aconselhamento psicológico na escola e, pouco antes do incidente, chegou a escrever uma nota de suicídio que entregou a um colega, mas o aviso infelizmente não foi levado a sério a tempo.

Eddie Vedder, o vocalista dos Pearl Jam, não conhecia Jeremy Dell. Na altura, Vedder vivia em Seattle e leu a notícia do suicídio num pequeno artigo de jornal. O que mais chocou o músico não foi apenas o ato em si, mas o facto de um rapaz de 15 anos ter tirado a própria vida à frente dos colegas para fazer um comunicado final, sentindo que essa era a única forma de ser finalmente notado ou ouvido pelo mundo. Vedder explicou mais tarde em entrevistas que sentiu uma enorme responsabilidade ao escrever sobre o assunto, mas percebeu que se não o fizesse, a história de Jeremy seria reduzida a apenas três parágrafos esquecidos num jornal, quando na verdade o jovem merecia mais e as pessoas precisavam de refletir sobre o que leva um rapaz a chegar a esse ponto.

O sucesso estrondoso da música e do videoclipe acabou por se tornar um pesadelo prolongado para a família de Jeremy Dell e para os sobreviventes daquela sala de aula. Durante mais de 25 anos, a família de Jeremy manteve um silêncio absoluto, recusando dar entrevistas para não reviver o trauma e por sentir que a imagem do jovem tinha sido mercantilizada pela MTV e pela indústria musical. Apenas em 2018 é que a mãe de Jeremy, Wanda Crane, e uma das suas melhores amigas de escola, Brittany King, que estava na sala no momento do disparo, aceitaram falar publicamente pela primeira vez num canal de televisão local do Texas. Wanda Crane expressou a sua mágoa pelo facto de o mundo lembrar o seu filho apenas pelo momento da sua morte trágica, preferindo focar-se na memória de Jeremy como um rapaz talentoso, que adorava desenhar, pintar e que tinha um amor enorme por animais. Por sua vez, Brittany King partilhou que a música dos Pearl Jam lhe causava uma imensa ansiedade sempre que passava na rádio, pois sentia que a canção transformou um trauma real e doloroso numa peça de entretenimento pop, ignorando o impacto brutal que o suicídio teve na saúde mental de todos os jovens que testemunharam a cena.

domingo, 17 de maio de 2026

Qual é a Tua Geração? Descobre as Diferenças entre X, Y, Z, Alfa e Beta

Conhece todas as gerações X, Y, Z, Alfa e Beta, entenda qual é o comportamento e as tendências de tecnologia para comunicar com cada uma delas.

Uma geração é formada por um conjunto de pessoas que nascem na mesma época, cujo contexto histórico influencia o comportamento, os costumes e os valores em relação à evolução. Não é por acaso que tanto se fala sobre as diferentes gerações, mas conheces as suas particularidades?

Cada geração carrega na sua visão do mundo, na sua forma de relacionamento e na sua maneira de vestir os acontecimentos da sua época - tanto os culturais, políticos e sociais, como os económicos. Cada uma delas apresenta características próprias no pensar, no agir, no aprender e no comportar-se nos diferentes ambientes.

No conteúdo de hoje falaremos sobre tudo o que envolve as gerações X, Y, Z, Alfa e Beta. Ao conhecer as particularidades de cada uma, será mais fácil entender e fazer negócios com pessoas dos diferentes grupos geracionais. 

Do Baby Boomer ao Beta: o que são as gerações e quais são os seus comportamentos?
A divisão das gerações por épocas iniciou-se após a Segunda Guerra Mundial, entre 1946 e 1964. Nesse período, as crianças nascidas nos Estados Unidos foram denominadas baby boomers, em virtude do aumento do número de nascimentos após a guerra. As restantes denominações surgiram sequencialmente.

Na maioria das referências sobre este tema, a classificação abaixo é a mais encontrada, embora não haja consenso.

A que geração pertenço?
Veja a época em que nasceu para saber a que geração pertence:
Baby Boomers: nascidos entre 1946 e 1964
Geração X: nascidos entre 1965 e 1980
Geração Y ou Millennials: nascidos entre 1981 e 1996
Geração Z: nascidos entre 1997 e 2010
Geração Alfa: nascidos a partir de 2010 (atualmente com até 10 anos)
Geração Beta: embora não haja consenso, para uns, esta geração nasce a partir de 2020 e, para outros, a partir de 2025.

Vamos conhecer mais detalhes sobre cada uma delas? Acompanhe!

Geração Baby Boomer: o que é?
Nascidos da geração silenciosa. O contexto pós-guerra traça um momento de reconstrução dos países envolvidos. Os baby boomers (1946-1964) são uma geração que recebeu uma educação mais rígida e disciplinada, valoriza o trabalho e acredita que este é para toda a vida. A realização pessoal está diretamente ligada à estabilidade financeira.

Valorizam a qualidade e não a quantidade. O casamento é sinónimo da compra de casa, carro e tempo de lazer. Com um acesso limitado a produtos e marcas, têm escolhas fiéis de acordo com os seus valores e preferências, o que os torna mais resistentes às novas tendências.

Os baby boomers possuem um raciocínio linear - começo, meio e fim. Preferem comprar em lojas físicas, mas alguns já estão a mudar essa prática devido à inevitável digitalização. Veem a evolução tecnológica como uma opção e não como uma mudança de hábito; no entanto, ainda comunicam de maneira tradicional: fazem chamadas, trocam mensagens de texto e enviam e-mails.

Para que as marcas cheguem a esta geração, é mais eficaz investir em televisão, imprensa escrita, eventos locais, correio direto, sites de notícias, e-mail, SMS, telefone, WhatsApp e no bom e velho marketing passa-a-palavra.

Quem são os nascidos da Geração X?
Por sua vez, a Geração X, nascida entre 1965 e 1980, tem um perfil mais independente e empreendedor. Equilibrados e cautelosos, evitam decisões precipitadas. No mercado de trabalho, procuram a ascensão profissional através do aperfeiçoamento de competências e de desafios e oportunidades, a fim de alcançar resultados efetivos.

De fácil adaptação às tecnologias, a Gen X aprecia o consumo de informação híbrida (online e offline) e valoriza a flexibilidade, bem como a aprendizagem colaborativa. Trata-se de uma geração mais individualista e competitiva, que encontra o seu incentivo no papel do marketing e da publicidade.

É uma geração forte no que toca ao consumo, aproveitando a sua condição económica de forma intensa. Por isso, estão sempre a experimentar novas marcas e veem vantagens nelas, como a transparência e a responsabilidade social das empresas.

É a primeira das gerações a crescer com acesso a computadores e à internet, sendo, por isso, muito informada. A tecnologia serve-lhes para pesquisar e comparar produtos antes de comprar, embora valorizem a compra presencial e o atendimento humano. São conhecidos como a geração "híbrida" no que respeita às compras.

Para chegar a estas pessoas, as marcas precisam de investir em canais de comunicação tradicionais, como a televisão e a rádio, ao mesmo tempo que marcam presença online em motores de busca como o Google e o Bing. Blogs e artigos online são ótimos para dialogar com este público, assim como canais de atendimento personalizados, SMS e newsletters.

O que é a Geração Y?
Já os nascidos entre 1981 e 1996, a Geração Y, é a mais informal e imediatista, pois assume riscos e procura recompensas tangíveis com mais facilidade. Inovadores, conseguem executar várias tarefas ao mesmo tempo, de forma autónoma. Também conhecidos como millennials, viram a transição do analógico para o digital e estão sempre muito conectados, o que os transformou em cidadãos globais.

Profissionalmente, procuram sempre as melhores oportunidades. Gostam da igualdade de tratamento, independentemente do nível hierárquico. Além disso, são muito criativos e possuem uma grande capacidade de inovar nas suas carreiras. A Gen Y consome um grande fluxo de informação, tendo facilidade e rapidez para a assimilar; desta forma, prefere a aprendizagem de cariz informal.

As suas maiores preocupações, contudo, prendem-se com as causas sociais que defendem, tendo uma profunda consciência socioambiental. São desapegados de bens materiais, valorizam as experiências, adoram a liberdade em qualquer âmbito e defendem a pluralidade a nível social e de consumo.

Ainda que não sejam tão consumistas, fazem compras online; contudo, são rigorosos com as práticas ambientais das marcas e em relação a prazos e incómodos logísticos. Valorizam a rapidez e a praticidade, mesmo que isso implique um custo maior.

Os Millennials preferem canais como redes sociais, plataformas de subscrição, YouTube, conteúdos de influenciadores, aplicações de mensagens instantâneas como o WhatsApp e plataformas de avaliações (reviews).

Qual é a Geração Z?
Entre 1997 e 2010 nasce a Geração Z, que valoriza a consciência coletiva. Este grupo necessita de expor a sua opinião de forma autêntica e, no mercado de trabalho, é guiado pelo propósito. É a primeira das gerações a demonstrar que não existem fronteiras geográficas. Outra característica muito forte é a total falta de paciência para a burocracia.

Muito populares nas redes sociais, muitas vezes têm dificuldade em trabalhar bem em equipa devido à sua forte independência. São ágeis nas decisões, almejam uma rápida ascensão na carreira e dão muita importância ao feedback.

As pessoas desta geração possuem um raciocínio não linear e consomem informação através de smartphones, em conteúdos visuais ou em áudio, como podcasts e vídeos curtos. Aprendem de maneiras variadas, são multifocais e viram-se para diferentes plataformas, com cursos rápidos, autónomos e flexíveis.

Neste sentido, preferem comprar a empresas que ofereçam uma experiência de compra fácil e ágil. É muito importante que as marcas tenham presença nas redes sociais e uma estratégia de marketing bem elaborada, pois eles compram por influência e pesquisam a marca em mais do que um canal antes de efetuar a compra.

64% das pessoas da Geração Z têm o hábito de consumo voltado para as compras online, mas também gostam da opção de comprar online e recolher na loja. É uma geração que valoriza a liberdade de escolha e que comunica com as marcas através do TikTok, Instagram e YouTube.

Qual é a definição da Geração Alfa?
Apesar de ainda não serem ativos no mundo profissional, guardam um excelente potencial para o futuro. São indivíduos observadores, espontâneos, autónomos e possuem uma capacidade de adaptação muito acelerada.

A tecnologia faz parte da sua vida desde o nascimento. São movidos por estímulos sensoriais, predominantemente visuais, graças às plataformas digitais como o YouTube e o Instagram, e a aplicações de jogos e educação. O raciocínio da Geração Alfa é não linear, pelo que consideram cansativas as atividades de aprendizagem mais tradicionais, como a leitura de textos, apresentando alguma dificuldade de concentração. As tecnologias para a educação devem favorecer a audição, o tato e a visão em simultâneo.

Precisam de novidades para competir com tudo o que os distrai, pois esta geração é sedenta de novas tecnologias e suportes digitais. Assim, soluções fora do convencional estimularão os seus diversos sentidos, tornando-se ideais. Possuem uma relação próxima e proficiente com o telemóvel e a internet, mas a marca do futuro será a sua relação com a inteligência artificial. Esta geração recebe tantos estímulos que estará mais preparada para as futuras transformações ou para aquelas que ela própria venha a provocar.

Filhos das gerações Y ou até mesmo da Z, a geração que nasce a partir de 2010 aproxima-se ainda mais da liberdade no que respeita à sua identidade. Sem as divisões tradicionais, tendem a tornar-se mais protagonistas e a ocupar posições de poder. O género e a orientação sexual não serão obstáculos, assim como o direito à diferença será uma causa ainda mais fortalecida.

Quanto ao consumo, só daqui a alguns anos conheceremos o perfil de consumo destes futuros jovens, cidadãos e consumidores. No entanto, hoje já se encontram em canais de streaming, jogos online, redes sociais e meios interativos.

Qual é a próxima geração? Conheça a Geração Beta
Baseando-se na ordem do alfabeto grego, a última geração foi denominada Alfa. Assim, espera-se que a próxima geração seja a Beta. Considerando que esta será a dos nascidos a partir de 2020 ou 2025 até 2040, prever as suas particularidades pode dar aos profissionais das diferentes áreas respostas mais exatas sobre qual o caminho a seguir.

As tecnologias já fazem parte dos processos de ensino-aprendizagem e, para a Geração Beta, espera-se que essa marca se intensifique ainda mais. Filhos de uma geração que vive constantemente online, os betas tendem a privilegiar as inteligências artificiais e a viver num mundo digital. Segundo um relatório do grupo europeu Europol, estima-se que, até 2026, 90% do conteúdo disponível online seja gerado sinteticamente por IA (Inteligência Artificial). Isto alterará consideravelmente os conceitos de verdade e realidade, além da própria forma de consumo.

Entre as gerações, a Beta poderá pertencer ao menor grupo populacional, mas terá uma influência incalculável na forma como interagimos com a tecnologia. À medida que crescerem e prosperarem, as suas expectativas e exigências oferecerão um novo olhar sobre o futuro. Tecnologia e humanidades estarão intimamente entrelaçadas.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa ‘cor-de-rosa’


A ideia de que Portugal deixou para trás o problema da emigração jovem e da fuga líquida de talento não resiste a uma análise séria dos dados completos.

Esta crónica procuro desmontar uma narrativa recente — e agora convenientemente repescada — que retrata a economia portuguesa como estando numa trajetória excecionalmente favorável. Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpretações apressadas. Entre os seus argumentos mais repetidos está a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padrão de especialização, alegadamente sustentado por fluxos migratórios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o país teria ultrapassado o problema estrutural da emigração jovem e da contínua fuga de talento.

Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migratório positivo recentemente observado é essencialmente temporário e artificial, resultando de fatores extraordinários e não de uma mudança estrutural do modelo económico. A fuga de talento não só persiste como continua a refletir o baixo perfil de especialização da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contrário assentam em dados incompletos e em análises que ignoram dimensões essenciais do fenómeno migratório.


Publicidade
Infelizmente, este retrato “cor-de-rosa” está muito longe de corresponder à realidade. Como mostrarei de seguida, a evidência aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa visão simplista e auto-complacente. E a verdade é dura, mas incontornável: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especialização da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o território, Portugal continuará a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demográfica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.

Saldo migratório dos ‘naturais’ positivo apenas conjuntural, já diminuto e dependente de apoios
Decompor o saldo migratório total — entradas menos saídas — entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturalização, não é tarefa simples. Mais difícil ainda é isolar, dentro desse conjunto, o saldo migratório daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta crónica como “naturais”.

Os principais resultados da análise encontram-se representados nas Figuras 1 e 2. Os valores dos saldos migratórios — não incluídos nas Figuras — podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (que passarei a designar Tabela 1C), construída a partir dos dados de imigrantes (Tabela 1A) e de emigrantes (Tabela 1B). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas três partes), na última linha antes dos dados, o detalhe dos cálculos efetuados, e é acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assunções relevantes utilizadas.

sábado, 22 de outubro de 2016

Lebanon Hanover - Babes Of The 80s (Tobias Bernstrup Remix)


Ao questionar a desconexão e a postura estática da juventude, o Lebanon Hanover aponta para um sentimento sufocante de alienação e falta de rumo. A ausência de espaços de liberdade e de verdadeira atitude é apresentada como a causa principal para a estagnação cultural do presente. Há uma clara nostalgia, não do glamour superficial do passado, mas do tempo em que as pessoas ainda possuíam imaginação, radicalismo e um desejo genuíno de transformação. No fundo, a faixa consolida-se como uma reflexão amarga sobre uma sociedade que perdeu a capacidade de se revoltar e se rendeu à conformidade.

Na versão remista por Tobias Bernstrup para Babes Of The 80s, este contraste ganha uma nova dimensão funcional ao transitar da sonoridade coldwave original para uma estética pulsante marcada pelo Italo Disco e pelo Synthwave. A introdução de uma batida four-on-the-floor mais rápida e de arpejos de sintetizador cintilantes confere à faixa uma energia eufórica desenhada para as pistas de dança, sem nunca rasurar a sua carga lírica. Ao preservar a linha de baixo estruturante e a interpretação vocal gélida e distante de Larissa Iceglass, Bernstrup não anula a crítica geracional à apatia e ao consumo superficial da nostalgia; pelo contrário, amplifica o paradoxo central da obra ao forçar o ouvinte a dançar sobre o próprio vazio e alienação que a canção denuncia.

Existe também uma fascinante camada de ironia geracional neste encontro sonoro: enquanto os membros do Lebanon Hanover (Geração Y) tecem uma crítica mordaz ao consumo desprovido de substância da cultura dos anos 80, o remix é assinado por Tobias Bernstrup, um veterano da Geração X que viveu essa mesma década em primeira mão. Ao reinterpretar a faixa, Bernstrup traz a vivência autêntica e a memória afetiva da era para o centro da pista de dança, criando um diálogo direto entre o olhar melancólico de quem herdou o passado e a energia de quem o viveu na forma original.


Pioneiro no renascimento do Italo Disco e do Synthpop eletrónico, o artista e performer sueco Tobias Bernstrup é uma figura de culto na cena alternativa europeia. A sua obra cruza sintetizadores analógicos retro, melancolia pop e uma estética andrógina inconfundível. Embora a sua sonoridade seja essencialmente orientada para as pistas de dança, o seu universo visual e a profundidade dramática das suas composições mantêm-no em constante diálogo com a cultura gótica, a Darkwave e o circuito do Post-Punk.

Aqui estão algumas das faixas autorais mais marcantes em que Tobias Bernstrup assume os vocais com a sua voz grave e dramática, acompanhadas pelos respetivos links para ouvir no YouTube:
  1. Tobias Bernstrup - 27 (Laser Mix) - Um dos seus maiores clássicos. É uma faixa vibrante de Italo Disco e synth-pop, recheada de arpejos marcantes e vocais expressivos. (A versão em italiano chama-se "Ventisette").
  2. Tobias Bernstrup - 1984 - Inspirada na atmosfera distópica e sombria do livro de George Orwell, mistura vocais graves com uma linha de sintetizador melancólica e futurista.
  3. Tobias Bernstrup - Private Eye - Com uma sonoridade que remete para as bandas sonoras retrofuturistas de suspense e film noir, destaca-se pelo clima cinematográfico e vocal envolvente.
  4. Tobias Bernstrup - Videodrome - Com referências ao cinema de terror dos anos 80, esta faixa autoral traz batidas enérgicas de synthwave e vocais teatrais.
  5. Tobias Bernstrup - Utopia (Italoconnection Remix) -  Uma das suas faixas mais celebradas na cena eletrónica/synth-pop, muito tocada em pistas e por DJs da cena alternativa.
  6. Tobias Bernstrup - Moments Lost - Do álbum Romanticism, é uma música com uma cadência mais melancólica, evidenciando o tom de voz sombrio e sentimental do artista.