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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Aves associadas aos meios agrícolas em declínio há duas décadas

Tão fofos, o chapim-carvoeiro!
O chapim-carvoeiro (Periparus ater) é absolutamente adorável com aquela "cabeça grande", as bochechas brancas e a mancha branca bem destacada na nuca!
Eles são super pequeninos, cheios de energia e encantadores de observar. Sabiam que são dos poucos chapins que adoram florestas de coníferas (como pinhais) e têm o hábito extraordinário de esconder sementes nas cascas das árvores para comer mais tarde no inverno? Além desta incrível capacidade de armazenar alimento nas ranhuras da casca para os dias mais frios, estas aves são famosas em Portugal por serem grandes aliadas no controlo biológico de pragas como a lagarta-do-pinheiro nos nossos pinhais.
Preservemos o nosso campo e floresta. Hoje foi publicado o relatório do censos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. E as notícias não são optimistas.

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

As aves nos meios florestais e urbanos têm uma evolução positiva, mas as associadas aos meios agrícolas estão em declínio desde 2004, indica um relatório divulgado hoje pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

O relatório do censo das aves (SPEA/BirdLife) combinou as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat e deixou “um alerta claro”, o do que “a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, diz no comunicado Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e técnico superior de ciência da SPEA.

“A evolução positiva dos indicadores florestal e urbano é um bom sinal, mas não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas e os declínios de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco”, acrescentou.

Nos meios agrícolas, 10 das 23 espécies avaliadas regularmente apresentam um declínio moderado no período (2004-2025), entre elas a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, a par de espécies como o peneireiro, o cartaxo e o pardal.

Nos meios florestais, cinco das 20 espécies analisadas estão em declínio moderado: o picanço-barreteiro, o cuco, a rola-brava, a cotovia-dos-bosques e o chapim-real.

Segundo o censo, a laverca e a águia-caçadeira apresentam declínios acentuados, e a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços mostram tendências negativas.

Outras espécies como a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta apresentam declínios moderados.

Os resultados mostram, segundo a SPEA/BirdLife, que o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e a diferentes grupos funcionais (insetívoras, granívoras, carnívoras), mas que é nos meios agrícolas que o declínio é mais expressivo, afetando tanto espécies residentes como migradoras.

Os autores do trabalho salientam que houve recentemente maior participação nos censos, o que reforça o conhecimento sobre as aves

Nos Açores o censo abrangeu as nove ilhas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, com destaque para o aumento acentuado da rola-turca e para as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.

Para a Madeira, não se estimaram tendências. As espécies mais abundantes dos últimos censos são o canário-da-terra, o melro-preto e a toutinegra.

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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Naturalmente Flores


O filme foi realizado e editado por Paulo Ferreira e tem a narração a cargo de Eduardo Rêgo. Paulo Ferreira esteve a gravar na ilha das Flores durante 15 dias em 2022 e mostra-nos algumas singularidades ao nível da flora e da fauna, incluindo a marinha. As imagens do fundo do mar das Flores despertam em nós a consciência ambiental necessária para que todos possamos reverter o sentido das alterações climáticas. As imagens noturnas (da Via Láctea), gravadas ao redor da ilha das Flores são uma visão diferente do que estamos habituados a ver. Isto porque a Ilha das Flores possui pouca poluição luminosa, algo que a todos deveria preocupar. Durante o filme quase que damos por nós sentados à beira mar, a ouvir o som dos Cagarros, sob um céu estrelado salpicado pela luz da Via Láctea. São imagens belas de uma Ilha especial para Paulo Ferreira.

A Ilha das Flores, nos Açores, é conhecida pela sua rica biodiversidade, com destaque para a presença de várias espécies endémicas e habitats únicos. A ilha possui uma área protegida, o Parque Natural da Ilha das Flores, que integra diversas zonas classificadas na Rede Natura 2000 e um Sítio Ramsar. A Reserva da Biosfera da Ilha das Flores, reconhecida pela UNESCO, reforça a importância da conservação deste património natural. 
Biodiversidade:
Espécies endémicas:
A Ilha das Flores possui uma elevada concentração de espécies endémicas, tanto na flora como na fauna. Entre os vertebrados endémicos dos Açores, nove aves, um morcego e um peixe marinho são conhecidos apenas na ilha. 
Plantas:
Mais de 50 espécies e subespécies de plantas vasculares são endémicas do arquipélago. Destacam-se a Myosotis azorica (não-me-esqueças) e a Veronica dabneyi, duas plantas raras que só são encontradas em estado selvagem nas ilhas do Grupo Ocidental. 
Fauna terrestre:
Três espécies endémicas de artrópodes são exclusivas da Ilha das Flores: o escaravelho-cascudo-da-mata (Tarphius floresensis), Agyneta depigmentata e Cheiracanthium floresense
Aves marinhas:
A ilha é um local de nidificação importante para várias espécies de aves marinhas, muitas delas protegidas pela Diretiva Aves da União Europeia. 

Parque Natural e Reserva da Biosfera:
O Parque Natural da Ilha das Flores é responsável pela conservação da natureza na ilha e nas áreas marinhas circundantes. 
A Reserva da Biosfera da Ilha das Flores, reconhecida pela UNESCO, destaca a importância da ilha como um local com valores ambientais e culturais únicos. 
A Reserva da Biosfera promove atividades de turismo sustentável, investigação e valorização da biodiversidade. 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Qual a dimensão do património natural de Portugal?

A diversidade topográfica e edafoclimática do nosso país
permite uma multiplicidade de áreas com valor de conservação (mapa do continente).
Fonte (adaptada): Relatório Estado do Ambiente, APA, consultado em Abril 2025 (ICNF, 2024)

O património natural de Portugal inclui cerca de 35 mil espécies de animais e plantas, segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN), citada na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030). Estes valores representam 22% da totalidade das espécies descritas na Europa e 2% das espécies mundiais.

As áreas portuguesas com valor de conservação e biodiversidade encontram-se integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas – SNAC. Além de incluir as áreas classificadas como a Rede Natura 2000, o SNAC abrange também a Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) e outras áreas classificadas na sequência de compromissos internacionais assumidos pelo Estado português.

De acordo com o geocatálogo do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (consultado em março de 2025), existem no território continental 55 áreas protegidas:

Todas elas integram a RNAP e juntas correspondem a uma área de 816 mil hectares (dos quais 746 mil hectares de área terrestre), que ocupa cerca de 9% do território nacional.

Além destas tipologias de proteção, o ICNF refere ainda:
  1. 05 Sítios Natura 2000, com uma área de 4,5 milhões de hectares, dos quais 1,6 milhões de hectares em área terrestre;
  2. 6 Reservas da Biosfera, com 1,1 milhões de hectares, maioritariamente em área terrestre;
  3. 18 Sítios Ramsar, que se estendem por 117 mil hectares de área terrestre;
  4. e 4 Geoparques, que ocupam 836 mil hectares de área terrestre (em vez de quatro, a lista de Geoparques Mundiais da UNESCO, indicada por esta organização, refere cinco em território continental: Naturtejo da Meseta Meridional, Arouca, Terras de Cavaleiros, Serra da Estrela e Oeste, tendo este último sido integrado ainda em 2024).
No seu conjunto, estas áreas classificadas ocupam 3,1 milhões de hectares de área terrestre – 34,8% do território terrestre de Portugal continental – e 3,4 milhões de hectares de área marinha – 10,7% do território marítimo de Portugal continental. E não está ainda aqui considerado o Geoparque do Oeste.

Quanto à Rede Natura 2000, esta rede ecológica para o espaço da União Europeia (UE) integra cerca de 22% da área total terrestre nacional, da que acrescem uma área marinha de cerca de 10,7%. O país ocupa, a propósito, o 10.º lugar entre os 28 Estados-Membros da UE em termos de percentagem de área total integrada na Rede Natura 2000, realça a ENCNB 2030.

Os ecossistemas agrícolas e florestais ocupam cerca de 80% das áreas protegidas ou classificadas em Portugal continental, segundo a ENCNB 2030. O 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, publicado pelo ICNF em 2019), que fornece um retrato mais focado na importância da área florestal para a biodiversidade, indica que a área florestal integrada no SNAC corresponde a 18,7% da floresta nacional e que 5,5% da floresta está incluída na RNAP, com várias espécies presentes.

Aproximadamente 25% da área florestal sob Planos de Gestão Florestal está englobada no SNAC, ou seja, em áreas classificadas e, por isso, sujeitas a Planos de Gestão da Biodiversidade, reforça o 5.º Relatório Nacional à Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Património natural das regiões autónomas
Ao património natural continental somam-se ainda inúmeras áreas terrestres e marinhas nos arquipélagos dos Açores e da Madeira:

– Na Região Autónoma dos Açores, estão classificadas 24 Reservas Naturais, 10 Monumentos Naturais e 16 Paisagens Protegidas; 4 Reservas da Biosfera; 13 sítios Ramsar, 1 Geoparque e 40 áreas de Rede Natura 2000.

– Na Região Autónoma da Madeira, contabilizam-se o Parque Natural da Madeira (que abrange cerca de dois terços da ilha da Madeira), 4 Reservas Naturais, 2 Áreas Protegidas e a Rede de Áreas Marinhas Protegidas de Porto Santo.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Na altura em que abandonam o ninho, 90% dos cagarros já têm o estômago cheio de plástico, mostra estudo do Instituto Okeanos


Trabalho baseado em necropsias a mais de 1100 aves, uma amostra especialmente robusta, eleva esta espécie marinha à categoria de bioindicador
Com o seu grito esganiçado, os cagarros são uma marca das noites de verão açorianas. Esta ave marinha, que nidifica em Portugal e Espanha, em concreto nos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias, ganharam agora um novo estatuto, graças ao trabalho de uma equipa do Instituto de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos – da Universidade dos Açores.

Num estudo publicado na revista “Environment International“, o cagarro (Calonectris borealis) surge, pela primeira vez, como um indicador do lixo marinho no Atlântico Norte, ajudando a perceber quais as tendências na presença de plásticos nesta região do oceano.

Este título de bioindicador não surgiu do nada. É antes o resultado de um trabalho de quase nove anos e mais de 1100 necropsias a cagarros juvenis e no qual os investigadores descobriram que mais de 90% dos juvenis desta espécie, quando abandonam o ninho, já contém partículas plásticas nos seus estômagos. Um dos valores mais altos encontrados, quando comparado com outras espécies de cagarros noutras regiões.

O método mais simples de monitorizar a quantidade de plásticos a circular no mar é por amostragem. “Mas não é um método tão bom”, diz à Exame Informática a investigadora responsável pelo estudo, Yasmina Gonzalez. É mais rigoroso e oferece mais informação a pesquisa deste material no sistema digestivo de espécies chave. A tartaruga, por exemplo, é uma delas. Só que no Atlântico Norte não são assim tão comuns. É por isso que o grupo de estudo do lixo marinho do Okeanos começou a pensar nos cagarros como um veículo de monitorização do problema. “Trata-se de espécies que acumulam plástico e que também são vítimas da contaminação luminosa”, justifica Yasmina.

Com uma passagem muito estreita entre a parte principal do estômago e a moela, nos cagarros as pequenas partículas de plástico vão-se acumulando, em vez de serem regurgitadas, como acontece noutras espécies de aves. Sendo assim, as micropartículas vão-se acumulando e formando pedaços maiores e bem visíveis (como se pode ver nas fotos).

Quando saem do ninho, os juvenis ficam atarantados com as luzes das cidades e apesar de serem alvo de campanhas de proteção, como a SOS Cagarro, alguns acampam por morrer com os embates. São estas vítimas da poluição luminosa que têm vindo a ser necropsiadas, desde 2015, o que resultou num dos estudos de maior amostra e mais robustos que já foi feito, sublinha a investigadora. “Este é um estudo de grande relevância pois apesar de recentemente terem sido propostas diferentes espécies como bioindicadores de lixo marinho no oceano, até agora poucas se baseavam em análises exaustivas que permitissem a sua aceitação efetiva”, detalha.

“O facto destes juvenis conterem plásticos nos estômagos, mesmo antes de se alimentarem por si próprios, indica que os plásticos são ingeridos durante o processo de alimentação pelos progenitores, durante o seu crescimento no ninho”, detalha-se em comunicado de imprensa. “Os juvenis vítimas da poluição luminosa oferecem uma amostra não invasiva, facilmente acessível, o que os torna cientificamente úteis, a longo prazo, para programas de monitorização do lixo marinho, implementadas pelos Governos destas Regiões Autónomas de Portugal e de Espanha, no quadro das políticas europeias, nomeadamente da Diretiva Quadro Estratégia Marinha”, explica Christopher Pham, do Instituto OKEANOS, supervisor do estudo e investigador responsável pela equipa que estuda os impactos do lixo marinho no bom estado ambiental do oceano.

Nos cagarros açorianos, a média de partículas encontradas foi de 10 por cada animal, nas Canárias foi ainda mais, 28, revela Yasmina Gonzalez. Além da diferença em termos de quantidade, também é percetível a diferença na origem, com “mais elementos que vêm da pesca” na população do arquipélago espanhol.

Com base neste trabalho, a equipa do Okeanos pretende agora propor um novo limite considerado aceitável para a presença de plásticos nestas espécies marinhas. Mas de pouco adianta legislar se os comportamentos não se alterarem. “O problema não é o material em si, o material é valioso. O problema é o seu uso único. Temos de ser mais críticos e conscientes na utilização”, recomenda.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Relembrar Teófilo Braga - o Presidente da República que disse não ao automóvel


O Centenário da morte de Teófilo Braga (24.2.1843 - 28.1.1924) passou despercebido. Era açoriano e foi presidente da República durante dois mandatos, entre 1910 e 1915. Recusou automóvel oficial, considerando que isso seria um símbolo de ostentação e de distanciamento do povo. Ao tomar posse, recusou o automóvel oficial que lhe foi oferecido, preferindo usar o transporte público ou andar a pé, para poder estar mais próximo das pessoas. Excerto de um discurso de Teófilo Braga, em que ele explica a sua recusa do automóvel oficial: "Não quero automóvel. Não quero automóvel porque sou pobre. Não quero automóvel porque sou um homem do povo. Não quero automóvel porque não quero que me vejam como um aristocrata ou um monarca. Quero que me vejam como um companheiro, como um amigo, como um irmão."

A obra literária de Teófilo Braga é imensa e portanto impossível de a enumerar exaustivamente num documento resumo, como este pretende ser. Não queremos é deixar de mencionar alguns exemplos, quanto mais não seja para ilustrar a diversidade das áreas sobre que se debruçou. Assim, Folhas Verdes, de 1859, Stella Matutína, de 1863, Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras, de 1864, A Ondina do Lago, de 1866, Torrentes, em 1869, Miragens Seculares de 1884, representam incursões no campo da poesia. Ainda neste campo escreve a História da Poesia Popular Portuguesa, em 1867, abrangendo o Romanceiro Geral e Cancioneiro Popular e A Floresta de Vários Romances de 1868.

Como investigador das origens dos povos, seguiu a linha da análise dos elementos tradicionais desde os mitos, passando pelos costumes e terminando nos contos de tradição oral, que lhe permitiram escrever obras como Os Contos Tradicionais do Povo Português, de 1883, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, em 1885, e História da Poesia Portuguesa, que lhe levou anos a escrever, procurando as suas origens através das várias épocas e escolas.

As áreas restantes das suas 360 obras, abrangem campos tão diversos como o da História Universal, História do Direito, da Universidade de Coimbra, do Teatro Português, da influência de Gil Vicente naquela forma de manifestação artística, da Literatura Portuguesa, das Novelas Portuguesas de Cavalaria, do Romantismo em Portugal, das Ideias Republicanas em Portugal, passando pelos folhetos de polémica literária e política e ensaios biográficos, como o que respeita a Filinto Elísio.
Além desta verdadeira enxurrada literária, nem sempre abordada com o rigor exigido, o que lhe valeu várias críticas dos meios literários da época, não se pode esquecer o seu contributo para a coordenação das obras de Camões, Bocage, João de Deus e Garrett, os prefácios para tantas obras dos escritores mais representativos e um sem-número de artigos escritos para os jornais do seu tempo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Humanos já causaram a extinção de 1.430 espécies de aves


Os seres humanos causaram a extinção de um total de 1.430 espécies de aves, um número duas vezes maior do que aquele que se pensava, revelou um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications.

Muitas das ilhas do planeta eram paraísos intocados. Mas a chegada dos seres humanos a locais como os Açores, Tonga ou o Havai tiveram, ao longo do tempo, grandes impactos como a desflorestação, sobre-caça e a introdução de espécies invasoras. Como consequência, muitas espécies de aves desapareceram.

Se o desaparecimento de muitas aves desde os anos 1500 já está registado, o nosso conhecimento sobre o destino das espécies dependia, até agora, de fósseis. Acontece que estes registos são limitados porque os ossos das aves, muito leves, se desintegram com o passar do tempo. Este facto tem mascarado a verdadeira extensão da extinção mundial das aves.

Os investigadores acreditam agora que 1430 espécies de aves, quase 12%, desapareceram durante a história moderna, desde o final do Pleistoceno há cerca de 130.000 anos. A grande maioria dessas aves extinguiu-se directa ou indirectamente por causa da actividade humana.

O estudo, coordenado pelo Centro Britânico para a Ecologia e Hidrologia (UKCEH, sigla em Inglês), usou modelos estatísticos para estimar as extinções de aves até agora desconhecidas.

Rob Cooke, principal author do estudo e investigador do UKCEH, disse, em comunicado, que este estudo “demonstra que houve um impacto humano muito superior na diversidade das aves do que o que era reconhecido até agora”.

“Os humanos devastaram rapidamente populações de aves através da perda de habitat, sobre-exploração e introdução de ratos, porcos e cães que destruíam os ninhos das aves e competiam com elas por alimento. Mostramos que muitas espécies se extinguiram antes de haver registos escritos delas; não deixaram nenhum rasto, perderam-se na História.”

Estas extinções históricas têm hoje “grandes implicações na actual crise da biodiversidade”, alertou Søren Faurby, da Universidade de Gotemburgo e um dos autores da investigação.

“O mundo pode não apenas ter perdido muitas aves fascinantes mas também os seus papéis ecológicos que poderiam ter tido funções cruciais como a dispersão de sementes e a polinização. Isto terá efeitos negativos em cascata nos ecossistemas. Por isso, além das extinções das aves teremos perdido muitas plantas e animais que dependiam daquelas espécies para sobreviver.”

Observações e fósseis mostram que 640 espécies de aves foram empurradas para a extinção desde o final do Pleistoceno, 90% destas em ilhas. Estas incluem espécies como o icónico dodô (Raphus cucullatus) das ilhas Maurícias ou ainda o arau-gigante (Pinguinus impennis) do Atlântico Norte.

Mas os investigadores estimaram que houve mais 790 extinções até agora desconhecidas, elevando para 1430 o número de espécies perdidas, deixando apenas menos de 11.000 nos nossos dias. Cooke alerta que é provável que apenas 50% destas espécies se tivessem extinguido naturalmente.

Os cientistas afirmam que o seu estudo revelou a maior extinção de vertebrados causada por humanos da História quando, durante o século XIV, 570 espécies de aves desapareceram com a chegada dos primeiros povos ao Pacífico Leste, incluindo ao Havai e às Ilhas Cook. Esse número é quase 100 vezes maior do que a taxa natural de extinção.

Acreditam ainda que houve um grande evento de extinções no século nove, causado pela chegada do ser humano ao Pacífico Oeste, incluindo às Ilhas Fiji e às Ilhas Mariana, bem como às Ilhas Canárias.

Os investigadores apontam ainda o evento de extinções que hoje vivemos e que começou em meados do século XVIII. Desde então, além do aumento na desflorestação e da disseminação de espécies invasoras, as aves estão ameaçadas por ameaças adicionais como as alterações climáticas, agricultura intensiva e poluição.

Trabalhos anteriores destes autores sugerem que nos arriscamos a perder entre 669 e 738 espécies de aves no próximo século.

“Está nas nossas mãos se mais espécies de aves se irão extinguir ou não. Recentes projectos de conservação salvaram algumas espécies e devemos agora aumentar os esforços para proteger as aves com o restauro de habitats liderado pelas comunidades locais”, defendeu Cooke.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Finalmente a nossa Zona Económica Exclusiva é completamente uma Área Protegida


Portugal tem a maior ZEE da Europa e vejo agora no mapa das Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas, que esta região já consta da lista. Burocracias à parte, Portugal submeteu, em 2019, uma proposta às Nações Unidas para a extensão da sua plataforma continental, sobre a qual aguardou uma decisão. Em 2022, a nossa proposta mereceu aprovação formal na COP15. 4 anos depois. Finalmente conseguimos.

Competiu à DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) propor a criação de áreas marinhas protegidas, em articulação com a autoridade nacional para a conservação da natureza e biodiversidade, ICNF. 

Saber mais: 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Solstício de Inverno 2023 e Inverno Climatológico

O problema de seca na Andaluzia já perdura há mais de dois anos. Aqui uma excelente intervenção Fernando Díaz del Olmo alertando-nos para as consequências de um aumento de 3 ºC.
 

O solstício de Inverno irá ocorrer no próximo dia 22 de Dezembro pelas 3h27 de Lisboa e Londres (ou 4h27 de Madrid). 

Terá então início o Inverno astronómico, já que o Inverno climatológico teve início a 1 de Dezembro. E para já, e tendo em conta as previsões até ao final do mês, a situação não é animadora, quer para a agricultura quer para os cursos de água e ecossistemas, em particular da região Sul de Portugal e de Espanha. 

Dezembro é geralmente o mês mais chuvoso do ano no sudoeste peninsular, mas nos últimos vinte anos a precipitação caiu a pique. Em Faro, por exemplo, a precipitação média de Dezembro ronda os 100 mm, o que corresponde sensivelmente a 20% da média anual. Os últimos três meses do ano, quer no Algarve quer na Andaluzia Ocidental representam no seu conjunto cerca de 50% da média do ano. Isto significa que quando o Outono e o Inverno são secos ou muito secos a recuperação já será altamente improvável. Anos secos são comuns, e costumam ser compensados por anos húmidos. Sucede que desde 2010/2011 há uma sucessão de anos secos ou muito secos em boa parte do sudoeste da Península, associados também a um aumento generalizado das temperaturas. 

Está também demonstrado que o padrão de precipitação mudou: a tendência é para curtos períodos de precipitação intensa alternarem com longos períodos secos, e para a precipitação cair a pique no Inverno e ficar concentrada nas estações de transição, o que causa prejuízos às culturas agrícolas tradicionais e aos ecossistemas mediterrânicos das região. Se se está perante uma alteração temporária ou permanente só os próximos anos ou décadas poderão confirmar. 

Deserto de Tabernas, em Almeria, uma região com menos de 200 mm de precipitação média anual. A sua área sofrerá uma expansão se a tendência actual de queda da precipitação persistir. 

O que poderia suceder na pior das hipóteses? O clima mediterrânico evoluiria para um clima semiárido quente, idêntico ao que ocorre no Levante espanhol, Marrocos ou Síria, com precipitação média anual entre os 250 e os 400 mm em parte do Alentejo e do Algarve, e boa parte da Andaluzia Ocidental e da Estremadura. Nestas regiões o montado desaparecerá, bem como os pinhais de pinheiro-manso, tão comuns nas províncias de Huelva, Sevilha ou Cádis. Dezenas senão mesmo centenas de espécies de plantas ou animais dependerão do auxílio do Homem para sobreviver à extinção.

Na Andaluzia Ocidental a seca, as pragas e a sobrexploração dos aquíferos estão a provocar a morte a milhares de árvores adultas, como sucede nestes pinheiros em Doñana.

A raiz do problema está na alteração da posição do Anticiclone dos Açores e da dorsal anticiclónica africana, que durante o Inverno bloqueiam a passagem de depressões atlânticas, especialmente a Sul de Sintra-Montejunto-Estrela. A precipitação no sudoeste depende muito da instabilidade no Golfo de Cádis. Ora o triângulo com vértices em Gibraltar, Canárias e Açores corresponde a uma região do Atlântico onde na última década a estabilidade anticiclónica tem persistido com enorme intensidade no período invernal, o que provoca a situação de seca crónica que se vive no Algarve, Andaluzia ou boa parte do Alentejo. Aparentemente a atmosfera mudou e não há nada que possamos fazer senão adaptarmo-nos.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Dia da Floresta Autóctone - Apenas um habitat florestal em Portugal está em bom estado de conservação


Nesta quinta-feira, 23 de novembro, celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, e a ZERO fez uma avaliação ao estado de conservação dos habitats florestais de Portugal, de acordo com um reporte do ICNF, relativo ao período 2013-2018, e revela que “a situação é preocupante”.

Assim, para as três regiões biogeográficas – Atlântica, Mediterrânica e Macaronésica – verifica-se que das representações presentes (sete habitats ocorrem em mais do que uma região) apenas uma se encontra em estado de conservação favorável, 15 encontram-se em estado desfavorável-inadequado, e nove em estado desfavorável-mau.

De forma mais detalhada, a região biogeográfica macaronésica, que abrange as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, tem apenas o habitat prioritário Laurissilvas macaronésicas em estado de conservação favorável, enquanto as florestas endémicas de zimbros e as florestas de zambujeiros e de alfarrobeira estão em estado desfavorável-inadequado e o habitat prioritário turfeiras arborizadas se encontra em mau estado de conservação.

No que respeita à região biogeográfica Atlântica (noroeste de Portugal continental), a situação também não é melhor. Dos cinco habitats representados, dois encontram-se em estado desfavorável-inadequado e três em estado desfavorável-mau, com destaque para o mau estado de conservação dos carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e dos bosquetes de teixo.

Quanto à região biogeográfica mediterrânica, a com mais habitats representados, o panorama não se altera muito, com 10 habitats em estado de conservação desfavorável-inadequado e seis em desfavorável-mau, sendo os carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e os bosquetes de teixo repetem a má condição e juntam-se a estes os freixiais de freixo-de-folhas-estreitas, os carvalhais de carvalho-português e os bosques de sobreiro.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Painéis solares nas habitações em Portugal - uma miragem

Fonte: Yicai

PNEC, neutralidade carbónica...e um atraso de vida o nosso País, cujas habitações teimosamente não têm painéis solares. Estou como a Greta: blah, blah, blah! Há anos nisto...

Estive no Chipre há cerca de 10 anos atrás, todas as vilas com painéis fotovoltaicos!

Agora, em Setembro deste ano, o Governo Chinês anuncia que a capacidade instalada de energia solar distribuída nos telhados das famílias chinesas era de 105 gigawatts, quase equivalente à de cinco centrais hidroeléctricas das Três Gargantas.

Spot publicitário e demagógico do lançamento do PNEC - com 4 anos!

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Áreas Marinhas Protegidas dos Açores - Implementação Urgente


O que falta para termos as Áreas Marinhas Protegidas dos Açores?
A resposta é simples: falta a sua implementação. A proposta de criação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores já esteve em consulta pública e falta que seja efetivamente aprovada e transformada em lei pela Assembleia Regional dos Açores.

O mar dos Açores, historicamente tão importante para a economia e identidade Açorianas, tem vindo a sofrer, ao longo das últimas décadas, de clara sobre-exploração.

O que se pretende com esta petição?
O apoio da sociedade civil para:

1. Que se aprovem, sem mais demoras, o enquadramento legal geral e as zonas de proteção oceânicas tal como preconizados na proposta da RAMPA, com proteção total de 15% das áreas oceânicas e proteção parcial de outros 15%.

2. Que a Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores seja estendida, o mais brevemente possível, às zonas costeiras.

3. Que estejam previstos, no orçamento da Região, os recursos necessários ao acompanhamento científico destas reservas marinhas.

4. Que as autoridades responsáveis pela fiscalização, nomeadamente, Inspeção das Pescas, Polícia Marítima e GNR, sejam dotadas dos recursos humanos e materiais e do enquadramento legal necessários para garantir a efetividade das zonas de proteção.

5. Que este projeto, iniciado na legislatura anterior e fortemente impulsionado pelo atual Governo Regional, seja abraçado por todos os partidos da Assembleia Legislativa Regional. A proteção do mar tem de ser um desígnio estrutural dos Açores. Adiar mais uma vez avanços nesta matéria, como se tem vindo a fazer nas últimas décadas, seria de uma enorme falta de visão, sem preocupação com as gerações futuras.

Assine e partilhe esta petição pela defesa do oceano neste link

domingo, 12 de novembro de 2023

Atlântico


XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa - Mar Português - Segunda de Três Partes da obra

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Temperatura média e número de ciclones tropicais está a aumentar nos Açores


A temperatura média e o número de ciclones tropicais extremos tem vindo a aumentar nos Açores nos últimos 50 anos, revelou ontem o presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

“Em séries de 30 anos, as normais climatológicas, os dados não mentem. Temos uma subida de um grau centígrado nas temperaturas médias mínimas e temos o maior número de dias com temperatura acima dos 25 graus”, realçou José Guerreiro.

O presidente do IPMA falava na conferência internacional “Planclimac Projet Final Conference – Adaptation and Mitigation to Climate Change”, destinada à reflexão sobre os impactos das alterações climáticas, no Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada.

Segundo os dados apresentados, a temperatura média anual nos Açores tem vindo a aumentar, passando de 17,5 graus centígrados (1971-2000) para 17,8 graus centígrados (1981-2010) e 18,2 graus (1991-2020).

O número de dias com uma temperatura máxima acima de 25 graus centígrados também tem registado um acréscimo, uma vez que passou de 48,4 dias por ano (1971-2000) para 52,2 dias (1981-2010) e 60,8 dias por ano (1991-2020).

Os ciclones tropicais aumentaram no arquipélago nas últimas décadas, existindo uma “tendência” de deslocação daqueles fenómenos para norte do atlântico.

“Falamos do ciclone Lorenzo [que atravessou a região em 2019], mas a verdade é que, se olharmos aos dados, nós temos o maior número de eventos de sempre em relação àquilo que são os ciclones que passaram na região definida em torno dos Açores”, reforçou.

Entre 1971 e 2000 foram registados 20 ciclones tropicais, entre 1981 e 2010 aconteceram 22 eventos e entre 1991 e 2020 o número de ciclones subiu para 35.

A intensidade daqueles ciclones também tem vindo a aumentar, com 11 eventos com categoria igual ou superior a três entre 1991 e 2020, que compara com sete e dois eventos registados nos períodos 1981-2010 e 1971-2000, respetivamente.

“O número de ciclones de categoria superior a três subiu exponencialmente. O número de eventos também. O Lorenzo chegou com categoria dois e fez o que o que fez. Isso quer dizer que a prevenção, o planeamento com a proteção civil, o ordenamento do território é algo que não pode ser descurado”, alertou.

José Guerreiro lembrou ainda o investimento em curso de um milhão de euros para a criação de um observatório nos Açores destinado a monitorizar a evolução dos gases com efeito de estufa.

O presidente do IPMA realçou que os novos cabos submarinos destinados a assegurar a ligação ao arquipélago vão ter sensores para recolher dados de “natureza geoquímica, sismicidade e atividade de tsunamis”.

“Os Açores têm uma posição geoestratégica absolutamente privilegiada. Estão numa posição central do atlântico. O anticiclone dos Açores, que tanto beneficiou a era dos descobrimentos, agora traz todos os poluentes, nomeadamente os gases com efeito de estufa”, concluiu.

terça-feira, 18 de julho de 2023

É correto pisar em baratas? Especialista explica o que se deve fazer com o inseto

As baratas, frequentemente consideradas insetos repugnantes, despertam aversão em grande parte das pessoas. No entanto, além da reação instintiva de querer esmagá-las, é importante considerar o papel que esses pequenos seres desempenham no ecossistema e as consequências de sua eliminação indiscriminada.

Por mais que haja vontade de pisar ou usar objetos para acertá-las, existem razões científicas e ecológicas pelas quais é preciso evitar tais atitudes. Para isso, o infectologista André Piraja esclarece que o que parece ser uma prática inofensiva, na verdade não é.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde [OMS], essa prática representa um risco para a saúde, principalmente quando realizada dentro de casa. Ao esmagar uma barata, libertamos uma grande quantidade de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos presentes no inseto. Existem estudos que associam essa prática a doenças como tuberculose, poliomielite, febre tifoide, conjuntivite, pneumonia, hepatite A e até hanseníase”, conta.

Inseticidas, então, são a saída?
Segundo o especialista, o uso de inseticidas também pode prejudicar a saúde de quem os manipula, seja por inalação ou contato direto. Além disso, a substância não impede que a barata morta libere contaminantes para o ambiente, apenas retarda esse processo.

Então, qual seria a melhor forma de eliminar as baratas de forma segura? A orientação, conforme explica o médico, é que o inseto seja capturado com um papel e posteriormente morto fora de casa, sendo descartado no lixo. No entanto, para aqueles que não conseguem realizar essa captura devido ao medo ou nojo, há outras indicações:
  • Usar água quente;
  • Utilizar álcool em gel;
  • Recorrer ao detergente líquido (lava-louças); e
  • Utilizar gel específico para eliminar baratas.
“Ressaltamos que essas alternativas não eliminam totalmente o risco de contaminação, mas contribuem significativamente para reduzi-la. Em todos os casos, a libertação de microrganismos será mais lenta em comparação com quando se esmaga a barata, o que liberta os contaminantes de forma imediata. O ideal é descartar o inseto morto logo após utilizar qualquer uma dessas opções”, detalha.

É importante frisar, além disso, que ao invés de recorrer a métodos violentos e ineficazes de controle de pragas, é possível adotar abordagens mais sustentáveis. Medidas preventivas como a manutenção da limpeza em áreas propensas a infestações, o armazenamento adequado de alimentos e a vedação de possíveis pontos de entrada são muito mais eficazes na prevenção da presença de baratas.

Mais de 700 espécies de baratas só no Brasil
As baratas estão presentes em quase todo o mundo, exceto nas regiões mais frias.

“Estima-se que existam mais de 4 mil espécies desses insetos em todo o mundo, sendo que somente no Brasil há pelo menos 700. A maioria das espécies vive em florestas e não representa riscos para a saúde humana, pois não tem contato com agentes contaminantes”, conta André.

No Brasil, a espécie mais comum é a barata vermelha, de esgoto ou doméstica, e é frequentemente encontrada em residências. Com a modernização e construção das grandes cidades, algumas espécies começaram a migrar para as habitações humanas.

Isso ocorre devido à existência de ambientes propícios para sua permanência e reprodução, como locais húmidos e disponibilidade de alimento.

Controle biológico
As baratas são insetos muito diversos e abundantes e, por serem omnívoras, ou seja, por comerem de tudo, têm papel vital como decompositoras de restos orgânicos. Além disso, fazem parte da dieta de muitos outros animais, como aves, aranhas, lacraias e escorpiões.

“Estes insetos consomem rapidamente toneladas de fezes, cadáveres, restos alimentares e até papel, cigarros e plásticos. Se sumissem do planeta, sofreríamos com um rápido acúmulo de resíduos humanos nos esgotos ", comenta André, sobre o papel dos insetos no ecossistema.

Por servirem de alimento a muitos predadores que fazem parte da fauna das cidades – como ratos e morcegos, seu fim causaria também uma rápida desestabilização das populações animais.

Portanto, quando sinalizar a presença de baratas, pode estar ainda no início. Se a população da baratas for muito em grande, em último caso recorra à fumigação.

terça-feira, 28 de março de 2023

Açores - A quem realmente interessa promover e defender os OGM?


Graça Silveira, professora da Universidade dos Açores, considera que os transgénicos trazem vantagens que os Açores não podem ignorar. Correio dos Açores 24ma2023.

Recorde-se que o Governo dos Açores decidiu declarar o arquipélago como zona livre de organismos geneticamente modificados, o que mereceu pronta contestação do embaixador norte-americano em Ponta Delgada. Numa carta enviada no final de dezembro de 2012 ao presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, e à ministra da Agricultura, Assunção Crista. Allan Katz, armado em profundo conhecedor dos OGM e ventriloquando os argumentos dos seus defensores, considerava que os transgénicos não constituíam qualquer risco para a vida humana ou animal, ou até mesmo para o ambiente e recordava que a UE gastara 300 milhões de euros na última década em investigação nesta área, sem ter encontrado motivos de preocupação em matéria de segurança. Katz apelava, por isso, a que as autoridades revissem a sua posição e permitissem que os agricultores açorianos tivessem acesso à mesma tecnologia que já é usada no resto do país e do mundo. Allan Katz salientava ainda que os produtos geneticamente modificados permitiam reduzir substancialmente a utilização de pesticidas, poupar energias fósseis, diminuir as emissões de dióxido de carbono e melhorar a utilização dos solos.

A carta teve resposta curta e grossa por parte da Plataforma Transgénicos Fora: “Esta iniciativa americana não surpreende, uma vez que os telegramas diplomáticos americanos revelados pelo WikiLeaks mostram um padrão de interferência generalizada nas políticas europeias sobre os OGM, desde a França à Itália, à Hungria e até ao Vaticano, entre outros. Num desses telegramas, datado de 2007, o embaixador norte-americano em Paris, Craig Stapleton, sugeria a Washington que se iniciasse uma campanha de retaliação contra os países que se mostravam contra os OGM na União Europeia.

De toda a área plantada com alimentos transgénicos no mundo em 2010, 45% estavam nos EUA Unidos (67 milhões de hectares). Em Portugal, só o milho geneticamente modificado é cultivado, numa área de cerca de cinco mil hectarees. Várias áreas do país foram declaradas como “zonas livres de cultivo de variedades geneticamente modificadas”, ao abrigo de uma legislação de 2006.

PS - Em 2017, Graça Silveira foi candidata do CDS-PP à câmara de Angra do Heroísmo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Miradouro da Porta do Inferno - Ilha São Miguel, Açores


Subi ao vulcão das Sete Cidades para contemplar a sua beleza do topo do miradouro da Porta do Inferno. As vistas são imbatíveis, as melhores da ilha, sobre lagoas, povoações e caldeiras vulcânicas. 

Neste local é possível observar, em simultâneo, mais do que uma lagoa, na zona das Sete Cidades. Na realidade são quatros as lagoas que poderá observar a partir do miradouro, nomeadamente: a Lagoa das Sete Cidades, a Lagoa Rasa, a Lagoa de Santiago e a Lagoa do Canário.

Para além das lagoas terá ainda uma vista privilegiada sobre parte da freguesia das Sete Cidades e da Serra Devassa.

Estive quase uma hora à espera que as nuvens permitissem a entrada dos raios solares que abrilhantam este lugar. Compensou. Os Açores é um dos lugares mais bonitos do mundo e só quem nunca viajou pode ter dúvidas.

Summary
My visit to São Miguel wasn´t complete without to climb to the Sete Cidades volcano to contemplate its beauty from the top of the Porta do Inferno viewpoint. The views are unbeatable, the best on the island, over lagoons, villages and volcanic calderas. I had almost an hour waiting for the clouds to let in the sun's rays that brighten this place. It paid off. The Azores is one of the most beautiful places in the world and only those who have never traveled can have doubts.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

COP 15 - Portugal vê reconhecidas sete propostas para designação de Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas


A proposta que Portugal desenvolveu nos últimos anos para a identificação de Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas mereceu esta semana aprovação formal na COP15, que está a decorrer em Montreal, no Canadá.

Estas áreas tipicamente identificadas pelo acrónimo por EBSAS (Ecologically or Biologically Significant Marine Areas), foram avaliadas no âmbito dos Critérios dos Açores – universalmente adotados pelas Nações Unidas para a designação deste tipo de áreas, com reconhecimento de valores naturais em meio marinho – e incidem sobre território marinho localizado no Atlântico Nordeste.

Este é um processo que envolve sete áreas distintas sob jurisdição nacional num total de dezassete áreas no Atlântico Nordeste, e que entra agora numa nova fase com a aprovação formal na COP15: as propostas subscritas por Portugal, Espanha, Reino Unido, Irlanda, Dinamarca e Islândia reúnem a partir deste passo as condições necessárias à sua consideração como áreas prioritárias de conservação sob as quais se desenvolverão esforços dedicados ao seu estudo e caracterização.

Este é um passo determinante para o cumprimento do compromisso assumido por Portugal no sentido de aumentar a área marinha de jurisdição dedicada a objetivos de conservação, e representa o cumprir de um objetivo conjunto assumido pelo País nas dimensões de trabalho científico regional, levado a cabo pelas Regiões Autónomas dos Açores e Madeira e pelos organismos nacionais.

O Plenário da COP 15 reunido em Montreal, no Canadá, vai ainda adotar na próxima segunda-feira a decisão referente à Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade Marinha e Costeira, que integra uma posição clara relativa à mineração em mar profundo, subscrita por todos os países da União Europeia e que mereceu também o apoio de Portugal.

A redação final da decisão (que pode ser consultada aqui) impõe a necessidade de aumentar o conhecimento científico quer em termos de biodiversidade, quer em termos de impactes da atividade nesta, assim como desenvolver regulamentação que garanta inequivocamente a proteção dos valores naturais como condição prévia ao desenvolvimento das atividades de mineração em mar profundo.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Reservas da Biosfera: faróis rumo à resiliência e preservação da biodiversidade

Ao contrário de uma molécula de dióxido de carbono que é igual esteja onde estiver, cada espécie é única e irrepetível, uma perda irreparável e não compensável.

S. Jorge - Açores

Os impactos associados às alterações climáticas e à perda de biodiversidade evidenciam a necessidade de um modelo de desenvolvimento diferente do que se tem vindo a seguir nas últimas décadas. As crescentes vulnerabilidades da comunidade global, face à finitude e deterioração das condições naturais e da capacidade de regeneração do planeta, impõem uma urgência que parece não ter ainda merecido reconhecimento adequado.

No que se refere à componente da biodiversidade e ecossistemas, em particular, ignora-se olimpicamente o facto de cada espécie que se extingue ser um evento único e irrepetível, uma construção genética e funcional única que, desaparecendo, não é passível de substituição. Ao contrário de uma molécula de dióxido de carbono que é igual esteja onde estiver, cada espécie é única e irrepetível, uma perda irreparável e não compensável.

Conservar a natureza e a biodiversidade não pode continuar a ser visto como um luxo, capricho ou “apenas” um imperativo ético ou moral. A natureza é fundamental para o desenvolvimento - seja este entendido na perspectiva mais difusa da sustentabilidade, seja na versão mais simplista do crescimento económico. A biodiversidade é um pilar do desenvolvimento e do crescimento económico, e o investimento na sua conservação e utilização sustentável é fundamental para a qualidade de vida, segurança e bem-estar da espécie humana.

Há mais de cinquenta anos que as Reservas da Biosfera da UNESCO têm vindo a apelar à necessidade de integrar a conservação da natureza e biodiversidade nos modelos de desenvolvimento à escala local, associando também a identidade paisagística, cultural, patrimonial e histórica destes territórios, o conhecimento científico, a educação e, não menos importante, a participação.

Actualmente, integram na rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, 738 territórios em 134 países, incluindo 22 Reservas da Biosfera transfronteiriças. Trata-se da maior rede mundial de espaços classificados que, a nível nacional, incluem áreas protegidas e áreas de desenvolvimento socioeconómico. Mais de 270 milhões de pessoas vivem em Reservas da Biosfera da UNESCO. A importância e visibilidade crescente destes sítios mereceram o reconhecimento, em 2021, com a dedicação do dia 3 de Novembro como o dia Internacional das Reservas da Biosfera da UNESCO, cuja primeira comemoração ocorreu este ano.

Estes locais estão sob jurisdição nacional, mas cooperam entre si na partilha de ideias, experiências, projectos e acções, a nível regional, nacional e internacional. As Reservas da Biosfera, de acordo com o quadro estatutário do Programa O Homem e a Biosfera, obrigam-se a promover a conservação da natureza e do património histórico e cultural, o conhecimento e o desenvolvimento socioeconómico. O diálogo e concertação em torno destas funções são imperativos e transformam estes territórios em laboratórios vivos de debate e experimentação de abordagens inovadoras, à escala local, do desenvolvimento sustentável. Os sucessos e fracassos são partilhados entre Reservas da Biosfera, no seio das redes geográficas e temáticas como são os casos das Rede Iberoamericana e Europeia de Reservas da Biosfera que permitem a transferência de conhecimento entre realidades distintas e distantes.

Em Portugal, 12 Reservas da Biosfera da UNESCO dão expressão a este compromisso que se estende a outas 12 reservas espalhadas por diferentes países da CPLP e que, recentemente, se reuniram em torno da nova rede de Reservas da Biosfera da CPLP e que, juntamente com a CPLP, entidades governativas locais e nacionais, universidades e organizações da sociedade civil, se comprometem a continuar a procurar soluções, caminhos alternativos, capazes de ajudar a reconciliação entre a espécie humana e o planeta e, com isso, olhar o futuro com esperança e responsabilidade.

Enquanto territórios guardiões de uma importante biodiversidade e onde vivem pessoas conscientes e comprometidas com a sustentabilidade, as Reservas da Biosfera da UNESCO assumem-se como faróis de uma navegação colectiva rumo a um mundo mais digno das gerações vindouras e da própria história maravilhosa da espécie humana.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

23 de Novembro – Um dia dedicado à Floresta Autóctone


A 23 de novembro celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, uma data estabelecida para promover a importância de preservar e plantar espécies que fazem parte do património natural.

Este dia foi escolhido como alternativa ao Dia Mundial da Floresta (21 de março), criado originalmente para países do norte da Europa, que têm nessa altura melhores condições para a plantação de árvores. Na Península Ibérica, as condições climatéricas do mês de novembro, com temperaturas mais baixas e alguma precipitação, são mais favoráveis para a plantação de árvores.


De acordo com a Quercus, a plantação de árvores em Portugal, durante a primavera, apresentam frequentemente um baixo sucesso associado ao aumento das temperaturas e redução das chuvas que se faz sentir com a proximidade do verão.

O que é a Floresta Autóctone?
A Floresta Autóctone consiste numa floresta de árvores originárias do próprio território.

A floresta autóctone portuguesa é toda a floresta formada por árvores originárias do nosso país, como é o caso dos carvalhos, dos medronheiros, dos castanheiros, dos loureiros, das azinheiras, dos azereiros, dos sobreiros.

Qual a importância das florestas autóctones?
  1. Estão mais adaptadas às condições do solo e do clima do território, por isso são mais resistentes a pragas, doenças, longos períodos de seca ou de chuva intensa, em comparação com espécies introduzidas;
  2. Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural, o equilíbrio biológico das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos;
  3. Fazem parte do nosso ecossistema. São importantes lugares de refúgio e reprodução para um grande número de espécies animais autóctones, muitas delas também em vias de extinção;
  4. Exercem um importante papel na redução do efeito estufa;
  5. Regulam o ciclo hidrológico e a qualidade da água;
  6. Embora de crescimento mais lento, são normalmente mais resistentes e resilientes aos incêndios florestais.

72% da floresta portuguesa é composta por espécies florestais autóctones
Em Portugal, as árvores autóctones representam cerca de 72% da floresta, uma percentagem que é composta principalmente por espécies como o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), o sobreiro (Quercus suber), a azinheira (Quercus rotundofila) e o pinheiro-manso (Pinus pinea). Juntas, estas quatro espécies representam 61% da área florestal total em Portugal continental (ICNF, 2017).

Mas estas árvores estão longe de ser casos únicos. Segundo os dados do GlobalTree Portal, Portugal tem 103 espécies de árvores autóctones. Esta lista inclui espécies menos conhecidas, como o pau-branco (Picconia azorica), endemismo açoriano  ou o marmulano (Sideroxylon mirmulans), um endemismo madeirense, das Canárias e Cabo Verde e outras mais conhecidas, como a aveleira (Corylus avellana), a alfarrobeira (Ceratonia siliqua), o freixo (Fraxinus angustifolia), o choupo-branco (Populus alba) ou o salgueiro-branco (Salix alba).

Ainda de acordo com o GlobalTree Portal, das 103 espécies nativas, 9 estão em risco global de extinção e uma está classificada como “possivelmente ameaçada”.

Como cuidar e manter as espécies autóctones?
Cuidar e manter espécies autóctones, sobretudo as que estão em maior risco, implica:
  1. Gerir os habitats existentes;
  2. Recuperar paisagens degradadas e reforçar a presença destas espécies através de ações de plantação;
  3. São também fundamentais as ações ex-situ, ou seja, fora dos habitats naturais, criando capacidade de conservação de biodiversidade e evitando a extinção das espécies mais vulneráveis.
A participação e colaboração de todos é fundamental para que a nossa floresta autóctone esteja cada vez mais protegida. Todos podemos contribuir para a preservação e expansão das nossas espécies indígenas!