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sábado, 14 de março de 2026

Soberania alimentar e autossuficiência em crise no Reino-Unido


O primeiro Relatório de Segurança Alimentar do Reino Unido, de dezembro de 2021, constatou que o país era 54% autossuficiente em termos alimentares. Outros países ricos, como os EUA, a França e a Austrália, são todos autossuficientes em termos alimentares, o que significa que produzem alimentos suficientes para alimentar as suas populações sem necessidade de importações.

O Reino Unido é um dos países menos autossuficientes em termos alimentares na Europa. A Holanda, por exemplo, que é densamente povoada, tem 80% de autossuficiência, e a Espanha, 75%.

“Não estamos a pensar nisso adequadamente. Estamos a fugir do problema”, disse Lang, falando na conferência da União Nacional dos Agricultores em Birmingham.

“A ideia de que os outros nos podem alimentar está enraizada no sistema estatal britânico e, de facto, na própria natureza do capitalismo agroalimentar na Grã-Bretanha. Outros países são mais sábios. Outros países estão a armazenar alimentos”, disse. “Os outros países têm muito mais flexibilidade nos seus sistemas do que nós. O que glorificamos como eficiência agora é a vulnerabilidade.”

Outros países possuem reservas de emergência para casos de guerra, contaminação alimentar ou choques climáticos. A Suíça ainda possui reservas suficientes para alimentar toda a sua população durante três meses e está a aumentá-las para um ano. A recomendação do governo do Reino Unido para as famílias é que mantenham nos seus armários alimentos suficientes para três dias.

Agora um novo relatório revela algo preocupante do Reino Unido, onde um painel de peritos concluiu que uma guerra, um choque climático ou uma combinação de ambos poderia desencadear uma verdadeira crise alimentar nas Ilhas Britânicas.

Notícia completa no Guardian

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A Demagogia da Direita - usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas

É desconcertante como grande parte da direita portuguesa continua a usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas.
Como se a única diferença entre Portugal e a Irlanda fossem as taxas de imposto:
- como se os níveis de escolaridade na Irlanda não fossem há décadas superiores aos portugueses 
- e ainda são: 83,5% dos irlandeses adultos têm pelo menos o 12º ano, enquanto em Portugal são 61,3%, a taxa mais baixa da UE (ver gráfico);
- como se os irlandeses não falassem inglês nativo (a mesma língua que falam os chefes das empresas de sectores sofisticados que lá investem desde há décadas);
- como se o Estado irlandês não tivesse seguido, desde 1958, uma estratégia persistente de atracção de investidores americanos em sectores específicos de alta tecnologia (enquanto nós insistimos na ideia de disparar para todo o lado a ver se chove).

Mais desconcertante ainda é insistirem em usar números que não passam de uma ficção. Não são só os cépticos que o dizem: é o próprio Instituto Nacional de Estatística irlandês (o CSO). A questão é fácil de perceber: o facto de a Irlanda funcionar como uma espécie de paraíso fiscal leva muitas empresas a registar no país activos que rendem lucros, mas que não deixam nenhuma actividade no país.

Por exemplo, grandes multinacionais, sobretudo nos sectores das tecnologias digitais (Google, Apple, Meta) e farmacêutico (Pfizer, Johnson & Johnson) registam na Irlanda os lucros associados à propriedade intelectual, inflacionando as contas nacionais sem corresponder a actividade produtiva real no território.

Por isso, o governo e o CSO (o instituto nacional de estatística lá do sítio) passaram a dar destaque a medidas alternativas, como o Rendimento Nacional Bruto Modificado (RNB*), que exclui os efeitos artificiais da transferência de activos e lucros de multinacionais.

Segundo o CSO, o valor do RNB* da Irlanda em 2024 era pouco mais de metade (57%) do valor do PIB nesse ano (ver aqui). Estão a ver o efeito que isto tem na análise dos níveis relativos de riqueza, dos níveis de endividamento do país, ou do peso das despesas públicas na economia - tudo variáveis cujos indicadores usam o PIB no seu cálculo?

Podemos ter uma conversa séria sobre a relação entre competitividade e fiscalidade, claro, assumindo sempre que há diferentes desenhos possíveis para um sistema fiscal que se quer eficiente e justo. Mas já paravam com tanta demagogia, não era?

Além disso, A emigração irlandesa ainda é elevada e isso é demonstrativo de que a riqueza não é devidamente distribuída.

Entretanto, os irlandeses que trabalham em Inglaterra mesmo os altamente qualificados são discriminados. São vistos como os indostânicos em Portugal. Mão-de-obra barata, sem acesso a cargos de topo nas empresas. Sei bem do que falo pois trabalhei durante anos em várias empresas britânicas onde testemunhei sempre o mesmo padrão ( Carlos Vargas) . Os irlandeses são imigrantes e tratados dentro do padrão de discriminação "natural".

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Brexit is a 'complete disaster' and referendum 'should have been repeated'



Brexit has been slammed as a 'complete disaster' that 'ruined most of the country' in a poll marking nine years since the UK voted to leave the EU. Mirror readers slammed the European Union referendum, overwhelmingly voting that Brexit has failed.

The UK marked nine years since the Brexit referendum on June 23 2025. The vote - which signalled the UK's intention to leave the European Union - ultimately ended a 47-year relationship with the political and economic bloc.

Brits narrowly voted to leave the EU by 51.9% to 48.1%, a decision which lead to years of uncertainty across the country. A flurry of four different Conservative prime ministers ensued over a space of five years - including Liz Truss, whose premiership lasted just 49 days.

Leaving the European Union has been proven to have made Brits' lives worse in at least six ways. Airport and port queues have grown drastically, food prices have spiralled out of control and small businesses have been forced to shut down. It has also become harder to work or study in the EU, music artists have been hit by a wave of barriers and NHS jobs have been left in chaos.

To mark the 9th anniversary of the day the UK voted out, we asked readers to give their opinions on Brexit, with over 25,000 people voting in the poll. In response to the question 'do you think Brexit has failed?', an overwhelming 71% (18,565) voted yes, slamming the referendum as a 'disaster', while just 29% (7,520) voted no.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Deportações na campanha e o ar de um tempo trágico


As deportações também rendem votos por cá. São inevitáveis. Não há novidade nas ordens de saída voluntária. Existem desde 2007 e até são inferiores, em número, a vários anos dos governos do PS. Mais uma vez, o governo faz passar por ação política procedimentos quotidianos da administração pública. O que mudou é serem anunciadas, num arranque de campanha, como bandeira política e em celebração, contribuindo para a demonização dos imigrantes. Estamos próximos do pleno emprego, temos falta de mão de obra nos setores que estes imigrantes procuram, precisamos deles para garantir a sustentabilidade da segurança social, são responsáveis pelo repovoamento de várias zonas do interior e travaram a nossa gravíssima crise demográfica. No centrão, só o PR juntou à consciência dos evidentes erros administrativos do passado, em que se deixaram pendurados processos de milhares de imigrantes, a importância económica da imigração e de valores básicos de humanidade, não celebrando a expulsão de pessoas que, como fizemos no passado, procuram uma vida melhor. Não cumprir os requisitos não é sinónimo de ser criminoso. Em Portugal, se vier uma crise económica e com este ambiente político, os imigrantes serão o bode expiatório. Nesse campeonato, só ganhará quem se especializou no filão. Como os conservadores britânicos estão a aprender.

domingo, 23 de junho de 2024

Milhares de pessoas marcham em Londres pela proteção da natureza e do clima


Londres, 22 jun 2024 (Lusa) - Milhares de pessoas participaram hoje numa manifestação em Londres, promovida por organizações como a Extinction Rebellion (XR) e o World Wide Fund for Nature (WWF), para apelar aos políticos para que atuem pela natureza e pelo clima.

Esta manifestação acontece a menos de duas semanas das eleições legislativas de 04 de julho no Reino Unido. Segundo as recentes sondagens, os trabalhistas estão amplamente em vantagem, prevendo-se, assim, uma pesada derrota para os conservadores, no poder há 14 anos.

A atriz britânica Emma Thompson e o naturalista e apresentador britânico Chris Packham ocuparam os lugares da frente na marcha realizada em Londres, pedindo para se “restaurar a natureza agora”.

Chris Packham explicou que esta é a primeira vez que organizações tão diferentes se unem para uma manifestação, dando como exemplo o National Trust (Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural), que defende a herança britânica, e o grupo ativista ambiental Just Stop Oil, representado por ecologistas que são muito controversos pelas ações contundentes que realizam.

Fazendo-se notar de forma muito colorida, a manifestação decorreu num ambiente de boa disposição, num percurso desde Hyde Park até ao parlamento, em Westminster.

Entre a multidão de manifestantes, que vieram de várias zonas do Reino Unido, havia muitos fantasiados de animais, incluindo girafas e ursos.

“Não há vida sem vida selvagem” e “Não há botão para começar do zero” eram algumas das mensagens dos cartazes erguidos na manifestação.

Em declarações à agência de notícias France-Presse (APF), a atriz britânica Emma Thompson dirigiu-se aos políticos: “Parem de ser tão profundamente irresponsáveis”.
“Não acredito na falta de compromisso deles” com o clima durante a campanha eleitoral, criticou a atriz, que é ativista ambiental, alertando que o planeta está “no meio da tempestade”, manifestando “surpresa ao ver quanta negação ainda existe”.

Emma Thompson disse que apoia o grupo Just Stop Oil, do qual dois ativistas pulverizaram, na quarta-feira, tinta nos monólitos do famoso sítio pré-histórico inglês de Stonehenge.

O Just Stop Oil reclama o fim da exploração de combustíveis fósseis até 2030.

“Penso que apoio todos os que estão a liderar este combate extraordinário”, disse Emma Thompson, defendendo que não se pode mais extrair petróleo do solo.

O naturalista e apresentador britânico Chris Packham disse não estar muito impressionado com o conteúdo dos programas dos vários partidos políticos britânicos.

“Quando se trata de enfrentar os verdadeiros grandes problemas, não há substância, compromisso ou determinação para enfrentá-los, e isso é realmente dececionante”, criticou Chris Packham

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Para onde foram todos os pardais? Culpe os pesticidas de jardim


Costumo imaginar que a maioria das pessoas que ama seus jardins também ama a vida selvagem e deseja fazer o possível para ajudá-la a prosperar.

Claro, isso não é inteiramente verdade. Algumas pessoas adoram um jardim com um gramado falso. Alguns não se importam com o que é necessário para garantir que sua horta esteja livre de ervas daninhas e pragas.

Mas a maioria de nós realmente se importa - e se você é uma dessas pessoas e ainda usa herbicida e pesticida, um novo estudo de pesquisadores da Universidade de Sussex certamente fará você pensar novamente. O relatório foi intitulado “Qualidade do habitat, urbanização e pesticidas influenciam a abundância e riqueza de pássaros em jardins” e destacou os efeitos negativos dos pesticidas nas espécies de pássaros.

Descobriu-se, por exemplo, que a abundância média de pardal-doméstico era 12,1% menor em jardins que aplicavam qualquer pesticida, 24,9% menor com glifosato e 38,6% menor com metaldeído.


Como seu autor, Dave Goulson (que também escreveu um livro de alerta sobre o “apocalipse dos insetos”, Silent Earth) resumiu a importância do relatório: “Agora há evidências esmagadoras de que os pesticidas prejudicam a vida selvagem e o meio ambiente.

“Esses produtos químicos simplesmente não são necessários em nossos jardins. Por que pulverizaríamos veneno onde nossos filhos e animais de estimação brincam? Devemos simplesmente proibir o uso de pesticidas urbanos e domésticos, seguindo o exemplo da França”.

Antes comuns, os pardais caíram 70% no Reino Unido. Enquanto isso, o uso de pesticidas de jardim continua onipresente. O estudo constatou que 32% dos jardins participantes usavam pesticidas – embora as taxas de uso fora desse grupo de observação de pássaros autosselecionado provavelmente sejam mais altas. Uma pesquisa online de 2019 do Health and Safety Executive (HSE) do Reino Unido descobriu que, dos jardineiros pesquisados, 42,8% usavam pesticidas.

O pesticida mais amplamente utilizado no estudo de Goulson foi o glifosato. A chamada para proibir este organofosforado não é, obviamente, uma notícia recente. Outros países já o proibiram e a OMS em 2015 o descreveu como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Talvez, no entanto, o que devemos prestar mais atenção seja o seu impacto sobre os insetos. O glifosato, embora seja um herbicida, inibe a capacidade das abelhas de manter suas colónias na temperatura certa.

Foi demonstrado que afeta o sistema imunológico dos insetos e prejudica o microbioma intestinal das abelhas. Os insetos alimentam a maioria dos pássaros e morcegos. Eles são polinizadores e recicladores. O que prejudica a biodiversidade de insetos prejudica a todos nós.

O estudo de Goulson se soma a um corpo de pesquisa que sugere que devemos observar o impacto indireto de um produto químico – sua redução, por exemplo, na disponibilidade de alimentos para pássaros – bem como seus efeitos diretos.

Ainda assim, nós no Reino Unido estamos muito longe de bani-lo até mesmo dos jardins. O Roundup contendo glifosato ainda é vendido em Wickes e Homebase. The Range vende um herbicida glifosato concentrado. Eu poderia continuar com a lista, mas agora corro o risco de soar como um fornecedor querendo ligá-lo a revendedores exatamente das substâncias que não quero que você compre.

Não só isso, mas este produto químico parece estar disponível no Reino Unido por alguns anos, apesar de ser proibido em outros países. A razão para isso é que, após o Brexit, como parte do processo de aprovação, todos os pesticidas com vencimento antes de dezembro de 2023 foram prorrogados por três anos, até 2026.

Um relatório da Ferret no ano passado descobriu que todos os conselhos escoceses ainda usavam glifosato. Nos 31 (de 32) conselhos que responderam ao seu pedido de liberdade de informação, eles descobriram que 40.250 litros do herbicida foram usados. Mais de 18.000 litros foram aplicados pelos maiores usuários, Glasgow, Edimburgo, Fife, Aberdeenshire e Aberdeen City.

Enquanto isso, outros pesticidas também foram associados, por meio do estudo de Goulson, à queda no número de pássaros. Estes incluíram o inseticida acetamiprid, o inseticida deltametrina e o produto químico encontrado em pellets de lesma, metaldeído.

A boa notícia é que os grânulos de balas de metaldeído foram proibidos de vender ou usar no ano passado.

Mas e a deltametrina? Sim, você ainda pode obtê-lo em produtos como Provanto Ultimate Fruit and Vegetable Bug Killer, disponível na Wilko e online.

Precisamos colocar a natureza no centro da jardinagem. Como disse Dave Goulson, “a vida selvagem do Reino Unido está em rápido declínio, mas nossos jardins podem ser um refúgio para muitas espécies. Nosso novo estudo mostra que a maneira como cultivamos tem uma enorme influência no número e na variedade de pássaros que vivem em nossos jardins”.

Alguns podem ficar tristes com a ideia de que o jardim perfeito e de fácil manutenção acabou. Mas é melhor um jardim selvagem e maravilhoso rico em biodiversidade do que um que parece perfeito, mas está morrendo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O fim da Nova Paz — Ensaio de Yuval Noah Harari


Ao longo da era da Nova Paz os políticos procuraram deixar a sua marca lançando reformas dos sistemas de Saúde, e não pilhando cidades estrangeiras. Líderes de todo o mundo — influenciados pelo receio de uma guerra nuclear, pelas mudanças na natureza da economia e pelas novas tendências culturais — juntaram forças para construir uma ordem global que funcionasse. Esta ordem global tem-se baseado nos ideais liberais e humanistas, nomeadamente em que todos os seres humanos merecem as mesmas liberdades fundamentais. 
Apesar de esta ordem global estar longe de ser perfeita, melhorou a vida de muita gente, não apenas em antigos pólos imperiais, como o Reino Unido ou os EUA, mas também em muitas outras partes do mundo, da Índia ao Brasil e da Polónia à China. Não foram apenas a Dinamarca e o Canadá a desviar recursos da compra de tanques para formação de professores — a Nigéria e a Indonésia fizeram a mesma coisa.
Qualquer pessoa que discurse acerca das falhas da ordem liberal global deveria antes responder a uma simples pergunta: consegue indicar uma década na qual a humanidade tenha estado em melhor condições do que nos anos 2010? Que década é a sua época dourada? Os anos 1910, com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique, as leis de segregação racial nos Estados Unidos, e os impérios europeus a explorar brutalmente a maior parte de África e da Ásia? Talvez os anos 1810, com Napoleão no pico das suas campanhas sangrentas, os camponeses russos e chineses esmagados pelos seus senhores aristocratas, a Companhia das Índias Orientais a assegurar o controlo da Índia, e a escravidão ainda legal nos Estados Unidos, no Brasil e na maior parte do mundo? Talvez sonhe com os anos 1710, com a Guerra da Sucessão de Espanha, a Grande Guerra do Norte, as guerras de sucessão do Império Mongol, e um terço das crianças a morrer de má nutrição e doenças antes de atingirem a idade adulta?
A Nova Paz não foi o resultado de um qualquer milagre divino. Foi alcançada por seres humanos. Infelizmente, demasiadas pessoas tomaram este feito como um dado adquirido. Talvez achassem que a Nova Paz estava garantida e que poderia sobreviver até sem a ordem global. Consequentemente, essa ordem foi primeiro negligenciada, e depois atacada com uma ferocidade crescente.
O ataque iniciou-se através de Estados-pária como o Irão e líderes-pária como Putin, mas sozinhos não seriam suficientemente fortes para acabar com a Nova Paz. O que de facto minou a ordem global foi que tanto os países que mais beneficiaram com ela (incluindo a China, a Índia, o Brasil e a Polónia) como os países que iniciaram a sua construção (nomeadamente o Reino Unido e os EUA) lhe voltaram as costas. O voto pelo “Brexit” e a eleição de Donald Trump em 2016 simbolizaram esta viragem.
Os que desafiaram a ordem global não desejavam a guerra. Apenas queriam avançar naquilo que acreditavam ser os interesses do seu país, e argumentavam que cada Estado-nação devia defender a sua identidade e tradições sagradas. O que nunca chegavam a explicar é como todas essas diferentes nações iriam lidar umas com as outras na ausência de valores universais e instituições globais. Os oponentes da ordem global não ofereciam qualquer alternativa clara. Pareciam pensar que as várias nações iriam dar-se bem e que o mundo iria tornar-se uma rede de fortalezas muradas, mas amistosas . Mas as fortalezas raramente são amistosas. Cada fortaleza nacional quer um pouco mais de prosperidade para si própria, à custa dos seus vizinhos, e sem a ajuda de valores universais não conseguem chegar a acordo em relação a qualquer regra comum. O modelo de rede de fortalezas era um caminho para o desastre. E o desastre não demorou a surgir. A pandemia demonstrou que, na ausência de uma cooperação global eficaz, a humanidade não se consegue proteger de ameaças comuns, como os vírus. Então, talvez por ter observado como a covid-19 diminuiu ainda mais a solidariedade global, Putin concluiu que poderia levar a cabo o golpe de misericórdia, quebrando o maior dos tabus da era da Nova Paz. [Pensou] que se conquistasse a Ucrânia e a absorvesse na Rússia, alguns países poderiam mostrar-se espantados e indignados e condená-lo — mas que ninguém tomaria alguma acção efectiva contra si.
O argumento de que Putin foi empurrado para invadir a Ucrânia e assim antecipar-se a um ataque por parte do Ocidente é propaganda sem qualquer sentido. Alguma vaga ameaça ocidental não é uma razão legítima para destruir um país, pilhar as suas cidades, violar e torturar os seus cidadãos. Quem acredita que Putin não tinha alternativa deve dizer que país se estava a preparar para invadir a Rússia. O exército alemão estava a reunir forças para passar a fronteira? Napoleão levantou-se do túmulo para mais uma vez liderar a Grande Armée até Moscovo, e que Putin não tinha outra alternativa a não ser antecipar-se ao massacre iminente por parte dos franceses? Putin preparou a sua invasão ao longo de muito tempo. Nunca aceitou o desmantelamento do Império Russo, e nunca viu a Ucrânia, a Geórgia ou qualquer das repúblicas pós-soviéticas como nações independentes e legítimas. Enquanto — como referi antes — os gastos com as Forças Armadas eram, em média, de 6,5% dos orçamentos dos governos pelo mundo fora, e de 11% nos Estados Unidos, na Rússia têm sido muito mais elevados. Não sabemos exactamente quanto mais elevados, porque são um segredo de Estado. Mas algumas estimativas põem o número algures pelos 20% por cento, e poderá até chegar a mais de 30%.
Se a aposta de Putin for bem sucedida, o resultado poderá ser o colapso final da ordem global e da Nova Paz. Autocratas um pouco por todo o mundo irão perceber que guerras de conquista são de novo uma possibilidade, e as democracias também serão forçadas a militarizarem-se para se protegerem. Já vimos que a agressão da Rússia levou a um aumento imediato das verbas para a Defesa em países como a Alemanha, e a que países como a Suécia voltassem a impor o serviço militar obrigatório. O dinheiro que devia ser destinado a professores, enfermeiros e assistentes sociais irá para a compra de tanques, mísseis e ciberarmas. Aos 18 anos, jovens de todo o mundo irão cumprir o serviço militar obrigatório. O mundo inteiro irá ficar parecido com a Rússia — um país com um Exército desmesuradamente grande e hospitais com falta de pessoal. O resultado será uma nova era de guerra, pobreza e doença. Mas há uma alternativa: se Putin for parado e punido, a ordem global não será destruída por aquilo que ele fez, mas reforçada. Quem quer que tivesse ideias perceberia que simplesmente não pode fazer coisas destas.
Qual destes dois cenários irá concretizar-se? Felizmente para todos nós, e apesar de todos os seus preparativos militares, Putin estava imensamente mal preparado para uma coisa crucial: a coragem do povo ucraniano. Os ucranianos repeliram os russos numa série de espantosas vitórias perto de Kiev, Kharkiv (Carcóvia) e Kherson. Mas até agora Putin tem-se recusado a reconhecer o seu erro, e reage à derrota com crescente brutalidade. Ao ver que o seu Exército não consegue vencer os soldados ucranianos na frente de batalha, Putin está a tentar matar de frio os civis ucranianos nas suas casas. É impossível prever como vai acabar esta guerra, tal como o destino da Nova Paz.
A História nunca é determinista. Após o final da Segunda Guerra Mundial, muita gente acreditou que a paz era inevitável, e que iria manter-se, mesmo que negligenciássemos a ordem global. Após a Rússia ter invadido a Ucrânia, alguns viraram-se para o extremo oposto. Agora afirmam que a paz sempre foi uma ilusão, que a guerra é uma incontrolável força da Natureza, e que a única escolha que os seres humanos têm é ser a caça ou o caçador. Ambas as posições estão erradas. A guerra e a paz são decisões, não são inevitabilidades. As guerras são feitas por pessoas, não por uma lei da Natureza. E tal como os seres humanos fazem a guerra, também podem fazer a paz. Mas fazer a paz não é uma decisão isolada. É um esforço a longo prazo para proteger normas e valores universais, e para criar instituições de cooperação.
Reconstruir a ordem global não significa regressar ao sistema que se desintegrou nos anos 2010. Uma nova e melhor ordem global deveria atribuir papéis mais destacados a poderes não ocidentais que estejam dispostos a fazer parte dela. Também deverá reconhecer a importância das lealdades nacionais. A ordem global desintegrou-se principalmente devido ao assalto das forças populistas, que argumentam que as lealdades patrióticas são incompatíveis com a cooperação global. Os políticos populistas declaram que quem é patriota deve opor-se às instituições globais e à cooperação global. Mas não existe qualquer contradição intrínseca entre patriotismo e globalismo, porque patriotismo não significa odiar os estrangeiros. Patriotismo significa amar os nossos compatriotas. E no século XXI, se queremos proteger os nossos compatriotas da guerra, pandemias e colapso ecológico, a melhor forma de o fazer é cooperando com os estrangeiros.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Há um impasse na Europa e por isso os relógios voltam a andar para trás no próximo fim de semana

Na madrugada de domingo, os relógios europeus vão recuar uma hora e dar entrada no horário de inverno.

Esta convenção, que é seguida em Portugal há cerca de um século, tem sido questionada nos últimos anos. Na UE, está inclusivamente em curso uma proposta para que deixe de ser seguida. Sem decisão à vista, adiada pelas contingências dos últimos anos, permanece a tradição.

Um impasse sem fim à vista
Na Europa, a discussão remonta a 2018. Na altura, a Comissão Europeia publicou um estudo de opinião segundo o qual 84% dos europeus são a favor de acabar com as mudanças de horário duas vezes por ano.

Em 2019, o Parlamento Europeu votou favoravelmente para que esta medida avançasse. Tudo indicava que o fim estava iminente, dependendo apenas da negociação do Conselho Europeu. A previsão era a de que os relógios seriam mexidos pela última vez em 2021, mas isso não aconteceu.

O Conselho Europeu considerou que a medida carecia de uma avaliação de impacto e remeteu o tema para a Comissão Europeia. Começa aqui o impasse que se prolonga até hoje. No site oficial do Parlamento Europeu, a medida está “à espera da posição do Conselho em primeira leitura” e tudo indica que as negociações ainda não começaram.

Pelo caminho surgiram outros temas mais prementes que têm concentrado os esforços europeus, desde o Brexit, à pandemia e mais recentemente à guerra. Entretanto, e com eleições europeias pelo meio, a proposta poderá já não reunir o consenso necessário, não sendo claro quando o tema voltará à agenda do Conselho.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Twitter hate: 86 percent of anti-Muslim content comes from US, UK, India



Last year, the United Nations strongly encouraged the international community to “take all necessary measures” to combat discrimination against Muslims and “prohibit any advocacy of religious hatred that constitutes incitement to violence” while warning that anti-Muslim hatred has reached “epidemic proportions.”

Worryingly - this appeal has fallen largely on deaf ears, particularly within the executive boardrooms of social media companies, which have done little or nothing to remove anti-Muslim content from their platforms.

This inaction is having a devastating impact on Muslim minority communities throughout the world, with the microblogging site Twitter becoming a primary source for the proliferation and amplification of anti-Muslim hatred.

The social media company should now focus its attention on user behaviour within three countries in particular, according to a new study, which found the US, the UK, and India contributed a staggering 86 percent of anti-Muslim content on Twitter during a three-year period.

The study by the Islamic Council of Victoria (ICV) – the apex Muslim body in the Australian state of Victoria which represents an estimated 270,000 community members– found nearly four million anti-Muslim posts made during a 24-month period between 2017 and 2019.

The ICV also flagged a vicious cycle of hatred manifesting in both online and offline attacks on the community globally. Indian users alone generated more than half of these hateful and hurtful posts.

Among India-based Twitter users, researchers blame India’s ruling party – Bharatiya Janata Party (BJP) – for the dissemination and amplification of anti-Muslim hate, saying, “(the) BJP has actively normalised hatred towards Muslims such that 55.12 percent of anti-Muslim hatred tweets now originate in India.”

ICV also pointed to discriminatory laws that deny Muslims citizenship and other civil rights for the rise of anti-Muslim hatred online among Indian Twitter accounts.

In the United States, the proliferation of anti-Muslim hate on Twitter is almost inseparable from the hateful rhetoric and policies of former president Donald Trump, who ranks as the third most frequently mentioned user in anti-Muslim posts, according to the researchers, with many tweets associated with defending his Muslim immigration ban and anti-Muslim conspiracy theories, including those that posit Democrats as collaborating with “Islamists” to take over the West.

As for the United Kingdom, researchers attributed the prevalence of anti-Muslim tweets to a multitude of factors, including the global reach of Trump’s anti-Muslim animus, anti-immigration sentiments sparked by the refugee crisis, and the discourse surrounding Brexit, along with the casual racism of former Prime Minister Boris Johnson, who once compared niqab-wearing Muslim women to “letter boxes”.

By analysing the anti-Muslim content produced by the three countries, researchers were able to identify several key themes, including the association of Islam with terrorism, the depiction of Muslims as perpetrators of sexual violence, the fear that Muslims wish to impose Sharia on others, the conspiracy that alleges Muslim immigrants are replacing white in the West and Hindus in India, and the characterisation of halal as an inhumane practice that typifies the so-called “barbarity” of Islam.

“Even more concerning, however, is our discovery that only a mere 14.83 percent of anti-Muslim tweets end up being removed,” said the researchers, which is continuing to drive an upward surge in hate crimes against Muslim minority communities, and, in turn, even more, anti-Muslim hate speech online.


The 2019 Christchurch Mosque attack is illustrative of this vicious cycle.
The gunman was radicalised by anti-Muslim online content, and in the week after he murdered 52 Muslim worshippers, incidents of anti-Muslim abuse spiked upwards by a staggering 1300 percent in New Zealand and 600 percent in the UK, which triggered or inspired a wave of anti-Muslim violence in England and Scotland, including an attack on a mosque in Stanwell, and stabbing of a Muslim teenager in Surrey.

A recent report documented over 800 attacks against mosques by right-wing extremists in Germany since 2014.

The past month has seen attacks carried out by right-wing Indian Hindu migrants against Muslim communities in Anaheim in the US and Leicester in the UK.

These attacks not only inflict a major psychological impact on Muslims but also on the broader community. It’s unconscionable that Twitter has done little or nothing to remove the overwhelming majority of anti-Muslim content on its platform.

To that end, a 2020 study titled “From Hashtag to Hate: Twitter and anti-Minority Sentiment” is equally damning of the social media giant, having found a direct correlation between anti-Muslim hate on Twitter and violence against Muslims in public.

Focusing on Twitter accounts with high follower numbers, including the US, the study’s authors found that the rise in anti-Muslim hate crimes since Donald Trump’s 2016 presidential campaign has been concentrated in American counties with high levels of Twitter usage.

“Consistent with a role for social media, Trump’s tweets on Islam-related topics are highly correlated with anti-Muslim hate crime after, but not before the start of his presidential campaign, and are uncorrelated with other types of hate crimes,” conclude the authors.

But none of this information is new or revelatory to Twitter, given the company issued a statement in 2020 saying it had come together with the independent members of the Cross Government Working Group on Anti-Muslim Hatred (AMHWG) as part of a “shared commitment to counter hateful conduct online,” adding, “We want to tackle anti-Muslim hatred together, while also working with other groups who share this commitment.”

Twitter, along with Google, and Meta, also promised to eliminate anti-Muslim content from its platform in 2019 – in the wake of the Christchurch mosque terrorist attack. But these promises have fallen well short, as highlighted by the Center for Countering Digital Hate (CCDH), which found that social media companies, including Twitter, have failed to act on 89 percent of posts containing anti-Muslim hatred reported to them.

Put simply – if Twitter continues to deny calls to remove anti-Muslim hatred from its platform, then members of Muslim minority groups will continue to be threatened, harmed, or killed. Muslims throughout the West will be exposed to the same kind of attacks seen on mosques in New Zealand, Canada, the UK, Germany, and the US in recent years.

The correlation between online hate and offline hate crimes has been established. Twitter must act immediately.

sábado, 10 de setembro de 2022

Is Truss worthy of climate confidence?


After a torrid summer of extreme heat, drought and raw sewage on the beaches, forming a suitable background to two months of political brawling, the hard-fought campaign to be the next prime minister of the UK finally ended this week. Liz Truss, the former foreign secretary, took up residence in Downing Street on Tuesday.

Truss is a former environment secretary, but her record in the post from 2014 to 2016 has not inspired confidence among green campaigners. The former Shell executive cut funding while in charge of the Department for Environment, Food and Rural Affairs, which contributed to the overwhelming of the UK’s waterways and beaches this summer with floods of untreated sewage.

That sewage appeared as an alarmingly real metaphor for the UK’s political scene. Boris Johnson, prime minister from summer 2019 until he was brought down by his own messy mistakes in July, was at least thought to have genuinely green instincts and a commitment to environmental causes, including the UK’s target for reaching net zero greenhouse gas emissions by 2050.

Truss – who was appointed after a vote among the 160,000 or so members of the ruling Conservative party, rather than a general election – is known for her free-market convictions. During her campaign, she rejected calls to deal with the growing cost of living crisis by helping consumers with their bills, but made a striking U-turn in the later stages by agreeing to cap energy bills for domestic consumers.

That will be paid for from the government’s coffers, rather than the fossil fuel industry, however – and she has rejected calls to expand the windfall tax on energy companies.

Truss also caused consternation by appointing Jacob Rees-Mogg, a prominent right-winger, Brexiter and climate sceptic, as secretary of state in charge of business and energy. Like the new PM, he is firmly in favour of new oil and gas drilling, expanding existing fossil fuel production from the North Sea, and fracking. He has spoken out against windfarms, and Truss spoke out against solar farms during her campaign, which has left renewable energy advocates rattled.

Fracking appears to be a top priority for Truss, with the lifting of the moratorium on shale drilling one of the centrepieces of her energy strategy, unveiled on Thursday. This is quite a turnaround for her new chancellor, Kwasi Kwarteng. Only in February, when he was business secretary, he tweeted that fracking would "not materially affect the wholesale market price [for gas] ... UK producers won’t sell shale gas to UK consumers below the market price. They’re not charities."

The chiefs of the UK’s independent statutory advisers on the climate, the Committee on Climate Change, and the National Infrastructure Commission took the unprecedented step of writing a joint letter to Truss this week. They advised firmly that expanding UK gas production would have little impact on gas prices, and the way to bring down energy bills was instead to reduce demand, particularly through a programme of home insulation. The UK has lacked a programme for insulating its draughty houses – the leakiest in western Europe – since the demise of a botched scheme last year.

What Truss does on climate will matter not just for the UK. As one of the G7 countries, the UK carries a heavy responsibility for action, and as host of the Cop26 UN climate summit in Glasgow, showed a willingness to take a lead on the world stage. Alok Sharma, the cabinet minister who presided over Cop26, will stay in post and remains officially Cop president until Egypt takes the reins of the global talks at Cop27 this November.

Truss takes office at a time of international crises over energy, food and the cost-of-living, and a vital moment for the world’s efforts to limit global heating to 1.5C above pre-industrial temperatures, as agreed at Cop26. She has officially committed her government to meeting the UK’s legally binding target of reaching net zero greenhouse gas emissions by 2050. But the question now is whether she intends to bring forward the policies needed to actually meet that goal.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Reino Unido avança com imposto sobre petrolíferas de que Portugal abdicou


Governo português chegou a acenar com um imposto sobre os lucros extraordinários das petrolíferas em tempo de guerra, mas acabou por recuar. O Reino Unido acaba de avançar precisamente com um imposto semelhante

Portugal falou mas não avançou, o Reino Unido não disse mas criou: um imposto sobre os lucros extraordinários das petrolíferas, que estão a ganhar mais dinheiro este ano com o aumento da cotação internacional do petróleo.

O nome técnico é “windfall tax”, um imposto que tributa lucros obtidos por empresas que beneficiam de condições que não controlam nem provocaram.

A 8 de abril, o ministro da Economia admitiu lançar essa solução em Portugal, afirmando poucos dias depois que "para já não há nenhuma medida desse teor". A 19 de abril, a ideia do imposto caiu definitivamente, “nesta altura não estamos a considerar de todo”, afirmou António Costa e Silva. No dia seguinte, o presidente executivo da Galp, que aumentou consideravelmente os lucros no primeiro trimestre deste ano, elogiou o ministro da Economia por não avançar com o imposto.

(A Galp lucrou 155 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, seis vezes mais do que no mesmo período do ano passado.)

Mas houve um país onde a ideia passou à prática.

Reino Unido atinge empresas de petróleo e gás com imposto de 5,6 mil milhões

O governo do Reino Unido vai introduzir um imposto de cinco mil milhões de libras [5,6 mil milhões de euros] sobre os lucros inesperados das empresas de petróleo e gás, cedendo à pressão de ativistas para arrecadar dinheiro para ajudar milhões de pessoas que lutam com a pior crise de custo de vida em décadas.

O ministro das Finanças, Rishi Sunak, divulgou na quinta-feira o novo imposto de 25% sobre os lucros de produtores de energia como BP e Shell. A taxa será eliminada quando os preços do petróleo e do gás voltarem a níveis mais normais, afirmou.

"O setor de petróleo e gás está a obter lucros extraordinários, não em resultado de mudanças recentes, riscos, inovação ou eficiência, mas em resultado do aumento dos preços globais das matérias-primas", disse Sunak no parlamento.

O imposto ajudará a financiar um novo pacote de benefícios no valor de cerca de 15 mil milhões de libras (17,6 mil milhões de euros). Sunak afirmou que o governo fará pagamentos diretos pontuais a milhões das famílias mais vulneráveis ​​do país. Cerca de oito milhões de famílias de baixo rendimento receberão 650 libras [764 euros] em duas parcelas ainda este ano, enquanto outros oito milhões de pensionistas receberão 300 libras [352 euros].

Empresas como a BP e a Shell arrecadaram um lucro combinado de 32 mil milhões de dólares [quase 30 mil milhões de euros] no ano passado, devido ao aumento dos preços globais do petróleo e do gás natural. A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro elevou os preços ainda mais, por receios de que o conflito leve à escassez de energia.

As famílias sofreram um grande golpe. Na terça-feira, o chefe do regulador de energia do Reino Unido disse esperar que as contas anuais de milhões de residências saltem 40% para cerca de 2.800 libras (cerca de 3.250 euros) a partir de outubro. Isso é apenas seis meses depois de o regulador elevar o seu preço máximo - o máximo que os fornecedores podem cobrar aos clientes por unidade de energia - em 54%, o maior aumento desde que começou a limitar os preços há cinco anos.

As contas de energia têm alimentado aumentos de preços em toda a economia. Em abril, a inflação dos preços ao consumidor no Reino Unido atingiu 9% – seu nível mais alto em 40 anos. E como os salários não conseguiram acompanhar o aumento dos custos de alimentos e combustíveis, os padrões de vida caíram para o nível mais baixo desde a década de 1950, de acordo com o Office for Budget Responsibility do Reino Unido.

Em fevereiro, Sunak deu algum alívio, oferecendo às famílias 200 libras [235 euros] de desconto nas suas contas de energia a partir de outubro, que serão pagas em parcelas nos próximos anos. Na quinta-feira, Sunak duplicou o desconto e disse que nada precisaria ser devolvido. "Este apoio é agora inequivocamente oferecido", disse.

O Financial Times informou no início desta semana que o governo também visaria os lucros abundantes de grandes empresas produtoras de eletricidade, como EDF e a RWE. Mas Sunak disse que é necessário mais tempo para que o seu departamento apresente um plano para o setor de energia.

Ativistas saudaram medidas

“O chanceler ouviu claramente as preocupações de que o apoio aos que sofrem de pobreza de combustível precisa de ser generalizado, mas também focado nos grupos mais vulneráveis”, disse Simon Francis, coordenador da End Fuel Poverty Coalition, à CNN.

Francisco acrescentou que, embora as novas medidas "retirem o ferrão" dos recentes aumentos nos preços da energia, as pessoas em situação de pobreza de combustível precisam de mais garantias de que o apoio estará disponível no médio prazo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Genetically modified food a step closer in England as laws relaxed


The prospect of genetically modified foods being grown and sold in the UK has come a step closer after changes to farming regulations that will allow field trials of gene edited crops in England.

Companies or research organisations wishing to conduct field trials will still have to notify the Department for Environment, Food and Rural Affairs, the government announced on Wednesday, but existing costs and red tape will be removed so more trials are likely to go ahead.

The immediate change is small, and affects only England, but the government says it will be followed by plans for new primary legislation that will allow far greater use of gene editing in crops in the UK, and a redefinition in law of genetic modification.

That could open the way to the sale of gene-edited crops developed in the field trials, and to further steps such as gene editing in animals, and potentially the production and sale of genetically modified organisms in the UK.

Science can rescue farming. Relaxing gene editing rules should be the start

George Eustice, the environment secretary, said: “Gene editing has the ability to harness the genetic resources that nature has provided. It is a tool that could help us in order to tackle some of the biggest challenges that we face – around food security, climate change and biodiversity loss.”

Ministers are keen to use Brexit to allow gene editing, a form of genetic modification that is heavily restricted in the EU, to be used in the UK, despite a public consultation that found 87% of people who responded viewed gene-edited crops as a greater risk than traditional crop breeding methods.

Gene editing involves using and modifying genes already found in an organism, unlike other forms of genetic modification, which can use genes imported from other plants or animals. Gene editing can be used to mimic the effects of traditional plant breeding but is accelerated as it is done in a laboratory instead of requiring years of repeated selective breeding.

Proponents say gene editing could safely be used to develop crops with increased yields or additional nutritional benefits, or that would be resistant to pests and disease and withstand drought, high temperatures or other effects of climate breakdown.

Scientists welcomed the changes. Angela Karp, the director and chief executive of Rothamsted Research, which had a field trial for gene-edited wheat approved before the changes, said: “Gene editing gives us a powerful new tool to accelerate the generation of plant varieties that can potentially be more nutritious, more resilient against climate change and grown with a reduced environmental impact.

“We look forward to building on our science in gene editing to help deliver the crops farmers will need to deliver on Cop26 emissions targets and beyond. We will now be able to scale up our field scale studies and accelerate the creation of new varieties that can future proof our farming.”


An anti-GM crop demonstrator from Earth First protesting in July 2000 at the site of Scotland’s only approved trial site for the crops near Daviot, Aberdeenshire. England plans to relax its GM crop rules. Photograph: Ben Curtis/PA

Guy Poppy, professor of ecology at the University of Southampton, also welcomed the development but said: “While I understand why Defra propose a proportionate step-by-step process, I do fear that the travel along that path will be slow, complex and fraught with continuing claims and counterclaims.”

However, campaigners said the government was overriding public concern on the issue. Liz O’Neill, director of umbrella group GM Freeze, said: “Genetic engineering – whatever you choose to call it – needs to be properly regulated. The government wants to swap the safety net of proper public protections for a hi-tech free-for-all – but our food, our farms and the natural environment deserve better.”

She added: “This announcement is described as a response to Defra’s consultation on the regulation of genetic technologies. However, no detail has been made available [at the time of writing] on what George Eustice actually learned from the exercise. The consultation submissions that GM Freeze has seen raised a wide range of concerns about Defra’s proposals for dismantling GM safeguards, but this announcement suggests the minister isn’t listening.”

Joanna Lewis, the director of policy and strategy at the Soil Association, said gene editing was the wrong approach and the government should instead focus on helping farmers become more sustainable.

“What would help is a reversal of the … lack of investment in agro-ecological, nature-friendly methods and farmer-led technology,” she said. “We should be investing in solutions that deal with the cause of disease and pests in the first place, including a lack of crop diversity, the decline in beneficial insects, and animal overcrowding. We must increase soil carbon, wildlife and animal welfare on farms to solve the climate and nature crises, and protect human health.”

Gideon Henderson, the chief scientific adviser at Defra, said the government was looking closely at the implications for any changes to the UK law on GM organisms for future trade deals. The EU and some other countries impose heavy restrictions.

Even if GM organisms and associated products were omitted from trade deals, there could be concerns that other agricultural goods could be affected – in crops, by potential cross-contamination, and in the case of meat by livestock consuming GM crops.

domingo, 19 de setembro de 2021

Foi você que pediu uma teoria da conspiração negacionista?

por Filipe Santos Costa

A imagem de Eduardo Ferro Rodrigues acossado por uma manifestação de negacionistas, que o insultavam enquanto o presidente da Assembleia da República almoçava com a mulher num restaurante em frente ao Parlamento, marcaram um novo momento de visibilidade para os grupos mais radicais na negação dos perigos da covid e na recusa da vacinação.
A fúria com que umas dezenas de pessoas insultavam a segunda figura do Estado - chamando-lhe “assassino” e “bandido” -, e bateram no carro em que Ferro abandonou o local coincidiu com as notícias do excelente progresso da campanha de vacinação em Portugal, que esta semana se destacou como país do mundo com mais população vacinada com as duas doses.




Os estudiosos das teorias da conspiração apontam a frustração e o ressentimento como combustíveis de propagação deste pensamento. Em Portugal, as campanhas negacionistas pouco impacto tiveram na recusa vacinal, incluindo uma enorme adesão dos jovens entre os 12 e os 15 anos - o mote da pequena multidão que se manifestava era “proteger as crianças” da vacina. “Não toca nas crianças”, berrava uma das manifestantes filmadas de megafone em punho, enquanto ao seu lado alguém caluniava Ferro Rodrigues como “pedófilo”, repisando uma das mais ignóbeis teorias da conspiração lançadas em Portugal.

Para além de ter coincidido com a marca de 80% da população portuguesa completamente vacinada, o ataque a Ferro Rodrigues regista outra coincidência: aconteceu a 11 de setembro. Ora, esta data, para sempre associada aos ataques terroristas de 2001, marca o início do enorme boom de teorias da conspiração, alimentadas primeiro pela internet, e mais tarde pelas redes sociais, e que se tornaram um dos elementos incontornáveis da nossa discussão pública, da vida política e da paisagem mediática.

A grande era das teorias da conspiração começou após o 11 de setembro de 2001. Desde então, tem sido um corrupio de teorias da globais, e outras localizadas - mas mesmo essas, mimetizando as grandes construções internacionais. Não sabemos quando, nem como, esta era acabará. Sabemos que a pandemia deu um novo impulso a todo o tipo de especulação conspirativa, desde os que acreditam que o vírus não existe aos que juram que as vacinas estão ligadas ao 5G e a um plano maléfico de controlo mental da população do mundo. O céu é o limite.

Rumores e teorias da conspiração circulam desde o início dos tempos. Mas neste século, as possibilidades tecnológicas permitidas pela internet e pelas redes sociais deram-lhes um impacto nunca antes visto. E conhecemos os seus efeitos. Exemplos óbvios: um presidente dos Estados Unidos foi eleito à boleia de várias teorias da conspiração, todas demonstradamente falsas. Uma turba enfurecida atacou o Capitólio dos EUA alimentada por teorias da conspiração propagadas por esse presidente americano. Agora, por cá, outra turba, mais pequenina - mas bastante ruidosa, igualmente enfurecida, e com potencial para a violência - cercou, insultou e ameaçou a integridade física da segunda figura do Estado Português.

Não, não podemos continuar a olhar para os negacionistas e conspiracionistas como meros chalupas que propagam ideias malucas. António Nunes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, está convicto de que “este movimento está para durar e agravar a forma de expressão pública sem qualquer respeito pela opinião de outros” e avisa que “o Estado, a polícia, as informações têm de se preparar para atividades ilegais mais frequentes e violentas por parte de grupos radicais que em alguns momentos tocam ou a subversão ou ‘o terrorismo de contestação por causas indiferenciadas’."

Segundo a TVI, este caso desencadeou na unidade de contraterrorismo da PJ uma investigação à lupa aos negacionistas e às suas eventuais ligações à extrema-direita; e o Expresso noticiou que as autoridades irão reforçar a segurança dos principais protagonistas políticos e dar mais atenção aos movimentos destes grupos radicais.
Também no Expresso desta semana, Cátia de Carvalho, investigadora em psicologia do terrorismo na Universidade do Porto, mostra-se menos preocupada com a eventual escalada de violência, pois este parece-lhe “ser mais um fenómeno com forte expressão na realidade virtual e não tanto na realidade física”. Para além de que a taxa de vacinação em Portugal é alta e a pandemia vai aos poucos saindo das manchetes. Porém, a mesma investigadora reconhece que “mesmo não havendo violência, estamos perante uma situação de extremismo e que revela, seguramente, vários casos de problemas e de ausência de saúde mental."


Joseph E. Uscinski, académico norte-americano que se especializou no estudo destes fenómenos, chama a atenção para o facto de que “as teorias da conspiração não são ideias marginais, cuidadosamente escondidas nos cantos escuros da sociedade. São política, económica e socialmente relevantes para todos nós. Estão interligadas com nossa vida quotidiana de inúmeras maneiras. Assim como outras ideias, têm consequências, que às vezes podem ser mortais.”

Em fevereiro passado, o think tank Global Network on Extremism & Technology (um projeto do King’s College, de Londres) divulgou um estudo sobre a ligação entre teorias da conspiração, fenómenos de radicalização e media digitais. Pode lê-lo aqui. Nas últimas duas décadas foi publicada muita literatura sobre o assunto, mas este relatório, em apenas 48 páginas, condensa o essencial do que se sabe e do que é preciso saber sobre o assunto.

O documento analisa 6 factos que se podem considerar indisputáveis sobre as teorias da conspiração:

  • atualmente são sobretudo disseminadas através das redes sociais e plataformas de partilha de conteúdos mediáticos;
  • historicamente as teorias da conspiração têm desempenhado um papel importante em casos de radicalização, terrorismo, perseguição e genocídio;
  • a crença em teorias da conspiração está psicologicamente associada a intolerância, extremismo e vontade de infringir a lei;
  • os autores e supostos autores de muitos massacres recentes em várias partes do mundo foram motivados pela crença em teorias da conspiração;
  • estas teorias têm desempenhado um papel fundamental na violência política a que se tem assistido nos EUA, incluindo a insurreição de 6 de janeiro de 2021;
  • as atitudes tomadas pelas redes sociais e pelas plataformas de partilha de vídeos e “informação” são inadequadas para resolver os problemas associados a teorias da conspiração, em parte porque as próprias plataformas estão concebidas de uma forma que alimenta e protege o pensamento conspirativo.

Brevíssima história das teorias da conspiração

Não há História nem poder sem conspiração. O mesmo se pode dizer das teorias da conspiração, sobretudo a partir do período medieval na Europa. “As raízes do pensamento conspiracionista podem ser encontradas na época medieval, em superstições que se tornaram secularizadas após o período da Revolução Francesa. (...) Na Europa pré-moderna, os judeus eram amplamente vistos como ‘uma liga de feiticeiros usados por Satanás para a ruína espiritual e física da cristandade’, e, desde os séculos XVIII e XIX, foram reinventados como ‘um corpo conspiratório decidido a arruinar e depois dominar o resto da humanidade', com a alegação de feitiçaria substituída pela alegação superficialmente mais racional de ‘controle mental tecnológico e económico’ por meio de ‘bancos, mass media, governo, [e] educação”, conforme é resumido aqui.

A “conspiração global” dos judeus foi, em diferentes épocas e geografias, substituída pela conspiração global dos maçons, dos illuminati, dos comunistas, dos grupos de Bilderberg e de Davos. Noutra versão, mais recente, Bill Gates, sozinho, é o próprio Satã. Nas versões mais modernas, o “controlo mental” não é exercido através de feitiços, mas de chips injetados com as vacinas contra a covid, ou por sinais emitidos pelas antenas de 5G (ou ambos, em simultâneo, para garantir que a coisa não falha). E os velhos bebedores de sangue de crianças passaram a ser... pedófilos.

O que são, então, as teorias da conspiração? O primeiro a cunhar a expressão foi o filósofo Karl Popper. No final dos anos 40, ainda à sombra do Holocausto, Popper descreveu aquilo a que chamou de “teoria da conspiração da sociedade” como uma forma totalmente simplista - e, pormenor importante, não científica - de compreender as relações sociais, que surgiu como uma reação, e em oposição, ao Iluminismo, após o terramoto cultural e social que foi a Revolução Francesa.

O assunto interessou muitos académicos, sobretudo focados na II Guerra Mundial e na emergência dos autoritarismos europeus. Mas em 1964 foi publicano na Harper’s Magazine um texto seminal sobre a influência das teorias da conspiração na política. “O estilo paranóico na política americana”, de Richard Hofstadter, está aqui, para leitura livre.

Segundo Hofstadter, o conspirador olha para “a história [como] uma conspiração, posta em movimento por forças demoníacas de poder quase transcendente”. É tal a dimensão e a influência dessas forças, que o teórico da conspiração acredita que apenas uma luta apocalíptica - no fundo, uma cruzada - é capaz de travar um desfecho nefasto. O conspirador sente-se como um dos eleitos, um dos poucos que veem a verdade e o poder da conspiração que precisa de denunciar e combater. Por isso, conclui Hofstadter, para os teóricos da conspiração “o tempo está sempre a esgotar-se”.

O texto da Harper’s foi um marco, e tem as marcas do tempo em que foi escrito. O timing não foi um acaso. Os EUA ainda não tinha superado o choque do assassinato do presidente Kennedy, no ano anterior, que alimentou inúmeras teorias da conspiração - muitas delas contraditórias entre si (a coerência nunca foi um forte deste tipo de pensamento: os nazis tanto acusavam os judeus de serem capitalistas gananciosos como comunistas subversivos… os exemplos de incoerência abundam por essas bandas). E o ambiente de Guerra Fria era uma estufa que alimentava a paranoia, tão bem personificada no senador Joe McCarthy, o grande caçador de comunistas, à semelhança dos inquisidores que caçavam bruxas.

Uma das definições mais interessantes de teoria da conspiração que encontrei foi esta, do livro “Conspiracy Theories and the People Who Believe Them”, publicado pela Universidade de Miami, e coordenado por Uscinski, que reúne cerca de 40 especialistas no assunto. “A teoria da conspiração refere-se a uma explicação de eventos ou circunstâncias passadas, em curso ou futuras, que cita como principal fator causal um pequeno grupo de pessoas poderosas - os conspiradores -, agindo em segredo para seu próprio benefício e contra o bem comum. Os conspiradores podem ser governos estrangeiros ou nacionais, atores não governamentais, cientistas, organizações religiosas, fraternais ou qualquer outro grupo considerado poderoso e pérfido. As teorias da conspiração são, no seu âmago, sobre o poder: quem o tem e o que fazem com ele quando ninguém está a ver.”

A pandemia conspirativa da pandemia

Sendo, na sua essência, uma forma de contrariar e combater o poder instituído - numa luta, precisamente, pelo poder de controlar as narrativas políticas e sociais - as teorias da conspiração minam o establishment, apresentando factos alternativos, mas também realidades alternativas e formas alternativas de chegar ao “conhecimento”. “Está na internet” costuma ser a explicação que garante fiabilidade a “factos” e narrativas que contrariam o discurso oficial do poder político, o cânone da academia ou as demonstrações da ciência.

“Investigue você mesmo” é o novo mantra. Tudo vale, menos os especialistas. “As pessoas deste país estão fartas de experts”, proclamou Michael Gove, então ministro do governo conservador britânico, e um dos porta-estandartes da campanha pelo Brexit, como forma de desqualificar os especialistas remainers, que insistiam em desmontar com factos as “realidades alternativas” prometidas pelos partidários da saída do Reino Unido da UE.

O que valeu para o Brexit (com a vitória dos factos alternativos contra os factos dos especialistas) vale para tudo, como se viu na campanha de Trump e se tem visto há mais de um ano com a pandemia de covid-19. No último ano e meio a ciência tem sido um dos alvos dos teóricos da conspiração, aqui em versão negacionista: negam a existência do vírus, ou a sua perigosidade, negam a existência da pandemia, ou a sua dimensão, negam a necessidade das vacinas, ou a sua eficácia, ou o seu propósito. Ou, mais uma vez, tudo junto.

A variedade, a amplitude imaginativa e o impacto das teorias da conspiração sobre a covid é um caso de estudo. Os especialistas asseguram que momentos ou acontecimentos traumáticos costumam ser um catalisador de teorias da conspiração - foi assim na Alemanha pós-I Guerra Mundial e pós-crise financeira; foi assim na América após o assassinato de Kennedy e na ressaca dos 11 de setembro (lá iremos); foi assim em Portugal por muitos anos após a morte de Francisco Sá Carneiro e Amaro da Costa em Camarate, para dar apenas três exemplos óbvios. Assim tem sido também com a pandemia que parou o mundo.

O think tank Aliança para a Ciência, ligado à Universidade de Cornell (e financiada, entre outros… por Bill Gates... portanto… continue a leitura por sua conta e risco), fez aqui um levantamento do Top 10 das teorias da conspiração sobre o SARS-Cov2. Ei-las:

1. A culpa é do 5G: o vírus teria sido disseminado à boleia das antenas de 5G. A “prova”? A pandemia alastrou pelo mundo ao mesmo tempo que os vários países iam adotando a tecnologia 5G… coincidência?... A teoria é confusa e vaga, como convém, mas parte da ideia de que as comunicações de radiofrequência 5G têm um impacto prejudicial sobre saúde. A partir daqui há três versões: a) a covid-19 não existe e as pessoas estão a adoecer por causa dos efeitos do 5G; b) a covid existe, mas é a radiação que está a deprimir o sistema imunitário das pessoas, tornando-as mais propensas a sofrer com o vírus; c) a covid existe e é transmitida pelo espetro eletromagnético do 5G (embora num caso estejamos a falar de ondas, e noutro, de proteínas e ácidos nucleicos… - e não, os vírus não podem ser transmitidos pelas redes móveis).

2. A culpa é do Bill Gates: depois de criticar a administração Trump pela gestão da pandemia e por cortar o financiamento à OMS, Gates foi visado por setores negacionistas e de extrema-direita como o mastermind da pandemia, numa série de teorias da conspiração. O New York Times conta aqui boa parte dessa história. A “prova” era um vídeo de 2015 em que o milionário e filantropo alertava que podia vir aí uma nova pandemia, depois de alguns surtos de ébola que causaram alarme. E qual o objetivo de Gates? Forçar uma gigantesca campanha de “vacinação” através da qual a humanidade seria injetada com um microchip capaz de rastrear e controlar as pessoas…

3. O vírus escapou de um laboratório chinês: existe um instituto de virologia na cidade de Wuhan, onde há muito tempo é feita investigação sobre coronavírus, nomeadamente associados a morcegos. A teoria da falha de segurança tornou-se popular na direita americana, e Donald Trump sempre lhe deu gás. A OMS tem investigado essa hipótese e Joe Biden tentou tirá-la a limpo. Até agora, não existe qualquer prova que a valide, e a sequenciação genética do novo coronavírus não coincide com nenhuma das amostras existentes nesse laboratório. Mas esta é, de todas as teorias de conspiração sobre a pandemia, a mais plausível - o que lhe dá uma enorme vantagem sobre todas as restantes. Segundo um estudo do Pew Research, um terço dos americanos acredita que o vírus foi criado em laboratório - de forma intencional ou não.

4. A covid-19 é uma arma biológica: na indecisão sobre se o vírus existe ou não existe, uma parte dos conspiracionistas acredita que o SARS-Cov2 existe e foi intencionalmente criado como arma biológica pela China. Tom Cotton, senador do Partido Republicano, amplificou esta tese. Mais uma vez: a sequenciação genética aponta para um vírus de origem natural, oriundo dos morcegos, sem manipulação humana.

5. Foram os EUA que criaram o vírus e o levaram para a China: é a resposta chinesa à teoria anterior. O vírus teria sido introduzido na China por pessoal militar norte-americano que participou na edição de 2019 dos Jogos Militares Mundiais (sim, isso existe), que se realizaram… em Wuhan.

6. A culpa é dos OGM: há anos que o cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM) está envolto em inúmeras teorias da conspiração. Naturalmente, essas acabaram por se cruzar com a pandemia. Os contornos são pouco claros, e oscilam entre a ideia de “contaminação genética” por parte dos OGM e a de experiências genéticas que correram mal. Em todo o caso, fica por explicar de que forma vírus de origem animal que migram para os humanos podem ter origem na agricultura.

7. A covid não existe: a conspiração das conspirações foi lançada por Alex Jones, um dos maiores propagadores de fake news nos Estados Unidos. O SARS-Cov2 não existe (quanto muito, será uma constipação) e não passa de uma ficção lançada por gente poderosa que nos quer tirar as liberdades.

8. A pandemia é manipulada pelo Deep State: a crença de que existe um Estado oculto que controla o Estado tornou-se muito popular nos EUA sobretudo após o 11 de setembro. Há uma elite puxa os cordelinhos do país e que se terá tornado ainda mais ativa com Donald Trump, para sabotar o seu trabalho. Anthony Fauci, o homem que mais fez frente à desinformação lançada por Trump, seria, claro, membro desse “Estado profundo”. Trump chegou a referir essa teoria numa das suas conferências de imprensa, causando uma reação de Fauci que ficou para a posteridade.



9. É uma conspiração das farmacêuticas: seja real (numas versões), ou ficcional (noutras), a covid é uma forma da Big Farma ganhar milhões com vacinas “feitas à pressa” (sim, foi em tempo recorde, mas com base numa tecnologia que estava a ser desenvolvida há 20 anos).

10. Os dados estão manipulados: segundo esta teoria, um conjunto de organizações do Estado - por todo o mundo - e mais umas quantas organizações internacionais e universidades e ONG estariam mancomunadas para empolar os dados de casos, internamentos e mortes - tudo para justificar um clima de medo e a restrição de liberdades. Há sempre alguém que conhece o primo do cunhado de alguém que sabe que… Esta teoria choca de frente com outra, segundo a qual os verdadeiros números de casos e de mortos seriam muito mais altos e os governos estariam a esconder a dimensão da tragédia para não se ver sua incompetência. Também neste caso o vizinho da sogra conhece alguém num hospital que jura que… Em Itália, circulou um vídeo em que duas mulheres “demonstravam” que o serviço de urgência de um hospital de Milão que alegadamente estaria a rebentar pelas costuras com pacientes covid estava, afinal, tranquilo, e sem ambulâncias à porta. Os políticos, os médicos e os jornalistas estariam a mentir sobre o caos nos hospitais. “São terroristas”, diziam elas. O vídeo, claro, era falso - não foi filmado no serviço de urgência do hospital, mas noutra ala.

Com mais ou menos alterações, estas são no essencial as grandes teorias da conspiração que alastraram pelo mundo fora sobre a pandemia. No verão passado, em França, estas eram as teorias de conspiração mais populares sobre a covid-19 entre aqueles que disseminavam mensagens anti-máscara:

Ligação ao 5G (81%)
Microchip de Bill Gates (8%)
A pandemia não existe (4%)
O vírus foi criado em laboratório (2%)
A segunda vaga não existiu (2%)
O alho cura a covid (2%)
A vitamina C cura a covid (2%)

Uma velha luta contra a ciência
Não é nova a luta dos negacionistas contra a evidência científica. Pelo contrário, a contestação ao saber científico é um dos traços mais persistentes na sua luta contra as narrativas do poder.

A contestação à ciência começa, desde logo, com aqueles que contestam a teoria da evolução - tendem a ser os setores mais ultra-religiosos, que lêem a Bíblia e a descrição do Génesis literalmente. A crença na Terra plana vai pelo mesmo caminho.

Mas não faltam outros exemplos de contestação à ciência. O surgimento do HIV deu rédea solta a teorias da conspiração. Em muitas sociedades africanas, o medo da ciência e dos medicamentos era superior ao medo da SIDA. Um antigo ministro da saúde sul-africano, Manto Tshabalala-Msimang, dizia que e epidemia de SIDA no país tinha sido causada por “uma conspiração global com o objetivo de reduzir a população do continente”. O seu governo recomendava massagens e vitaminas para curar a doença, pois alegava que os medicamentos disponibilizados contra o HIV faziam parte da conspiração do Ocidente. Calcula-se que 300 mil pessoas terão morrido em consequência destas teorias.

A contestação às alterações climáticas é outro caso clássico da mentalidade conspirativa vs ciência. Há umas décadas, as teorias da conspiração alegavam que as alterações climáticas eram um “embuste” de alguns cientistas que tinham evidências escassas. Trinta anos depois, as evidências apenas se fortaleceram e cerca de 97% dos cientistas que estudam o clima concordam que este está a mudar devido à atividade humana. Os teóricos da conspiração das alterações climáticas, que no início alegavam que não havia acordo científico sobre o assunto, agora - perante o enorme consenso científico -, garantem que esse consenso está empolado. E, perante os estudos que demonstram a mão humana nas alterações climáticas, a resposta é que os estudos são manipulados. Mais uma vez, encontramos Donald Trump como um dos propagadores do pensamento conspirativo, rotulando as alterações climáticas como “embuste”.

E há, claro, a velha luta dos negacionistas e teóricos da conspiração contra as vacinas. A contestação às vacinas tem uma história tão longa como as vacinas. Vem do século XVIII, portanto. Mais de dois séculos a acumular medos e a apontar gente poderosa com intuitos sinistros. Até na gripe espanhola - para a qual a ciência não conseguiu criar uma vacina - houve debates inflamados contra a vacina, com visões conspirativas. Este artigo publicado em março pela Fast Company conta essa história, de um ponto de vista americano, sendo certo que os EUA foram sempre um dos epicentros da hesitação vacinal e das teorias da conspiração sobre o assunto.


O momento-chave da contestação moderna contra as vacinas foi a publicação de um artigo, em 1998, na prestigiada publicação científica Lancet, segundo o qual a vacina contra sarampo, papeira e rubéola estaria ligada ao aumento de crianças diagnosticadas com autismo. o gastroenterologista Andrew Wakefield foi o principal responsável pelo estudo, que lançou uma enorme polémica, e seria desmentido, pelos anos seguintes, em inúmeros estudos de outros investigadores, divulgados em publicações igualmente de referência, como The New England Journal of Medicine e a própria Lancet. Por fim, dez dos investigadores da equipa de Wakefield acabaram por se retratar, e a Lancet admitiu que não devia ter divulgado o estudo original. Em 2010, o UK General Medical Council concluiu que Wakefield agiu de forma “desonesta e irresponsável” e a Lancet reconheceu que alguns dos dados essenciais da pesquisa original haviam sido manipulados, para confirmar a conclusão.

Mas nada disto travou a propagação da crença de que a vacina contra o sarampo aumentava os riscos de autismo. Estrelas como a modelo Jenny McCarthy, o ator Jim Carrey ou a cantora Toni Braxton deram grande visibilidade a essa teoria na televisão americana, naquele que foi o maior impulso de sempre às teses dos anti-vaxers. Os inúmeros desmentidos da comunidade científica, e a retratação final da Lancet, foram apenas olhados como mais uma prova de uma “conspiração” de poderosos para impedir que se saiba “a verdade”.

Consequência: surtos de doenças antes consideradas erradicadas ressurgiram recentemente. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros locais, o sarampo voltou - e as mortes também. A vacina contra o HPV, ou papiloma vírus humano tem sido igualmente visada por teorias de conspiração infundadas. Até a vacina contra o vírus zika, que ainda não existe, faz parte de uma conspiração negra, para encher os bolsos da big pharma, ou fazer experiências em humanos, ou envenenar o público...

O século das teorias da conspiração
As teorias da conspiração não são uma novidade do século XXI, mas são “um marco do início do século XXI”, escreve Joseph E. Uscinski. “As teorias da conspiração dominaram o discurso das elites em muitas partes do mundo e tornaram-se o grito de guerra dos principais movimentos políticos. (…) Os desenvolvimentos mais alarmantes na política mundial estão intimamente ligados às teorias da conspiração. Demonstrações recentes de populismo, nacionalismo, xenofobia e racismo são todas acompanhadas por narrativas de conspiração. Muitos líderes mundiais justificaram o autoritarismo e a consolidação do poder com bodes expiatórios e acusações de conspiração. A internet, que foi apontada como um instrumento de democracia, tem sido usada para manipular as massas - por lucro ou poder - com notícias falsas que consistem principalmente em teorias da conspiração construídas sem qualquer ligação com a realidade.”

Quando falamos do século XXI, estamos mesmo a falar do início do século XXI. Houve um prelúdio destes novos tempos com a traumática disputa eleitoral entre George W. Bush e Al Gore, com o democrata a perder a Casa Branca por causa de poucos milhares de votos. A derrota dos democratas, ditada pelo Supremo Tribunal no meio de uma enorme controvérsia, convenceu-os de que a eleição fora fraudulenta. Segundo as sondagens de opinião, metade dos democratas pensava que o processo havia sido viciado contra Al Gore. George W. Bush entrou com o pé esquerdo, cercado por teorias da conspiração lançadas pela esquerda americana. O que se agravaria logo no ano seguinte com o acontecimento que marca o grande boom moderno das teorias da conspiração: o 11 de setembro.

“O resultado foi uma lesão psíquica duradoura, tão prejudicial quanto os próprios ataques. O fumo mal havia se dissipado quando uma nova nuvem se formou, trazendo com ela uma desconfiança em relação às respostas oficiais e uma vontade de acreditar em conspirações muito mais bizarras do que a que a Al Qaeda havia levado a cabo. Tal como aconteceu com o assassinato de John F. Kennedy, ao 11 de setembro seguiu-se uma onda de incredulidade, pois milhões simplesmente recusaram-se a acreditar na história oficial e, em vez disso, procuraram conforto na história alternativa”, lia-se há poucos dias no Wall Street Journal, num texto sobre os 20 anos desse acontecimento.

A tese principal desse artigo, em linha com o pensamento de muitos estudiosos, é que o 11 de setembro abriu “uma nova era de teorias da conspiração”, com a internet a “deitar gasolina na fogueira”.

Parece haver uma regra, segundo a qual as teorias da conspiração surgem à proporção da cobertura mediática que um evento recebe. A ser assim, não admira o impacto do 11 de setembro nos recantos obscuros do conspiracionismo. A BBC elencou aqui as principais teorias que, duas décadas depois, continuam a circular sobre esse dia trágico - não falta o “Governo mundial”, a “conspiração judaica”, e a “cumplicidade dos media”.

É hoje claro que a Administração Bush deu um forte empurrão à desconfiança e às teorias de conspiração quando - após uma primeira resposta militar contra a Al Qaeda e o Afeganistão - aproveitou o embalo para atacar o Iraque com base em alegações totalmente falsas sobre a existência de armas de destruição massiva. Esse é o argumento de David Corn neste texto do Mother Jones.

As teorias da conspiração não esperaram por esse desvio para o Iraque; começaram logo após os atentados. Mas uma das peças centrais das construções fantasistas em torno do ataque às Torres Gémeas, ao Pentágono e ao avião que caiu na Pensilvânia foi este filme, "Loose Change", lançado em 2005. É um dos primeiros casos de vídeos virais com teorias da conspiração na era da internet (e ainda sem redes sociais]. Passados tantos anos, o New York Times escreveu que este filme amador foi a peça que “deu força ao movimento truether [que exigia ‘saber a verdade’ sobre os atentados] e deu o template para a atual era de desinformação”.



“O seu DNA está por toda a internet - de vídeos do TikTok sobre tráfico sexual infantil a tópicos no Facebook sobre curas milagrosas da Covid-19 - e muitas das suas falsas alegações ainda conseguem uma quantidade surpreendente de tempo de antena”, escreve o jornalista do NYT que reviu agora esse filme. O trabalho teve a colaboração de Alex Jones, o guru da desinformação de extrema-direita no site Infowars.

“A mensagem do filme de que as pessoas poderiam descobrir a verdade sobre os ataques por si mesmas também se tornou uma tática central para grupos como o QAnon e a multidão anti vacinas, que exortam os seus seguidores a ignorar os especialistas e ‘fazer sua própria pesquisa’ online.” Para além do artigo que cito acima, recomendo a escuta deste episódio do podcast do NYT The Daily, sobre como este documentário amador acabou, de certa forma, por dominar o mundo - está ali o guia para a desinformação e as teorias da conspiração que se tornaram o nosso dia a dia.

Se “Loose Change” começou por ser partilhado por email, o surgimento das redes sociais e plataformas de partilha de conteúdos abriu a autoestrada que faltava para o acesso livre a todo o tipo de teoria de conspiração. As redes sociais e plataformas de partilha como YouTube, Facebook, Twitter e Instagram tornaram-se propagadores de crenças conspiratórias e todo o tipo de desinformação. E existem outras plataformas online quase só dedicadas à circulação dessas teorias, dos grupos de Whattsapp às seções de comentários dos grandes jornais mainstream. E muitos dos principais influenciadores online acabam por dar palco a essas teorias.

Este ensaio é um bom resumo sobre como as teorias da conspiração se espalham online. Tem a ver com os algoritmos, mas não só, argumentam os autores. Este processo está bem identificado por abundante literatura, mas tem sido difícil quebrá-lo.

Para início de conversa, há um modelo de negócio destas redes e plataformas que alimenta um loop infinito de exposição a determinado tipo de conteúdos. “Os principais sites de redes sociais e partilha de media foram projetados para alcançar um resultado que é quase o inverso exato [do que deveria acontecer]: o Facebook traz pessoas com interesses semelhantes; YouTube recomenda vídeos que são considerados semelhantes aos que o visualizador já respondeu positivamente; e o Twitter e o Instagram recomendam seguir utilizadores com narrativas semelhantes às que já estão a ser seguidas. Essa funcionalidade carrega um risco inerente, devido ao seu potencial óbvio para levar indivíduos suscetíveis a visões cada vez mais extremas”, conforme se lê aqui.

Ora, segundo os estudiosos da ligação entre teorias da conspiração, radicalização e redes sociais, o que deve acontecer é exatamente o contrário: deixar de alimentar a mentalidade conspirativa com mais teorias da conspiração. Viver numa bolha em que toda a interação acontece apenas com gente que pensa da mesma forma só aumenta as convicções conspirativas e extremistas.

“Para evitar que crenças conspiratórias se instalem, será necessário envolver os indivíduos com argumentos racionais antes de serem expostos às teorias da conspiração, e numa fase em que suas conexões sociais ainda não chegaram a ser dominadas por crentes em conspiração. Isso não é compatível com a facilitação da disseminação de teorias da conspiração e a formação de grupos dedicados ao pensamento conspirativo. Abordar verdadeiramente o problema pode, portanto, exigir uma abordagem fundamental de redesenho das plataformas”, defende o Global Network on Extremism and Technology.

Mesmo que não existissem redes sociais, as teorias da conspiração continuariam a fazer o seu caminho, argumentam os autores deste texto do site The Conversation. Que detetam uma deliciosa ironia: “as acusações dirigidas às redes sociais tendem a assumir a mesma forma narrativa de muitas teorias da conspiração. Pode ser o relato de um pequeno episódio, talvez o testemunho de uma fonte credível, como um médico alegando que as empresas de media sociais ‘têm mesmo sangue nas mãos’. Ou pode ser o retrato do público como a vítima inocente nas mãos de exploradores maliciosos da Internet - tudo projetado para atrair pessoas já dispostas a desconfiar de corporações e empresas de tecnologia. O problema com essas acusações é que as evidências mostram um quadro mais matizado.”

Nos media tradicionais, as teorias da conspiração, que eram tratadas como algo esotérico e de nicho, passaram a ocupar cada vez mais espaço. Em novembro de 2017, o New York Times publicou um artigo com a expressão “teorias da conspiração” quase todos os dias. Em comparação, o Times publicou zero desses artigos no mesmo mês, quarenta anos antes. Nada de espantar se tivermos em conta que em 2016 os EUA elegeram como presidente o propagador in chief de teorias da conspiração.

O fator Trump
Donald Trump era um promotor imobiliário de Nova Iorque, rico, bon vivant, frequentador das revistas de social e dono da marca Miss USA, até começar a dar nas vistas como media personality, enquanto apresentador do reality show The Apprentice, em 2004. A sua invenção como influenciador político acontece em 2008, com a eleição de Barak Obama.

Num recanto da internet nasce a teoria de que Obama é um presidente ilegítimo, porque não seria cidadão americano - teria nascido no Quénia, e não no estado americano do Havai. Apesar de Obama ter disponibilizado o seu certificado de nascimento, os birthers (como ficaram conhecidos os que exigiam “a verdade” sobre o local de nascimento do presidente) alegavam que se tratava de uma falsificação. Trump descatou-se como um dos grandes divulgadores dessa conspiração - e tornou-se um dos porta-estandartes de uma certa direita radical.

Daí em diante, foi uma cavalgada de conspirações, antes, durante e após as eleições que o levaram à Casa Branca. Ao longo de todo o processo, desde as primárias estaduais até ao dia das eleições gerais, Trump afirmou que o processo estava viciado e seria fraudulento. Mesmo meses após sua improvável vitória, Trump continuou a afirmar que, apesar de ter vencido, o resultado fora manipulado - sem qualquer prova, insistiu que três milhões de votos em Hillary Clinton eram de eleitores ilegais. Todas as investigações demonstraram o contrário, mas nunca os factos travaram uma boa teoria da conspiração.

Entre as teorias da conspiração mais notórias de Donald Trump conta-se sua acusação de que o pai do senador Ted Cruz (seu adversário nas primárias) participou do assassinato de Kennedy. Em circunstâncias normais, uma acusação tão descabelada seria suficiente para desqualificar um candidato, mas não com Trump. O seu apoio às teorias da conspiração nunca o prejudicou. Garantiu que os refugiados sírios eram agentes do ISIS, que o México enviava “bad hombres”, assassinos e violadores, para atacar americanos inocentes e até que Obama (o “queniano”) era muçulmano e simpatizava com terroristas. Esta sopa da pedra tinha sempre o mesmo sabor: as elites políticas não são de confiança, e venderam os interesses dos americanos a obscuras entidades - e era preciso “drenar o pântano” de Washington.

Trump e os seus apoiantes alimentaram todas as teorias sobre a sua principal adversária, Hillary Clinton, incluindo a mais absurda de todas, que ficou conhecida por “Pizzagate”.


A coisa é tão louca, que o New York Times fez esta infografia, como ilustração deste artigo, a tentar ligar as várias peças. Note nas palavras Hillary, Obama, democrata, Wikileaks, canibalismo, pedofilia, satanismo… Resumindo: Hillary, Obama e boa parte do establishment do Partido Democrata estariam ligados a uma rede de pedofilia, pornografia infantil, canibalismo, tráfico humano e satanismo, incluindo túneis secretos em Washington. O centro dessa trama alucinada seria a popular pizzaria Comet Ping Pong, na capital americana. É como se séculos de teorias da conspiração tivessem sido metidos numa Bimby e saísse uma pasta de aspeto repugnante.

Houve muito quem acreditasse. Em dezembro de 2016, Edgar Maddison Welch disparou uma arma para dentro da pizzaria de Washington, para castigar os envolvidos no “Pizzagate”. Os relatos deste caso dão conta de que Welsh, que se assumiu culpado de acusações de porte de arma e tentativa de homicídio, ficou surpreendido ao perceber que não existem evidências que sustentassem sua teoria.

O “Pizzagate” ainda hoje alimenta o imaginário de legiões de alucinados da extrema-direita americana. Tanto que está na base do que viria a ser uma peça essencial da propagação de desinformação nos anos da presidência Trump: o movimento QAnon, lançado de forma anónima nas redes sociais, que denunciava uma conspiração global (claro, com o deep state, pedófilos, canibais e bebedores de sangue) contra a qual Donald Trump era a única esperança da humanidade. O tal cavaleiro branco liderando a cruzada contra o mal.

É possível argumentar, como faz Uscinski, que a verdadeira base que apoiou Trump foi uma coligação de conspirações. “Trump construiu uma coligação apelando mais para a teoria da conspiração do que para o partidarismo; portanto, os seus partidários estão naturalmente usando teorias da conspiração para lutar contra o que vêem como uma conspiração contra eles. Cada nova teoria da conspiração gera outras espontaneamente. O número crescente de teorias de conspiração opostas acumulou-se e obscureceu a verdade. (...) Como se estivessem num loop de feedback, os acusados ​​de conspiração voltam-se para as teorias da conspiração como mecanismo de defesa. Isso torna difícil julgar a veracidade de qualquer afirmação.”

Democracias sob pressão
Este texto já vai (muito) longo, mas deixo uma última nota para a evidente pressão que este ambiente coloca sobre a democracia e as instituições democráticas. Vimo-lo no cerco a Ferro Rodrigues, a segunda figura do Estado. Vimo-lo na invasão do Capitólio, acicatada por um discurso em que Trump insistiu na conspiração de uma fraude eleitoral que lhe teria roubado a vitória - tese que inundou as redes sociais com “provas” e o submundo da internet com apelos à sublevação.


Há uns meses, o L’Obs publicou um grande dossiê sobre teorias da conspiração. Reuniu um painel de cidadãos comuns, com os quais testou várias teorias que circulam por aí - nomeadamente, sobre covid, máscaras e vacinas. A maioria do painel acreditava em teorias da conspiração, mas todos rejeitavam fazer parte desse grupo e recusavam o rótulo de negacionistas. Nas últimas eleições autárquicas em França, surgiram inúmeros candidatos com a oposição ao 5G como grande bandeira - vários tiveram resultados bem acima do que seria expectável. Uma das teorias da conspiração que ganhou alguma popularidade em França tem a ver com o massacre do Charlie Hebdo: há quem acredite que é o governo que está por detrás da matança...

É um fenómeno global. Na Alemanha há uma teoria oposta: em vez de estar por detrás de ataques terroristas, o Governo alegadamente esconde ataques perpetrados por refugiados muçulmanos sobre alemães inocentes, de forma a proteger a política de concessão de asilo assumida por Angela Merkel.

A imigração e a integração de refugiados muçulmanos tem sido pasto para teorias conspirativas no centro e no norte da Europa. Viktor Orban defende a pureza do povo húngaro contra uma invasão muçulmana que nunca aconteceu nem nunca esteve perto de acontecer. O mesmo na Polónia. Os novos líderes autoritários não dispensam uma boa conspiração com inimigos internos e externos, seja Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, Maduro na Venezuela, ou Duterte nas Filipinas.

O Brexit foi insuflado por teorias conspirativas de que a UE daria livre passagem a milhões de refugiados árabes para que chegassem às Ilhas Britânicas. Também houve a teoria de que essa votação seria viciada, de que a UE estaria a esconder planos para uma maior integração, ou que estaria secretamente em preparação um exército europeu. Os defensores da saída afirmavam que as contas dos peritos sobre o impacto económico eram manipuladas.

Timothy Snyder, historiador e autor do ótimo livro “The road to unfreedom”, tem escrito muito sobre o poder da desinformação e das teorias da conspiração, e a forma como esses fenómenos estão a pressionar a democracia e a permitir novas formas de autoritarismo. Após a invasão do Capitólio assinou este magnífico ensaio sobre as “grandes mentiras” que enformam a realidade alternativa em que muitos vivem. Destaco este parágrafo:

“Pós-verdade é pré-fascismo, e Trump tem sido o nosso presidente pós-verdade. Quando desistimos da verdade, concedemos poder para criar um espetáculo no seu lugar àqueles que têm o dinheiro e o carisma. Sem um acordo sobre alguns fatos básicos, os cidadãos não podem formar a sociedade civil que lhes permitiria defenderem-se. Se perdermos as instituições que produzem os factos que são pertinentes para nós, tendemos a chafurdar em abstrações e ficções atraentes. A verdade defende-se particularmente mal quando não há muita por aí, e a era de Trump - como a era de Vladimir Putin na Rússia - é uma época do declínio dos noticiários. Os media sociais não são substitutos: sobrecarregam os hábitos mentais pelos quais procuramos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que parece verdadeiro e o que realmente é verdadeiro.”