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quarta-feira, 28 de maio de 2025

Entrevista: entenda por que não existem raças humanas

Avanços na genética mostraram que não faz sentido falar de “raças”, já que os seres humanos compartilham 99,9% do DNA. 




Por Iael de Souza[1]

Enquanto indivíduos que fazem parte de uma sociabilidade (totalidade social), querendo ou não, somos obrigados a tomar posição perante as situações concretas vividas, ainda mais quando se é um(a) educador(a), caso da autora. Tal posicionamento reflete a determinação de classe, tenha-se ciência disso ou não. Algo a ser ressalvado. No entanto, importante alertar que um contingente significativo de indivíduos está preso a uma falsa consciência (às aparências, às sombras, como no Mito da Caverna, de Platão), às ilusões acerca da realidade, incapazes de apreender a concretude de suas próprias condições materiais de existência, acreditando fazer parte de uma classe e segmento social ao qual, em essência, não pertence.

Além de educadora, para garantir minha reprodução dependo da venda da força de trabalho (assalariamento). Logo, faço parte daqueles que são explorados, dominados e sofrem diferentes tipos de opressão, assim como ocorre com toda a classe trabalhadora, embora haja diferenciações na intensidade e nas formas de exploração, dominações e opressões devido ao lugar ocupado na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho, além de outras particularidades relacionadas à sexo, sexualidade, cor, “raça”, “etnia”.

Descrevo-me, portanto, como trabalhadora assalariada, membro da classe que vive da venda de sua força de trabalho (física e mental) como condição de reprodução e manutenção; explorada, dominada e oprimida pelo sistema capital e suas personas; heterossexual/cisgénero, branca; consciente de que faço parte da classe trabalhadora (independente do lugar que ocupo na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho e da remuneração obtida) e que como classe da perspectiva do trabalho tenho como tarefa revolucionária primordial contribuir na agitação, propaganda e organização da classe trabalhadora e das camadas populares para reabsorver e reassumir o poder político-social a fim de superar o modo de produção capitalista, o Estado, a propriedade privada, o valor de troca, a sociabilidade de mercado e as classes sociais (exploração, dominação e opressão de seres humanos por seres humanos), construindo e fundando um novo modo de vida e sociabilidade.

Na construção dessa organização, é preciso enfrentar as questões do nosso tempo, que repõem e atualizam aquelas que tiveram continuidade no processo histórico-social e tornam ainda mais complexa e hercúlea a organização da classe trabalhadora, cada vez mais metamorfa e metamorfoseada pelas reestruturações produtivas do sistema capital e estágios do modo de produção capitalista. É preciso enfrentar os problemas que minam a unidade e solidariedade dessa classe trabalhadora segmentada em setores, fragmentada pelas novas estratégias do capital e dividida pelas particularidades que a cega para enxergar aquilo que compõe sua universalidade e unidade comum.

O educador que se posiciona na perspectiva do trabalho e da classe trabalhadora não pode negligenciar os debates e questões candentes de seu tempo. No presente e atual conjuntura brasileira, em que discursos homofóbicos, misóginos, racistas, preconceituosos, de ódio são propagados por aquele que ocupa o cargo de presidente da República, incitando práticas de violências noticiadas pelos jornais – como o caso do menino Miguel, em Recife, morto por negligencia da patroa de diarista; o espancamento de Moise Mugenyi, na praia da Barra da Tijuca; o assassinato de Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT (Partido dos Trabalhadores) em Foz do Iguaçu, para citar alguns exemplos – mais do que nunca é preciso intervir através de análises e reflexões capazes de reconstruir as mediações (e não apenas interpretações, represetanções) da realidade, conectando a objetividade dos fatos à estrutura da totalidade social, expondo as determinações reflexivas entre particularidade e universalidade, a fim de que se possa apropriar do movimento e das contradições do real, apreendê-lo e intervir de modo o mais adequado e eficiente possível, contribuindo para a criação das condições objetivas e subjetivas para superá-lo.

Assim sendo, não é por ser branca que não posso e não irei me posicionar frente às práticas racistas, às várias formas de violências infringidas contra as pessoas por questões econômico-sociais, sexistas, de sexualidade e todas as outras formas de opressão possíveis e inimagináveis. Ao contrário, como lembra Angela Davis, “numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, independente da cor de nossas peles, pois, em última instância (frise-se), o aspecto econômico-social torna-se o fator predominante, sendo mesmo capaz de artificialmente produzir “branquiamentos [2]”, o que nos remete à sentença de Lucy Parsons:
“Há alguém tão estúpido”, perguntou Parsons em 1866, “a ponto de acreditar que essas afrontas têm […] se acumulado sobre o negro por ele ser negro?” “De forma alguma. É porque ele é pobre. É porque ele é dependente. Porque ele é mais pobre enquanto classe do que seu irmão branco nortista, escravo do salário” (DAVIS, 2016, p. 159).
Ser branco não significa ser a personificação encarnada do colonizador, já que a brancura do branco se define por sua classe (trabalhadora ou capitalista), condição de classe (hierarquicamente falando) e por sua origem geográfica (europeia ou não). “Lugar de fala”, como esclarece Guilherme Terreri/Rita Von Hunty (“Lugar de fala e a confusão que se faz” …, Tempero Drag, dezembro 2021), não é um dado proibitivo do discurso, mas sim um dado analítico, evidenciando de onde ele vem, e não aquele discurso que pode ou não ser dito. Nenhuma fala é neutra, carregando consigo classe, sexo, sexualidade, “raça”, cor, etc. É importante que ao ouvir alguém se pronunciando perguntemos “quem” está falando, de “qual lugar”, identificando as origens de quem fala. Também é necessário precisar se se fala a partir da episteme (teoria do conhecimento, conhecimento científico, partindo de um método de análise, reflexão e proposição), da sophia (vivência, experiência) ou da doxa (senso comum, crença, opinião). Se por “lugar de fala” é entendido que só fala quem viveu e experimentou, não há espaço para a episteme e se fica apenas na sophia alimentando a doxa, o que empobrece e prejudica a apreensão do problema em suas múltiplas determinações e concretude.

É por isso que mesmo sendo branca discorrerei sobre “raça” e “cor”, porque, ainda que não fale pela sophia, como educadora estarei embasada na episteme como forma de desconstruir a doxa historicamente fabricada, criando conceitos que até hoje guiam as pessoas em sua forma de pensar, agir e interagir com os outros, demonstrando que tal discussão não é apenas acadêmica, mas essencial para transformar nossas práticas (a mudança começa pela mudança daquele que vê), uma vez que a linguagem tende a preestruturar o pensar e o agir. O significado de uma palavra ou expressão “é o que ela faz, ou seja, o efeito que ela produz em seus ouvintes… Um nome pode determinar a natureza da resposta que lhe é dada em virtude das associações que o uso desse nome evoca” (Keith Baird, jovem especialista afro-americano do Conselho de Educação de Nova York. In: Revista Ebony 23, p. 46 a 54, novembro de 1967. Disponível em: Quilombohoje).

Embora seja a existência quem determina a consciência, na dialética entre o real (a prática social) e o pensamento abstrato, faz-se a apropriação do movimento contraditório da realidade pelo concreto pensado, que ao nomear o mundo, conceituando-o e categorizando-o, permite a intelecção de sua objetividade pelos sujeitos, que passam a comunica-lo para os demais, alterando e transformando o modo de pensar, ser e interagir das pessoas entre si e com o mundo. Logo, a existência, ponto de partida é desvendada no ponto de chegada pelo trabalho da reflexão crítica que busca retotalizar as mediações que perfazem as relações entre os objetos, apreendendo como se efetiva sua objetividade.

Uma outra forma de sociabilidade necessita de indivíduos que se norteiem por outros valores, criados em contraposição àquilo que é (o real), capacitando-os e criando as condições para que direcionem suas ações ao que deve ser.

Sobre “raça”…
Alguns autores relacionam o aparecimento da raça com a escravidão moderna (acumulação primitiva de capitais e sistema colonial). Entrementes, na Antiguidade Clássica, egípcios, sumérios, babilônios, assírios, hindus, persas, hebreus, cretenses, fenícios, gregos, macedônios e romanos tinham em comum o trabalho escravo. Uma das diferenças significativas entre o “escravismo patriarcal” (MAESTRI, 1994) da Antiguidade Clássica para o “escravismo moderno” da acumulação capitalista é que o primeiro não fazia distinção de cor ou fenotípica, como passa a ocorrer nas Américas e Antilhas com a escravidão colonial.

Consoante Peter Wade (2017, p. 49), o termo raça surge entre os séculos XIII e XVII no contexto europeu. Nesse período, fazia menção à religião, ao comportamento e ao meio ambiente, já que eram os critérios mais relevantes à época para conceituar a diversidade humana. Ainda segundo o autor, embora a etimologia da palavra seja incerta, há registro de seu uso no século XIV em Itália e Espanha, sendo empregada para discernir estirpe e linhagem de cavalos e vacas. O vocábulo só será utilizado na língua inglesa no século XVI.

Até o século XVIII o termo “raça” codificava um racismo religioso (judeus, muçulmanos e cristãos), de pureza/limpeza (exclusão de pessoas judias e muçulmanas) de sangue, cuja importância atinge seus píncaros no século XVII e pelas determinações do meio ambiente (determinismo geográfico), provocando alterações no biofísico. Uma noção de raça mais próxima ao que conhecemos se estabelece na segunda metade do século XVIII e se formaliza no decorrer do século XIX e início do XX.

A biologia e a antropologia serão as áreas da ciência da natureza que irão contribuir para a constituição da ideia de raça no século XIX, criando as condições para o desenvolvimento do “racismo científico” e do determinismo racial.

A partir desses fatos históricos é possível induzir (e não deduzir) que a distinção, superioridade/inferioridade, discriminação, preconceitos e a culminância desse processo com a estruturação de uma organização social (a sociabilidade capitalista, moderna) baseada na ideia de superioridade racial advém de tempos remotos, originado na dominação do ser humano por outro ser humano, quando aqueles que são vencidos nas guerras tornam-se escravos dos vencedores, ou no momento em que um ser humano é escravizado por outro devido à dívidas, ou então, ao perder os instrumentos e meios de produção, que passam a ser concentrados e centralizados por poucos, reduzindo o indivíduo a servo daqueles que detêm tais instrumentos e meios (servidão) ou vendedor de sua força de trabalho física e/ou mental (tornando-se mercadoria) em troca de salário para poder obter os meios necessários à sua própria reprodução enquanto força de trabalho.

Isso demonstra que as desigualdades entre os seres humanos aparecerem concomitante às condições (propriedade privada, vencedores e vencidos, endividados, etc.) que proporcionam a dominação, exploração e as variadas formas de opressão de uns sobre todos(as) os(as) outros(as). O fato dessa dominação, exploração e opressão tornar-se uma escravidão racializada e embasada na cor da pele e nos traços fenotípicos é historicamente determinada pelo processo de acumulação primitiva de capitais iniciada pelos países europeus e o avanço expansionista de sua dominação pela colonização dos demais continentes, colocando-se como referência e modelo de civilização e humanidade, um falso universal em relação a todas as particularidades, legitimando-as ou classificando-as como não pertencentes àquilo que se entende por “humano”.

Entrementes, toda a ideologia pseudocientífica das “raças” humanas é desvelada e se desfaz quando retomamos, historicamente, o modo como se deu o povoamento do que hoje conhecemos como os continentes do planeta Terra. (Re)descobre-se o que de fato une a todos os seres humanos, que é o gênero, o “homo”, o verdadeiro universal, e a grande ironia histórica de que o continente africano engendra, enquanto protoforma, nosso DNA, nossa ancestralidade e nosso género. Daí a importância de conhecer e se apropriar da história como condição para destruir as ideologias e ficções criadas por aqueles que dominam e produzem o conhecimento científico, que não é A teoria da Pangeia (era Paleozoica, cerca de 200 milhões de anos) e do povoamento da Terra é uma comprovação científica de que cada representante da espécie humana é membro do gênero humano. Os continentes estavam unidos num único bloco (pangeia). O movimento das placas tectônicas – milhões de milhares de anos (descoberta da década de 1960, pelo geólogo canadense John Tuzo Wilson, conhecida como Teoria da Tectônica de Placas) – contribuiu para a configuração continental atual. Os continentes e oceanos ficam sob esses blocos rochosos rígidos em movimento (Deriva Continental, teoria de Alfred Wegner, meteorologista alemão, de 1915). Descobriu-se que na primeira movimentação, a pangeia dividiu-se em duas partes: Laurásia (continentes que correspondem ao hemisfério norte) e Gondwana (continentes do hemisfério sul), porém, posteriormente, com as respectivas movimentações, há cerca de 65 milhões de anos esses dois blocos continentais começaram a se dividir e foram se separando, até formar a configuração atual dos continentes.

Do coração da África, a cerca de 1 milhão de anos, os grupos de Homo Habilis começam a explorar outros territórios, como a Ásia e a Europa, embora uma migração de proporção significativa tenha sido datada há 80 mil anos. Deve-se considerar que o processo de separação dos continentes foi lenta e gradual, sendo a distância entre eles, inicialmente, pequena, permitindo as migrações desses grupos de hominídeos por toda a terra. A datação desse povoamento da Terra pelos seres humanos é feita através dos fósseis encontrados nos diferentes continentes, além de semelhanças geológicas, climáticas, de biomas, etc.. Mais recentemente, com o avanço das ciências naturais, também foram dadas contribuições pela genética via decifração do DNA. Mediante a análise do estudo de três cientistas geneticistas – David Reich, Eske Willerslev e Mait Metspalu – foi possível inferir que uma grande migração, acontecida entre 80 mil e 50 mil anos, levou ao povoamento de todo o mundo.

Com base nesses dados é possível sentenciar que todo indivíduo, todo ser humano é única e universalmente membro do género humano (homo = género / sapiens = espécie), como também comprovam os estudos encomendados pela UNESCO a eminentes cientistas das ciências da natureza entre os anos 1950 e 1960 (pós II Guerra Mundial e a tragédia do nazismo alemão, pautado na pseudoteoria racial e na eugenia da raça ariana), donde se concluiu que “as diferenças entre os grupos humanos não são determinadas geneticamente e as evoluções sociais e culturais são independentes das constituições inatas” (CAMPOS. “Não existe raça, mas racismo”. Escola Brasileira de Psicanálise – EBP, s/d).

Reiterando os resultados obtidos pelos cientistas convocados pela UNESCO, em 1972, nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard, foram realizados testes genéticos e moleculares analisando proteínas no sangue de diferentes populações.

Os resultados não mostraram diferenças significativas do ponto de vista molecular para separar as raças humanas. Estudos subsequentes ajudaram a verificar que a sequência base (as unidades que compõem a informação genética) no DNA humano é 99,9% idêntica, o que esvaziou completamente o argumento de encontrar um parâmetro confiável para definir raças. Esses dados foram importantes para apoiar a igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso (BOVE. “Racismo: como a ciência desmantelou a teoria de que existem diferentes raças humanas”. BBC, 12 de julho de 2020).

É lícito ressalvar a parte final da sentença: “igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso”. Geneticamente, os seres humanos são a espécie mais uniforme do planeta. Como diz Lessa (1996, p. 91), apoiado em Lukács:

domingo, 5 de maio de 2024

Acerca do Grupo racista armado que invadiu casa e agrediu imigrantes no Porto



Os pides e os filhos da pide que agora se acolitam nos partidos de extrema-direita, nunca foram "fofinhos" como alguns os querem apresentar.
Foram sempre violentos psicopatas e boçais energúmenos, torcionários e assassinos.
Os últimos acontecimentos registados no Porto, juntam-se aos assassinatos de Giovani Rodrigues em Bragança, de Ademir Araújo Moreno no Faial, de Gurpreet Singh em Setúbal, de José Carvalho, Alcindo Monteiro e Bruno Candé em Lisboa entre outros, aos raids anti imigração em várias cidades do país, às agressões a jovens estrangeiros durante a visita papal, aos incêndios de habitações com morte em Lisboa, às agressões em Olhão, à lucrativa escravatura aterrorizadora em explorações agrícolas alentejanas, às ameaças de boicote aos eventos e manifestações comemorativas do 8 de Março, do 25 de Abril e do 1º de Maio e às milhares de queixas apresentadas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).
A captura de um manipulador assassino nazi, as agressões bárbaras no Porto por parte de grupo de terroristas fascistas a imigrantes e o desplante com que estes últimos se dirigiram à esquadra da PSP para pedir explicações sobre um dos seus membros que entretanto tinha sido detido, mostram como estes biltres se movimentam, organizam e actuam à vontade até nas barbas das autoridades.
Não é de estranhar este à vontade quando estes criminosos xenófobos se poderão até sentir legitimados por discursos anti-imigração com ares de institucionais como os mais recentes de Ventura ou Passos Coelho.
Estas actuações demonstram ser necessário um maior combate às ideologias de ódio e mais investigação, prevenção e repressão sobre estas organizações, e imperiosa a aplicação de condenações exemplares a estes vis patifes.

Música do BioTerra
Palestra

Referências

1. «O jovem preparava tudo através da internet, na plataforma Discord, onde criou uma espécie de comunidade que instigava outros jovens a matar e ainda à "automutilação grave de jovens, mutilação e morte de animais e difusão de propaganda extremista nazi"» 



segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O movimento contra o feminismo que divide evangélicas

Muitas mulheres que militam contra o feminismo nas redes sociais se definem como cristãs, conservadoras e pró-Jair Bolsonaro

Conforme o feminismo avançava pelo Brasil nas últimas décadas, um grupo de fiéis evangélicas organizou uma reação.
Baseando-se em interpretações bíblicas sobre o papel da mulher no casamento e sobre o aborto, essas mulheres passaram a abraçar um movimento contrário, o antifeminismo, e a difundir suas ideias em igrejas, congressos e redes sociais.

Mas essa contra-ofensiva já vive fissuras dentro do próprio universo cristão, conforme jovens evangélicas passam a contestar essas interpretações da Bíblia e a demonstrar afinidade com algumas bandeiras feministas.

Esse embate é o tema do quarto episódio de Brasil Partido, um podcast da BBC News Brasil, veiculado nesta quarta-feira (12/10) no site da BBC, no canal da emissora no YouTube e em plataformas de áudio como Spotify e Apple Podcasts.

Apresentado pelo repórter João Fellet, o podcast aborda como pessoas de diferentes grupos sociais — como agricultores, executivos do mercado financeiro e brasileiros que se identificam como pardos — se posicionam diante de conflitos políticos atuais.

 


O podcast busca ainda entender como os brasileiros chegaram ao atual grau de divisão na política e se há possibilidade de diálogo entre grupos divergentes.

Cristã, conservadora, pró-Bolsonaro

A ativista antifeminista Ingrid Lobato diz que trecho da Bíblia que trata da submissão das esposas é mal compreendido.

Muitas das brasileiras que militam contra o feminismo nas redes sociais — algumas delas com centenas de milhares de seguidores — costumam se classificar em seus perfis também como cristãs, conservadoras e apoiadoras de Jair Bolsonaro.

Uma delas é a dona de casa Ingrid Lobato, de 28 anos. Ela diz ao podcast Brasil Partido que passou a militar contra o feminismo em 2016, quando houve o impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

"Ali foi levantada muito forte uma narrativa do feminismo que dizia que a presidente estava sendo impichada por ser mulher, quando, na verdade, não, é porque ela era incompetente mesmo", afirma.

Em julho de 2022, Lobato foi uma das palestrantes do 1º Fórum Antifeminista do Rio Grande do Norte, um evento que atraiu 60 mulheres a um hotel da capital potiguar.

Ela se casou aos 18 anos e é mãe de dois meninos. Frequenta igrejas evangélicas desde criança e teve os primeiros contatos com o feminismo quando fazia faculdade de ciências contábeis.

Lobato diz que se opôs ao movimento desde o início por conta da posição de feministas sobre o aborto. Uma das principais bandeiras do feminismo é que mulheres devem ter o direito de abortar.

"Eu não sou a favor do aborto em circunstância alguma, a não ser que você tenha que escolher ali entre a mãe e o bebé", diz Lobato.

Outra questão que fez Lobato se afastar do feminismo é pessoal. Filha de pais separados e criada pelo pai , ela diz se sentir incomodada quando feministas apontam os homens como vilões.

"Eu conheço muitos homens bem casados que dão a vida pelas suas famílias. E meu pai, ele não foi um pai perfeito, mas ele assumiu ali a responsabilidade. Ele enfrentou coisas que a minha mãe, por alguma razão, não fez."

Lobato trata de outra questão crucial que divide feministas e antifeministas: uma passagem bíblica que diz como as mulheres devem se comportar no casamento.

O texto está nas Cartas de Paulo aos Efésios e defende que "as mulheres submetam-se aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher".

Para Lobato, o trecho é "mal compreendido" e não postula que a mulher seja escrava do marido.

"Você está sendo ali submissa em um lar e na sua família para o seu esposo, porque na verdade você está recebendo algo em troca", ela diz.

Para explicar a posição, Lobato cita outro trecho bíblico, segundo o qual o homem deve amar sua esposa assim como Cristo amou a igreja.

"Então você ser submissa a este tipo de homem é um privilégio, não é uma coisa ruim, porque você está com um homem que está ali disposto a dar a vida por você e pela sua família", afirma.

Para Lobato, o antifeminismo é um escudo contra ideias que, na visão dela, buscam fragilizar a família e doutrinar mulheres para que votem em partidos de esquerda.

Segundo ela, mulheres são expostas a essas teorias desde que entram na escola — como a teoria de que ser mulher não é uma questão biológica, mas sim uma construção social.

Lobato diz que conceitos como esse levam mulheres a abrir mão de serem esposas e mães — e que, quando elas deixam de assumir esses papéis, ficam vulneráveis à manipulação política.

"A mulher, hoje ela está sendo recrutada pelo feminismo, inserida em partidos políticos com ideologias de esquerda, para, no final, serem manobrados por esses interesses", afirma.

terça-feira, 9 de março de 2021

Conferência: Marielle Franco - Sister Comrade | Irmã Companheira


The Brazil LAB presents "Sister Comrade", a tribute to the life and work of Marielle Franco, a Brazilian politician and feminist activist assassinated on March 14, 2018. With Dr. Angela Davis, Monica Benício, Anielle Franco, Fernanda Chaves, Renata Souza, and Monica Francisco. 

O Brazil LAB da Universidade de Princeton apresenta "Irmã Companheira", um tributo à vida e ao trabalho de Marielle Franco (vereadora e ativista feminista, brutalmente assassinada em 14 de março de 2018). 

Com: Dr. Angela Davis, Monica Benício, Anielle Franco, Fernanda Chaves, Renata Souza, and Monica Francisco. On March 11, 2021, 5:30 pm ET (19h30 Brasília), the LAB will host an event with the Brazilian philosopher Djamila Ribeiro, in conversation with Lilia M. Schwarcz (Professor of Anthropology at USP and Visiting Professor at Princeton). "Who ordered Marielle's death? Structural racism in Brazil" ("Quem mandou matar Marielle? Racismo estrutural no Brasil") will be live-streamed to the Brazil LAB YouTube Channel

sábado, 13 de junho de 2020

Sobre a violência: a estátua de Vieira e a ignorância

António Carlos Cortez
A respeito da destruição e vandalização de estátuas que representam heróis do passado, quer em diversas cidades dos EUA, quer em outras cidades do mundo, vale a pena partir dum pressuposto teórico e prático que, em rigor, nos ajudará a ver melhor a razão de alguns actos de violência levados a cabo recentemente. A reboque da indignação por mais uma morte dum afro-americano, Floyd, mártir entre mártires, não se contesta e não se pode contestar a raiva (também muitos europeus a sentem, e americanos também) por, no século XXI, ciganos, índios, negros – no fundo, os humilhados de sempre – continuarem a ser ofendidos, assassinados, ostracizados, discriminados.

Todavia, convém não perder de vista que a mundividência e mundivivência do homem branco nesse passado que, a vários títulos, deve ser conhecido para que não se repitam erros reiterados, assentava numa lógica imperialista da Europa dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Uma visão própria da “era dos impérios” e que, no dizer de Hobsbawm, se prolongou com o poder político do complexo industrial-militar no país de Trump. A mesma lógica, no fundo, que o Poder sempre seguiu para manter privilégios de classe e explorar quer recursos naturais de outras nações, quer outros homens dentro da própria nação, sejam eles negros, ciganos, judeus, brancos.

Foi assim desde a rainha Vitória, passando por Cecil Rhodes a Leopoldo II, foi assim desde os tempos de Edward Colston, comerciante de escravos, e desde Colombo, às teses darwinistas do século XIX, sem esquecer o actual paradigma neo-darwinista e geneticista, que tudo pretende explicar a partir dum ultra-cientifismo que esquece que o mundo humano é feito de contradições. Foi a ignorância e o preconceito que moldaram a visão do Poder, sempre empenhado em reduzir a animais de carga (leia-se Cesário) os que não nasceram com brasão ou não fazem parte das elites financeiras, militares, políticas, desde os fascismos ao apartheid, do estalinismo aos regimes de Pol Pot ou de Pinochet. Este mesmo programa de exploração continua hoje com Bolsonaro no Brasil e com Maduro na Venezuela, com Orbán na Hungria e Erdogan na Turquia; continua com os neo-liberais-fascistas que vão tomando conta das empresas e em Portugal continua sob a forma de uma investida tecno-totalitária que visa eliminar a memória. 

Estátua do rei Leopoldo II, uma figura controversa da história da Bélgica, grafitada no parque do Museu de África, em Tervuren, na Bélgica. 

Esta violência tem já consequências. A pretexto deste coronavírus, muitos patrões, e muitos governos, ao serviço de grupos económicos globais, defendem a revolução digital segundo um mesmo princípio imperialista e de dominação financeira. Para que tal aconteça, convém fazer do paradigma científico um instrumento ao serviço da minimização das humanidades. Na minha perspectiva, é precisamente o facto de termos hoje gerações e gerações de crianças e jovens (jovens adultos desempregados, explorados nas relações de trabalho, vivendo nas periferias, americanizados da pior maneira, mimetizando tudo) que não sabem de História e nada aprenderam de Literatura que justifica que tenha sido uma estátua de Vieira a ser vandalizada. Ignoram, talvez, alguns factos da vida do grande sermonista.

Como defendeu Hannah Arendt em On Violence (Sobre a Violência, Relógio d’Água, 2014), na esteira de Lenine, segundo o qual o século XX seria um tempo de guerras e revoluções, é a revolução tecnológica, imparável, que escraviza o homem e o coloca num processo em que a fé irracional na tecnologia o transforma na vítima daquilo mesmo que inventou. A consequência desse homo tecnologicus é ser ele um escravo da ignorância, um cultor do niilismo. É, pois, a ausência da História e da Cultura que leva aos radicalismos. No sentido que lhe dão Leopold Senghor, mas também Thomas Mann ou Herman Broch; Angela Davis ou Spike Lee, e, no mundo português, Agostinho Neto ou o movimento Claridade; no sentido pluralista que muitos intelectuais formados no seio da Seara Nova (Sérgio, por exemplo, ou Cortesão) entenderam ser o dever das democracias, é pela Cultura e pelo saber da História e da Literatura que se pode, hoje, projectar um futuro. Justamente os homens da Seara Nova apontaram como saída para o “caso colonial português” uma educação ancorada numa cultura integradora, em que o propalado lusitanismo ou ecumenismo lusíada nada tinham que ver com a retórica patrioteira de salazares e companhia fascista.
Avaliar este acto perpetrado sobre uma estátua de alguém a quem os índios chamavam Payassu ("Padre Grande”, ou “Grande Pai") deveria merecer por parte dos poderes não um apressado revisionismo histórico (em que Vieira e Salazar valem o mesmo), mas uma aposta decidida nas Humanidades

É dentro dum quadro de convivência de culturas, de fraternidade e combate pelo fim das desigualdades e livre acesso ao saber que a revolta dos negros e dos ciganos, das minorias e de quantos, pobres, são explorados pelo Capital do Empresariado, que se deve pensar e agir. O que explica que a estátua de Vieira tenha sido vandalizada é o não se saber que foi Vieira o mais destacado defensor dos índios do Brasil. Foi Vieira quem denunciou a exploração dos colonos de São Luís do Maranhão. Foi Vieira quem denunciou os que, vivendo do tráfico, não respeitavam a lei régia de D. João IV, à luz da qual o tráfico de índios naquela colónia era proibido. Foi Viera quem, atravessando o Atlântico dezenas de vezes, fez chegar a Roma os abusos dos torcionários da Inquisição. Foi Vieira quem redigiu a lei que defendia e colocava os índios que estivessem sob a alçada das missões jesuítas longe dos arbítrios de colonos sanguinolentos. Vieira foi, ele próprio, vítima de ostracismos vários por ser mestiço. E foi preso e denunciado pelos padres da Inquisição que viam nele um feroz opositor das negociatas esclavagistas a que a Igreja fechava os olhos, mas que ele, como homem de Igreja, combatia.

O célebre Sermão de Santo António aos Peixes é prova provada do amor à humanidade em todas as suas formas. As próprias palavras escritas a vermelho ("Descoloniza") mostram que é a ignorância – e a ausência dum saber sólido que a escola não deu, que a educação, falha de Literatura e de Humanidades, não pode dar aos que nasceram já nos anos 2000 – o motor que, no fundo, aliado à fúria (que é legítima), tudo brutaliza. Avaliar este acto perpetrado sobre uma estátua de alguém a quem os índios chamavam Payassu ("Padre Grande”, ou “Grande Pai") deveria merecer por parte dos poderes não um apressado revisionismo histórico (em que Vieira e Salazar valem o mesmo), mas uma aposta decidida nas Humanidades. Só através duma educação centrada na compreensão da alteridade poderemos vencer esta nova guerra em que os humilhados da História se viram para as elites e lhes apontam – com toda a razão – os seus olhos de fome e de miséria. Guerra, diga-se, que implica gestos simbólicos que não falhem o alvo. Carmona fora do Panteão Nacional, eis o que seria um sinal dum Estado culto.

Poeta, crítico literário e professor

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Angela Davis e Naomi Klein - Construindo movimentos: uma conversa em tempos de pandemia [legendado]


No auge da pandemia do novo coronavírus, duas das maiores pensadoras e ativistas de nosso tempo, Angela Davis e Naomi Klein, se reuniram virtualmente para uma conversa com lideranças de movimentos sociais sobre conjuntura, capitalismo, autoritarismo e desigualdade. 
Organizado pela coligação de movimentos sociais The Rising Majority, o encontro contou com a participação de Thenjiwe McHarris (Blackbird), Cindy Wiesner (Grassroots Global Justice), Maurice Mitchell (Working Families Party) e Loan Tran (Southern Vision Alliance) e foi realizada no dia 6 de abril de 2020.

“A situação do Brasil preocupa, é muito pior que a nossa – sem falar nas semelhanças entre os dois presidentes. Mas acredito que nós, dos EUA, podemos encontrar em países como o Brasil e a África do Sul vozes que almejam sair criativamente desta crise.” (Angela Davis)

“Construído sobre o sacrifício de vidas em nome do lucro, o capitalismo sempre foi assim – do tráfico de escravos no Atlântico até a guerra contra a natureza. Ele enfraqueceu nosso sistema imunológico coletivo, criando as condições para o vírus se espalhar desenfreadamente.” (Naomi Klein)

A covid-19 seria mesmo democrática como muitos afirmam? Nessa conversa, as autoras argumentam que o foco da doença atinge especialmente os mais pobres e vulneráveis, como negros e mulheres, mesmo em países mais ricos, como os Estados Unidos.

A atuação de líderes autoritários que utilizam a pandemia como manobra de garantia de poder também é tema no debate, com destaque para Viktor Orban, Jair Bolsonaro, Benjamin Netanyahu e Donald Trump.