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quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Irlanda é o cão de colo das grandes tecnológicas - e isso compromete a sua presidência da União Europeia

Irlanda assume Presidência do Conselho da UE. Saiba mais aqui
Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

À primeira vista, a Irlanda comporta-se como uma boa europeia, sendo uma firme defensora dos direitos humanos e um farol de progressismo na extremidade ocidental do continente. Mas há uma área vital onde o seu historial está longe de ser perfeito - uma área que deve suscitar preocupação depois de o governo irlandês assumir a presidência rotativa semestral da UE, a 1 de julho. O pacote de regras da UE para a tecnologia e a inteligência artificial será renegociado durante esse mesmo período, mas o Estado e a economia irlandeses foram capturados pelas grandes tecnológicas (big tech). A Irlanda está de tal forma comprometida que, enquanto presidente do Conselho da UE, deveria declarar-se impedida de participar em todas as negociações sobre tecnologia e soberania digital.

A última vez que a Irlanda deteve a presidência da UE foi em 2013, durante as negociações do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Um memorando do Facebook descreve uma reunião de 2013 na qual os executivos da empresa se reuniram com o então primeiro-ministro da Irlanda para se queixarem das regras propostas para a privacidade de dados. Saíram do encontro convictos de que tinham a garantia de Enda Kenny de que a Irlanda usaria a sua “influência significativa” como presidente do Conselho da UE para assegurar o que o Facebook apelidou de um “resultado positivo”. Os executivos também participaram num “jantar organizado por políticos irlandeses de topo para analisar as várias formas através das quais os irlandeses poderiam ser prestáveis”.

Os 27 Estados-membros da UE alternam entre si a liderança da presidência. O país incumbente preside às reuniões e, na prática, controla o ritmo das negociações da legislação europeia. Pode prioritizar certos temas e deixar deslizar outros. Por exemplo, Chipre, um país pequeno e vulnerável numa região volátil, conseguiu utilizar a sua presidência, de janeiro a junho deste ano, para colocar os compromissos de defesa mútua na agenda europeia.

Atraídos por benefícios fiscais e por uma cultura de complacência cordial, gigantes como a Google, Meta, Apple, Microsoft, OpenAI, TikTok e X estabeleceram todos as suas sedes europeias na Irlanda. O princípio do “país de origem” da UE determina que o país que acolhe a sede europeia de uma empresa é o responsável por regulá-la em toda a UE. Esta particularidade jurídica transformou a Comissão de Proteção de Dados (DPC) da Irlanda no principal regulador da Europa para o setor tecnológico: a Irlanda pressionou para que assim fosse enquanto presidente do Conselho, em 2013.

Os efeitos deste arranjo são avassaladores. A presidente da DPC admitiu recentemente que, à exceção de “resoluções amigáveis” sobre questões triviais, a Irlanda não concluiu um único inquérito europeu à Google ou a qualquer uma das suas subsidiárias nos dez anos decorridos desde a promulgação do RGPD. As proteções à escala europeia estão paralisadas porque todos os outros Estados-membros têm de esperar que a Irlanda aja numa resposta conjunta da UE.

Quando a DPC aplicou sanções contra empresas tecnológicas, fê-lo de forma deficiente e sob coação de outros reguladores europeus. Agiu, de facto, com uma celeridade invulgar num caso específico, contra a IA Grok de Elon Musk, mas aceitou depois um acordo que parece ter colapsado. O regulador dos média da Irlanda, Coimisiún na Meán, goza de melhor reputação, mas dispõe de poderes muito mais fracos. Há já uma década que a Irlanda mantém aberta a porta dos fundos da regulação, permitindo que gigantescas empresas norte-americanas e chinesas operem com impunidade por toda a Europa. Tornou-se não apenas um paraíso fiscal, mas um paraíso regulatório.

A dependência económica é gritante. Três empresas norte-americanas foram responsáveis por quase metade das receitas fiscais sobre as sociedades na Irlanda em 2024. Em 2022, a Irlanda arrecadou quase cinco vezes mais impostos sobre as sociedades por habitante do que a França ou a Alemanha. Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

O filme de 2026 “Molly vs. the Machines” conta a história de como os algoritmos das redes sociais empurraram conteúdos suicidas para o feed de Molly Russell, de 14 anos, que pôs fim à própria vida em 2017. Há e haverá mais Mollys por toda a Europa, a menos que a Irlanda comece a aplicar as regras de dados da UE que exigem que os “algoritmos de recomendação” sejam desativados por defeito, dado que se alimentam de dados particularmente íntimos.

A Irlanda pode já nem sequer estar a tentar manter as aparências. A mais recente comissária de proteção de dados do país, Niamh Sweeney, foi anteriormente a principal lobista da Meta na Irlanda durante o escândalo da Cambridge Analytica e o período sombrio marcado pelas revelações da denunciante Frances Haugen. O processo do governo irlandês para recrutar Sweeney foi absurdo: o único especialista em tecnologia no júri de seleção era um advogado das grandes tecnológicas. Os critérios de seleção focaram-se em competências genéricas, como a “gestão de relacionamentos”, em vez de tentar contratar um fiscal capaz de investigar as empresas tecnologicamente mais sofisticadas do mundo. Ninguém verificou, durante o processo de contratação, se a candidata indigitada estava vinculada à notória prática da Meta de proibir ex-funcionários de a criticarem - o que amordaçou de forma tão absoluta a antiga executiva e denunciante da Meta, Sarah Wynn-Williams. A Irlanda dota a DPC de dezenas de milhões de euros para operar, mas lobotomiza-a.

E as portas giratórias continuam a rodar: a anterior comissária de proteção de dados, Helen Dixon, acaba de começar a trabalhar para a sociedade de advogados da Meta. A firma continua a deparar-se com vários casos em aberto da Meta contra a DPC. Sob a liderança de Dixon, a DPC processou outras autoridades de dados europeias no mais alto tribunal da UE, porque estas tinham votado no sentido de obrigar a DPC a investigar a utilização que a Meta faz dos dados mais íntimos dos cidadãos. Embora o caso tenha sido rejeitado, a ação de Dixon concedeu à Meta uma trégua de um ano antes sequer de a investigação ter início.

No livro “Careless People”, de Wynn-Williams, a autora articula a visão que a Meta tem da DPC como um “cão de colo”. Isto espelha de forma inquietante a hesitação e a deferência do regulador financeiro irlandês face aos bancos do país nos anos que antecederam a crise bancária de 2008. No início deste mês, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda publicou na sua página do LinkedIn uma fotografia onde posava com uma lobista da Meta. “Excelente reunião ontem com a Meta para discutir prioridades para a próxima presidência europeia da Irlanda”, dizia a legenda, acompanhada de vários pontos de argumentação do memorando da Meta de 2013 que, em 2026, parecem ter-se tornado política oficial do governo irlandês.

A Irlanda é inclusivamente acusada de “bloquear” a instauração de ações populares contra empresas tecnológicas em nome de crianças, ao proibir o financiamento comercial destas ações, embora permita tal financiamento para arbitragens comerciais. De acordo com a sondagem do Eurobarómetro da UE deste mês, 92% dos europeus querem que a UE garanta uma melhor proteção online para os seus filhos. A Irlanda não irá assegurar essa proteção a menos que outros governos da UE comecem a exigi-la de forma insistente. Durante quanto mais tempo irão os líderes europeus tolerar que a Irlanda venda a saúde mental das crianças dos seus países?

Houve um tempo em que a Europa parecia ser a resposta do mundo contra os piores excessos das grandes tecnológicas. A Irlanda sabotou esse sonho a troco de uma recompensa massiva. Se o país não se afastar espontaneamente de todas as discussões tecnológicas durante a sua presidência de seis meses, então Berlim, Paris, Varsóvia, Madrid e Bruxelas deverão exercer sobre a Irlanda o mesmo tipo de pressão que alguns exerceram após a crise bancária. O que foi injusto na altura seria inteiramente justo desta vez.

Saber mais:

terça-feira, 23 de junho de 2026

Change fatigue: o novo esgotamento que as empresas ainda não querem ver

Durante anos, as empresas convenceram-se de que tinham identificado o grande desafio do mundo do trabalho: fazer as pessoas sentirem que pertencem. Investiram milhões em cultura, engagement, propósito, employee experience, bem-estar e inclusão. E fizeram-no com razão. O sentimento de pertença melhora retenção, colaboração, inovação e desempenho. Mas há um problema: muitas organizações continuam a responder à pergunta certa para o mundo de ontem.

Porque a pergunta dominante dentro das empresas já não é apenas “será que pertenço aqui?”. É outra, bem mais desconfortável:

“Será que tenho futuro aqui?” A inteligência artificial está a transformar funções inteiras. A automação redefine competências. Novas ferramentas surgem a uma velocidade impossível de acompanhar. Equipas são reorganizadas. Modelos de negócio são reinventados. Empresas que eram símbolos de estabilidade anunciam despedimentos. Apesar disso, demasiadas organizações continuam a comunicar a transformação como se fosse uma atualização de software: inevitável, excitante e supostamente autoexplicativa.

Não é. Para milhões de profissionais, a transformação tecnológica não está a ser vivida como uma oportunidade abstrata de inovação. Está a ser vivida como ambiguidade permanente. Não saber que competências serão necessárias daqui a três anos. Não saber como será avaliado o desempenho. Não saber se a função continuará a existir. Não saber se a empresa está realmente a preparar as pessoas para a mudança ou apenas a exigir adaptação infinita.

E a verdade incómoda é esta: a maioria das organizações ainda não sabe liderar pessoas em contextos de transformação contínua.

Os números ajudam a desmontar algum otimismo corporativo. Segundo a Microsoft e o LinkedIn, 76% dos profissionais afirmam precisar de competências em inteligência artificial para permanecerem competitivos. Apenas 39% receberam formação em IA por parte das suas empresas. A Hays encontrou um padrão semelhante: 78% dos profissionais que usam IA no trabalho dizem não ter recebido formação formal, apesar de a maioria já utilizar estas ferramentas regularmente.

Traduzido para linguagem simples: estamos a pedir às pessoas que atravessem uma revolução tecnológica enquanto lhes entregamos um manual incompleto.

Depois surpreendemo-nos com a resistência. Durante demasiado tempo, as empresas interpretaram a resistência à mudança como um problema de mindset, atitude ou falta de adaptabilidade. Mas talvez valha a pena considerar uma hipótese menos confortável: e se aquilo a que chamamos resistência for, em muitos casos, fadiga?

O fenómeno já tem nome: change fatigue. Não estamos a viver uma fase de mudança. Estamos a viver um regime permanente de mudança. E existe uma diferença importante entre mudar ocasionalmente e trabalhar dentro de um ambiente onde nada estabiliza tempo suficiente para ser plenamente aprendido, integrado ou compreendido. A Gartner já alertou para os níveis crescentes de exaustão associados à mudança persistente. Ainda assim, muitas organizações insistem em acumular iniciativas de transformação sem criar condições psicológicas mínimas para que as pessoas as consigam absorver.

Mais tecnologia. Mais reestruturações. Mais processos. Mais urgência. Menos clareza. Menos previsibilidade. Menos capacidade humana para acompanhar o ritmo. É aqui que muitas estratégias de transformação começam a falhar - não na tecnologia, mas na experiência humana da mudança. Porque qualquer transformação altera muito mais do que workflows ou ferramentas.

Muda identidades profissionais. Muda relações de poder. Muda perceções de valor. Muda aquilo que cada pessoa acredita em saber fazer bem. Ignorar esta dimensão tem custos elevados. Não produz agilidade. Produz cinismo. Não acelera inovação. Amplifica desgaste. Não reforça compromisso. Corrói confiança. Talvez por isso a gestão da mudança esteja a deixar de ser uma competência operacional para se tornar numa competência central de liderança. Não basta perguntar: “como implementamos esta tecnologia?” A pergunta decisiva passou a ser outra: “como ajudamos as pessoas a atravessar esta transformação sem perderem confiança, competência ou saúde psicológica?”

E aqui reside um dos maiores equívocos da próxima década. Muitas organizações continuarão a investir fortemente em cultura, engagement e bem-estar sem reconhecer que o contexto psicológico do trabalho mudou profundamente.

A pertença continua a importar. Mas a pertença não substitui a clareza. A cultura não substitui a segurança perante o futuro. E sessões sobre propósito dificilmente resolvem a ansiedade de quem não consegue perceber qual será o seu lugar numa organização transformada pela inteligência artificial.

Talvez seja esta a nova vantagem competitiva que muitos líderes ainda não reconheceram. Não serão necessariamente as empresas com melhor tecnologia, maior orçamento ou maior capacidade de automação a ganhar a próxima década.

Serão as empresas capazes de responder com honestidade a uma pergunta extraordinariamente simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”

Durante anos, acreditámos que o maior desafio das organizações era fazer as pessoas sentirem que pertenciam. Talvez o verdadeiro desafio seja mais exigente.

Conseguir que as pessoas se sintam seguras enquanto tudo à sua volta muda.

Fonte

terça-feira, 9 de junho de 2026

Money and Machismo are Undermining America


Drones have rapidly transformed modern war. The U.S. military, the most sophisticated, best supplied force in history, has been humiliated by Iran, largely thanks to Iran’s effective use of inexpensive drones to menace shipping, energy production, and even U.S. bases. Meanwhile, Ukraine’s growing superiority in drone warfare is increasingly giving it the upper hand over Russia. Remember, not so long ago the American far right celebrated Putin’s macho posturing and his supposed military invincibility.

Given this radical turn of events, shouldn’t the United States be eager to make a drone deal with Ukraine, benefiting from its technology and expertise?

Apparently not. The Hill reports that Donald Trump has been dragging his feet on such a deal, quoting U.S. military analysts who say that they don’t understand the delay and that they are “mystified.” But I assume that they’re being disingenuous and prefer to avoid saying the obvious. In fact, Trump’s unwillingness to make a deal that would clearly benefit America’s national interest is no mystery at all.

I’ll get to the obvious in a moment. First, let me take a slight detour into something that seems unrelated but in fact helps explain drone aversion: this administration’s hostility to renewable energy and its desperate, doomed and wasteful effort to revive the coal industry.

There was a time when “drill, baby, drill” could be portrayed as a realistic, hard-headed position. Does anyone remember the Cheney Energy Task Force? However, in the past few years, radical declines in the cost of solar power, wind power, and batteries — which solve the problem that the sun doesn’t always shine and the wind doesn’t always blow — have made renewables the most cost-effective way to generate electricity. By contrast, coal is completely unviable. Here are the Federal Energy Regulatory Commission’s estimates for utility capacity additions in 2025:



Yet Trump is trying to block renewable energy projects any way he can and has just invoked wartime authority to spend $700 million subsidizing new power plants using “clean, beautiful” coal.

Why? Part of the answer is big money. Fossil fuel interests were huge supporters of Trump in 2024. In fact, the Trump presidency is itself the result of billions of dollars spent by the Koch Brothers and others to corrupt and undermine U.S. political institutions -- the Supreme Court very much included. Anti-renewable, pro-fossil fuel policy is their reward, along with the destruction of the Voting Rights Act and the adoption of Project 2025.

What’s the other part? Clean energy has become a bogeyman in the culture wars: mining and burning coal are considered “manly” activities, while renewable energy is portrayed as woke and effeminate. Real men don’t worry about black lung and airborne particulates, let alone climate change.

So a combination of big money and fragile male egos drives Green Derangement Syndrome. And the same is true for both the Iran debacle and the refusal to learn from the catastrophe by turning to Ukraine.

Why was the United States so unprepared for the Iranian drone threat, despite the obvious successes of Ukrainian drones against Russia? Well, as investigative reporters delve into the story, I would urge them to follow the money.

America has a huge, highly profitable defense industry, dedicated to a suite of technologies that are rapidly being rendered obsolete, as $4 million Patriot missiles, that take years to build, are being used to shoot down $35,000 Shahed drones that can be manufactured in months.

So it wouldn’t be surprising if defense-industry interests are playing a significant role in the Trump administration’s refusal to admit that the rules of war have changed — the same way that fossil fuel companies have campaigned against the new realities of energy technology. After all, a deal with drone-savvy Ukrainians would mean less money going to US defense contractors.

While this is speculative, we do know that recognition of the drone revolution in warfare by Trump and his inner circle would require that they abandon their fantasy of macho military power. Pete Hegseth has been purging the military of capable officers — especially Blacks and women — he considers insufficiently loyal to Donald Trump. Beyond loyalty tests, however, he has exalted the importance of “warrior ethos” and physical fitness, as if he were leading the 300 Spartans rather than a high-tech military in an age of drones and electronic warfare.

It’s true that Hegseth, perhaps chastened by his abject failure in Iran — why does he still have a job? — recently admitted that the U.S. has learned from Ukraine. But an admission that his entire conception of war was wrongheaded will be a step too far for him.

Likewise, Trump himself is in love with big, expensive weapons as symbols of virility and power. He’s still pushing for giant “Trump-class” battleships, even though they would be sitting ducks in a modern war. Just ask the Ukrainians, who have used missiles and naval drones to force Russia’s once-vaunted Black Sea Fleet to cower in a fortified refuge. But Trump doesn’t want to give up his fantasies.

And he’s especially unwilling to learn from Ukraine. After all, he cut off aid to Ukraine in a hissy fit over Zelenskyy’s well-deserved reputation for heroism, only to he humiliated by Ukraine’s refusal to lose its war. Admitting that he needs Ukrainian help would be a further humiliation.

As I said earlier, there is no mystery about why Trump refuses to make a drone deal with Ukraine. Never mind the national interest. In military strategy as in energy policy, Trump is betraying America in the service of money and machismo.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento

sábado, 11 de outubro de 2025

Raquel Varela silenciada pela estação pública RTP


Como é público, a nova Direção de Informação da RTP decidiu não continuar a contar comigo nos programas de debate semanal. Quero, ao final destes 11 anos, deixar aqui algumas notas que serão, espero, sinceras e delicadas.

Quero agradecer a quem me convidou, a quem esteve na organização e na produção, dos jornalistas aos técnicos de som, imagem, produção, realização, maquilhagem, cabeleireiro, um trabalho imenso e essencial. Fui acarinhada por tantos.

Quero agradecer aos amigos, colegas, com quem discuti semanalmente os temas, e a muitas outras dezenas de pessoas a quem, consoante os assuntos, telefonei, com quem me reuni para aprofundar saberes que nenhum indivíduo sozinho domina.

Vivi anos em países “nórdicos” onde a sinceridade não é vista como má educação. São países mais adultos e com uma esfera pública mais desenvolvida. Em Portugal, o desacordo frontal é mal visto (a não ser nos programas sobre futebol) e rapidamente se passa de debater ideias a acusar e insultar pessoas. Em suma, as pessoas fogem ao debate porque acham que assim evitam conflitos ou porque assim fomos habituados à força por décadas de ditadura. Mas o que acontece é que a violência verbal, a desconfiança, a coscuvilhice se instalam nessa ausência de debatermos frontalmente as divergências.

A minha saída do comentário semanal da RTP não se deve certamente a audiências, já que em todos os programas onde estive elas subiram. Há, porém, muitos programas sem grandes audiências que são excelentes, outros com grandes audiências que são uma desgraça para o nível geral de educação do país (desqualificam-no e embrutecem-no). Saio por uma escolha política – todas as escolhas são políticas, e devemos falar abertamente delas.

Há um quadro de mudança política no país. Está no poder um Governo da AD, com o apoio da IL, com influência crescente do partido fascista Chega. Há uma situação mundial de degradação do modo de vida e do debate de ideias. O Presidente dos EUA comunica por tweets e memes, e disse querer transformar Gaza num resort. Por cá, o presidente do Chega lidera uma organização racista que usa a mentira como arma política de eleição, e a internet está cheia de perfis falsos que reproduzem a propaganda do Chega. A União Europeia corta o orçamento para a saúde, para a educação, para a agricultura para produzir drones carros e aviões de combate, munições para matar, amputar e dizimar o género humano, a primeira pátria a que pertenço.

Pautei-me todos estes anos por uma defesa intransigente da liberdade de expressão. Mesmo contra um centro-esquerda que considero sem ânimo, moralista e descafeinado. Aquilo a que hoje se assiste é, porém, de enorme gravidade. Tenho vinte anos de carreira como historiadora e professora. Se afirmo que o Chega é fascista não é para produzir efeito mediático. Sou cuidadosa com os conceitos. Estamos a viver a legitimação do irracionalismo, do culto do Estado, da punição, da violência verbal (e física) contra os percebidos como mais fracos e da mentira como “opinião”. Que o Estado tenha legalizado isto é uma coisa, que eu como historiadora o aceitasse seria uma rutura ética com o meu trabalho.

A minha saída de comentadora da RTP fragiliza ainda mais a esfera pública. Não por mim, pois ninguém é insubstituível. Mas porque as vozes como a minha não representam mais uma “opinião”. Reflectem um modo de pensar a sociedade em que vivemos, com demonstração de argumentos e critério de verdade – errando, também -, que discorda abertamente dos grandes mantras da opinião publicada: a inevitabilidade do capitalismo, e da guerra, a naturalização do sofrimento e assédio contra quem trabalha. Defendi a Democracia sem adjetivos, que só pode ser de base, participativa, e a auto-organização dos cidadãos, plenos no uso da Razão, independente do Estado.

A voz pública é uma necessidade. Deve ser séria e diversa. É-o cada vez menos. E é isso que tem levado, também, à quebra de audiências – a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos, da mesma falta de imaginação ou de vontade para repensar a sociedade. O que produzimos? Para quem produzimos? Como produzimos? Estas questões, que são centrais para a humanidade, quase nunca são feitas, fagocitadas por uma comunicação ligeira e ideologicamente homogénea.

Estive, por vezes sozinha como comentadora, ao lado das primeiras greves dos estivadores, da greve cirúrgica dos enfermeiros, da paralisação dos camionistas e da greve dos trabalhadores da AutoEuropa contra o trabalho ao domingo, todos alvo de campanhas mediáticas que pareciam verdades indiscutíveis na altura e mentiras descaradas dias depois. E estive, com poucos mais comentadores, ao lado das greves dos professores, médicos, maquinistas, transportes em geral, sustentando o que para mim é óbvio – se há alguém capaz de parar esta deriva para a guerra e para a morte são os trabalhadores organizados.

Nos últimos anos, nunca saí de casa sem que viessem ter comigo pessoas para falar, agradecer, apoiar, conversar. Recebi carinho e afeto, abraços, nos cafés, nos aviões, nas filas de serviços apinhados, nas escolas, entre as empregadas de limpeza de jardins e trabalhadores da ferrovia, motoristas e professores, enfermeiros e médicos. Tudo isso me ajudou a conhecer um país decente, que existe, embora muitas vezes sem voz. Muito obrigado a todas e a cada uma dessas pessoas. Ajudaram-me muito a crescer e a ter força para continuar.

Há um Portugal sentado e outro de pé. O de pé é quem vive do trabalho, e que todos os dias assegura a produção e a reprodução da nossa vida. É nesse país, dos que trabalham, que me revejo e ao qual procurei dar voz. Se fui um pouco voz desse Portugal ignorado, valeu a pena.

Continuarei a fazer ouvir a minha voz e ideias, a defender os trabalhadores e os seus direitos, a dar aulas públicas e conferências, cursos, documentários, livros, a lutar por um outro país assente no bem comum, na igualdade real, na democracia do povo e na liberdade.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Qual pode ser o caminho?


Por Luísa Ferreira Nunes
O crescente afastamento dos seres humanos em relação à natureza não representa um avanço civilizacional, mas antes uma forma de regressão ecológica e cognitiva. Perdemos a consciência de que somos parte integrante dos sistemas naturais, e que estes incorporam mecanismos adaptativos e inteligência evolutiva desenvolvidos ao longo de milhões de anos.
Ao negligenciar esta interdependência, desenvolvemos uma ilusão de autonomia tecnológica e cultural que nos levou a subestimar os limites biofísicos do planeta. Esta ignorância ecológica tem custos elevados: colapso dos ecossistemas, erosão da biodiversidade, disfunções metabólicas colectivas (como o aumento da ansiedade, da alienação social e da perda de propósito) e uma crescente sensação de vazio existencial.
Do ponto de vista ecológico, o colapso de um sistema ocorre quando a pressão externa ou interna ultrapassa a sua capacidade de resiliência. Neste ponto crítico, a adaptação incremental deixa de ser viável, e ocorre uma falência sistémica, obrigando a uma reorganização estrutural. Este fenómeno é bem documentado na ecologia de sistemas e segue padrões identificáveis, como os observados actualmente nas sociedades humanas: conflitos armados, polarização ideológica, crises humanitárias e colapsos climáticos.
A natureza demonstra que a regeneração só é possível após a desagregação da estrutura anterior. E o novo sistema que emerge não é uma réplica do anterior, é um sistema reorganizado, frequentemente mais simples ou adaptado a novas condições. A ideia de “nunca mais” não é um juízo moral, mas uma inevitabilidade biológica: quando um sistema se torna insustentável, o retorno ao estado anterior não é possível.
A transição para formas mais sustentáveis de organização exige reconhecer este princípio e reestabelecer o vínculo cognitivo e funcional com os sistemas naturais. A verdadeira evolução cultural e ecológica começa quando compreendemos, de forma plena, de onde vimos, e para onde não podemos voltar.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Capicua - Há um revanchismo discursivo em relação à Esquerda que ganhou volume com os resultados eleitorais


"Há um revanchismo discursivo em relação à Esquerda que ganhou volume com os resultados eleitorais. A Direita sente que está com as costas quentes e que pode achincalhar os perdedores. Não falta quem venha reforçar o mito propagado pela extrema-direita de que temos vivido numa espécie de regime socialista nos últimos cinquenta anos e é hora de celebrar a libertação. Como se o PS tivesse governado até à semana passada e como se essa governação fosse realmente socialista. Esse discurso delirante vem acompanhado da vontade de mudar a Constituição e de eliminar o preâmbulo que lhes “legitima” o delírio.

Nas caixas de comentários vemos de tudo, desde culpar a Esquerda pela lei das rendas de Assunção Cristas, até chamarem a Pedro Nuno Santos perigoso radical, repetindo o que se diz (a ver se passa como verdade) nos espaços de comentário televisivo. Nestes círculos o desequilíbrio para a Direita é evidente (como aliás já provou um estudo do ISCTE), mas até o “Expresso” (cujo proprietário é o “perigoso esquerdista” Pinto Balsemão) é criticado nas redes sociais por fazer campanha contra Montenegro e André Ventura.

Na noite eleitoral, vimos José Miguel Júdice e Miguel Morgado a chamar radicais ao BE e ao PCP, ignorando o seu mais que evidente radicalismo próprio (um que foi fundador do MDLP, organização terrorista de extrema-direita e o outro que é um ultraliberal, mais passista que o Passos), totalmente legitimados pelo ar dos tempos e alinhados pelo diapasão dos média portugueses.

É nas pequenas coisas que se nota que o meridiano cultural e político está totalmente enviesado à Direita nos média portugueses e que os jornalistas estão totalmente imbuídos do discurso neoliberal e de demonização da Esquerda. Quando se debate a questão da habitação, isso é muito evidente, já que muitas medidas de regulação do alojamento local ou da escalada das rendas, adotadas em países insuspeitos de serem socialistas, são rapidamente consideradas medidas de extrema-esquerda.

O viés vem em cândidas e espontâneas perguntas, como a do jornalista que perguntava a Mariana Mortágua o que seria das pessoas que tinham investido em AL, se esse mercado fosse mais regulado, ignorando o impacto que proteger o interesse dessa minoria tem tido na esmagadora maioria das pessoas que estão privadas do direito constitucional à habitação em cidades como Lisboa ou Porto (em que metade do mercado de arrendamento disponível é apenas para o turismo).

Mas enfim, o revanchismo celebra que tenhamos perdido deputados competentes como Marisa Matias, António Filipe ou Joana Mortágua (a única que consegue competir com a extrema-direita, junto aos jovens nas redes sociais), para eleger deputados do Chega que celebram a morte de Odair Moniz ou que têm mais cadastro que currículo."

domingo, 4 de maio de 2025

Usar os imigrantes como carne para canhão para uma campanha eleitoral, isso é que não.

"Imigração.
Cumprir as leis do país, claro que sim.
Usar os imigrantes como carne para canhão para uma campanha eleitoral, isso é que não.
Sou filho de emigrantes, eu próprio fui um emigrante, sei bem as dificuldades que levam as pessoas a emigrar, sei bem os sacrifícios que os emigrantes passam para singrar nos países de acolhimento.
É por isso que me é insuportável que o governo esteja a explorar os anúncios sobre a imigração como mero expediente de campanha eleitoral. É indigno de um país de emigração. É indigno de um país que precisa dos imigrantes. É indigno de um Estado de direito, onde a aplicação da lei não pode estar sujeita aos interesses particulares e conjunturais de uma força política no governo.
Viver na legalidade, defender a legalidade, claro que sim.
Manipular a aplicação da lei para obter votos, envergonha qualquer pessoa decente. O que o governo está a fazer envergonha." - Porfírio Silva

sábado, 26 de abril de 2025

O Dia da Terra e o compromisso pelo futuro


Há 55 anos nasceu um movimento global em defesa do nosso planeta. Milhões de pessoas uniram-se numa manifestação coletiva por uma agenda ambiental forte, centrada na proteção do ar, da água e dos solos. Liderada pelo senador e ativista norte-americano Gaylord Nelson, esta mobilização histórica deu origem ao Dia da Terra - um marco que ultrapassou fronteiras, culturas e ideologias, consolidando-se como a maior expressão planetária de consciência ecológica e ação transformadora.

Desde 1970, o mundo progrediu. As leis ambientais foram reforçadas, criaram-se agências reguladoras, baniram-se substâncias tóxicas e a educação ambiental ganhou visibilidade e força. Mas o espírito de urgência que impulsionou o primeiro Dia da Terra não só permanece como se tornou mais vital do que nunca. Hoje, enfrentamos uma ameaça sem precedentes, que põe em risco tudo o que conquistámos e desafia a humanidade a agir com coragem e solidariedade: a crise climática.

A data de 22 de abril, oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas, alerta para desafios como a poluição, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade. Mas a realidade exige mais do que sensibilização. As emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar; as florestas, outrora santuários de vida, sucumbem ao avanço de interesses predatórios; os oceanos aquecem; os ecossistemas colapsam e a perda de biodiversidade atinge níveis alarmantes. E é gritante a injustiça quando os mais afetados por esta crise são justamente os que menos contribuíram para a causar.

Neste contexto, não há justiça climática sem justiça social. As cidades precisam de se adaptar, investindo em soluções baseadas na natureza, infraestruturas verdes e modelos de governança mais resilientes e participativos. A forma como produzimos, consumimos e nos organizamos, deve ser repensada com base em princípios circulares, regenerativos e sustentáveis.

Mas há uma outra crise, mais silenciosa e igualmente perigosa: a erosão da confiança. A descrença nas instituições, o imobilismo político e o sentimento generalizado de impotência corroem a nossa capacidade de ação coletiva. Talvez seja este o maior risco do nosso tempo: deixarmos de acreditar uns nos outros e na força transformadora da ação conjunta.

O legado do Dia da Terra continua a ser profundamente relevante. Ele recorda-nos que a mudança é possível. Que ela já aconteceu antes, quando multidões se uniram em nome da vida, da dignidade e da justiça ambiental. E que pode voltar a acontecer. Para isso, precisamos de ciência, tecnologia e inovação, mas também de uma esperança ativa; aquela que se traduz em escolhas conscientes, coragem política e compromisso cívico.

Como afirmou recentemente Denis Hayes, organizador do primeiro Dia da Terra: a crise climática é, simultaneamente, o maior desafio e a maior oportunidade da nossa geração. Concordo plenamente. É tempo de transformar o medo em responsabilidade, e a desesperança em projeto. O Dia da Terra não é apenas uma data no calendário; é um importante apelo à mobilização planetária.

Celebrar o 22 de abril é mais do que um gesto simbólico: é um ato ético, político e profundamente necessário. É uma renovação. Um pacto. Uma declaração de pertença. É afirmar que ainda acreditamos. Que ainda lutamos. Que ainda sonhamos. Porque a Terra - esta casa comum, bela e frágil - justifica todo o nosso empenho.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Smartphones na escola: entre o vício e a inteligência



Por José Afonso Baptista
Durante décadas, a escola foi vista como um espaço protegido — lugar de concentração, convivência e construção de conhecimento. Hoje, esse refúgio está ameaçado por um pequeno objeto que habita discretamente os bolsos dos alunos: o smartphone.
O documentário britânico Swiped: The School That Banned Smartphones retrata uma realidade inquietante: jovens que recebem milhares de notificações diárias, dormem mal, sentem ansiedade, isolam-se e perdem o foco. Quando afastados dos aparelhos por três semanas, melhoram o sono, comunicam mais e sentem-se emocionalmente mais estáveis. A escola transforma-se. E os alunos também.
Esta transformação evoca as grandes epidemias da história, da peste negra à toxicodependência. A dependência digital é a nova peste: invisível, socialmente aceite, mas profundamente desequilibrante. Como em La Peste, de Camus, há quem negue, relativize ou se conforme. Mas há também quem enfrente, não com o interdito, mas com inteligência.
A interdição total, agora proposta em vários países, é tentadora. Mas proibir não é educar. Impedir o uso de uma ferramenta não ensina a usá-la bem. A escola deve, sim, estabelecer regras, mas por via do diálogo, da negociação e da criação de contextos de uso responsável. Proibir é mais fácil do que educar — mas também é mais pobre.
Primeiro argumento: se proíbo, não ensino. A escola deve formar para o uso crítico e consciente da tecnologia, ensinar a resistir à dispersão e a valorizar o silêncio e a atenção.
Segundo: eliminar os telemóveis é afastar um recurso poderoso. São biblioteca, caderno, lupa, gravador e muito mais. Integrados de forma criativa e pedagógica, enriquecem a aprendizagem.
Terceiro: a proibição nega autonomia ao aluno. Educar é ajudar a escolher, não a fugir das escolhas. Literacia digital inclui saber usar, regular e avaliar criticamente os meios tecnológicos.
Quarto: proibir alimenta a desconfiança. Uma escola que regula tudo por decreto diz, sem dizer: “não confiamos em vós”. A boa educação exige confiança - nos alunos, nos professores e nas famílias.
A solução não está na fuga, mas na formação. Ambientes regulados, com momentos definidos para o uso e para a pausa, são essenciais. Projetos colaborativos, trabalho por problemas, uso de plataformas digitais para monitorizar a participação e promover a autonomia, tudo isto é mais eficaz do que o interdito.
O smartphone não é apenas um aparelho: é a porta de entrada para o mundo digital e o corpo que acolhe a alma da inteligência artificial. Retirá-lo sem mais é como ter uma fonte de água pura e não poder matar a sede. A escola do futuro não se faz contra a tecnologia, mas com ela, de forma crítica, ética e criativa. É esse o desafio. E é esse o nosso dever.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

O voo anti-feminista


Opinião de um grande amigo meu Nuno Gomes
"Se fosse eu a dizê-lo seria machista. Ainda bem que é uma mulher a afirmar que este voo feminino no pirilau voador de Jeff Bezos, que foi promovido pela sua mulher e que inclui Katy Perry, a tal que beijou o chão quando chegou e está a ser gozada por toda a gente, é um voo machista. 
O que diz a jornalista é que este episódio mostra o quanto o machismo está enraizado nestas mulheres. Lauren Sánchez não foi ao espaço porque é astronauta ou cientista mas sim porque tem o privilégio de ser companheira do dono da Amazon. Uma dona de casa, portanto, uma doméstica, como o nosso antigo regime cunhava nos BI's das nossas mães que não tinham emprego reconhecido apesar de cuidarem de toda a família, embora o chefe de família fosse o marido. Mas essas eram obrigadas, já estas, quando lhes convém, são propositadamente machistas. 
E o que estas mulheres foram fazer ao espaço? Defender a sua igualdade com os homens ricos? Lutar pelos direitos das mulheres oprimidas no Afeganistão? Fazer experiências científicas? Não, nada disso, apenas tirar umas selfies e mostrar como ficam jeitosas de fato azul no pirilau do Jeff. A jornalista tem razão, o que elas fizeram foi pôr uma pedra grande sobre o feminismo e assumir a sua leviandade, porque o dinheiro tudo desculpa. Ou um pirilau espacial, melhor dizendo!"

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O suficiente para uma vida digna


Quase todos os dias assistimos ao drama associado à migração de pessoas em busca de melhores condições de vida. Bem perto de nós, sucedem-se os naufrágios no Mediterrâneo, e apesar de interpelados pela tragédia e pelo desespero de homens, mulheres e crianças, não conseguimos pôr termo a tanto sofrimento e consensualizar uma solução. Por outro lado, numa contradição em que a humanidade parece ser pródiga, nunca a economia mundial gerou tanta riqueza, mas a sua distribuição não é uniforme e a desigualdade continua a prosperar. De acordo com a informação publicada por organismos internacionais dedicados, cerca de metade da riqueza mundial está na posse de cerca de 1.1% dos mais ricos, enquanto os 55% mais pobres do mundo – mais de 4 mil milhões de pessoas – detêm apenas 1,3% da riqueza global. Esta disparidade não seria tão chocante se aqueles que ficam com uma pequena parte tivessem o suficiente para viver uma vida digna. Infelizmente, sabemos que não é assim; cerca de 10% da população mundial vive em condições de extrema pobreza. 

À pobreza e carência de recursos que esta condição significa, acrescenta-se a falta de poder e influência. Invariavelmente e à escala universal, as taxas de pobreza são mais elevadas entre os jovens ou idosos, não brancos, mulheres, e aqueles que têm níveis mais baixos de educação. Por outro lado, muita riqueza garante a influência sobre a maioria das decisões, o que se traduz numa situação em que, por exemplo, os principais partidos políticos de um país são financiados pelos mais ricos e pelas empresas que existem para gerar lucros para distribuir por indivíduos maioritariamente ricos. 

É neste contexto de profunda desigualdade económica e social, que o mundo enfrenta agora uma crise planetária, destacando-se o impacto das alterações climáticas, da desflorestação, da perda de biodiversidade ou da escassez de água doce. A crise social agrava a crise planetária. Quando analisamos a problemática das alterações climáticas, verificamos que 10% das economias mais ricas emitem cerca de 50% das emissões de gases com efeito de estufa, enquanto os 50% mais pobres geram apenas 7% das emissões. Ou seja, os países mais afetados pelas alterações climáticas são os que menos fizeram para as causar. Importa ter consciência que as alterações climáticas estão já a matar pessoas, desde logo, pelo impacto na saúde e pela perda da produtividade agrícola e menor acesso a bens alimentares. 

É tempo de afrontar um sistema económico absurdo e injusto, baseado no crescimento medido em Produto Interno Bruto (PIB). Quando nos concentramos no PIB, omitimos o essencial: a construção de uma economia que funciona para as pessoas e para o planeta. Como Robert F. Kennedy muito bem expressou em 1968, o PIB “mede tudo (...) exceto o que faz a vida valer a pena”. 

Continuar a fazer crescer a economia através de uma insana delapidação de recursos, esperando que a riqueza verta para os cidadãos mais pobres, não alivia a pobreza e convida ao colapso ambiental. Se estamos a transgredir as fronteiras planetárias agora, como pode o planeta sustentar uma economia que será quatro vezes maior em menos de 5 décadas? Precisamos de uma economia capaz de dar resposta às pessoas e respeitar os limites do planeta, reduzindo a pegada material. Precisamos de abandonar o PIB como a principal medida de prosperidade e começar a medir as coisas que importam, construindo um mundo sem pobreza e sem indústrias nocivas para o planeta e para as pessoas. Para resolver a crise planetária, temos que priorizar as pessoas e criar uma sociedade mais igual e mais justa, e não permitir que o excesso de riqueza resulte num poder absurdo e desproporcionado. 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Mentor das cidades esponja critica o plano municipal de Lisboa


Kongjian Yu quer transformar as cidades em esponjas contra cheias e secas. Cidades devem absorver e libertar água para enfrentar alterações climáticas, defende arquiteto paisagista. Planos de drenagem como o de Lisboa vão falhar a longo prazo, diz. 

Quando a pergunta é sobre o plano de drenagem de Lisboa, que implica um investimento de 250 milhões de euros e, entre outros pontos, a abertura de dois grandes túneis, o arquiteto paisagista ri-se abertamente. “Esse é o modelo business as usual. Não vai resolver o problema”, diz. Além do gigante esforço financeiro, as grandes infra-estruturas — sejam túneis, diques ou outras soluções — são construídas em betão, material que tem um determinado tempo útil até que o desgaste provoque os seus danos. Depois disso, precisa de manutenção, o que implica novo e generoso investimento. Acresce que os episódios de cheia são cada vez mais extremos e, mesmo que os sistemas estejam dimensionados para volumes que consideramos hoje históricos, é uma questão de tempo até que estes sejam superados.

“Do ponto de vista económico, não é sustentável. É absurdo. A longo prazo, é estúpido pensar que a tecnologia vai resolver o problema”, entende. Reter a água na sua “esponja” significa que se pode fazer uso dela durante o outro extremo, nos períodos de seca, ajudando também a arrefecer a cidade em ondas de calor. “Se tiveres água, tens tudo. Se te livrares da água, terás problemas durante os períodos de seca. É uma oportunidade perdida”, nota. Público 10jun2024

Saber mais:

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Europa: Reinvenção ou subjugação

«Leituras para compreender a Europa em perigo» é o titulo de um artigo na Babelia, o suplemento cultural do El País (nenhum jornal português tem um suplemento cultural) — e começa com uma declaração do escritor Jean-Baptiste Andre, vencedor do último prémio Goncourt (em Portugal nenhum escritor, premiado ou não, é ouvido sobre o mundo que o cerca e que é matéria de reflexão nos seus romances) — diz o escritor: Estamos à beira de um regresso da extrema direita. Não deveria surpreendermos neste tempo que a História tende a repetir-se . A pergunta é, portanto, a de sabermos se é possível detê-la ou não.

A cerimónia dos 80 anos do desembarque na Normandia diz-nos que já estamos no reino da extrema-direita. Quer o nazismo quer o fascismo são interpretações do mundo que justificam o poder de um dado grupo. Assentam sempre numa interpretação da História, isto é, na reescrita da História de um povo ou de um grupo para o tornar virtuoso e com direito a impor a sua virtude a todos os outros. A extrema-direita assume-se senhora dos Valores, do Bem, da Verdade, da Superioridade. As Cruzadas, a Colonização, o Colonialismo são a materialização dessa mistificação que tem origem no conceito de Povo Eleito. O discurso do presidente americano Joe Biden, em 2024, em França, repete o discurso de Ronald Reagen há quarenta anos a 6 de Julho de 1984: A América a terra da Liberdade, da defesa da Liberdade contra a tirania. O direito da América intervir em qualquer parte e contra quem quer que seja para impor a Liberdade. A afirmação de que a América é a herdeira da Terra Prometida, que o modo de vida americano é a suprema aspiração dos povos. O Fim da História. Os Superiores têm o direito de impor os seus valores!

O novo machartismo
A “mensagem” da América como paraíso final justifica todas as intervenções. Mesmo que os “pastores” da religião americana levantem muralhas contra os que ali querem entrar. Quem não acreditar na “mensagem” é herege e está fora da ordem, da Igreja, do Povo Eleito. O sociedade da exclusão e do totalitarismo, que é a dos Estados Unidos, teve o seu ponto alto com a doutrina do Macarthismo — a prática de acusar alguém de subversão ou de traição. Um termo originalmente cunhado para descrever a campanha anticomunista promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, nos anos 50. O macarthismo serviu para acusar milhares de americanos de serem comunistas ou simpatizantes, que foram objetos de agressivas investigações e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas baseados em evidências inconclusivas e questionáveis. Muitos perderam os empregos e/ou tiveram as carreiras destruídas; alguns foram presos.

O machartismo teve a cumplicidade ativa de muitos fazedores de opinião, artistas e jornalistas — incluindo Reagan, um denunciante que chegou a Presidente! — que promoveram a histeria da verdade única e denunciaram aqueles que não seguiam os mandamentos, que não se incorporavam no rebanho. (Hoje basta abrir as Tvs e ver os macthartistas militantes).

Quarenta anos passados estamos de regresso ao machartismo. A Normandia foi um festival de radicalismo: nós e eles. O perigo está do lado de lá. Denunciemos e ataquemos. Não pensemos. Principalmente: não pensem, Não pensem que a Liberdade que o Ocidente — a Terra do Bem — defende é a Liberdade que só no século passado, em nome da Liberdade, manteve a segregação racial mesmo nos exércitos: nos Estados Unidos havia unidades brancas e negras e se as negras sofreram muito mais baixas, ainda assim foram impedidas de desfilar no dia da vitória em Paris, assim como as tropas africanas ao serviço da França, que ocuparam o sul, e que também não desfilaram. O racismo em nome da Liberdade. Os negros eram inferiores. Nos Estados Unidos as leis de segregação racial mantiveram-se até aos anos 60. Também em nome da Liberdade. E, em nome da Liberdade, os Estados Unidos apoiaram as ditaduras sul-americanas, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Republica Dominicana, na Nicarágua, no Uruguai, no Chile, isto até aos anos 80. E também em nome da Liberdade dos povos e da democracia, os Estados Unidos e a Inglaterra derrubaram um presidente eleito na Pérsia e substituíram-no por um títere seu vassalo, o Xá Rheza Phalevi, e invadiram o Iraque e o Afeganistão e destruíram a Sérvia.

São estes conceitos de Liberdade e Democracia que fizeram de Zelensky a figura principal das celebrações do Dia D de 2024! O exemplo a seguir de marioneta que tem conseguido encobrir os neonazis verdadeiros executores da política da Ucrânia e da guerra em nome da Liberdade americana.

A Democracia e a Liberdade de Salazar para os americanos
A opção dos Estados Unidos por “democratas convenientes e talhados à medida”, de que Pinochet será o exemplo mais evidente, é antiga e tem sido continuada. Nós, os portugueses, quando ouvimos falar na defesa da Liberdade e Democracia devíamos ter alguém que nos recordasse a História. Após o final da Segunda Guerra, em 1947 ocorreu em Portugal a mais séria tentativa de implantação de uma democracia europeia com o golpe que ficou conhecido pela «Abrilada de 47», conduzida pelo general Marques Godinho e pelo doutor João Soares. O golpe abortou, o general acabou por morrer na prisão, porque os ingleses preferiram manter Salazar no poder do que correr o risco de, num futuro governo democrático puderem fazer parte comunistas, ou aparentados, mesmo que eleitos. E a defesa da liberdade e da democracia em Portugal, por parte dos ingleses e dos americanos também foi uma bela falácia com a entrada de Portugal como membro fundador da NATO ( a Aliança do Mundo Livre), apenas porque os Açores eram bases importantes para os democratas.

Os 80 anos do desembarque da Normandia mostraram a face mais hipócrita e radical dos que se assumem pastores universais e aspergem os povos com juras de Liberdade, como qualquer demagogo atiram confétis e rebuçados às crianças miseráveis. Sobre a Liberdade da Palestina é que nem uma palavra. Israel é um campeão desta Liberdade que foi aviltada na Normandia. A extrema direita estava lá. A questão não é detê-la, mas extirpá-la.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Ideia peregrina- bisontes europeus em Portugal


Texto de Luís Vicente, Biólogo

Esta vai ser longa porque me tirou do sério.
Por definição, uma ideia peregrina é uma solução ou proposta muito estranha ou desadequada.
Tento traduzir para inglês e o melhor que consigo é “a peculiar form of madness”.
Acho que serve!
Pode haver ideias peregrinas inofensivas (pelo menos para a comunidade) e que só afectam o idiota. Confesso que pensei que “idiota” poderia ser uma pessoa com ideias. Contudo, consultados os dicionários, concluo que o termo se aplica apenas a quem denota estupidez. Pronto. Em inglês poderia ser “jerk” ou “asshole”.
E até existem os Prémios Darwin para essas pessoas.
Para quem não sabe, os Prémios Darwin sãoatribuídos àqueles que cometem erros tão estúpidos que levam à incapacidade de legar aos seus descendentes as suas características, dessa forma contribuindo para melhorar o pool genético da humanidade e para a diminuição da estupidez.
Uma ideia peregrina inofensiva para a humanidade é, por exemplo, um tipo atirar-se do Cabo Girão acreditando que consegue voar. Só o afecta a ele e talvez entristeça os que lhe são mais próximos.
Eu também já tive ideias peregrinas. Recordo-me de, ainda no liceu, tomar anfetaminas para um exame. Era um exame escrito, de História. Creio que nunca escrevi tanto na vida e... chumbei... os disparates foram mais do que muitos.
Mas há as ideias peregrinas perigosas e que nos põem a todos em perigo.
As ideias peregrinas perigosas geram confusões e calafrios. Vêm de gente que, afirmando-se cientistas, desconhecem as diferenças entre ciência básica, ciência aplicada, técnica e indústria.
Não submetem as suas especulações a qualquer prova, são dogmáticos, negam a crítica, utilizam argumentos “ad hominem” e “ad verecundiam” em vez de argumentos honestos. É, por exemplo, afirmar que a sua teoria (pobre teoria), se baseia no “estudo de uma universidade!” Poderíamos dizer que vendem “gato por lebre”!
E os incautos caiem na esparrela.
Mas atenção, as ideias peregrinas podem ser muito perigosas quando, com argumentos pseudocientíficos, são postas em prática. O estalinismo e o nazismo foram pródigos nestas coisas.
Confunde-se ciência com pseudociência… e no fim actuam com base em nada.
Recordo-me, há uns anos, do extermínio de ratos e coelhos na Berlenga... com base em nada.
Agora tornam-se moda as introduções, ou reintroduções.
A notícia fantástica, segundo o DN (e passo a citar): “A primeira manada de bisontes europeus, constituída por oito animais, foi instalada em Portugal, numa herdade em Castelo Branco, anunciou hoje a organização responsável pela operação. De acordo com a Rewilding Portugal, a presença dos animais vai estimular a biodiversidade e apoiar o crescimento do turismo de natureza”.
Fiquei boquiaberto... com base em quê?
Uma reintrodução? Não! Não há registos fósseis de bisonte europeu (Bison bonasus) no nosso território. O que terá ocorrido por aqui terá sido o bisonte-da-estepe (Bison priscus), provavelmente um antepassado do Bison bonascus. Há uma imagem lindíssima nas paredes de Altamira.
Mas terão os promotores do projecto reflectido sobre a extinção aqui do bisonte-da-estepe após o pleniglaciar de Würm? Talvez valesse a pena.
E introduz-se assim à Lagardère?
[A expressão “à Lagardère” é utilizada quando alguém faz algo com atrevimento, mas sem medir bem as consequências. Esta expressão refere-se a Lagardère, herói da obra de Paul Féval intitulada Le Bossu (O Corcunda) e publicada em França em 1858.]
Na mesma lógica do Rewilding Portugal (nome da entidade responsável pela ideia peregrina) poderíamos pensar noutras introduções ou reintroduções com vista ao turismo ou a uma pseudo-conservação da Natureza.
No Plistocénico havia por aqui Mamutes (Mammuthus primigenius) os quais, como os elefantes actuais pertencem à família Elephantidae incluída nos proboscídeos. Cá por mim proponho o Elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis), talvez nas zonas de olival intensivo do Baixo Alentejo. Que turístico seria ir vê-los a chafurdar nas margens do Alqueva. Como já houve hienas por aqui, como a Hiena-das-cavernas (Crocuta crocuta spelaea), porque não, no meio dos rebanhos da Serra da Estrela introduzir Hiena-malhada (Crocuta crocuta)? A diferença é apenas subespecífica (interrogo-me sobre se os promotores do Rewilding Portugal serão capazes de me explicar, à luz do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, o que é uma sub-espécie).
E obviamente há mais. Para a Mata da Margaraça mandava Rinocerontes. Há registos fósseis do género Dicerorhinus na nossa península. Talvez aquela malta do sul da Ásia queira negociar connosco a venda de alguns Rinocerontes-de-Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis). Que giro seria levar os turistas à Fraga da Pena para se deliciarem com os rinocerontes.
E tantos mais. Também há registos fósseis de leões e leopardos por aqui. Porque não? E crocodilos no Douro? Os fósseis também existem.
Mas falemos mais a sério. Será que as gentes do Rewilding Portugal sabem alguma coisa sobre evolução ou sobre ecologia? Sabem o que é um ecossistema? Sabem o que são zonas adaptativas? Terão algumas noções sobre nicho ecológico? Não me parece, mas talvez não lhes fizesse mal estudar.
De acordo com a Rewilding Portugal, a presença dos animais vai estimular a biodiversidade e apoiar o crescimento do turismo de natureza.
Saberão o que é biodiversidade? Saberão medi-la? Saberão que grande parte da nossa biodiversidade depende dos extratos herbáceo e arbustivo. Micromamíferos, aves, anfíbios, répteis, insectos, muitos polinizadores?
Saberão que os riscos de incêndio resultam, maioritariamente, de desordenamento do território e de péssimas políticas florestais, em particular na região mediterrânica onde os fogos são recorrentes?
Dizem eles: “Como grandes herbívoros, os animais diminuirão o risco de incêndios catastróficos, ao reduzirem a vegetação inflamável e criando corta-fogos naturais, enquanto abrem áreas florestais, o que permite a entrada de mais luz e o crescimento de erva em vez de mato”. Só uma perguntinha de biólogo, o que é “mato”?
Chegam a dizer que os bisontes são sequestradores de carbono e emissores de metano... fantástico. Afinal sempre vamos cumprir as metas da descarbonização! Isso é bom?
Bom, perdi a paciência. Já descarreguei.
Poderia escrever tanto aqui que todos perderiam a paciência de ler o meu texto.
Vivam as ideias peregrinas!!!
E fica uma pergunta: quem lucra com elas?

sexta-feira, 31 de maio de 2024

31 de Maio é Dia Mundial dos Irmãos e assinala também a Visitação da Virgem a Santa Isabel


Texto de Vitor Serrão
Por isso recorro a Jacopo Pontormo e ao maravilhoso painel que pintou há cinco séculos na igreja de San Michele de Carmignano. É um dos quadros mais belos que admirei na vida: o desenho serpentino das figuras, o calor dos tons, as poses sem-tempo, a expressão das quatros mulheres, envolvem-nos numa espécie de eterno elóquio.

O tema é o abraço fraterno, a plena partilha. Pintado em 1526-1528, este é o melhor atestado de que existem obras de arte (sagradas ou profanas) que se fazem interlocutoras de fascínios perenes. Têm esse poder de dar rosto a todos os anseios: inquietam, abraçam, revelam, incendeiam sonhos, amores, utopias. Para além das injustiças, desmemórias e barbáries, a nossa senda de humanos ainda não está perdida sem remissão.

Tudo é efémero no que respeita às migalhas de uma vida, mas é certo que só a arte ilumina, e liberta. A 'noção de incerteza' de Pontormo, expressa nas páginas do seu diário 'Il Libro Mio' reflecte a consciência do que existe para além do humano entendimento - e nessa (in)definição me encontro, também, com os nossos poetas Camões e Jerónimo Corte-Real, nascidos nos anos em que o florentino atingia o auge da fama.

O Pontormo inventou aqui uma Sacra Conversazione composta em losango, aos modos da gravura 'Quattro streghe' de Durer (1497), mas com peso na deliberada deformação das poses, com alongamento de corpos e uso de um colorismo quase psicadélico.

A lição solidária destas quatro Graças supera a cobiça, a cegueira, o preconceito, no seu apelo às luzes. Essa verdade cristalina ajusta-se à mágica transparência de formas e cores de um quadro como este. Sim, a Amizade e o Amor são bens preciosos, precisos, e raros: guardemo-los como nosso tesouro.

Sobre o Dia Internacional dos Irmãos
O Dia dos Irmãos comemora-se em Portugal a 31 de maio.

O principal objetivo da data é relembrar a importância que os irmãos têm na formação pessoal de todos os indivíduos, celebrando e homenageando os irmãos. Irmãos fazem parte da história pessoal de quem os têm, em grande parte das vezes partilham memórias de infância e são os primeiros amigos.

Além disso, podemos ter como irmãos tanto os que são filhos dos nossos pais, como aqueles que conhecemos ao longo da vida e são mais que amigos.

O Dia dos Irmãos, a 31 de maio, é a celebração que encerra aquele que é considerado o Mês da Família.

A celebração, que acontece em Portugal nesta data desde 2014 e é iniciativa da European Large Families Confederation, tem como principal promotora  a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas.

Mensagens para feliz dia do irmão
"O dia do irmão é uma oportunidade para expressar o amor que sinto por você. Agradeço por te ter como companheiro e por poder dividir os melhores anos da minha vida contigo."

"Feliz dia dos irmãos para você que alegra minha vida e faz dos meus dias os melhores de sempre. Te amo muito!"

"Por vezes podemos brigar e até ficar sem falar, mas saibas que meu amor por ti vai além de qualquer divergência. Feliz dia, minha querida irmã!"

"Eu tenho o melhor irmão do mundo! Que neste dia te sintas amado e saibas o quanto te quero ver bem e feliz."