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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Paulo Borges: odiar é tomar veneno todos os dias, na esperança de que o outro morra


"Tenho assistido ao crescimento de uma crise que é interior... e de estado mental e emocional. Estudos recentes mostram um crescimento considerável de doenças do foro mental, com um forte destaque para a depressão. O nosso País é o quinto da Europa que tem mais problemas desse tipo e isto traduz um fracasso da civilização, que é construída por todos nós, com o objectivo de nos tornar mais felizes, com mais bem-estar, mais segurança e mais conforto, e isso parece estar a falhar. Isso traduz-se também num mal-estar interior e não apenas mal-estar social e político. Muitas vezes, não se dá a devida importância a isto. Todavia, é a partir desse mal-estar interior que vem tudo o resto. Construímos uma civilização que nos pesa e que não corresponde aos objectivos para os quais a criámos. Isto traduz-se numa outra forma evidente de mal-estar interior que é a falta de sentido prático e de propósito. Não pretendo generalizar, mas há uma tendência preocupante nas gerações mais jovens de "não saber muito bem o que se está a fazer no mundo". Na semana passada, no jornal Público, saiu um estudo que refere que cerca de um terço dos jovens portugueses não gosta e não se sente bem na escola. Sentem-se cansados e exaustos, não apreciam o que estão lá a fazer. Este é mais um sinal de fracasso da civilização. Creio que, em muitos países da Europa e, provavelmente, do Mundo, a escola está a falhar na sua missão de dar às novas gerações um sentido para a vida. É uma questão que, infelizmente, se irá agravar, embora isto não queira dizer que não existam forças e movimentos em sentido contrário. Há cada vez mais pessoas a procurar um sentido profundo para a vida e creio que há um crescimento no interesse pela espiritualidade, que não tem a ver com uma religião em particular, mas que é uma busca por um sentido espiritual. Uma procura de maior atenção para o que se passa dentro de nós. A Universidade Católica Portuguesa fez um estudo na área da grande Lisboa que mostrou que a população que se assume como católica está a baixar em número e outras religiões estão a ganhar força, mas o que está a crescer mais, já na ordem dos 13,1%, é o número de pessoas que se sentem crentes, mas sem uma religião específica. Têm uma referência ou procuram um sentido espiritual para a vida, mas não se reconhecem em nenhuma das religiões tradicionais.
(...)
Além disto, nos tempos que se aproximam, parece-me inevitável que iremos passar por mais dificuldades em termos ambientais. Alguns Governos começam a dar sinais de, finalmente, terem tomado alguma consciência do estado desastroso em que estamos nesse capítulo e fala-se agora, na União Europeia da proibição iminente dos plásticos descartáveis. Há, desde há alguns anos, e Portugal tem sido pioneiro, um maior interesse pelas energias renováveis, mas tudo isto, dizem os relatórios científicos isentos, é muito pouco para se travar a corrida para o iminente colapso ambiental, sobretudo quando, nas cimeiras, não se chega a conclusões e medidas drásticas que são necessárias para parar este comboio descontrolado. Tudo leva a crer que as alterações climáticas continuarão a acontecer e que continuaremos a destruir a biodiversidade, as florestas e a poluir os solos e os rios. Esta civilização Ocidental, que surgiu a partir da Modernidade e das várias Revoluções Industriais e que, agora, se tornou global, é produtivista e industrialista. Há, entre nós, o mito do crescimento económico infinito e ilimitado, custe o que custar.
(...)
Claro que, pela positiva, há cada vez mais consciência de tudo isto. A comunicação social também começa a dar mais expressão às vozes que denunciam esta situação, há uma proliferação na sociedade de pessoas que procuram alternativas ao sistema. Há um grande investimento em eco-aldeias e em formas de vida mais sustentáveis, até no nosso País, onde as aldeias do interior estão a ser repovoadas por estrangeiros que procuram um País com uma natureza preservada. Isto é bom, mas não me parece suficiente para deter o processo global de devastação da natureza. O ser humano tem a ilusão de que existe separado do Mundo, de que não fazemos parte da natureza e que podemos fazer o que nos apetecer dele.
(...)
As pessoas têm dificuldade em reconhecer que a origem daquilo que consomem, o modo como consomem e vivem tem um impacto enorme sobre o planeta. Não procuramos consumir no comércio justo. Consumimos produtos feitos do outro lado do planeta, por mulheres e crianças que vivem em regime de semi-escravatura, consumimos artigos que, para chegarem até nós, exigem longos transportes aéreos, com enormes emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, consumimos produtos de origem animal que contribuem para a desflorestação de grandes florestas como a Amazónia. Somos responsáveis por tudo isto! Quando, no futuro, começarmos a sentir a situação na pele, a tendência da mente humana irresponsável e pouco madura será para culpar alguém.
(...)
O caminho tem de ser o da pacificação da mente e da meditação. Felizmente, há sinais de que há cada vez mais pessoas a interessar-se por terem uma mente mais calma, independentemente de serem ou não budistas. Como já foi apelidada, a meditação é a grande revolução silenciosa do século XXI. As neurociências constatam que uma prática regular de meditação, de 15 ou 20 minutos, por dia, ajuda a acalmar e a tornar a mente mais clara e o cérebro mais activo. Também torna o sistema imunitário mais forte e pacifica-nos emocionalmente. A partir daí, teremos uma forma mais clara de tomar decisões, mais serena e capacidade de sentir uma conexão positiva com os outros - amizade, amor, entre outras."

- Paulo Borges, excerto da entrevista de Jacinto Silva Duro, Jornal de Leiria, 27 de Dezembro de 2018.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Documentário: A Um Passo da Loucura


O Punk-Rock, frequentemente apontado como filho bastardo ou nota de rodapé do género musical Pop-Rock, nasceu de um intercâmbio (sub)cultural e informal estabelecido em finais da década de 70 do século XX por personagens sobejamente conhecidos que se movimentaram nos espaços de metrópoles como Londres, Nova Iorque, Brisbane ou Manchester.

Assim que o puto ranhoso Punk foi parido, foram muitos, incluindo alguns dos seus principais atores, os que se apressaram a declarar a sua morte. Só que este "morto-vivo sónico" rapidamente se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Portugal não foi exceção, assim que explodiu lá fora na "estranja" - os seus fragmentos, qual satélite desgovernado fora de órbita, aterraram por cá. E passados mais de 30 anos teimam em não desaparecer.

O documentário da Antena 3, intitulado "A Um Passo da Loucura", explora as origens e o impacto da primeira vaga do punk em Portugal no final dos anos 70. O vídeo conta com os testemunhos de figuras centrais do movimento, com grande destaque para o lendário radialista António Sérgio, conhecido pela sua influência no programa Som da Frente e pela edição de discos fundamentais, e Paulo Gonzo, que muito antes da sua carreira na música pop foi o carismático vocalista dos Aqui d'el-Rock, a banda pioneira do punk rock português fundada em 1977. Juntam-se a eles membros de outras bandas históricas do circuito nacional, como Os Faíscas, os Minas & Armadilhas e os Raios e Coriscos.

Neste debate, os intervenientes recordam como o movimento nasceu num Portugal pós-25 de Abril, marcado por uma enorme ressaca política e sede de liberdade, mas onde o país ainda se encontrava culturalmente muito isolado. Eles discutem as dificuldades em obter informação na altura, relembrando como os primeiros discos de bandas como Sex Pistols e Ramones chegavam a conta-gotas, muitas vezes trazidos em viagens de amigos a Londres ou Paris, e como a rádio foi o motor crucial para espalhar essa nova sonoridade. Aborda-se também o choque visual e geracional que o punk provocou na sociedade conservadora da época, com relatos divertidos e nostálgicos sobre a reação dos pais e dos vizinhos às roupas rasgadas, aos alfinetes e aos cabelos curtos.

Um dos pontos mais debatidos é a filosofia do "faça você mesmo". Os músicos enfatizam que, no início, quase ninguém sabia tocar ou cantar, e que o verdadeiro foco era a descarga elétrica, a energia pura e a urgência de comunicar, relegando a técnica musical para segundo plano. Relembram os primeiros concertos caóticos em locais improvisados, como o Liceu Camões, onde o público não sabia bem o que esperar e onde a violência física e a destruição de material faziam parte da performance. Por fim, o painel reflete sobre a curta duração desta primeira vaga, explicando como muitas bandas rapidamente desapareceram ou transitaram para a New Wave e para o Rock em Portugal no início dos anos 80, transformando o espírito destrutivo inicial numa abordagem musical mais sofisticada e integrada na indústria.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Carnaval - Entre o riso e o sagrado


Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!