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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ainda antes de a mina abrir, a injustiça já chegou ao Barroso, mostra estudo europeu

O projeto da mina de lítio em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, transformou a região num dos maiores palcos de conflito social e ambiental em Portugal. Promovido pela empresa Savannah Resources, o projeto insere-se na estratégia da União Europeia para garantir a autossuficiência em matérias-primas críticas essenciais à transição energética e à produção de veículos elétricos. Contudo, a intenção de implantar uma exploração de mineração a céu aberto numa região classificada pela FAO, desde 2018, como Património Agrícola Mundial gerou uma forte onda de contestação por parte das populações locais, de associações de defesa do território e de investigadores académicos.

A análise deste caso pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra trouxe para o debate o conceito de justiça prospetiva ambiental, que descreve como os impactos negativos de um grande empreendimento começam muito antes do início da exploração física do solo. Desde a fase de anúncio, consultas públicas e processos de licenciamento, o território passa a viver num estado prolongado de incerteza e ansiedade. Este período prévio afeta diretamente a economia local, paralisando investimentos na agricultura e no turismo rural, e provoca fraturas no tecido social, dividindo a comunidade entre a expetativa de compensações económicas e o receio da destruição do seu modo de vida.

O impasse no Barroso expõe o dilema central da transição ecológica europeia: a contradição entre a urgência global de descarbonização e os custos locais dessa mesma transformação. Enquanto os promotores sustentam que o projeto cumpre os requisitos ambientais e impulsionará a economia regional, as populações e movimentos de contestação denunciam a assimetria de poder nos processos decisórios e rejeitam que territórios rurais protegidos sejam convertidos em zonas de sacrifício para responder a metas industriais externas.

Texto completo: Público

terça-feira, 2 de junho de 2026

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


sábado, 4 de maio de 2024

A intifada que Israel tem de encarar. E o Velho Mundo também


Alexandra Lucas Coelho
"1. Eu ia começar este texto pela Califórnia. Só que ontem à noite o meu amigo W. escreveu a dizer que tinha conseguido sair de Gaza. Meio morto mas incrivelmente vivo, ao fim de sete meses de um horror sem precedentes no nosso tempo. Contarei adiante o que ele quiser contar, a partir do Egipto. Para já, vai dormir, ser tratado e reencontrar a filha mais nova, que conheci pequenina há 19 anos e agora terá o pai na sua festa de casamento. 
2. Quando W. estava prestes a atravessar o Sinai, no longo êxodo de Gaza, muitos milhares de estudantes, ainda mais novos do que essa filha dele, estavam acampados em mais de cem campus por toda a América, num apoio também sem precedentes à Palestina, contra a participação dos EUA na guerra e para exigir às universidades o fim dos apoios a Israel. Um dos maiores acampamentos era o da UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). E de repente, na terça-feira à noite, véspera de feriado, jovens a 12.200 quilómetros de Gaza, com vidas mais ou menos confortáveis, estavam ali numa barricada, a serem atacados por uma milícia pró-Israel com bastões, ferros, foguetes, objectos pesados, gás-pimenta. Não era um confronto entre duas facções. Foi um raide bélico contra um acampamento pacífico. Dezenas de estudantes ficaram feridos. Há inúmeros vídeos com os atacantes a destruir e espancar. Dois dias antes, provocadores já tinham desafiado o acampamento, muitos falando hebraico. Havia bandeiras israelitas. 
Na terça, os atacantes foram mascarados, mas não há dúvida de que eram pró-Israel. “Em 33 anos na UCLA, nunca vi nada tão aterrorizador”, escreveu David N. Myers, “Distinguished Professor” de história e cultura judaica, no Forward, jornal com mais de cem anos, feito por judeus americanos. Um “falhanço total da universidade, da cidade de L.A. e do estado da Califórnia”, porque os atacantes agiram “com impunidade durante três horas”, apesar de a UCLA ter a sua própria força policial e de a polícia de L.A. estar algures no campus. Havia sinais de perigo desde domingo e nada foi feito para evitar a escalada. Então, além de “condenar a violência chocante”, a universidade tem de “investigar como os manifestantes antiguerra foram deixados sem defesa durante horas”, aponta Myers. Mas não só: “Tornar claro que exprimir oposição à guerra em Gaza é legítimo, que anti-semitismo e islamofobia não têm lugar no campus, e que a retórica irresponsável sobre o perigo que representariam manifestantes pacíficos contribuiu para horror”. Com a força de ser quem é, Myers desafia ainda os líderes da comunidade judaica a denunciarem atacantes que agem em nome de uma suposta protecção dos estudantes judeus. Quando há incontáveis judeus em protesto nos campus, e eles mesmos foram alvos do ataque de 30 de Abril. No dia seguinte, a UCLA ainda viveu a brutalidade do desmantelamento policial dos acampados. Com balas de borracha: sim. Com 200 estudantes detidos. Ao todo, vamos em mais de dois mil detidos desde que a repressão policial na Universidade de Colúmbia acendeu o levante por todo o país. Toda a América do Norte, já, porque nos últimos dias sucederam-se acampamentos no Canadá, e também na Universidade Autónoma do México, que tem memórias vívidas de repressão. Como Colúmbia e outras universidades têm. Gaza é o novo Vietname nos campus da América, desta vez em directo. Esta geração vê o horror nos seus telefones há sete meses, e viu agora o que a polícia fez a estudantes. E professores. 
Eu vi filósofas de cabelo branco serem atiradas ao chão, imobilizadas à bruta, levadas polícia, na universidade de Emory. Não só milhares de estudantes foram feridos, detidos, como suspensos, impedidos de assistir às aulas, ameaçados de expulsão, ou banidos, mesmo. E, ainda assim, estão determinados a não parar. A, por exemplo, mostrar um cartaz com a palavra genocídio na cara de responsáveis de Harvard. Sim, têm coisas a perder, e já pagaram um preço, físico e académico. É o próprio futuro da universidade que está em risco longo ensaio de Louis Menand há dias na New Yorker). Chamar a polícia para reprimir estudantes no campus é uma linha vermelha. Ser presidente numa universidade e marioneta de um tribunal público é incompatível. Tenho amigos em várias universidades americanas. 
Um deles, João José Reis, dos mais importantes historiadores brasileiros, está há meses numa visita a Princeton (depois de temporadas noutros campus, desde há décadas). “Essa é a guerra da vez, e é uma guerra também americana, pelo nível de engajamento dos EUA”, escreveu-me, quando perguntei se gostaria de dizer algo. “Já tínhamos lido e visto o jornalismo daqui adoptar essa atitude entre autocondescendente e covarde, mas ver acontecer nas universidades é chocante, por se apresentarem ao mundo como o paraíso da liberdade e do pensamento crítico. A máscara caiu. Prevalece o poder dos doadores pró-Israel, apesar de muitas universidades terem dinheiro por anos e séculos. Então vale tudo, vale ter seus alunos ameaçados de expulsão e também seus professores, apesar de empregos teoricamente estáveis. Vale as universidades se calarem e até aplaudirem a violência e a prisão.” Enquanto isso, duas universidades tão prestigiadas como a Rutgers e a Brown mostraram como era possível dialogar com os estudantes, e os acampamentos serem desmontados pacificamente. Na Rutgers, os estudantes conseguiram, entre outras vitórias, bolsas para jovens de Gaza. Oito em dez pontos aceites, num clima de alegria. E a universidade aceitou debater os restantes, incluindo o desinvestimento em Israel. Contraste total entre as imagens ali e a militarização em Colúmbia ou na UCLA. Ou seja, havia boas alternativas a chamar a polícia. Outro amigo, Pedro Schacht Pereira, está como visitante em Yale, e em contacto permanente com a Ohio State University, onde éprofessor Æxo, tem um filho estudante e a polícia também actuou. Aí, raparigas foram forçadas a tirar o hijab. Professores e pais questionaram a universidade. Entretanto em Yale, um provocador de megafone, com um discurso de ódio contra os palestinianos, insultava os manifestantes. Pedro não testemunhou qualquer resposta anti-semita, ao contrário, uma organização empenhada em impedir que isso acontecesse. Eu vi centenas de imagens e relatos de várias universidades. E vi também um provocador pró-israelita de megafone, desta vez na Califórnia, que dizia: “Tirem os vossos hijabs e arranjem um emprego! Vocês são gordas, feias e falidas.” Islamofobia desbragada. Como dizer “Voltem para a Polónia” é anti-semitismo, e li no Haaretz que isso aconteceu num campus. Também li, e foi amplamente noticiado na imprensa americana, que a universidade de Colúmbia baniu um estudante do campus porque ele tinha dito “os sionistas não merecem viver”. Quando dei uma primeira olhada nas notícias, pensei que ele tinha dito aquilo agora no campus. Lendo mais, ficávamos a saber que era um post no Instagram. Feito em Janeiro. De que ele se retractara. Mas no retrato geral que me chegava de Israel era como se os campus da América estivessem a gritar ao megafone que os sionistas não mereciam viver. A palavra campus passara a estar atrelada à palavraanti-semitismo. É a forma favorita e Israel não pensar no seu próprio problema. Estava resolvido: o que se passava nos campus da América era anti-semitismo. Mas esta intifada também é contra isso: a exploração do anti-semitismo. O que está a acontecer nos campus da América não é pequeno, e não é anti-semitismo. Embora haja anti-semitas por toda a parte, como há racistas por toda a parte, nenhum mais importante que outro, todos criminosos. E todos para levar a sério. O anti-semitismo mata, como os judeus sabem. Incluindo os que estão nos campusda América agora a lutar pela vida. O futuro dos judeus não está no governo de Israel. Está na mão deles." (este texto continua amanhã)

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Dia Mundial da Jardinagem Nua 2024


Dia Mundial da Jardinagem a Nu 2024 (World Naked Gardening Day) decorre no primeiro sábado de Maio e incentiva as pessoas de todo o mundo a fazerem jardinagem sem roupas em locais, sejam em espaços públicos ou privados, apropriados para a prática naturista.

Assim, se és adepto da jardinagem, aproveita este dia e celebra praticando a nu as tuas tarefas.

Segundo o programa Today da NBC, o Dia Mundial da Jardinagem Nua (WNGD, na sigla em inglês) "tornou-se uma tradição anual que celebra a jardinagem, a plantação de flores e a poda de sebes em trajes de banho. Embora esteja ligado a um movimento de nudistas que promovem a aceitação saudável e despudorada do corpo humano, o dia pretende ser divertido, descontraído e apolítico, dizem os fundadores."

Os organizadores afirmam que "além de ser libertador, a jardinagem nua só perde para a natação como atividade que as pessoas estão mais dispostas a considerar fazer nuas".

Para além da positividade corporal, Corky Stanton, da Clothes Free International, uma organização que promove o lazer nu, afirmou que o evento oferece os "benefícios adicionais do lazer nu e sem pudor: a satisfação de fazer exercício ao ar livre; a beleza de um bronzeado uniforme; mais vitamina D em todo o corpo; a experiência incomparável de nadar nu se o evento naturista envolver uma praia ou um lago."

domingo, 30 de outubro de 2022

A charada do acordo de Minsk


Tratado de Minsk
O acordo foi assinado pelo embaixador russo, mas não há qualquer referência à Rússia como uma parte do acordo, o que tem levado Moscovo a declarar que é um mediador e que não tem responsabilidade pela sua execução. Outro dado essencial, o acordo não refere uma única vez a soberania da Ucrânia. Saiba mais sobre os Acordos de Minsk aqui

Transparência

Following the invasion of Ukraine, there has been global outrage at Russia’s blatant disregard for international law, human rights, and the principle of state sovereignty.

In an attempt to deter Putin from escalating military action in Ukraine, the EU and its allies have come together to decide on sanctions that directly target Russian oligarchs, freezing their assets – often the fruit of corruption and money laundering – and impeding them from conducting financial transactions in the European Union, the UK, and the United States.

Ukraine meanwhile has, in the past few years, made significant progress in the fight against corruption, being the second country in the world to open its beneficial ownership register, also establishing an open company register, and an open contracting system ProZorro that has become a model globally.

The people of Ukraine are now fighting to ensure that this democratic progress is not reversed. In the words of EU Commission President Ursula von der Leyen, this is a clash between democracies and autocracies.

Liberdade de Expressão

Human Rights Watch (HRW) Monday published a catalog of citizen actions that have triggered criminal charges and administrative penalties in Russia since the start of the war in Ukraine.

Russia has repeatedly cracked down on free speech rights; in the first few weeks following the start of the war in Ukraine, Russian authorities arrested over 5,000 anti-war protesters. The arrests were piled on top of newly passed censorship laws, which criminalize public dissemination of “deliberately misleading information” and “discrediting the use of Russian Federation Armed Forces.”

Free speech activists, in conjunction with HRW, have tracked the progression of Russia’s efforts to suppress speech in response to the war in Ukraine. As a result of Russia’s new censorship laws, authorities have launched at least 70 criminal cases. The censorship laws have also prompted hundreds of administrative cases.

In the midst of this crackdown, HRW compiled a list of examples of “legitimate, peaceful speech or actions” that have resulted in charges or penalties. The examples detail charges brought against Russian individuals including the date, location, name of the individual, penalty, and circumstances surrounding the charges.

Among the examples are wearing a blue and yellow, replacing price tags in supermarkets with anti-war leaflets, commenting on the war on social media, criticizing the war in private, displaying the word “self-censorship” in public, displaying the phrases “no war” or “for peace” in public, displaying a blank poster in public, public speeches regarding the war, and taking down “Z” pro-war banners.

Meio ambiente da Ucrânia é outra vítima da guerra; danos poderão ser sentidos por décadas

As florestas de pinheiros ao redor de Irpin, na Ucrânia, são o lugar feliz de Oleh Bondarenko. Ele as descobriu quando ainda era criança, quando sua mãe o mandou um acampamento de verão na área, e ele tem voltado para visitar o local desde então.

“É um lugar cheio de memórias. Vorzel, Irpin, Bucha, as florestas, o ar fresco. Para mim, este é um lugar de descanso”, contou à CNN o cientista ambiental de 64 anos durante uma viagem recente a Irpin.

O caminho de uma hora de distância de Kiev – uma viagem que ele fez muitas vezes ao longo das décadas – foi cheio de angústia para Bondarenko, que se preocupava com o que encontraria em Irpin. “Esta é a primeira vez que volto desde que nossos irmãos ‘visitaram’ Irpin”, disse ele, referindo-se às tropas russas.

Esta área esteve sob controle russo por várias semanas em março; tornou-se posteriormente conhecida em todo o mundo como o local de algumas das piores atrocidades cometidas pela Rússia nesta guerra. Pelo menos 1.200 corpos de civis foram descobertos na região desde que as tropas russas se retiraram de lá, segundo a polícia da região de Kiev. Pelo menos 290 deles foram encontrados em Irpin, segundo o prefeito da cidade.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Áustria prepara-se (e prepara a população) para risco de apagão


“A questão não é se haverá um grande apagão, mas quando”, disse a ministra da Defesa. Além de uma campanha com conselhos sobre o que fazer para se estar prevenido, o país vai fazer investimentos adicionais em áreas como o contraterrorismo e defesa cibernética. Cem quartéis deverão ser autossuficientes em matéria de abastecimento de água, comida e energia até 2021


A Áustria está preocupada com a possibilidade de um ‘apagão’ num futuro próximo e, por isso, empenhada em preparar-se para essa eventualidade. Por um lado, as autoridades lançaram uma campanha para o público, ensinando o que fazer para fazer frente a uma falha de energia por tempo indeterminado; por outro, a ministra da Defesa, Klaudia Tanner, anunciou uma série de investimentos, com vista, nomeadamente, à “ecologização” militar.

Tanner já o tinha dito em abril: “A questão não é se haverá um grande apagão, mas quando”, um risco que considera subestimado. Foi agora mais longe, ao criticar a União Europeia (UE), sublinhando ser uma ilusão que os Estados-nação ainda tenham a capacidade de enfrentar ameaças como esta por conta própria.

“Uma falácia fatal”, frisou, para acrescentar que essa falta de capacidade não é válida apenas para a Áustria, mas para todos os países da UE.
“Quero dizer com toda a clareza: a UE tem que parar de falar apenas sobre Política Comum de Segurança e Defesa e começar a entregar essa segurança à sua população”, afirmou Klaudia Tanner.

O país está a dar passos nesse sentido. No início de outubro foi lançada a campanha informativa, divulgada nos media e em ‘outdoors’, para explicar “o que fazer quando tudo parar”. Os conselhos são muito práticos: ter reservas de água e comida para vários dias, combustível, fogão portátil a gás, algum dinheiro, velas, pilhas e outros artigos essenciais à mão. A referência dada pelo Exército austríaco é preparar um armazenamento como se estivesse em causa uma estadia de duas semanas num acampamento.

Num cenário sem semáforos, computadores, caixas multibanco, internet ou telemóveis, também é recomendado antecipar um esquema de colaboração com familiares e vizinhos, forma de garantir que, em caso de necessidade, ninguém fica sem assistência.

QUARTÉIS AUTOSSUFICIENTES

Quanto à preparação do país, a ministra da Defesa anunciou investimentos adicionais em contraterrorismo, defesa cibernética e controle de acidentes, com a Áustria a planear investir até 800 milhões de euros na chamada “ecologização” do sector de defesa.

A meta está traçada. A partir de 2025, cem dos principais quartéis austríacos serão o mais autossuficientes possível em termos de produção de energia e abastecimento de alimentos, água potável e combustível.
De acordo com o que explicou um tenente-coronel à agência Efe, a partir daí, em caso de apagão, o passo seguinte é apoiar bombeiros e médicos, seja com energia elétrica ou ajuda em termos de coordenação. As Forças Armadas já ensaiaram cenários de catástrofe.

Para o ministro do Interior, Karl Nehammer, um apagão é “uma das maiores ameaças para um Estado moderno”, e pode ter várias origens. A acontecer, as suas potenciais consequências não se ficam pelos problemas de abastecimento, podendo gerar ondas de saques e instabilidade social que coloquem em perigo as infraestruturas mais sensíveis, outra área a exigir a intervenção das forças de ordem.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Documentário - Les nouveaux pauvres, ou le règne de la précarité


“O trabalho já não protege contra a pobreza”. Num relatório, a Secours Catholique alerta a opinião pública: cada vez mais pessoas acolhidas na associação têm emprego, mas o seu nível de vida está abaixo da linha da pobreza, ou seja, 670 euros por mês. Seus salários não são suficientes para pagar as contas. Eles têm teto, mas não conseguem se sustentar e vivem com medo constante da “queda”, aquela que os jogará na rua por falta de condições de pagar as contas. O superendividamento, a crise habitacional são os dois principais fatores desse fenómeno... O alarme soa. Vítimas do "efeito limiar" (ganham muito para serem ajudados, mas não o suficiente para sobreviver!), os novos pobres não são ajudados nem pelas associações (não têm direito a Restaurants du Cœur por exemplo), nem pela CAF . Procuramos descrever o cotidiano e o universo daqueles que aceitaram testemunhar abertamente em nosso documentário. É o caso de Christian, Maryvone e seus filhos Kevin e Céline, que moram há um ano e meio num acampamento no Oise com apenas 30 m2. Christophe, Alexia e seu filho deixaram Ain para se estabelecer em Marselha. Eles são forçados a viver num quarto de hotel mobiliado. Elizabeth tem 37 anos e três filhos adultos. Uma jovem divorciada, ela está procurando por acomodação. Despejada de sua casa, ela tem que se instalar em um acampamento com seus filhos. Aos 40 anos, Thierry é gerente em Paris, mas é forçado a morar numa casa para sem-teto enquanto espera encontrar acomodação na capital.

Autores: Corinne Langlois, Vincent Daudey

sábado, 9 de maio de 2020

Chega de racismo mascarado de pseudo isenção educada

Fonte: Com Regras
Este post vai, às tantas, trazer-me dissabores. Apesar dos bons conselhos de quem gosta muito de mim, e de quem eu gosto muito também, vou deixar de fazer coisas urgentes para o escrever. Mas tinha de ser. Já não dava mais ler certas coisas nos comentários ao texto de ontem sobre Quaresma.
Um dos meus textos mais curtos nestes anos neste blogue foi também um dos mais polémicos em comentários. E desisti de ser pedagógico e de ir respondendo.
Houve várias linhas de contestação: insultos, ameaças, etiqueta de ignorante na minha área de estudo. De tudo. A dada altura a sensação foi de ser atacado por uma matilha.

A maioria dos comentários: “este é um blogue de educação, não de política”

Em suma, cala-te….Se algum dos venturosos defensores de ideias diversas quiser escrever aqui, eu próprio lhe colocarei o post no blogue, com a minha password, que uso como autor dele. Tem é de respeitar a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). E aceitar ser contraditado. Que é o que acontece a quem escreve neste blogue (e, por isso, escreve o que muito bem entende, mas ouve o que tiver de ouvir).

Educação é Política (com maiúscula).

Não o ilusionismo de feira que alguns fazem no Parlamento, a esbracejar para as câmaras.
Nós, professores, educamos cidadãos. E um cidadão não pode achar que ser anti racista é uma “politiquice”. Ou que ser racista é matéria de opinião. Ser anti racista é um dos elementos da matriz constitucional portuguesa, que acolhe a DUDH como parte integrante. Logo, este blogue pode e deve falar de racismo. E pode ter uma posição editorial (e o texto era isso, um editorial) sobre um debate acesso na sociedade portuguesa.
Os alunos ciganos são dos mais excluídos. Dos que têm maiores níveis de insucesso e daqueles com quem o sistema de ensino mais falha, apesar do esforço de professores e educadores.
Na manhã de ontem, andei a tentar arranjar apoio para um aluno cigano que não tem computador nem internet. Um miúdo 5 estrelas, mas que, por muito que nos esforcemos, corre risco sério de ficar para trás. Aos 10 anos.

Outra ideia: a intervenção de Quaresma nada tem a ver com este Blogue

Tem tudo a ver. Um dos aspetos do discurso de Quaresma é o nível educativo elevado e como diria alguém, que me é muito querida, a elegância.
Se todos os cidadãos ciganos portugueses tivessem as ferramentas educativas que Quaresma mostra naquele texto, a sua comunidade seria vista de outra forma e não teríamos gente desalmada a desvalorizar os seus Direitos Humanos.
Recentemente, apareceram uns arremedos de caudilho que o fazem de forma histriónica e sedutora. Quaresma mostrou a força da Educação que é uma arma.
Todos os meus alunos ciganos, que ficaram perdidos para o insucesso e abandono, apesar da luta dos professores e de muitos pais, soubessem e pudessem usar as palavras com aquela força!
Não haveria tantos a serem contra eles, fortes com os fracos, e usar como bandeira política o ataque reles aos Direitos Humanos.

Um blogue é feito de palavras….

Quaresma mostrou aos meus alunos ciganos a força das palavras e da resposta pensada e ponderada. Fez mais pela educação de crianças ciganas naquelas linhas que uns iluminados bacocos que andam para aí a dizer que “há um problema com a comunidade cigana”.
Convido esses cultores da retórica baixa a virem conhecer o acampamento onde trabalhei como professor uns anos. Quem lá for, vê e sabe dos problemas: a pobreza, a discriminação, a falta de oportunidades, a doença, a exclusão, a falta de acesso à saúde e à educação. (Reportagem de Ana Cristina Pereira aqui no Público, com belas mas tristes fotos de Adriano Miranda)
A culpa da pobreza não é do pobre. A culpa da exclusão não é do excluído. O COVID19 vai trazer muitos pobres e excluídos.
E os que falam de gente “que não cumpre as regras” talvez se devessem por no lugar do outro. Talvez descobrissem muito sobre o privilégio das suas vidas.

O texto tem a ver com Educação

Com a minha, como pessoa e profissional, que aprendi muito com os meus alunos ciganos em décadas. Mesmo quando são rebeldes e até inconvenientes.
Este blogue não tem a ver com religião. Nem eu sou religioso. Há quem seja e se deixe filmar a rezar antes de atos políticos de candidatura e associe práticas religiosas e ação política.
Li bem o meu Evangelho na juventude e aos que argumentam com os condenados que são ciganos e os seus crimes, para virem, com essa lembrança, condenar todas as pessoas ciganas, eu só consigo falar do episódio bíblico do “quem nunca pecou que atire a primeira pedra” ou lembrar que os crimes individuais não condenam uma família ou uma comunidade. Isso era na Idade Média, em que um filho podia ser desterrado e preso com ferros por ter pai condenado.

Nazi?! Sim, Nazi.

E para os que usaram a tática de dizer que o autor não sabe o que diz ao qualificar de nazi a proposta em discussão, estou totalmente disponível para debater o assunto.
Mas já que este blogue é de educação e sou professor de História, deixem-me recomendar bibliografia.
2 livros. Um de Ron Rosenbaum. Explaining Hitler. The search for the origins of his evil. (Recensão aqui)
Não o melhor livro de História sobre o período do nazismo, mas que foi pessoalmente o mais marcante. Centra-se na origem de Hitler como fenómeno político e na luta de jornalistas de um jornal de Munique (Munich Post) para, muito cedo, revelarem aos distraídos alemães o que ele era. Poucos lhes ligaram e o autor do livro lança-se em algumas reflexões de história alternativa: e se tivessem reagido a tempo e não fossem em balelas de que as suas ideias mais loucas eram meras opiniões?
O outro livro é mais conhecido e chama-se A lente de aumento: os ciganos no holocausto. (Otto Rosenberg e Ulrich Enzensberger, página de Facebook da editora ). Já tem uns anos e foi lançado antes de se vulgarizar o uso da palavra Porajmos para referir o genocídio de ciganos que os nazis realizaram em Auschwitz e outros campos.
Com estas 2 fontes credíveis já chega para se fazer, com segurança, um juízo sobre o nazismo explícito de certas propostas.
E repito. Sim, a proposta que deu origem à polémica é nazi e indigna de um estado civilizado.
E para os docentes que vieram dizer ao blogue que ficam incomodados com o risco de se estar a fazer política ao dizer-se isto, só recordo o que diz o Estatuto da Carreira Docente (artigo 10º, 2, b), sublinhado meu. É dever dos professores:

b) Reconhecer e respeitar as diferenças culturais e pessoais dos alunos e demais membros da comunidade educativa, valorizando os diferentes saberes e culturas e combatendo processos de exclusão e discriminação.

Se um blogue de educação não é o sítio para exercer esse dever de combate, então mais vale ocupar os tempos livres na jardinagem.
E agora sim, posso ir arrumar a minha casa, em paz com a minha consciência. Deixo-vos com uma homónima de quem me aconselharia a não escrever tudo isto. Mas não dava mesmo para ficar calado. Talvez seja perdoado do tempo retirado a outros assuntos.
Vale a pena ouvir a ted talk de Djiana Pavlovic sobre isto de que estamos a falar.
Lamento profundamente ver tanto professor a comentar e a dizer que acha que ser racista é um problema meramente de opinião política. Já fui discriminado, como se fosse cigano, num país de louros, em que “ser moreno é ser cigano”. Sei o que se senti. E foram só uns minutos, não é a vida toda.
PS: agradeço ao Alexandre a solidariedade de defender um texto que não leu previamente e a integridade de valorizar este blogue como espaço livre. Agradeço aos que comentaram e defenderam o que escrevi.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Saiba tudo sobre Via Campesina e Caso Syngenta: transgénicos, agrotóxicos e violência.


O dia internacional da luta contra os transgénicos e as patentes sobre a vida, dia 17 de Abril, foi criado pela Via Campesina, é celebrado um pouco por todo o mundo e assinala também o aniversário do assassinato pela polícia brasileira de 19 camponeses do Movimento Sem Terra em 1996.

Novo relatório agora publicado pela ONG Terra de Direitos (Março de 2010)

In English MST, 30 March 2010

Ficha Ténica – Caso Syngenta

Nome: Syngenta Mata: transgênicos, agrotóxicos e violência

Localização: Município de Santa Tereza do Oeste, Paraná.

Resumo:

Este caso traz diversas violações de direitos humanos protagonizadas pela Syngenta Seeds, empresa transnacional do agronegócio que produz sementes transgênicas e agrotóxicos. As ações violadoras compreendem assassinato, violência física e moral contra trabalhadores rurais sem terra, manutenção de milícias privadas armadas, realização de despejos forçados sem determinação judicial, adulteração de venenos, contaminação do solo com agrotóxicos, contaminação da agrobiodiversidade com sementes transgênicas, criminalização dos movimentos sociais, entre outras tantas ações.

A Terra de Direitos tem atuação direta contra a transnacional desde a denúncia feita ao IBAMA, em 2006, junto com a Via Campesina. O motivo principal foi a realização de experimentos ilegais com sementes transgênicas na Zona de Amortecimento de Parque Nacional do Iguaçu, cidade de Santa Tereza do Oeste, oeste do Paraná. A empresa foi multada em um milhão de reais,

Com o objetivo de denunciar as violações de direitos humanos pela Syngenta, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ocupou a área. Após a ocupação, os trabalhadores foram atacados por uma milícia privada armada, contratada pela Syngenta, ocasionado lesões corporais em mais de 10 pessoas e a morte do trabalhador rural sem terra Valmir Motta de Oliveira, também conhecido como Keno.

O caso foi denunciado em todo o Brasil, em tribunais internacionais e também no país de origem da empresa. Além das questões processuais sobre o uso de milícias, a morte de Keno e o plantio ilegal de transgênico, o caso Syngenta Seeds levanta a polêmica sobre a atuação das empresas transnacionais, que contam com muitos incentivos, possuem muitos direitos, mas têm poucas obrigações, o que torna muito difícil responsabilizá-las pelas violações de direitos.

Contexto Histórico:

Desde 1998 a filial brasileira da empresa suíça Syngenta Seeds mantinha um campo experimental, com área de 127 hectares, na cidade de Santa Tereza do Oeste, a 6 km do Parque Nacional do Iguaçu. Desrespeitando a legislação ambiental e o Plano de Manejo do Parque, a empresa cometeu uma série de crimes ambientais, realizando experimentos com soja e milho geneticamente modificados , o que, em março de 2006, levou o IBAMA a multá-la no valor de 1 milhão de reais.

Para denunciar os crimes cometidos pela Syngenta, os militantes da Via Campesina ocuparam a estação experimental, no dia 14 de março de 2006, durante a realização da Convenção de Biodiversidade Biológica (COP/MOP) no Brasil. A ocupação do Campo Experimental teve ampla repercussão e apoio internacional, inclusive com a organização de uma visita de ambientalistas de mais de 15 países à área ocupada, durante a Convenção.

As 70 famílias permaneceram na área até novembro de 2006, quando o Estado do Paraná cumpriu a liminar de reintegração de posse expedida pela Justiça Estadual de Cascavel. Mesmo assim, as famílias retornaram ao local depois que a área foi desapropriada pelo Governo do Estado para a criação de um Centro de Agroecologia. Após 16 meses de resistência, no dia 18 de julho de 2007, cumprindo ordem judicial, as famílias se deslocaram para o assentamento Olga Benário, também em Santa Tereza do Oeste.

Em outubro de 2007, cerca de 200 trabalhadores da Via Campesina reocuparam a Fazenda Experimental após rumores de que a Syngenta retomaria os experimentos ilegais, o que exporia as lavouras convencionais próximas ao Parque ao perigo da contaminação por transgênicos. Além disso, a Syngenta não havia pago a multa aplicada pelo IBAMA.

Horas depois da reocupação, mais de 30 homens fortemente armados e vestidos com uniforme da empresa “NF Segurança” invadiram a área e dispararam contra os trabalhadores. Após balearem Valmir Mota, o “Keno”, com um tiro na perna, o executaram a queima roupa com um tiro no peito. A milícia tentou ainda executar a trabalhadora Isabel do Nascimento de Souza com um tiro na cabeça, o que resultou na perda de um de seus olhos e da mobilidade da parte esquerda do corpo. Outros três trabalhadores saíram feridos e um segurança foi morto por integrantes da própria milícia que atiravam desordenadamente, conforme indicou a polícia. A “NF Segurança” atuava de forma irregular naquela região, articulada com a Sociedade Rural do Oeste (SRO) e o Movimento dos Produtores Rurais (MPR), representantes dos latifundiários locais.

Ações desenvolvidas:

A Via Campesina exigiu punição dos responsáveis pelos crimes – principalmente os mandantes -, a desarticulação da milícia armada na região e o fechamento imediato da empresa de segurança NF. A preocupação foi também de garantir segurança e proteção a vida de outros dirigentes, alvos preferenciais do ataque, bem como de todos os trabalhadores da Via Campesina na região.

Uma ação penal foi instaurada em decorrência dos crimes cometidos durante a ação da empresa NF Segurança contra trabalhadores e trabalhadoras rurais. Nenhuma pessoa da transnacional Syngenta foi denunciada, assim como nenhum mandante. Apenas o proprietário da NF segurança e nove pistoleiros foram denunciados pelos crimes cometidos.

Inesperadamente, o Ministério Público da Paraná denunciou oito integrantes do MST pelo assassinato do segurança, de Keno e por lesões corporais cometidas pelos pistoleiros da NF Segurança contra os próprios trabalhadores. O MP entendeu – e o Judiciário aceitou a tese – que os trabalhadores são responsáveis pelos crimes única e exclusivamente por terem realizado a ocupação da estação experimental da Syngenta. Diz o MP que os trabalhadores, ao realizarem a ocupação, assumiram o risco de serem vítimas de reação armada da Syngenta e por esse motivo devem responder criminalmente pela violência que sofreram.

A ampla divulgação das informações desdobrou-se também em campanhas, como a lançada pela Assessoria e Serviços a Projetos de Agricultura Alternativa (AS-PTA) – “Por um Brasil livre de transgênicos”-, que tem se mostrado instrumento efetivo de embate político.

A repercussão institucional dessas ações resultou, ainda, em audiência pública na Câmara dos Deputados, no dia 16/04/08, por iniciativa da Comissão de Legislação Participativa, para debater propostas de enfrentamento dos crimes cometidos contra trabalhadores rurais no Paraná. A Terra de Direitos apresentou ao Ministério da Justiça uma representação contra a Sociedade Rural do Oeste e NF Empresa de Segurança, requisitando o imediato fechamento e a responsabilização de seus sócios. Em junho de 2008, durante o curso da “Operação Varredura VII”, a empresa de segurança teve a licença de funcionamento cassada pela Polícia Federal, por atuar clandestinamente. (Leia: “PF autua 53 empresas clandestinas de segurança ”).

No plano internacional, o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Execuções Sumárias, Arbitrárias e Extrajudiciais, Philip Alston, recebeu em novembro de 2007 um documento sobre o caso. O relatório – entregue conjuntamente com integrantes da Via Campesina e do MST – denunciou a atuação de milícias armadas no campo e sustentou que a empresa NF Segurança era apenas uma fachada legal para um grupo paramilitar a serviço de fazendeiros da região (Leia mais). O caso passou a receber amplo apoio internacional, tendo centenas de pessoas participado de protestos em repúdio ao assassinato de Keno em diversos países, como Coréia do Sul, Indonésia, Congo, Espanha, no Chile, no Canadá, na Croácia e na Venezuela.

Henry Saragih, coordenador-geral da Via Campesina, convocou mobilizações pelos direitos dos trabalhadores rurais e de repúdio à Syngenta enquanto, na Suíça a organização de agricultores Uniterre solicitou à presidente do país, Micheline Calmy-Rey, o acompanhamento do caso no Brasil. Essas ações foram fortalecidas pela atuação de parlamentares suíços, que requisitaram providências da Syngenta para reparar os danos sofridos pelas vítimas do ataque e medidas a serem adotadas em relação à filial brasileira, para evitar novos eventos análogos. Por conta disso, em março de 2008, o embaixador da Suíça no Brasil, Rudolf Bärfuss, pediu oficialmente desculpas à viúva de Keno, Iris Oliveira, em nome de seu país.

Outra importante tática de incidência foi o diálogo com acionistas minoritários da empresa, que durante a Assembléia geral da empresa, em abril de 2008, cobraram providências para uma solução pacífica do conflito, para que a empresa respeitasse as leis brasileiras e assumisse sua responsabilidade frente ao ocorrido. É provável que a doação da área experimental feita ao Estado do Paraná, em outubro do mesmo ano, tenha decorrido dessa movimentação.

A Anistia Internacional, por sua vez, a partir da interlocução com a Terra de Direitos, lançou um apelo pedindo providências dos órgãos competentes pela morte do dirigente do MST. Além dela, mais de 200 entidades se manifestaram publicamente, no mundo inteiro, contra a ação da Syngenta no Paraná.

O conjunto desta estratégia jurídica resultou na apreciação do caso pelo Tribunal Permanente dos Povos, instância política que durante sessão na cidade de Lima, Peru, em maio de 2008, reconheceu a responsabilidade da empresa Syngenta Seeds Ltda. pela violação de Direitos Humanos. Apesar de toda a mobilização em torno do caso, os processos judiciais ainda estão em andamento no Brasil.

Situação do(s) processo(s):

A complexidade do caso se evidencia nas três classes de processos a ele associadas:

a) processos referentes à desapropriação da área;

b) processos referentes à multa administrativa recebida pela empresa e;

c) processos criminais referentes às agressões e homicídios perpetrados pela empresa de segurança NF, contrata pela Syngenta.

a) Em novembro de 2006, o Governo do Estado do Paraná, por meio do Decreto nº 7487, publicado em 09 de novembro de 2006, desapropriou a Estação Experimental para instalar um centro de agroecologia no local e tentar recuperar os danos ao meio ambiente provocados pela empresa. Todavia, em janeiro de 2007, a Syngenta conseguiu uma liminar no Tribunal de Justiça do Paraná que suspendeu os efeitos do Decreto de Desapropriação da área, anulado em janeiro de 2008. Apesar disso e em decorrência da publicidade negativa gerada pelo caso, a Syngenta decidiu doar a área ao Estado do Paraná, em outubro de 2008. Finalmente, no dia 05/12/2009, cumpriu-se o projeto anunciado com a inauguração no local do Centro de Ensino e Pesquisa em Agroecologia Waldir Motta de Oliveira e o Monumento Keno Vive.

b) A Syngenta contestou judicialmente a multa de um milhão de reais. Em novembro de 2007 o juiz proferiu sentença favorável ao IBAMA, confirmando a multa. A Syngenta, não satisfeita, recorreu da decisão. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em janeiro de 2007, deu provimento à apelação, anulando a multa e alegando o cumprimento dos pareceres emitidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio – em detrimento da legislação ambiental vigente. O INCRA recorreu dessa decisão, que ainda deve ser analisada pelo STF e STJ.

c) Tramita perante a 1ª Vara Criminal de Cascavel a Ação Penal nº 2007.3982-4, ainda em fase de instrução, aguardando oitiva de diversas testemunhas. O Ministério Público acusa a empresa de segurança NF, contratada pela Syngenta, de ser uma quadrilha armada com o objetivo de realizar despejos ilegais em acampamentos de trabalhadores rurais que lutam pela reforma agrária. Vale notar que, a despeito de todas as evidências e das manifestações de diversos grupos apontando o envolvendo da Syngenta com os fatos, a empresa não foi diretamente relacionada aos crimes no curso da ação penal. O processo , porém, tem sido usado principalmente para criminalizar os trabalhadores, que, apesar de vítimas da violência, também foram denunciados como réus, dos quais a Terra de Direitos atua como defensora.

Opine sobre este caso: Quer dar sua opinião sobre este caso? Entre em contato conosco: comunicacao@terradedireitos.org.br

LEIA MAIS:

18/07/08: Em defesa dos direitos humanos: denúncias de violações envolvendo Syngenta e British American Tobacco são relatadas a ONU

29/04/08: Parlamentares Suiços e Acionistas solicitam explicações à Syngenta por crimes cometidos no Brasil

15/04/08: Ataques a camponeses por milícias armadas se proliferam no Paraná

20/12/07: CASO SYNGENTA: Ação Penal criminaliza trabalhadores rurais e não responsabiliza mandantes

11/12/07: Ministério Público criminaliza trabalhadores da Via Campesina – vítimas de ataque

04/12/07: Crimes do Agronegócio – Ação de milícia contratada pela Syngenta mata militante do MST no Paraná

04/12/07: Anistia Internacional pede providências pela morte de Sem Terra na Syngenta

23/10/07: Organizações querem rigor nas investigações e responsabilização da Syngenta pelos crimes

22/10/07: Nota a imprensa: Milícia armada ataca acampamento da Via Campesina e executa militante

18/05/09: As milícias privadas e os seletivos olhos da “democracia” – artigo de Roberto Efrem Filho.

20/10/08: Relatores de Direitos Humanos concluem relatório sobre assassinato de Keno

23/10/2007: Polícia Federal diz que empresa de segurança NF tem contrato com Sociedade Rural do Oeste


Confira e baixe as tabelas e textos complementares nos arquivos anexados.

AnexoTamanho
Comparação dos Conflitos no Campo 2000-2009.pdf7.29 KB
Trabalho Escravo 2007-2008.pdf7.38 KB
Fam. Despejadas e Expulsas 2008 e 2009.pdf11.01 KB
Vio. contra Pessoa 2008-2009.pdf16.14 KB
RELEASE - 25 anos de registros (CPT Assessoria de Comunicação).docx749.92 KB
RELEASE - Amazônia concentra maior número de conflitos (CPT Assessoria de Comunicação).doc43.5 KB




sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Despertar da Natureza: Breve Ensaio sobre o Naturismo em Portugal


A história do naturismo em Portugal é um reflexo das tensões sociais, políticas e culturais que moldaram o país ao longo do século XX e XXI. Mais do que a simples prática da nudez social, o naturismo português evoluiu de um movimento higienista e filosófico para uma expressão de liberdade individual e de consciência ecológica.

As Origens e o Higienismo (Início do Século XX)
O naturismo em Portugal não nasceu nas praias, mas sim nos consultórios e círculos intelectuais. No início do século XX, influenciado pelo movimento alemão Lebensreform (Reforma da Vida), o naturismo surgiu associado ao higienismo. Figuras como o Dr. Amílcar de Sousa foram fundamentais. Para estes pioneiros, a exposição ao sol (helioterapia) e ao ar livre era vista como a cura para os males da industrialização e da vida urbana insalubre. Em 1912, a fundação da Sociedade Naturista Portuguesa marcou o início institucional do movimento, focando-se na alimentação vegetariana e na saúde física.

A Longa Noite do Estado Novo
Com a ascensão do Estado Novo, o naturismo enfrentou o seu período mais difícil. A ideologia conservadora do regime de Salazar, fortemente assente na moral cristã e no pudor público, via a nudez como uma afronta aos bons costumes. Durante décadas, qualquer prática de nudismo era clandestina, limitada a praias desertas e de difícil acesso, sob o risco constante de intervenção policial e estigma social. O naturismo foi remetido para a invisibilidade, sobrevivendo apenas como um ato de resistência silenciosa de pequenos grupos.

A Revolução e a Legalização (1974 - 1994)
O 25 de Abril de 1974 trouxe a "Primavera" também para o corpo. A queda da ditadura permitiu que os portugueses explorassem novas liberdades. Na década de 80, o movimento reorganizou-se com a fundação da Federação Portuguesa de Naturismo (FPN) em 1977.

O grande marco jurídico ocorreu em 1994, com a aprovação da Lei n.º 92/94, que regulamentou a prática do naturismo em Portugal. Esta legislação permitiu a criação de praias oficiais e estabelecimentos de hospedagem naturista, transformando Portugal num dos destinos europeus mais progressistas nesta área. A Praia do Meco (Alfarim) e a Praia da Adiça tornaram-se símbolos desta conquista.

O Naturismo Contemporâneo e a Ecologia
Hoje, o naturismo em Portugal transcende a questão da nudez. Está intrinsecamente ligado à preservação ambiental e ao turismo sustentável. Portugal possui atualmente diversas praias oficiais (como a Ilha de Tavira ou a Bela Vista) e dezenas de praias de uso costumeiro. O perfil do naturista moderno é o de alguém que procura a desconexão tecnológica e o respeito absoluto pela biodiversidade, integrando o corpo no ecossistema sem as barreiras artificiais do vestuário.

Referências Bibliográficas

Correia, Gonçalves - Comuna da Luz e a Comuna Clarão

Federação Portuguesa de Naturismo (FPN). Arquivos históricos e documentação sobre a Lei 92/94.

Ferreira, V. M. (2002). O Corpo no Espaço Público: Sociologia da Nudez. Lisboa: Edições Colibri.

Neto, Margarida. (2010). História do Naturismo em Portugal: Da Filosofia à Prática. Revista de História das Ideias.

Sousa, Amílcar de (1912). O Naturismo. Porto: Edição do Autor. (Obra fundacional do movimento em Portugal).