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sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Rescaldo das eleições presidenciais - desafios a António Seguro para derrubar o populista e fascista André Ventura


Estudos sobre populismo de direita mostram que condição económica (rendimento, precariedade, frustração com mobilidade social) é um dos motores centrais do voto radical, muitas vezes mais do que a escolaridade isolada. Os candidatos derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos. Agora o debate será António Seguro atrair o centro e centro-direita, activando propostas inequívocas de progresso social e recusar/ denunciar o discurso racista e populista de André Ventura.
Proponho também a António Seguro que seja claro do que esperamos dele enquanto Presidente nas questões ambientais.
O País, incluindo Madeira e Açores tem 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km². O que pensa sobre isso: segurança nacional apenas ou investimento na Economia Azul? Vemos o mar sempre de costas voltadas, quando bem gerido, é uma nova "indústria", salvaguardando o património pesqueiro. O sector energético também é fulcral. Onde e como vamos fazer a transição verde? Outro aspecto importante é a nossa biodiversidade e turismo. Como equilibrar as duas valências? Qual é a política florestal mais adequada ao Continente? Que compromissos fará com as cadeias de abastecimento e a agricultura biológica? Qual é a sua posição em relação ao REACH, Codex Alimentarius e a prevalência do princípio ecológico da precaução? 
Em Portugal estima‑se que existam atualmente cerca de 200 mil pessoas a viver com diagnóstico de cancro nos últimos 5 anos, e surgem perto de 60–70 mil novos casos por ano.
Áreas de Ciências da Vida, incluindo Biologia, registam 0-2% de desemprego em estudos recentes, superando Engenharia (média 5-10%, com picos em Civil a 23%) e superadas apenas por Saúde (0-1%). Como melhorar os seus salários, para evitar a emigração?
A Inteligência Artificial é o novo mercado. O que António Seguro pensa sobre isso? Não chega os unicórnios das Web Smmit. Queremos saber acção concreta, atraindo os nossos jovens qualificados para esta área em grande crescimento.
Ventura, por sua vez, muito provavelmente vai retratar a esquerda como uma ameaça a Portugal e responsável por muitos dos problemas que o país enfrenta hoje.
E ainda não está claro se ele vai redobrar a aposta em discursos que têm causado controvérsia pública - como cartazes com mensagens ofensivas a populações imigrantes do Sul da Ásia e ciganos - ou se adoptará um tom mais moderado e pragmático para conquistar eleitores de centro.
Ventura, como bom "artista" político que é (e farsante), apareceu vestido de roupa militar, num de seus últimos discursos e prometeu acabar com “os privilégios das minorias” e “não dar nem um cêntimo para políticas de identidade de género”. Diz que ama os animais, mas apoia a tourada. Ele conhece a frustração dos jovens masculinos vs femininos. Quantas mulheres votarão contra a supressão das políticas de acesso ao trabalho e emprego estável? Quase 8 milhões de posts falsos, com desinformação, foram registados na campanha política- 85% deles partiram de Ventura. Olho também nos media. Quanto é a falência dos meios de comunicação?
As intenções de Catarina, António Filipe e José Pinto foram declaradas nas intervenções sobre os resultados eleitorais: votar Seguro.
Cotrim, Passaláqua e Mendes basicamente declararam não apontar para algum lado legitimando Ventura como uma "direita moderada" do sistema.
Juntos na derrota do Ventura. Pela democracia, sempre!

domingo, 5 de outubro de 2025

Les Français ne paient pas le vrai prix de l’alimentation



Champion des produits laitiers, des eaux et de la nutrition spécialisée avec ses marques Activia, Actimel, Evian, Volvic et Aptamil, le groupe Danone a renoué avec la croissance après une période compliquée au tournant des années 2020. Redressé par Antoine de Saint-Affrique, le groupe revendique un modèle combinant performance économique et responsabilité sociale, théorisé en 1974 par Antoine Riboud. Son patron insiste sur le rôle social des entreprises. « Le chef d’entreprise a un rôle dans la cité, car l’entreprise est un endroit absolument unique : c’est l’un des rares où l’on fasse encore société, où l’on apprenne à la fois le compromis et la constance d’un temps. C’est un endroit où on partage, et où des gens extrêmement divers d’opinion, de religion et d’origine construisent quelque chose pour le futur. Donc c’est aussi un facteur de stabilisation », estime-t-il.

Antoine de Saint-Affrique soutient l’initiative du président du Medef, Patrick Martin, d’organiser le 13 octobre « un énorme meeting » du patronat pour revendiquer l’apport des entreprises au débat public. « Sauf si je suis en déplacement, j’y serai pour rappeler une chose très importante, qui est que l’entreprise est créatrice de valeur et probablement le dernier lieu de consensus et de dialogue social. Il faut le réaffirmer de manière extrêmement forte. »

Consommation diverse
Alors que la grogne patronale monte face à l’instabilité politique, le dirigeant appelle à faire de la pédagogie. « Au-delà de l’opportunité de telle ou telle mesure, il faut revenir à un débat factuel, et ancré dans la réalité. Expliquons par exemple que quand on dépense 100 et que l’on emprunte 46, ce n’est pas un modèle durable. Ni pour le pays ni pour l’entreprise. Sur ces sujets, il y a une vraie vertu à la répétition et aux faits simples (…) pour arriver à des solutions de bon sens et de compromis ».

Bon indicateur de la consommation des Français, qui ont souvent ses produits dans leurs frigos, Danone évolue comme ses concurrents dans une conjoncture fragile. « En France, la consommation est diverse mais elle ne se porte pas trop mal. Le grand défi de notre pays reste beaucoup plus l’industrialisation que la consommation (…). Il y a souvent un décalage entre ce que le consommateur paye et la réalité des prix. Les Français ne paient pas le vrai prix de l’alimentation », insiste le dirigeant, appelant à ne pas faire de l’alimentaire « un produit d’appel ». Cela menace la rémunération des agriculteurs, un sujet sur lequel s’est engagé Danone avec des contrats de long terme, pour accompagner les investissements des fermes et des pratiques agricoles plus vertes.

« Quand vous vendez une baguette à quelques centimes d’euros ou une bouteille de côtes-du-rhône à prix cassé pour faire venir des gens dans vos magasins, vous créez un modèle qui n’est pas durable pour les agriculteurs. Et vous mettez en cause la souveraineté alimentaire du pays en entraînant la totalité de la filière vers le bas . C’est cela, l’enjeu, aujourd’hui », conclut Antoine de Saint-Affrique.

sábado, 4 de outubro de 2025

Como responder ao colapso social


A ciência e a modelação mostram que a nossa civilização está em colapso existencial, mas e se esta realidade aterradora for o estímulo de que a humanidade necessita para voltar a viver plenamente e com realização? Nesta palestra provocadora, a autora e jornalista best-seller internacional Sarah Wilson explora o lado positivo de perder o que temos dado como garantido. Sarah Wilson é autora de vários best-sellers do New York Times e da Amazon, podcaster, filósofa social e renegada.

É a apresentadora do podcast Wild with Sarah Wilson e escreve a popular newsletter da Substack, This is Precious, que conta com uma comunidade envolvida de 57.000 subscritores.

Sarah é conhecida mundialmente por ter fundado o movimento I Quit Sugar – um programa de bem-estar digital e 13 livros premiados vendidos em 52 países – que viu milhões de pessoas em todo o mundo transformarem a sua saúde. Em 2022, Sarah vendeu o negócio e doou 100% dos lucros a instituições de solidariedade.

O seu best-seller do New York Times, First, We Make the Beast Beautiful, é descrito por Mark Manson como "o melhor livro sobre como viver com a ansiedade que já li" e foi apresentado como livro do ano no Today Show da NBC. O seu livro This One Wild & Precious Life ganhou o prémio US Gold Nautilus de 2021.

Sarah é consultora de empresas e universidades em media, saúde mental e risco existencial. Foi oradora convidada para o curso de mestrado em Sustentabilidade e Liderança da Universidade de Cambridge e estabeleceu parcerias com organizações como o Climate Council, a Universidade de Harvard e a Intelligence Squared em campanhas. Esta palestra foi proferida num evento TEDx utilizando o formato de conferência TED, mas organizado de forma independente por uma comunidade local.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Entrevista com Antoine de Saint-Affrique - O Futuro da Alimentação


Denis Panel (DP): Antoine de Saint-Affrique (ASA), muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. É um enorme prazer. Como sabe, a Sycomore é especializada em investimento responsável e a Danone é uma das principais convicções das nossas equipas de gestão, pelo que estou muito contente por poder conversar consigo hoje.

ASA: Também estou muito feliz.

DP: Assumiu as rédeas da Danone há pouco mais de três anos, num momento crucial para o grupo, e encarna uma visão que é simultaneamente estratégica e profundamente enraizada nos desafios da transformação. Na Sycomore, valorizamos muito estas dinâmicas de transição e a liderança empenhada. Por isso, a minha primeira pergunta é muito simples: quais foram as principais viragens estratégicas tomadas pelo grupo sob a sua liderança desde a sua chegada que permitiram devolver o fôlego ao crescimento e aos resultados?

ASA: Há aqui uma combinação de vários fatores. O primeiro é que estamos a construir sobre bases que são extremamente fortes. Embora tenha encontrado uma empresa em crise, a cultura interna é extraordinariamente robusta e a paixão dos "danoners" é um ativo formidável para a empresa. Temos marcas fortíssimas e um negócio focado na saúde através da alimentação, o que é algo incrivelmente relevante. A partir desta base, reinventámos a empresa, voltando a colocar o ser humano no centro de tudo. Isto significou recuperar a dinâmica, a paixão pela execução, o compromisso no terreno e a abertura ao mundo. Reinvestimos de forma fundamental na investigação e na inovação, porque esse é o verdadeiro motor para o futuro e para continuarmos a criar valor diário para o consumidor e para os pacientes. Depois, é uma questão de execução, execução e mais execução. Isto dá ritmo à organização, mas também lhe confere uma cultura onde qualquer problema colocado em cima da mesa passa a ser visto como uma oportunidade. É, portanto, uma combinação de tudo isto. Houve também algumas medidas mais formais. À minha chegada, procedemos, juntamente com Gilles Schnepp, a uma mudança profunda na governação, com a renovação de quase todo o Conselho de Administração. Integrámos pessoas com uma vasta experiência, incluindo um professor de nutrição, sendo todos os restantes membros CEOs atuais ou recentes, com uma pegada internacional extraordinária e uma relevância de percurso incrível. Temos agora um Conselho extremamente forte. Além disso, quando precisamos de competências que não temos internamente, vamos procurá-las fora, como fizemos na Investigação e Desenvolvimento e nas Operações. E, finalmente, promovemos as gerações futuras. Com tudo isto, conseguimos impulsionar a empresa num ritmo e numa direção diferentes.

DP: Compreendo. Acabou por começar a responder à minha segunda pergunta, que era justamente sobre a transformação e as suas alavancas. Todos sabemos que qualquer transformação exige a adesão dos colaboradores, ou seja, o capital humano. Como trabalhou a cultura interna e a organização de liderança para motivar todos os colaboradores a entrarem nesta dinâmica?

ASA: O primeiro passo é manter o contacto direto. A cada 90 dias, eu e o meu Diretor Financeiro visitamos todas as regiões. Esta frequência tem vários objetivos. O primeiro é garantir que vivemos no mundo real: vemos os mercados, os fornecedores, os clientes e as equipas em ação no terreno todos os dias. O facto de o fazermos de forma recorrente dá ritmo à empresa e permite-nos entrar numa rotina de normalidade. Discutir os problemas abertamente ajuda-nos a ver, ao longo do tempo, quem apresenta resultados e quem não apresenta. Permite-nos compreender profundamente o tecido humano da organização e ajuda-nos também a transmitir a nossa visão e estratégia até aos níveis mais profundos da empresa. Esta é a vertente prática e de proximidade no terreno. Mas também tomamos medidas mais formais, como trabalhar os sistemas de remuneração para que fiquem totalmente alinhados com os objetivos estratégicos da empresa e com os interesses dos acionistas. E, por fim, tomamos decisões humanas. Temos pessoas que estão prontas para embarcar nesta aventura e outras que não estão preparadas ou que não têm o nível necessário para o fazer. Trata-se, portanto, de uma combinação de proximidade na gestão, clareza estratégica, uma estrutura de remunerações adequada e, acima de tudo, talento, talento e talento.

DP: Gostaria agora de voltar ao coração da atividade da Danone. Vemos que a oferta de alimentação saudável está a expandir-se, mas o comportamento dos consumidores às vezes demora a acompanhar essa mudança e a virar-se para opções mais saudáveis. Já sente o início de uma viragem nos hábitos de consumo e de que forma é que a Danone pode desempenhar um papel nesta transição?

ASA: Para nós, o mercado da alimentação está num ponto de viragem por vários motivos. Um deles é a consciencialização de que a diferença entre uma boa alimentação e uma alimentação menos boa tem consequências profundas na saúde. Estas consequências têm, naturalmente, um impacto individual, mas também um impacto social no custo da saúde e na sustentabilidade financeira dos próprios sistemas públicos de saúde. Neste momento de viragem — que se manifesta na alteração de certos hábitos, em ruturas tecnológicas como os medicamentos análogos do GLP-1 ou nas próprias políticas governamentais —, a Danone está extraordinariamente bem posicionada. E estamos bem posicionados por uma razão muito simples: o nosso foco exclusivo é a saúde através da alimentação para o maior número de pessoas. Esse é o nosso trabalho. E fazemo-lo desde o nascimento até ao momento em que possam surgir problemas de saúde. Vendemos leite infantil para o crescimento de bebés saudáveis (ou mesmo com necessidades específicas), produtos que ajudam a crescer e a manter a saúde, como o Actimel para reforçar a imunidade, ou o Activia para preservar a saúde do microbiota. E vamos ao ponto de conseguir ajudar quem enfrenta problemas de saúde graves, através de produtos de nutrição médica para doentes em tratamentos oncológicos ou indivíduos entubados. E esquecia-me da hidratação, claro, a hidratação também faz parte. O nosso negócio é a saúde através da alimentação e o nosso portefólio está exclusivamente concentrado nisso. De resto, o nosso portefólio conta atualmente com uma pontuação de 88% no sistema Health Star Rating, sendo um dos mais saudáveis do setor. Como este é o nosso negócio e a indústria está nesta fase de transição, sentimo-nos incrivelmente bem preparados para o mundo que aí vem.

DP:Perfeito. Para terminar, gostava que nos deixasse uma palavra sobre a inovação. O que significa a inovação na Danone hoje em dia?

ASA: A inovação está no centro de tudo o que a Danone sempre foi. Quando o senhor Isaac Carasso inventou o iogurte Danone em 1919, vendido em farmácias com base nos trabalhos de Metchnikoff e do Instituto Pasteur, isso foi uma inovação fundamental. A inovação sempre fez parte da nossa identidade. Nos últimos anos, reinvestimos massivamente em Investigação e Desenvolvimento porque estamos convictos de que a ciência é a base de uma inovação que seja simultaneamente relevante para o consumidor e com impacto real na saúde. Depois, isto traduz-se em várias vertentes. Passa pelo YoPro (ou IPro, dependendo do país), uma bebida proteica que ajuda na recuperação muscular de uma forma extremamente agradável. Não é um pó que se mistura com água e que não sabe bem; é um iogurte líquido que torna o que é saudável fácil e agradável de consumir, porque é genuinamente saboroso. Unimos o útil ao agradável. E vamos até às inovações absolutamente extraordinárias no campo da nutrição oncológica, apoiando a recuperação de pessoas em tratamentos oncológicos, ou, no outro extremo, com o Nurturis, que acabámos de lançar em Hong Kong — um leite infantil que é o produto mais próximo do leite materno que alguma vez desenvolvemos. Basicamente, o nosso trabalho consiste em pegar na ciência e traduzi-la em algo que traga valor real para o consumidor. É esse o nosso papel.

DP: Muito obrigado por partilhar todos estes elementos connosco, que são sem dúvida fascinantes. Mais uma vez, obrigado por ter aceitado o convite.

ASA: Foi um prazer. Muito obrigado.

domingo, 18 de maio de 2025

Carolyn Steel - Desafios da Sitopia para alimentação nas grandes cidades hoje


E se o caminho para transformar o planeta e torná-lo sustentável dependesse de algo tão cotidiano e de primeira necessidade como a comida? Este é o argumento defendido pela arquiteta, professora e escritora britânica Carolyn Steel, em seu livro Sitopía (Capitán Swing, 2022).

Sitopia é um termo inventado por Steel a partir das palavras gregas sitos (alimento) e topos (lugar), e significa, literalmente, lugar de alimentos. Com isso, pretendia dar um nome à nossa sociedade, um mundo conformado pela comida.

Steel reflete sobre como a forma como nos alimentamos moldou nossas cidades. Conforme os mercados tradicionais vão desaparecendo e o valor que atribuímos à comida é cada vez menor, também vamos perdendo a coesão social, a saúde e até a nossa própria identidade cultural. Por dependermos de alimentos cada vez mais baratos e produzidos de modo intensivo, entramos em um modo de vida menos sustentável. Ainda temos tempo para mudar?

A entrevista é de Mariángeles García, publicada por Yorokobu, 22-03-2023. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.

A filosofia está muito presente em seu livro. O fato desta disciplina estar desaparecendo dos planos de estudo (ao menos na Espanha) nos torna, como cidadãos, mais vulneráveis a ideologias que nos desumanizam?
Sim! De fato, acredito que estamos perdendo a capacidade de pensar por nós mesmos e de nos fazer grandes perguntas, o que realmente me preocupa. Penso que a internet criou uma espécie de supermercado das ideias, no qual as pessoas vão às compras até encontrar conceitos pré-fabricados que as atraem. Então, elas os adotam por atacado, como se tivessem sido pensados por elas próprias.

Isto me preocupa muito, porque essas ideias, muitas vezes, tornam-se ideologias irremovíveis. Também nos expõe a acreditar em teorias da conspiração e a ser incapazes de examinar o que realmente pensamos desde a base e, portanto, de estabelecer um debate fundamentado. Como vimos com a recente invação ao Capitólio dos Estados Unidos e agora ao Congresso brasileiro, este fenômeno ameaça a própria democracia.

Qual é a relação entre filosofia e alimentação, e como isso afeta nossa cultura alimentar?
Bem, existem poucos atos tão significativos como o de comer: levanta questões muito profundas como o que é a vida, o que significa compartilhar com justiça, qual é a nossa relação com a natureza e como é uma boa vida.

Por exemplo, só pelo fato de comer, nós nos autorizamos a considerar nossa vida mais importante do que a de, por exemplo, um frango ou uma batata. Mais do que isso, penso que ver o mundo pelo prisma da comida pode nos ajudar a nos tornarmos filósofos, o que significa que pode nos habilitar a fazer grandes e importantes perguntas. E isso, conforme eu dizia antes, é extremamente importante. De fato, se eu tivesse que redesenhar o plano de estudos, colocaria a alimentação e a filosofia entre as disciplinas mais importantes.

Por isso, inventei a palavra sitopia, porque vivemos em um mundo moldado pela comida. Sendo assim, pensar a partir dela pode nos ajudar a olhar ao nosso redor, questionar nosso lugar no mundo e voltar a nos fazer essas grandes perguntas.

O urbanismo das cidades costumava gravitar em torno de seus mercados: eram os centros de reuniões sociais e quase políticas. Como o urbanismo mudou, desde que a nossa alimentação piorou?
O mercado era o centro da cidade pré-industrial, não só fisicamente, mas social, econômica, simbólica e politicamente. Antes que a industrialização destruísse a o vínculo geográfico entre os alimentos e as cidades, os mercados eram os únicos lugares onde as pessoas podiam comprar alimentos frescos, então, todos recorriam a eles, não só para comprar comida, mas para uma socialização, para saber das últimas notícias e tagarelar.

Basta ler as descrições da ágora ateniense, os relatos de Zola sobre Les Halles, em Paris, e os de Samuel Pepys sobre Covent Garden para perceber como esses espaços públicos eram vibrantes. De fato, os supermercados foram projetados especificamente para eliminar os encontros sociais que outrora caracterizavam os mercados, o que significa uma grande perda.

O que essas mudanças implicam?
Como arquiteta, tenho muito interesse na importância da esfera pública, ou seja, a presença de um espaço aberto, inclusivo e heterogêneo no qual se é livre para atuar e se encontrar face a face com seus concidadãos. De fato, isso está diretamente relacionado ao debate anterior, sobre como as pessoas estão perdendo a capacidade de debater e pensar por si mesmas, porque grande parte dessa atividade agora é realizada on-line. E isto está longe de ser um verdadeiro espaço público, já que, como sabemos, é muito manipulado.

As implicações são enormes, uma vez que limitam nossa experiência do outro e nossas oportunidades de sentir o que temos em comum (apesar de nossas diferenças). E, por sua vez, ameaça nosso compromisso político e, de fato, nossa capacidade de participar como cidadãos em uma democracia que funcione.

Qual é a primeira coisa que você faz quando viaja para uma nova cidade? 
No meu caso, e penso que no de muitos de nós, é procurar pela comida local e tradicional, seja em mercados, comércios locais, cafés e restaurantes. É de longe a maneira mais rápida (e prazerosa!) de entender o que faz um lugar funcionar, como as pessoas se relacionam, como são a paisagem e a cultura local.

Uma cidade como Barcelona, por exemplo, que protege e investe em seus mercados e promulga leis para protegê-los do desenvolvimento dos supermercados, seria uma dessas cidades. E, claro, muitas cidades do sul permanecem organizadas de forma espetacular em torno de suas culturas alimentares tradicionais, porque a marcha inexorável do McDonald's et al ainda não as alcançou.

Penso que a mensagem mais poderosa que podemos enviar a esses lugares é que, a todo custo, se apeguem a suas culturas alimentares locais: uma vez perdidas, é muito difícil recuperá-las (como qualquer pessoa no Reino Unido pode dizer!) e delas depende, em grande medida, a coesão social e política de um povo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Reduzir o consumo de carne e laticínios é uma estratégia essencial para mitigar os impactos ambientais negativos

Reduzir o consumo de carne e laticínios é uma estratégia essencial para mitigar os impactos ambientais negativos associados aos sistemas alimentares, incluindo as alterações climáticas, a perda de biodiversidade devido às alterações no uso do solo e o consumo de água doce.

Um estudo apresenta uma avaliação de alternativas à carne e ao leite, integrando análises nutricionais, de saúde, ambientais e de custo, com foco em países de elevado rendimento.

A análise incluiu 24 alternativas à carne e ao leite, comparando-as com produtos de origem animal e com alimentos vegetais não processados. O número total de participantes nos estudos analisados foi de 10000, e a duração dos estudos variou entre 6 meses e 2 anos.

Foram avaliados alimentos como ervilhas, soja, feijão, hambúrgueres vegetais, tempeh e bebidas vegetais.

Resultados:

🥗Alimentos vegetais não processados (ex.: ervilhas, soja e feijão) apresentaram o melhor desempenho em todos os critérios avaliados, incluindo benefícios ambientais, nutricionais e económicos.

🥗Produtos processados à base de plantas (ex.: hambúrgueres vegetais e leites vegetais) ofereceram vantagens substanciais em comparação com produtos de origem animal, mas com menores benefícios ambientais e custos mais elevados em relação aos alimentos não processados.

🥗A substituição de carne e laticínios por alternativas vegetais reduziu o desequilíbrio nutricional e os riscos dietéticos, diminuindo também a mortalidade associada a doenças relacionadas com a dieta.

🥗As alternativas reduziram significativamente o uso de recursos naturais, como água doce, e a poluição associada à produção de alimentos de origem animal.

O estudo mostrou que a substituição de carne e laticínios por alternativas vegetais, especialmente alimentos não processados, oferece múltiplos benefícios ambientais, nutricionais e económicos. No entanto, os produtos processados continuam a ser uma alternativa válida, mas menos vantajosa em termos ambientais e económicos.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A Comissão Europeia autorizou três novas variedades de milho geneticamente modificado


A Comissão Europeia autorizou três novas variedades de milho geneticamente modificado, bem como a renovação das autorizações de três variedades de soja transgénica e de uma variedade de algodão. Estes transgénicos são todos propriedade da Bayer e destinam-se a ser importados como alimentos para consumo humano e animal. Até à data, a Comissão Europeia autorizou a importação de cerca de uma centena de plantas geneticamente modificadas, incluindo milho, soja, colza, algodão e beterraba. Estas autorizações, válidas por dez anos, não permitem o cultivo destas plantas, mas apenas a sua utilização na alimentação humana e animal (milho, soja, colza) ou como agrocombustível (colza, soja). Apenas o milho Mon810 continua a ser autorizado para cultivo, após a renovação da sua autorização em 2017.

A Comissão recorda que “qualquer produto feito a partir destes OGM estará sujeito a regras estritas da UE em matéria de rotulagem e rastreabilidade”, duas obrigações que permitem nomeadamente aos agricultores e consumidores fazer uma escolha informada. Ainda assim, essas autorizações levantam questões. A Comissão Europeia está em processo de desregulamentação de novos OGMs (sem definir seu contorno científico e legal). E, num documento recentemente vazado , a DG Saúde considerou que eles "são tão seguros quanto seus equivalentes convencionais". A DG Saúde também propõe simplesmente não detectar e rastrear esses novos OGMs.

A Comissão Europeia e as empresas vendem-nos o sonho de novos OGM, mais precisos, mais rápidos de desenvolver, mais interessantes para o consumidor nos Estados Unidos, onde as primeiras decisões de desregulamentação de novos OGM datam de mais de dez anos. Os novos OGMs ainda não são cultivados em larga escala, e as questões de precisão e economia de tempo ainda precisam ser demonstradas, além dos discursos publicitários.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Sobre os hábitos alimentares dos Portugueses


Os portugueses são (de longe) os que mais comem peixe e marisco, os que mais comem arroz, os segundos que mais carne comem e dos que mais comem vegetais na Europa Ocidental/Central.
Se bem que na realidade o vegetal comum é a batata e uma salada de alface e tomate. 
Os vegetarianos portugueses ainda são uma minoria.
Comemos e bebemos muito. Ainda estamos a almoçar e já estamos a pensar no jantar.
Por experiência própria confirmo que na Irlanda e Reino Unido abundam alimentos processados. As sanduíches estão cheias de molhos. Uma surpresa foi quando estive na Suécia (que não aprece no mapa) e Finlândia. Realmente recorrem muito aos alimentos processados. A culinária é pobre. Arenques, alce e salmão. De resto é tudo fast-food.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Restaurantes Não São Santuários

por João Pereira Coutinho

Este texto é dedicado ao "Chef" Avilez, que estragou dois magníficos restaurantes, o Tavares e, principalmente, o Belcanto. E como esta praga não é nacional apenas, dedicado também ao Alain Ducasse, que assassinou em tempos o magnífico Louis XV, o restaurante (emblemático) do Hotel de Paris, em Monte Carlo. Felizmente, neste caso, pelo menos continua a magnífica garrafeira.
Restaurantes não são santuários...
Estou cansado da religião dos chefs: restaurantes não são santuários...
O melhor restaurante do mundo?
Ora, ora: é o Eleven Madison Park, em Nova York.
Parabéns, gente.
A sério.
Espero nunca vos visitar.
Entendam: não é nada de pessoal.
Acredito na vossa excelência.
Acredito, como dizem os críticos, que a vossa mistura de "cozinha francesa moderna" com "um toque nova-iorquino" é perfeitamente comparável às 72 virgens que existem no paraíso corânico.
Mas eu estou cansado da religião dos chefs.
Vocês sabem: a elevação da culinária a um reino metafísico, transcendental, celestial.
Todas as semanas, lá aparece mais um chef, com a sua igreja, apresentando o cardápio como se fossem as sagradas escrituras.
Os ingredientes não são ingredientes.
São "elementos".
Uma refeição não é uma refeição.
É uma "experiência".
E a comida, em rigor, não é comida.
É uma "composição".
Já estive em vários desses santuários.
Quando a comida chegava, eu nunca sabia se deveria provar ou rezar.
Os meus receios sacrílegos eram acentuados pelo próprio garçom, que depositava o prato na mesa e, em voz baixa, confidenciava o milagre que eu tinha à minha frente:
– Pato defumado com pétalas de tomate e essências de jasmim.
Escutava tudo com reverência, dizia um "obrigado" que soava a "amém" e depois aproximava o garfo trêmulo, com mil receios, para não perturbar o frágil equilíbrio entre as "pétalas" e as "essências".
Em raros casos, sua santidade, o chef, aparecia no final.
Para abençoar os comensais.
No dia em que beijei a mão de um deles, entendi que deveria apostatar.
E, quando não são santos, são artistas.
Um pedaço de carne não é um pedaço de carne.
É um "desafio".
É o teto da Capela Sistina aguardando pelo seu Michelangelo.
Nem de propósito: espreitei o site do Eleven Madison Park.
Tenho uma novidade para dar ao leitor: a partir de 11 de abril, o Eleven vai fazer uma "retrospectiva" (juro, juro) com os 11 melhores pratos dos últimos 11 anos.
"Retrospectiva."
Eis a evolução da história da arte ocidental: a pintura rupestre de Lascaux; as esculturas gregas de Fídias; os vitrais da catedral gótica de Chartres; os quadros barrocos de Caravaggio; a tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm.
Gosto de comer.
Gosto de comida.
Essas duas frases são ridículas porque, afinal de contas, sou português.
E é precisamente por ser português que me tornei um ateu dos "elementos", das "composições" e das "essências".
A religião dos chefs, com seu charme diabólico, tem arrasado os restaurantes da minha cidade.
Um deles, que fica aqui no bairro, servia uns "filetes de polvo com arroz do mesmo" que chegou a ser o barômetro das minhas relações amorosas: sempre que estava com uma namorada e começava a pensar no polvo, isso significava que a paixão tinha chegado ao fim.
Duas semanas atrás, voltei ao espaço que reabriu depois das obras.
Estranhei: havia música ambiente e a iluminação reduzida imitava as casas de massagens da Tailândia (aviso: querida, se estiveres a ler esta crônica, juro que nunca estive na Tailândia).
Sentei-me.
Quando o polvo chegou, olhei para o prato e perguntei ao dono se ele não tinha esquecido alguma coisa.
"O quê?", respondeu o insolente.
"O microscópio", respondi eu.
Ele soltou uma gargalhada e explicou: "São coisas do chef, doutor."
"Qual chef?", insisti.
Ele, encolhendo os ombros, respondeu com vergonha: "O Agostinho".
O cozinheiro virou chef e o meu polvo virou calamares.
Infelizmente, essa corrupção disseminou-se pela pátria amada.
Já escrevi sobre o crime na imprensa lusa.
Ninguém acompanhou o meu pranto.
É a música ambiente que substituiu o natural rumor das conversas.
É a iluminação de bordel que impede a distinção entre uma azeitona e uma barata.
É o hábito chique de nunca deixar as garrafas na mesa, o que significa que o garçom só se apercebe da nossa sede "in extremis" quando existem tremores alcoólicos e outros sinais de abstinência.
Meu Deus, onde vamos parar?
Não sei.
Mas sei que já tomei providências: no próximo outono, tenciono aprender a caçar.
Tudo serve: perdiz, lebre, javali.
Depois, com uma fogueira e um espeto, cozinho o bicho como um homem pré-histórico.
O pináculo da civilização é tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm?
Então chegou a hora de regressar às cavernas de Lascaux..."
Viva a Lampreia‼️
Viva o cozido à Portuguesa‼️
O pudim de Abade dos Priscos‼️
O tinto‼️
O branco‼️
E... poupem na água que faz muita falta na lavoura🥴

quinta-feira, 23 de março de 2023

Supermercados - roubo organizado


O governo anunciou ontem um plano para conseguir regular os preços dos alimentos, que apesar de a taxa de inflação em fevereiro ter recuado para 8,2% continuam a aumentar. Uma das ações passa por intensificar a fiscalização por parte da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), de forma a perceber "o que está na génese da diferença de preços", explicou ontem o ministro da Economia e do Mar, em conferência de imprensa. António Costa Silva referiu que podem estar em causa "práticas abusivas" e que, a existirem, "têm de ser sancionadas".

"O setor da distribuição e retalho está sempre do lado da solução e não engana os consumidores", garantiu, em reação, a associação que representa o setor, lamentando não ter sido escutada nem sequer ter sido informada da existência do relatório da ASAE. E assegura que o problema está no preço com que os produtos chegam a esta fase da comercialização, rejeitando a ideia de especulação na distribuição.

A acompanhar o ministro da Economia esteve o inspetor-geral da ASAE, Pedro Portugal Gaspar, que apresentou um relatório em que se revela que, desde 2022 e até fevereiro deste ano, o cabaz de bens essenciais subiu cerca de 29%, passando dos 74,9 euros em janeiro de 2022, para 96,44 euros no mês passado.

A ASAE começou a fiscalizar os preços de bens alimentares em súper e hipermercados em setembro do ano passado, levando a cabo operações que envolvem 38 brigadas e 80 inspetores. Desde o início das ações e até ontem, 9 de março, foram instaurados 68 processos-crime de especulação e 105 processos de contraordenação a 960 operadores económicos.

A tomada de posição do Executivo merece o aplauso da DECO Proteste, embora a associação não deixe de lamentar o facto de acontecer quando os preços da alimentação já pesam em demasia nos bolsos dos portugueses. "A monitorização que a DECO Proteste faz tem vindo a mostrar a situação que hoje é vista pelo senhor ministro", acusa Rita Rodrigues. A diretora de Comunicação e Relações Institucionais da associação diz que a iniciativa governamental é importante, mas "fiscalizar, monitorizar preços, reforçar a ASAE e conversar com o setor dos operadores é tudo aquilo que já deveria estar a ser feito há meses".

Rita Rodrigues apela ainda a uma intervenção da Autoridade da Concorrência, já que considera existir "um problema de transparência nos preços". "Este é um setor em que, em toda a cadeia, não há transparência", reforça, assumindo que apesar de a associação não ter uma solução que possa ajudar a baixar os preços rapidamente, "deveria ter existido um ritmo de fiscalização que permitisse não ter chegado a este ponto". E remete para a última análise da DECO Proteste a um cabaz com 63 produtos alimentares essenciais, que ontem valia 230,76 euros. A mesma cesta, a 9 de março de 2022, levava uma subida de 25,66%, ou seja, mais 47,12 euros. É o preço mais elevado desde que se começou a monitorizar este cabaz, a 5 de janeiro de 2022.

Durante a apresentação da estratégia do Executivo para combater a especulação nos preços, assente em seis pontos, António Costa Silva indicou ainda que o governo vai reunir com os operadores de forma a ouvir as suas explicações e verificar se existem discrepâncias que possam configurar práticas abusivas que, a confirmarem-se, terão uma resposta "inflexível" por parte do governo, sublinhou o ministro.

Ao mesmo tempo, o governo diz que vai analisar toda a cadeia de alterações de preços dos alimentos, começando na produção e passando pela distribuição, até quando finalmente os produtos são colocados na prateleira. A PARCA - Plataforma de Acompanhamento nas Relações na Cadeia Agroalimentar vai também ser convocada.

APED garante que setor está a "absorver custos"
Em comunicado, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) lamentou "que a ASAE tenha produzido um relatório do qual o setor não tem conhecimento nem foi convidado a dar contributo", embora tenha colaborado sempre com a agência. E diz que, perante as informações prestadas pelo ministro da Economia, "é preciso falar verdade aos portugueses e explicar com clareza todos os fatores que levam ao aumento de preços dos alimentos". A associação revela que esteve reunida com o governo na quarta-feira, tendo explicado o motivo da subida e o que se passa em toda a cadeia de valor.

Na conferência de imprensa de ontem, Pedro Portugal Gaspar disse que é necessário saber se existem indícios de prática de especulação porque, de acordo com os dados revelados pela ASAE, a margem média de lucro bruto da cebola, por exemplo, subiu mais de 50% e a dos ovos, laranjas, cenouras e febras de porco aumentou entre 40% e 50%.

A APED garante que a distribuição está a comprar os produtos cada vez mais caros aos fornecedores (indústria e produção) e que estes aumentos, no início da cadeia, "refletem a subida dos custos dos fatores de produção decorrentes dos aumentos do preço dos fertilizantes, rações e outros custos relevantes". A título de exemplo: o leite "está 75% mais caro nas lojas, precisamente o aumento que os fornecedores passaram para a distribuição" - sendo este um produto com margens mínimas. O ministro da Economia havia revelado que os custos com fertilizantes, combustíveis e eletricidade baixaram, não se podendo imputar a subida dos alimentos a estes fatores.

A APED reitera: "O setor da distribuição e retalho está sempre do lado da solução e não engana os consumidores", e que o negócio da distribuição alimentar se centra no volume e não na margem. A margem média do setor do retalho alimentar é, em todo o mundo, na ordem dos 2 a 3%, que compara com margens da indústria na ordem dos 15 a 20%, adianta. A associação assegura que o retalho alimentar não aumentou as margens de comercialização, tendo, ao invés, conseguido reinventar-se para "absorver o acréscimo generalizado dos custos operacionais, evitando que o ónus da inflação em geral para o consumidor fosse muito superior".

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quarta-feira, 8 de março de 2023

Recipientes de plástico podem conter PFAS e estão a entrar nos alimentos


Pesquisadores da Universidade de Notre Dame estão adicionando à sua lista de produtos de consumo que contêm PFAS (substâncias per e polifluoroalquil), uma classe tóxica de compostos de flúor conhecidos como "produtos químicos eternos".

Num novo estudo publicado na Environmental Science & Technology Letters , recipientes de plástico de polietileno fluorado de alta densidade (HDPE) - usados ​​para produtos de limpeza doméstica, pesticidas, produtos de higiene pessoal e, potencialmente, embalagens de alimentos - testaram positivo para PFAS.

Após um relatório conduzido pela EPA que demonstrou que esse tipo de recipiente contribuiu com altos níveis de PFAS para um pesticida, esta pesquisa demonstra a primeira medição da capacidade do PFAS de lixiviar dos recipientes para os alimentos, bem como o efeito da temperatura na lixiviação processo.

Os resultados também mostraram que os PFAS eram capazes de migrar dos recipientes fluorados para os alimentos, resultando numa rota direta de exposição significativa a produtos químicos perigosos , que têm sido associados a vários problemas de saúde , incluindo cancro de próstata, rim e testículo, baixo peso ao nascer, imunotoxicidade e doença da tiróide.

"Não apenas medimos concentrações significativas de PFAS nesses contentores, como também podemos estimar os PFAS que estavam vazando, criando um caminho direto de exposição", disse Graham Peaslee, professor de física no Departamento de Física e Astronomia da Notre Dame e um autor do estudo.

É importante observar que esses tipos de recipientes não são destinados ao armazenamento de alimentos , mas nada impede que sejam usados ​​para armazenamento de alimentos no momento. Embora nem todo plástico HDPE seja fluorado, observaram os pesquisadores, muitas vezes é impossível para um consumidor saber se um recipiente passou por esse tratamento. E, de fato, acrescentou Peaslee, se substâncias como pesticidas forem armazenadas nesses recipientes e depois usadas em plantações agrícolas , esses mesmos PFAS entrarão nas fontes de alimentação humana dessa maneira.

Em 2021, a EPA anunciou seu Roteiro Estratégico PFAS - prometendo agir sobre a exposição generalizada ao PFAS. O plano inclui o desenvolvimento de uma compreensão mais abrangente dos efeitos na saúde e no meio ambiente da exposição ao PFAS, evitando mais contaminação do ar, terra e água e abordando a necessidade de limpeza do PFAS já existente no meio ambiente.

O PFAS é frequentemente usado em associação com produtos resistentes a manchas ou à água. Para o estudo, Peaslee e a estudante de pós-graduação Heather Whitehead testaram recipientes de HDPE que foram tratados com flúor para criar uma camada fina de um fluoropolímero, como um meio de conferir resistência química e melhorar o desempenho do recipiente durante longos períodos de armazenamento.

Embora esses materiais geralmente permaneçam na parede do recipiente, o processo de fabricação pode gerar muitas moléculas menores de PFAS, que não são polímeros. Experimentos foram projetados para medir a capacidade desses produtos químicos de migrar do recipiente para amostras de diferentes alimentos e solventes.

A análise dos recipientes encontrou níveis de partes por bilião de PFAS que podem migrar para solventes e matrizes de alimentos em menos de uma semana.

“Medimos as concentrações de PFOA que excederam significativamente o limite estabelecido pelos Limites Consultivos de Saúde de 2022 da EPA”, disse Peaslee. "Agora, considere que não apenas sabemos que os produtos químicos estão migrando para as substâncias armazenadas neles, mas também que os próprios recipientes retornam ao meio ambiente por meio de aterros sanitários. O PFAS não é biodegradável. Ele não desaparece. Uma vez que esses produtos químicos são usados, eles chegam às águas subterrâneas, entram em nossos sistemas biológicos e causam problemas de saúde significativos”.

Peaslee e Whitehead mediram as concentrações de PFAS em azeite , ketchup e maionese que estiveram em contato com os recipientes fluorados por sete dias em várias temperaturas. Com base na quantidade encontrada nas diferentes amostras de alimentos, o estudo estima que PFAS suficiente pode ser ingerido por meio de alimentos armazenados nos recipientes para representar um risco significativo de exposição.

Os recipientes são os produtos mais recentes de uma longa lista daqueles testados por Peaslee e o seu laboratório em Notre Dame, incluindo cosméticos, equipamentos de combate a incêndios, uniformes escolares e embalagens de fast food.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Orgânico versus Eco-pontuação. IFOAM recorre ao Tribunal de Paris

O movimento orgânico europeu IFOAM recorreu ao Tribunal de Justiça em Paris para pedir a proibição do uso da rotulagem ambiental Eco-score em produtos alimentícios. Este sistema de informação, reclamação, pode ser injusto e enganoso para os consumidores.

IFOAM, pare o Eco-pontuação
A Organics Europe e a Associação Francesa de Membros da IFOAM entraram com uma ação contra os criadores e usuários do selo Eco-score, ou seja,

– ADEME, a agência francesa para a transição ecológica,

– YUCA, empresa proprietária do aplicativo YUKA,

– a empresa ECO2 INITIATIVE, gestora da plataforma ETIQUETTABLE,

– a associação OPEN FOOD FACTS, também e em particular como gestora da plataforma homónima.

Risco greenwashing
Estes movimentos orgânicos repetidamente protestaram contra o modelo de rotulagem ambiental Eco-score, destacando que paradoxalmente penaliza os alimentos mais virtuosos para a proteção ambiental, como havíamos relatado. (1)

O esquema de avaliação ambiental elaborada pela ECO2, na verdade, considera apenas a pegada de carbono dos produtos. Com isso, pode dar nota favorável até mesmo para produtos da agroindústria intensiva que disseminam venenos, contra o investimento em painéis solares. Um conceito evidentemente distante da agroecologia, que protege o solo e o meio ambiente.

Reclamação IFOAM
Rotulagem ambiental com pontuação ecológica, eles especificam IFOAM Organics Europa e a Associação Francesa de Membros da IFOAM, é ilegítimo porque contrário ao artigo 30 do Regulamento (UE) nº 2018/848 (ex-artigo 23 do Regulamento (CE) nº 834/2007) sobre produção orgânica e rotulagem de produtos orgânicos, pode constituir uma prática comercial enganosa em detrimento dos consumidores e do mercado.
Particularmente, e entre outras coisas, devido ao seu formato, pois  associa ilicitamente o diminutivo "Eco" a produtos não orgânicos certificados e  é considerado susceptível de criar confusão entre os consumidores, não apenas na França, mas mais amplamente na Europa, entre produtos de origem orgânica e os de produção não orgânica.
A metodologia de classificação usada, que é principalmente e essencialmente baseado no banco de dados Agribalyse e no Avaliação do ciclo de vida (LCA) da ADEME, bem como a metodologia PEF (Pegada Ambiental do Produto) recentemente questionado pela Comissão Europeia no âmbito do projeto de diretiva sobre os estados verdes que:
  1. não considera todas as dimensões objetivas que são essenciais para o desenvolvimento de uma exposição ambiental confiável de produtos alimentícios,
  2. em última análise, favorece a produção intensiva e convencional, em vez de uma transição de sistemas de produção para processos que respeitam o meio ambiente e a biodiversidade,
  3. não é adequado para fornecer aos consumidores informações relevantes sobre os impactos ambientais dos produtos alimentares.
Invalidade de Marcas Relacionadas
Mais duas ações iniciativas foram iniciadas pela IFOAM Organics Europe e pela Associação Francesa de Membros da IFOAM.

– a primeira, intentada perante o Diretor Geral do INPI, para pleitear a nulidade da marca “ECO SCORE” (n°4618707) registrada a pedido do ADEME,

– o segundo, interposto perante o EUIPO, para contribuir como terceiro para a apreciação do pedido de registo como marca da União Europeia (n°018750670) “ECO IMPACT” apresentado pela FOUNDATION EARTH.

Mais um ataque à agricultura orgânica
"Em vez de lutar contra o greenwashing, esquemas de rotulagem como o Eco-score contribuem para isso. Eles potencialmente enganam os consumidores quanto à natureza orgânica ou não orgânica dos produtos alimentícios em que são exibidos e favorecem produtos de agricultura intensiva.

O movimento orgânico está preocupado com a disseminação de tais esquemas de rotulagem em vários países da UE.

É mais importante do que nunca informar melhor os consumidores sobre o valor ambiental de suas escolhas alimentares. Mas isso deve ser feito em conformidade com a legislação europeia sobre agricultura biológica no que diz respeito aos termos utilizados e com base em metodologias que tenham em conta todas as externalidades ligadas aos diferentes métodos de produção agrícola, em particular sobre a biodiversidade”, esclarece Jan Plagge, presidente da IFOAM Organics Europe.

"Segundo o Tribunal de Contas em seu recente relatório, os benefícios da agricultura orgânica para o meio ambiente estão claramente estabelecidos na literatura científica e seu desenvolvimento é a melhor maneira de alcançar uma transição agroambiental de nossos sistemas alimentares.

Num contexto já difícil de inflação para produtores e consumidores, os ataques à agricultura orgânica devem ser interrompidos, sejam eles ligados ao uso de termos enganosos ou a metodologias tendenciosas. Termos que são permitidos apenas em alimentos orgânicos sob os regulamentos da UE não devem ser usados ​​para outros fins e, certamente, não em produtos alimentícios prejudiciais ao meio ambiente, como é o caso atual do Eco-score.”, comenta Jacques Caplat, presidente da Associação Francesa de Membros da IFOAM.

(1) Dario Dongo, Marta Strinati. Rotulagem ambiental, o Planet-score estreia em França. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 17.11.21

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

O assassinato não tão suave da estratégia Farm to Fork (do Prado ao Prato), da UE


Fonte: EU Observer, 16.12. 2022 

Quando se trata de política europeia, pode-se dizer que o espírito de George Orwell está em Bruxelas atualmente.

Uma ONG - ou grupo de frente - chamada "Fight Impunity" está no centro de um dos maiores escândalos de corrupção da história do Parlamento Europeu.

Os cientistas repetem que o 'uso intenso de pesticidas químicos na agricultura está fortemente ligado ao declínio de insetos, pássaros, biodiversidade em sistemas terrestres e aquáticos e impactos prejudiciais na saúde pública global' (Foto: Wikipedia)

E na segunda-feira (19 de dezembro) o Conselho Europeu está prestes a matar suavemente a principal parte legislativa da estratégia Farm to Fork e Biodiversidade em nome da segurança alimentar.

Os ministros da UE e seus especialistas estão, na COP15 em Montreal, a negociar um tratado internacional para uma ação ousada para impedir a dramática diminuição da biodiversidade a ser anunciada na segunda-feira.

Mas, no mesmo dia, os seus colegas em Bruxelas concordarão em dar um passo que atrasará e inviabilizará a proposta legislativa mais significativa da Comissão Europeia para proteger a biodiversidade.

O ridículo argumento do Conselho é: "não podemos nos permitir quaisquer políticas destinadas a tornar a produção de alimentos mais sustentável por causa da guerra na Ucrânia".

Mais de 500 cientistas e mais de 200 ONGs estão chamando-os.

Não somos ingénuos e tememos que eles permaneçam surdos e cegos: ou como os ministros europeus estão prestes a escrever sua versão de notícias falsas e aumentar a esquizofrenia da UE.

Então, infelizmente, segunda-feira pode ser o dia terrível em que o lobby agroquímico da Croplife e o lobby do agronegócio de Copa-Cogeca , com a ajuda de seus aliados políticos do Partido Popular Europeu e da presidência checa, conseguirão o que querem e deterão as ambições verdes legais da Farm to Fork Strategy, um pilar essencial do Green Deal apresentado há três anos por Ursula von der Leyen, como o "momento homem na lua" da Europa.

Em junho, o comissário da UE Frans Timmermans apresentou a proposta legislativa europeia, Regulamento de Uso Sustentável , (SUR) para alcançar uma redução de 50% de pesticidas até 2030.

Isso para evitar que o interior da Europa em um futuro próximo se transforme em uma paisagem lunar: a Comissão Européia rotula 60-70 por cento dos solos como "insalubres".

E os cientistas repetem hoje que o "uso intenso de pesticidas químicos na agricultura está fortemente ligado ao declínio de insetos, pássaros, biodiversidade em sistemas terrestres e aquáticos e impactos prejudiciais na saúde pública global".

Eles acrescentam na declaração de hoje que "por essa razão, a redução global do uso de pesticidas é um dos principais pontos de negociação durante a Cúpula da Biodiversidade da ONU (COP15) em Montreal".

Em total contraste com esses fatos, o lobby tóxico para descarrilar as ambições do Farm to Fork - por exemplo, usando estudos científicos parciais e instrumentalizados sobre a produtividade agrícola - conseguiu obter seu pedido de uma avaliação de impacto extra na agenda política logo após o início do Guerra da Ucrânia .

O Conselho Agrícola solicitou uma avaliação de impacto adicional à avaliação minuciosa realizada pela Comissão antes do início da guerra na Ucrânia.

De acordo com os cientistas, "o ganho de conhecimento das adições necessárias à avaliação de impacto completa realizada pela Comissão Europeia (no SUR) é altamente questionável, pois os desafios de longo prazo enfrentados pelo sistema alimentar da UE e o estado da biodiversidade não mudaram desde o início da guerra na Ucrânia".

Ou nas palavras de Timmermans: "Usar a guerra na Ucrânia para diluir propostas e assustar os europeus fazendo-os acreditar que sustentabilidade significa menos comida é, francamente, bastante irresponsável.

"Porque as crises do clima e da biodiversidade estão diante de nós. E todo cidadão europeu está vendo isso diariamente agora, onde quer que você viva. Sejamos também bastante diretos: a ciência é muito clara: é isso que ameaça a segurança alimentar. Isso é o que ameaça nossa segurança alimentar a longo prazo."

O principal signatário e copresidente do Conselho Mundial de Biodiversidade, Josef Settele, disse na semana passada: "Os atuais esforços políticos para abandonar as metas de sustentabilidade do Acordo Verde Europeu, incluindo a redução do uso de pesticidas e a restauração da biodiversidade, não nos protegem de a atual crise alimentar, mas levar a um agravamento e tornar a crise permanente".

De fato, na primavera, o grupo de cientistas publicou a declaração de Potsdam - na qual enfatizava "a necessidade de tomar ações do lado da demanda para preparar o sistema alimentar da UE para o futuro, mitigando assim as pressões sobre a biodiversidade global e sustentando a base por muito tempo -segurança alimentar a prazo".

E a avaliação de impacto extra não parece tão dramática que se poderia pensar. Mas isso causaria tanto atraso que a proposta SUR não será negociada, votada ou implementada antes das eleições de 2024 da UE. E assim estar fora da mesa.

Isso também seria um tapa na cara dos 1,1 milhão de cidadãos da UE que assinaram a recente iniciativa oficial de cidadãos europeus 'Save Bees and Farmers Initiative'

'Período sensível'

Num documento interno descrevendo uma reunião com a DG Agri em 10 de outubro, Pekka Pesonen, chefe da Copa-Cogeca, reclama do fato de que o último discurso sobre o estado da União de von der Leyen "não incluiu nenhuma referência direta à agricultura e/ou comida segura."

Sobre a SUR, a Copa-Cogeca considera "a proposta de metas insustentável e deve ser rejeitada".

Pesonen destaca que o setor passa por um “período muito sensível” de mercado pela incerteza em muitas frentes, como o preço da energia e também de outros insumos como fertilizantes e …a guerra da Ucrânia.

Tudo isso Personen argumenta preocupações sobre a sustentabilidade econômica de alguns negócios. A imposição de novas medidas especialmente no âmbito do SUR é uma grande preocupação para os agricultores, afirma Pesonen, porque "puxará muitos deles para fora do mercado".

Pesonen deve saber que, apesar de centenas e centenas de bilhões de dinheiro dos contribuintes para a PAC, um terço dos agricultores da UE faliram e sua renda média é 30% menor do que a renda média da UE.

Os preços de pesticidas e fertilizantes subiram drasticamente nos últimos 20 anos. O agronegócio dá lucros enormes, os agricultores e a biodiversidade literalmente desaparecem.

Os cientistas escrevem que "é preocupante observar que vários governos de estados membros e deputados do Parlamento Europeu pediram o atraso e/ou atenuação do novo regulamento de pesticidas. Citando questões questionáveis ​​de 'segurança alimentar' e 'resiliência'".

A menos que pelo menos um deles acorde, o Conselho de Energia da UE aprovará na próxima segunda-feira o chamado ponto A em sua agenda, pedindo a avaliação de impacto extra. Parece uma coisa técnica, mas é altamente política e, de alguma forma, pode ser um momento decisivo para o Green Deal da UE.

De acordo com as regras de procedimento do Conselho, seria preciso um ministro corajoso para pedir formalmente que o item fosse retirado da ordem do dia.

Enquanto na COP15 em Montreal a comunidade mundial tenta fechar um acordo para proteger a natureza e os ecossistemas e obter um 'Acordo de Paris' para preservar o que resta da biodiversidade, em Bruxelas eles fazem o oposto. Exatamente no mesmo dia.

Orwelliano na melhor das hipóteses, tóxico e cínico com certeza.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Nanoplásticos podem viajar da alface para larvas e peixes



É sabido que os microplásticos transportados pela água podem se acumular nos tecidos dos peixes e eventualmente ser engolidos pelas pessoas. No entanto, há outra maneira de essas minúsculas partículas acabarem na cadeia alimentar: da terra à vegetação, dos insetos aos peixes.

Em um novo estudo da University of Eastern Finland , os pesquisadores aplicaram a técnica a um modelo de cadeia alimentar contendo três níveis tróficos (posições na cadeia alimentar) alface cultivada em solo contendo poliestireno e partículas de PVC (policloreto de vinila) de 250 nanómetros de largura. Esses materiais foram selecionados porque representam uma parcela considerável da poluição plástica atualmente presente no ambiente marinho.

As plantas foram colhidas após quatorze dias e alimentadas com larvas de mosca-soldado-negra, frequentemente utilizadas como fonte de proteína na alimentação animal. Após cinco dias comendo alface, as larvas foram alimentadas pelos peixes-barata (peixes insetívoros) por mais cinco dias. Em seguida, os peixes, larvas e plantas de alface foram dissecados e analisados ​​por microscopia electrónica de varredura.

Foi descoberto que as raízes das plantas primeiro absorveram ambos os tipos de nanopartículas antes de se acumularem nas folhas. Algumas das partículas dessas folhas entraram na boca e nas entranhas das larvas quando elas as comeram. As partículas persistiram mesmo depois que as larvas tiveram 24 horas para esvaziar o estômago.

As nanopartículas então se moveram das larvas para os peixes, onde foram encontradas predominantemente no fígado, mas também nos tecidos do intestino e brânquias. Nenhuma partícula foi encontrada no tecido cerebral.

Vale a pena notar que nenhum dos organismos – alface, larvas, peixes – apresentou efeitos adversos ao absorver as nanopartículas. No entanto, algumas investigações levantaram a hipótese de que as nanopartículas de plástico podem, no mínimo, acumular patógenos de ambientes contaminados e, posteriormente, transmitir esses patógenos a animais ou plantas.

O Dr. Fazel Monikh, principal autor do estudo, concluiu:

“Os nossos resultados mostram que a alface pode absorver nanoplásticos do solo e transferi-los para a cadeia alimentar. Isso indica que a presença de minúsculas partículas de plástico no solo pode estar associada a um risco potencial à saúde de herbívoros e humanos, se esses achados forem generalizáveis ​​para outras plantas e culturas e para ambientes de campo. No entanto, mais pesquisas sobre o tema ainda são necessárias com urgência.”

O estudo foi publicado no Nano Today em 9 de setembro de 2022.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Já em 2020 - A maioria das colheitas europeias alimentam animais e carros, não pessoas


The vast majority of European crop production is used to feed animals and create biofuels, rather than feeding people, new analysis has found. At the same time, Europe is over-producing meat and dairy, with EU production of beef, pork and poultry 4%, 16% and 8% higher than consumption respectively, and production of dairy 14% higher than consumption.

The analysis found that in, 2018/2019, 62% of all cereal crops were used to feed animals and 12% used in industry and as biofuel, with only 23% going to feed people. A striking 88% of soy and 53% of protein-rich pulses were also used for animal feed.

This imbalance in production and consumption is driven by a focus on crops for profit, not food for people, said Greenpeace. Greenpeace is calling on the EU to refocus its food and farming policy to prioritise local production of the kind of food Europe needs, farmed in a way that guarantees a fair price for farmers, affordable and healthy food for people, and protects the environment.

Greenpeace EU agriculture and forest campaigner Sini Eräjää said: “EU leaders talk big about food security, but they back policies that overproduce meat, rely on massive soy imports and burn food as fuel. European farmers can produce enough healthy, affordable food for Europeans, but now they’re being squeezed to do bulk production to supply export markets. We need a food and farming policy that ensures farmers make a good living, people can afford healthy food, and that nature doesn’t suffer in the process – the current plans sacrifice all three in favour of corporate profits.”

The European Parliament will vote on the EU’s common agricultural policy in its plenary next week. The latest compromises struck by the major parties, EPP, S&D and Renew Europe, fail to address the disproportionate support given to industrial animal farming and feed production, and include no measures to limit public spending on factory farming. The EU is also currently debating new free trade agreements such as EU-Mercosur, that would only further encourage the industrialisation of animal farming and the focus on bulk production for exports.

sábado, 5 de novembro de 2022

Como a agricultura industrial molda nossa alimentação


Poucas empresas têm o controle de quase metade das sementes vendidas comercialmente no mundo. Elas conseguem ditar como agricultores cultivam e quais alimentos vão parar no nosso prato. Mas como chegamos a esse ponto? E dá para reverter essa situação?

Ver também:
1. Dá para alimentar toda a população sem usar pesticidas?
A agricultura há anos vem se mostrando dependente de pesticidas para garantir a oferta abundante e diversificada de comida. São substâncias químicas que podem causar problemas em toda cadeia de produção, inclusive para o consumidor. Não existiria uma forma de manter a rentabilidade agrícola a um menor custo ambiental – e humano? 

2. Quão perigoso é o glifosato?
- O quão perigoso é o glifosato? O glifosato é um herbicida usado em todo o mundo, no entanto pesquisas mostram algumas desvantagens do uso da substância. Estudos concluíram que o agrotóxico é prejudicial para microrganismos e pode causar cancro.