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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Crise Climática: Por Que Ter Esperança É Racional

Há muitos motivos para desesperar: a nossa terra verdejante e aprazível está seca e acastanhada, as albufeiras estão depletadas e os incêndios florestais estão a fustigar o Reino Unido, a Europa, Canadá e os EUA. Mas há muitos mais motivos para não desesperar: o desespero alimenta-se a si próprio; o desespero desarmar-nos-á; o desespero é aquilo que os sacanas querem que sintas. Mas, acima de tudo, o desespero é irracional. Deixa-me explicar porquê.

Por mais sofisticadas que sejam as nossas ferramentas de previsão, simplesmente não temos forma de saber o que vem a seguir. Tal como o clima, tal como qualquer ecossistema, a sociedade é um sistema complexo. As suas propriedades e respostas adaptativas não podem ser previstas estudando os seus componentes de forma isolada, independentemente do brilhantismo dos cientistas sociais e dos futurólogos. Acontecem coisas — coisas inesperadas —, por vezes a uma velocidade espantosa. Dito de outro modo, a sociedade tem pontos de rutura: pode passar rapidamente de um estado de equilíbrio para outro.

Veja-se a Irlanda, para dar apenas um exemplo. Até há poucas décadas, a República da Irlanda era uma teocracia católica. Tinha sido assim desde os anos 1920. Aliás, durante a maior parte do século XX, a Igreja Católica parecia estreitar cada vez mais o seu controlo. Quebrar esse controlo era algo quase inimaginável. Mas depois uma série de acontecimentos combinou-se de formas inesperadas. Uma sucessão de escândalos terríveis veio à tona: violência sexual sistemática, o rapto de mulheres e crianças, trabalho escravo e mortalidade em massa em instituições da Igreja. As viagens e os meios de comunicação social permitiram ao povo irlandês ver como era a libertação social e sexual noutros países. A comunicação social e os fóruns internacionais permitiram que ativistas corajosos, cujas vozes tinham sido suprimidas durante muito tempo, fossem ouvidos de forma mais ampla. As muralhas caíram mais depressa do que alguém poderia ter adivinhado. Em pouco tempo, tanto o casamento igualitário como o direito ao aborto foram legalmente sancionados: uma mudança que tinha sido quase inimaginável.

O mesmo se pode dizer do colapso do comunismo de Estado e do fim de quase todos os impérios e monarquias que outrora pareciam inabaláveis. O império dos combustíveis fósseis não é exceção.

O sistema complexo a que chamamos sociedade tem dois estados de equilíbrio: o impossível e o inevitável. A mudança que queremos parece sempre impossível. Voto para as mulheres? Perdeu o juízo. Independência para a Índia? A Grã-Bretanha nunca a vai largar. Direitos civis? Ridículo! Mas com pressão sustentada, um pouco de sorte e uma mudança de circunstâncias, pumba!, o impossível acontece. Depois toda a gente diz: “Pois, era inevitável, não era?”

Acho que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de rutura no colapso climático. Durante anos disseram-nos: “Estão a pedir a Lua. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.” Uma parte de mim acreditou nisso. Mas agora, como a reportagem do Guardian demonstrou, subitamente os combustíveis fósseis são muito mais caros do que as energias renováveis. Subitamente, são as tecnologias verdes que estão a gerar imenso emprego e rendimento. Subitamente, barreiras tecnológicas que pareciam insuperáveis ruíram. Subitamente, os políticos financiados pelos combustíveis fósseis parecem ultrapassados, ridículos, corruptos. Subitamente, estamos a acordar para a necessidade de uma ação urgente, à medida que os choques de calor reforçam a mensagem.

O problema de um ponto de rutura, seja ele positivo ou negativo, é que nunca se sabe de antemão onde ele possa estar. Só se consegue ver em retrospetiva. Se já causámos tanto aquecimento global ao ponto de o sistema de correntes do Atlântico estar destinado a colapsar, ou de um fracasso em cascata da floresta amazónica estar assegurado, ainda não sabemos. Mas, da mesma forma, se as condições necessárias para uma grande mudança social já estiverem alinhadas, não o saberemos até o sistema mudar.

Este tipo de mudança rápida exige um público informado por fontes de comunicação independentes, jornalistas comprometidos com os factos e não com interesses corporativos. O modelo aberto e financiado pelos leitores do Guardian é um antídoto claro para outros meios de comunicação - tanto a imprensa dos bilionários como os radiodifusores de serviço público - que estão ativamente a esquivar-se a este desafio, reduzindo a sua cobertura sobre o clima numa altura em que ela nunca foi tão crítica.

Por isso, no Guardian e não só, continuamos a pressionar, continuamos a expor, continuamos a demonstrar como a mudança pode acontecer. E, por razões inteiramente racionais, continuamos a ter esperança. Por favor, considera apoiar o nosso jornalismo hoje mesmo.

A maior questão com que nos confrontamos, possivelmente a maior questão que a humanidade já enfrentou, é saber se conseguimos atingir os pontos de rutura sociais antes de atingirmos os pontos de rutura ambientais.

Fonte

quarta-feira, 25 de março de 2026

Melinda Janki: Como enfrentamos uma gigante petrolífera - e vencemos


As empresas petrolíferas podem parecer invencíveis, mas são mais vulneráveis ​​do que se imagina, afirma a advogada Melinda Janki, especialista em justiça climática e ambiental. Ela conta a história de como enfrentou a ExxonMobil no seu país natal, a Guiana, conquistando vitórias históricas contra a gigante petrolífera — e provando que podemos transformar as leis existentes em ferramentas poderosas para a mudança.

"Se intentar uma ação judicial por motivos ambientais e perder, não deverá suportar as custas da outra parte." - Melinda Janki

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Colômbia proíbe todos os novos projetos de petróleo e mineração no seu território


Colombia will no longer approve new oil or large-scale mining projects in its Amazon biome, which covers 42% of the nation’s territory, according to a Nov. 13 statement by its environment ministry.

Acting Environment Minister Irene Vélez Torres said the entire Colombian Amazon will be made a reserve for renewable natural resources. She made the announcement at a meeting of ministers with the Amazon Cooperation Treaty Organization, during COP30, the U.N. climate summit taking place in Belém, Brazil.

“This declaration is an ethical and scientific commitment. It seeks to prevent forest degradation, river contamination and biodiversity loss that threatens the continent’s climate balance,” Vélez said.

She also called on other Amazonian nations to adopt similar protections, highlighting that Colombia controls just 7% of the Amazon biome. Across the Amazon, 871 oil and gas blocks cover an area roughly twice the size of France; 68% of the blocks are still in the study or bidding phases.

“We do this not only as an act of environmental sovereignty, but as a fraternal call to the other countries that share the Amazon biome, because the Amazon does not know borders and its care requires us to move forward together,” Vélez added.

Brazil, which controls nearly 60% of the Amazon, has moved in the opposite direction over the past year, despite successfully cracking down on deforestation. The nation auctioned off several oil blocks near Indigenous lands and approved drilling for an offshore site at the mouth of the Amazon River.

Peru is courting foreign oil companies to restart production at Lot 192, a huge Amazonian crude oil site in in the north of the country. The Ecuadorian government is planning to auction off 49 oil and gas projects worth more than $47 billion, despite protests.

In Colombia, 43 oil blocks and 286 mining requests haven’t yet broken ground. The new measure, the ministry says, will prevent these projects from going forward. “Their activation could put the climate balance of the continent at risk,” the environment ministry wrote in a statement.

At another COP30 event, Vélez criticized a mechanism that allows corporations to sue governments for losses caused by environmental policies, saying it infringes on state sovereignty. Such a system, she noted, makes it difficult for a nation to outlaw existing extractive industries without facing significant penalties.

“Future generations must be able to find nature in a healthy state, the way we have known it,” María Soledad Hernández, coordinator of the sustainability program with the Colombia-based Amazonian Institute for Scientific Research, said in a video statement.

“Talking about conservation does not mean talking about not making use of it. Talking about conservation means being sustainable, being responsible and having activities that are balanced and in harmony with nature,” she added.

A 2023 U.N. report called “Paying polluters” found that the ISDS, referred to as a “secretive international arbitration process,” had awarded more than $100 billion to fossil fuel and mining industries.

The report highlighted a case of three Australian mining corporations seeking $37 billion from the Republic of Congo for revoking their iron ore mining permits, citing project delays. The amount claimed is more than twice the nation’s annual GDP.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Novo relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade

Pode descarregar aqui

Para além da denúncia do Intercept, outro relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade.

A investigação de 94 páginas analisou oito grandes companhias — Bayer, BTG Pactual, Cosan, Itaú, Marfrig/MBRF, Norsk Hydro, Suzano e Vale — e concluiu que essas empresas têm usado a COP30 como vitrine para reforçar as suas marcas sob o discurso da “transição verde”, apesar de acumularem extensos passivos ambientais. O documento aponta que a conferência vem sendo moldada para favorecer projetos de descarbonização e créditos de carbono, que transformam a preservação ambiental em oportunidade de mercado.

Segundo o relatório, as empresas vêm financiando pavilhões e eventos paralelos em Belém, como a AgriZone, patrocinada pela Bayer, e a Estação do Desenvolvimento, ligada à Cosan, muitas vezes em parceria com ministérios e governos locais. A prática levanta suspeitas sobre conflitos de interesse, uma vez que os mesmos órgãos públicos responsáveis por fiscalizar essas companhias participam dos espaços financiados por elas.

Um exemplo citado é o fato de que o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, deverá despachar da AgriZone, espaço custeado pela Bayer, durante a conferência. Para os pesquisadores, essa aproximação entre poder público e corporações enfraquece a independência das negociações e legitima a agenda empresarial dentro da COP.

Greenwashing
Além da presença física nos espaços da COP30, o relatório aponta uma estratégia coordenada de greenwashing estrutural. As corporações investem pesado em comunicação e patrocínios à mídia para se apresentarem como líderes da sustentabilidade.
Cinco das oito empresas analisadas financiaram a cobertura jornalística da COP30 em grandes veículos de comunicação, como Globo, Folha, Estadão, CNN e Liberal. Há ainda o registro de treinamentos e viagens para jornalistas custeados por Itaú e Norsk Hydro, com o objetivo de influenciar a percepção pública sobre seus projetos “verdes”.

As contradições
O relatório dedica capítulos específicos para ilustrar as contradições das empresas que se apresentam como protagonistas da agenda climática.
A Bayer, por exemplo, é acusada de violações de direitos em comunidades da América do Sul e de pulverizar agrotóxicos sobre aldeias do povo Ava Guarani, em Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, lidera iniciativas de “agricultura tropical” e promove uma nova “Revolução Verde” na COP30.
Já a Vale é lembrada pelos desastres de Mariana e Brumadinho. Segundo o estudo, enquanto a mineradora investe R$ 430 milhões em negócios de impacto socioambiental, enfrenta ações judiciais relativas a degradação ambiental, contaminação de poços e danos à saúde pública, cujo valor é 65 vezes maior que o investimento.

Os bancos Itaú e BTG Pactual, embora se apresentem como financiadores da restauração florestal, ocultam o histórico de apoio a desmatadores e setores de alto impacto ambiental. No caso do BTG, o relatório destaca a comercialização de créditos de carbono baseados em plantações comerciais de eucalipto e pinus.

A influência empresarial também se manifesta na criação de coalizões e grupos de lobby que buscam legitimar a presença corporativa nas negociações climáticas. Entre elas estão a Sustainable Business COP30 (SBCOP), a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.) e a Brazil Restoration and Bioeconomy (BRB) Finance Coalition, todas patrocinadas por bancos e mineradoras.

Essas articulações, segundo o relatório, consolidam a financeirização da natureza e deslocam o debate climático para um eixo econômico, em detrimento de pautas de justiça ambiental e dos direitos de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que historicamente protegem os ecossistemas e agora lutam por espaço dentro da conferência.

COP30 favorece protagonismo de corporações
O relatório “A COP dos Lobbies” alerta que, sem mecanismos robustos de transparência e regulação do lobby empresarial, as conferências do clima correm o risco de se tornarem plataformas de legitimação do greenwashing corporativo.

Para os pesquisadores, o protagonismo das corporações na COP30 ameaça o caráter público e científico das negociações, transformando a conferência em um evento voltado mais à reputação empresarial do que à busca por soluções reais para a crise climática.

O estudo sinaliza que os verdadeiros defensores da natureza, as comunidades tradicionais, cientistas e movimentos sociais, estão sendo empurrados para os espaços secundários, enquanto os principais poluidores conduzem o debate global sobre o clima.

A COP30 é patrocinada por empresas com notórias responsabilidades em violações e desastres ambientais



Primeira cúpula do clima na Amazônia, a COP30 deveria ser um espaço de discussão de soluções e metas para enfrentar a crise climática. Mas ela pode virar palanque de quem quer lucrar mais enquanto destrói o planeta. Nossa cobertura mostra os interesses corportativos e políticos por trás do discurso de sustentabilidade promovido durante a COP30.

Envolvida nos rompimentos das barragens de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, duas das principais tragédias socioambientais do Brasil na última década, a Vale é a principal patrocinadora da cobertura da imprensa tradicional brasileira sobre a COP30.

Um levantamento do Intercept Brasil mostra que a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal.

Mas a Vale não é a única empresa envolvida em desastres e crimes ambientais na última década que está financiando a cobertura jornalística brasileira da maior conferência sobre clima do mundo.

As notícias sobre a COP30, evento que começa oficialmente nesta segunda-feira, 10, em Belém e almeja traçar compromissos e metas globais para lidar com a crise climática, também estão sendo bancadas por outras corporações apontadas como grandes contribuintes do colapso do planeta.

A segunda empresa que mais está patrocinando a cobertura da mídia tradicional sobre a conferência, segundo o levantamento, é a gigante da indústria da carne JBS, financiando sete veículos: CBN, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, Veja e Neofeed.

Maior produtora de proteína animal do mundo, a JBS é também a empresa do setor de carne que mais emite gases do efeito estufa no planeta, segundo um relatório recente da ONG Profundo que avaliou o impacto climático da indústria de carne e laticínios.

Completam a lista das empresas que mais patrocinam as coberturas da COP neste ano no Brasil duas gigantes com histórico de violações ambientais. A primeira é a Hydro, multinacional norueguesa do setor de alumínio, condenada pela Justiça Federal no ano passado a pagar R$ 100 milhões por um desastre ambiental em Barcarena, no Pará.

A segunda é a Suzano, gigante do setor de papel e celulose, envolvida em denúncias de uso de agrotóxicos e violações de direitos contra comunidades quilombolas em diferentes regiões do país.

Ambas patrocinam quatro veículos cada. A Hydro está apoiando a cobertura de CNN, Estadão, Exame e do jornal O Liberal, do grupo Liberal de comunicação, do Pará, estado-sede da COP30. Já a Suzano patrocina CBN, O Globo, Valor Econômico e Capital Reset.

Na lista das empresas patrocinadoras do jornalismo tradicional durante a COP ainda estão empresas como a Ambipar, que patrocina a cobertura da Exame, Folha de S.Paulo e Estadão, enquanto lidera projeto de carbono que pretende usar terras públicas e está impedindo pescadores de trabalhar na Ilha do Caju, no Maranhão, em aliança com um empresário sueco. Procurada, a Ambipar afirmou que não irá se posicionar.

Outra patrocinadora é a Philip Morris Brasil, gigante do setor de tabaco que já teve entre seus fornecedores, segundo a Repórter Brasil, uma fazenda investigada por manter um cemitério de animais silvestres em canais de irrigação. Procurada pela reportagem, a Philip Morris Brasil afirmou que “seus contratos com empresas de mídia não envolvem qualquer influência em conteúdo jornalístico” e que “todos os conteúdos institucionais produzidos pela empresa são devidamente sinalizados em todas as publicações”.

No total, segundo o levantamento do Intercept, 59 entidades diferentes, entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONGs, patrocinam a cobertura da imprensa na COP30.

Para fazer o levantamento, o Intercept considerou dados de TVs, rádios, veículos impressos e online com maior alcance, segundo o Reuters Digital News Report 2025, relatório produzido anualmente pelo Instituto da Reuters na Universidade de Oxford, na Inglaterra, que analisa as tendências de consumo de mídia.

Também foi feita uma pesquisa manual, por meio de buscadores online, utilizando termos combinados como “patrocínio”, “cobertura”, “apoio” e “COP30”, entre os meses de setembro e outubro, além de uma pesquisa nas redes sociais dos veículos.

O levantamento ainda apontou que pelo menos 13 veículos de comunicação brasileiros tiveram patrocínios de empresas privadas, ao longo deste ano, com foco na conferência do clima. Além do patrocínio direto à cobertura, também foi disponibilizada verba corporativa para a realização de séries de debates e formações para jornalistas.
Os interesses por trás do patrocínio

O patrocínio dessas empresas à cobertura da COP30 não significa necessariamente uma influência na linha editorial das reportagens publicadas. No entanto, segundo Melissa Aronczyk, professora da escola de comunicação da Rutgers University, uma das principais pesquisadoras do mundo sobre influência das empresas poluidoras na mídia e autora do livro “Natureza Estratégica”, a atitude das empresas deve no mínimo acender o alerta sobre interesses corporativos ao se vincular a uma agenda de sustentabilidade.

“Não existe patrocínio neutro. Nenhuma organização e certamente nenhuma empresa privada dará dinheiro, apoio ou seu nome a outra organização ou evento, a menos que veja um benefício para si mesma”, afirma Aronczyk.

Para a professora, por meio do patrocínio da cobertura noticiosa, as empresas querem promover uma associação positiva na mente das pessoas entre a marca delas e a COP30, e isso tem preceito histórico. Foi também no Brasil, durante a Rio 92, conferência considerada a mãe das COPs, que observou-se pela primeira vez na história o patrocínio corporativo tomando conta das cúpulas do clima da ONU. 

“Em 1992, líderes de empresas, agências de relações públicas, publicitários e lobistas vieram ao Rio para garantir que a voz das empresas fosse representada. E isso só piorou a cada ano, desde então. Temos mais de 30 anos de cooptação da Cúpula das Nações Unidas sobre o Clima”, diz Aronczyk.

O que mineradoras e empresas do agro tentam fazer agora na COP do Brasil, com tentativas de usar os veículos de comunicação para limpar a própria imagem, está no DNA da expansão de setores como os da mineração, carvão, produtos químicos e petróleo e gás.

“Os primeiros clientes das empresas de relações públicas eram empresas poluidoras que tinham o desejo de promover uma imagem positiva, mesmo enquanto continuavam poluindo”, analisa Aronczyk.

Nas décadas de 1970 a 1980, com a ascensão do discurso sobre mudanças climáticas, as empresas de combustíveis fósseis passaram a trabalhar em estreita relação com agências de relações públicas. Mas, enquanto naquela época o foco delas era negar as mudanças do clima, hoje o objetivo dessas empresas ao usar a mídia é outro: atrasar a busca e o encontro de soluções.

“São formas sutis de obstrução climática, que envolvem manipular jornalistas ou manipular os veículos de comunicação, com o uso de mídias sociais e influenciadores também, para divulgar mensagens e outros tipos de campanhas que atrasam as ações contra as mudanças climáticas, questionando a necessidade de políticas e regulamentações climáticas”, afirma a professora.

Coordenadora geral de pesquisa do Netlab, o Laboratório de Internet e Redes Sociais da UFRJ, a pesquisadora Deborah Salles também pondera que não é possível fazer uma correlação direta entre o patrocínio das empresas e a linha editorial das coberturas, mas alega que o financiamento levanta suspeitas sobre a capacidade de o jornalismo brasileiro cobrir temas complexos e sensíveis, inclusive para os seus patrocinadores.

“A ideia de jornalismo patrocinado é, em si, algo problemático”, pontua. Para Salles, a busca pelo patrocínio nas coberturas midiáticas da COP30 tem a função, ainda, de frear o senso crítico com relação à mineração, à exploração de petróleo e gás, mas também de garantir que os interesses dessas empresas não estejam em risco em um momento tão sensível como é o de negociações por metas e financiamento climático.

“Ao influenciar a opinião pública e tomadores de decisão e garantir que a cobertura vai continuar sendo pouco incisiva, a gente continua com essa possibilidade de passar projetos de lei da devastação e derivados. Em alguma medida, a comunicação corporativa tem como objetivo garantir mais espaço para essas empresas, e mais espaço é menos estresse para as suas atividades”, analisa Salles.

Relatório "A COP dos Lobbies" denuncia avanço do lobby corporativo na COP30 em Belém.

sábado, 8 de novembro de 2025

Novo relatório: o mundo precisa de cortar 60% de desflorestação até 2030 - ou meta global pode fracassar


O alerta é do novo relatório da Forest Declaration Assessment, lançado nas vésperas da COP30, em Belém (PA). O relatório mostra que, só em 2024, o planeta perdeu 8,1 milhões de hectares de florestas — uma área equivalente à Áustria —, o que representa um nível 63% acima do necessário para zerar o desmatamento até o fim da década.

Além do corte raso, a degradação florestal também preocupa: atingiu 8,8 milhões de hectares, impulsionada por incêndios e eventos climáticos extremos. O impacto climático é gigantesco — as emissões associadas à destruição de florestas tropicais somaram 3,1 biliões de toneladas de CO₂ em 2024, o mesmo que 700 milhões de carros a gasolina rodando por um ano. 

As florestas tropicais úmidas, como a Amazônia, seguem como epicentros da perda florestal global. O relatório cita Brasil, Colômbia e Indonésia como países-chave tanto pelo risco quanto pelo potencial de liderar uma viragem na proteção florestal. No caso brasileiro, o desmatamento na Amazônia caiu 11% entre 2024 e 2025, alcançando o menor nível em 11 anos — mas a degradação por incêndios, secas e extração seletiva continua em alta.

Agropecuária segue como o principal motor da destruição, respondendo por nove em cada dez hectares desmatados na última década. Já a restauração de florestas, embora positiva, ainda é tímida: projetos em curso cobrem 11 milhões de hectares, número insuficiente diante da escala das perdas.

O relatório também denuncia o desequilíbrio financeiro: enquanto US$ 5,7 biliões foram investidos anualmente na proteção florestal entre 2022 e 2024, o valor representa apenas 1,4% dos US$ 409 biliões em subsídios agrícolas que favorecem o desmate. E apenas 3% das empresas analisadas têm compromissos sólidos e verificáveis contra o desmatamento.

A Forest Declaration Assessment conclui que o sistema financeiro global ainda ignora os riscos florestais e que, sem rastreabilidade, segurança fundiária e eliminação de subsídios perversos, o mundo dificilmente cumprirá a promessa de zerar o desmate até 2030.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cop30: Desmascarar os bloqueios e exigir acção real

Em novembro de 2025, Belém do Pará, no coração da Amazónia, acolherá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30). O lugar não é neutro: é o epicentro de uma floresta que regula o clima global e, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ameaçadas pela desflorestação, pela exploração predatória e pela desigualdade social. Realizar a COP na Amazónia é um gesto político e simbólico: o debate climático no território onde se decide o destino do planeta.

Mas o simbolismo não basta. O mundo chega a Belém dividido, com emissões recorde e promessas incumpridas. A diplomacia climática vive uma crise de confiança, e os interesses fósseis continuam a ditar o ritmo da ação global. A COP30 será, por isso, um momento de verdade sobre o futuro coletivo da humanidade.

A crise climática é hoje uma evidência incontornável. Secas, cheias e ondas de calor extremo afetam todos os continentes e o tempo para agir esgota-se. O clima precisa de todos, mas sobretudo precisa de coragem política.

Mais de metade das emissões globais provém de empresas estatais sediadas em regimes autoritários. Das vinte maiores companhias de combustíveis fósseis do mundo, dezasseis são públicas e controladas por governos como os da China, Rússia, Irão e Arábia Saudita. Estes países tornaram-se o principal travão à descarbonização. A Rússia usa a energia como arma geopolítica; a China, responsável por cerca de 30 % das emissões globais, continua a construir centrais a carvão; o Irão e a Arábia Saudita financiam a dependência global do petróleo e bloqueiam sistematicamente o avanço dos acordos internacionais. Enfrentar esta realidade é uma exigência civilizacional.

Durante demasiado tempo, a diplomacia internacional preferiu o silêncio à verdade. Tratou por igual quem age e quem sabota, quem investe na transição e quem lucra com a destruição. Esse modelo está esgotado: não se vence uma emergência planetária com concessões a quem nega o futuro.

Mas a hipocrisia não é exclusiva das autocracias. Democracias como o Reino Unido, o Japão e o Canadá continuam a subsidiar combustíveis fósseis enquanto proclamam metas de neutralidade carbónica. Esta duplicidade mina a confiança global e fragiliza a liderança moral do mundo democrático.

A União Europeia deve abandonar a complacência e assumir o papel de força motora. É urgente aplicar de forma firme o ajustamento de carbono nas fronteiras, eliminar os subsídios ao petróleo e ao gás, e investir decisivamente na transição justa - dentro e fora de fronteiras. A diplomacia climática precisa de ser estratégica, transparente e corajosa.

A COP30 será um teste. Mais do que uma conferência, é a fronteira entre o discurso e a ação. O mundo precisa de recuperar a confiança na cooperação internacional e provar que ainda é capaz de convergir em torno do essencial: garantir um futuro habitável. A crise climática é também uma crise de desigualdade. Não haverá transição justa sem redistribuição de poder, de riqueza e de oportunidades. 

Combater a emergência climática é construir justiça social e regeneração económica. A humanidade precisa de decisões.

A justiça climática exige clareza, coragem e ação. Agora.

Diário de Coimbra, 4 de novembro de 2025

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

‘Change course now’: humanity has missed 1.5ºC climate target, says UN head

Humanity has failed to limit global heating to 1.5º C and must change course immediately, the secretary general of the UN has warned.

In his only interview before next month’s Cop30 climate summit, António Guterres acknowledged it is now “inevitable” that humanity will overshoot the target in the Paris climate agreement, with “devastating consequences” for the world.

He urged the leaders who will gather in the Brazilian rainforest city of Belém to realise that the longer they delay cutting emissions, the greater the danger of passing catastrophic “tipping points” in the Amazon, the Arctic and the oceans.

“Let’s recognise our failure,” he told the Guardian and Amazon-based news organisation Sumaúma. “The truth is that we have failed to avoid an overshooting above 1.5ºC in the next few years. And that going above 1.5C has devastating consequences. Some of these devastating consequences are tipping points, be it in the Amazon, be it in Greenland, or western Antarctica or the coral reefs.

He said the priority at Cop30 was to shift direction: “It is absolutely indispensable to change course in order to make sure that the overshoot is as short as possible and as low in intensity as possible to avoid tipping points like the Amazon. We don’t want to see the Amazon as a savannah. But that is a real risk if we don’t change course and if we don’t make a dramatic decrease of emissions as soon as possible.”

The planet’s past 10 years have been the hottest in recorded history. Despite growing scientific alarm at the speed of global temperature increases caused by the burning of fossil fuels – oil, coal and gas – the secretary general said government commitments have come up short.

Fewer than a third of the world’s nations (62 out of 197) have sent in their climate action plans, known as nationally determined contributions (NDCs) under the Paris agreement. The US under Donald Trump has abandoned the process. Europe has promised but so far failed to deliver. China, the world’s biggest emitter, has been accused of undercommitting.

António Guterres giving his speech at Cop29 in Baku, Azerbaijan, in November 2024. 

Guterres said the lack of NDC ambition means the Paris goal of 1.5ºC will be breached, at least temporarily: “From those [NDCs] received until now, there is an expectation of a reduction of emissions of 10%. We would need 60% [to stay within 1.5ºC]. So overshooting is now inevitable.”

He did not give up on the target though, and said it may still be possible to temporarily overshoot and then bring temperatures down in time to return to 1.5ºC by the end of the century, but this would require a change of direction at and beyond Cop30.

He called for governments to rebalance representation at Cops so that civil society groups, particularly from Indigenous communities, will have a greater presence and influence than people paid by corporations.

“We all know what the lobbyists want,” he said. “It’s to increase their profits, with the price being paid by humankind.”

He said a transition away from fossil fuels was a matter of economic self-interest, because it was clear that the era of fossil fuels was coming to an end: “We are seeing a renewables revolution and the transition will inevitably accelerate and there will be no way in which humankind will be able to use all the oil and gas already discovered,” he said.

Asked if he had raised this with the Brazilian president, Luiz Inácio Lula da Silva, whose government has just given the green light for oil exploration near the mouth of the Amazon, he said: “Not yet. I’ll take advantage of the Cop [to do this].”

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

“Nova realidade”: Relatório revela que o mundo atingiu o primeiro ponto de não retorno climático



O mundo ultrapassou o primeiro de vários “pontos de não retorno”, avisam especialistas, com consequências potencialmente catastróficas para a humanidade e para a natureza, caso não haja uma ação urgente.

O alerta é feito no segundo Relatório Global Tipping Points (Pontos de Não Retorno), que será lançado na próxima semana pela WWF Internacional, em parceria com a Universidade de Exeter e outros parceiros científicos internacionais, antecedendo a Cimeira COP30, no Brasil.

Este novo relatório, diz a organização ambientalista, revela que os recifes de coral de águas quentes – dos quais dependem quase mil milhões de pessoas e cerca de um quarto da vida marinha – estão já a sofrer uma mortalidade generalizada, sinal de que o primeiro ponto de não retorno climático foi atingido. Mesmo que o aquecimento global seja estabilizado nos 1,5°C, é praticamente certo que os recifes ultrapassem o seu limite térmico, levando à perda de recifes em larga escala, a menos que a temperatura global regresse para cerca de 1°C.

“Pequenas áreas de recifes poderão sobreviver e devem ser protegidas com medidas de conservação urgentes”, defende a WWF.

O relatório alerta ainda para a iminência de outros pontos de não retorno: o colapso da Floresta Amazónica, onde irá realizar-se a COP30, o degelo irreversível das calotas polares e a desestabilização da Circulação Meridional de Reviravolta do Atlântico (AMOC), uma corrente oceânica vital para o clima global.

Explica a WWF que o colapso da AMOC poderá ocorrer com menos de 2°C de aquecimento e terá como consequências invernos mais rigorosos no noroeste da Europa, perturbações na época de monções da África Ocidental e da Índia, e quebras significativas nos rendimentos agrícolas em várias regiões do mundo, colocando em risco a segurança alimentar global.

A publicação deste relatório surge num momento crítico, com os ministros reunidos nas vésperas da Cimeira da COP30, no Brasil, salienta a organização. O documento, elaborado por 160 cientistas de 87 instituições em 23 países, defende que os países devem agir imediatamente para minimizar a ultrapassagem do limite de 1,5°C, uma vez que cada fração de grau e cada ano passado acima desse valor aumentam significativamente o risco de atravessar pontos de não retorno nos sistemas naturais.

Para contrariar este cenário, os autores do relatório defendem a necessidade de desencadear “pontos de viragem positivos” – como a rápida adoção de tecnologias limpas e soluções baseadas na natureza.

Estes processos já estão em curso em áreas como as energias solar e eólica, a adoção de veículos elétricos, o armazenamento em baterias e o uso de bombas de calor, especialmente em mercados-chave. Mudanças no consumo e na produção podem também desencadear pontos de viragem positivos em setores como a alimentação, contribuindo para travar a desflorestação e restaurar ecossistemas.

“A preocupação com as alterações climáticas está a crescer globalmente – e mesmo um número reduzido de pessoas pode levar a maioria a mudar”, declara a WWF.

“Governos, empresas, sociedade civil e indivíduos têm todos um papel a desempenhar. As pessoas compreendem a necessidade de mudança e apoiam a transição para um mundo mais limpo e saudável, desde que essa transição seja justa.”

Alice Fonseca, Climate & Policy Officer da WWF Portugal, avança que “o que este relatório nos diz é que já começámos a ultrapassar os pontos de não retorno da natureza e do clima”.

“O tempo para agir está realmente a esgotar-se, mas ainda podemos conter os danos. Para isso, é necessária uma ação imediata e decisiva por parte dos líderes mundiais na COP30 – para proteger os direitos das pessoas em todo o mundo, já que as metas atuais e contributos de cada país não são suficientes. Mas também é preciso alavancar pontos de viragem positivos. Restaurar a natureza é uma das formas mais poderosas de o fazer, sendo essencial para criar resiliência, remover carbono da atmosfera e apoiar a subsistência das comunidades. Precisamos de acelerar esta e outras transformações com ações coordenadas entre governos, empresas e sociedade civil”, aponta a especialista.

O relatório destaca ainda que os pontos de não retorno representam uma ameaça distinta das restantes crises ambientais, exigindo uma resposta mais ágil e inovadora por parte das instituições. Diz a WWF que as políticas atuais não estão preparadas para lidar com fenómenos abruptos e irreversíveis, pelo que é necessário agir com urgência, apoiando a transformação social e desencadeando “pontos de viragem positivos”, como a adoção em massa de tecnologias verdes.

sábado, 21 de junho de 2025

Entrevista. Drauzio Varella em Lisboa: 30 anos de histórias reais da Amazónia no lançamento de “O Sentido das Águas”


A travessia entre mundos
Ao longe, uma figura alta e esguia atravessa a Rua da Escola Politécnica, no Príncipe Real, em Lisboa. Movimenta-se com uma elegância contida, passos seguros, gestos serenos. Dr. Drauzio Varella parece imune ao calor daquele fim de tarde, à azáfama urbana, ao próprio ruído do tempo. Comunicador reconhecido, já teve lugar no horário nobre do maior canal televisivo da América Latina, a TV Globo. Oncologista renomado, foi pioneiro no estudo da biotecnologia para o tratamento do cancro e da SIDA no Brasil. Octogenário irrequieto, começou a correr aos 50 anos e com 82 pretende participar da maratona de Berlim, em setembro. Escritor singular, com o best-seller Estação Carandiru, retratou um ambiente tão conhecido como temeroso, a Casa de Detenção de São Paulo. Como se não bastasse, viajante. Chegara à Lisboa há poucos dias vindo do Brasil.

Conhece bem a cidade. Aqui tem casa, refúgio, silêncio — o necessário para escrever, ler e pensar. Regressou pela tranquilidade que aqui encontra e para lançar o seu vigésimo livro, O Sentido das Águas – histórias do Rio Negro (edição Companhia das Letras), obra que condensa mais de 100 viagens ao coração da floresta Amazónica, entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira.

Qualquer conversa com Drauzio — e ele prefere o tratamento informal, com uma simpatia desarmante — por si só, daria um livro. Pessoa que inspira respeito pela voz serena, conversa interessante, informativa e articulada. O seu percurso pessoal e profissional é o testemunho do que de maior um ser humano pode aspirar a ser. 

Mais do que um diário de campo, o livro de Drauzio é um conjunto tocante de retratos humanos — sem moralismos, sem adornos fáceis — com a intenção clara de ouvir o outro. Ambiciona transmitir um maravilhamento que o contato direto com a natureza em estado bruto consegue. Histórias colhidas entre os vapores dos rios e o silêncio das aldeias, entre os doentes esquecidos e os curandeiros, entre os ecos das lendas e os horrores da história. Drauzio aproxima-se como quem escuta, como quem aprende, com a delicadeza de quem sabe que não se pode contar a Amazónia tentando moldá-la aos esquemas europeus ou aos termos vazios como “luxuriante”. Como dizia Euclides da Cunha: “A Amazónia é um excesso de céu por cima de um excesso de águas”. Qualquer adjectivo forçado empalidece perante tamanha vastidão. Reconhecendo isso, Drauzio é claro quando diz que o livro traz histórias “da região do rio Negro”. 62, para ser precisa. Na literatura folclórica brasileira, o boto dor-de-rosa, curupira e boitatá são algumas das figuras que enriquecem o imaginário coletivo. Em O Sentido das Águas, Drauzio comunica diretamente com testemunhas destes mitos ao mesmo tempo que, como bom professor, ensina através da história, relata a inação do Estado com o património humano e ambiental onde crimes do tempo do Império ainda são perpetrados.

A ciência no interior da floresta: da Biotecnologia à Biofilia
Mas porquê, afinal, um oncologista internacionalmente reconhecido — pioneiro no uso de biotecnologia no tratamento do cancro e da SIDA — se embrenharia pelos afluentes escuros do Rio Negro? A investigação científica foi o estopim. Mas, talvez no seu profundo inconsciente, tão escondido como alguns recônditos da floresta que ocupa mais de 60% do território brasileiro, a resposta esteja numa palavra esquecida do vocabulário contemporâneo: biofilia. 

O termo, cunhado por Erich Fromm e popularizado por Edward Wilson, traduz o amor instintivo à vida, à natureza, àquilo que pulsa fora de nós, mas do qual dependemos inteiramente. Drauzio parece movido por essa pulsão ancestral — uma ânsia de reencontro com algo maior, mais essencial, que não cabe nos corredores de hospitais, bancos de universidade, cadeias ou à frente das câmaras. Daí hoje, a leitura de tal obra, escrita por esta personalidade é essencial.

A sua escrita, neste novo livro, ressoa com essa procura. Sem paternalismo, sem exotismo, ele retrata comunidades indígenas com a dignidade de quem sabe que a verdadeira grandeza está na resistência serena, na sabedoria transmitida pela oralidade, no modo como se vive — e morre — no interior da floresta. À semelhança dos naturalistas do século XVIII, como Alexandre Rodrigues Ferreira, Drauzio recolhe relatos, observa costumes, regista o que vê e sente. Ferreira, que recebera do Marquês de Pombal a missão de sondar as potenciais riquezas da Amazónia, falava do “rio de águas âmbar”. Curiosamente ou não, parte do seu espólio está no Museu de História Natural na mesma rua lisboeta onde encontrámos Drauzio. Ao contrário do mandatário do Marquês, as riquezas que Drauzio procurou no norte do Brasil tinham como objectivo serem estudadas não para enriquecer um império, mas para devolver a saúde de doentes cancerígenos, pessoas que vivem com o VIH, sem que para isso a vida dos povos que mantém a floresta viva fosse explorada. Na verdade, O Sentido das Águas oferece aquilo a que um grande contador de histórias pode aspirar: a humildade de um olhar profundamente humano.

Nascido no bairro fabril de imigrantes do Brás, na megalópole de São Paulo, desde muito jovem interessava-se por ouvir e contar histórias. Terreno fértil não lhe faltava: filho de pai galego e mãe brasileira, foi sobretudo criado pelos avós portugueses: ela do Porto e ele de Trás-os-Montes. Portugal sempre esteve à mesa através do bacalhau servido em casa duas vezes por semana. O menino que adorava jogar à bola na rua encantou-se cedo pela leitura que os “gibis” de Jerônimo, o herói do sertão e O Anjo, pela maneira como este mundo o absorvia e o transportava para outros. “A leitura é uma atividade que trabalha com todos os processos cognitivos.” É certo que estas influências foram formadoras para o futuro Dr. Drauzio Varella, como também o é a tenacidade do seu espírito em manter a curiosidade de menino como um guia para a vida. 

Em conversa exclusiva para a Comunidade Cultura e Arte, Antônio Drauzio Varella, partilhou a génese do projeto, marcada por uma inquietação que começou muito longe da floresta.

A luz que a ignorância acendeu
Entre as décadas de 1980 e 1990, a medicina passava pela pesquisa de tratamento do cancro através da biotecnologia, ao mesmo tempo que um novo vírus era descoberto: o da imunodeficiência adquirida, a SIDA. Nesta altura, entre a prática clínica, pesquisa e docência, Drauzio Varella envolveu-se com os seus pares da Cleveland Clinic, como seu amigo Rolando Bukowski, em pesquisas que estavam a transformar a medicina. Mas o Brasil ainda gatinhava no debate científico. Bukowski alertou para que se não se conseguisse mostrar a utilidade da floresta “como é que ela seria mantida? Fiquei com essa frase na cabeça. Voltei para São Paulo, falei com o João Carlos, dono da UNIP (Universidade Paulista) que tinha o barco Escola da Natureza e sugeri montarmos um projeto de screening.” Naquela época, não havia ninguém no Brasil capacitado para a tarefa. Drauzio imaginou um curso de biotecnologia com nomes de peso da ciência mundial. O plano parecia ambicioso demais, mas a bordo do barco que estava ancorado no Rio Negro, em plena floresta, Robert Gallo — co-descobridor do vírus da SIDA — lhe lançou a pergunta que transformaria tudo: “Quem está a estudar esta diversidade? Quem está a fazer rastreio farmacológico aqui?” A pergunta ficou. E — novamente — transformou-se em acção.

“A rotina consiste em selecionar uma planta, uma árvore de qualquer altura, colher as cascas, as folhas, se tiver flores, frutos; uma amostra é preparada para ir para um herbário; esta parte é moída, dissolvida em água, álcool e, a seguir, liofilizada. Temos 2.500 desses extratos em stock a menos 20 graus, uma extratoteca importante, a maior dessa região do Brasil. Por fim são feitos testes experimentais com esses extratos para saber se é possível combater células tumorais ou bactérias resistentes. Este é o projeto.”, sublinha-nos Drauzio Varella. 

Mas foi a floresta, e não apenas a ciência, que conquistou Drauzio. “Fui-me apaixonando cada vez mais por aquele lugar”, confessa. E assim ano após ano, deixou-se envolver por aquele espaço onde a natureza e a cultura coexistem num equilíbrio ancestral, que escapa às lógicas da acumulação. “Os indígenas vivem nesta região há cerca de 14 mil anos. A floresta é uma construção social destes povos que a mantêm de pé”, refere.

É esse olhar — simultaneamente clínico e afectivo — que se traduz no livro agora publicado. Drauzio escreve como quem viveu, como quem viu de perto os ciclos da mandioca e os rituais dos pajés, os silêncios dos rios e os gritos das injustiças. Relata, por exemplo, o caso do nativo que caça uma paca para sustentar a família e vê o animal confiscado por um fiscal que, sem pudor, acaba por assá-la num churrasco. Ou o episódio em que dois soldados da etnia Hupda são forçados a dormir no chão por colegas Tukano, num quartel onde o preconceito indígena é exposto em toda a sua crueldade.

«O coronel mandou chamar os quatro soldados indígenas que dividiram o alojamento.
— Vou falar uma vez só. No Exército servem brancos, negros, indígenas, filho de japonês, de chinês, de árabe, de judeu. Aqui não admitimos preconceito racial de jeito nenhum, muito menos racismo étnico.» (O Sentido das Águas, p. 163)

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A consciência dos Povos da Floresta


As representações das comunidades indígenas e extrativistas da Amazônia se organizam para ter voz forte na COP30. Afinal, são esses territórios que apresentam os menores índices de desmatamento e devastação.

Então, não é só uma questão, que já seria fundamental, dos direitos dessas comunidades, mas também o efeito climático da conservação da floresta por esses povos.

Entre os pontos que vão levar para a COP em Belém está a aceleração da demarcação e conservação desses territórios, que anda travada pelo Congresso reacionário; a prevenção de incêndios; a garantia de terem acesso direto aos fundos internacionais.

De toda ajuda internacional que chega aos países do Sul global, só 1% vai para essas comunidades. Por quê? Porque tem muitos intermediários, e, claro, o dinheiro fica pelo caminho.

E com esses recursos, eles podem melhorar a sua qualidade de vida, e como no caso dos extrativistas, diminuir o êxodo para as cidades e também melhorar a própria fiscalização contra invasões e incêndios florestais.

Eles querem também o direito de serem ouvidos em relação ao desenvolvimento da região, deixando de ser considerados apenas um “zoológico” de exposição – “olha, aqui estão os indígenas”. Não, eles são parte da solução do problema e querem ter voz ativa nisso.

Parabéns a essa consciência dos povos indígenas, dos extrativistas e quilombolas.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Colónia japonesa cria 'florestas de comida' no Pará e vira referência contra desmatamento


A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.   

As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações. 

Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração". 

Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas. 

Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.  

Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo. 

sábado, 24 de maio de 2025

Fabrício Carpinejar na despedida de Sebastião Salgado


Os olhos azuis oceânicos, debaixo de tufos de sobrancelhas grisalhas, quase ruivas, caracterizavam a lente humana mais majestosa e universal que já existiu na fotografia mundial.
O mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado, fez o mundo piscar de modo distinto depois de suas pálpebras.
Ele se despede, aos 81 anos, com um trabalho documental que conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, transgressor e clássico.
Trouxe à fotografia o projeto coletivo dos murais de Candido Portinari.
Na essência, era um Caravaggio da gelatina de prata, do papel fotográfico, mestre do claro-escuro, instaurando o barroco na captação crua das cenas.
Assim como em Caravaggio, a luz recai sobre os invisíveis — os pobres, os errantes, os exilados — com uma expressividade humanista e dramática.
Sua única professora foi a realidade, com seus contrastes e exuberâncias, suas misérias e rostos impregnados de compaixão. Formado em Economia, mas autodidata na arte, começou a fotografar em 1973, aos 29 anos, misturando-se em unha e carne aos seus fotografados.
Seu olhar não era de fora, mas de dentro. Não agia como um observador distante, que clica e desaparece. Daí a explicação para seus registos íntimos, como se fossem autorretratos dos excluídos. Sua aflição existencial tornou-se sua estética. Não explorava o outro, fundia-se ao outro. Não se resumia a um fantasma entre os vivos, e sim a um vivo que mandava notícias do reino dos fantasmas da sociedade.
Abordou as migrações, a dizimação dos povos originários, a devastação das florestas, o colapso climático, a escalada desenfreada do processo industrial.
Não procurava apontar as diferenças folclóricas entre as mais remotas culturas, mas identificar o que havia de comum entre todas elas: a dignidade apesar da desolação.
Ele converteu as cores gritantes da dor na suavidade bíblica do preto e branco. Denunciou o apocalipse e a extinção da nossa espécie pela ganância.
Percorreu mais de 130 países, criando exposições que marcaram a história: Trabalhadores, Gênesis e Êxodos.
Deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas. Sangue de nosso sangue, água de nossas águas.

sábado, 10 de maio de 2025

O testemunho de Abel Rodríguez


Abel Rodborn Mogaje Guihu, do departamento de Putumayo, na Colômbia, foi formado como especialista botânico entre os Nonuya, um dos vários grupos étnicos da Amazónia. As suas composições retratam frequentemente a flora específica coexistindo com aves, animais e elementos da paisagem.
Ela fala sobre a forma como as árvores e as plantas, a especialidade do artista, se entrelaçam tanto biológica como cosmologicamente na compreensão da natureza e da vida e como uma não pode existir sem a outra. O seu trabalho mostra a beleza do mundo na sua maravilha intocada e na alegria da diversidade.

Fundação Tropendos

sábado, 18 de maio de 2024

Fragmentação florestal na Amazónia emite um terço do carbono produzido pelo desmatamento, diz estudo


Pesquisa publicada na revista científica Science mostra que a divisão da floresta amazônica em pedaços é tão nociva para o aquecimento global quanto o próprio desmatamento.

Segundo os pesquisadores, 1/3 dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera entre 2001 e 2015 foram dessas áreas fragmentadas de floresta devido ao "efeito de borda".

As "bordas dos fragmentos" são mais secas e quentes que a floresta, recebem mais luz que as matas fechadas e muitas espécies não conseguem sobreviver ali. Também ficam em contato com áreas queimadas, novas pastagens ou plantações. A decomposição de espécies que morrem nas bordas dos fragmentos de floresta lançam o carbono que estava armazenado em sua massa na atmosfera.

Recado de um dos pesquisadores do estudo em entrevista à Folha:
"Os problemas abordados no estudo não são questões partidárias, mas desafios da nação necessários para a melhor gestão de nosso território e recursos naturais. Precisamos favorecer o desenvolvimento do país de forma sustentável e conduzir o restabelecimento de nosso papel central no combate às mudanças climáticas globais" - Luiz Aragão, INPE.

sábado, 27 de janeiro de 2024

Amazónia sempre a surpreender-nos


Amazónia sempre a nos surpreender. Usando Lidars, pesquisadores descobriram grandes áreas urbanas e estradas na Amazónia equatoriana de 2.000 anos. Seria uma enorme comunidade, similar em tamanho às maiores cidades da época. Ruas com 10 metros de largura, atingindo 20 km de comprimento, com estimativas de uma população de cerca de 10.000 agricultores.
A Amazónia é muito rica de informações em todas as áreas de pesquisas, e esta é somente a primeira grande área urbana descoberta. Certamente teremos outras áreas, que estão só esperando ser desvendadas.

Artigo completo na Science.

domingo, 3 de dezembro de 2023

A COP28 conta com 30 patrocinadores: empresas de energia, bancos fósseis e grandes empresas de tecnologia


As cimeiras sobre o clima são uma grande vitrine para empresas e atores interessados ​​(alguns com mais razão do que outros) em princípio comprometidos com a ação climática. E a COP28 , que acontecerá de 30 de novembro a 12 de dezembro em Dubai (Emirados Árabes Unidos), pretende ser o maior de todos os eventos climáticos até o momento , pelo menos em termos de participação. A organização estima que comparecerão 70 mil pessoas, um número muito superior ao da COP27 realizada em Sharm El-Sheikh (Egito), onde se reuniram 49.704 pessoas, o maior até à data.

Em cada edição, a maioria dos patrocinadores tende a ser empresas do próprio país, sejam elas de maior ou menor projeção internacional. Existem também alguns reconhecidos mundialmente. Um dos habituais é o espanhol: Iberdrola . A empresa de energia presidida por Ignacio Sánchez Galán é patrocinadora oficial das cimeiras climáticas desde a COP23 realizada em Bona, na Alemanha, em 2017.

Nesta COP28, a Iberdrola assinou como “Associate Partner” ( Associate Path Partner ). Um patrocínio que lhe permitirá ter a sua marca presente na chamada Zona Verde , um espaço paralelo às negociações da cimeira aberto à sociedade civil. Na Zona Azul (zona azul, reservada a países, jornalistas, organizações e observadores) a Iberdrola não terá estande próprio , mas muitos de seus executivos estarão presentes – entre eles, Galán – para participar de dezenas de eventos organizados, entre outros, pela ONU, pelo Ministério chefiado por Teresa Ribera e pela ONG BirdLife. Irão também reunir-se com a presidência da cimeira e com membros de diferentes instituições , como o Parlamento Europeu ou o Parlamento do Reino Unido.

O objetivo da Iberdrola – uma das empresas que mais contribuiu para o aquecimento global nas últimas décadas em Espanha – é participar na cimeira do clima como uma empresa verde . O seu discurso durante as duas semanas de negociações girará em torno da necessidade de eliminar progressivamente os combustíveis fósseis , triplicar a capacidade renovável até 2030 e duplicar a melhoria anual na eficiência energética durante esta década, além de chegar a um acordo sobre o financiamento do clima para mitigação e adaptação.

De acordo com informações publicadas pela media britânica Sky News em maio, os preços dos patrocínios quase triplicaram desde a cimeira anterior. O pacote de patrocínio mais caro oferecido custa 6,5 ​​milhões de libras (7,5 milhões de euros) e oferece à empresa que paga por ele “a oportunidade de falar em eventos da presidência da COP28” e ser reconhecida com a sua própria placa na parede como membro.

Empresas de energia, bancos fósseis e grandes empresas de tecnologia estarão na COP28
A COP28 conta com cerca de trinta empresas patrocinadoras . A classificação mais alta são os principais parceiros: Abu Dhabi Global Market (um centro financeiro), DEWA (autoridade de eletricidade e água de Dubai), DP World (holding de propriedade do governo de Dubai), e& (grupo de tecnologia dos Emirados), Dubai Holding ( a carteira de investimentos pessoais do governante de Dubai, Sheikh Mohammed bin Rashid al-Maktoum), Masdar (empresa estatal de energia renovável fundada e presidida pelo presidente da COP28, Al Jaber), M42 (empresa dos Emirados focada em tecnologia de saúde), RTA (autoridade de estradas e transportes de Dubai) e Emirates NBD (banco de propriedade do Governo de Dubai).

Depois, há cinco empresas que aparecem como parceiras estratégicas: EY (também conhecida como Ernst & Young, é líder global em serviços de auditoria, impostos, assessoria de transações e consultoria), FAB (First Abu Dhabi Bank, o maior banco dos Emirados Árabes Unidos), o Ministério da Educação dos Emirados Árabes Unidos, Al Futtaim (um conglomerado familiar ativo em diversos setores) e o Governo de Dubai .

Outra fórmula de patrocínio é Industry Pathway Partners . São quatro: Octopus Energy (um comerciante "100% sustentável" e o maior investidor em energia solar na Europa), Bank of America (uma das maiores holdings bancárias dos Estados Unidos), HSBC (um banco britânico e serviços financeiros empresa, conhecida por ser um dos principais financiadores da destruição da Amazónia e por financiar secretamente a exploração de carvão na Alemanha), e o Ministério da Indústria e Tecnologia Avançada dos Emirados Árabes Unidos (cujo ministro é o Sultão Ahmed Al Jaber, presidente da COP28).

Por fim, existem empresas cujo patrocínio consiste em serem “parceiros associados”. Além da Iberdrola, esta categoria inclui Baker Hughes (uma das maiores empresas de serviços petrolíferos do mundo), Mashreq (o banco privado mais antigo dos Emirados Árabes Unidos), IBM (uma empresa multinacional americana de tecnologia), Korea Hydro & Nuclear Power (operadora de centrais nucleares e hidrelétricas na Coreia do Sul), Siemens (conglomerado empresarial alemão, também comum em COPs), Investcorp (fornecedor e gestor líder de produtos de investimento alternativos que atendem clientes privados e institucionais de alto património), Banco Islâmico de Abu Dhabi, Goldwind (fabricante chinês de turbinas eólicas) e Banco Islâmico de Dubai (maior banco islâmico dos Emirados Árabes Unidos).

Até agora são os patrocinadores oficiais que a própria presidência da COP28 tem anunciado através de comunicados de imprensa. No entanto, na secção “parceiros” do seu website há aqueles que chamam de “ inovadores climáticos ”. Nesta seção, a principal empresa patrocinadora é o Barclays , o banco da Europa que mais investiu em combustíveis fósseis desde o Acordo de Paris (2015). Apelidados de “facilitadores” aparecem, entre outros, Amazon Web Services e Microsoft .

Segundo a organização, todas as empresas patrocinadoras se comprometeram a avançar em direção à meta de emissões líquidas zero até 2050 . Para tal, devem ter aderido à aliança Race to Zero da ONU ou outra iniciativa “equivalente”, ou ter assinado o Compromisso de Negócios Sustentáveis ​​dos Emirados Árabes Unidos .

O comitê de patrocínio, composto por sete departamentos internos diferentes da COP28, nomeou a empresa de consultoria EY (também listada como empresa patrocinadora) para “validar compromissos e fornecer consultoria técnica para a COP28”.

Da Climática temos contactado repetidamente o departamento de imprensa da COP28 para saber mais detalhes sobre os patrocínios. No momento da publicação deste artigo eles não haviam respondido.

domingo, 29 de outubro de 2023

Equador anuncia cortes de energia devido a seca na Amazónia

Seca no Rio Negro, no Amazonas [Fonte: Folha de Pernambuco]

Com uma forte dependência elétrica das barragens construídas na região amazónica, os reservatórios não têm água suficiente para satisfazer a crescente procura nacional.

Em situações como esta, o Equador está habituado a importar excedentes de eletricidade da Colômbia, mas o país vizinho também enfrenta uma situação de seca e toda a sua capacidade de produção está a ser utilizada para abastecer o mercado interno, segundo as autoridades equatorianas.

A interligação elétrica com o Peru é ainda muito limitada e só nas próximas semanas é que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Europeu de Investimento (BEI) deverão assinar um financiamento de quase 250 milhões de dólares (cerca de 236 milhões de euros) para a construção de uma linha elétrica de alta tensão de 500 mil volts no lado equatoriano da fronteira, que só estará operacional pelo menos em 2026.

Os primeiros cortes de eletricidade começaram na sexta-feira passada às 08:00 horas locais (13:00 em Lisboa) na maior parte do país e surpreenderam muitos cidadãos que desconheciam a medida anunciada menos de 24 horas antes pelo Governo.

As ruas tornaram-se em alguns momentos caóticas, uma vez que os semáforos deixaram de funcionar, obrigando a polícia a tentar gerir o trânsito nos cruzamentos mais movimentados.

Estes cortes de energia, que poderão prolongar-se até ao início de dezembro, deverão durar quatro horas por dia nas regiões serranas e amazónicas e três horas na região costeira, das 07:00 às 18.00.

Prevê-se que os cortes não afetem a produção de petróleo, um dos principais pilares da economia equatoriana, mas nenhuma autoridade foi capaz de especificar o impacto económico da medida.