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terça-feira, 23 de junho de 2026

Change fatigue: o novo esgotamento que as empresas ainda não querem ver

Durante anos, as empresas convenceram-se de que tinham identificado o grande desafio do mundo do trabalho: fazer as pessoas sentirem que pertencem. Investiram milhões em cultura, engagement, propósito, employee experience, bem-estar e inclusão. E fizeram-no com razão. O sentimento de pertença melhora retenção, colaboração, inovação e desempenho. Mas há um problema: muitas organizações continuam a responder à pergunta certa para o mundo de ontem.

Porque a pergunta dominante dentro das empresas já não é apenas “será que pertenço aqui?”. É outra, bem mais desconfortável:

“Será que tenho futuro aqui?” A inteligência artificial está a transformar funções inteiras. A automação redefine competências. Novas ferramentas surgem a uma velocidade impossível de acompanhar. Equipas são reorganizadas. Modelos de negócio são reinventados. Empresas que eram símbolos de estabilidade anunciam despedimentos. Apesar disso, demasiadas organizações continuam a comunicar a transformação como se fosse uma atualização de software: inevitável, excitante e supostamente autoexplicativa.

Não é. Para milhões de profissionais, a transformação tecnológica não está a ser vivida como uma oportunidade abstrata de inovação. Está a ser vivida como ambiguidade permanente. Não saber que competências serão necessárias daqui a três anos. Não saber como será avaliado o desempenho. Não saber se a função continuará a existir. Não saber se a empresa está realmente a preparar as pessoas para a mudança ou apenas a exigir adaptação infinita.

E a verdade incómoda é esta: a maioria das organizações ainda não sabe liderar pessoas em contextos de transformação contínua.

Os números ajudam a desmontar algum otimismo corporativo. Segundo a Microsoft e o LinkedIn, 76% dos profissionais afirmam precisar de competências em inteligência artificial para permanecerem competitivos. Apenas 39% receberam formação em IA por parte das suas empresas. A Hays encontrou um padrão semelhante: 78% dos profissionais que usam IA no trabalho dizem não ter recebido formação formal, apesar de a maioria já utilizar estas ferramentas regularmente.

Traduzido para linguagem simples: estamos a pedir às pessoas que atravessem uma revolução tecnológica enquanto lhes entregamos um manual incompleto.

Depois surpreendemo-nos com a resistência. Durante demasiado tempo, as empresas interpretaram a resistência à mudança como um problema de mindset, atitude ou falta de adaptabilidade. Mas talvez valha a pena considerar uma hipótese menos confortável: e se aquilo a que chamamos resistência for, em muitos casos, fadiga?

O fenómeno já tem nome: change fatigue. Não estamos a viver uma fase de mudança. Estamos a viver um regime permanente de mudança. E existe uma diferença importante entre mudar ocasionalmente e trabalhar dentro de um ambiente onde nada estabiliza tempo suficiente para ser plenamente aprendido, integrado ou compreendido. A Gartner já alertou para os níveis crescentes de exaustão associados à mudança persistente. Ainda assim, muitas organizações insistem em acumular iniciativas de transformação sem criar condições psicológicas mínimas para que as pessoas as consigam absorver.

Mais tecnologia. Mais reestruturações. Mais processos. Mais urgência. Menos clareza. Menos previsibilidade. Menos capacidade humana para acompanhar o ritmo. É aqui que muitas estratégias de transformação começam a falhar - não na tecnologia, mas na experiência humana da mudança. Porque qualquer transformação altera muito mais do que workflows ou ferramentas.

Muda identidades profissionais. Muda relações de poder. Muda perceções de valor. Muda aquilo que cada pessoa acredita em saber fazer bem. Ignorar esta dimensão tem custos elevados. Não produz agilidade. Produz cinismo. Não acelera inovação. Amplifica desgaste. Não reforça compromisso. Corrói confiança. Talvez por isso a gestão da mudança esteja a deixar de ser uma competência operacional para se tornar numa competência central de liderança. Não basta perguntar: “como implementamos esta tecnologia?” A pergunta decisiva passou a ser outra: “como ajudamos as pessoas a atravessar esta transformação sem perderem confiança, competência ou saúde psicológica?”

E aqui reside um dos maiores equívocos da próxima década. Muitas organizações continuarão a investir fortemente em cultura, engagement e bem-estar sem reconhecer que o contexto psicológico do trabalho mudou profundamente.

A pertença continua a importar. Mas a pertença não substitui a clareza. A cultura não substitui a segurança perante o futuro. E sessões sobre propósito dificilmente resolvem a ansiedade de quem não consegue perceber qual será o seu lugar numa organização transformada pela inteligência artificial.

Talvez seja esta a nova vantagem competitiva que muitos líderes ainda não reconheceram. Não serão necessariamente as empresas com melhor tecnologia, maior orçamento ou maior capacidade de automação a ganhar a próxima década.

Serão as empresas capazes de responder com honestidade a uma pergunta extraordinariamente simples: “Ajudar-me-ão a navegar aquilo que vem a seguir?”

Durante anos, acreditámos que o maior desafio das organizações era fazer as pessoas sentirem que pertenciam. Talvez o verdadeiro desafio seja mais exigente.

Conseguir que as pessoas se sintam seguras enquanto tudo à sua volta muda.

Fonte

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

U2 - Numb


Canção premonitória do mundo que seria no século XXI.
O videoclipe do primeiro single do álbum Zooropa foi realizado por Kevin Godley e filmado em Berlim, no verão de 1993.

O significado da canção Numb
A letra de "Numb" funciona como um mantra de negação. É uma sucessão frenética de ordens contraditórias e proibições (ex: "Don't move, don't talk out of line, don't believe, don't think"), que pintam o retrato de um indivíduo encurralado.

1. Sobrecarga sensorial e mediática
A música reflete a paralisia perante o excesso de estímulos da década de 90 - a explosão da TV por cabo, o nascimento da internet e o fluxo ininterrupto de notícias.
O "ruído" do mundo torna-se tão alto que o cérebro deixa de conseguir processar a informação.
É o som de alguém a tentar encontrar silêncio num mundo que não se cala.

2. O entorpecimento como defesa
O título "Numb" (Entorpecido/Insensível) descreve um estado de desapego emocional.
Mecanismo de proteção: o eu lírico opta por não sentir nada para não ser esmagado pela confusão exterior.

Se não houver crença, desejo ou pensamento crítico, o indivíduo torna-se imune à dor e à desilusão. É uma apatia voluntária.

3. A ironia da performance
O facto de ser The Edge a cantar, com uma voz propositadamente monótona e sem vida, reforça a ideia de uma máquina ou de alguém que já "desligou" os seus sentimentos. Enquanto isso, os falsetes de Bono ao fundo soam como os últimos vestígios de humanidade a tentar emergir do caos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

José González - Against the Dying of the Light


“Against the Dying of the Light”, de José González, é uma canção profundamente introspectiva que aborda a forma como o ser humano enfrenta a finitude, a perda e o esgotamento da vida. Inspirada no célebre poema de Dylan Thomas,“Do Not Go Gentle into That Good Night” a música centra-se na ideia de resistência interior perante o inevitável, defendendo que, mesmo quando o fim se aproxima, é essencial manter a consciência, a dignidade e a lucidez. A “luz” funciona como metáfora da vida, da esperança e da energia vital, e lutar contra o seu apagamento não significa negar a morte, mas recusar a rendição emocional e espiritual. O tom contido e melancólico da canção reforça uma luta silenciosa, íntima, marcada mais pela reflexão do que pela revolta. Para além da leitura literal associada à morte, a canção pode também ser entendida como um apelo à resistência contra a apatia, o conformismo e a perda de sentido no mundo contemporâneo, afirmando a importância de permanecer desperto e humano até ao último momento.

sábado, 17 de maio de 2025

The Chameleons - Don't Fall


I can't remember what was said
I can't remember what was done
The atmosphere is pushing me
The atmosphere is pushing me

I see a reflection in the window pane
And I don't like what I see
The atmosphere is pushing me
The atmosphere is pushing me

Don't fall
Get a grip on yourself
Don't fall
Get a grip on yourself

People staring, staring at me
Running round in circles
Blind to what they see
The atmosphere is pushing me
The atmosphere is pushing me

Don't fall
Get a grip on yourself
Don't fall
Get a grip on yourself

I'm checking out of this place
It's much too cold for me
The atmosphere is pushing me
The atmosphere is pushing me

Don't fall
Get a grip on yourself
Don't fall
Get a grip on yourself

Don't fall
Don't fall
Don't fall

O áudio samplado logo no início de "Don't Fall" pertence a um excerto de diálogo do filme de comédia musical americano de 1946, Two Sisters from Boston (editado em Portugal como Duas Irmãs de Boston). As vozes que se ouvem são dos atores Peter Lawford, que interpreta o jovem idealista Lawrence Tyndal, e Nella Walker, no papel da sua mãe, uma figura austera da alta sociedade. No filme, a personagem de Lawford declama, de forma dramática, a frase "In his autumn, before the winter comes, man's last mad surge of youth" (No seu outono, antes que o inverno chegue, surge o último e louco ímpeto de juventude do homem), ao que a mãe responde, num tom de total incompreensão e desdém, "What on earth are you talking about?" (De que raio estás tu para aí a falar?).

Os The Chameleons utilizaram este sample cinematográfico de forma magistral para ditar o tom não só da canção, mas de todo o álbum Script of the Bridge. A expressão sobre o "último e louco ímpeto de juventude" serve como uma metáfora perfeita para a urgência existencial, a paixão e a angústia daquela geração pós-punk. Por outro lado, a reação fria e confusa da mãe sintetiza de imediato o fosso geracional e a barreira de incompreensão entre a juventude idealista e o mundo adulto, alienado e institucionalizado, preparando o ouvinte para a explosão de guitarras e para a atmosfera de isolamento que se segue.

No que diz respeito ao seu significado, "Don't Fall" funciona como um monólogo interior claustrofóbico, um apelo desesperado pela manutenção da sanidade face ao isolamento, à ansiedade e ao colapso mental. A letra explora a desorientação e a paranoia do indivíduo perante um mundo que se tornou hostil e opressivo, sugerindo uma perda de controlo sobre as próprias memórias e ações. O refrão, que repete a ordem "Don't fall" (Não caias) e o conselho "Get a grip on yourself" (Controla-te ou ganha juízo), age como um mantra de sobrevivência psicológica, um esforço tremendo para não ceder à depressão ou à loucura. Adicionalmente, a canção tece uma crítica à apatia social, retratando as massas como pessoas que correm em círculos, alienadas e completamente cegas ao sofrimento alheio. Em resumo, o tema equilibra de forma magistral uma sonoridade claustrofóbica com um grito de resistência individual contra o abismo emocional.

sábado, 16 de março de 2024

Bauman e a dificuldade de amar


Zygmunt Bauman é autor de inúmeras obras com a palavra líquido em seu título. A noção de liquidez proposta pelo filósofo e sociólogo polaco, falecido no começo desse mês, é aplicada aos mais variados temas como a modernidade, o amor, o medo, a vida e o tempo, expressando a fluidez, isto é, a imensa facilidade com que estes elementos escorrem pelas mãos do homem moderno. A ideia, extraída de “O Manifesto Comunista” de Marx e Engels, vem da célebre afirmação de que tudo que é sólido se desmancha no ar e de que tudo que é sagrado é profanado: assim é a modernidade e sua essência que se alastra pela vida do homem moderno transformando-o não só como indivíduo, mas também como ser relacional.
O primeiro livro do Bauman que li foi “Amor Líquido” o qual, carinhosamente, valendo-me das palavras de Caetano, defino como “um sopapo na cara do fraco”, que me fez e faz, já que essa sorte de questionamento é constante, pensar na forma como nos relacionamos hoje em dia. Um ponto alto do livro, aos meus olhos, é o capítulo no qual Bauman fala sobre a dificuldade de amar o próximo destacando o modo como lidamos com os estranhos. Penso que nessa dificuldade é que se encontra a raiz de tantos dos nossos problemas seja na esfera pessoal ou pública. E é sobre isso que eu gostaria de refletir conjuntamente hoje.
Vivemos em uma sociedade fortemente marcada pelo conflito ser x ter na qual o homem passa a se expressar pelas suas posses, elementos definidores de sua própria identidade, o que reflete na busca por certa conformidade que ceifa a pluralidade de existências e segrega o que é diferente, estranho. O modo como as cidades se dividem é exemplo disso, os nichos considerados seguros são aqueles onde todos se parecem, exacerbando a nossa dificuldade em lidar com os estranhos que passam a ser evitados através de sistemas de segurança, muros, priorização de espaços que assegurem a conformidade de seus freqüentadores como os shoppings e etc. Evitar a todo custo o incômodo de estar na presença de estranhos, começar a enxergar naquele que sequer se sabe o nome um inimigo em potencial e desconfiar de tudo e de todos só é possível graças ao desengajamento e ruptura de laços para o sociólogo polaco.
Se levarmos em conta que amar outra pessoa não é amar o que projetamos nela e sim a sua humanidade e singularidades, não será difícil compreender que o amor é um desafio nos tempos de modernidade líquida. A busca pela felicidade individual nos transforma em tribunais individuais e, na disputa pela sentença a ser proferida, não raro, o que se vê é sair vencedor aquele que se recusa a ouvir o outro. Facilmente, pois, livramo-nos dos compromissos e de tudo aquilo que nos pareça incômodo. Ainda que tão agarrados a nós mesmos, paradoxalmente, é bastante comum que a solidão seja companhia (e problema) constante de quem vive a descartar.
Os muros que construímos ao nosso redor, físicos ou emocionais, têm mesmo esse condão de isolar e criar dois mundos em cada um de seus dois lados: o de dentro e o de fora. O último, espaço cativo dos que nos incomodam- aqui incluídos tanto quem nos relacionamos de forma íntima, quanto aqueles que preferimos distantes, inviabilizados de estar perto, enfim, aniquilados ao prender, matar, limitar a circulação, fixar em zonas periféricas e etc. É que Narciso acha feio tudo que não é espelho, já diria, mais uma vez, o sempre genial Caetano Veloso.
Dessas reflexões que vão (muito) longe e que, por ora, encerro aqui fica sempre uma mensagem muito clara para mim: amar (mesmo) é um ato revolucionário e só ama quem tem coragem o bastante para lidar com esse desafio porque sabe que, por mais que nem tudo sejam flores, esse amor “sólido” é que nos impulsiona a querermos ser melhores seja como pessoa ou sociedade. Parece distante e utópico, mas está dentro de nós: ame profunda e verdadeiramente. Até quem você não conhece.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Modernidade Líquida, o que é? Conceito, contexto e características



Cunhado pelo sociólogo polaco Zygmunt Bauman, o termo Modernidade Líquida refere-se à impermanência das características sociais. Em suma, o teórico sugere que as relações interpessoais, económicas e políticas se tornaram inconstantes e dinâmicas, moldáveis como a matéria no seu estado líquido.

Surgido num contexto pós-guerra, Modernidade Líquida é um conceito que se opõe à Modernidade Sólida. Enquanto a primeira é marcada pela imprevisibilidade, na segunda, as relações e comportamentos são mais fortes e duradouros. De acordo com Bauman, a Modernidade Líquida é o agora.

Pois bem, diante de um contexto globalizado, onde tudo ocorre de forma imediatista, a sociedade tende a procurar conforto em características da Modernidade Sólida. Todavia, os atributos da Modernidade Líquida continuam a destacar-se nas relações de mais âmbitos que marcam a vida da humanidade contemporânea.

Contexto histórico da Modernidade Líquida
A segurança deu lugar ao medo de ficar para trás, algo que se tornou uma característica marcante da Modernidade Líquida

Segundo Bauman, a Modernidade Líquida nasceu após a Segunda Guerra Mundial. Contudo, as suas características só vieram a tornar-se realmente notáveis a partir da década de 1960. Acontece que, com a instabilidade económica mundial que marcou a segunda metade do século XX, a sensação de segurança deu lugar à incerteza.

Além disso, o surgimento de novas tecnologias e a consolidação da globalização contribuíram para um maior dinamismo comunicacional. Assim, a sensação de que tudo estava em constante mudança resultou na liquefação das formas sociais e até mesmo da própria identidade do indivíduo.

Esta transição da Modernidade Sólida para a Modernidade Líquida trouxe consigo uma contínua sensação de angústia, ansiedade e medo. O temor do desemprego, da violência, do terrorismo e da estagnação tornou-se gritante, afinal, num mundo onde tudo acontece num ritmo hiperveloz, não se pode ficar para trás.

A Modernidade Sólida e a Modernidade Líquida
A Modernidade Sólida possui características opostas à Modernidade Líquida, como a estabilidade, a segurança e a manutenção das tradições

Assim como o próprio nome sugere, a Modernidade Sólida era caracterizada pela inflexibilidade e solidez das relações humanas, intelectuais e comportamentais. A título de exemplo, a busca pela verdade era um compromisso para os pensadores desse período, algo notável na Filosofia Moderna.

Além disso, as relações familiares eram mais fortes e duradouras, já que se prezava a manutenção da tradição. Apesar de também contar com os seus aspetos negativos, os quais chegaram a ser reconhecidos por Bauman, o principal benefício da Modernidade Sólida era a confiança na rigidez das instituições e das relações humanas.

Em suma, esta modernidade era duradoura em todos os âmbitos. Logo, mesmo que não contasse exclusivamente com características positivas, a Modernidade Sólida transmitia ao indivíduo uma sensação de segurança e controlo sobre a vida, as instituições e as relações.

Características da Modernidade Líquida
A Modernidade Líquida é marcada pela sobreposição do ter ao ser, afinal, a mesma é fruto da lógica capitalista

Marcada pela sobreposição das relações económicas às relações sociais, a Modernidade Líquida abriu espaço para uma fragilidade de laços interpessoais que acabou por se refletir nas instituições. Logo, a lógica do consumo deu lugar à lógica da moral e o ter passou a antepor-se ao ser, ao mesmo tempo em que o afeto se tornou um produto.

As relações de trabalho estabelecidas durante a Revolução Industrial foram substituídas pelo indivíduo enquanto empreendedor de si mesmo, onde a responsabilidade é apenas de quem trabalha. Desta forma, cada pessoa passou a ser a sua própria instituição e, por isso, as instituições também se tornaram líquidas.

A lógica capitalista deixou de ser questionada e passou a ser tida como inerente à sociedade. Assim, a ciência, a educação, a saúde e até mesmo as relações humanas foram submetidas ao consumo. Isto resultou na substituição da coletividade e da solidariedade, bem como na transformação do cidadão em consumidor.

Relações humanas e Amor Líquido
O Amor Líquido é caracterizado pela fragilidade das relações humanas, que podem ser desfeitas a qualquer momento

Na Modernidade Líquida, as relações humanas passaram a ser "conexões" superficiais e com potencial para serem facilmente desfeitas. Estas características foram intensificadas pelo fenómeno da internet e das redes sociais virtuais. Assim surgiu aquilo a que Bauman chama Amor Líquido.

Ao contrário do que se observava na Modernidade Sólida, a companhia afetiva e amorosa já não é duradoura. Logo, a mesma é dinâmica e instável, de caráter quase instantâneo, visando apenas o prazer individual. Desta forma, o sujeito torna-se objeto e, quanto mais conexões, melhor.

A lógica de consumo
Na Modernidade Líquida, o consumo ocorre de forma irracional e o próprio indivíduo torna-se um produto ou objeto

O consumo irracional é uma imposição da Modernidade Líquida. Visto que até mesmo as pessoas e as suas relações se tornam um objeto ou produto comercializado, a lógica capitalista passa a sugerir que tudo tem um preço. Desta forma, poder, estatuto e posse tornam-se prioridades na Modernidade Líquida.

Embora a Modernidade Sólida também contasse com a procura por estatuto — basta lembrar os casamentos arranjados realizados por conveniência —, no período que lhe sucede, o prestígio social ganha uma carga simbólica mais intensa. Assim, o sujeito passa a ser definido por aquilo que possui e consome: essa é a promessa de felicidade.

Política em crise
Na modernidade impermanente, o Estado perde força e as instituições privadas tornam-se mais influentes

Como seria de esperar, a política não deixou de ser afetada pelo fenómeno da Modernidade Líquida. Como resultado disso, passou a existir uma maior separação entre poder e política. Para ilustrar o que aconteceu neste processo, o Estado perdeu força e os serviços públicos começaram a deteriorar-se.

Desta forma, as iniciativas privadas ganharam mais espaço e influência. Além disso, muitas das responsabilidades estatais passaram a ser encargo do indivíduo. Assim, Bauman identificou uma crise da democracia e o colapso da confiança na política. Além disso, as desigualdades sociais tornaram-se ainda mais gritantes.

Medo constante
O medo e a insegurança são duas características em destaque na Modernidade Líquida, na qual o indivíduo abdica da sua privacidade nas redes, mas se isola em condomínios fechados

Por fim, entre as características da Modernidade Líquida, uma das mais notáveis é a segurança fluida. De acordo com Bauman, a globalização e a inconstância económica geraram o medo do desemprego, do terrorismo e da violência, que podem vir de qualquer parte do globo.

Desta forma, a sensação de segurança passa a ser transmitida pela vigilância constante. Logo, para se sentir protegido, o indivíduo abdica da sua privacidade nas redes, mas isola-se em condomínios fechados e casas muradas. Esta insegurança, por sua vez, acaba por ser projetada no ódio ao outro.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Adiaforização na modernidade líquida

A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.

Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.

A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.

Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.

Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.

Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".

Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.

O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.

Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.

Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.

Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.

O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.

Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.

A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.

O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.

Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.

A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.

Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.

A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.

Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.

A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.

Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Zygmunt Bauman: pensamentos profundos num mundo líquido


"Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho. A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?" - Zygmunt Bauman

Houve um tempo em que conceitos eram sólidos. Ideias, ideologias, relações, blocos de pensamento moldando a realidade e a interação entre as pessoas. O século 20, com suas conquistas tecnológicas, embates políticos e guerras viu o apogeu e o declínio desse mundo sólido. A pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido, ignorando divisões e barreiras, assumindo formas, ocupando espaços diluindo certezas, crenças e práticas.

A oposição entre o mundo sólido e o mundo líquido é a base do pensamento de Zygmunt Bauman, sociólogo, professor da London School of Economics e um dos mais respeitados intelectuais da atualidade. 

Em passagem pelo Brasil, em 2016, Bauman conversou com o programa Milênio. Leia abaixo a entrevista concedida ao jornalista Marcelo Lins ou assista no site da GloboNews:

O senhor viveu tempos difíceis no século 20, como a Segunda Guerra Mundial e a ascensão e a queda do comunismo, para mencionar dois exemplos. Qual acha que é a principal característica deste início de século 21?
Zygmunt Bauman: Este século é muito diferente do século 20. Se compararmos o que eu vivenciei quando jovem, cheio de esperanças e expectativas, com o que vivencio agora, em retrospecto, comparando, revisando expectativas e esperanças, eu diria que estamos num estado de interregno. Esse é o termo que gosto de usar.

No “interregno", não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando.

Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem.

Acha correto dizer que hoje recebemos informação demais, que não somos capazes de absorver todas elas? Temos acesso mas não sabemos o que fazer com ela?
Zygmunt Bauman: Você tem toda a razão. Colocou o dedo na parte mais dolorosa de nossa ferida. Como E. O. Wilson, o grande biólogo, expressou de forma muito sucinta e correta: “Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria."

Não temos tempo de transformar e reciclar fragmentos de informações variadas numa visão, em algo que podemos chamar de sabedoria. A sabedoria nos mostra como prosseguir. Como o grande filósofo Ludwig Wittgenstein dizia: “Compreender é saber como seguir adiante." E é isso que estamos perdendo. Não sabemos como prosseguir.

O senhor mencionou o fracasso de nossas instituições políticas: os partidos, a representatividade, que é falha no mundo todo. O senhor testemunhou o fracasso do sonho comunista na Polónia e na União Soviética. Qual foi o maior erro do comunismo?
Zygmunt Bauman: O comunismo se encaixava nas medidas do século 19. O século 19 foi um período de grande otimismo. Em primeiro lugar, as pessoas estavam convencidas — e tinham orgulho disso — de que, com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, seria possível refazer o mundo, virá-lo de cabeça para baixo. Era uma relação leve e despreocupada com a realidade. A realidade existia para ser reciclada, modificada, aperfeiçoada etc. Essa era uma coisa. A outra era a visão do caminho futuro, da estrada para a sociedade perfeita. Todos estariam trabalhando. Foi o período da revolução industrial. No final, todos se tornariam trabalhadores. Uma boa sociedade na grande fábrica com funcionários satisfeitos. Era o período da modernidade sólida e da sociedade industrial.

Hoje, vivemos na modernidade líquida e na sociedade pós-industrial do consumismo, e a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo foi uma coisa muito poderosa e importante. Mudamos o foco da construção das bases do poder da sociedade sobre a natureza para o contrário: para a cultura do imediatismo, do prazer, da individualização, de identificar a visão da felicidade com o aumento do consumo. Todos esses fenómenos novos pegaram o comunismo totalmente despreparado.

Se existe um consenso, e acho que podemos dizer que existe o consenso de que o comunismo perdeu essa guerra específica e o capitalismo venceu, sabemos que essa vitória trouxe, de certa forma, alguns fracassos. Faltam soluções para vários problemas. Quais são os maiores problemas da sociedade de mercado na sua opinião?
Zygmunt Bauman: As pretensões do comunismo fora da Cortina de Ferro forçou o capitalismo a limitar suas próprias propensões destrutivas, mantendo a desigualdade social dentro de limites aceitáveis, sem perder o controle sobre ela, e criando leis para garantir direitos aos empregados, não só aos empregadores. A ideia da desregulamentação do mercado de trabalho, por exemplo, seria impensável, simplesmente porque havia um concorrente, que não era cuidadoso e fazia propaganda. Não era fácil. Aí, de repente, tudo passa a ser possível. Ninguém o vigia. Você pode fazer o que quiser, pode usar todos os recursos que possui para promover seus interesses, e isso é potencialmente catastrófico.

A falta de autolimitação é o que está acontecendo agora. Além disso, a primeira reação após a introdução do ideal neoliberal de sociedade por Margaret Thatcher e Ronald Reagan foi que tivemos 30 anos do que chamo de orgia consumista: gastamos um dinheiro que não tínhamos, tínhamos esperança de que o futuro reembolsaria o que estávamos pegando emprestado, e isso terminou, como você bem sabe, em 2007/2008, com a crise de crédito. Agora estamos novamente no ponto de partida.

Um dos maiores problemas desse novo ponto de partida é a desigualdade. O senhor escreveu muito sobre isso, e o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, apesar de ser um país rico. Aparentemente, está claro que a riqueza de poucos não beneficia a todos. Como equilibrar melhor essa equação numa democracia?
Zygmunt Bauman: A desigualdade não está apenas aumentando, ela muda sua natureza, sua estrutura e está ligada a esses limites que o capitalismo se impõe para manter as coisas em ordem, digestíveis, toleráveis, aceitáveis. Eles desapareceram e, como resultado, a desigualdade mudou sua natureza porque as vítimas da desigualdade da sociedade eram, antigamente, as pessoas que viviam na pobreza, na base da sociedade, os párias da sociedade. Hoje não é mais assim, porque estamos testemunhando o processo que Guy Standing, um sociólogo muito ativo, chamou de “precariado".

O que chamamos de classe média, que era a parte da sociedade mais bem sucedida e confiante, está se transformando muito rapidamente no precariado, que é uma espécie de equivalente ao antigo proletariado: pessoas que estão inseguras em relação à sua posição.

De acordo com as últimas teses dos economistas — pessoas que estudam o assunto melhor do que eu e calculam as estatísticas —, não é mais uma questão dos 25% mais ricos da população e dos 25% mais pobres, mas do conflito entre o 1% que está no topo e os 99% do resto da sociedade. Não sei se você notou que a riqueza dos Estados Unidos após a crise de crédito. Houve alguma recuperação e o valor agregado da riqueza dos EUA aumentou depois da crise, mas 94% desse valor agregado ficou com 1% da população. Todo o resto teve que dividir os outros 6%.

Vamos falar sobre conflitos, sobre a crise e a reação à crise. Estamos vivendo a crise dos refugiados. Ela começou como a crise dos imigrantes ilegais, como se chamava no início, mas logo percebemos que se trata de uma crise de refugiados. Como analisa a reação das potências mundiais a essa crise?

Zygmunt Bauman: Não se trata de um evento único, nem é novidade. A novidade é a atenção dedicada ao assunto, porque ele foi dramatizado, em parte com a ajuda da cobertura televisiva, quando vimos a criança morta na praia e aquilo que aconteceu em Lampedusa, quando centenas de pessoas se afogaram em embarcações sucateadas. Mas a migração em massa acompanha a era moderna desde o início.

O Brasil, por exemplo, é produto da migração em massa. Pessoas vieram da Itália, da Espanha e de Portugal para cá para criar uma vida própria. Por que vieram? Porque procuravam trabalho, água potável, condições decentes de vida, coisas que não tinham em seus países.

A reação da Europa tem um impacto duplo. Por um lado, as empresas têm interesse em assimilar essas pessoas. Sua força de trabalho. Elas lucrariam mais, para resumir. Por outro lado, existe a reação esperada do medo de estranhos. “Eles estão chegando para tumultuar. Vamos nos afogar, eles vão inundar nossas cidades." Os empregados, e não os empregadores, os enxergam como concorrentes que provocarão o arrocho de seus salários. Eles serão usados pelos patrões para rejeitar as demandas dos empregados atuais, que podem ficar sem emprego. São duas pressões diferentes novamente.

Mudando de assunto, já que nossa conversa está chegando ao fim. Neste mundo hiperconectado, no qual qualquer tipo de informação está a um clique no seu computador, qual é o papel da educação tradicional nas escolas e nas universidades? E também do jornalismo tradicional, se podemos chamar assim?
Zygmunt Bauman: Novamente, você mencionou um dos problemas mais importantes e dolorosos de nossos dias. Acho que a educação tem um papel tremendamente importante. Na situação atual, gosto de me referir a um ditado chinês da época de Confúcio. Ele diz que se você planeja para um ano, semeie milho. Se planeja para dez anos, plante uma árvore. Se planeja para 100 anos, eduque as pessoas. É disso que estamos nos esquecendo hoje.

Nosso sistema educacional atual é uma das vítimas da cultura do imediatismo. Educação e imediatismo são termos contraditórios. Não se pode ter os dois. Ou se tem uma educação de qualidade ou se tem o imediatismo. Não dá para ter os dois ao mesmo tempo. E este é um problema terrível.

Na história da sociedade humana, assim que os gregos antigos inventaram o conceito de paideia, a educação viveu constantemente algum tipo de crise, porque as circunstâncias mudavam e ela tinha que se ajudar às novas informações. Mas essa crise é muito básica e essencial. Você mencionou o contexto da tecnologia da informação, que é uma biblioteca de fragmentos, de pedacinhos, sem algo que os reúna e os transforme em sabedoria, em conhecimento.

E o fluxo é enorme.
Zygmunt Bauman: E isso destrói certas capacidades psicológicas, como atenção, concentração, consistência e o chamado pensamento linear, quando você estuda um assunto de forma consistente e o esgota, vai até o fim. Há mudanças na psique humana, é uma situação completamente nova, que põe os educadores numa posição muito difícil. Eles precisam repensar muitas coisas.

Numa tentativa de não terminar nossa conversa de forma triste, o que lhe traz esperança quando olha em volta? Que iniciativas, projetos e coisas estão sendo feitas que lhe dão esperança no futuro da humanidade?
Zygmunt Bauman: Quanto mais envelheço, mais amplio a perspectiva na qual baseio minha avaliação da situação. Primeiro eu me concentrei em alguns excessos da modernidade, depois passei a analisar a lógica ou a falta de lógica da modernidade líquida. Foram estudos limitados pela perspectiva histórica, mas sou pessimista em relação ao curto prazo e otimista em relação ao longo prazo.

Quando analisamos a história da humanidade, apesar da nossa tendência de esquecer a história, da crise da memória histórica, apesar disso, a história da humanidade é animadora. Ela era muito mais cruel e sórdida antes.

É muito menos cruel e sórdida agora, apesar de tudo de terrível e ultrajante que acontece. Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho.

A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Entrevista a Zygmunt Bauman: "Vivemos o fim do futuro"

Em 1963, o sociólogo polaco Zygmunt Bauman foi censurado e afastado da Universidade de Varsóvia por causa de suas ideias, consideradas subversivas no comunismo. Hoje, aos 88 anos, imigrante em Londres, é considerado um dos pensadores mais eminentes do declínio da civilização. Ele ainda dá aulas na London School of Economics, ministra palestras pelo mundo inteiro e publicou quatro dezenas de livros que viraram best-sellers. O mais recente é Vigilância líquida. 
Bauman é autor do conceito de “modernidade líquida”. Com a ideia de “liquidez”, ele tenta explicar as mudanças profundas que a civilização vem sofrendo com a globalização e o impacto da tecnologia da informação. Nesta entrevista, ele fala sobre como a vida, a política e os padrões culturais mudaram nos últimos 20 anos. As instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um “deficit perpétuo de poder”. Na cultura, a elite abandonou o projeto de incentivar e patrocinar a cultura e as artes. Segundo o autor, hoje é moda, entre os líderes e formadores de opinião, aceitar todas as manifestações, mas não apoiar nenhuma. 

ÉPOCA – De acordo com sua análise, as pessoas vivem um senso de desorientação. Perdemos a fé em nós mesmos? 
Zygmunt Bauman – Ainda que a proclamação do “fim da história” de Francis Fukuyama não faça sentido (a história terminará com a espécie humana, e não num momento anterior), podemos falar legitimamente do “fim do futuro”. Vivemos o fim do futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá. 

ÉPOCA – Segundo o senhor, a decadência da política acontece desde o século passado. A situação piorou agora? 
Bauman – A decadência da política é causada e reforçada pela crise da agenda política. As instituições amarram o poder de resolver os problemas à política. Ela seria capaz de decidir que coisas precisariam ser feitas. Nossos antepassados conceberam uma ordem que dependia dos serviços do Estado-nação. Mas essa ordem não é mais adequada aos desafios postulados pela contínua globalização de nossa interdependência. Com a separação do poder e da política, a gente se encontra na dupla situação de poderes livres do controle político e da política que sofre o deficit perpétuo do poder. Daí a crise de confiança nas instituições políticas, uma vez que a política investiu nos parlamentos e nos partidos para construir a democracia como atualmente a compreendemos. Mais e mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas. Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva. 

ÉPOCA – As redes sociais aumentaram sua força na internet como ferramentas eficazes de mobilização. Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade em rede? 
Bauman – Redes, você sabe, são interligadas, mas também descosturadas e remendadas por meio de conexões e desconexões... As redes sociais eram atividades de difícil implementação entre as comunidades do passado. De algum modo, elas continuam assim dentro do mundo off-line. No mundo interligado, porém, as interações sociais ganharam a aparência de brinquedo de crianças rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual, de nossa experiência de vida. Hoje, assistimos à tendência de adaptar nossas interações na vida real (off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que experimentamos quando estamos no mundo on-line da internet. 

ÉPOCA – Os jovens podem mudar e salvar o mundo? Ou nem os jovens podem fazer algo para alterar a história? 
Bauman – Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação deles. Para que se deem uma oportunidade, os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes. Os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real.