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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Rússia e China adotam “movimento dissimulado de apropriação territorial” no Ártico: “A Noruega tem soberania sobre Svalbard, ponto final”


Durante mais de duas décadas, um par de imponentes leões de granito ladeou a entrada de um edifício vermelho-ferrugem em pleno Círculo Polar Ártico. Já não é assim. No mês passado, desapareceram - e a sua ausência conta uma história sobre a geopolítica cada vez mais tensa no topo do mundo.

Os leões desaparecidos guardavam outrora uma estação de investigação operada pela China na colónia de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Polo Norte. Em maio, foram removidos pela empresa estatal norueguesa que gere a colónia; em junho, a mesma empresa retirou uma placa do edifício onde se lia "Estação Rio Amarelo".

A iniciativa da Noruega é vista por alguns especialistas como parte de uma tentativa de reforçar a sua soberania sobre esta parcela do Ártico, face a mudanças geopolíticas e climáticas sísmicas.

A Gronelândia pode dominar as preocupações no Ártico - com o Presidente Donald Trump a tentar repetidamente reivindicá-la para os Estados Unidos, invocando a necessidade de contrariar a crescente influência de Pequim e Moscovo -, mas outra disputa potencialmente explosiva está a desenrolar-se em Svalbard, onde a China e a Rússia já têm presença. E há quem receie que o mundo não esteja a prestar atenção suficiente.

Um arquipélago único sob pressão
Svalbard é um grupo de ilhas singular. Tem apenas cerca de 3000 residentes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz ali. É o lar da cidade permanentemente habitada mais a norte do planeta, Longyearbyen, e é o local que mais rapidamente aquece na Terra, a um ritmo cerca de seis a sete vezes superior à média global.

Um tratado centenário confere à Noruega total soberania, mas também permite que cidadãos de quase 50 países signatários, incluindo a China e a Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem necessidade de visto.

Nas últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência ártica e um local raro de cooperação internacional.

"Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... juntam-se para colaborar", afirmou Hedda Andersen, uma glaciologista que trabalha na Estação de Investigação de Ny-Ålesund.

Contudo, esta harmonia está a desgastar-se à medida que a orgânica única de Svalbard colide com relações internacionais cada vez mais fraturadas e com a busca dos países por influência num Ártico em rápido aquecimento.

"Estamos a ver o contexto geopolítico mais amplo a transbordar para o território de uma forma que não se via nas décadas anteriores", explicou Otto Svendsen, investigador associado no Center for Strategic and International Studies (CSIS).

A atração estratégica de Svalbard
A geografia de Svalbard é grande parte do que a torna tão atraente:
Recursos: o seu oceano ostenta ricas zonas de pesca e minerais críticos no fundo do mar.
Tecnologia: está numa localização privilegiada para controlar e descarregar dados de satélites de órbita polar usados para ciência, previsão meteorológica e defesa.
Militar: situa-se perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais estratégicas de Moscovo, onde se encontra grande parte do seu arsenal nuclear marítimo.

O arquipélago é de fácil acesso. Voos regulares a partir da Noruega continental permitem chegar ao alto Ártico em poucas horas. Dezenas de países têm presença em Svalbard, incluindo a Rússia, a China, o Reino Unido, a Itália, o Japão e a Polónia. As suas estações de investigação servem de porta de entrada para a influência no Ártico, funcionando "quase como uma moeda geopolítica", sublinhou Serafima Andreeva, investigadora do The Arctic Institute.

O fim do "Alto Norte, baixa tensão"
Durante décadas, o lema na região foi "Alto Norte; baixa tensão", recordou Eivind Vad Petersson, secretário de Estado no Ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês, mas "essa já não é uma descrição precisa da realidade".

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 desfez a ideia de que o Ártico estava imune aos ventos geopolíticos e colocou o foco na dissonância de a Rússia ter uma colónia em território da NATO. Barentsburg, um posto avançado de mineração e investigação em Svalbard, é habitado quase inteiramente por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lénine.

As ações russas em Svalbard têm inflamado ainda mais as tensões:
Em 2023, a Rússia realizou um desfile de estilo militar em Barentsburg, com uma coluna de camiões e motas de neve com bandeiras russas e um helicóptero a voar a baixa altitude, o que valeu a Moscovo uma multa da autoridade de aviação norueguesa.
No ano passado, o deputado russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard deveria ser renomeada como "Ilhas Pomor", numa referência a um grupo de caçadores russos presentes no arquipélago há séculos.
Retórica: A Rússia tem invocado o mesmo tipo de linguagem que usa para justificar as suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa de proteger os falantes de russo em Svalbard. Tem também acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirmou que Oslo "bate no limite" da estipulação do Tratado de Svalbard de que as ilhas não devem ser usadas para "fins bélicos". Korchunov acrescentou que a Rússia nunca pôs em causa la soberania da Noruega, mas está, sim, a "tentar trazer clareza" sobre a forma como esta soberania é exercida.

O papel da NATO e as ambições da China
O secretário de Estado norueguês, Petersson, rejeitou as alegações de militarização, explicando à CNN que o Tratado de Svalbard impede a criação de uma base da NATO nas ilhas ou a sua utilização para fins bélicos, mas que isso é "muito mais restrito e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

"Svalbard é parte da Noruega; Svalbard é parte da NATO; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses", declarou.

Poucos acreditam que a Rússia esteja a traçar um caminho para uma ação militar direta. Já tem quase tudo o que quer em Svalbard e está focada na Ucrânia, apontou Andreas Østhagen, investigador sénior no Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo. Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não será recuada pela Noruega, ou pela NATO em geral".

Mas não são apenas as ações da Rússia que preocupam. Há também a China.
Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições. No seu documento de estratégia para o Ártico de 2018, autodenominou-se um "Estado quase-Ártico" e referiu repetidamente Svalbard. Tem também planos para uma "Rota da Seda Polar", um corredor de infraestruturas e navegação no topo do mundo.

Em 2024, quando a China celebrou o 20.º aniversário da sua estação de investigação em Ny-Ålesund, uma empresa de viagens chinesa levou mais de 100 turistas a Svalbard. Alguns agitaram bandeiras; um deles vestia uma farda de camuflagem com o que parecia ser um emblema militar chinês. O evento gerou alarme na Noruega.

Um porta-voz da Embaixada da China na Noruega afirmou que o país participa nos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que as suas intenções na região visam "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

O catalisador das alterações climáticas
Existe outro fator crucial nesta teia de tensões: as alterações climáticas causadas pelo Homem. No verão de 2024, Svalbard quebrou recordes anteriores de degelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo (cerca de 1% do seu total), com as temperaturas a subirem cerca de 4ºC (7ºF) acima da média. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo.

As alterações climáticas são "em grande parte o que está a impulsionar muito do interesse geral em direção ao Ártico", referiu Østhagen. Existe a narrativa de que o degelo abrirá oportunidades económicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa. Há décadas que se antecipa um fluxo de navios pelo Oceano Ártico e uma corrida ao petróleo, gás e minerais sob as suas águas gélidas - mas isso ainda não aconteceu. A região continua a ser dura e inóspita.

Ainda assim, se o degelo vai ou não abrir a região "não importa", considerou Torbjørn Pedersen, professor na Universidade Nord. O "medo de ficar de fora" está a empurrar os países a marcarem presença no Ártico e a exercerem influência política.

A Noruega aperta o controlo
Face a isto, a Noruega parece estar a apertar o controlo sobre Svalbard:
  1. Alteração de leis: em 2022, o governo mudou as regras eleitorais para impedir que cidadãos não noruegueses votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem vivido na Noruega continental durante três anos.
  2. Mineração: a Noruega assumiu a ambição de explorar minerais críticos numa vasta extensão do fundo do mar do Ártico em redor de Svalbard. O plano foi contestado pela Rússia.
  3. Símbolos nacionais: seguiu-se a remoção dos leões da China e de símbolos nacionais noutros edifícios de Ny-Ålesund.
"Não existe uma estação de investigação chinesa em Svalbard", clarificou Petersson. "Existe uma estação de investigação norueguesa com inquilinos chineses. Essa é uma distinção que faz a diferença."

Para já, a Noruega mostra-se confiante na capacidade de "manter um certo nível de estabilidade nesta região". Mas o mundo está a mudar rapidamente. Com Trump a reiterar que os EUA deveriam deter a Gronelândia, a aliança da NATO sob pressão crescente e os países a posicionarem-se como potências árticas, o futuro parece cada vez menos certo.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade de afirmar esse poder", concluiu Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século."
Fonte [PT] [EN]

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domingo, 29 de março de 2026

Conheça Eau10b, a primeira baleia intersexo conhecida — um ser vivo que desafia a nossa definição de sexo na biologia


1. Introdução: o legado de 1989
A biologia marinha foi recentemente surpreendida pela publicação na revista científica Marine Mammal Science (Crossman,C, 2024) , que detalha a descoberta da baleia-franca-austral (Eubalaena australis) denominada Eau10b. O aspeto mais extraordinário deste caso é o facto de a descoberta ter ocorrido "em laboratório", décadas após o contacto físico. Amostras de pele colhidas em 1989, através de dardos de biopsia, foram analisadas com tecnologias modernas de sequenciação genética, revelando uma aneuploidia cromossómica sexual (XXY).

2. A Genética da baleia Eau10b
Em mamíferos, o sexo é geralmente determinado pelo par XX (fêmea) ou XY (macho). Contudo, Eau10b apresenta um cromossoma X extra. Esta condição, análoga à Síndrome de Klinefelter em humanos, significa que o animal possui o gene SRY (responsável pelo desenvolvimento masculino), mas num contexto genético que também inclui o par feminino. Esta descoberta prova que variações cromossómicas complexas ocorrem mesmo em espécies de vida longa e de grande porte.

3. Evidências Científicas noutras Espécies
A intersexualidade não é uma anomalia isolada, mas um fenómeno documentado em diversas linhagens:
  1. Baleias Beluga (Delphinapterus leucas): um estudo clássico publicado na Canadian Journal of Zoology (De Guise et al., 1994) descreveu um caso de hermafroditismo verdadeiro num indivíduo do Estuário de St. Lawrence, que possuía dois testículos e dois ovários funcionais, um dos raros casos documentados em cetáceos.
  2. Ursos Polares (Ursus maritimus): investigadores em Svalbard e Nunavut documentaram casos de pseudo-hermafroditismo feminino. Um estudo seminal na Journal of Mammalogy (Carmichael et al., 2005) analisou ursas com genitais externos masculinizados (clitoromegalia), investigando se a causa seria genética ou fruto de desreguladores endócrinos (poluentes).
  3. Ursos Cinzentos e Pretos: Casos semelhantes de virilização em fêmeas foram reportados em populações de Ursus arctos e Ursus americanus, onde, apesar da genitália ambígua, muitas fêmeas mantinham a capacidade de procriar.´
A terminologia e as definições utilizadas para falar de indivíduos intersexo têm mudado ao longo do tempo, especialmente quando se referem a pessoas. Mas, de acordo com o historiador Beans Velocci, da Universidade da Pensilvânia, que estuda a história da classificação sexual, os cientistas usam o termo intersexo para descrever corpos que, independentemente da espécie, não podem ser facilmente categorizados como masculinos ou femininos. Nem todos os indivíduos intersexo têm cromossomas XXY — o termo abrange indivíduos com um leque de características resultantes de diferenças genéticas, hormonais e anatómicas. Um indivíduo intersexo pode ter órgãos sexuais ou uma aparência física que diverge da norma. Alguns indivíduos, por exemplo, têm um cromossoma Y e testículos, mas as suas células não respondem às hormonas sexuais masculinas, pelo que a sua anatomia externa é mais feminina.

Embora os animais intersexo sejam frequentemente inférteis e incapazes de gerar descendentes para ajudar no crescimento da população, Velocci afirma que, em espécies sociais como as baleias, os animais intersexo desempenham provavelmente papéis não reprodutivos importantes que beneficiam a população de outras formas.

O estudo dos animais intersexo ajudou os cientistas a compreender melhor como os genes e as hormonas moldam os indivíduos durante o desenvolvimento. Através do processo de domesticação de animais, as pessoas conhecem as vacas intersexo há milhares de anos. Em Vanuatu, no Pacífico Sul, os habitantes criam uma raça única de porcos intersexo, valorizados pelas suas delicadas presas em espiral. Mais recentemente, os investigadores também documentaram cavalos, cães, alces, ovelhas, peixes e muitos tipos diferentes de invertebrados intersexo. Os animais intersexo são raros em todas as espécies, diz Carla Crossman, mas são “mais comuns do que pensávamos historicamente”.

As baleias intersexo passam despercebidas, em particular, porque os cetáceos possuem genitais internos. “Não é comum ter uma boa visão dos genitais de uma baleia”, diz Carla Crossman. “Tudo fica lá dentro.” No entanto, os cientistas já encontraram baleias-fin, belugas, baleias-da-gronelândia, golfinhos-comuns-de-bico-curto e baleias-de-bico-de-True intersexo.

“Cada vez que [os investigadores] estão no terreno ou a examinar espécimes, continuam a encontrar estas exceções”, diz Velocci. Os cientistas “já viram vezes sem conta que o sexo claramente não é binário”.

Mas, segundo Velocci, o ensino científico não acompanhou esta mudança. “XX e XY são ensinados como a base da qual tudo o resto pode divergir, em vez de uma possível variação entre muitas”.

Para certas espécies bem estudadas, como a baleia-franca-do-atlântico-norte, parente próxima da baleia-franca-austral, que está em perigo de extinção, os investigadores estimam o sexo de um indivíduo observando comportamentos, como nadar com uma cria recém-nascida, ou características externas evidentes, como o tamanho e a cor da fenda genital. Mas, para a maioria das baleias, os testes de ADN são a única resposta.

No entanto, a história de Eau10b mostra que mesmo os testes de sexo mais comuns não são perfeitos. Ao reduzir o sexo à presença ou ausência de um único gene, o SRY, os cientistas correm o risco de ignorar os animais que não se enquadram perfeitamente na dicotomia macho-fêmea. Com os recentes avanços na investigação genética, porém, é agora mais fácil identificar animais intersexo comparando os resultados de diferentes testes. “Podemos simplesmente começar a procurar”, diz Crossman.

Quando os cientistas identificarem o próximo animal intersexo, esta informação provavelmente não irá alterar a forma como a sua espécie é gerida ou compreendida. Mas este indivíduo, seja um guppy ou uma baleia, representará mais um desafio às definições rígidas de sexo. O que a sociedade considera normal é uma caixa cuidadosamente desenhada em torno de um mundo selvagem e complexo, e cada indivíduo que não pode ser contido oferece um vislumbre fascinante da verdadeira diversidade da natureza.

Quadro-resumo da biologia intersexo

MecanismoEspécie ExemploBase Biológica
Aneuploidia (XXY)Baleia Eau10bMutação numérica nos cromossomas sexuais durante a meiose.
Hermafroditismo VerdadeiroBeluga (St. Lawrence)Presença simultânea de tecidos gonadais masculinos e femininos.
Pseudo-hermafroditismoUrsos de SvalbardCromossomas normais (XX), mas fenótipo alterado por hormonas ou ambiente.
Hermafroditismo SequencialPeixe-palhaçoMudança funcional de sexo baseada em gatilhos sociais/hierárquicos.
A complexidade destes casos reside na interação entre o genótipo e o fenótipo. Enquanto em peixes como o peixe-palhaço a mudança de sexo é uma estratégia adaptativa social (hermafroditismo sequencial), em mamíferos como a baleia Eau10b, trata-se de uma variação cromossómica estrutural. O gene SRY, localizado no cromossoma Y, actua como um fator de transcrição que ativa o gene SOX9, desencadeando a formação de testículos. No caso XXY, a presença deste gene "vence" a sinalização feminina dos dois cromossomas X, resultando num indivíduo com características híbridas. Estas descobertas, preservadas em biobancos desde os anos 80, sublinham que a diversidade biológica não é a excepção, mas sim uma característica intrínseca da evolução, desafiando a visão binária tradicional da zoologia.

sábado, 5 de abril de 2025

Nem ilhas desabitadas fogem às tarifas de Trump. Um país “que ninguém conhece” é o mais afetado



“Nenhum lugar do mundo está isento” da vingança da nova administração dos EUA. Do arquipélago dos imortais às ilhas desabitadas da Austrália e Noruega: os pequenos territórios não escaparam ao “Dia da Libertação”.

Esta quarta-feira Donald Trump puniu os países que acusa de abusarem da bondade dos Estados Unidos e das suas políticas comerciais dos últimos anos, com novas tarifas “recíprocas” que afetam cerca de 185 locais por todo o mundo. E os “piores infratores” são os mais castigados, disse a Casa Branca.

Um dos grandes objetivos das tarifas, segundo Trump, é proteger os empregos americanos da concorrência estrangeira desleal, mas entre as regiões afetadas estão algumas onde há mais pinguins do que humanos.

É o exemplo das ilhas Heard e McDonald, territórios australianos no Oceano Índico mais conhecidos pelas suas populações de pinguins do que por qualquer atividade económica humana, uma vez que são ilhas totalmente desabitadas; ou Tokelau, perto da Nova Zelândia, onde vivem menos de 2.000 pessoas; ou Norfolk, no Pacífico Sul.

Falamos também das ilhas norueguesas de Svalbard, com apenas 3.000 pessoas, e de Jan Mayen, no Oceano Ártico, onde moram apenas 18 pessoas, todos trabalhadores temporários; ou o Território Britânico do Oceano Índico, que só tem uma base militar conjunta do Reino Unido… com os EUA.

Todos estes territórios serão atingidos pela tarifa mínima de 10%, confirma a Casa Branca ao Politico, porque estão sob a jurisdição da Austrália e Noruega, que estão sujeitos às novas tarifas.

“Não tenho a certeza de que a Ilha Norfolk seja um concorrente comercial da economia gigante dos Estados Unidos, mas isto só mostra que nenhum lugar do mundo está isento” das tarifas, desabafou o primeiro-ministro australiano Anthony Albanese.

Nesta novela, o país mais afetado pelas tarifas é um de que “nunca ninguém ouviu falar”, como descreveu o próprio Trump no seu primeiro discurso ao Congresso dos EUA, em que prometeu cortar a ajuda ao Lesoto. O pequeno país africano conhecido como o “Reino no Céu” foi atingido por uma tarifa de 50%, devido às suas próprias políticas tarifárias de 99%.

As tarifas entram em vigor este sábado, 5 de abril. A União Europeia rapidamente começou a prometer uma resposta às tarifas de 20% aplicadas pela administração Trump.

domingo, 24 de dezembro de 2023

Renas de Svalbard


As renas de Svalbard (território norueguês localizado ao norte do Círculo Polar Ártico) são uma subespécie perfeitamente adaptada ao clima ártico. Existem em Svalbard há milénios.
É a menor espécie de rena.

Saber mais:

quarta-feira, 22 de março de 2017

Não acredita em alterações climáticas? Veja as imagens do antes e do depois


No início do século XX, os glaciares do Árctico eram um dos fenómenos mais misteriosos e desconhecidos da natureza. Mas, cerca de 100 anos depois, o seu desaparecimento tornou-se a prova "visível" das alterações climáticas. Em 2002, o fotógrafo sueco Christian Åslund, que colabora com a organização ambientalista Greenpeace há quase 20 anos, decidiu procurar no arquivo do Instituto Polar Norueguês imagens dos glaciares registadas em inícios do séc. XX, no arquipélago norueguês Svalbard. Durante três semanas, Åslund recolheu várias fotografias e percorreu o Árctico num barco de forma a reproduzir as mesmas imagens, no mesmo lugar, um século depois.

Notícia completa  e as 14 fotografias aqui

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Renas estão a encolher e a perder peso. E a culpa é do aquecimento global

As renas arquipélago de Svalbard, na Noruega, estão a encolher e a perder peso por causa do aquecimento global. Um estudo mostra que, em 16 anos, o peso das renas adultas diminuiu 12%. [Fonte: O Observador]
Uma equipa de investigadores do Instituto James Hutton e de um instituto da Universidade de Ciências da Vida da Noruega estudaram a evolução das renas desde 1994

As renas estão a encolher e o seu peso diminuiu 12% em 16 anos por causa do aumento das temperaturas, concluiu um estudo da British Ecological Society (Sociedade Ecológica Britânica) feito na Noruega e que apresentado esta segunda-feira.
“Nestes últimos 20 anos, um período de aquecimento visível, tanto no verão como no inverno, no Ártico”, as renas do arquipélago de Svalbard, na Noruega, “tornaram-se mais pequenas e mais leves”, diz aquela sociedade britânica num comunicado em que sintetiza as conclusões de um estudo apresentado em Liverpool (Inglaterra).
Uma equipa de investigadores do Instituto James Hutton (um centro de ciência escocês) e de um instituto da Universidade de Ciências da Vida da Noruega estudaram a evolução das renas, medindo e pesando os animais, desde 1994. Todos os invernos capturavam, marcavam e mediam renas com dez meses de idade. Voltaram ao mesmo arquipélago todos os anos para medir e pesar diferentes gerações até alcançarem a idade adulta.
O estudo mostra que em 16 anos, o peso das renas adultas diminuiu 12%, de 55 quilos nos animais nascidos em 1994 para 48 naqueles que nasceram em 2010. “12% pode parecer pouco, mas dada a importância do peso corporal na reprodução e na sobrevivência, é potencialmente enorme”, disse à agência de notícias AFP Steve Albon, do Instituto James Hutton.
Segundo estudos anteriores, sempre que o peso médio das renas adultas era inferior a 50 quilos em abril, a população diminuía, explicou o investigador. Para os cientistas, esta diminuição do peso das renas de Svalbard está relacionado com o aquecimento global. Invernos mais quentes traduzem-se em mais chuva, que cai sobre a neve e congela, impedindo as renas de acederem à vegetação que costumam comer. “As renas têm fome, perdem as crias ou dão à luz animais mais pequenos”, explicou.
A população de renas no mesmo arquipélago, no entanto, não diminuiu neste período, pelo contrário, duplicou nos últimos 20 anos, segundo o estudo.
Outra investigação divulgada em novembro sobre as renas na Sibéria já havia concluído que o aquecimento global, por causa das chuvas, ameaça esta espécie, por dificultar o acesso dos animais aos alimentos a que estão habituados. Segundo esse estudo, 61 mil renas da Sibéria estavam ameaçadas de morrer de fome por causa do fenómeno das chuvas no inverno, que congelam ao tocar a neve.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nikolai Vavilov: o primeiro guardião da biodiversidade vegetal

É pouco conhecido do grande público. Mas foi o primeiro cientista a perceber que, para salvar a humanidade da fome, era imperativo conservar a biodiversidade genética das plantas cultiváveis do mundo inteiro em “bancos de sementes”. Ironicamente, morreu de fome na prisão durante o estalinismo.

Todos (ou quase) terão ouvido falar, nos media, do grande Cofre-Forte de Sementes Global de Svalbard, uma espécie de congelador gigante, de aspecto futurista, construído numa zona montanhosa do Árctico. Inaugurado em 2008, tem como objectivo proteger o maior número de espécies cultiváveis úteis do mundo – como feijões, arroz ou trigo –, contra as piores calamidades que possam acontecer, de forma a preservar o sustento alimentar da humanidade. Mas o que quase ninguém sabe é que essa ideia de preservação da biodiversidade agrícola nasceu há um século na cabeça de um cientista russo.

Foi precisamente em 1916 que Nikolai Vavilov, biólogo, geneticista, geógrafo, agrónomo e especialista do melhoramento das espécies vegetais partiu para a Pérsia (actual Irão) na sua primeira expedição, para recolher sementes cultivadas em regiões mais e menos “exóticas”. Essa sua actividade intensa de exploração dos quatro cantos do globo continuaria ao longo da sua vida e conduziria à criação, já em 1924 em São Petersburgo (então Leningrado), do primeiro banco de sementes do mundo.

“O sonho de Vavilov era acabar com a fome no mundo e o plano que tinha para o conseguir consistia em utilizar a ciência emergente da genética para gerar ‘super-plantas’, capazes de crescer em todos os locais e em todos climas – dos desertos de areia às gélidas tundras, durante secas ou inundações”, lê-se no site da cadeia global de televisão Russia Today. E para o poder fazer, o cientista precisava de trazer para o seu laboratório a diversidade genética global.

Coleccionador de plantas
Nikolai Vavilov nasceu em Moscovo a 25 de Novembro de 1887. O seu pai era um “próspero homem de negócios tornado milionário”, lê-se numa recensão de 1994, na revista Nature, da primeira da tradução em inglês (publicada em 1992) dos mais importantes trabalhos de Vavilov, coligidos sob o título de Origin and Geography of Cultivated Plants. Depois de acabar o curso no Instituto de Agricultura de Moscovo, Vavilov passou quase um ano, entre 1913 e 1914, no Reino Unido, no laboratório de William Bateson, pioneiro da genética moderna – e que cunhara aliás a palavra “genética” em 1901.

Quando estalou a Primeira Guerra Mundial, Vavilov regressou a Moscovo e, na Universidade de Saratov, (cidade situada a uns 700 quilómetros a sudeste de Moscovo, nas margens do rio Volga) começou a fazer investigações sobre a resistência das plantas às doenças, lê-se ainda na Nature, “virando-se depois para o estudo dos parentes selvagens das plantas cultivadas e formulando a ideia de que todas as plantas domesticadas tinham surgido em áreas de actividade humana na pré-história”. E foi para demonstrar esta hipótese que Vavilov organizou expedições “para sítios onde supostamente tinham assentado as povoações humanas mais antigas”. Identificou assim, primeiro cinco “centros de origem” das plantas cultiváveis. Mais tarde, esse número aumentou para sete ou oito (segundo as fontes).

A paixão de Vavilov pelas plantas vinha de longe. “Vavilov começou a coleccionar plantas durante a infância: tinha um pequeno herbário em casa”, escrevia em 1991 Barry Mendel Cohen (que fizera a sua tese de doutoramento sobre o cientista) num texto publicado na revista Economic Botany.

“Contudo”, prossegue Cohen, “a primeira verdadeira expedição destinada à recolha de plantas foi a sua viagem à Pérsia em 1916” – em plena Primeira Guerra Mundial. Vavilov não fora recrutado pelo exército por razões de saúde e o Ministério da Agricultura decidira então enviá-lo em missão à Pérsia.

Aquela expedição, que durou de Maio a Agosto, foi certamente uma aventura, salienta Cohen. “Primeiro, Vavilov ficou detido na fronteira durante três dias pelas autoridades russas, porque transportava com ele alguns manuais em alemão e mantinha um diário escrito em inglês” – um hábito que tinha adquirido durante a sua estadia no Reino Unido. Vavilov “foi acusado de ser um espião alemão e só foi libertado quando chegou a confirmação oficial da autenticidade dos seus documentos”, acrescenta Cohen.

Mas as peripécias não se ficaram por aí. “A sua caravana percorreu áreas de deserto onde a temperatura ultrapassava os 40 graus Celsius à sombra e chegou a estar a entre 40 e 50 quilómetros da frente de guerra da fronteira russo-turca”, diz ainda Cohen.

A julgar pela lista dos destinos que visitou até ao início dos anos 1930, Vavilov não tinha medo das situações perigosas (fossem elas devidas à topografia, ao clima, aos conflitos ou simplesmente à vulgar criminalidade local) em que por vezes se via envolvido.

Visitou mais de 64 países e aprendeu 15 línguas para conseguir falar directamente com os agricultores. “Foi um dos primeiros cientistas a ouvir realmente os agricultores tradicionais, a gente do campo de todo o mundo, para saber por que é que achavam que a diversidade das sementes era importante nos seus campos ”, declarou em 2010, numa entrevista à rádio pública norte-americana, o ecologista e botânico Gary Paul Nabham, autor de uma biografia de Vavilov.

Depois da Pérsia, sempre a recolher espécies locais, Vavilov fez várias viagens aos Montes Pamir da Ásia Central; atravessou territórios nunca antes explorados do Afeganistão; percorreu países da zona mediterrânica, europeus (incluindo Portugal) e não só. No Sul da Síria, contraiu malária. Esteve na Palestina e, em África, foi até à Abissínia (na actual Etiópia), onde apanhou tifo. Também organizou expedições à China, Japão, Coreia, Taiwan, América do Norte, Central e do Sul.

Diga-se ainda que, em 1921, foi convidado a assistir, com outro colega russo, ao Congresso Americano de Patologista dos Cereais – “um convite de histórica importância”, diz Cohen, “na medida em que foi o primeiro exemplo de cooperação científica entre os Estados Unidos e a recém-criada União Soviética”. O convite também mostra que o trabalho de Vavilov já era, naquela altura, reconhecido fora da Rússia.
Lisenko, inimigo mortal

A partir de 1920 e durante 20 anos, Vavilov dirigiu a Academia Lenine de Ciências Agrícolas da União (mais tarde rebaptizada Instituto Vavilov da Indústria Vegetal da União em sua honra), com sede em Leningrado. Criou 400 estações experimentais, espalhadas por toda a União Soviética e onde trabalhavam cerca de 20.000 pessoas. Publicou centenas de artigos de genética, biologia, geografia e selecção vegetal.

Ao longo de 16 anos de périplos, Vavilov e os seus alunos recolheram umas 200.000 amostras de sementes oriundas da União Soviética e do resto do mundo, que a seguir foram organizadas e estudadas nas diversas estações. “Foi assim que nasceu o primeiro banco mundial de genes de plantas do mundo”, lê-se ainda na já referida recensão da Nature, da autoria do norte-americano Valery Soyfer, da Universidade George Mason.

Mas a partir de 1935, aquele que seria o maior inimigo de Vavilov – e aliás da genética e das ciências da vida soviéticas – começou a ensombrar a vida pessoal e profissional de Vavilov: Trofim Lisenko (1898-1976).

Ao contrário de Vavilov, que era de família burguesa e portanto suspeito – Lisenko era de origem camponesa e tinha conseguido fazer um curso de agronomia. De facto, o próprio Vavilov começou por louvar e promover o trabalho de Lisenko por achar que ele era um digno “filho” da revolução bolchevique.

Em poucos anos, Lisenko tornou-se o “cientista” favorito de Estaline e o promotor de uma “genética soviética” que negava a própria existência dos genes e do ADN. Lisenko também fazia pouco da selecção natural, o processo basilar da teoria da evolução emitida por Darwin em meados do século XIX.

Como explicava Soyfer em 1989, num outro artigo na Nature, hoje ninguém duvida que as actividades de Lisenko tenham contribuído para a destruição das ciências agrícolas, biológicas e até médicas na União Soviética.

Porém, no início da sua ascensão, Lisenko conseguiu uma aparente vitória contra a fome que alastrava na URSS devido à colectivização forçada da terra. E em 1929, anunciou que uma técnica da sua invenção, dita de “invernalização”, iria permitir fazer florescer em pleno inverno o trigo que normalmente só desabrochava na Primavera. O método não foi validado e acabou por não cumprir as promessas de Lisenko de aumento da produção. Mas ele não estava disposto a arcar com a responsabilidade do falhanço e o culpado escolhido seria Vavilov, o homem que tanto contribuíra para o celebrizar. Lisenko tinha-se tornado o seu inimigo mortal.

Assim, após o seu regresso do México, em 1933, Vavilov foi proibido de empreender novas viagens. E a partir de 1934, Lisenko fez dele “o bode expiatório pelas desastrosas políticas agrícolas de Estaline”, lia-se na revistaScience em 2008.

Quando Vavilov percebeu o que estava a acontecer, começou a criticar a “ciência” de Lisenko, numa controvérsia que culminaria com a “vitória” do pseudo-cientista Lisenko – e com uma tragédia: a detenção de Vavilov a 6 de Agosto de 1940 pela polícia secreta soviética.

“Vavilov estava a recolher amostras de plantas na Ucrânia” quando foi detido, escrevia em 2008 na Nature Jan Witkowski, geneticista do Laboratório de Cold Spring Harbor (EUA), a propósito da publicação de um livro sobre o assassínio de Vavilov. Transferido para Moscovo, foi submetido a um terrorífico interrogatório durante 11 meses. Em Julho de 1941, Vavilov e dois dos seus colegas foram condenados à morte. Os colegas foram fuzilados, mas a sentença de Vavilov acabou por ser comutada em 20 anos de prisão… na cadeia de Saratov, aquela mesma cidade onde tinha iniciado a sua carreira 26 anos mais cedo. Sobreviveu dois anos numa cela subterrânea e sem janelas, em condições tais que contraiu escorbuto.

Vavilov morreu de fome em Saratov a 26 de Janeiro de 1943, aos 55 anos de idade. Nem a própria mulher, que voltara a residir em Saratov, sabia que o marido estava ali tão perto.

Vavilov só seria parcialmente reabilitado – e Lisenko definitivamente desacreditado – em 1965 pelo então presidente da URSS Leonid Brejnev, sob a pressão de dissidentes russos como o físico Andrei Sakharov e o escritor Alexandre Soljenitsyne, explica ainda Barry Mendel Cohen.

A ausência de Vavilov não passou despercebida a nível internacional. O próprio Winston Churchill fez vários apelos a Estaline para saber o que tinha acontecido a Vavilov. E, numa carta publicada na revista Science a 21 de Dezembro de 1945, Karl Sax, da Universidade de Harvard (EUA), perguntava: “Onde está Vavilov, um dos maiores cientistas da Rússia e um dos maiores geneticistas do mundo? Vavilov fora eleito presidente do Congresso Internacional de Genética, que decorreu em Edimburgo em 1939, mas não apareceu e desde então não temos tido notícias dele. Recebemos agora a informação da nossa Academia Nacional das Ciências de que Vavilov morreu. Como morreu e porquê?”

Alguns colegas de Vavilov já tinham tido o mesmo destino trágico do que ele – não na prisão, mas no cerco de Leningrado pelas tropas nazis, de 1941 e 1944, que matou à fome dezenas de milhares de cidadãos.

Numa outra carta publicada na Science em 2003, apelando a Vladimir Putin para salvar a preciosa colecção do Instituto de Leningrado (que esteve à beira de ser demolido por promotores imobiliários), três antropólogos norte-americanos resumiam o que acontecera àqueles cientistas: “Apesar de sofrerem eles próprios de subnutrição grave e apesar de trabalharem a poucos metros de uma vasta reserva de alimentos [sementes, tubérculos e fruta], os cientistas preferiram morrer a empobrecer a herança genética do país”, que “percebiam ser indispensável para o futuro da agricultura” soviética. Oito morreram em 1942 e “pelo menos um deles (…), um especialista em amendoins, morreu sentado à sua secretária”, escrevem os autores.

Mas foi o seu gesto, mais do que heróico, que permitiu que o banco de genes do Instituto Vavilov seja, ainda hoje, um dos maiores do mundo.