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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento

domingo, 1 de junho de 2025

O linguista e escritor que acreditava no futuro da língua portuguesa


O linguista, escritor, tradutor, crítico literário e académico português Fernando Venâncio, autor de 'Assim Nasceu uma Língua' (2019), morreu esta sexta-feira em Mértola, aos 80 anos, anunciou a editora Guerra & Paz e noticiou a agência Lusa. Com essa obra, mexeu no passado da língua portuguesa, mas também manifestou "tranquilidade" quanto ao seu futuro.

Em comunicado, Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz, recorda como recebeu um texto de Amesterdão em 2015, um prefácio assinado por Fernando Venâncio. Mais tarde, aconteceu o que o editor classifica como “o milagre: o Fernando aceitou ser meu autor”. Daí sairia 'Assim Nasceu uma Língua' e, em 2022, "O Português à Descoberta do Brasileiro". Fernando Venâncio esteve ligado a vários projectos culturais e em 2020 foi distinguido com o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho pela obra 'Assim Nasceu uma Língua' - Sobre as Origens do Português.

Marco Neves, tradutor, revisor, autor e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha-o como mentor. ​Esta sexta-feira, sublinha ao PÚBLICO que Fernando Venâncio era um linguista mas também um escritor de ficção. E isso foi importante para o sucesso de Assim Nasceu uma Língua, que se tornou um best-seller por ser "um livro que era de um estudioso da língua mas também de alguém que sabe escrever mesmo muito bem".

"É muito raro, diria até que é caso único um livro de linguística que não seja um dicionário ou uma gramática ter um sucesso tão grande e chegar a tantas pessoas" no mercado português, enfatiza, "porque apesar de ser um tema que as pessoas gostam, normalmente não lêem livros de linguística. Teve uma recepção do público extraordinária."

Assim Nasceu uma Língua "é um livro principalmente de divulgação mas é também de investigação. Além de expandir o conhecimento, também cria novo conhecimento. É algo que não é assim tão comum".

Fernando Venâncio considerava que “a linguística portuguesa é muito estranha. Temos óptimos historiadores, óptimos investigadores da gramática e sobretudo da sintaxe, mas não há nenhum interesse na divulgação”, dizia ao Ípsilon em 2022.

Marco Neves lembra que Venâncio "não tinha medo nenhum de usar qualquer canal: Facebook, blogues, redes sociais. Não tinha aquela hesitação que algumas pessoas na academia têm de usar qualquer canal para chegar ao grande público e isso também ajudou a poder comunicar aquilo que o apaixonava – a língua e a literatura".

Na mesma entrevista de 2022, Fernando Venâncio criticava o Acordo Ortográfico de 1990 e o silêncio da comunidade de linguistas sobre um “produto mal-enjorcado, elaborado em cima do joelho, rejeitado por todas as entidades então consultadas” e “tecnicamente inapresentável”. Era, portanto, um crítico do acordo.

Um romancista, cronista e tradutor
Na obra literária, assinou Um Selvagem ao Piano (Peregrinação, 1982), Os Esquemas de Fradique (Grifo, 1999), El-Rei no Porto (Asa, 2001), Beijo Técnico e Outras Histórias (Ulisseia, 2015), Último Minuete em Lisboa (Assírio & Alvim, 2008), Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 2002) ou Só o Meu Computador Me Compreende (On y va, 2018). Assinou a colectânea de ensaio Objectos Achados (Caixotim, 2002), compilou uma antologia da Crónica Jornalística – Século XX (Círculo de Leitores, 2004) e editou os seus diários de viagem em Quem Inventou Marrocos (Ausência, 2004). José Saramago: a luz e o sombreado (Campo das Letras, 2000) é outra das suas obras, além da colectânea de polémicas Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 2015).

Mas é com Assim Nasceu uma Língua, que em 2023 já ia na 7.ª edição, com a editora Guerra & Paz, que se assinala o ponto alto da sua carreira – um linguista à procura das origens de uma língua que depois se espalharia pelo mundo. Aliás, em 2022, assinou também O Português à Descoberta do Brasileiro, pela mesma Guerra & Paz, acerca da influência do português do Brasil sobre a escrita em Portugal a partir de finais da década de 1970, além de se ter dedicado a construir gramáticas de português para a sua língua de tradução de eleição, o neerlandês, ou de ter feito a investigação Concepções de Língua Literária em Portugal na Época de Castilho (1835-1875).

Lançado em 2019, Assim Nasceu uma Língua é a obra de referência de um homem nascido em Mértola em 1944 e que viveu em Lisboa desde os dois anos, depois em Braga desde os dez e foi para Amesterdão aos 26 anos, onde se formou em Linguística Geral e onde viveu e leccionou, nomeadamente na Universidade de Amesterdão sobre Problemática e Legislação das Línguas Minoritárias na Europa – mas também deu aulas e ocupou cargos directivos em universidades de Amesterdão, Roterdão e Haia, como refere uma sua biografia da Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas. "Assim Nasceu uma Língua" é aliás, nas palavras do jornalista e cronista do PÚBLICO Nuno Pacheco, “a obra de uma vida”.

Nela, Venâncio investiga e vasculha uma língua nascida de uma língua única junta com o galego e que se separou a partir de 1400 para uma independência que, na opinião do linguista, não devia esquecer a sua origem. “Portugal utilizou a língua que herdara ao fazer-se independente: o galego”, lê-se nessa obra. Fruto da sua “curiosidade” e da “vontade de ir até onde ninguém tinha ido” como disse ao Ípsilon em 2019, levou-o a fixar por escrito a fortíssima ligação ao galego, depois a absorção de algo do espanhol, e a ilusão da “língua lusitana” – “Quando a Galiza deixou de ser referência, Portugal procurou uma referência mais a sul, no povo lusitano. E Camões consagrou isso”, disse ao Ípsilon na mesma entrevista.

A obra “conquistou Portugal, seduziu os nossos vizinhos galegos, bem como gerou controvérsia no Brasil”, recorda o editor Manuel S. Fonseca na mesma nota enviada às redacções. "Houve alguma polémica no Brasil, é verdade, por vários motivos", completa Marco Neves ao PÚBLICO. "Porque o livro fala da questão do português de Portugal e do português do Brasil. Mas levantou também discussões infindas sobre a relação do português com o galego ao tentar mostrar que o português nasce da língua medieval a que ele chamava directamente galego; se para os portugueses pode parecer uma questão pouco importante, marcar uma posição a dizer que neste momento o galego e o português já não são a mesma língua é uma questão bastante ainda acesa e polémica entre muitos e muitos sectores da sociedade na Galiza."

Ainda assim, diz Marco Neves, na altura da morte de Fernando Venâncio, entre aqueles que concordavam ou discordavam do académico português, "todos são unânimes em dizer que foi importantíssimo para as relações entre Portugal e Galiza".

A Guerra & Paz reeditou este ano "Os Esquemas de Fradique" e o seu editor acredita que ali, naquele romance de há décadas, é que serão descobertas “paixões doidas – ‘sabem tão bem!’ – um cientista gatuno (‘gatuno, mas um tipo porreiro’) e muito whisky divino”. É a obra que Manuel S. Fonseca destaca, a par do legado para a linguística, do autor de quem se despede esta sexta-feira.

Ao nível pessoal, Manuel S. Fonseca descreve uma “voz cheia de entusiasmo”, “o tão bom humor”, ácido por vezes, escrutinador do “grande circo da pretensão, pompa e circunstância”.

“Tento contar uma história, com a reserva que a história impõe sempre”, dizia Fernando Venâncio. “E a verdadeira história é que o português é, historicamente, um fenómeno tardio. Há toda uma história anterior. Ao mesmo tempo, isso dá-nos uma grande tranquilidade. Porque o português sobreviveu até hoje, da melhor maneira, e tem o futuro pela frente, seja em que forma for.”

quarta-feira, 5 de maio de 2021

5 de Maio- Dia Mundial da Língua Portuguesa


O secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP, escreveu uma mensagem para a ONU News pela ocasião do dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Francisco Ribeiro Telles agradeceu a todos os falantes da língua e exaltou sua importância.
O Dia Internacional da Língua Portuguesa é comemorado anualmente em 5 de Maio entre os países lusófonos.

Esta data celebra a importância cultural e histórica da língua portuguesa para toda a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)

As redes externas do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., em particular as redes de Coordenação de Ensino e de Centros Culturais, irão assinalar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, nomeadamente através da realização de atividades com recursos digitais.

Neste âmbito, está prevista a realização de um conjunto de atividades em diversos países, em 2023.

Durante esta data, os países que formam a CPLP promovem eventos especiais na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Origem do Dia da Língua Portuguesa
Esta data foi criada a partir de uma resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, em 20 de julho de 2009, em Cabo Verde.
O Dia Mundial da Língua Portuguesa comemora-se a 5 de maio, tendo sido celebrado, pela primeira vez, em 2020, após consagração pela UNESCO em novembro de 2019.

Vídeos do Dia Mundial da Língua Portuguesa
Lista de reprodução completa no Youtube

Dados sobre a Língua Portuguesa (PDF, 2023)

Documentos
  1. Dia Mundial da Língua Portuguesa coloca na agenda global a promoção do português | Ministério dos Negócios Estrangeiros DESCARREGAR
  2. Dia Mundial da Língua Portuguesa - Dados sobre a Língua Portuguesa (2022) | Camões, Instituto da Cooperação e da Língua  DESCARREGAR
  3. Proclamação do Dia Mundial da Língua Portuguesa [en] - Unesco, novembro de 2019 
  4. DESCARREGAR
  5. Resolução sobre a Instituição do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP - CPLP, 20 de julho de 2009 DESCARREGAR

sábado, 3 de abril de 2021

O Português a Saque


Entre o inglês contrabandeado e o brasileiro das novelas, a língua portuguesa agoniza. Nunca se falou e escreveu tão mal e o exemplo vem de cima
(Por Rui Cardoso, in Expresso Revista, 2021-04-01)
Jovens mulheres, às quais prestamos tributo e que são oficiais dos serviços de inteligência, estão focadas em desencriptar informações sobre químicos nocivos que, segundo as evidências científicas, podem ter efeitos análogos aos do antraz. Receia-se que esta situação ponha em causa a resiliência das políticas corporativas a nível mundial, dificultando, ao fim do dia, o empoderamento das novas gerações e possa levar alguns elementos destas a cometer suicídio
Assim se fala e escreve nos tempos que correm. Vejamos em pormenor.
JOVENS MULHERES
Se dissermos “uma jovem” estaremos a definir sem ambiguidades aquilo de que estamos a falar. Um pleonasmo, além do mais sexista, já que não consta que se costume aludir a “jovens homens”. Tudo radica, diz Joana Rabinovitch, ex-docente da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Nova, no facto de “em inglês, ao contrário do português, os adjetivos e os artigos não terem género.” Daí que a young woman, não se possa traduzir à letra. Em português, palavras como “forte” ou “jovem” são neutras. É o vocábulo que os antecede que lhes dá o género: uma jovem, várias jovens, diversas jovens...
TRIBUTO
Quem pagava tributo a Vasco da Gama era o Samorim de Calecute e, de uma forma geral, os vassalos aos senhores feudais ou os cativos aos seus captores. É certo que em dicionários portugueses recentes se refere que “tributo” pode ter a aceção de homenagem. Mas isso parece resultar, não da etimologia, mas de um anglicismo recente. Até porque não consta que a Autoridade Tributária tenha como principal missão homenagear os contribuintes…
OFICIAIS
Em inglês, officer tanto pode designar um oficial das forças armadas, como um agente policial, um funcionário da administração pública ou de uma companhia privada. Atenção ao contexto, portanto.
SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA
Se existisse tal coisa, sendo a natureza tendencialmente simétrica, seria combatida pelo seu contrário, ou seja pelos serviços de estupidez... Os serviços ou agências de informações (é disso que se trata) dedicam-se às mais diversas coisas: espionagem, contraespionagem, vigilância pessoal, eletrónica, etc.
FOCO
Os dispositivos óticos, dos faróis às lentes, é que têm profundidade de campo, distância focal, etc. A expressão to be focused on significa estar empenhado, concentrado ou atento.
ENCRIPTADO
É certo que existe uma técnica ou ciência chamada criptologia, relativa à forma de comunicar secretamente entre emissor e recetor. Mas o que faz é codificar ou descodificar, cifrar ou decifrar mensagens e não encriptá-las ou desencriptá-las, o que literalmente significaria enterrá-las ou desenterrá-las numa cripta ou cave...
QUÍMICO
Designa fenómenos ligados à composição, estrutura e propriedades da matéria ou os profissionais que os estudam. O que há em português são produtos químicos que, por sua vez, podem ser elementos, compostos, misturas, ácidos, bases, sais e muitas coisas mais.
EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
Eis um oximoro capaz de fazer Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho ou Mariano Gago revolverem-se na tumba. Aquilo que é evidente, isto é, que entra pelos olhos dentro, não carece, por isso mesmo, de explicação científica. Em contrapartida, aquilo que é científico raramente é evidente, por recorrer a conceitos, matemáticos ou outros, com os quais o cidadão comum não está familiarizado. Daí a importância da divulgação científica. Evidence em inglês significa somente prova, seja esta do foro científico ou jurídico, e não qualquer outra coisa.
ANTRAZ
Muito falado a seguir ao 11 de Setembro, este pó branco, mandado pelo correio, continha esporos do Bacillus anthracis, causador do carbúnculo. Não confundir com antraz, conjunto de furúnculos, geralmente causado por bactérias do género estafilococo. A descoberta do agente causador daquela infeção (respiratória, cutânea ou gastrointestinal) e a preparação de uma vacina tornaram mundialmente famoso Louis Pasteur em 1881.
RESILIÊNCIA
Para quê recorrer ao anglicismo derivado de resilience para designar tenacidade, superação, galhardia ou simplesmente… resistência?
CORPORATIVO
No inglês falado nos EUA a palavra corporation designa as empresas cotadas em bolsa. Logo, não há “políticas corporativas” mas, quando muito, empresariais. Em português, corporações são as dos bombeiros, as dos artesãos da idade média (tecelões, ourives, correeiros, etc.) ou as instâncias de conciliação entre capital e trabalho criadas pelo Estado Novo.
EMPODERAMENTO
Dito assim, parece ter a ver com espalhar algum tipo de pó. Empowerment traduz-se por ter acesso a algum tipo de poder ou responsabilidade ou, mais simplesmente, capacitação.
AO FIM DO DIA
Tradução literal da expressão coloquial at the end of the day, equivalente a, no final, em última análise, ou… trocado por miúdos.
COMETER SUICÍDIO
Em português as pessoas matam-se ou põem termo à vida. To commit suicide traz consigo a carga ideológica protestante de infração à lei divina, logo do cometimento de um pecado.
Como se vê, uma novilíngua orwelliana parece querer substituir o português. É uma mistura de chavões, tiques de linguagem, modismos e palavras contrabandeadas do inglês aprendido à pressa. Qual vírus parasitando o sistema imunitário, contagia os media e as universidades, sem esquecer figuras públicas de quem se esperaria outro aprumo na forma de expressão.
O MITO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA
“Dou aulas de português I e II na Universidade Católica e muitos alunos, alguns vindos de colégios caríssimos, chegam aqui incapazes de fazer uma conjugação pronominal, além de não conhecerem autores portugueses fundamentais”, vinca Jorge Vaz de Carvalho, docente e escritor.
Não se trata de defender que escrevamos ou falemos como os nossos avós. Camilo não escrevia como Sá de Miranda, nem Saramago como Fernando Pessoa. A língua é um organismo vivo em permanente evolução. E tanto pode prosperar como morrer. “Se fôssemos dizer a um grego ou um romano do séc. I a.C. que as suas línguas iriam deixar de ser faladas, eles rir-se-iam mas foi o que aconteceu”, diz Jorge Vaz de Carvalho.
Como refere Angélica Varandas do Departamento de Estudos Anglísticos da Faculdade de Letras de Lisboa, “a língua evolui, acompanhando o desenvolvimento social. O que não me parece certo é que se oblitere o português no mundo académico, se estudem os autores portugueses no 2º e 3º ciclos de modo antiquado e que os meios de comunicação social não saibam dar o exemplo”.
É bom lembrar que, na própria natureza, nem todas as mutações são benignas. Enquanto no meio natural a competição evolutiva tende a eliminá-las, com a língua dá-se o oposto. Tal como na Lei de Gresham, postulando que a má moeda expulsa a boa moeda, o mau português tende a escorraçar o outro.
O MASSACRE DOS PRONOMES
É o que se verifica, por influência do Brasil ou de África, com os pronomes: “vou dizer a ele” em vez de “vou-lhe dizer”. Dar conta da execução de um trabalho nos seguintes termos: “já fiz ele”. Ou patentear uma relação perversa com a causalidade: “por causa de que”… Sem esquecer o mau emprego dos verbos defetivos. Haver não tem plural: não se diz haverão ou haveriam. No presente do indicativo, falir, chover ou ladrar não têm a primeira nem a segunda pessoa, a não ser em contexto metafórico.
Voltando ao inglês, temos essa coisa extraordinária que são as armas de destruição maciça (filhas bastardas de weapons of mass destruction). Como maciço significa o contrário de oco, depreende-se que se esteja a falar, não de bombas atómicas ou gases neurotóxicos, mas de mocas de Rio Maior. Que tal traduzir por armas de destruição em massa?
E a mania de designar incidentes com armas de fogo, frequentes como se sabe nos EUA, por tiroteios? Tiroteio pressupõe uma troca de disparos entre dois indivíduos ou grupos. Resulta da confusão entre shooting (disparos) e gunfight (esse, sim, tiroteio).
Exemplo digno da lei de Gresham é o redundante anglicismo “implementar” (que nada acrescenta relativamente a iniciar, aplicar, pôr em prática, levar a cabo, dar andamento, concretizar, etc.). De tal forma se generalizou, que começou a expulsar o verbo, legítimo mas foneticamente semelhante, implantar. Já vi escritas enormidades como “5 de Outubro de 1910, data da implementação da República”.
Ao mesmo tempo, difundiu-se a ideia peregrina de que semelhanças fonéticas tornam equivalentes palavras de línguas diferentes.
“FACILIDADES” E “INAUGURAÇÕES”
No passado dia 20 de janeiro, Joe Biden não foi “inaugurado”, mas investido nas funções presidenciais. Facilities são infraestruturas, instalações ou funcionalidades. Charities, instituições de solidariedade social. Tal como ingenuity não significa ingenuidade, mas engenho. E memories são recordações e não memórias. Audience é sinónimo de público e não de audiência, expressão reservada para os tribunais ou os encontros institucionais. Pelo que não há níveis de audiência mas repercussão no público ou nos espectadores.
Em inglês, abstract, argument, deception, fabric, preservative, protester ou sympathetic não querem dizer o que à primeira vista se poderia pensar. Já as razões pelas quais uma rapariga fica embaraçada são totalmente diferentes em Portugal ou em Espanha. Tal como “oficinas” e “talheres” significam coisas muito diferentes nas duas línguas ibéricas.
Se há coisa para a qual qualquer professor de línguas chama a atenção logo na primeira aula é para o perigo dos “falsos amigos”, pelos vistos, em vão.
De tudo isto resulta o empobrecimento do vocabulário e o afunilamento dos modos de expressão. Os doentes nunca mais foram operados, passaram a ser “submetidos a cirurgias”. Os edifícios deixaram de desabar, as encostas de sofrer derrocadas ou as pontes de cair. Tudo “colapsa”. Adeus limites ou exigências — o que não se pode passar são as “linhas vermelhas”. As propostas, políticas ou soluções, passaram a frequentar o ginásio ou tomar esteroides para se tornarem “robustas” (em vez de sólidas, eficazes, adequadas ou funcionais). Num universo lexical em que os apoios passaram a meros “suportes”, cessou o estudo, acompanhamento, medida, avaliação ou vigilância: “monitoriza-se…”
UM ESPECTRO AMEAÇA O PORTUGUÊS
A novilíngua não é imposta por um tirano orwelliano mas por aquilo a que Jorge Vaz de Carvalho chama “o imperialismo da língua inglesa e o colonialismo do português brasileiro”. Quando as duas influências convergem, o resultado é devastador.
A propósito de droga fala-se em “adição” (de adiction). Ora, só tem problemas “aditivos” quem não sabe o resultado de dois mais dois. O resto são fenómenos de dependência ou, querendo usar uma palavra mais antiquada e com alguma carga moralista, vício.
Os homenzinhos verdes que saem dos discos voadores e (supostamente) levam pessoas para o cosmos não as raptam, “abducam-nas” (de abduction). E as amendments à constituição dos EUA de que tanto se fala a propósito da liberdade de expressão ou do porte de arma não são “emendas” mas adendas ou revisões constitucionais.
Gerações inteiras formatadas pela novilíngua reproduzem-na, tornando-a moeda corrente.
“Há dois fenómenos convergentes. As pessoas leem muito mais em inglês do que há uns anos e ao mesmo tempo embarcam na última moda de expressão porque acham giro”, comenta Joana Rabinovitch.
“É inevitável que o inglês se tenha tornado a língua franca porque a nível elementar a sua aprendizagem é simples. Basta ver as conjugações verbais. Lembro-me, quando era miúdo, do desembaraço com que pescadores algarvios, semianalfabetos em português, comunicavam com as turistas. Daí a saber, de facto, falar inglês vai alguma distância”, alerta Jorge Vaz de Carvalho.
A pressão estende-se aos docentes. Como refere Angélica Varandas, “no mundo académico, o que dá pontos na avaliação curricular e de desempenho é a internacionalização, ou seja, publicar em editoras internacionais. Por muito que alguns de nós tentemos estabelecer um equilíbrio, sabemos que é em inglês que seremos mais valorizados enquanto docentes e investigadores. É-nos pedido que lecionemos em inglês, porque temos muitos alunos em regime Erasmus. Os congressos são todos em inglês, e até já se usa a palavra conferência para congresso quando conference quer dizer outra coisa.”
Um ex-camarada de redação contou-me que a nora lhe pediu para não ser tão estrito na revisão da sua tese académica, porque se começasse a eliminar sistematicamente os “implementares” iria arranjar problemas com os professores.
Algo de semelhante aconteceu a uma professora aposentada de Português, a quem fora pedido que revisse um trabalho na área dos recursos humanos. Quando quis corrigir o uso da aberração “presenteísmo” para designar aquele que no local de trabalho faz figura de corpo presente, a autora pediu-lhe para não o fazer por receio de vir a ser penalizada na avaliação.
Nem sempre foi assim. No Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) havia tradutores e revisores literários. As traduções eram acompanhada entre parêntesis pelos termos originais para que se soubesse do que se estava a falar. Pelo LNEC passou, entre outros, o jornalista e escritor Baptista-Bastos, enquanto Maria Isabel Barreno trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII).
O “TU” DO FUTEBOLÊS
No futebol, falar bem é a exceção. Mas comparem-se os discursos atuais em “futebolês”, muitas vezes gritado e insultuoso, com as crónicas de um Carlos Pinhão ou um Aurélio Márcio nas páginas de “A Bola”. Em ambos os casos se fala de 22 sujeitos em calções aos pontapés a uma bola mas a diferença é abismal!
Em tempos, treinador que se prezasse usava mais vezes “na medida em que” do que a sua equipa metia golos. Os jogos perdiam-se “derivado ao vento”. E agora usa-se o metafórico “tu” como se tivesse deixado de haver sujeitos impessoais em português. Não se joga mas “tu jogas”. Não é o caso de alguém fazer um passe mas é “quando tu passas”. Os portugueses têm o “se”, os franceses o “on” mas os espanhóis ou os britânicos não. Porquê copiá-los?
A canção ‘You’ll never walk alone’ que ecoa nas bancadas do estádio de Anfield pertenceu originalmente a “Caroucel” (musical de 1945 e filme de 1956). Nesse contexto era uma mensagem de esperança de uma amiga para outra que acabara de perder o amor da sua vida. Por isso lhe cantava: “Se superares a escuridão e a dor, [tu que estás à minha frente] nunca estarás sozinha.” Quando 60 mil pessoas entoam o refrão “you’ll never walk alone” não estão a falar para nenhum “tu” à frente deles. Estão a dirigir-se aos 11 jogadores do Liverpool lá em baixo e o sentido é, portanto, vós que estais no relvado e nós aqui nas bancadas estaremos sempre lado a lado, ganhemos ou percamos.
Chamada de atenção elementar: em inglês you tanto é a segunda pessoa do singular (tu) como a segunda pessoa do plural (vós, vocês, alguém)...
A INOCÊNCIA PERDIDA DA PALAVRA
Valha a verdade, os meios de comunicação não estão isentos de culpas. Para um jornalista, a língua é uma das suas ferramentas de trabalho, porventura a mais importante. Ao trabalho jornalístico aplica-se a tese de Júlio César sobre as virtudes femininas: não basta ser sólido do ponto de vista das fontes, do rigor factual e do distanciamento — é preciso que o pareça, ou seja, que a linguagem seja rigorosa, formalmente correta e, ao mesmo tempo, capaz de envolver o leitor.
Não se trata apenas de evitar o português do “focado”, das “evidências” e do “implementar”. A escolha das palavras nunca é inocente. Os islamofascistas que massacraram nas ruas de Paris ou degolaram inocentes em Mossul ou Sirte não pertenciam a nenhum “estado islâmico” porque, nem este reunia as condições internacionais para ser aceite como tal nem a sua interpretação do islamismo era representativa, por primária, sanguinolenta e ultraminoritária. Por isso, boa parte dos media preferiram o acrónimo árabe Daesh, para nós um mero vocábulo destituído de carga, ainda que em árabe tenha alguma conotação irónica.
Em 2017, uma das comunicações apresentadas ao IV Congresso dos Jornalistas criticava a utilização da palavra “colaborador” no noticiário económico, uma vez que, subliminarmente, diluía a relação entre empregador e empregado, reduzindo este último a uma espécie de ser descartável, tendencialmente destituído de direitos laborais e a caminho da precariedade. E nessa altura ainda pouco se falava de “uberitos”, motoristas de táxis das plataformas e demais proletariado da internet...
Confinados que estamos, em vez de vermos palhaçadas no YouTube não perdíamos nada em (re)descobrir Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes ou Sophia de Mello Breyner. Talvez implementássemos menos...

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Morreu Eduardo Lourenço, o filósofo que procurou Portugal no seu labirinto



Mais fotos e fonte original aqui

O ensaísta Eduardo Lourenço, de 97 anos, morreu nesta terça-feira (1 de dezembro) em Lisboa. Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço foi um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa.

Tem uma biblioteca com o seu nome na Guarda, mas a obra de Eduardo Lourenço não cabe em nenhuma estante. São dezenas de volumes que deixa escritos - centenas de ensaios e milhares de opiniões - e onde a presença de Portugal é marcante, mesmo que tenham sido escritos em Bordéus, onde estagiou com uma bolsa Fulbright (1949), em Hamburgo ou Heidelberg onde foi leitor de Cultura Portuguesa (1953 a 1955), na Universidade de Montpellier (1956 a 1958), numa estada na Universidade Federal da Bahia em 1959, ou vivendo em França a partir de 1960 e durante quase quatro décadas, após as quais regressa periodicamente a Portugal e depois da morte da mulher em definitivo. Para trás fica a residência em Vence, com atividade docente nas universidades de Grenoble e de Nice, para assumir o cargo de administrador na Fundação Gulbenkian.

A sua morte conhecida nesta terça-feira vai obrigar a uma releitura de tão vasta obra e recordar o que sempre disse em público de uma forma sedutora e sobre qualquer assunto do mundo, afinal a sua visão era grande e fundamentada pela história, filosofia e todos as ciências sociais, que o tornaram uma das principais figuras do pensamento português do século XX e XXI

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A Covid-19 e a estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro

Maria do Carmo Vieira

Nunca como nesta situação de confinamento, incluída num grupo de risco, me mantive tão atenta a pormenores, constatando, com uma nitidez que até aí não sentira, a abissal diferença entre um jornalismo profissionalmente honesto, sério na informação e respeitador do leitor e um que tenta conscientemente desinformar, confundir e desnortear até ao pânico. Pensar nesta dualidade, tão intensamente em antítese, e nas funestas consequências para quem, incauto, se deixa conduzir, levou-me de forma espontânea ao passado, forçosamente aos mais velhos. Lembrei-me, nesse momento, sentindo renovada e profunda gratidão, de todos aqueles que, pela sua postura, na Vida e na Escola, me haviam ensinado desde sempre a pensar, alertando-me para que nunca permitisse que outros o fizessem por mim. Sei que a sua interferência na formação e desenvolvimento da minha personalidade foi crucial e daí a impossibilidade de os esquecer, e a gratidão, a imensa gratidão! que o Tempo não cessa de intensificar.


Na minha memória passam, em grande saudade, inúmeros rostos, alguns já desaparecidos e, inúmeros rostos, alguns já desaparecidos, com destaque superlativo para os meus pais, seguindo-se a minha professora de Português e de Grego, no Liceu Rainha D. Amélia, Georgette Costa, a minha Professora de Latim, no mesmo liceu, Manuela da Palma Carlos, o meu Professor de Linguística, na Faculdade de Letras de Lisboa, Lindley Cintra, e outros, felizmente ainda entre nós, como a minha professora de Francês, também no liceu anteriormente referido, Maria Alzira Seixo, que depois reencontrei na Faculdade de Letras, e o meu Professor de Literatura Francesa, na mesma Faculdade, o poeta Manuel Gusmão. Seja em matéria relacionada com o Outro, ou qualquer aspecto da Condição Humana, seja sobre a imperiosa necessidade de um Ensino de qualidade e de uma Cultura não transformada em espectáculo e mero entretenimento, seja ainda em relação a um Acordo Ortográfico decretado em nome de uma pseudo-vantagem económica, ao arrepio da vontade dos portugueses e colidindo com toda a argumentação científica, sei que em todas estas matérias, e muitas outras, em que intervenho criticamente, a minha voz não é só, porquanto reflexo de inúmeras influências, passadas e presentes, que a fortaleceram e fortalecem, sendo seguro que continuarão a acompanhar-me. Tal como as vozes que pelo canto ligaram toda uma geração e às quais, a tantos anos de distância, permanecemos fiéis. Arrepia-se-nos a pele no reencontro com essas velhas canções cujas letras profundamente influenciaram a nossa forma de olhar o mundo de então e que, em grande saudade, ouvimos insistentemente, servindo-nos da internet da qual nunca esperámos vir a depender tanto, confinados que estamos em casa. E eles são, entre muitos, Jacques Brel, Jean Ferrat, Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel ou Peter, Paul and Mary, desejando partilhar convosco uma canção destes últimos, Where have all the flowers gone. Ainda para os avós que, como eu, deixaram de poder abraçar e beijar com ternura os seus netos, Mary Travers (do grupo Peter, Paul and Mary), numa música de John Denver, For Baby. Todos pertencendo à “geração grisalha” e alguns já não entre nós, como é o caso de Mary Travers.

Uma longa introdução para lembrar aos que proclamam uma melhoria da situação, com o desaparecimento dos velhos (seja em prol de um Ensino, dito “inovador”, ou do êxito de uma economia liberal e desumana, ou ainda no cumprimento acrítico do novo Acordo Ortográfico), que todos nós, ao nascer, somos, como naturalmente constatou Hannah Arendt, recebidos pelos mais velhos que nos protegem e educam. É esta a única harmonia possível, na vida de todo o ser humano – uma estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro.

São vários os artigos de opinião, nacionais e estrangeiros, que lucidamente ousam indicar a imperiosa mudança que deverá acontecer, fruto desta experiência tão inesperada, com a Covid-19, mas não é certo que muitos políticos, nacionais e estrangeiros, afogados em pretenso “progresso” e crescimento desenfreado, no uso de um vocabulário que evoca a nova Economia e que poderemos exemplificar pelo verbo “elencar” e o substantivo “competitividade”, venham a aperceber-se dessa óbvia necessidade de transformação, de recuo da loucura em que estamos envolvidos, e daí a urgente necessidade de sermos nós, cidadãos, contínua e criticamente, a lembrá-lo.

Não basta elogiar de forma intensa o Serviço Nacional de Saúde (SNS), seja qual for o país, ou aplaudir, com emoção, médicos, enfermeiros e pessoal afim, ou dizer que à sua actuação devemos a vida; exige-se, mais do que nunca, que se responda favoravelmente a quem in loco sente, no dia-a-dia, os problemas, para os quais, e muito antes do surto epidémico, o SNS chamara a atenção, infelizmente em vão. Não significa que não se tivesse investido, sobretudo depois de uma austeridade imperdoável e brutal, mas constatou-se não ter sido o suficiente e conhecemos a origem desse travão que não pode mais ser tolerado, sob condição de se tornarem uma hipocrisia insuportável os sucessivos agradecimentos e aplausos, ostensivamente dirigidos a todos os profissionais do SNS que, não discriminando pessoa alguma, e superando-se humanamente, têm sido determinantes no atenuar do pesadelo que todos vivemos. Por alguma razão, em todo o Mundo, acontecem, amiúde, os aplausos sentidos e genuínos da população ao SNS.

Foram os portugueses aconselhados, há já bastantes anos, a viver, em grande parte, de uma economia de turismo a qual se tornou selvagem pelo que representa de destruição do ambiente e da vida das pessoas, com um aumento desmedido de rendas e despejos, a que se juntou o desconcerto de filas intermináveis para visitar alguns monumentos, nomeadamente os claustros do Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém, vedados, por completo, e desde há anos, aos residentes. Também o terreno agrícola fértil tem sido alvo da ganância turística e imobiliária, sob o olhar complacente do poder político, esquecido que em momentos de crise não podemos depender exclusivamente de alimentos importados. A serra de Carnaxide, de “grande importância ecológica e ambiental”, é um flagrante exemplo de um espaço desprotegido porque não classificado, fazendo “os seus solos parte dos 5% de solos muito férteis que Portugal possui”. Entretanto, aproveitando-se do confinamento das pessoas, os trabalhos de loteamento e urbanização avançaram na sua gritante destruição, sobrepondo-se o gesto vil às vozes dos que não traem o Conhecimento, a sua consciência e a sua solidariedade com os que persistem nas causas em que se empenham. Destacamos, neste caso, os investigadores da área do Ambiente e Alterações Climáticas, Filipe Duarte Santos, Eugénio Sequeira e Jorge Fernandes (este último, Professor destacado na Liga para a Protecção da Natureza). Há uma petição, “Preservar a Serra de Carnaxide”, sendo o seu primeiro subscritor Daniel Martins, que acentua o facto de “isto não ser uma questão local”, mas “uma questão nacional.” Concordando com o seu conteúdo, ajude a divulgá-la e, para um melhor conhecimento da situação, aconselha-se a leitura do artigo de João Pedro Pincha, no jornal Público de 1 de Abril.

Quando se abdica de estudos de impacto ambiental ou se solicitam os mesmos a equipas “voz-do-dono”, numa atitude inqualificável, quando se tenta entreter indeterminadamente movimentos ecológicos que persistem na defesa da Natureza, casa de todos nós, negando-se o diálogo e fazendo-se simultaneamente tábua rasa dos pareceres críticos apresentados, ou quando se tenta “convencer pedagogicamente” presidentes de Câmara, que se opõem à construção do aeroporto, no Montijo, mediante alguns favores a conceder, em troca do almejado sim, estamos perante uma democracia doente, que a realidade pós-Covid deverá sanar e em cujo processo de transformação deveremos igualmente participar.

Os desafios são inúmeros e incontornável será a questão relativa à perda de importância da Dignidade Humana, na sociedade globalizante, fortemente determinada por um novo modelo de Economia que tem aviltado, ao longo de demasiados anos, a vida das pessoas, ofendendo de forma ostensiva o seu significado etimológico: do grego oikonomy (oikós - casa - + némein - distribuir). A Economia focada no ser humano não pode pugnar por baixos salários, nem por excesso de trabalho e de cansaço, nem pelo isolamento da família; não pode aceitar toda uma luta pela sobrevivência diária ou a concentração da riqueza numa minoria, já de si enriquecida. Deve contrariar o excesso de taxas bancárias cuja justificação assenta no absurdo ou o mau funcionamento dos Serviços Públicos por manifesta falta de pessoal ou a ganância que não olha a meios para atingir lucros rápidos, espezinhando a Ética, ou ainda a obsessão pelo crescimento, seja a que custo for.

A epidemia de Covid-19, na sua intensa estranheza e nas consequências nefastas que, incrédulos, presenciamos, forçará uma inevitável e bem-vinda alteração substancial da Vida. Houve demasiados erros para não se aprender com eles. Sobretudo, não desejamos continuar a adaptarmo-nos a uma sociedade doente, em que a Ética escasseia, precisamente porque indiferente à Dignidade Humana.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A falsa unidade ortográfica

Maria Regina Rocha  

O Acordo Ortográfico está em causa. Instituições e publicações há que o aplicam; outras, que o rejeitam. O grande público contesta-o, e a esmagadora maioria dos cidadãos não consegue compreender o que se está a tentar fazer à Língua Portuguesa.1

Efectivamente, embora genericamente as pessoas estejam contra esse acordo, infelizmente a forma como se extremaram posições levou a que, num determinado momento, quem tinha o poder político lhe conferisse força de lei, sem uma atenta e lúcida reflexão sobre o mesmo e as suas gravíssimas implicações, sobretudo de natureza linguística e cultural, com repercussão no ensino e no domínio da língua.

Como ainda estamos em fase de transição e as leis são os homens que as fazem, esperemos que as razões serenas e lúcidas se imponham e façam com que aqueles que representam o povo legislem de acordo com o supremo interesse do país e da língua portuguesa, seja ela falada onde for.

Lembro apenas, como precedente, que o Acordo Ortográfico de 1945 foi nessa data assinado por Portugal e pelo Brasil, que o Brasil o tentou aplicar durante dez anos e que, em 1955, rendido à especificidade do registo ortográfico da variante do Português do Brasil, revogou esse acordo. Assim, se Portugal tomar a iniciativa de reflectir e, com razões ponderosas, reformular o texto do Acordo actual, não fará nada de inédito nem beliscará as relações entre os países envolvidos. Aliás, será de referir, ainda, que, recentemente, o próprio governo brasileiro anunciou que vai adiar a obrigatoriedade da aplicação do acordo para 2016…

Focando, então, o Acordo actual, em primeiro lugar, deverei dizer que uma pessoa com formação linguística naturalmente que não estaria, à partida, contra um acordo ortográfico. E deverei dizer, ainda, que houve, neste acordo, tentativas (embora não totalmente eficazes) de resolver algumas questões ortográficas relativamente à grafia de novas palavras, concretamente no que diz respeito à utilização do hífen.

No entanto, este acordo enferma de um grande pecado original: não alcança minimamente o apregoado objectivo da unidade na ortografia.

Para que serve um «acordo ortográfico»? Para unificar a ortografia de povos que falam a mesma língua. Ora, com este acordo, a ortografia da Língua Portuguesa não se unificou. Tentei obter resposta a uma pergunta simples: quantas palavras se escreviam de forma diferente no Brasil em comparação com a forma como as mesmas palavras se escreviam em Portugal e nos restantes países de Língua Oficial Portuguesa antes do Acordo e depois do Acordo? Não consegui obter uma resposta objectiva da parte de defensores do Acordo Ortográfico. Pergunto: parte-se para a tentativa de aplicação de um acordo ortográfico sem se saber claramente quantas palavras é que mudam na ortografia?

Assim, procurei a resposta, consultando o «Vocabulário de Mudança» disponibilizado no Portal da Língua Portuguesa 

E, considerando a informação aí veiculada, a resposta é a seguinte (contagem feita manualmente): antes do Acordo – e exceptuando as palavras com alteração do hífen, as palavras graves acentuadas no Brasil e não em Portugal (como idéia–ideia) e as palavras com trema (pelo seu número residual e por tais situações afectarem sobretudo a ortografia brasileira) –, havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, facto–fato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.

Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!

Isto é, havia 1235 palavras que se escreviam da mesma forma em Portugal e no Brasil que, com o Acordo, mudam, a saber: 190 ficam com dupla grafia em ambos os países (por exemplo, circunspecto e circunspeto); 57 ficam com dupla grafia mas só em Portugal (por exemplo, conceptual e concetual, que no Brasil se escreve conceptual, mantendo a consoante p); 788 mudam para uma das variantes que existem no Brasil, por vezes a menos utilizada ou a considerada mais afastada da norma-padrão (por exemplo, perspetiva: em Portugal, só se admite esta forma – sem c –, mas no Brasil admitem-se duas, perspetiva e perspectiva, sendo esta última a preferencial); finalmente, 200 mudam para uma até ao momento inexistente e que passa a existir apenas em Portugal (por exemplo, receção, que no Brasil só admite a forma recepção, que passa a não ser possível em Portugal).

Esta última situação é a mais aberrante: são 200 as palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal. Alguns exemplos: em Portugal, com o Acordo, passa obrigatoriamente a escrever-se aceção, anticoncetivo, conceção, confeção, contraceção, deceção, deteção, impercetível, enquanto no Brasil se escreve obrigatoriamente acepção, anticonceptivo, concepção, confecção, contracepção, decepção, detecção, imperceptível. O problema diz, pois, respeito sobretudo à grafia das palavras que contêm as vulgarmente chamadas «consoantes mudas». Segundo os referidos dados do Portal da Língua Portuguesa, com o Acordo Ortográfico, no que diz respeito às palavras que mudam, no Brasil continuam a escrever-se 1235 palavras com essa consoante etimológica (978 de dupla grafia e 257 que se escrevem só com a manutenção da consoante), enquanto em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa, esse número desce para 247, e todas com dupla grafia!

Leu bem: no Brasil, são 1235 as palavras em que se mantém essa consoante, enquanto em Portugal e nos restantes países de língua oficial portuguesa são apenas 247!

Em Portugal, altera-se a ortografia fazendo desaparecer as referidas consoantes e, afinal, no Brasil, essa ortografia de cariz etimológico mantém-se!

Não vou aqui falar da questão da dupla ortografia e de fragilidades e incorrecções presentes nos textos referentes ao Acordo Ortográfico, que têm um efeito negativo no ensino, na aprendizagem e no domínio da Língua Portuguesa (tal poderá ser objecto de outro artigo).

Aqui apenas estou a referir como falsa a propalada unidade ortográfica!

E faço um apelo aos decisores políticos para que analisem cuidadosamente a situação: ninguém se pode escudar na ignorância dos assuntos sobre os quais toma decisões, pois a História não lhe perdoará.

Cf. Números da aplicação do Acordo Ortográfico em Portugal

in jornal Público de 19-01-2013