Mostrar mensagens com a etiqueta Viriato Soromenho Marques. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viriato Soromenho Marques. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de março de 2026

Viriato Soromenho-Marques: entre vegetarianos e canibais


O Presidente do governo espanhol tem estado debaixo de “fogo amigo” pela sua dupla tomada de posição. Primeiro: condenação da guerra ilegal dos EUA e Israel contra o Irão, iniciada com a particular vilania, confessada sem pudor por Trump, de usar negociações como uma cilada para encontrar o melhor momento para assassinar o líder do regime e o maior número possível de seus colaboradores. Segundo: Recusa de Madrid em autorizar o uso das bases espanholas para o transporte de material norte-americano para o teatro da guerra.

Pedro Sánchez resiste sozinho na União Europeia. Já tinha ficado isolado, em 25 de junho de 2025, quando a NATO decidiu aprovar a absurda proposta do presidente norte-americano de aumentar o orçamento militar de cada Estado-membro para 5% do PIB. No rebanho manso dos líderes dos 32 países da Aliança Atlântico, só Sánchez ergueu a voz para afirmar que esse esforço belicista iria causar danos irreparáveis nos investimentos públicos na saúde, educação e apoio social de todos os países que o aplicassem, prejudicando a qualidade de vida dos cidadãos. Será muito difícil que seja apenas Sánchez a pensar aquilo que é óbvio, mas a verdade é que foi ele o único que teve a coragem de dizer o que pensa sem temer represálias de Trump. Essa coragem revelou, claramente, a profunda cobardia em que assenta a obediência do “Ocidente alargado” por tudo o que Washington diga, faça, ou obrigue os “aliados” a dizer e a fazer.

Os fundamentos da posição de Sánchez, contra o apoio ao ataque ilegal de Washington e Telavive a Teerão, são explicitados pelo próprio da seguinte forma: “Não à violação do direito internacional. Não a aceitar que o mundo só pode resolver os seus problemas através de conflitos e bombas. E, finalmente, não a repetir os erros do passado. A posição do governo de Espanha é esta: Não à guerra”. Perante isso, numa reunião com o Chanceler alemão F. Merz, dia 3 de março na Casa Branca, Trump insultou Sánchez e ameaçou cortar relações comerciais com Espanha. Merz, talvez o vassalo mais obediente de Trump, deu razão ao magnata-presidente na crítica a Sánchez, e reiterou a concordância alemã com a operação militar de mudança de regime em Teerão, afirmando que “O Irão não deve ser protegido pela lei internacional”.

Em Portugal, Durão Barroso, entrevistado pela RTP, com um sorriso trocista de quem se sente herdeiro de Metternich ou de Kissinger, acusava Sánchez de ter cometido um “erro grave”, ofendendo o macho dominante do Ocidente. Com a sua experiência de ter hospedado nas Lajes, em vésperas de guerra, os chefes de governo que em março de 2003 iniciariam a destruição do Iraque, sob o pretexto de mentiras tão grosseiras como as usadas hoje por Trump para destruir o Irão, Durão Barroso sentenciou: “A Europa não pode ser o único vegetariano num mundo de carnívoros”. Quando os europeus começarem a pagar o imenso preço económico da guerra de Trump e Netanyahu, talvez uma dieta de batata e couves seja a única alternativa para muita gente.

Na verdade, o que está em causa é algo de bem mais terrível. O início desta guerra, mostrou para todos os líderes políticos do mundo, que a palavra dos EUA não vale nada. O Presidente da paz, que combatia o intervencionismo de Biden e aspirava ao Nobel, enganou os eleitores do seu país e o mundo inteiro. Em especial, Xi e Putin nunca mais darão crédito a quem mata os chefes de Estado dos países com quem está em negociações de paz. Se não formos capazes, como afirma Sánchez, de recusar o caminho da violência, assumindo a via da diplomacia e do respeito pelos outros, indivíduos ou Estados (como exige a Carta das Nações Unidas), acabaremos por mergulhar numa guerra generalizada, culminando na destruição da civilização humana sob o impacto das 12 000 armas nucleares à espera de entrar na história.

Os infelizes que sobreviverem entre os escombros da última das guerras, vegetarão num inferno, sem destino nem salvação. A escolha dos sobreviventes não será entre serem vegetarianos ou carnívoros, mas entre morrerem à míngua ou cederem ao horror do canibalismo… O Ocidente transformou-se num vácuo moral e num deserto de inteligência. Este Portugal de Montenegro e Rangel (herdeiros de Costa), limita-se a colocar um tapete vermelho a todos os caprichos de Washington. Fomos um império. Hoje somos uma estação de combustível no meio do Atlântico. Uma colónia periférica de um Ocidente que promete terminar num crepúsculo explosivo. Sánchez é o único líder que tem a coluna direita, com pés assentes no realismo da prudência, sem abdicar de princípios universais, onde todos se possam acolher. Infelizmente, nesta Europa, que perdeu o rumo e a alma, Sánchez parece ser a exceção que confirma a regra.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Do vermelho para o cinzento-escuro


Os resultados eleitorais no concelho e na península de Setúbal revelam a verdadeira chave de leitura destas eleições. Uma leitura que tem de ir para além do imediato. Tem de compreender e integrar as tendências de fundo. Deve articular-se com a mudança das placas tectónicas eleitorais nos países ocidentais. Dos EUA, ao resto da União Europeia.

Se a nível nacional foi a AD que ganhou as eleições, a vitória do Chega na região de Setúbal diz-nos muito mais sobre o que poderá suceder no país a médio prazo. Tal como sucedeu nas regiões industriais dos EUA, onde a esquerda do partido Democrata preponderava e agora campeia o trumpismo, ou nas áreas mais industrializadas de Itália, França e Espanha, onde os partidos comunistas e socialistas clássicos eram preponderantes, e agora são as forças de extrema-direita que se tornaram hegemónicas, parece ter chegado a vez de Portugal colocar a extrema-direita à frente em distritos que, tradicionalmente, estavam pintados a vermelho, ou vermelho e rosa. A pior coisa que se pode fazer, por ser intelectualmente arrogante e um total erro de análise, é culpar os eleitores. O crescimento do Chega em Portugal, como o do Vox em Espanha, o do Reagrupamento Nacional em França, o da AfD na Alemanha, ou o dos Irmãos de Itália da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, são, na sua essência, uma consequência e não uma causa.

Em todo o Ocidente, começando como sempre nos EUA, o debate político foi sendo transformado num espetáculo. As ideias foram substituídas por slogans publicitários. Os conselheiros políticos deram lugar a agências de comunicação que mudam a maneira de vestir e de falar dos candidatos. Os próprios partidos deixaram de ser os sujeitos do jogo político, para serem apenas os meros promotores de “candidatos a primeiro-ministro”, transformando as eleições para os parlamentos em castings de bem-parecer e charme. Veja-se como a AD fez destas eleições uma batalha para referendar em eleições as falhas éticas de Luís Montenegro, numa total falácia entre justiça e popularidade eleitoral. Não admira que à frente dos partidos se tenham posicionado, não os mais experientes e competentes, mas os mais aliciantes, fotogénicos e empáticos.

A substância das eleições perdeu a sua componente semântica, para se transformar num debate entre personalidades, com uma componente emocional cada vez mais fundamental. Não foi o Chega sozinho que esvaziou a campanha de temas essenciais para o futuro de Portugal: o alinhamento de Portugal e da União Europa numa guerra perdida, que pode escalar para o apocalipse nuclear; a loucura de pensar que o futuro da UE se encontrará numa corrida aos armamentos, aumentando as dívidas públicas, a desigualdade e a degradação dos serviços de saúde, educação e transportes, assim como da própria segurança social. Em 2014 e 2019 escrevi dois livros onde demonstrei que, sem uma reforma profunda da zona euro, Portugal e outros países seriam esmagados e condenados a uma austeridade perpétua. O que aconteceu desde aí? O PS, a AD e o resto dos partidos “responsáveis” continuam a tratar a UE como uma “vaca sagrada”, ao ponto de António Costa ter trocado a sua maioria absoluta de 2022 por um lugar à frente do, cada vez mais patético, Conselho Europeu.

O Chega cavalgou com maestria esta tendência. André Ventura – um génio na gestão das imagens, das emoções e do carisma – transformou a política portuguesa num grande Reality Show, num Big Brother a tempo inteiro. Quanto mais os problemas de degradação da qualidade básica de vida dos portugueses aumentavam, devido aos desastres acumulados pelo PS e AD na promoção de crises – apresentadas por esses partidos como sucessos – na habitação, na saúde, na educação na precarização do emprego, mais Ventura não só referia esses temas como procurava apresentar uma causa fácil de identificar para eles, à altura de um Big-Brother. Para Ventura e o Chega, a culpa da degradação da qualidade de vida e da crescente desigualdade no nosso país, não reside na submissão da UE aos EUA e ao grande capital financeiro, numa união monetária construída sobre bases injustas, transformando uns países em filhos e outros em enteados, numa guerra contra a Rússia que está a autodestruir a economia europeia e as bases do seu futuro. Não, para Ventura e o Chega, a causa é próxima e tem rostos concretos: são os ciganos, são os imigrantes, são aqueles cuja existência é considerada como um insulto a preconceitos sinistros e desumanos, que são apresentados como se fossem valores. Ao fazer essa grotesca fulanização das causas do mal-estar social de muitos milhões de portugueses, Ventura e o Chega sabem que estão a arrastar para o seu lado, as forças viscerais da agressividade e do ódio. Estão a fazer um pacto com o diabo. Tudo indica que essa via rápida para a terra prometida do poder político, não lhes causa quaisquer problemas de consciência.

Em 1933, quando Hitler chegou ao poder por via eleitoral, para destruir a República de Weimar e instaurar a ditadura nazi, também a política já havia sido transformada num processo de escolha emocional e encenada com talento dramático e artístico de um chefe providencial. O povo alemão, “povo de poetas, músicos e filósofos”, corroído pela fome e desemprego do colapso do capitalismo financeiro iniciado em 1929, também deixou de discutir a luta de classes e as culpas do capitalismo, para se concentrar na minoria judaica como bode expiatório. O “império de mil anos”, prometido por Hitler, terminou doze anos depois, num inferno de sangue e fogo.

Ainda vamos a tempo de evitar sequelas desses tempos sinistros em Portugal e na Europa. Mas, para isso, importa reinventar a política como um assunto sério, fundado no conhecimento racional e na competência. Orientada pela resolução dos problemas das pessoas, numa perspetiva de justiça e do primado do bem comum. Visando também o longo prazo, para que as decisões de hoje não deixem um mundo em ruínas e desertificado como casa hostil das gerações futuras.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A União Europeia perdeu a alma e o rumo


Na segunda década deste século tentei compreender se a UE poderia sobreviver às consequências da consistente oposição, liderada pela Alemanha da chanceler Merkel, à indispensável reforma da união monetária do euro.

A minha aposta consistia em defender a relação entre a criação de um verdadeiro orçamento federal e a edificação de uma união política, capaz de gerar um governo europeu, com pelo menos o mesmo grau de legitimidade democrática e constitucional que existe nos governos dos Estados-membros. Infelizmente, a realidade, que deve ser sempre a pedra de toque do conhecimento objetivo, mostrou-me que a eventual bondade das minhas propostas – apoiadas na coerência da doutrina e nas lições históricas de sucesso – não colhiam junto dos decisores e atores europeus, individuais e coletivos.

Em 2014 e 2019 publiquei dois livros sobre o declínio do projeto da unificação europeia (1). A UE estaria condenada a perder relevância e coesão interna. A recusa do federalismo iria conduzir a um precário “sistema internacional europeu”, uma “nova balança da Europa”, na qual a zona euro, em vez de cola para uma união política posterior, se tornaria, progressivamente, num fator de conflito e desagregação cada vez mais ameaçador.

Se antes do começo da guerra na Ucrânia, a UE já tinha perdido a alma, isto é, um sentido de propósito com um valor maior do que a simples rotina do business as usual, hoje, mais de três anos de sangrento conflito revelam-nos que a desorientação reinante nas três capitais europeias principais (Bruxelas, Berlim, Paris, acicatadas por Londres, que com o cheiro a pólvora parece regressado ao período anterior ao Brexit), está a degenerar num tóxico delírio de impotência e belicismo que nos ameaça arrastar para a autodestruição física.

A UE oscilou ao longo dos trinta anos que precederam a guerra da Ucrânia, entre ser um mero figurante, ou um cúmplice de segunda linha da continuada determinação dos EUA para usar a Ucrânia como bastião da sua hegemonia militar na Europa. Os documentos dizem-no sem equívocos, desde o livro de Zbigniew Brzezinski (The Grand Chessboard, 1997) até ao relatório RAND, contendo uma estratégia de aceleração da provocação a Moscovo em torno da Ucrânia (Extending Russia, 2019): com a anuência dos Estados europeus membros da NATO, os EUA prosseguiram com a expansão da Aliança Atlântica, e com a tentativa permanente de nela integrar Kiev, com vista a uma política de mudança de regime e fragmentação da Rússia, como etapa preliminar à contenção e enfrentamento da China.

Quando a Rússia passou da diplomacia ao uso da força militar para defender o seu interesse nacional, a UE não só seguiu incondicionalmente a resposta dos EUA, como foi num crescendo de agressividade, sem se preocupar com os danos económicos e sociais imediatos e as consequências estratégicas negativas de longo prazo de transformar a Rússia num inimigo. Seguiram-se três anos de escalada, com a subida de degraus que nos aproximaram de um conflito direto da NATO com a Rússia.

A vitória de Trump mudou as regras do jogo. Washington parece querer parar a guerra na Europa o mais depressa possível. Percebeu que continuar a escalada, seria um convite à III Guerra Mundial. Trump, por outro lado, mostrou sem máscaras as cartas do jogo geopolítico e militar americano: o que moveu os EUA não foram valores altruístas, mas interesses materiais grosseiros (acesso a matérias-primas estratégicas, encomendas para a indústria de armamento, ocupação do vazio deixado pelas sanções à Rússia na venda de combustíveis fósseis norte-americanos à Europa).

Contudo, aquilo que irritou os dirigentes europeus não foi isso, nem sequer as ameaças de Trump à integridade territorial da Dinamarca, ou do Canadá, mas sim o desejo norte-americano de acabar com uma guerra na Ucrânia, que, a continuar, transbordará para a totalidade do território europeu.

A guerra submete sempre as lideranças políticas a uma prova de fogo. O conflito que devasta a Ucrânia e partes da Rússia, mostrou a perigosa combinação de ignorância e arrogância – nas questões de estratégia militar e relações internacionais – de figuras como Ursula von der Leyen, Macron, Starmer, para não falar de Mark Rutte, Kaja Kallas ou António Costa. Num artigo recente no Público (14.03. 2025), Ana Cristina Leonardo recorda a total impreparação de von der Leyen: em abril de 2022 afirmava que “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”; em setembro desse ano declarava, com um sorriso de troça: “os militares russos estão a tirar fichas dos seus frigoríficos para os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”; em fevereiro de 2024 chegou ao ridículo de afirmar que a guerra com a Rússia tinha sido boa para a ecologia europeia, auxiliando a transição energética!

O panorama nas capitais nacionais, com escassas exceções não é melhor. Alguém consegue imaginar Luís Montenegro a dizer qualquer coisa, com a densidade de um pensamento, sobre o que significa para o futuro de Portugal a continuação desta guerra?

O belicismo irracional da UE é um sinal do seu colapso moral e intelectual. Significa também que na Europa o voluntarismo e o decisionismo arbitrários substituíram o respeito pelas leis, mesmo das leis constitucionais. Vejamos dois exemplos.

Apesar de o Parlamento Europeu (PE) ter sido afastado pela Comissão Europeia da discussão do plano de rearmamento de 800 mil milhões de euros, através do truque de usar o artigo 122º do Tratado de Funcionamento da União Europeia (equiparando, com esse ardil, a corrida aos armamentos à resposta a um “desastre natural”), o PE não deixou de aprovar uma resolução que constituiria uma autêntica declaração de guerra à Rússia, caso Moscovo ainda considerasse a UE como uma entidade credível (2).

De salientar que desde o começo da guerra, a CE atua em matéria de segurança e defesa em constante transgressão das suas competências (artigo 24º do TFUE).

Outro exemplo do desrespeito pelo quadro legal ocorreu na Alemanha. A 18 de março, o Parlamento alemão efetuou uma revisão rápida da Constituição federal, para permitir que os artigos limitando as dívidas do governo federal e dos governos estaduais (introduzidos em maio de 2009), fossem suspensos para permitir a criação de um fundo especial, num horizonte de 12 anos, ascendendo a 500 mil milhões de euros, a obter nos mercados da dívida, destinados essencialmente a revitalizar a indústria de armamento, as forças armadas e infraestruturas. Para além de juntar a uma economia em declínio um aumento exponencial da dívida pública germânica, a urgência na aprovação desta revisão, antes da entrada em funcionamento do novo Bundestag eleito em fevereiro, ficou a dever-se a mais um motivo de baixa política: com o novo parlamento, esta proposta não teria sido aprovada, pois a nova composição do Bundestag impediria a revisão de obter os dois terços dos votos necessários para uma alteração constitucional...

Os focos de tensão mundial são imensos. Israel quebrou o cessar-fogo com o Hamas e prossegue o massacre de civis desarmados. Há fumos de uma agressão dos EUA e de Israel contra o Irão. A matança de combatentes prossegue na Ucrânia. E a União Europeia, em vez de contrariar estas tendências disruptivas, junta-se a elas trocando a sua alma original de força promotora da paz e dos direitos humanos à escala global, pela pulsão de morte, enraizada numa russofobia fanática que nos ameaça devorar a todos.

Por Viriato Soromenho Marques

(Publicado no Jornal de Letras, edição de 2 de abril de 2025)

Referências:

  1. Os meus livros, publicados na editora Temas & Debates/Círculo de Leitores, foram os seguintes: Portugal na Queda da Europa (2014) e Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019).
  2. European Parliament resolution of 12 March 2025 on the white paper on the future of European defence (2025/2565(RSP).

quarta-feira, 5 de março de 2025

Portugal à deriva na tempestade


Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer.
As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.
Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.
Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia.
O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.
Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.
Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.
Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar. 
(In Jornal de Letras, 5.3.2025)

domingo, 8 de dezembro de 2024

Livro: Autocracy Inc


Bestseller do New York Times • O Melhor Livro do Economista de 2024 • O Melhor Livro do Financial Times de 2024 • Do autor vencedor do prémio Pulitzer, um relato alarmante de como as autocracias trabalham em conjunto para minar o mundo democrático e como nos devemos organizar para derrotá-las
“Um guia magistral para a nova era de autoritarismo... perspicaz e destemido.” —John Simpson, The Guardian • “Especialmente oportuno.“—The Washington Post
Pensamos que sabemos o que é um Estado autocrático: há um líder todo-poderoso no topo. Ele controla a polícia. A polícia ameaça as pessoas com violência. Existem colaboradores malignos e talvez alguns dissidentes corajosos.
Mas no século XXI, isto tem poucas semelhanças com a realidade. Hoje em dia, as autocracias são sustentadas não por um ditador, mas por redes sofisticadas compostas por estruturas financeiras cleptocráticas, tecnologias de vigilância e propagandistas profissionais, que operam em múltiplos regimes, desde a China à Rússia e ao Irão. As empresas corruptas de um país fazem negócios com empresas corruptas de outro. A polícia de um país pode armar e treinar a polícia de outro, e os propagandistas partilham recursos e temas, transmitindo as mesmas mensagens sobre a fraqueza da democracia e o mal da América.
A condenação internacional e as sanções económicas não podem mover os autocratas. Mesmo os movimentos populares de oposição, da Venezuela a Hong Kong e Moscovo, não têm qualquer hipótese. Os membros da Autocracy, Inc, não estão ligados por uma ideologia unificadora, como o comunismo, mas sim por um desejo comum de poder, riqueza e impunidade. Neste tratado urgente, que evoca o ensaio de George Kennan apelando à “contenção” da União Soviética, Anne Applebaum apela às democracias para que reorientem fundamentalmente as suas políticas para combater um novo tipo de ameaça.

Saber mais:

terça-feira, 2 de abril de 2024

O Serviço Militar ao Serviço de Quem?


Em contracorrente aos discursos da verdade única que os aparelhos de propaganda e manipulação nos transmitem, o professor Viriato Soromenho Marques publicou há dias no DN mais um texto de análise da realidade que vivemos e da que nos está a ser preparada.

Talvez esta análise crua tenha a mesma eficácia de uma pregação a um rebanho de cordeiros sobre os perigos que os aguardam com as celebrações judaicas da Páscoa, quando os pastores lhes estão a fornecer ervas tenras para a engorda, antes de os sacrificarem, mas vale a pena acompanhar o autor, para que os magarefes não se sintam pregadores evangélicos, incontestados vendedores de asas de subir aos céus. O texto tem por título “A Ocidente, uma desolada paisagem”. Começa por pedir que esqueçamos que há uma guerra europeia centrada na Ucrânia que se pode tornar mundial e que enfrentemos a dolorosa pergunta prévia: O que é o Ocidente e quais são os seus valores atuais? Isto é, digo eu: o que nos prometem a troco da vida dos jovens europeus e das ruínas das nossas casas? Começa o professor Soromenho Marques por relembrar que, de acordo com orientações estratégicas há muito públicas e publicadas e seguindo vozes autorizadas da Casa Branca e do Congresso, existe um saldo positivo de mais esta guerra para a oligarquia que governa os Estados Unidos, e que o que está em causa não é, nem nunca foi, a vitória da Ucrânia, muito menos a de uma Ucrânia livre e com um regime representativo do seu povo, mas sim usar aquele povo como aríete para enfraquecer a Rússia.

Viriato Soromenho Marques deixa claro a quem souber ler que a guerra na Ucrânia é um negócio e está a ser tratada pelos seus administradores como um negócio, com deve e haver, lucros e prejuízos. Os Estados Unidos fazem contas e concluem que a guerra é lucrativa para as suas elites financeiras e industriais e que, com os contratos já impostos à Europa para ela se “defender” de uma invasão russa, os lucros se prolongarão para lá do fim da guerra. Quanto à Rússia: Trinta anos (desde o fim da URSS) de estratégia de encostar a NATO às fronteiras da Rússia, sobretudo na Ucrânia, mas antes dela na Polónia e nos países bálticos, levaram, como estava previsto que levassem, o urso a acordar. Os EUA estavam preparados para lucrarem com o seu despertar.

As sanções, o ataque à exportação de petróleo e gás natural russo, o impedimento de mais oleodutos (sabotagem do Nordstream II), a fuga de cérebros, o fomento da instabilidade no Cáucaso, tudo isso estava prescrito num vasto documento que mais parece uma declaração de guerra: (Extending Rússia. Competing from Advantageous Ground, James Dobbins et alia, Santa Monica, CA, Rand Corporation). Nesse saldo positivo dos EUA, além da rotura dos laços entre Berlim e Moscovo, entra também o alargamento da NATO e a convicção de que a Europa vai aumentar duradouramente as compras em armamento norte-americano (quer ganhe Biden ou Trump), assegurando um grande negócio, nutrido com centenas de milhares de mortos e estropiados na Ucrânia, que se podem alargar a outras áreas e geografias na Europa e na Eurásia

“E que pensar da UE, a outra metade do Ocidente?” (Pergunta Viriato Soromenho Marques e esclarece: “Nunca a Europa sofreu, em tempo de guerra, com líderes tão perigosamente impreparados para governar. Em setembro de 2022, o triunfalismo, a presidente da CE (Ursula Von Der Leyen) troçava dos russos, dizendo que a eficácia das sanções obrigava Moscovo a usar os chips dos eletrodomésticos para fins militares. Hoje, um pânico antigo (“Vêm aí os russos”) percorre as capitais europeias. Basta ouvir o “valente” Macron, ou ler o apavorado Charles Michel.” Num artigo do El País de 29 de Março de 2024, Donald Tusk, um neoliberal que é primeiro ministro da Polónia, afirmava: “Estamos en una época de preguerra. No exagero”. Respondia assim ao primeiro-ministro espanhol, que na última cimeira europeia pediu que se baixasse o tom belicista.

Nesta linha dos apelos à guerra estamos a ser bombardeados com uma campanha de manipulação para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Portugal cumpre o papel que lhe foi distribuído. Não é um acaso, nem uma inocente coincidência que no mesmo dia surjam notícias da defesa desta reintrodução através de declarações do chefe do estado-maior general das Forças Armadas, do chefe do estado-maior do Exército e até, pasme-se, do chefe de estado-maior da Armada, de uma Armada que, mesmo durante a guerra colonial, manteve a maioria dos seus efetivos profissionalizados! Da campanha escapou até ver o chefe do estado-maior da Força Aérea. Não haverá para já pilotos ou controladores de tráfego aéreo, meteorologistas ou mecânicos de aeronaves de recrutamento obrigatório! Do novel ministro da Defesa, o lusito Nuno Melo, espera-se sem surpresas que desembainhe a espada de pau e vá a Washington comprar o que der mais comissões e proporcione aos intermediários, com Paulo Portas como chave-mestra, o orgulho de Portugal possuir os melhores artefactos bélicos e de participar na primeira linha da defesa dos valores do Ocidente. Os discursos estão disponíveis no ChatGPT. Basta tocar na tecla Enter.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Depois dos anéis, os dedos


O SG das Nações Unidas voltou a apelar aos governos do mundo, depois da publicação de mais um relatório breve do IPCC, sobre a necessidade de redução para metade das emissões de gases de efeito de estufa até 2030, se quisermos evitar a impotência perante catástrofes futuras. Ninguém o escutou. As grandes potências planetárias estão mergulhadas numa guerra irracional, porque insistem em ignorar que estamos em 2023 e não em 1944 (o último ano sem armas nucleares). Mas mesmo que evitemos tombar numa breve e suicidária guerra global, mesmo que as armas se calem nos campos de batalha, a "paz" que vai emergir será ameaçadora. O novo sistema internacional será claramente multipolar, mas percorrido por fraturas e hostilidades que irão aumentar a competição, diminuindo a cooperação e a ação coletiva indispensáveis para evitamos um colapso ambiental e o caos social, ainda bem dentro deste século. Tudo isto está a acontecer, apesar dos estudos e relatórios que mapeiam as tendências do futuro com precisão crescente. Estamos a viver num cenário de irresponsabilidade coletiva, devorando o capital natural de que dependem, para sobreviver em condições de dignidade, as gerações que hoje estão no início do seu percurso escolar.

O modo como no nosso país, com a permissividade e até entusiasmo deste governo, estamos a assistir ao saque e delapidação dos recursos naturais, do capital ecológico, do património paisagístico, de tudo aquilo que torna Portugal num território capaz de orgulhar os seus habitantes e atrair os visitantes estrangeiros, vai para além de todos os limites do suportável. Esse ataque ocorre usando toda a sorte de silêncios e argumentos. Em escassos anos, o Alentejo e o Algarve foram ocupados por culturas agrícolas intensivas, que vão do olival e amendoal aos mirtilos. Estas culturas introduziram em Portugal as novas formas de escravatura, praticadas na maioria dos casos sobre trabalhadores asiáticos, que só escandalizam os mais distraídos, incluindo a falsa surpresa dos responsáveis políticos que deram luz verde aos fundos de capital de risco que são a mola destes projetos.

O saldo destas culturas são solos cada vez mais desérticos, recursos hídricos mais escassos, cargas tóxicas crescentes nos solos e nos lençóis freáticos. Mas a retórica da "sustentabilidade" e da "transição energética", também serve para desbaratar de mais habitats da biodiversidade. Acresce a expansão de centrais fotovoltaicas em cima de montados com milhares de sobreiros destroçados, ou licenças para exploração de energia eólica off-shore, desenhadas a régua e esquadro, sem qualquer consideração pela especificidade ecológica desses territórios marinhos. Falta ainda o pior, que só poderá ser detido pela autodefesa das populações: a destruição de comunidades e paisagens pela mineração do lítio que se anuncia, para o bem maior da indústria automóvel internacional. Um patético exemplo do quotidiano desprezo pelas leis, é a inacreditável consulta pública que está a decorrer até 29 de março, sobre o projeto de aumento da área de exploração da cimenteira Secil, em pleno Parque Natural da Arrábida. Como foi autorizada esta consulta, quando a lei de ordenamento do PNA, de 2005, proíbe expressamente no seu artigo 8.º, qualquer alargamento futuro? Este governo, e o passado tem também outros exemplos lamentáveis, representa um enigma: como é que se pode governar um país sem dar sinal de que se ama a terra e cuida do futuro das suas gentes?

segunda-feira, 6 de março de 2023

Proteger a natureza “é uma ideia falha, e pífia também”

O ambiente não precisa de ser protegido.” O PÚBLICO partiu desta provocação de Ai Weiwei para interpelar diferentes especialistas. E encontrou um consenso: falar em protecção é um erro.


A vida começou num mundo quente. Não havia ainda uma camada protectora de ozono na atmosfera superior da Terra. O que existia eram organismos minúsculos, chamados cianobactérias, que “aprenderam” a aproveitar os raios de sol para produzir energia. Ao longo dos muitos milhões de anos que se seguiram, a evolução viabilizou uma miríade de outros seres vivos, incluindo o Homo sapiens. Agora que o planeta volta a aquecer, os humanos ambicionam proteger o conjunto da vida que o precedeu. Faz sentido?

“Nós somos recém-chegados. A nossa espécie está a dar os primeiros passos neste planeta. Esta tese de que temos de proteger a natureza é uma inversão do ónus da primazia. Nós somos parte da natureza e dela dependemos”, alerta o filósofo português Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Universidade de Lisboa.

Ao rejeitar o conceito de protecção, declina-se também uma relação de poder entre o domínio do humano e da natureza – esferas que, de resto, não deveriam ser entendidas separadamente. Como os humanos integram o mundo natural, o papel de protecção esvazia-se. Quem cuida de quem? Se pretendo proteger um ecossistema do qual faço parte, isto é superioridade, autocuidado ou apenas uma ilusão? Estas são algumas das questões que emergem da citação proposta pelo artista Ai Weiwei, e que o PÚBLICO usou para interpelar não só o filósofo Soromenho-Marques, mas também a ecóloga Helena Freitas, a curadora Margarida Mendes e a poetisa Ellen Lima.

“Não há uma separação entre humanos e natureza, este binómio é falso e deverá ser revertido, pois é este grande hiato que está na base dos problemas de extractivismo que testemunhamos hoje”, afirma a curadora e investigadora Margarida Mendes, cujo trabalho explora o impacte sociocultural das transformações ambientais.

A curadora exalta a importância de uma “reverência recíproca para com tudo o que nos rodeia”. E isso inclui não só os seres vivos (animais, vegetais e fungos), mas também o reino mineral e ancestral. Esta atitude de cortesia mútua tornaria supérflua a retórica dominante de “protecção da natureza” — um discurso que, de tão repetido, parece infiltrar-se acriticamente no nosso quotidiano. A ideia de “protecção” e “salvação” está presente nos mais variados produtos culturais, dos manuais escolares às campanhas de marketing, passando também pelas páginas deste jornal.

É mais simpático dizer ‘temos de proteger a natureza’ do que dizer que ‘temos de transformar a forma como habitamos a Terra por forma a podermos viver longamente neste planeta', não é?
Viriato Soromenho-Marques.

“O mundo natural em nosso redor não necessita de nenhuma intervenção humana, pois ele regenera-se sem nós. Basta não irmos contra ele”, acredita Margarida Mendes, reverberando a provocação do artista Ai Weiwei que serviu de ponto de partida para este texto.

“Desligamento do mundo biológico”
Opinião semelhante tem a poetisa brasileira Ellen Lima, indígena de origem Wassu Cocal, actualmente a realizar um doutoramento na Universidade do Minho. “A natureza foi dividida na era moderna — ela é uma coisa e nós somos outra. Mas isso não procede. É por isso que esta ideia de proteger a natureza não faz qualquer sentido. A ideia de protecção é falha, e pífia também”, defende.

A ecóloga Helena Freitas também sublinha a incoerência da cisão entre as esferas humana e natural. “Quando somos parte da natureza, deixa de fazer sentido quem protege quem. Contamos com a natureza para nos garantir um conjunto de bens e serviços sem os quais não vivemos — água, alimento, abrigo, regulação do clima, etc. Eu beneficio, mas também sou parte disso. Como dizia [a escritora] Rachel Carson, nada existe sozinho na natureza”, recorda a professora e investigadora da Universidade de Coimbra, que, desde o ano passado, dirige o Parque de Serralves, no Porto.

A ideia de protecção deveria ser substituída pela de dependência, defende Helena Freitas. Esta operação simbólica reposicionaria o lugar do humano, desencorajando a noção de superioridade e a desconexão do mundo biológico. É desse “desligamento” — a palavra é um fio condutor no raciocínio da investigadora — que advém, em parte, a ideia de “protecção”. Perdemos, como humanos, a “consciência da dependência” e isso conduz-nos à “ideia de cuidador”. Falamos em cuidar da natureza como se dela não fizéssemos parte e, assim, escondemos a nossa própria vulnerabilidade.

“Hoje, as ciências da vida e a biologia questionam o próprio conceito de espécie e a forma como esta ideia pode ser perniciosa para a forma como nos posicionamos. A tendência que temos como espécie é colocarmo-nos no topo da pirâmide, como se fôssemos um produto directo de uma evolução capaz de nos colocar num vértice”, refere a directora do Parque de Serralves.

“A pulsão de morte que nos habita”
A questão central desta discussão, para Soromenho-Marques, é compreender por que razão pensamos que temos de defender a natureza da qual dependemos. Sem esse entendimento, diz o filósofo, não vamos até à raiz e continuamos a ignorar como chegámos até aqui.

“Será que esta aparente generosidade não é uma proposta que acaba por ocultar algo pouco nobre, que é a nossa incapacidade de autocontrolo? A incapacidade de gerirmos a pulsão de morte que nos habita? É mais simpático dizer ‘temos de proteger a natureza’ do que dizer que ‘temos de transformar a forma como habitamos a Terra por forma a podermos viver longamente neste planeta', não é?”, indaga o filósofo, que ensina filosofia na natureza na Universidade de Lisboa.

É preciso colocar a humanidade diante do espelho – ou, para sermos justos, parte dela, uma vez que a atitude humana perante o sistema terrestre não é homogénea nem linear. Ellen Lima frisa, por exemplo, que os povos originários [do Brasil] sempre se “propuseram ao exercício de entender a Terra como um organismo vivo”, com a ciência de que a espécie humana integra o ambiente.

Margarida Mendes, por sua vez, cartografa com precisão a incapacidade de autocontrolo, apontando o dedo para o hemisfério norte. “O que sei ao certo é que o poder extractivo de alguns humanos (e aqui estou a falar essencialmente do 1% do Norte Global) tem aniquilado formas de vida e o seu entrelaçamento benéfico, diverso e reestruturador”, refere a curadora.

Somos hoje oito mil milhões sobre a crosta terrestre. Recebemos todos os dias notícias que, se inseridas do domínio da ficção, seriam um sinal do apocalipse: as calotas polares não param de derreter, os microplásticos e as substâncias químicas “eternas” tornaram-se quase omnipresentes, o regresso da guerra à Europa faz-nos cogitar o risco de um Inverno nuclear, os acontecimentos climáticos extremos tornam-se mais frequentes e intensos. Esta catadupa de informação assegura-nos que é preciso agir, mas não nos fornece necessariamente um retrovisor. Continuamos sem um espelho que nos devolva as imagens de que precisamos.

“O que está em causa é a sobrevivência da humanidade em condições que hoje consideramos vida digna. Mesmo com uma conjugação de guerra nuclear e catástrofe ambiental, haverá sempre um conjunto de indivíduos que vai sobreviver — os super-ricos que já têm abrigos para o fim do mundo. Sim, porque agora há uma indústria do fim do mundo. Alguém vai sobreviver. Temos de perceber como nos tornámos uma espécie ameaçadora para a Terra e para nós próprios. Se não percebermos a raiz disso, não temos hipótese nenhuma de sair daqui”, avisa o filósofo.

“A utopia tecnocientífica”
Viriato Soromenho-Marques tem investigado esta questão recorrendo a vários autores, incluindo Rachel Carson. No famoso livro Primavera Silenciosa, publicado há mais de 60 anos, a autora norte-americana usa o caso do pesticida diclorodifeniltricloroetano (DDT) para fornecer pistas sobre a incapacidade humana de autocontrolo.

“Os historiadores do futuro podem muito bem ficar espantados com a nossa distorcida noção das proporções. Como puderam seres inteligentes tentar controlar algumas espécies indesejadas com um método que contaminou todo o meio ambiente e trouxe a ameaça de doenças e morte até para a própria espécie? No entanto, foi exactamente isso que fizemos”, lê-se na badana da nova tradução de Primavera Silenciosa, que acaba de chegar às livrarias portuguesas.

A tese que Soromenho-Marques defende é, de forma simplificada, a de que houve uma grande mudança na forma como nos vemos a nós próprios. Passámos de uma “utopia baseada na sapiência, à maneira da República de Platão”, para uma “utopia tecnocientífica”, em que apostamos tudo na exploração do mundo através do conhecimento. Procuramos fazer coisas com o nosso conhecimento que nos sejam úteis e que “maximizem as nossas relações de poder”, segundo o filósofo.

O planeta existe há 4,6 mil milhões de anos e assim continuará por muito tempo, com ou sem a protecção humana.
“No fundo, andamos há 400 anos a cumular poder sobre a natureza. Tendo em conta esta origem, é compreensível que digamos que temos de proteger a natureza – quando, na verdade, temos é de a proteger de nós próprios e do poder que não controlamos. E trata-se de um poder, como diz a Rachel Carson, que se volta contra nós”, conclui o filósofo.

“Uma completa alucinação cultural”
Soromenho-Marques sublinha como esta utopia tecnocientífica não só nos trouxe até aqui como nos quer vender soluções para sairmos daqui. Os insectos estão em declínio? Acenamos com polinizadores em forma de drones. O planeta está a aquecer? Oferecemos soluções de geoengenharia capazes de reflectir a luz do sol de volta para o espaço e, assim, fazer descer os termómetros. “Hoje vivemos uma distopia, é uma completa alucinação cultural”, diz o filósofo, “e não há nenhuma certeza de que consigamos uma vitória sobre nós próprios”.

Enquanto a humanidade procura atalhos e soluções, ou envereda por descaminhos, o planeta continua a aquecer. A poetisa Ellen Lima recorre a outro pensador, o filósofo indígena brasileiro Ailton Krenak, para vincar a vulnerabilidade humana no sistema terrestre. “Quando olhamos para o Antropoceno, para essa era na qual os homens são entendidos como agentes geológicos, Krenak diz que a Terra pode muito bem seguir o caminho dela sem nós.”

Continuaremos, com o nosso cérebro evoluído, a tentar “segurar o céu” para “adiar o fim do mundo”, ainda citando Ailton Krenak, mas sempre sem saber as consequências exactas que este mundo quente trará para cada um de nós. Resta-nos nas mãos uma certeza: o planeta existe há 4,6 mil milhões de anos e assim continuará por muito tempo, com ou sem a protecção humana.

domingo, 23 de outubro de 2022

Rachel Carson desafiou a indústria química há 60 anos. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa?

Há seis décadas, o Primavera Silenciosa alertava-nos para como o uso excessivo de pesticidas estava a destruir ecossistemas e a própria saúde humana. O livro de Rachel Carson impulsionou a proibição do DDT e o movimento ambientalista. Hoje, está indisponível em Portugal. O que esta obra nos pode ensinar em tempos de crise climática?


No dia 27 de Setembro de 1962, chegava às livrarias, nos Estados Unidos, Primavera Silenciosa, de Rachel Carson. Tinha uma capa verde-clara, com a ilustração de um ribeiro tímido e plantas aquáticas – uma aparência despretensiosa para uma obra tão controversa, que trazia em si a semente de uma revolução social e acabaria por condicionar o curso da História.

As 368 páginas do livro encerravam uma mensagem que não era nova para muitos leitores. Capítulos do livro já haviam sido publicados em série na revista New Yorker em Junho de 1962, inflamando um debate nacional à volta do uso desregrado de pesticidas e mobilizando cidadãos para aquele que viria a ser o movimento ambientalista moderno. No mês seguinte, a manchete do New York Times condensava o ar do tempo: “Primavera Silenciosa é agora um Verão barulhento.” Em 1972, uma década depois, foi banido nos Estados Unidos o diclorodifeniltricloroetano (DDT).


Primavera Silenciosa tornou-se rapidamente um bestseller e, em 1963, já estava traduzido em 14 línguas. Só foi publicado Portugal em 1966, pela Editorial Pórtico, com tradução de Raul Correia. Hoje o título está indisponível no mercado nacional, embora algumas livrarias online vendam a edição brasileira. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa? O que a obra nos ensina em tempos de crise climática?

O filósofo Viriato Soromenho Marques acredita que os portugueses têm “todas as razões” para ler ou revisitar Primavera Silenciosa. O professor catedrático da Universidade de Lisboa explica que Rachel Carson, quando aponta o dedo para a indústria química, não se limita a mostrar falhas técnicas ou científicas.“Ela vai mais longe”, diz.

Rachel Carson denuncia “a escassa capacidade humana” de produzir mecanismos de regulação para as tecnologias que a própria humanidade engendrou. “Cabe a nós, 60 anos depois, numa situação muito mais dramática do que aquela que o mundo se encontrava em 1962, redobrar e prosseguir continuamente [esse esforço]”, afirma o filósofo português ao PÚBLICO.

Viriato Soromenho Marques, que ensina Filosofia da Natureza na universidade, lamenta que Primavera Silenciosa não seja lido no país como título de divulgação científica. “O público leitor em Portugal acaba por ser mais académico, infelizmente”, refere o professor da Universidade de Lisboa.

Soromenho Marques leu o texto original, em inglês, uma edição comemorativa publicada em 1992 e comprada pelo docente durante uma viagem a Berkeley, nos Estados Unidos. O livro está todo sublinhado, anotado. “A primeira leitura teve um impacto enorme em mim”, confessa.

O facto de Primavera Silenciosa estar indisponível não só nas livrarias, mas também para empréstimo em bibliotecas também prejudica a democratização do texto no país. “Acredito que há muitos leitores de Rachel Carson em Portugal, mas o objectivo de chegar ao grande público ainda não foi conseguido”, afirma o filósofo português numa conversa com o PÚBLICO, que pode ser ouvida na íntegra no mais recente episódio do podcast do Azul.

Christof Mauch, director do Centro Rachel Carson da Universidade de Munique, na Alemanha, corrobora a ideia de que, passadas seis décadas, Primavera Silenciosa continua a ser uma leitura necessária. “Acredito que a popularidade de Carson só vai aumentar no futuro, em parte porque há algo de profético na sua escrita”, afirma ao PÚBLICO.

“Os textos de Rachel Carson não são apenas [a exposição de] factos. Eles combinam uma advertência e uma visão do amanhã; ensinam-nos, acima de tudo, que os humanos são organismos como todos os outros e que, para termos um futuro, nós precisamos utilizar os recursos da Terra sem perturbar o equilíbrio geral”, refere Christof Mauch.

Para celebrar as seis décadas do livro, o Centro Rachel Carson está a organizar para a segunda quinzena de Outubro uma conferência intitulada Primaveras Silenciosas – assim mesmo, no plural –, com um programa no qual serão exploradas “histórias globais sobre pesticidas e sobre o nosso mundo tóxico”. As narrativas que emergiram da obra clássica dos anos 60 parecem mostrar como Rachel Carson transformou a forma como escrevemos hoje sobre a natureza.

“Carson tem sido uma inspiração maior. Os seus textos estão na mente de muitos romancistas também – como Margaret Atwood, Richard Powers e muitos outros. Acredito que nenhum outro autor teve um impacte parecido nas humanidades ligadas ao ambiente, seja porque a autora concilia ciência pura com filosofia, seja porque Carson tem um entendimento profundo da complexidade da vida – do microscópico ao macroscópico”, observa Christof Mauch.


Foto Conferência programada para Outubro em Munique, na Alemanha Rachel Carson Center/DR

domingo, 2 de outubro de 2022

Sabotagem Nordsteam e os impactos ambientais


A sabotagem dos pipelines Nordstream 1 e 2 cortou brutalmente o cordão umbilical energético da Alemanha com a Rússia. Parece óbvio para todos de que se trata de terrorismo com origem num "ator estatal", como disseram de imediato os responsáveis dinamarqueses e suecos. Inevitavelmente, Zelensky acusou a Rússia. Mas esse reflexo de Pavlov carece de justificação.

Seria totalmente irracional que Moscovo destruísse não apenas uma copropriedade onde investiu 475 mil milhões de rublos, mas, sobretudo, seria absurdo que anulasse o seu instrumento principal de pressão contra as sanções da UE. Sem pipelines, Moscovo e Berlim ficam em mundos paralelos.

O jornal ECO noticiava que num tweet, Radoslaw Sikorski - ex-Ministro da Defesa e ex-MNE polaco, eurodeputado do PPE, e um peso pesado na política global -, agradeceu aos EUA os danos causados aos pipelines russos. Noutro tweet, Sikorski explicava que os "danos no Nordstream reduzem o espaço de manobra de Putin. Se quiser retomar o fornecimento de gás à Europa, terá de conversar com os países que controlam os gasodutos Brotherhood [Ucrânia] e Yamal [Polónia]".

O "agradecimento", gravemente acusatório a Washington, vindo de um seu fã incondicional, apenas o compromete a ele. Contudo, revela também como os demónios europeus estão à solta. O ódio à Alemanha, e não apenas à Rússia, faz hoje parte integrante da política oficial em Varsóvia, como ficou demonstrado no renovado pedido a Berlim por indemnizações pelas perdas da II Guerra Mundial.

A UE, que alguns adeptos do Dr. Pangloss consideram mais forte e unida do que nunca, recebe hoje sinais de menosprezo das chancelarias por esse mundo fora. Com a CE de Von der Leyen, a "Europa Alemã", que segundo o malogrado Ulrich Beck resultou da gestão da crise do euro por Angela Merkel, está febril. Para merecer respeito em política é preciso conhecer os seus interesses cruciais. E saber defendê-los. A resposta europeia à invasão russa da Ucrânia foi desmesurada, ignorou completamente interesses e fragilidades, curvando-se num servilismo acrítico perante Biden. A coligação de Berlim destruiu, de um golpe, os alicerces de uma UE liderada pela Alemanha: segurança de abastecimento energético; estabilidade do euro; alguma (frágil) capacidade de manobra dentro da NATO. Sem estratégia e à deriva, os próximos meses dirão até que ponto é que a estrada de autoflagelação europeia terá alguma margem de mitigação.[Viriato Soromenho Marques]



What environmental-climate impact will the Nord Stream accident have?
How are natural disasters classified, such as Nord Stream?

quinta-feira, 31 de março de 2022

Pela paz contra a criminalização do pensamento

Carta aberta de 20 personalidades


A denúncia vigorosa da guerra não é incompatível com a necessidade de procurar entender a natureza do conflito, as interpretações que ele suscita, e de como se chegou a esta situação

Não escolhemos o tempo em que vivemos, só escolhemos como reagimos contra a barbárie.

Os signatários reafirmam o inequívoco repúdio de qualquer violação dos acordos internacionais que ameace a integridade e a soberania dos povos, tal como hoje acontece na Ucrânia onde urge parar a guerra e fazer cumprir os princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia.

O que melhor defende a civilização da selvajaria da guerra é o apelo incessante e incondicional à paz.

Os signatários observam com grande apreensão a criação de um ambiente tóxico, em muitos casos vinculado e estimulado por meios de comunicação social e por responsáveis do poder político, de hostilização, desacreditação pessoal e intimidação de todos os que não sigam a cartilha de uma opinião que se arvora ao estatuto de pensamento único.

Pensar traz consequências. O poder político sente-se proprietário das formas de pensar. Os que pensam contra a corrente, são objeto de escárnio, desacreditação social e pressões.

Em seu lugar, privilegiam-se discursos vazios e personagens para todo o serviço. Tudo é superficialidade numa sociedade onde o conhecimento é uma desvantagem e o saber não ocupa lugar.

Pensar não é uma tarefa fácil. Prevalece o elogio da mediocridade, da encenação e da informação espetáculo. Se o discurso não é o oficial é um pensamento subversivo que põe em causa a ordem das coisas - logo deve ser perseguido, deturpado, criminalizado.

Assiste-se por toda a Europa a uma “censura necessária” onde, à revelia de todos os proclamados valores ocidentais, se afastam desportistas, fecham exposições, retiram temporadas teatrais, despedem-se encenadores, professores e maestros, suspendem concertos e ballets, cursos universitários de literatura e ciclos de cinema.

Os signatários recusam alinhar com os que colocaram de quarentena a faculdade de pensar e perseguem todos os que recusam a lógica da confrontação, o elevar das tensões, e o desejo patológico de que a guerra se alastre à escala global.

A denúncia vigorosa da guerra não é incompatível com a necessidade de procurar entender a natureza do conflito, as interpretações que ele suscita, e de como se chegou a esta situação.

Pensar historicamente ajuda a combater os estereótipos e os preconceitos históricos que obstaculizam a compreensão do mundo em que vivemos de forma critica. Os factos históricos nunca são isolados, nem de geração espontânea, arbitrária e inesperada.

Repudiamos que se tenha aceitado, sem qualquer espírito critico nem sentido de soberania, uma diretiva da União Europeia que é contrária à Constituição Portuguesa, promovendo a flagrante e grosseira violação dos direitos de liberdade de expressão e informação expresso no artigo 37 - e o de liberdade de imprensa referido no artigo 38.

De forma acéfala, decidiu-se censurar todos os meios que vinculassem informações contrárias às decretadas como oficiais, restringindo o acesso ao conhecimento, e a uma informação isenta e plural, tentando dessa forma impedir a criação de qualquer outra opinião alternativa.

Isto criou um perigoso precedente sobre o qual tombou um silencio submisso e cúmplice. Esta é uma situação em que o Tribunal Constitucional deveria reverter de imediato.

A criminalização da pluralidade do pensamento promove um mundo sem reflexão critica, sem uma cidadania exigente e participativa. Em seu lugar temos opiniões irrelevantes e banais, sem referências éticas e uma maneira de ser flexível e fútil. O mundo torna-se instantâneo. Pode-se mudar mil vezes de princípios.

A forma maniqueísta de olhar a realidade, a opção da propagada em detrimento do conhecimento, assentam na tentação de uma deriva totalitária, num ambiente público de crescente intolerância, censura e perseguição ao outro que ousa pensar diferente.

A solução não é o aumento da escalada armamentista, nem os apelos à globalização da guerra. A solução está na coragem de avançar para a paz e a obrigatória cooperação entre todos os povos, no enfrentar de tantas ameaças que a todos afectam.

Os signatários:
1- Ana Margarida Carvalho, escritora;
2- Artur Pereira, consultor de comunicação;
3- Boaventura Sousa Santos, sociólogo e professor catedrático jubilado; 
4- Carmo Afonso, advogada;
5- César Viana, compositor e maestro;
6- Cíntia Gil, programadora de cinema;
7- Constança Cunha e Sá, jornalista;
8- Dino Santiago, músico;
9-Francisco Baptista, capitão de mar e guerra (ref);
10-Francisco Mangas, escritor;
11- Gustavo Namorado, advogado;
12- Isabel do Carmo, médica;
13- João Rodrigues, economista e professor universitário; 
14- Júlio Cardoso, actor e encenador;
15- Miguel Januário, artista;
16- Nuno Ramos de Almeida, jornalista;
17- Paula Godinho, antropóloga e professora universitária;
18 -Pedro Tadeu, jornalista;
19- Raul Cunha, major-general (ref);
20 - Viriato Soromenho-Marques, filósofo e professor universitário

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Falta tempo ao futuro, sobre o documentário - "2077: 10 segundos para o Futuro"

O documentário da RTP em quatro episódios 2077: 10 Segundos para o Futuro oferece ao grande público uma oportunidade de reflexão - fundamentada cientificamente e esteticamente sugestiva - que é rara no panorama televisivo não só em Portugal como em qualquer outro país. Os dois primeiros episódios colocam os espectadores perante duas projeções aparentemente contraditórias dos próximos 60 anos. No primeiro capítulo, dedicado às tecnociências emergentes e em crescimento exponencial - tecnologias de comunicação e informação, biotecnologias, nanotecnologias, robótica e inteligência artificial -, as avenidas do porvir abrem-se promissoras: maior esperança de vida, uma saúde mais eficaz e personalizada, ampliação das capacidades cognitivas individuais através de uma espécie de benigna eugenia digital. No segundo episódio, pelo contrário, o horizonte das três próximas gerações afigura-se perigosamente sombrio. Incidindo sobre o estado vital do planeta, o episódio debruça-se, com objetividade e clareza, sobre as agressões estruturais que a ação humana está a causar ao planeta. Não são danos secundários, mas feridas sistémicas de alcance existencial, como a sexta extinção da diversidade biológica e as alterações climáticas abruptas causadas pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera emitidos pela nossa espécie.

Os dois cenários são ambos rigorosos, contudo, como é fácil de compreender, não são simultaneamente compatíveis. A realidade futura não admitirá a coexistência entre altos níveis de qualidade de vida individual e um planeta ecologicamente devastado e em desequilíbrio. O futuro não está fechado, por isso mesmo os estudos prospetivos, longe de serem estórias de adormecer, devem ajudar-nos a separar o possível realista da mera fantasia irrealizável. Não me parece que a sobrevivência pura e simples da humanidade esteja em causa, contudo, está em risco a continuidade de uma civilização complexa e sofisticada, capaz de distribuir a justiça e minorar o sofrimento. Para evitar o pior, precisamos de ultrapassar a nossa confiança cega na tecnologia. Não chegaremos ao melhor 2077 possível se não investirmos na educação ética dos cidadãos, na melhoria das instituições e no fomento de uma cultura política da participação cívica e da solidariedade global. Aqueles que apostam tudo na tecnologia deveriam lembrar--se do paradoxo tecnológico da II Guerra Mundial. As melhores armas desenvolvidas entre 1939 e 1945, com a exceção da bomba atómica, foram produzidas pela Alemanha. Os melhores submarinos, os melhores carros de combate (como o Tiger e o Panther), os primeiros aviões a jato (Heinkel He 178), os primeiros equipamentos de visão noturna, os primeiros mísseis de cruzeiro (V1), os primeiros mísseis balísticos (V2) Contudo, e apesar das suas pioneiras "armas secretas", a Alemanha perdeu a guerra. Os erros políticos e estratégicos na condução da guerra, multiplicando as frentes, subestimando os inimigos e sobrestimando as forças próprias, esmagaram os ganhos da superioridade tecnológica e do talento militar, esgotaram o espaço de manobra que é uma condição indispensável para a vitória.

Hoje, na nossa guerra por um futuro sustentável, que deveria ser em nome de toda a humanidade, estaremos condenados a vegetar miseravelmente se estivermos à espera do último grito da tecnologia antes de arriscar um passo em frente. Se quisermos ganhar o tempo que nos falta para viabilizar um futuro digno temos de começar desde já a fazer as escolhas políticas justas e as decisões moralmente válidas.

Todos os episódios aqui

Derrota mútua assegurada



Por Viriato Soromenho-Marques - DN, 26 Fevereiro 2022
Entre a chegada de Gorbachev ao poder em Moscovo (1985) e a dissolução da URSS (1991) assistimos a um acontecimento sem paralelo na história mundial: um império colocou à frente da sua própria sobrevivência, o interesse da humanidade, evitando uma guerra nuclear generalizada que conduziria a uma "destruição mútua assegurada" (mutual assured destruction). A liderança de Gorbachev salvou a paz no mundo, mas com um custo doloroso para a o povo russo. Na nova Rússia, do centralismo estalinista e de economia planificada, transitou-se para um centralismo autocrático e para um capitalismo brutal e oligárquico. Entre 1991 e 1994 a esperança de vida na Rússia diminuiu 5 anos... Do lado ocidental, depois da simpatia inicial por Gorby, ganhou a tese de que a Rússia tinha perdido a guerra-fria, podendo doravante ser ignorada. Apesar das promessas de que a reunificação da Alemanha não implicaria o alargamento para leste da NATO, a verdade é que esta se efectuou em duas fases principais (1999 e 2004), integrando uma dezena de aliados do ex-Pacto de Varsóvia, e mesmo ex-repúblicas soviéticas, como foi o caso dos Estados bálticos. Como brilhantemente percebeu José Medeiros Ferreira (ver seu artigo de 20-02-2007 no DN), num "discurso histórico" numa conferência de segurança em Munique (10-02-2007), Putin interrompeu 15 anos de "hibernação" russa: os interesses e a segurança da Rússia não poderiam continuar a ser ignorados nas decisões dos EUA e aliados. Contudo, em 2008, a Geórgia e a Ucrânia foram convidadas a aderir à NATO.

A breve guerra desse ano na Geórgia, e a anexação da Crimeia em 2014, mostraram que Putin tinha falado a sério em 2007: a Rússia traçou uma linha vermelha à expansão de uma aliança militar, que considerava fazer perigar a sua segurança nacional. O desastrado ativismo bélico da NATO e dos EUA nos últimos 20 anos, num proselitismo democrático coberto de sangue e ruínas, no Afeganistão, Iraque ou Líbia, ajudou a consolidar as reservas de Moscovo.

Contudo, as razões russas contra a surdez da NATO, não legitimam a ofensiva bélica em curso na Ucrânia. A desmesura dos meios usados, esmaga a eventual bondade dos fins. A "neutralização" de Kiev pela via das armas constitui um gesto inverso àquele de Gorbachev: Putin está a arriscar a paz mundial para fazer prevalecer a sua visão de interesse nacional. E fá-lo, com uma determinação desesperada, depois do fracasso do objectivo russo de fazer da Ucrânia, nas fronteiras anteriores a 2014, uma nova Finlândia, aceite por Moscovo e pelo Ocidente. Impedir a NATO de ficar com Sebastopol, ou anexar as regiões de maioria russa em Donetsk e Lugansk, não são sinal de uma vitória russa, mas uma perigosa operação de resgate de salvados. O que se vai seguir será uma incerta escalada de perdas e danos.

As sanções vão fazer sofrer tanto a Rússia, quanto os seus promotores, em particular a União Europeia. Os tambores de guerra vão sobrepor-se à prioridade mundial do combate à crise ambiental e climática, que exige uma necessária e urgente cooperação compulsória entre todas as grandes potências. Desde a crise dos mísseis de Cuba que nunca estivemos tão perto de uma situação em que um desaire, um erro de análise, uma ferida narcísica perante a perspectiva de uma derrota convencional, possa fazer descarrilar o conflito para o patamar nuclear. Mais do que nunca é preciso que a lucidez prudente prevaleça sobre a precipitação e o ressentimento.


Documentários para perceber a Guerra na Ucrânia
1. Como é que chegámos aqui?
2. The Putin Files
3. Putin´s Way
4. Putin´s Revenge
5. Ucrânia em chamas - Ukraine On Fire 2016 Oliver Stone - Legendas disponíveis em português CC

Cinco municípios PCP e PS, votam claramente contra a Invasão Russa da Ucrânia, em contraciclo com a Direção Nacional do PCP, que insiste na "ocupação territorial" e acusa a NATO e UE.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O poeta. A heroína e o magnata - Por Viriato Soromenho-Marques



Manuel Alegre veio a público invetivar o que ele considera ser o perigo de o PS ser dominado pelo PAN, no mesmo dia em que se soube ter o devastador tsunami de Tonga causado mortes. Uma delas chamava-se Angela Glover, uma britânica de 50 anos. Ela e o marido viviam há anos em Tonga, onde geriam um asilo para animais abandonados à espera de adoção. Ambos foram apanhados pela onda gigante por terem descurado a guarda da sua própria vida, no afã de resgatar o maior número possível de animais a seu cargo. O marido conseguiu agarrar-se a uma árvore. Angela não teve a mesma sorte. O seu corpo foi encontrado nesse mesmo dia 18, em que o poeta e histórico militante do PS fez vir a lume a sua prosa.

No referido artigo, Alegre acusa o PAN (esclareço que não milito em partidos, nem é partidária a natureza desta reflexão) de ser um "partido que subverte o primado da pessoa humana e os fundamentos humanistas da nossa sociedade". Logo a seguir, o poeta explica o alcance desse "primado da pessoa humana": poder fazer, sem ser perturbado, "o que gosto de fazer, como caçar e pescar". Como seria o diálogo imaginário entre um poeta armado e uma mulher com uma generosidade maior do que a vida? Como encontrar uma ponte entre duas línguas mutuamente intraduzíveis? Surpreendentemente, recordei-me de uma entrevista concedida pelo grande empresário António Champalimaud (1918-2004) à notável jornalista Maria Elisa Domingues. Sabia que tinha sido há muito tempo, mas devo ter empalidecido quando, pesquisando na RTP Play, pude revisitar essa conversa datada de há quase três décadas (26.01.1993)... Depois de informar que tinha começado a trabalhar aos 19 anos, após a morte de seu pai, Champalimaud revelava ter sido uma espingarda a sua primeira compra pessoal. Tinha uma grande "paixão pela caça". Maria Elisa perguntou-lhe se ainda a mantinha. Champalimaud, com uma voz pensativa e emocionada, respondeu negativamente. E aqui transcrevo o seu discurso direto: "Deixei de caçar quando percebi que a caça, a fauna, era um bem que era limitado, que estava a ser dizimado, que precisava de ser protegido."

O conceito de "limite" é a chave para a ponte entre Alegre e Glover. O que está em causa, ao contrário do que pretende Alegre, não é a defesa do humanismo, mas a arrogância do aedo, ao considerar o seu hedonismo cinegético como a pedra-de-toque da identidade humana. A. Glover era um ser generoso, que abraçava animais e pessoas, como reza um comunicado da sua família. A. Champalimaud, viemos a confirmar mais tarde pela criação da fundação com o seu nome, também unia o respeito pelos animais à compaixão pelos humanos. Para Glover e Champalimaud, a condição humana implica perceber que não só não estamos sozinhos no planeta, como deveríamos exercer o recente poderio tecnológico da nossa civilização, com responsabilidade e respeito para com os mais vulneráveis, seja gente ou bicho. A humanidade é uma aventura recente, ameaçada agora pela desmesura da sua grosseira avidez. Apesar das nossas boas palavras, o mundo está a ser devastado pelos nossos atos. Hoje a biodiversidade. Amanhã os nossos filhos e netos, pois ninguém pode chamar casa a um desértico chão de ruínas. Por isso, do poeta Manuel Alegre, em vez de um manifesto contra ataques imaginários à sua volúpia venatória, esperaria que oferecesse um canto capaz de abraçar a exangue beleza do mundo e a resiliente vontade de viver de todas as criaturas.