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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fascismo do Fim dos Tempos: Como Elites Tecnológicas e Religiosas se Preparam para o Apocalipse Global


Em setembro de 2026, a publicação do livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World, escrito pela jornalista e ativista Naomi Klein e pela realizadora e escritora Astra Taylor, trouxe para o centro do debate uma tese alarmante sobre a ascensão da extrema-direita global. Numa entrevista concedida ao programa Democracy Now!, Klein e Taylor explicam que o fenómeno atual não é uma simples repetição do fascismo do século XX, mas uma evolução adaptada à era de colapso climático, avanço desenfreado da inteligência artificial e intensificação de conflitos geopolíticos.

Na perspetiva das autoras, o fascismo sempre funcionou como uma espécie de "capitalismo com dentes de fora" - uma reação violenta das elites para proteger as suas posições de poder quando o sistema económico entra em crise estrutural. Contudo, na sua nova roupagem, este fascismo do fim dos tempos funde três fações aparentemente distintas: fundamentalistas religiosos com visões messiânicas, etnonacionalistas obcecados pelo fecho de fronteiras e uma elite tecnológica de Silicon Valley que desistiu completamente da ideia de um futuro partilhado.

Um dos focos principais dessa análise é a ascensão da chamada "Máfia do PayPal" no poder político dos EUA. Nomes como Peter Thiel (cofundador da Palantir) e David Sacks (nomeado para a administração norte-americana para supervisionar a política de IA e criptomoedas) influenciaram diretamente figuras políticas como JD Vance. As autoras argumentam que essa aliança acelerou o desmantelamento de salvaguardas regulatórias, enquanto os executivos do setor utilizam a rivalidade com a China como pretexto para uma expansão desregulada da inteligência artificial, ignorando os riscos existenciais que a própria tecnologia acarreta.

Ao mesmo tempo que promovem sistemas que aceleram a rutura social e ambiental, estas elites preparam o seu próprio escapismo através da construção de bunkers subterrâneos, estações espaciais e a ilusão do que Klein denomina de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture). O livro exemplifica esta lógica com propostas de requalificação imobiliária apresentadas no Fórum Económico Mundial em Davos, onde projetos como o "New Gaza" procuram transformar cenários de destruição massiva em empreendimentos imobiliários de luxo.

Os três pilares identificados por Naomi Klein e Astra Taylor constituem uma aliança frágil, mas extremamente perigosa, formada por grupos que divergem em crenças, mas convergem na aceitação da rutura do mundo para garantir o controlo ou a sobrevivência exclusiva durante o colapso.

O primeiro grupo é composto pelos Religiosos do Fim dos Tempos (Religious Endtimers), maioritariamente fundamentalistas associados a correntes do sionismo cristão e setores messiânicos. Para este pilar, os conflitos no Médio Oriente, a degradação ambiental e as crises sociais não são problemas a resolver, mas sim sinais proféticos incontornáveis do Armagedão ou da segunda vinda de Cristo. A sua função nesta aliança é conferir uma justificativa teológica e moral à destruição, encarando o caos e a violência apocalíptica como etapas necessárias de um plano divino.

Paralelamente surgem os Aceleracionistas Tecnológicos (Tech Endtimers), constituídos por bilionários, investidores e executivos de Silicon Valley ligados ao ecossistema da inteligência artificial. Embora reconheçam abertamente que a tecnologia desregulada pode causar desemprego em massa, rutura social ou até a extinção humana, adotam uma postura fatalista e aceleradora. Este grupo promove o que as autoras chamam de "arrebatamento pela riqueza" (wealth rapture), acreditando que o capital e a inovação lhes permitirão escapar às consequências da crise através de bunkers de luxo, colonização espacial ou fusão com a IA, lucrando com o colapso enquanto constroem saídas de emergência privadas.

Por fim, o pilar dos Etnonacionalistas (Ethonationalists) reúne movimentos e partidos da extrema-direita global focados na identidade nacional, racial ou cultural. A sua visão de mundo encara o futuro como um jogo de soma zero, onde recursos essenciais como água, terra e alimentos serão drasticamente escassos. O seu papel na aliança consiste em implementar o fecho absoluto de fronteiras, a militarização do Estado e a desumanização do "outro", canalizando o medo e a insegurança das populações contra alvos específicos, como imigrantes, minorias e refugiados climáticos.

Apesar das contradições evidentes entre o fervor religioso, o materialismo tecnológico e o nacionalismo estatal, estes três grupos encontram-se no mesmo ponto cego: todos desistiram da ideia de um futuro partilhado para toda a humanidade. Em vez de tentarem travar a crise global, unem forças para construir o que Klein e Taylor classificam como "arcas" exclusivas para as elites, abandonando o resto da população à mercê do colapso.

Para combater esta espiral autodestrutiva, Taylor e Klein propõem o conceito de "triplo desarmamento": desarmar arsenais nucleares e militares, estabelecer guardas-de-corpo rigorosas para tecnologias de alto risco como a IA e desmantelar a extrema concentração de riqueza, tratando a desigualdade desmedida como uma verdadeira arma de destruição maciça. A solução não passa por fugir do planeta, mas por um compromisso renovado com a sobrevivência e a solidariedade no mundo real.

A peça central desta contraofensiva reside no que as autoras definem como um "triplo desarmamento". Esta estratégia procura desmantelar as maiores ameaças existenciais do nosso tempo através de três frentes coordenadas: o desarmamento militar e nuclear, travando a corrida aos armamentos e a perigosa integração da Inteligência Artificial em sistemas de defesa; o desarmamento tecnológico, impondo regulamentação pública severa e guardas-de-corpo à IA antes que a sua expansão desenfreada cause danos irreversíveis; e o desarmamento da própria riqueza concentrada. Nesta última vertente, o acúmulo extremo de capital por parte dos bilionários é tratado como uma verdadeira arma de destruição maciça, exigindo políticas fiscais agressivas que redistribuam recursos e travem a privatização de infraestruturas essenciais.

Freneticamente oposta às fantasias corporativas de fuga para Marte, bunkers subterrâneos de luxo ou simulações virtuais na nuvem, surge a proposta de uma ética do "aqui" (here-ness). Esta postura filosófica e política recusa categoricamente o fatalismo de que o apocalipse é inevitável. Em vez disso, apela ao investimento direto na proteção das comunidades, dos territórios e dos ecossistemas reais, promovendo uma solidariedade horizontal entre as pessoas - em direto contraste com a solidariedade vertical oferecida pelos autoritários, que une o cidadão comum às elites através do medo e do ódio ao "outro".

Na prática, esta resistência já ganha forma em várias frentes de ação direta pelo mundo. Destaca-se a crescente vaga de protestos comunitários contra a construção descontrolada de data centers destinados à IA, devido ao seu consumo devastador de água e energia; a organização sindical de trabalhadores que lutam para impedir que a automação sirva unicamente para desmantelar direitos laborais; e a defesa ativa de migrantes e refugiados contra a militarização das fronteiras. Para guiar esta ação, as autoras sugerem o "Teste Steven Miller": uma métrica simples que estabelece que, se uma tecnologia ou concentração de poder for perigosa ao ponto de se tornar devastadora nas mãos do pior governante autoritário imaginável, essa ferramenta simplesmente não deve ter permissão para existir.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jerry Seinfeld, Extrema-Direita e o Limite do Humor: A Democracia sob Ameaça


No  𝑫𝒊𝒂 𝑰𝒏𝒕𝒆𝒓𝒏𝒂𝒄𝒊𝒐𝒏𝒂𝒍 𝒅𝒂 𝑫𝒆𝒎𝒐𝒄𝒓𝒂𝒄𝒊𝒂 relembro que apenas 6,6% da população mundial vive em verdadeira democracia. E isto exige uma enorme e profunda reflexão. Peguemos no case-study actual de Jerrey Seinfeld. Em setembro de 2025, durante uma aparição surpresa na Universidade Duke para apresentar Omer Shem Tov - um refém israelita libertado pelo Hamas , Jerry Seinfeld fez declarações diretas comparando o movimento Free Palestine à organização supremacista branca Ku Klux Klan (KKK). 

E assim solidificou a transição de Seinfeld de um comediante famoso pelo humor neutro e apolítico para uma das figuras mais polarizadoras e ativas no debate sobre o conflito no Médio Oriente. 
Para além deste discurso, outra interação gravada em vídeo meses antes (junho de 2026) alimentou a contestação dos ativistas. Quando abordado na rua por um transeunte que lhe pediu para dizer a frase "Free Palestine" (Palestina Livre), Seinfeld respondeu com um riso desdenhoso: "Haha. Isso não existe". 

Sim, o humor tem limites.

A direita e extrema-direita é tão nojenta que já cooptou temas defendidos ou explicitamente de esquerda: wokismo e apropriação cultural e até "pós-verdade" já foram utilizados e normalizados pela nossa extrema-direita. 

A extrema-direita não assimilou a essência do wokismo, mas percebeu que, para ter palco e viabilidade eleitoral, precisava de adotar a sua gramática e jogar com as mesmas regras.
É uma apropriação puramente tática do discurso. Conceitos como "liberdade de expressão", "diversidade" ou "combate à discriminação" são agora accionados para inverter a lógica da opressão, posicionando o conservadorismo como a nova identidade "perseguida" ou "cancelada" pela hegemonia cultural dominante.
Paralelamente, assiste-se à instrumentalização estratégica de causas sociais específicas - o que a sociologia apelida de homonacionalismo e feminacionalismo. Em vários países europeus, a defesa dos direitos das mulheres ou da comunidade LGBTQIA+ é puxada para a agenda não por convicção igualitária, mas como um trunfo político para rejeitar a imigração de matriz islâmica, apresentada como a verdadeira ameaça a esses valores.

Trata-se do clássico processo de normalização partidária (de-demonization): suavizar a estética e utilizar os códigos do mainstream corporativo e mediático para tornar a agenda viável, sem nunca alterar a sua substância.
 
Se uns acham que a extrema-esquerda parece o paladino de uma nova moralidade, a extrema-direita e o conservadorismo radical fazem exatamente a mesma coisa, só mudam o filtro moral.

Olhemos para movimentos como as "Mulheres Conservadoras" cá em Portugal ou a malta que quer proibir a educação sexual e cancelar tudo o que não encaixe na família tradicional. A lógica é rigorosamente a mesma: "nós somos os virtuosos, vocês são os degenerados e a sociedade tem de ser purgada". 

Concluo, por isso, reafirmando que a democracia não sobreviverá se aceitarmos o cinismo como norma ou a deslegitimação do outro como método. Se o humor perdeu a capacidade de rir de si mesmo para se transformar em dogmatismo político, e se a extrema-direita tenta monopolizar o debate moral impondo a sua própria agenda de cancelamento, a resposta da esquerda democrática não pode ser a retração.

Reclamar o espaço público para o debate fundamentado, a empatia e a justiça social é a única forma de evitar que os 6,6% de verdadeira democracia no mundo continuem a encolher. 

A liberdade não é um privilégio de quem grita mais alto ou de quem cancela melhor - é a garantia de que o debate sobre os direitos humanos continua vivo, urgente e inegociável.

sábado, 12 de setembro de 2026

O fenómeno do homonacionalismo: como a AfD e Alice Weidel reconfiguraram o voto LGBTIA+ na Alemanha

«Não sou queer, sou apenas casada com uma mulher que conheço há 20 anos».

Apesar do discurso tradicionalmente conservador e da defesa do modelo familiar clássico, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland (AfD) conseguiu captar um volume significativo e surpreendente de votos junto de setores da comunidade LGBTI+, particularmente entre homens homossexuais e bissexuais. Este fenómeno, frequentemente analisado através do conceito de "homonacionalismo", ficou evidente em várias sondagens realizadas no país. Numa pesquisa efetuada pela popular plataforma de encontros para homens gay Romeo, por exemplo, a AfD chegou a liderar as intenções de voto entre os utilizadores na Alemanha, ultrapassando partidos historicamente associados à defesa dos direitos das minorias sexuais, como Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD).

O principal motor para esta adesão eleitoral reside na forte agenda anti-imigração do partido. Uma parcela substancial dos eleitores LGBTI+ que vota na AfD justifica a sua escolha com o medo do aumento do antissemitismo e da homofobia na esfera pública, associando estes problemas ao crescimento da imigração proveniente de países de maioria muçulmana ou de sociedades culturalmente muito conservadoras. Para estes eleitores, as propostas de restrição de fronteiras da extrema-direita são percpcionadas como uma salvaguarda para o seu estilo de vida e segurança individual. Além disso, a figura de Alice Weidel, co-líder nacional da AfD - que é abertamente homossexual, vive numa união do mesmo sexo e tem dois filhos com a sua companheira -, serve como um elemento de validação para este eleitorado, reduzindo a perceção de que o partido seja intrinsecamente homofóbico. Existe também uma rejeição, por parte de setores mais assimilados da comunidade, em relação ao ativismo LGBTQIA+ contemporâneo e às pautas de identidade de género.

No entanto, este apoio eleitoral convive com profundas contradições em relação ao programa oficial da AfD. O partido opõe-se abertamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, defende ativamente a família tradicional como único pilar da sociedade, combate a introdução de conteúdos sobre diversidade sexual nas escolas e rejeita a Lei de Autodeterminação de Género, promovendo iniciativas para banir símbolos como a bandeira arco-íris de edifícios públicos. Esta dualidade faz com que a relação entre a extrema-direita alemã e a comunidade LGBTI+ continue a ser um dos temas mais controversos e fracturantes do debate político na Alemanha- num cenário onde, para muitos analistas, impera a lógica de que vale tudo para atingir o poder.

A contradição entre a agenda da AfD e o apoio de parte do eleitorado LGBTI+ é um dos fenómenos sociopolíticos mais estudados na Alemanha contemporânea. A leitura de que impera a lógica do "vale tudo para atingir o poder" é fundamentada por diversos académicos, jornalistas e politólogos que analisam as táticas de comunicação do partido e a psicologia do seu eleitorado. A teórica cultural Jasbir Puar formulou o conceito de homonacionalismo para descrever como certos setores de minorias sexuais acolhem ideologias nacionalistas e xenófobas, projetando a homofobia exclusivamente no "outro" - neste caso, nos imigrantes de países de maioria muçulmana. Em paralelo, a psicóloga social Beate Küpper demonstra que a AfD oferece a estes eleitores uma "identidade social de pertença", permitindo que o eleitor gay alemão se sinta parte do grupo dominante nacional em oposição ao imigrante muçulmano. Por sua vez, o cientista político Constantin Wurthmann aponta a figura de Alice Weidel como uma estratégia calculada de "folha de figueira" (fig leaf) para suavizar a imagem do partido e desarmar acusações de homofobia, permitindo ao eleitorado alinhar-se com a extrema-direita sem culpa ideológica. Já o ativista Volker Beck e o jornalista e analista político Enrique Anarte enquadram esta dinâmica no conceito de pinkwashing eleitoral, denunciando o uso da diversidade de uma figura de topo para ocultar uma plataforma abertamente hostil aos direitos LGBTI+.

Esta complexa teia explicativa reflete a razão pela qual a sociedade alemã vive hoje um tempo nem branco nem negro, mas marcado por profundas zonas cinzentas e contradições éticas. A população enfrenta uma forte polarização onde a perceção de insegurança individual e o medo do radicalismo religioso superam a adesão estrita aos princípios liberais e aos direitos sociais abrangentes. Adicionalmente, regista-se a normalização do que antes era inaceitável: o cordão sanitário político (Brandmauer) que afastava a extrema-direita está a esboroar-se, e o eleitorado habituou-se ao discurso da AfD, deixando de o ver sob uma ótica maniqueísta de "bem contra o mal" para o encarar como uma opção viável de protesto. O próprio movimento LGBTI+ vive uma fratura interna, deixando de ser um bloco monolítico e dividindo-se entre um eleitorado mais "assimilado ou conservador" e as pautas identitárias e trans mais recentes. Por fim, vigora uma hipocrisia institucionalizada em que o eleitorado aceita votar num partido cuja co-líder, Alice Weidel, beneficia pessoalmente de direitos - como a união de pessoas do mesmo sexo e a parentalidade - que a própria plataforma do seu partido procura limitar ou revogar para o resto da sociedade.

Este vídeo Breaking down Far Right AfD Party’s anti LGBTQ+ platform in Germany analisa detalhadamente o paradoxo da AfD na Alemanha, explicando como o partido utiliza táticas políticas complexas enquanto mantém uma plataforma que afeta os direitos da comunidade LGBTI+.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A algoritização do ódio: as redes sociais, a extrema-direita e a erosão da democracia


A transformação do ecossistema digital de um espaço de ligação interpessoal numa máquina industrial de rentabilização da mediocridade e do sensacionalismo ultrapassa as fronteiras da mera desilusão tecnológica ou da crítica de consumo. A mutação da esfera pública numa arquitetura desenhada para viciar provocou uma fratura tectónica na vida democrática contemporânea. Longe de serem juízes neutros, os algoritmos de recomendação das grandes plataformas atuam como catalisadores de incentivos perversos onde a indignação, o ruído e a falsidade se sobrepõem sistematicamente ao conhecimento e à utilidade real. É precisamente nesta assimetria estrutural - onde a futilidade e o conflito são convertidos em capital publicitário - que reside a aliança simbiótica entre a arquitetura Big Tech e a ascensão dos movimentos de extrema-direita, num processo que conspira ativamente contra as fundações da democracia liberal.

1. O modelo de negócio da atenção e a proliferação das redes
A premissa central sobre a qual repousa o império das redes sociais é a maximização do tempo de ecrã (engagement). Como demonstraram os dados divulgados pela whistleblower Frances Haugen através dos Facebook Papers, os sistemas de recomendação priorizaram historicamente as reações emotivas de "indignação" (Angry), atribuindo-lhes cinco vezes mais peso algorítmico do que a um simples "Gosto". Esta decisão de engenharia não respondeu a uma neutralidade política, mas sim a um cálculo económico: a raiva e o ridículo desencadeiam reações biológicas mais rápidas, comentários mais acesos e partilha compulsiva.

O resultado é uma economia da atenção globalizada em que várias plataformas promovem ativamente a desinformação e rentabilizam o discurso de ódio:
  1. Facebook (Meta): continua a ser o pioneiro na monetização do clickbait e na otimização da raiva, cortando o alcance orgânico do jornalismo e da cultura para forçar o pagamento de promoção, enquanto distribui gratuitamente conteúdos divisivos.
  2. X / Twitter: sob a liderança de Elon Musk, a plataforma desmontou grande parte das suas equipas de moderação de conteúdo, alterou a verificação de contas para um modelo pago sem autenticação real e reconfigurou o algoritmo para ampliar posts de alto envolvimento emocional, tornando-se uma incubadora direta de teorias da conspiração e discurso extremista.
  3. TikTok: utiliza um algoritmo de recomendação hiper-otimizado que identifica fragilidades emocionais em segundos. Ao priorizar vídeos de curta duração baseados em choque, pânico moral ou desinformação médica e política, a rede cria espirais rápidas de radicalização para públicos extremamente jovens.
  4. YouTube (Google): o seu motor de recomendação foi documentado por diversos académicos por conduzir utilizadores ao longo de "tocas de coelho" (rabbit holes) ideológicas, onde vídeos moderados levam gradualmente a conteúdos cada vez mais extremistas e conspiratórios para reter a visualização contínua.
  5. Telegram e WhatsApp: funcionam como redes de comunicação opaca em massa onde a desinformação circula sem qualquer moderação de factos. A arquitetura de grupos e canais gigantes permite a orquestração de campanhas de difamação e pânico social longe do escrutínio público.
2. A extrema-direita e o uso ativo do algoritmo
Se a infraestrutura das redes sociais foi desenhada para priorizar o conflito e a polarização, os movimentos populistas e radicais revelaram-se os seus utilizadores mais eficazes. Contudo, existe um debate central sobre esta relação: a extrema-direita não é meramente um produto passivo do algoritmo, mas sim um ator político estratégico que aprendeu ativamente a instrumentalizar a plataforma. Muito antes da otimização algorítmica, estes movimentos já exploravam os limites da propaganda; com as redes sociais, encontraram o meio perfeito para dar escala global a ressentimentos sociais, económicos e culturais preexistentes.

Esta captura opera através de quatro eixos fundamentais:
  1. Simplicidade maniqueísta vs. complexidade: o discurso de extrema-direita constrói narrativas diretas de "nós contra eles", medo e ameaça. Tais mensagens adaptam-se com facilidade à leitura rápida do feed, ao contrário de análises ponderadas sobre políticas públicas ou causas como o ativismo ambiental e a ciência, que exigem nuance e acabam sufocadas pela máquina.
  2. Tática do clickbait emocional: ao alavancar títulos enganadores e factos distorcidos (que chegam a representar entre 60% a 70% dos artigos virais), estes atores transformam o pânico moral, o preconceito e a paranoia em mercadoria virótica.
  3. Exploração das bolhas de filtro: ao isolar os utilizadores em ecossistemas de validação mútua, os algoritmos criam câmaras de eco impermeáveis ao contraditório, expostas continuamente a versões hiperbolizadas da realidade.
  4. Guerra memética e humor de fronteira: o sensacionalismo assume frequentemente a forma de memes e conteúdos pretensamente humorísticos, suavizando o extremismo e permitindo espalhar desinformação a uma velocidade superior à da verdade.
3. A erosão democrática: a ruptura do consenso factual
A democracia não exige o acordo universal sobre valores, mas pressupõe um terreno mínimo de factos partilhados. O impacto devastador da desinformação foi empiricamente mensurado em investigações do MIT, que demonstraram que conteúdos falsos têm 70% mais probabilidade de ser partilhados do que a verdade e atingem as primeiras 1.500 pessoas cerca de seis vezes mais rápido. Quando a mentira circula a esta velocidade em múltiplas plataformas, a possibilidade de um debate público racional colapsa.

A transfiguração da praça pública num mercado de quinquilharia emocional corrói o sistema democrático de três formas críticas:
  1. Destruição da confiança nas instituições: o jornalismo de investigação e o conhecimento científico perdem sustentabilidade e alcance diante da enxurrada de lixo digital.
  2. Normalização do discurso de ódio: a validação algorítmica do conteúdo ruidoso desloca o limite do aceitável (Janela de Overton), dando centralidade a ideias anteriormente remetidas à margem do espectro político.
  3. Incapacidade de governação plural: uma cidadania submetida a fluxos constantes de medo perde a capacidade de ponderar escolhas políticas, transformando o debate democrático numa guerra cultural permanente.
Conclusão: da matéria-prima à soberania democrática
A crise das redes sociais não é um desvio de percurso ou uma falha acidental da tecnologia: é o resultado lógico de um modelo comercial que mercantiliza a psique humana. Ao transformar a atenção em moeda e a raiva em dividendo, os algoritmos revelaram-se eficientes desestabilizadores da ordem democrática. Reconhecer que a tecnologia oferece o terreno, mas que os atores políticos instrumentalizam ativamente a infraestrutura, é o primeiro passo para compreender que a defesa da democracia no século XXI passa obrigatoriamente pela regulação rigorosa, transparência algorítmica e limitação do modelo de negócio baseado na vigilância e na polarização. Sem a recuperação de um espaço público guiado pela verdade factual e pela utilidade real, a soberania popular continuará refém de uma arquitetura otimizada para a distração em massa e o lucro.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Mulheres conservadoras em Portugal: o contraponto ao legado de Maria de Lourdes Pintasilgo

Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas  por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.

Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.

Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.

Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.

É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.

O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.

Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.

Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.

Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Existe uma relação direta entre ecossistemas da machosfera e o movimento antivacina

Existe uma relação direta e documentada entre os ecossistemas da machosfera e o movimento antivacinas, uma convergência que é ilustrada na perfeição pelo conteúdo da imagem associado a Andrew Tate. Esta ligação assenta sobretudo na partilha de uma visão do mundo profundamente cética em relação às instituições estabelecidas e numa narrativa de resistência individual.

O principal ponto de contacto entre estas duas subculturas é a rejeição do que apelidam de "sistema" ou a Matrix. Tanto os grupos da machosfera como os ativistas antivacinas partilham a premissa de que os governos, os meios de comunicação social e a comunidade científica manipulam a população para manter o controlo. A metáfora da red pill - a ideia de tomar a pílula vermelha para "despertar" para a verdade oculta - é amplamente utilizada em ambos os universos, criando um terreno fértil para que teorias da conspiração sobre a saúde pública encontrem adesão junto de audiências que já desconfiam das narrativas oficiais.

Além disso, a cultura do fitness, da masculinidade dita "Alfa" e do biohacking, muito presente na machosfera, promove uma obsessão pela pureza biológica e pela autonomia física. Neste contexto, as vacinas são frequentemente retratadas como intervenções externas desnecessárias ou até prejudiciais à virilidade, à fertilidade e aos níveis naturais de testosterona. O cumprimento de orientações sanitárias ou a aceitação de vacinas é por vezes associado a traços de passividade, fraqueza ou submissão, enquanto a recusa é vendida como um ato de força, independência e rebeldia masculina.

Por fim, os próprios algoritmos das plataformas digitais facilitam esta sobreposição. Um utilizador que consome conteúdos sobre masculinidade tradicional ou conselhos de sedução é frequentemente direcionado para círculos de desinformação médica, teorias conspiratórias e políticas de extrema-direita.

Figuras influentes deste meio aproveitam estes tópicos fraturantes para gerar controvérsia, aumentar o envolvimento nas redes sociais e reforçar a sua imagem de líderes destemidos que desafiam o consenso geral.

Who is Andrew Tate?

Referências Bibliográficas
Ler mais:

terça-feira, 28 de julho de 2026

Nove em cada dez europeus ponderam emigrar: estes são os destinos preferidos

Como já tinha referido aqui, há uma mudança global nos passaportes e destinos.

Quase metade das pessoas que vivem em França, Alemanha, Itália e no Reino Unido espera vir a viver noutro país algures no futuro, revela um novo inquérito.

Realizado para a seguradora digital Feather, o estudo mostra que a crise do custo de vida é o principal motivo que leva as pessoas a ponderar uma vida no estrangeiro, apontado por 53% dos britânicos, 48% dos franceses, 43% dos alemães e 32% dos italianos.

Apenas um em cada dez europeus em cada um dos mercados analisados – com 500 adultos inquiridos em cada país – afirmou que, em caso algum, se mudaria para o estrangeiro.

Embora o destino preferido varie de país para país, Espanha surge como a escolha destacada.

Tanto britânicos como italianos identificam Espanha como a opção de eleição, com 24% e 20% a indicar o país, respetivamente, enquanto este ocupa o segundo lugar em França e Itália, com 16% e 12% a sugeri-lo como principal opção.

No caso de França, o destino número um é o Canadá, mencionado por 17% como um lugar onde gostariam de viver no futuro, à frente de Itália, assinalada por 14% dos inquiridos.

Os alemães não parecem querer afastar-se muito de casa: 17% escolhem a Áustria, seguida de Espanha e Suíça, ambas com 12%.

Já os britânicos mostram-se bastante disponíveis para mudar para destinos longínquos, com 19% a escolher a Austrália, 15% o Canadá e 10% a Nova Zelândia.

Embora o Dubai seja frequentemente referido como um dos principais destinos para expatriados, apenas 3% dos britânicos disseram estar a ponderar essa opção. Ainda assim, o inquérito foi realizado no final de junho, pelo que as respostas terão sido inevitavelmente influenciadas pelos ataques do Irão contra os Emirados Árabes Unidos nos últimos meses.

Ascensão dos ‘semi-pats’
Ao analisar o futuro dos expatriados, a Feather falou também com a especialista em viagens Holly Rubenstein.

A autora do podcast “The Travel Diaries” nota que a versão tradicional da vida de expatriado, em que se escolhe um único país e aí se constrói toda a vida, está a perder terreno.

“A versão que está a emergir é muito mais flexível: passar seis meses num lugar, trabalhar remotamente, experimentar um estilo de vida e criar ligações em vários sítios”, sublinha.

“A geração Alpha vai crescer com a ligação remota como norma. Para estas pessoas, carreira, amizades e identidade já não terão de estar concentradas num único lugar.”

domingo, 26 de julho de 2026

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

domingo, 19 de julho de 2026

A tecnocratização do erro: como o Marketing Político substituiu a resolução de problemas

Esta semana foi pródiga em sobressaltos sociopolíticos que nos impõem uma reflexão e ponderação, antes de irmos a banhos. A 'guerra da água' em Almada, o caos logístico nos exames motivado pelo outsourcing na Educação e o caso Luís Neves expuseram a erosão da legitimidade política pela perda de confiança, a tecnocratização do erro (transformar falhas políticas em meros 'problemas de comunicação') e a crise de credibilidade institucional.

No horizonte, desenha-se já o caminho para a destruição do Serviço Nacional de Saúde e, provavelmente, da Segurança Social.

Em todos os casos, o padrão repete-se: o erro estrutural é sistematicamente reduzido a um problema de comunicação, esvaziando o princípio da responsabilidade política e transformando a governação num permanente spin-off, onde a gestão da imagem pública substitui a resolução dos problemas reais.

A análise contemporânea da crise cívica
Este divórcio entre quem governa e quem é governado não constitui um exclusivo da nossa contemporaneidade, mas adquiriu uma sofisticação técnica sem precedentes históricos. Em 1973, quando Jürgen Habermas publicou Crise de Legitimidade, o pensamento político ocidental foi alertado para o facto de o Estado moderno ter assumido uma hipertrofia de responsabilidades administrativas que fatalmente ditaria a sua vulnerabilidade. Ao centralizar e tutelar a gestão direta de pilares como a instrução pública ou a segurança precípua, o poder político inevitavelmente politizou o quotidiano da sociedade civil. O reverso desta dinâmica apresenta-se de forma severa: sempre que as estruturas e as respostas falham na sua execução factual, a responsabilidade cai diretamente sobre a cúpula governativa, e não sobre a imprevisibilidade do sistema. Para mitigar esta fragilidade estrutural, as elites políticas contemporâneas ergueram uma barreira assente na tecnocratização e na gestão permanente da imagem mediática. Quando um modelo de avaliação escolar colapsa ou o percurso ético de um governante é fustigado por inconsistências, a máquina estatal reage através da redução do erro a um mero incidente técnico, a uma contingência organizacional ou a um problema de comunicação reativa. Esta degradação da substância democrática em favor do espetáculo - fenómeno que Bernard Manin teorizou como a Democracia de Público - esvazia o escrutínio factual e promove o isolamento cívico, induzindo o cidadão a uma retirada cínica para a esfera privada do consumo.

Esta alienação institucional acarreta profundas sequelas morais e psicológicas na comunidade. Axel Honneth, na sua obra fundacional Luta por Reconhecimento (1992), demonstrou que o motor da coesão social não reside unicamente em vetores económicos, mas sim na necessidade inalienável de validação da dignidade humana. Sempre que a governação mascara a incompetência estrutural através de artifícios de retórica ou de justificações burocráticas, desrespeita diretamente a inteligência do eleitorado e a sua condição de sujeito de direito. Ao permitir-se a degradação da escola pública ou do sistema de saúde, envia-se uma mensagem implícita de desvalorização aos profissionais essenciais e às famílias, destruindo a premissa da casa comum. É nesta exata rutura de expectativas que a cientista política Catherine de Vries ancora o seu diagnóstico contemporâneo em "Political Entrepreneurs: The Rise of Challenger Parties in Europe" (2020). Recorrendo a dados empíricos, De Vries comprova que o cidadão atual ultrapassou a mera apatia; manifesta, sim, uma postura desafiante e reativa contra a ineficácia governativa. Quando se constata que as infraestruturas básicas falham sistematicamente enquanto as lideranças investem em dispendiosas estratégias de marketing de crise, fratura-se irremediavelmente o contrato de fidelidade aos partidos tradicionais. O populismo radical não cria a indignação; limita-se a recolher e a instrumentalizar os estilhaços dessa humilhação social, oferecendo simulacros de pertença e identidades exclusórias a uma população deliberadamente desprovida de voz pela arrogância tecnocrática.

Propostas de resolução e caminhos
A reversão deste diagnóstico e a consequente preservação das instituições democráticas requerem reformas profundas que transcendem o voluntarismo eleitoral ou a mera cosmética da mensagem oficial. A prioridade fundamental reside no desenvolvimento de uma autodefesa intelectual coletiva, pautada pela recusa inequívoca do jargão tecnocrático como justificação para falhas éticas ou políticas. Na ótica habermasiana, urge resgatar o agir comunicativo através da revitalização do espaço público informal, o que se traduz na necessidade imperiosa de reconstruir a comunidade a partir das suas bases, ocupando e dinamizando microespaços de debate real e deliberação local, onde o descontentamento atomizado possa ser articulado como exigência cívica organizada.

No plano das estruturas do Estado, o pensamento de Honneth impõe a necessidade imperiosa de desmercantilizar os serviços sociais basilares. A blindagem da saúde, da habitação e da educação face à lógica mercantil do custo-benefício constitui a única via para devolver a estes setores o seu papel primordial de espaços de igualdade absoluta e de cidadania partilhada, o que exige, concomitantemente, uma justa dignificação material e estima pública pelas carreiras que asseguram a reprodução da vida social. Finalmente, o desenho prático desta transição beneficia das propostas de Catherine de Vries no que concerne à descentralização efetiva do poder e à urgência de novos paradigmas de prestação de contas. Torna-se indispensável a implementação de mecanismos diretos e independentes de monitorização e auditoria da ação governativa por parte da sociedade civil. A convergência entre o revigoramento da participação comunitária, a restauração da dignidade social e o desenho de uma transparência institucional implacável desenha a única rota viável para resgatar a legitimidade democrática e neutralizar o avanço das soluções populistas.

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sábado, 18 de julho de 2026

O reflexo de uma geração cobaia: a vida sob o império do algoritmo


O documentário The Guinea Pig Generation: Born Into the Algorithm propõe uma reflexão profunda e, por vezes, inquietante sobre a primeira geração da história que cresceu com um ecrã na mão e um algoritmo a ditar-lhe os passos. O cerne da obra reside na premissa de que os jovens nascidos na viragem do milénio funcionaram, sem o saberem, como cobaias humanas de uma gigantesca experiência sociológica e psicológica gerida pelas grandes empresas de Silicon Valley. Ao analisar o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na saúde mental, na socialização e na perceção da realidade, o documentário expõe como estes jovens foram moldados por mecanismos concebidos para viciar, monetizar a atenção e polarizar o discurso público.

A narrativa sustenta-se através de um painel diversificado de entrevistados, que equilibra a perspetiva científica com os testemunhos na primeira pessoa. Entre as principais vozes contam-se psicólogos clínicos especializados em desenvolvimento juvenil, neurocientistas que explicam como os fluxos constantes de dopamina das notificações reconfiguram o cérebro adolescente, e ex-engenheiros e ex-designers das principais plataformas tecnológicas. Estes últimos assumem o papel de arrependidos, revelando os bastidores dos mecanismos de "scroll" infinito e as métricas de validação social que criaram. A par destes especialistas, o documentário dá voz aos próprios jovens da Geração Z - influenciadores digitais, ativistas e estudantes -, que partilham relatos francos sobre a ansiedade de performance, a dismorfia corporal alimentada por filtros e a sensação generalizada de solidão num mundo hiperconectado.

O funcionamento do algoritmo assenta num mecanismo invisível de radicalização que ajuda a explicar como um jovem perfeitamente integrado no mundo real, com uma vida social saudável e uma relação estável, pode adotar posturas políticas extremadas nas redes sociais. Este processo, que afeta profundamente a Geração Z em plataformas como o YouTube, o TikTok, o X ou o Discord, começa com o que a ciência chama de caça à atenção. O objetivo primordial destas tecnologias é manter o utilizador colado ao ecrã pelo maior tempo possível. Como os conteúdos equilibrados, moderados ou puramente históricos tendem a gerar menos retenção, os algoritmos priorizam publicações que despertem emoções fortes, como a indignação, o medo, a polémica ou o orgulho identitário, que disparam imediatamente os níveis de atenção e interação.

É a partir daqui que se ativa o funil de recomendação. Um jovem pode iniciar a sua navegação a ver conteúdos totalmente inofensivos sobre musculação, videojogos, humor ou análises simples à situação económica atual. Contudo, ao detetar esse interesse inicial, o sistema começa a sugerir, de forma gradual e impercetível, conteúdos progressivamente mais intensos dentro daquela esfera. No espaço de poucos meses, o feed de publicações afunila de tal maneira que passa a exibir quase exclusivamente canais de cariz nacionalista e de extrema-direita, fechando o utilizador numa bolha de filtragem isolada do resto do mundo.

O culminar deste processo é a ilusão de consenso. Uma vez preso nesta bolha digital, a totalidade das informações, vídeos e comentários que surgem no ecrã do jovem passa a validar e a reforçar essa visão específica do mundo. Para quem consome este fluxo contínuo, aquela bolha transforma-se na realidade nua e crua, gerando a forte convicção de que os factos ali apresentados constituem uma verdade oculta que a comunicação social tradicional, as escolas ou os próprios pais tentam deliberadamente esconder.
As ideologias nacionalistas e de extrema-direita oferecem algo muito sedutor para esta geração digital: respostas simples para problemas complexos, um sentido de pertença e certezas absolutas. Enquanto a realidade é cinzenta e cheia de nuances, o algoritmo vende uma narrativa de "nós contra eles", de orgulho e de proteção de uma identidade.

Para compreender o alcance desta obra, é fundamental definir quem é, afinal, a Geração Z. Geralmente compreendida como o grupo demográfico de indivíduos nascidos entre meados dos anos 90 e o início da década de 2010 (mais especificamente entre 1997 e 2012) esta é a primeira geração puramente nativa digital. Ao contrário dos Millennials, que ainda se lembram do mundo analógico e da transição para a internet, a Geração Z não conhece uma realidade sem Wi-Fi, smartphones ou redes sociais. Caracterizam-se por uma fluidez cultural notável, uma forte consciência social e ambiental, e uma capacidade inata de processar grandes volumes de informação visual em simultâneo. Contudo, esta mesma hiperconexão tornou-os estatisticamente mais propensos a crises de ansiedade, depressão e isolamento social, sendo os primeiros a herdar os efeitos secundários de uma infância mediada por algoritmos de recomendação que lucram com o tempo que passam agarrados ao ecrã. O documentário acaba por ser um espelho desta dualidade: o retrato de uma geração que possui o mundo na ponta dos dedos, mas que luta diariamente para não se perder no labirinto digital que lhe foi imposto.

Influenciadores digitais ecológicos (ou também chamados eco-influencers ou greenfluencers)
Em Portugal: figuras como a Catarina Barreiros (fundadora do projeto Do Zero, uma das vozes mais ouvidas e respeitadas na sustentabilidade em Portugal), Isabel Barros ou projetos partilhados como as Verdes Marias, mostram como é possível acumular dezenas de milhares de seguidores a falar exclusivamente de ecologia, escolhas conscientes e educação ambiental.  
A nível internacional: figuras pioneiras como Lauren Singer (do famoso blogue Trash is for Tossers, conhecida por colocar anos de lixo doméstico dentro de um único frasco de vidro) movimentam comunidades de centenas de milhares de pessoas globalmente.  

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Palestra
Algoritmos: potencial extraordinário ou risco existencial?

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Desinformação climática evolui: da inteligência artificial ao 'greenlash'


Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.

Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.

“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”

“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.

Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.

Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.

Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.

Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.

Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.

Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.

Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.

“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”

Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.

As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.

Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.

Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Meta-análise global revela os países menos racistas do mundo em 2026


Analisar a informação aqui
O racismo é a crença de que uma determinada raça é inferior ou superior a outra e de que as características biológicas de uma pessoa predeterminam os seus traços morais ou sociais. Quem perfilha crenças racistas pode encarar outras raças como menos dignas e, em casos extremos, até como subumanas. O racismo pode assumir muitas formas diferentes e manifestar-se de variadas maneiras, sendo tipicamente influenciado por diversos fatores culturais, religiosos, económicos ou históricos.

Ao longo da história da humanidade, o racismo sempre esteve presente, tendo influenciado guerras, a escravatura, códigos jurídicos, a ascensão e queda de nações e, talvez mais importante, o quotidiano de milhões — ou possivelmente milhares de milhões — de pessoas. O racismo demonstrado pelas potências ocidentais face a populações não ocidentais no século XX teve um impacto particularmente profundo na história, de forma mais notória na escravatura forçada de milhões de africanos. Nos Estados Unidos, a escravatura foi a principal causa da Guerra Civil. Além disso, o racismo continua a ecoar nos EUA modernos em eventos como o crescimento do movimento Black Lives Matter e os protestos de 2020-21 na sequência dos homicídios de George Floyd e Breonna Taylor.

Medir a tolerância racial de um país com precisão é um verdadeiro desafio. O racismo não é um número simples, como a população ou o rendimento médio; reveste-se de muitas formas, sendo perfeitamente possível que uma pessoa, grupo social, cultura ou país conviva pacificamente com uma raça ou situação, mas seja completamente intolerante em relação a outra. Por exemplo, uma pessoa de etnia caucasiana que não tenha qualquer problema em viver ao lado de um vizinho asiático pode opor-se firmemente a que uma pessoa negra se junte à sua família pelo casamento. Do mesmo modo, como a maioria dos respondentes em inquéritos tem consciência de que o racismo não é propriamente visto com bons olhos na sociedade atual, a veracidade e a honestidade das respostas podem ser difíceis de verificar. Devido a estas complicações, os investigadores recorrem habitualmente a sondagens para recolher informação sobre a consciência pública, combinando depois múltiplas perguntas, inquéritos ou estudos para determinar o verdadeiro nível de tolerância racial de um país.

O World Values Survey (WVS) é um programa de investigação internacional que estuda os valores sociais, políticos, económicos, religiosos e culturais, incluindo a tolerância racial e o racismo. Este inquérito coloca dezenas de perguntas a respondentes de mais de 80 países, incluindo uma que solicita a identificação de tipos de pessoas que não desejariam ter como vizinhos. Quanto maior for o número de pessoas de um determinado país a responder que ficaria satisfeita por ter um vizinho de uma raça diferente, mais tolerante do ponto de vista racial é considerado esse país. Já o relatório anual Best Countries, um esforço conjunto da U.S. News and World Report, do BAV Group e da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, adicionou perguntas específicas sobre tolerância racial ao seu relatório de 2023 que, tal como o de 2024, inquiriu mais de 17.000 pessoas em 36 países.

De uma forma geral, os países mais tolerantes em ambos os estudos foram os países escandinavos, os países latinos, o Reino Unido e as suas antigas colónias (Austrália, Canadá e Nova Zelândia). Em contrapartida, os países menos tolerantes do ponto de vista racial (Catar, Sérvia, Arábia Saudita, Irão) tenderam a situar-se em África e na Ásia. Houve também exceções. Por exemplo, embora outras antigas colónias britânicas se tenham posicionado perto do topo da lista, os Estados Unidos ocuparam o 55.º lugar num total de 89 países em 2024, em grande parte devido àquilo que é frequentemente visto como racismo institucionalizado em áreas como o emprego, a educação e o sistema de justiça criminal. Por outro lado, o Paquistão apresenta vários fatores que costumam coincidir com a intolerância racial - tais como baixos índices económicos e humanos e uma violência sectária notória -, contudo, apenas 6,5% dos paquistaneses se opuseram a ter um vizinho de uma raça diferente.

Por fim, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD) é uma convenção das Nações Unidas comprometida com a erradicação da discriminação racial, exigindo que todas as partes signatárias proíbam o discurso de ódio e criminalizem a filiação em organizações racistas. 

Fontes

domingo, 5 de julho de 2026

Agora o partido Chega desmistifica o pós-verdade - normaliza a mentira que foi espalhada




Portugal é muito "suave" com estes cheganos. A filha do Jaime Nogueira Pinto consegue ser mais extrema-direita que o seu pai. E não sei o futuro, mas nada me parece ser optimista, para quem defende a esquerda e pensadores como Fourier, Owen e Saint Simon. Vejamos o caso da Alemanha. A Alemanha destaca-se internacionalmente por ter um dos ecossistemas de maior escrutínio, regulação e resistência institucional contra a desinformação, embora enfrente uma pressão sem precedentes de campanhas massivas da extrema-direita e de agentes externos, como redes de desinformação russas.
Esta forte resistência alemã baseia-se em três pilares principais. O primeiro é o rigor legislativo, onde o país foi pioneiro global com a lei NetzDG, que obriga as redes sociais a remover discursos de ódio e notícias falsas criminosas em até 24 horas sob pena de multas multimilionárias, servindo de base para a atual Lei dos Serviços Digitais da União Europeia. O segundo pilar é a comunicação social pública forte e confiável, mantendo um sistema de radiodifusão altamente robusto, financiado pelos cidadãos e protegido de interferências governamentais, o que garante níveis de confiança consistentemente elevados na população. O terceiro pilar assenta numa sociedade civil ativa e em consórcios de verificação de factos, com coletivos independentes como o Correctiv a gerar impactos históricos ao expor esquemas e reuniões secretas da extrema-direita, mobilizando milhões de cidadãos em protestos de rua em defesa da democracia.
Apesar deste forte escrutínio, a extrema-direita tem conseguido contornar os filtros tradicionais através de estratégias digitais altamente sofisticadas. O partido Alternative für Deutschland e os seus influenciadores dominam redes visuais como o TikTok, superando largamente os partidos tradicionais no alcance orgânico junto do eleitorado mais jovem através de vídeos curtos que misturam sátira, pânico moral e desinformação. A esta estratégia soma-se o uso intensivo de inteligência artificial para a criação de deepfakes e a estreita ligação com campanhas de influência russas, como a rede Doppelgänger, focadas em polarizar debates sobre imigração e geopolítica. Assim, embora o escrutínio e a reação da sociedade alemã sejam rigorosos, a velocidade e a sofisticação tecnológica destas ofensivas continuam a testar os limites das defesas democráticas do país.

O video foi extraído do Programa Ás Avessas de 30 de Maio. Ver aqui o debate completo.

sábado, 4 de julho de 2026

Criminalidade. Revisão da população mostra país ainda mais seguro

A taxa de criminalidade foi revista em baixa nos últimos anos, na sequência das alterações do INE. O país vive um dos períodos com menor incidência da criminalidade em quase trinta anos. Este artigo integra a rubrica Visão Periférica.
4 Julho 2026, 11h00

Muita tinta já correu na sequência da disrupção estatística provocada pela revisão populacional do INE. Mas não ficará por aqui. Esperam-se outras repercussões nos próximos tempos, tendo em conta que estão a ser revisitados vários indicadores que dependem da população, como a riqueza anual por habitante ou dados relativos ao emprego e à saúde. Um deles - a taxa de criminalidade - já foi atualizado esta semana pelo INE, mas passou despercebido.

Os novos dados mostram que houve 32 crimes por cada mil habitantes em 2025, uma subida face a 2024 (31,2), mas abaixo de 2023 (33,2). Estes últimos dois valores (tal como os dos dois anos anteriores) são já reflexo da revisão do INE — antes, estavam em causa mais dois crimes por mil habitantes (33 e 35, respetivamente, segundo as contas do Jornal Económico).

Isto significa que a taxa de criminalidade do ano passado é a quinta mais baixa desde 1998. E a taxa de 2024 passa a ser a terceira. Nesta comparação, estão incluídos os anos de 2020 (28,7 crimes) e 2021 (28,4) - períodos em que houve confinamentos e, por arrasto, menos oportunidades para várias tipologias de crime. Dito de outro modo, se não contássemos com este período de excepção, o valor de 2024 teria sido o mais baixo em pelo menos 28 anos. E a taxa de 2025 seria a terceira mais baixa.

Convém notar que a incidência da criminalidade em Portugal, nos últimos anos, já se encontrava em níveis reduzidos quando comparada com outros períodos da história recente. Mesmo antes desta revisão, o pico de 2023 era inferior a qualquer taxa entre 1999 e 2013.

Os valores mais elevados foram registados entre 2008 e 2010 (na casa dos 40 crimes), período que coincide com a crise financeira global. Nos anos seguintes, durante a Troika, houve uma progressiva redução, com quatro descidas consecutivas a partir de 2011 (até atingir 33,8 em 2014), num contexto de queda da população (menos 163 mil pessoas em quatro anos). E depois estabilizou: em seis dos últimos oito anos (com exceção do período da pandemia), andou sempre entre 31 e 32 crimes por mil habitantes.


Claro que nem todos os crimes são iguais, mas a análise por categoria não altera as conclusões. Nos crimes contra a integridade física, a taxa de criminalidade está em 5 por 1.000 habitantes, o valor mais baixo desde pelo menos 2011. O mesmo se aplica aos furtos de veículo e em veículo motorizado (2,4) e aos furtos e roubos por esticão e na via pública (0,6) — neste caso, ao mesmo nível do período 2021-2023. Os crimes contra o património (16,2) só não são o valor mais reduzido porque na pandemia houve menos (de 2020 a 2022 oscilou entre 14 e 15 por mil habitantes).

As duas únicas categorias em que a taxa de criminalidade não está em níveis historicamente baixos dizem respeito ao comportamento na estrada: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l é de 2 por cada mil (tinha sido inferior entre 2017 e 2021 e em 2024) e a condução sem habilitação (1,3), que supera nove dos últimos 15 anos.

Os imigrantes
Comparando com os dados imediatamente anteriores à pandemia, houve um aumento de 9% na criminalidade registada entre 2019 e 2025: mais 30 mil, para um total de 365 mil crimes, segundo as contas do JE, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado no final de março. Só que, sabemos agora, este aumento ocorreu enquanto a população crescia 10,1%, cerca de um milhão de pessoas desde 2019, sobretudo imigrantes.

Numa altura em que os cidadãos estrangeiros representam 14% da população, a incidência da criminalidade é uma das mais baixas em quase três décadas, comparando bem com o pré-pandemia (32,3 crimes por mil habitantes em 2019) e com o registo de há uma década (os mesmos 32 crimes em 2016). Nesses anos, porém, os cidadãos estrangeiros representavam apenas entre 3% e 4% dos residentes. Ou seja, o peso dos imigrantes duplicou no país, mas os níveis de criminalidade mantiveram-se estáveis em relação à população, contrariando as narrativas populistas.