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terça-feira, 10 de junho de 2025

Alcindo Bernardo Monteiro - a noite em Portugal matou um dos seus

Há datas que um país carrega como cicatrizes. O 10 de junho é, em Portugal, o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas — celebração da língua, da cultura, da herança que os portugueses espalharam pelo mundo durante séculos de navegação e de encontro com outros povos. É também, desde 1995, a data em que um grupo de skinheads decidiu sair às ruas de Lisboa para matar negros. E matou.
Alcindo Bernardo Monteiro nasceu a 1 de outubro de 1967, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A família emigrou para o Barreiro em 1978, quando Alcindo tinha onze anos, numa altura em que Cabo Verde já era independente. Alcindo voltaria a ter bilhete de identidade português em 1991. Era um homem simples, de vida ordenada. Trabalhava numa oficina de mecânica automóvel e nos tempos livres gostava de cuidar dos seus periquitos, cozinhar e dançar. Era um cidadão português. Na noite de 10 de junho de 1995, tinha 27 anos e queria apenas divertir-se.
Não chegou a fazê-lo.
Dias antes do crime, corria nos meios frequentados por skinheads a informação de que estava a ser organizado um jantar de comemoração do feriado de 10 de junho. Em particular no bar Ramis, em Almada, um viveiro de cabeças rapadas. Miguel Temporão, líder do núcleo de skinheads de Lisboa, ficou encarregado de fazer os convites. Chamavam-lhe o "dia da Raça", para assim afirmarem a sua ligação umbilical ao fascismo salazarista.
O que se seguiu pertence àquele território estreito e insuportável onde a barbárie humana não cabe em palavras, mas tem de ser dita à mesma. Um grupo de dezenas de skinheads desceu as ruas do Bairro Alto com um único propósito: espancar pessoas negras. Alcindo foi encurralado, derrubado, espancado com botas de biqueira de aço e soqueiras. Em coma profundo, foi encontrado na Rua Garrett, perto do local onde hoje ficam os Armazéns do Chiado. O óbito seria declarado às 10h30 da manhã de 12 de junho. O relatório médico registava: hemorragias sub-pleurais, edema pulmonar, graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas, fractura da calote craniana.
Um homem morreu porque tinha a pele escura. Morreu no Dia de Portugal.
Doze vítimas foram socorridas no Hospital de S. José. Alcindo, dado o estado de extrema gravidade, foi internado. A notícia chegou às primeiras páginas dos jornais ainda antes da morte ser confirmada. O país ficou em choque — ou fez de conta que ficou. Porque o choque, em Portugal, tende a durar o tempo de um ciclo de notícias, e depois a vida volta ao ritmo costumeiro do mito de um povo naturalmente tolerante e acolhedor.
Esse mito tem nome. Chama-se lusotropicalismo. Na primeira metade do século XX, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre desenvolveu uma teoria sobre a relação de Portugal com os trópicos, defendendo que o processo colonial português se distinguia pela empatia e proximidade com os povos colonizados. Durante os anos cinquenta e sessenta, essa doutrina foi politicamente apropriada pelo Estado Novo para justificar a presença colonial portuguesa em África perante a comunidade internacional.
Ficou como herança mental.
A ideia de que os portugueses não são racistas porque "sempre se misturaram", porque "navegaram o mundo", porque têm essa capacidade inata e generosa de acolher o outro.
Em Portugal, uma grande parte da população — incluindo parte da classe política — continua a ver o racismo como algo de alheio, de estrangeiro, de outro. Alcindo Monteiro foi morto dentro dessa ilusão confortável.
No julgamento que se seguiu, os acórdãos registaram a completa ausência de arrependimento dos envolvidos. Em 2002, Hugo Silva foi condenado a 18 anos de prisão. Os restantes receberam penas variadas. Todos acabariam por sair em liberdade.
A mãe, Francisca Monteiro, e as irmãs de Alcindo continuam a ir ao cemitério de Vila Chã, no Barreiro, falar com ele. Quando o realizador Miguel Dores contactou a irmã Luísa, ela ouviu o silêncio do outro lado do telefone e disse apenas: "já sei do que vens falar. Nunca acaba."
Nunca acaba.
Em 2021, o antropólogo e realizador Miguel Dores, então a concluir um mestrado em Antropologia Visual na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, apresentou o documentário "Alcindo" no DocLisboa. A sessão esgotou o Cinema São Jorge. A família estava presente. O público aplaudiu de pé. O documentário é inteligente na sua abordagem, metódico — explorando as implicações que o Estado Novo e a sua herança têm nos valores coletivos que orientam o povo português. O filme ganhou o "Prémio do Público". No ano seguinte, na semana do 10 de junho, foi exibido em São Vicente, Cabo Verde — no Centro Cultural do Mindelo, na Universidade de Cabo Verde e ao ar livre, no bairro da família Monteiro.
O Estado português nunca assumiu uma memória oficial sobre este caso. Em 2019, as comemorações do Dia de Portugal realizaram-se em Cabo Verde e o nome de Alcindo Monteiro nem sequer foi referido. Em 2020, vinte e cinco anos depois, a Câmara de Lisboa inaugurou uma placa na Rua Garrett, onde o jovem foi assassinado. Tarde. Como quase sempre.
Dois dos condenados pelo assassínio de Alcindo voltariam a ser julgados décadas mais tarde. O processo Hells Angels — uma investigação de grande envergadura da Polícia Judiciária que desmantelou uma rede de violência organizada com ligações à extrema-direita portuguesa, aos neonazis e ao gangue de motards — revelou que o ódio que matou Alcindo nunca tinha deixado de existir: apenas mudara de farda. Tiago Palma e Nuno Monteiro, dois dos condenados pelo homicídio de 1995, foram condenados a 13 anos e meio de prisão por novas agressões brutais e tentativas de homicídio. O ódio não prescreve. Nem se reabilita.
O 10 de junho celebra Camões, os Lusíadas, a língua que atravessou oceanos. Celebra a ideia de um Portugal que se estendeu pelo mundo. Mas o mundo também veio ter com Portugal — em barcos de emigrantes, em famílias que fugiram da miséria ou da violência, em homens e mulheres que ajudaram a construir este país com o trabalho das suas mãos. Alcindo Monteiro era um deles. Era português. E foi assassinado no dia em que Portugal celebra ser Portugal.
Essa contradição não é acidental. É o retrato mais honesto de quem somos — e do que ainda precisamos de deixar de ser.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Entrevista: entenda por que não existem raças humanas

Avanços na genética mostraram que não faz sentido falar de “raças”, já que os seres humanos compartilham 99,9% do DNA. 




Por Iael de Souza[1]

Enquanto indivíduos que fazem parte de uma sociabilidade (totalidade social), querendo ou não, somos obrigados a tomar posição perante as situações concretas vividas, ainda mais quando se é um(a) educador(a), caso da autora. Tal posicionamento reflete a determinação de classe, tenha-se ciência disso ou não. Algo a ser ressalvado. No entanto, importante alertar que um contingente significativo de indivíduos está preso a uma falsa consciência (às aparências, às sombras, como no Mito da Caverna, de Platão), às ilusões acerca da realidade, incapazes de apreender a concretude de suas próprias condições materiais de existência, acreditando fazer parte de uma classe e segmento social ao qual, em essência, não pertence.

Além de educadora, para garantir minha reprodução dependo da venda da força de trabalho (assalariamento). Logo, faço parte daqueles que são explorados, dominados e sofrem diferentes tipos de opressão, assim como ocorre com toda a classe trabalhadora, embora haja diferenciações na intensidade e nas formas de exploração, dominações e opressões devido ao lugar ocupado na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho, além de outras particularidades relacionadas à sexo, sexualidade, cor, “raça”, “etnia”.

Descrevo-me, portanto, como trabalhadora assalariada, membro da classe que vive da venda de sua força de trabalho (física e mental) como condição de reprodução e manutenção; explorada, dominada e oprimida pelo sistema capital e suas personas; heterossexual/cisgénero, branca; consciente de que faço parte da classe trabalhadora (independente do lugar que ocupo na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho e da remuneração obtida) e que como classe da perspectiva do trabalho tenho como tarefa revolucionária primordial contribuir na agitação, propaganda e organização da classe trabalhadora e das camadas populares para reabsorver e reassumir o poder político-social a fim de superar o modo de produção capitalista, o Estado, a propriedade privada, o valor de troca, a sociabilidade de mercado e as classes sociais (exploração, dominação e opressão de seres humanos por seres humanos), construindo e fundando um novo modo de vida e sociabilidade.

Na construção dessa organização, é preciso enfrentar as questões do nosso tempo, que repõem e atualizam aquelas que tiveram continuidade no processo histórico-social e tornam ainda mais complexa e hercúlea a organização da classe trabalhadora, cada vez mais metamorfa e metamorfoseada pelas reestruturações produtivas do sistema capital e estágios do modo de produção capitalista. É preciso enfrentar os problemas que minam a unidade e solidariedade dessa classe trabalhadora segmentada em setores, fragmentada pelas novas estratégias do capital e dividida pelas particularidades que a cega para enxergar aquilo que compõe sua universalidade e unidade comum.

O educador que se posiciona na perspectiva do trabalho e da classe trabalhadora não pode negligenciar os debates e questões candentes de seu tempo. No presente e atual conjuntura brasileira, em que discursos homofóbicos, misóginos, racistas, preconceituosos, de ódio são propagados por aquele que ocupa o cargo de presidente da República, incitando práticas de violências noticiadas pelos jornais – como o caso do menino Miguel, em Recife, morto por negligencia da patroa de diarista; o espancamento de Moise Mugenyi, na praia da Barra da Tijuca; o assassinato de Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT (Partido dos Trabalhadores) em Foz do Iguaçu, para citar alguns exemplos – mais do que nunca é preciso intervir através de análises e reflexões capazes de reconstruir as mediações (e não apenas interpretações, represetanções) da realidade, conectando a objetividade dos fatos à estrutura da totalidade social, expondo as determinações reflexivas entre particularidade e universalidade, a fim de que se possa apropriar do movimento e das contradições do real, apreendê-lo e intervir de modo o mais adequado e eficiente possível, contribuindo para a criação das condições objetivas e subjetivas para superá-lo.

Assim sendo, não é por ser branca que não posso e não irei me posicionar frente às práticas racistas, às várias formas de violências infringidas contra as pessoas por questões econômico-sociais, sexistas, de sexualidade e todas as outras formas de opressão possíveis e inimagináveis. Ao contrário, como lembra Angela Davis, “numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, independente da cor de nossas peles, pois, em última instância (frise-se), o aspecto econômico-social torna-se o fator predominante, sendo mesmo capaz de artificialmente produzir “branquiamentos [2]”, o que nos remete à sentença de Lucy Parsons:
“Há alguém tão estúpido”, perguntou Parsons em 1866, “a ponto de acreditar que essas afrontas têm […] se acumulado sobre o negro por ele ser negro?” “De forma alguma. É porque ele é pobre. É porque ele é dependente. Porque ele é mais pobre enquanto classe do que seu irmão branco nortista, escravo do salário” (DAVIS, 2016, p. 159).
Ser branco não significa ser a personificação encarnada do colonizador, já que a brancura do branco se define por sua classe (trabalhadora ou capitalista), condição de classe (hierarquicamente falando) e por sua origem geográfica (europeia ou não). “Lugar de fala”, como esclarece Guilherme Terreri/Rita Von Hunty (“Lugar de fala e a confusão que se faz” …, Tempero Drag, dezembro 2021), não é um dado proibitivo do discurso, mas sim um dado analítico, evidenciando de onde ele vem, e não aquele discurso que pode ou não ser dito. Nenhuma fala é neutra, carregando consigo classe, sexo, sexualidade, “raça”, cor, etc. É importante que ao ouvir alguém se pronunciando perguntemos “quem” está falando, de “qual lugar”, identificando as origens de quem fala. Também é necessário precisar se se fala a partir da episteme (teoria do conhecimento, conhecimento científico, partindo de um método de análise, reflexão e proposição), da sophia (vivência, experiência) ou da doxa (senso comum, crença, opinião). Se por “lugar de fala” é entendido que só fala quem viveu e experimentou, não há espaço para a episteme e se fica apenas na sophia alimentando a doxa, o que empobrece e prejudica a apreensão do problema em suas múltiplas determinações e concretude.

É por isso que mesmo sendo branca discorrerei sobre “raça” e “cor”, porque, ainda que não fale pela sophia, como educadora estarei embasada na episteme como forma de desconstruir a doxa historicamente fabricada, criando conceitos que até hoje guiam as pessoas em sua forma de pensar, agir e interagir com os outros, demonstrando que tal discussão não é apenas acadêmica, mas essencial para transformar nossas práticas (a mudança começa pela mudança daquele que vê), uma vez que a linguagem tende a preestruturar o pensar e o agir. O significado de uma palavra ou expressão “é o que ela faz, ou seja, o efeito que ela produz em seus ouvintes… Um nome pode determinar a natureza da resposta que lhe é dada em virtude das associações que o uso desse nome evoca” (Keith Baird, jovem especialista afro-americano do Conselho de Educação de Nova York. In: Revista Ebony 23, p. 46 a 54, novembro de 1967. Disponível em: Quilombohoje).

Embora seja a existência quem determina a consciência, na dialética entre o real (a prática social) e o pensamento abstrato, faz-se a apropriação do movimento contraditório da realidade pelo concreto pensado, que ao nomear o mundo, conceituando-o e categorizando-o, permite a intelecção de sua objetividade pelos sujeitos, que passam a comunica-lo para os demais, alterando e transformando o modo de pensar, ser e interagir das pessoas entre si e com o mundo. Logo, a existência, ponto de partida é desvendada no ponto de chegada pelo trabalho da reflexão crítica que busca retotalizar as mediações que perfazem as relações entre os objetos, apreendendo como se efetiva sua objetividade.

Uma outra forma de sociabilidade necessita de indivíduos que se norteiem por outros valores, criados em contraposição àquilo que é (o real), capacitando-os e criando as condições para que direcionem suas ações ao que deve ser.

Sobre “raça”…
Alguns autores relacionam o aparecimento da raça com a escravidão moderna (acumulação primitiva de capitais e sistema colonial). Entrementes, na Antiguidade Clássica, egípcios, sumérios, babilônios, assírios, hindus, persas, hebreus, cretenses, fenícios, gregos, macedônios e romanos tinham em comum o trabalho escravo. Uma das diferenças significativas entre o “escravismo patriarcal” (MAESTRI, 1994) da Antiguidade Clássica para o “escravismo moderno” da acumulação capitalista é que o primeiro não fazia distinção de cor ou fenotípica, como passa a ocorrer nas Américas e Antilhas com a escravidão colonial.

Consoante Peter Wade (2017, p. 49), o termo raça surge entre os séculos XIII e XVII no contexto europeu. Nesse período, fazia menção à religião, ao comportamento e ao meio ambiente, já que eram os critérios mais relevantes à época para conceituar a diversidade humana. Ainda segundo o autor, embora a etimologia da palavra seja incerta, há registro de seu uso no século XIV em Itália e Espanha, sendo empregada para discernir estirpe e linhagem de cavalos e vacas. O vocábulo só será utilizado na língua inglesa no século XVI.

Até o século XVIII o termo “raça” codificava um racismo religioso (judeus, muçulmanos e cristãos), de pureza/limpeza (exclusão de pessoas judias e muçulmanas) de sangue, cuja importância atinge seus píncaros no século XVII e pelas determinações do meio ambiente (determinismo geográfico), provocando alterações no biofísico. Uma noção de raça mais próxima ao que conhecemos se estabelece na segunda metade do século XVIII e se formaliza no decorrer do século XIX e início do XX.

A biologia e a antropologia serão as áreas da ciência da natureza que irão contribuir para a constituição da ideia de raça no século XIX, criando as condições para o desenvolvimento do “racismo científico” e do determinismo racial.

A partir desses fatos históricos é possível induzir (e não deduzir) que a distinção, superioridade/inferioridade, discriminação, preconceitos e a culminância desse processo com a estruturação de uma organização social (a sociabilidade capitalista, moderna) baseada na ideia de superioridade racial advém de tempos remotos, originado na dominação do ser humano por outro ser humano, quando aqueles que são vencidos nas guerras tornam-se escravos dos vencedores, ou no momento em que um ser humano é escravizado por outro devido à dívidas, ou então, ao perder os instrumentos e meios de produção, que passam a ser concentrados e centralizados por poucos, reduzindo o indivíduo a servo daqueles que detêm tais instrumentos e meios (servidão) ou vendedor de sua força de trabalho física e/ou mental (tornando-se mercadoria) em troca de salário para poder obter os meios necessários à sua própria reprodução enquanto força de trabalho.

Isso demonstra que as desigualdades entre os seres humanos aparecerem concomitante às condições (propriedade privada, vencedores e vencidos, endividados, etc.) que proporcionam a dominação, exploração e as variadas formas de opressão de uns sobre todos(as) os(as) outros(as). O fato dessa dominação, exploração e opressão tornar-se uma escravidão racializada e embasada na cor da pele e nos traços fenotípicos é historicamente determinada pelo processo de acumulação primitiva de capitais iniciada pelos países europeus e o avanço expansionista de sua dominação pela colonização dos demais continentes, colocando-se como referência e modelo de civilização e humanidade, um falso universal em relação a todas as particularidades, legitimando-as ou classificando-as como não pertencentes àquilo que se entende por “humano”.

Entrementes, toda a ideologia pseudocientífica das “raças” humanas é desvelada e se desfaz quando retomamos, historicamente, o modo como se deu o povoamento do que hoje conhecemos como os continentes do planeta Terra. (Re)descobre-se o que de fato une a todos os seres humanos, que é o gênero, o “homo”, o verdadeiro universal, e a grande ironia histórica de que o continente africano engendra, enquanto protoforma, nosso DNA, nossa ancestralidade e nosso género. Daí a importância de conhecer e se apropriar da história como condição para destruir as ideologias e ficções criadas por aqueles que dominam e produzem o conhecimento científico, que não é A teoria da Pangeia (era Paleozoica, cerca de 200 milhões de anos) e do povoamento da Terra é uma comprovação científica de que cada representante da espécie humana é membro do gênero humano. Os continentes estavam unidos num único bloco (pangeia). O movimento das placas tectônicas – milhões de milhares de anos (descoberta da década de 1960, pelo geólogo canadense John Tuzo Wilson, conhecida como Teoria da Tectônica de Placas) – contribuiu para a configuração continental atual. Os continentes e oceanos ficam sob esses blocos rochosos rígidos em movimento (Deriva Continental, teoria de Alfred Wegner, meteorologista alemão, de 1915). Descobriu-se que na primeira movimentação, a pangeia dividiu-se em duas partes: Laurásia (continentes que correspondem ao hemisfério norte) e Gondwana (continentes do hemisfério sul), porém, posteriormente, com as respectivas movimentações, há cerca de 65 milhões de anos esses dois blocos continentais começaram a se dividir e foram se separando, até formar a configuração atual dos continentes.

Do coração da África, a cerca de 1 milhão de anos, os grupos de Homo Habilis começam a explorar outros territórios, como a Ásia e a Europa, embora uma migração de proporção significativa tenha sido datada há 80 mil anos. Deve-se considerar que o processo de separação dos continentes foi lenta e gradual, sendo a distância entre eles, inicialmente, pequena, permitindo as migrações desses grupos de hominídeos por toda a terra. A datação desse povoamento da Terra pelos seres humanos é feita através dos fósseis encontrados nos diferentes continentes, além de semelhanças geológicas, climáticas, de biomas, etc.. Mais recentemente, com o avanço das ciências naturais, também foram dadas contribuições pela genética via decifração do DNA. Mediante a análise do estudo de três cientistas geneticistas – David Reich, Eske Willerslev e Mait Metspalu – foi possível inferir que uma grande migração, acontecida entre 80 mil e 50 mil anos, levou ao povoamento de todo o mundo.

Com base nesses dados é possível sentenciar que todo indivíduo, todo ser humano é única e universalmente membro do género humano (homo = género / sapiens = espécie), como também comprovam os estudos encomendados pela UNESCO a eminentes cientistas das ciências da natureza entre os anos 1950 e 1960 (pós II Guerra Mundial e a tragédia do nazismo alemão, pautado na pseudoteoria racial e na eugenia da raça ariana), donde se concluiu que “as diferenças entre os grupos humanos não são determinadas geneticamente e as evoluções sociais e culturais são independentes das constituições inatas” (CAMPOS. “Não existe raça, mas racismo”. Escola Brasileira de Psicanálise – EBP, s/d).

Reiterando os resultados obtidos pelos cientistas convocados pela UNESCO, em 1972, nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard, foram realizados testes genéticos e moleculares analisando proteínas no sangue de diferentes populações.

Os resultados não mostraram diferenças significativas do ponto de vista molecular para separar as raças humanas. Estudos subsequentes ajudaram a verificar que a sequência base (as unidades que compõem a informação genética) no DNA humano é 99,9% idêntica, o que esvaziou completamente o argumento de encontrar um parâmetro confiável para definir raças. Esses dados foram importantes para apoiar a igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso (BOVE. “Racismo: como a ciência desmantelou a teoria de que existem diferentes raças humanas”. BBC, 12 de julho de 2020).

É lícito ressalvar a parte final da sentença: “igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso”. Geneticamente, os seres humanos são a espécie mais uniforme do planeta. Como diz Lessa (1996, p. 91), apoiado em Lukács:

segunda-feira, 1 de julho de 2024

De volta à “raça”: usos da história e memória do colonialismo nas redes sociais

Sabemos — e melhor o sabe quem estuda estes temas de forma consistente e rigorosa — que as redes sociais são objectos estranhos, seja como espaços de interacção, seja (ainda mais) como objectos de estudo. Nem sempre é fácil descortinar o que é espontâneo. O que por vezes julgamos serem vários utilizadores diferentes é, afinal, um só e o mesmo. Mais difícil, ainda que não se tratem de dois mundos incomunicáveis, é complicado perceber como se articulam as redes sociais e as esferas da acção social e política, pois estas não se espelham rigorosamente nem, muito menos, podem aquelas ser pensadas como representativas das segundas.

Começo com este introito porque o exercício que aqui proponho está longe de poder revestir-se de qualquer autoridade científica. É uma impressão que resulta de um apanhado de interacções nas ditas redes, não validado por critérios igualmente científicos e carecendo de uma metodologia rigorosa. Mas beneficia de um acompanhamento mais ou menos regular a discussões nas redes sociais que versam sobre alguns destes temas, sobretudo em torno da história mais recente de Portugal e o seu passado ultramarino.

Há cerca de dois meses, num ensaio em que procurava ilustrar, parcial e episodicamente, como o Estado Novo lidou com a questão da discriminação racial de um ponto de vista administrativo e político — frequentemente não deixando sequer que na esfera pública fossem enunciados e caracterizados casos de racismo e discriminação racial que ocorriam em território nacional (então integrando diversos espaços geográficos) —, chamei a atenção para o que me parecia ser uma dinâmica relevante para o presente, mas entrelaçada em acontecimentos e processos que se situam no passado. No contexto das redes sociais e nos azimutes mais reaccionários da direita nacional, sugeri que se poderia estar a operar uma reconfiguração da relação que estes sectores estabelecem com as ideias tidas por tributárias do discurso oficial do Estado Novo. Referia-me, aqui, ao que se costuma caracterizar como “lusotropicalismo”, ou seja, o sucedâneo, em forma propagandística e de uso fácil e multifunções, da teoria cunhada por Gilberto Freyre. Esse sucedâneo traduzir-se-ia num conjunto de ideias-chave, assentes numa suposta excepcionalidade portuguesa, que faria dos portugueses particularmente avessos ao racismo, por obra e graça da deusa história, dados a uma sã convivialidade ecuménica que ignorava a diferença étnico-racial ou sócio-cultural.

Muitas coisas já foram ditas sobre o lusotropicalismo. Uma delas foi que poderá ter servido de freio ao alastrar de sentimentos, ou pelo menos declarações, explicitamente racistas no discurso político e público no Portugal democrático. Outra foi que esse mesmo sucedâneo serviu amiúde para obscurecer manifestações de discriminação racial que persistem no presente, desta forma impedindo que o racismo seja mais eficazmente combatido. A estas poder-se-ia acrescentar outras. Por exemplo, a de que o uso instrumental do lusotropicalismo pelo Estado Novo não se limitou a uma forma repetida e, na mesma medida tosca e directa, de propaganda. Manifestou-se de diversas formas, da estruturação dos currículos escolares ao controlo do aparelho mediático durante a ditadura. Traduziu-se também em recorrentes comparações entre realidades do império com as de outras sociedades, sobretudo aqueles casos que representavam formas mais óbvias, e denunciadas, de uma organização social e política estritamente racial, como na África do Sul ou na Rodésia. Falta, ainda hoje, perceber de que forma esta comparação não contribuiu para a cristalização de uma ideia de discriminação racial que se fixa na imagem das casas de banho segregadas ou na proibição de casamentos mistos, não capturando práticas e políticas que se desenhavam em torno de um claro viés racial, ainda que de forma não tão explícita, logo mais subtil e resistente ao correr do tempo.

São muitas, e diversas, as formas através das quais podemos pensar como o processo de resistência à descolonização encabeçado pelo governo autoritário português condicionou, e talvez ainda condicione, a forma como, no debate público, reflectimos sobre racismo no Portugal contemporâneo. Sendo muitas e diversas as formas de interpretar os efeitos do lusotropicalismo nos debates contemporâneos sobre racismo, não me parece demasiado arrojada a ideia de que o lastro histórico do Estado Novo limitou, de certa forma, a possibilidade de introduzir declarações ou tropos abertamente racistas em discursos políticos proferidos em espaços institucionalizados ou mesmo nos media, para o que contribuiu, também, a evolução normativa, tanto no quadro do Estado português como internacionalmente. Houve sempre excepções, é claro, e há infaustos acontecimentos na nossa história mais recente que se encarregam de nos lembrar disso. Formas estritamente biológicas de dar corpo a um suposto “conceito” de raça e a defesa de sociedades etnicamente homogéneas, protegidas de qualquer forma de “miscigenação” ou de entendimentos plurais da pertença, manifestaram-se nos anos finais do império, e sobreviveram à transição democrática, como pode ser atestado pela presença de grupos supremacistas em Portugal há já longas décadas.

Arrisco-me, contudo, a sugerir que este estado de coisas está a mudar de forma mais substantiva hoje. Ainda há pouco tempo, uma deputada do Chega questionou (ainda que se tenha apressado a fazer marcha-atrás) a “identidade” da selecção francesa, evocando para isso uma foto de Kyllian Mbappé, nascido e criado em França, publicando-a e escrevendo: “França aos franceses”. Longe de ser um método infalível, quem acompanha as publicações nas redes sociais da deputada identifica um conjunto de padrões. As suas publicações procuram acompanhar o ritmo de publicações de outras figuras ou redes da direita radical no estrangeiro (facto que me foi relembrado por utilizadores do X [antigo Twitter], a quem agradeço) mas procuram também acompanhar o “pulsar” das gerações mais jovens de portugueses radicalizados ou radicalizáveis. Não é por acaso que se dá a “marcha-atrás”, acontecimento que está longe de ser inédito na postura da deputada nas redes sociais. Trata-se, creio, de um permanente e contínuo teste a ver até onde pode ir. Também se poderá dar o caso de estar a ver engenho maquiavélico onde apenas se encontra oportunismo não muito pensado. Mas, da mesma forma que normalmente argumento que é preciso levar o pensamento e acção daqueles que conduziram o Estado Novo a sério, também diria que desajudará mais do que iluminará subestimar aqueles que fizeram do projecto da direita radical um caso de sucesso, tanto de um ponto de vista estritamente eleitoral como enquanto força gravitacional de carreiristas e arrivistas de diversa estirpe, franchise que começa agora a ser disputado.

Entendamo-nos, o cinismo não atenua o dolo, e não há razões para estar optimista. Não foram poucos os que subscreveram as suas palavras. Como não são poucos os que, nas redes sociais, e como referido no dito ensaio, questionam a “verdadeira” pertença de atletas portugueses que obtêm medalhas em nome da pátria, sempre que estes apresentem uma tez um pouco menos clara. Dá-se, aqui, um corte com o lusotropicalismo, mais genericamente, mas também, em muitos casos, com a tese defendida estrenuamente pelo Estado Novo, que postulava que os antigos territórios coloniais eram, efectivamente, Portugal.

Há cerca de dez anos, nas redes sociais, comentários deste tipo mereceriam uma outra censura social. Afinal, os portugueses não distinguiriam ou discriminariam em função da cor da pele, e a vitória de atletas portugueses com origens nos países hoje independentes, mas que antes foram colónias, seria uma vitória póstuma da ideia de império, cuja desintegração, segundo a mesma narrativa, teria redundado na afirmação do racismo, ao mais claramente organizar territórios e populações em função da cor da pele (o que não deixa de conter um pitada de verdade, ainda que muito parcial). De resto, para muitos, os laços que se mantêm após as independências entre Portugal e as antigas populações colonizadas seriam a prova da validade da tese do Estado Novo e da robustez de uma ligação “espiritual” que sobrevive às diversas independências.

Entre outros aspectos, a enxurrada de comentários que assola qualquer publicação que anuncie os sucessos desportivos de portugueses como Pedro Pichardo ou Auriol Dongmo parece apontar para uma mudança, em certos sectores da sociedade portuguesa e, sobretudo, nas faixas etárias mais novas, na forma como “raça” e discriminação racial são entendidas, e também na relativa unanimidade que existia em torno do opróbrio social que tais manifestações deviam merecer.

Com esta ideia na cabeça, fiz um pequeno exercício no X , publicando um tweet em que afirmava que, no momento em que Salazar deixou de ser presidente do conselho de ministros, havia mais muçulmanos a viver em território português do que ao dia de hoje, o que é factualmente correcto. Já levo alguns anos desta conversa, e não há nada de extraordinário na recusa de muitos interlocutores em aceitar que a sociedade portuguesa de hoje ainda conserva uma certa dose de responsabilidade perante o mandato que o império declarou seu. Isto é, não é particularmente surpreendente que muitos portugueses, mais ou menos ou até nada sensíveis à doutrina estado-novista, entendam que, com a descolonização, Portugal, enquanto Estado e sociedade, ficou liberto de qualquer responsabilidade perante as antigas populações colonizadas. Mesmo que sejam as mesmas populações a quem, desde pelo menos finais do século XIX, ninguém perguntou se se sentiam mesmo portuguesas. Pelo contrário, combateram-se três guerras em territórios diferentes para garantir que elas continuavam portuguesas, pressuposto assente num suposto plebiscito diário e silencioso, como ensinava Renan, mas que recusava qualquer possibilidade de essas populações serem consultadas num plebiscito de facto.

Trata-se de um sentimento que trai uma ideia peculiar de convívio multicultural. Enquanto estas populações vivessem lá longe, numa posição social, económica e política diminuída, teríamos todo o gosto em acolhê-las à distância. Coisa diferente seria, com a descolonização e com Portugal privado dos territórios ultramarinos, fazer jus à ideia de que o nosso compromisso com uma Portugalidade global se iria manter, nomeadamente com as populações que, no longo tempo histórico, foram as que mais sofreram: no tempo do império, durante a descolonização e nos futuros pós-coloniais e pós-imperiais que se lhe sucederam.

Porém, a centena e tal de comentários com que fui presenteado não afinaram exactamente por este argumento. Alguns houve, como é normal, que me recomendaram sortidas formas de sexo não-reprodutivo. Outras que instaram a universidade a que pertenço a que tomasse “medidas” porque eu teria incorrido em argumentos “falaciosos”. Mas a maior parte apontou para um facto claro: Moçambique e Guiné-Bissau não eram territórios portugueses, nem essas populações eram portuguesas — um corte não apenas com o articulado constitucional da altura, mas com a própria retórica repetidamente enunciada pelos dirigentes, ideólogos e propagandistas do Estado Novo.

Muito provavelmente, se colocados perante a questão de se eram estes territórios parte de Portugal, noutro contexto, muitos destes utilizadores, que denotam particular afinidade por nomes falsos, escudos com cruzes de Cristo e copos de vinho tinto (uma combinação perigosa…) diriam que, sim, Guiné e Moçambique eram Portugal. Como dizia um conhecido no X, o problema da maioria era o de haver muçulmanos em Portugal continental, não lá nos confins do império, e não lhe disputarei a razão.

Mas creio que não será inusitado perceber como se reconfigura, neste meio, a relação com a história e memória do antigo império, pois creio que é bastante evidente, e sintomático, que algo está a borbulhar. Por exemplo, numa conta do X que se dedica a glorificar os feitos do Estado Novo podemos ver uma imagem de propaganda em que três soldados africanos seguram uma bandeira portuguesa, procurando demonstrar o apoio multirracial de que aquele beneficiava na sua gesta para manter o império incólume. Um dos comentários que se segue é o seguinte: “3 não portugueses. Deixei de seguir esta página”. Outro: “muito gostam os boomers de catinga”. Segue-se outro que refere que “esta página é gerida pelo brasileiro mestiço YYYYY”, desta forma questionando a pureza biológica da página (há coisas do diabo). Trata-se, pelo que se percebe da leitura da sua página, de alguém que intervem frequentemente em tudo o que tenha que ver com a história imperial do Estado Novo, defendendo os seus supostos princípios de “assimilação cultural” em vez de critérios estritamente fenotípicos de definição de pertença. Entre as coisas que se pode ler na sua página, está a ideia de que o Chega está “internamente” a estudar a possibilidade de recriar um novo “estatuto do indígena”. Ou seja, um estatuto que diferencia racialmente, mas abre a possibilidade de teórica de “assimilação”, para lidar com a crescente diversidade étnica e racial de “Portugal” e, em particular, com os fluxos migratórios. Afirma, contudo, que “o próprio Chega está fracturado entre os que, como eu, são lusotropicalistas e acreditam que os imigrantes podem vir se cumprirem os requisitos para assimilação do antigo Estatuto do Indígena e da União Nacional e de outro lado os racistas que querem implantar uma one drop rule cá”.

O estatuto do indígena, ou indigenato, é uma via interessante para se perceber como estão a evoluir estas discussões em certos sectores da sociedade portuguesa. Importa aqui um parêntesis, para quem não teve vagar de ler o ensaio supra. O estatuto do indígena, ou como é mais frequentemente conhecido, o regime do indigenato, trata-se da estrutura jurídica, política e administrativa “especial” onde se enquadrava a maioria das populações negras das três colónias mais populosas (Angola, Moçambique e Guiné), um regime distinto do que se aplicava aos “cidadãos portugueses”, e que, desde a década de 20 do século passado até o início da década de 1960, lhes negava direitos políticos e civis e lhes impunha deveres particulares, como o dever moral de trabalhar, base conceptual do regime de trabalho forçado que acompanhou a reputação do império durante décadas.

Muitos destes utilizadores das redes sociais, frequentemente, face a discursos como este, que procuram negar a natureza discriminatória do indigenato, chamam a atenção para o facto de o indigenato referir explicitamente a “raça negra” como critério inexorável na atribuição desta condição jurídica diminuída. Acreditam que Salazar não acalentava ilusões sobre as diferenças inultrapassáveis entre “raças”. Mais, acreditam que a abolição do estatuto, como diz um utilizador, só aconteceu por pressão de factores externos, nomeadamente a interferência da ONU, quando o império se encontrava em perigo, com o início da guerra em Angola e a crescente projecção internacional, negativa neste caso, da “questão colonial portuguesa”. Como afirma uma conta também anónima mas com considerável alcance, “Em Portugal, os não-brancos do império só tiveram cidadania plena nos anos 1960s”. É muito curioso, porque estes argumentos, partilhados por vários historiadores (incluindo eu próprio) foram tradicionalmente usados para demonstrar que, não obstante toda a retórica, o regime estado-novista nunca abandonou completamente critérios raciais, mais ou menos explícitos, para governar o seu vasto império, e que resistiu denodadamente a reformar-se por livre recriação, sendo amiúde levado a fazê-lo como forma de responder a acusações, denúncias e crescente pressão política. Em comum, temos a rejeição de uma narrativa que apresenta o império português como essencialmente não-racista, seguindo as pisadas de Franco Nogueira quando afirmava o pioneirismo português na construção de sociedades multirraciais. Mas nestas contas próximas da direita radical essa constatação aponta num sentido ético e político distinto: procura-se demonstrar o racismo sempre presente no Estado Novo, e o carácter instrumental das reformas normalmente atribuídas a Adriano Moreira, para resgatar orgulhosamente o legado racista da direita radical portuguesa.

A direita radical portuguesa, hoje, portanto, deve afirmar sem pejo esse legado, afirmando-se racista, não cedendo ao lusotropicalismo que subverteu e emasculou o salazarismo. Como diz mais um utilizador, com a bandeira portuguesa no nome, sobre este assunto: “Salazar, por muito que goste dele, deixou um cancro gravíssimo na nossa direita”. Como refere um outro, que também justifica a revogação do indigenato com a pressão da ONU, “E, sim, se somos brancos temos que preservar essa natureza racial”. A mesmo conta citada em cima, com vários seguidores, não podia ser mais explícita: “Salazar era racista e há vários exemplos disso”. Um outro, saturado, não deixa margens para dúvidas: “Pode vir com a mesma cassete habitual lusotropicaleira que aqui não cola: negros são africanos e não pertencem a Portugal, pertencem a África e foi por isso que lhes demos a independência”. Repare-se como há aqui o recurso sistemático ao que tem vindo a ser produzido nos estudos sobre o colonialismo nas últimas décadas emprestando-lhe um sentido totalmente diverso, que em alguns casos questiona tibiamente a “cedência” de Salazar, noutros procura desvelar os seus verdadeiros sentimentos, e noutros, ainda, rejeita por completo a herança do lusotropicalismo com um vigor que não empresta contra aqueles que, defendendo que se tenha em conta os legados do Estado Novo na sociedade actual, apontam para o seu carácter incontornavelmente racista.

Isto é apenas um apanhado rápido de tweets, facilitado por alguma experiência em acompanhar estes temas. Não é difícil expandir o universo a que corresponde este discurso, com algum trabalho. Já não é tão fácil perceber, como dizia no início, quantas pessoas perfilham este tipo de ideias e de que forma isto reverbera e reverberará política e socialmente. As redes sociais geram, com facilidade, ilusões de óptica ou efeitos de paralaxe. Um estudo mais robusto, creio, ajudar-nos-ia a perceber a dimensão da questão, coadjuvado por outros métodos, de entrevistas a inquéritos. O que aqui quis, de certa forma, foi chamar a atenção para um fenómeno, talvez marginal, mas que se torna cada vez mais visível para quem acompanha estes temas. O problema aqui não é historiográfico ou circunscrito aos discursos públicos que versam sobre a história e memória colectiva. É uma janela a partir da qual nos podemos interrogar sobre o sentido destes debates na contemporaneidade, numa altura em que se multiplicam contas nas redes sociais que se dedicam a criar pânico social, a maior parte das vezes mentindo ou insinuando, imputando pulsões violentas e irracionais supostamente intrínsecas a grupos étnico-raciais que não se coadunam ao que têm pela norma “portuguesa”. De volta à “raça”, estamos perante um conjunto de portugueses, creio, cada vez maior que se entretém a alimentar fantasias de uma guerra racial que trai um enorme medo de tudo e todos. E, depois de décadas a acreditar em múltiplos excepcionalismos, desde o Portugal harmonioso e ultramarino até ao mais recente sobre a imunidade do país à direita radical, faríamos melhor em não ignorar o que corre o risco de alastrar de caves bolorentas até ao salão nobre da assembleia da república, agora que a oferta de partidos dispostos a acolitar estas ideias se vem multiplicando; revelador da aliciante oportunidade de negócio que muitos aqui antevêem, deitados borda fora os escrúpulos. Sem que nos tenhamos apercebido, a forma como se estruturam as posições mais ou menos fixas que nos habituámos a ter por garantidas nos debates sobre o passado recente está a mudar e a fragmentar-se.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A desonestidade financeira de Salazar

Salazar, com a fotografia de Mussolini sobre a sua mesa de trabalho

O dogma do equilíbrio financeiro e a luta contra o défice orçamental originaram a reputação de “grande estadista” do ditador Salazar – aliás foi por essa via que chegou ao poder. Contudo, e ainda que umas contas aparentemente honestas e equilibradas não sejam critério que possa justificar todas as violências físicas, culturais e económicas do regime; interessante é descobrir que tal honestidade financeira de Salazar não passa de uma farsa.

O equilíbrio financeiro tornou-se um imperativo constitucional em 1951, e apesar de representar, em “tempos difíceis”, um constrangimento , foi “escrupulosamente” respeitado. Ou pelo menos é o que dizem os dados oficias das contas públicas e, até hoje, toda a historiografia financeira, que nunca colocou os referidos dados em causa.

No entanto, um estudo do Professor Luís Madeira (publicado em artigo na revista da Société Francaise d'Histoire d'Outre-mer, em 2010) demonstra, através da revelação da estrutura escondida das finanças públicas coloniais entre 1946 e 1974, como “o equilíbrio das finanças públicas construído pelo regime colonial não era um savoir faire resultante de um domínio profundo da ciência financeira, mas antes um truque de contabilidade bastante simples, relativamente comum nos universos do marketing e da propaganda política”.

O estudo centra-se nas finanças coloniais, mas o tipo de contabilidade usada na “metrópole” era o mesmo do dito “ultramar”. Na contabilidade duvidosa do regime, a classificação entre despesas ordinárias, receitas ordinárias, despesas extraordinárias e receitas extraordinárias é de uma falta de rigor gritante: bastando, por exemplo, uma simples decisão arbitrária de passar uma despesa ordinária para as despesas extraordinárias (consequentemente acedendo ao financiamento via empréstimos e impostos extraordinários) para que se repusesse o equilíbrio (fictício) entre despesas ordinárias e receitas ordinárias, “cumprindo” pela via da deturpação das contas o dogma constitucional.

Note-se ainda que “a natureza duvidosa das decisões de contabilidade não eram nem o único nem o principal problema estrutural das finanças das colónias portuguesa”. Consideráveis receitas e despesas relativas às colónias não se encontravam inscritas nas contas oficiais dos países colonizados. Na busca do rasto da desorçamentação, que com os outros truques baratos sutentava “o mito do equilíbrio permanente das contas públicas”, outras características da política e das finanças públicas salazaristas são reveladas.

Como salienta Luís Madeira, “a simples análise das contas oficiais das colónias é útil apenas ao estudo da propaganda do regime”. Essa propaganda contabilística sustenta o mito da prioridade orçamental do “desenvolvimento económico dos países colonizados e da primazia do esforço financeiro do regime no desenvolvimento humano dos povos colonizados”. Quando, como demonstra o estudo, os principais gastos do regime com as colónias foram em benefício direto do regime e dos interesses coloniais: por um lado, autênticos subsídios às exportações da metrópole para as colónias resultantes dos custos das ineficiências (e consequente colapso) do Espaço Económico Português (1961-71); por outro, os gastos da Guerra Colonial, que apenas visavam manter o regime ditatorial e o domínio sobre o império colonial.

Outros estudos:
Claúdia Castelo (2014) - "Novos Brasis" em África: desenvolvimento e colonialismo português tardio
Francisco Henriques (202)- Indústria, Comércio Externo e Intervenção Pública. As Conservas de Peixe no Estado Novo (1927-1972)
João  Pinto (2009) - Gilberto Freyre e a intelligentsia salazarista em defesa do Império Colonial Português (1951 - 1974)