Mostrar mensagens com a etiqueta Abstraccionismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abstraccionismo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

terça-feira, 30 de junho de 2026

Haunted House - Deep


Letra
In the corners, where the secrets creep,
You bury your lusts in the heart of sleep.
Whispers of sin that you can’t confess,
Locked in the dark, where the demons rest.

Eyes wide shut, but the visions burn,
Desires so deep, they twist and turn.
Tangled in chains of your own design,
Craving the edge where the darkness binds.

deep, so deep

Fetish of flesh, a forbidden rite,
A dance with the void in the dead of night.
You taste the taboo, it’s bittersweet,
The deeper you go, the more you’re complete.

You drown in the dark, where your fears reside,
No escape from the thrill, no place to hide.
Desire and dread in a twisted embrace,
In the deep, you’ve found your place.

deep so deep

O projeto musical Haunted House, lançado pela editora alemã Cold Transmission Music e concebido pelo músico Philippe Marlat (frequentemente associado à cena eletrónica e darkwave europeia, com fortes ramificações em Itália e França), destaca-se na cena vanguardista de horror abstrato e música eletrónica sombria. No que toca ao estilo musical e visual do tema "Deep", o som de fundo combina elementos de Witch House, Dark Ambient, Industrial e Glitchcore, resultando numa estética musical de vanguarda que recorre a ruídos, batidas distorcidas, sons de estática e frequências desconfortáveis propositadamente desenhadas para gerar ansiedade. Visualmente, o vídeo de animação digital adere à vertente do CGI Surrealista e Voidcore, utilizando uma modelagem 3D intencionalmente rudimentar — ao estilo low-poly ou de jogos de computador antigos — enriquecida com texturas fotorrealistas sobrepostas, como o sangue e os vermes, que visam causar um efeito imediato de asco, estranheza e transe hipnótico.

Relativamente ao significado do vídeo "Deep", e como sucede com a maioria das obras de arte surrealistas e abstratas, não existe uma resposta única ou de "manual", mas a comunidade de arte digital e de horror psicológico costuma interpretá-lo através de metáforas bastante pesadas sobre o subconsciente. Por um lado, a cruz a sangrar representa a espiritualidade corrompida, simbolizando a perda da fé, a culpa religiosa ou o peso do pecado, ao mesmo tempo que mostra o sagrado a ser violado pelo profano, servindo de representação visual de uma mente em sofrimento moral ou espiritual profundo. Por outro lado, a presença dos vermes remete para a decomposição em vida, representando a inevitabilidade da morte, a podridão e a decadência; no contexto do vídeo, estes sugerem que algo dentro da personagem, seja uma memória, um sentimento ou a própria sanidade, está a apodrecer enquanto esta permanece "viva" e se move naquele ritmo mecânico e inexplicável. Por fim, o próprio título "Deep" (Profundo) refere-se ao ato de mergulhar fundo na própria psique, acedendo às partes da mente que habitualmente tentamos esconder, tais como os nossos traumas, medos biológicos, como a aversão a vermes e o medo de sangue, e crises existenciais. Em resumo, o vídeo configura uma representação abstrata de uma mente em colapso ou num estado de depressão profunda, sendo como se o criador tivesse transformado a sensação de agonia interna e de culpa em imagens de um pesadelo computadorizado.

Este poema de Haunted House evoca uma atmosfera gótica, psicológica e intensamente visceral, transitando entre o terror psicológico, o existencialismo e o erotismo sombrio da transgressão. Na filosofia, a influência mais direta reside em Georges Bataille e a sua exploração da relação íntima entre o erotismo, o tabu e a morte, onde o fetiche da carne surge como uma tentativa de alcançar a totalidade existencial através do proibido. Este abismo dialoga com Friedrich Nietzsche e o confronto com a nossa própria escuridão interna, bem como com Sigmund Freud e o conceito de Id, onde os desejos reprimidos e os impulsos de morte e prazer se fundem no confessionário do sono.

Na poesia, o texto ressoa fortemente com as visões de Charles Baudelaire em As Flores do Mal, onde o pecado, a carne e o bizarro se transformam em arte, encontrando eco também no surrealismo violento de Conde de Lautréamont e na obsessão de Edgar Allan Poe pela culpa autoimposta e pelo confinamento da mente.

Esta herança literária e filosófica ganha uma tradução visual e interativa marcante no cinema e nos videojogos. A nível cinematográfico, a referência a "olhos bem fechados" remete imediatamente a Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, com os seus rituais secretos e desejos reprimidos, cruzando-se com o universo de Hellraiser, de Clive Barker, onde o prazer extremo e a dor se abraçam na escuridão, e com o body horror de David Cronenberg, que explora a fusão entre a carne e a obsessão psicológica. Já no panorama dos videojogos, o paralelo perfeito encontra-se em Silent Hill 2, uma obra-prima sobre a punição autoimposta e monstros que materializam fetiches e traumas reprimidos. A estética gótica e industrial de Vampire: The Masquerade – Bloodlines e a descida literal e metafórica às profundezas da mente em Amnesia e SOMA completam este mosaico de referências, onde o medo e o desejo se tornam uma coisa só.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Weval - Everything Went Well

Melhor som aqui
[Instrumental Intro]

[verso 1]
Hey, it's a regular day
You're not missing it
Hey, it's a regular day
You're not missing it

[verso2]
I remember how it felt
Everything went well
I remember how it felt
Everything went well

[verso 1]

[verso 1]

[Instrumental Outro]

"Everything Went Well" é uma canção que vive da subtileza e da atmosfera, onde a letra minimalista funciona em perfeita simbiose com a eletrónica melancólica do Weval. Através da repetição quase hipnótica de poucas frases, a música evoca um estado de espírito profundamente marcado pela nostalgia e pela dualidade entre o presente e o passado.

Por um lado, a insistência na frase "I remember how it felt / Everything went well" surge como um mantra confortador, um vislumbre de um passado feliz e seguro que o narrador recupera na memória para encontrar paz. Por outro lado, o contraste com "Hey, it's a regular day / You're not missing it" ancora a narrativa na monotonia ou na quietude do quotidiano atual.

Esta dinâmica cria uma sensação agridoce: há um certo tédio nos dias que correm todos da mesma forma, mas há também um enorme conforto em saber que, algures no tempo, tudo correu bem. No fundo, a faixa não procura contar uma história linear, mas sim capturar aquele momento exato de devaneio em que nos desligamos da rotina para nos refugiarmos numa memória calorosa.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Lynn Boggess

Lynn Boggess (pintor dos EUA, nascido em 1955)
Estilo artístico
Boggess é reconhecido por um estilo único de pintura de paisagem que funde elementos de:
• Realismo — cenas naturais convincentes e reconhecíveis.
• Impressionismo e Expressionismo abstrato — na forma como a luz e a textura são expressas.
• Naturalismo intensificado — natureza representada sem presença humana, mas intensa e vibrante. 
Esse estilo às vezes é descrito como “Tactile Realism” — realismo tátil, onde a textura da tinta cria uma ligação sensorial entre pintura e espectador. 

Temas principais
Paisagem natural — florestas, colinas, leitos de rios, rochas, cenas campestres e ambientes não urbanos. 
Natureza selvagem e pura, sem vestígios perceptíveis de presença humana. 
Interessa-se particularmente por lugares com luta natural — árvores quebradas, destroços de terreno e aspectos que sugerem a força e o drama da natureza. 

Técnica
Trabalha principalmente com pintura a óleo. 
Pinta em plein air (ao ar livre), diretamente na paisagem que está retratando. 
Usa espátulas e, sobretudo, uma colher/trowel de cimento em vez de pincéis tradicionais, criando camadas muito espessas e texturizadas de tinta (impasto). 
A aplicação da tinta é intensa e física — muitas vezes misturada directamente na tela — contribuindo para sensações de profundidade táctil e presença no espaço da pintura. 
O resultado é uma obra que, de longe, pode parecer quase fotográfica, mas de perto revela uma superfície vigorosa e abstracta.

sábado, 11 de novembro de 2023

Abstracto psicadélico e o movimento psicadélico


A história da mudança que transformou o mundo
Ideia de mente, espírito ou alma, essa é a definição do significado do termo de composição “psico”, segundo a Enciclopédia Mérito (1964). Mas o termo “psicadélico”, parte da composição das palavras gregas psiké (mente) e deluon (sensorial), referindo-se a uma manifestação da mente que produz efeitos profundos sobre a experiência consciente.

O movimento psicadélico viveu seu apogeu nos anos 60, transformando esta década em algo que parece estar mais no futuro do que no passado. Se deve basicamente à criação do LSD-25, sintetizado por Albert Hoffman em 1943 na Suíça. O ácido dielitamida d-lisérgico foi a vigésima quinta substância extraída numa série de testes com o fungo ergot, sendo absorvida acidentalmente através da pele do cientista. Seus efeitos consistem na provocação de um estado de realidade alterada, e Hoffman descreveu em seu diário os seguintes acontecimentos relatados no Documentário “Tempos de Rebeldia: Contracultura e Psicadelia”, produzido por David Schultz : “Ao voltar para casa de bicicleta, meu campo de visão estava distorcido como uma imagem de espelho côncavo. Um estado de delírio nada agradável que era caracterizado por imagens fantásticas de realidade extraordinária e um caleidoscópio intenso de cores”.  Estes efeitos foram descritos num relatório, fazendo com que o mundo científico se interessasse pela substância.

O movimento psicadélico nos anos 50
Na década de 50, como consta no documentário “Tempos de Rebeldia: Contracultura e Psicadelia”, o LSD e outras drogas psicoativas passaram por diversos testes promovidos pela CIA com o intuito de produzir uma arma química capaz de controlar a mente das pessoas durante a Guerra Fria, achavam que seus efeitos poderiam servir como ferramentas de espionagem. Imaginavam estar criando um “soro da verdade” ou um dispositivo de controle para controlar a população. Foram recrutados voluntários para tomarem a droga e responderem a perguntas sobre as suas experiências alucinogénicas. No entanto, aconteceu o contrário, a droga abria as portas do inconsciente e dava uma sensação de liberdade e fazia com que cada um pensasse por si mesmo, sem se preocupar com as culturas vigentes.

Como relata o documentário, um estudante de 26 anos chamado Ken Kesey iniciou as suas próprias pesquisas de expansão da mente com o LSD. Organizou atividades junto com colegas da faculdade para que expandissem a comunicação, como teatros, uso de fantasias malucas e acessórios bizarros. “Assim jovens começaram a experimentar por eles mesmos e se desligavam da corrente cultural, mas se reprogramavam com o seu próprio sistema de valores”. (Schultz).

Disposto a divulgar seu novo livro, Ken Kesey e a sua turma, programaram uma viagem rumo a Nova Iorque numa camioneta colorida, denominado “Further”, numa busca psicadélica, espalhando alegria e o sentido de uma rebelião saudável contra uma sociedade restritiva. Desta forma, em 1966, como relata o documentário, deram início ao “teste de ácido” com o apelidado “refresco elétrico”. Numa dessas noites o governo tornou o uso do LSD ilegal.  “O LSD era uma ferramenta revolucionária de libertação da mente e esperava que fosse mudar o mundo”. (Schultz).

Os anos 60 e a liberdade
No começo da década de 60, o LSD-25 foi empregado experimentalmente em sessões de psicoterapia, principalmente nos Estados Unidos, onde seu uso era legal. Das clínicas e das universidades, a droga espalhou-se para o mundo, transformando-se, junto com a beatlemania e a revolução sexual, em símbolos de uma época que, para muitos, representava o início da Era de Aquário. 

O psicólogo Timothy Leary, dá início à pesquisa com o uso de drogas que alteram a consciência para fazer uso na psicoterapia. Segundo o documentário de Schultz, Leary descreve no seu livro “A Experiência Psicadélica – Um Manual Baseado no Livro Tibetano dos Mortos”, que as drogas alucinógenas alteram o nível de consciência e são capazes de mudar e ampliar a perspectiva da vida de uma pessoa. Mostra os aspectos positivos do uso dessas substâncias, questiona as autoridades. Além de incentivar as pessoas a usarem suas cabeças, saírem dos meios estáticos, sair dos jogos sociais destrutivos. Pensarem por si mesmas, não aceitar algo só porque uma autoridade diz, e através do uso dessas substâncias haverá a descoberta de que muitas dessas chamadas autoridades são bobagens. A mensagem de Leary era sobre a descoberta espiritual transformadora. A antiga crença na visão mística sagrada. Desta forma, em 1966, o LSD se tornou ilegal porque a última coisa que os Estados Unidos e qualquer governo desejaria era que os seus cidadãos expandissem as suas consciências, e desta forma qualquer pesquisa científica com drogas foi proibida.

Em 14 de janeiro de 1967, na praça de São Francisco aconteceu o Grande Encontro, na tentativa de formar uma comunidade com hippies da geração do amor, Beats e ativistas políticos, que agiam contrariamente ao governo com ações diferentes, porém todos a favor da paz e ao fim da guerra, a favor da liberdade de expressão e da liberdade do indivíduo. Queriam sair da cultura reinante e trilhar algo novo.

O documentário ainda descreve os rótulos criados pela sociedade dados aos hippies, dizia que eles eram simplesmente sujeitos estranhos que utilizam “óculos de vovó”, cabelos longos e que não tomavam banho. Mas nada do que eles vestiam transmitia o que estava acontecendo dentro deles, eles estavam rompendo com qualquer coisa que tentava contê-los. E com isso tornaram-se um fenómeno de media, uma atração turística. Enquanto os Estados Unidos matavam crianças do outro lado do mundo no Vietname, jovens dessa geração se reuniam no evento histórico denominado “Woodstock”.

Para eles este não era simplesmente um evento de sexo, drogas e rock’n’roll, mas era sobre o Vietname, direitos civis, reclamação contra a interferência americana no resto do mundo. Foi um momento histórico, um momento em que as pessoas acordaram e foram gentis e amistosas umas com as outras. Este Festival de música e arte de três dias, ocorrido em 1969, simbolizou as melhores esperanças de uma geração para a humanidade. E significou que momentos como este poderiam acontecer de novo noutro lugar e noutro tempo. Este movimento de contracultura dos anos 60 terminou chamando a atenção sobre a violência e sobre a morte, foi uma afirmação da vida. A rebelião psicadélica trouxe uma nova percepção até para os que não tomaram as drogas. Houve uma mudança social impulsionada pela mudança de consciência, sentido de unidade e gentileza que pode ser recapturado

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pessoas e árvores


Manhã Raia
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

EcofotoArt- por Louise Nevelson


A artista compilou várias paletes industriais, atribuindo-lhes um significado de "biblioteca" de reutilização. Os números e as cores têm também uma sequenciação abstracta, elogiando/ criticando/ descrevendo a sociedade demasiado tecnocrata em que estamos inseridos?

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Mais resultados do Programa Científico Observa - Ambiente, Sociedade e Opinião Pública


Cidadãos querem do Estado mais actuação no ambiente
Inquérito Estudo sociológico indica que a poluição de rios e ribeiras figura no topo das preocupações dos portugueses. No dia-a-dia, o problema mais apontado é a poluição do ar.

Eduarda Ferreira, JN

Os portugueses são muito críticos para com a actuação do Estado no domínio do ambiente: 82% consideram-no incapaz de desempenhar bem essa tarefa, segundo os resultados do II Inquérito Nacional "Os Portugueses e o Ambiente". Entre as medidas mais preconizadas pelos cidadãos ouvidos contam-se a fiscalização, proibições e aplicação de multas a prevaricadores.

O programa científico Observa - Ambiente, Sociedade e Opinião Pública, desenvolvido no âmbito do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresas, divulgou, ontem, os resultados de um segundo inquérito destinado a avaliar as atitudes dos portugueses em relação ao ambiente. Com um intervalo de
três anos em relação ao primeiro, e sendo elaborado sobre dados colhidos em 2000, este estudo não assinala evoluções muito profundas. Uma das poucas marcantes, segundo um dos autores do estudo, Joaquim Gil Nave, consiste na adesão aos mecanismos de reciclagem que entretanto foram facilitados (vidrões,ecopontos).

Por outro lado, admite o mesmo investigador, os receios continuam a ser remetidos para o abstracto e para o global, tendo as pessoas dificuldade em ver os problemas existentes ao pé da porta. Apagar a luz em divisões não utilizadas e não lavar loiça ou dentes com a torneira a correr ainda são as atitudes mais frequentemente assumidas em prol do ambiente(cerca de 50%).

Para 65% dos inquiridos, a paisagem que mais os choca é a de um rio poluído com peixes mortos, seguida de uma floresta a arder e uma maré negra. Uma lixeira a céu aberto impressiona-os menos (36,4%) e ainda menos resíduos tóxicos derramados no solo (29%). No dia-a- dia, as pessoas sentem mais o problema da poluição do ar e maus cheiros (29%) e não deixam de assinalar o caos urbano e o desordenamento. Pessimistas, consideram que tudo piorará nos próximos dez ou 15 anos: trânsito, qualidade do ar e água, ruído, entre muitos outros problemas. Face a este quadro, 45% dos inquiridos afirmaram desejar viver noutro local.

Na periferia das grandes cidades situam-se os mais descontentes. Da totalidade,a maior parte sonha com jardins públicos e árvores para a envolvência das casas, valorizando uma "natureza domesticada". Este era um desejo já referenciado no primeiro estudo. Uma percentagem significativa mudaria para o campo ou pequenas e médias cidades, mas não o faz por falta de oportunidades de emprego, serviços de saúde, escolas e acessibilidades.

Poucas mudanças houve nas iniciativas pessoais
Os portugueses são críticos, isso são, para com as condições ambientais em que vivem. Mas, assinalam as conclusões do inquérito, revelam "uma certa bonomia face à realidade nacional, quando comparada com a dos restantes países europeus". Relativamente ao inquérito anterior, a degradação ambiental do país é vista com cores mais negras. A preocupação é mais forte, talvez por haver mais informação. Segundo o coordenador deste trabalho afirmou ao JN, mantém-se o desfasamento entre atitude e preocupação. Uma coisa é o que os portugueses pensam, outra as iniciativas que tomam para mudar o que dizem estar mal.

O sociólogo João Ferreira de Almeida destaca uma diferença entre os resultados do inquérito anterior e agora divulgado: a agricultura, agora, já surge com a sua quota de responsabilidade na poluição ;antes, a visão deste sector era mais bucólica.