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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

sábado, 15 de novembro de 2025

Foto e poema sobre as Árvores

Árvore
"Ficas ali, inteira,
como se soubesses algo que nós esquecemos.
O vento passa por ti
e tu respondes sem pressa,
um aceno leve, um sussurro de folhas
que não precisa traduzir-se.
A luz pousa nos teus ramos
como quem encontra casa.
Os pássaros chegam, partem,
e tu permaneces —
um gesto de permanência
num mundo que corre demasiado depressa.
Às vezes abraço-me ao teu tronco
e sinto qualquer coisa antiga,
quase uma respiração,
como se a tua vida entrasse um pouco na minha.
E penso:
talvez crescer seja isto —
abrir espaço no peito
para o que chega
sem medo do que fica."
Joao Soares, 15.11.2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Parecer negativo: Proposta de definição de âmbito da Central Solar Fotovoltaica da Beira


O meu texto na Consulta Pública
"Discordo da implementação da Central Solar Fotovoltaica de Sophia e das Linhas de Muito Alta Tensão associadas, pois o impacto ambiental e paisagístico em concelhos como o Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova é demasiado elevado face aos benefícios apresentados.
Isto é um crime ambiental! As duas centrais preveem o abate de cerca de 2.000 árvores "protegidas". Mas serão muitos milhares mais! As que não são protegidas não as contam! Em qualquer terreno da Beira Baixa, além dos sobreiros e azinheiras (espécies protegidas) há oliveiras. Muitas delas centenárias. É previsível que sejam arrancadas milhares delas. Iremos ter terras estéreis, de onde antes provinha um azeite de excelente qualidade. Além disso nidificam aves nessa região aves de relevância ecológica (águia-de-bonelli, abutre preto, águia imperial ibérica, águia real) e localiza-se perto do Parque Natural do Tejo Internacional.
Não existe "energia verde" à conta do extermínio do verdadeiro verde da vida, do abate de milhares de árvores, da destruição de ecossistemas, provável extinção de aves sensíveis já referidas e alteração grave de uma ZPE ambientalmente rica e, repito, muito sensível."
E anexei o parecer da SPEA.



Tree

"I Love a Tree
by Samuel N. Baxter

When I pass on to my reward,
Whatever that may be,
I’d like my friends to think of me
As one who loved a tree.

I may not have a statesman’s poise,
Nor thrill a crowd with speech,
But I can benefit mankind
If I set out a beech.

If I transport a sapling oak
To rear its mighty head,
’Twill shade and shelter those who come
Long after I am dead.

If in the park I plant an elm,
Where children come to play,
To them ’twill be a childhood shrine
That will not soon decay.

Of if I plant a tree with fruit,
On which the birds may feed,
I’ve helped to foster feathered friends,
And that’s a worthy deed.

For winter, when the days grow short
And spirits may run low,
I’d plant a pine upon the ‘scape;
’Twould lend a cheering glow.

I’d like a tree to mark the spot
Where I am laid to rest,
To me ‘twould be an epitaph
That I would love the best.

And though not carved upon a stone
For those who come to see,
My friends would know that resting here
Is one who loved a tree."

quinta-feira, 19 de junho de 2025

O Incrível Reino das Plantas


Um documentário essencial para nos fazer perceber a importância e a inteligência desses seres fantásticos que nos acompanham na nossa jornada de vida: as plantas.   Veja "O Incrível Reino das Plantas" na RTP Play

Uma imersão inédita no mundo das plantas para decifrar as suas capacidades surpreendentes.  

Descobertas científicas recentes abalaram as certezas sobre um mundo que pensávamos muito diferente do nosso. Investigadores em França, Bélgica e Alemanha decidiram explorar o mundo vegetal para tentar compreender o funcionamento e a natureza profunda das plantas. 

As plantas possuem sentidos, como a propriocepção (este sentido permite-nos sentir o próprio corpo), mas também o tacto e a gravidade.

Conseguem perceber o ambiente e reagir de acordo. Por exemplo, as árvores podem endireitar-se quando estão inclinadas e podem reduzir o seu crescimento em altura quando expostas a ventos fortes.

"Uma árvore exposta a um vento invulgar reduzirá o seu crescimento em altura e aumentará o seu crescimento em diâmetro, produzindo mais raízes." - Bruno Moulia, investigador da Universidade Blaise Pascal e do INRA em Clermont-Ferrand

Mecanismos de Comunicação
As plantas comunicam através de sinais químicos, mas também podem comunicar através de sinais físicos, como vibrações ou campos elétricos.

Os sinais químicos utilizados pelas plantas podem ser divididos em duas categorias: sinais voláteis, que são libertados para o ar e utilizados para alertar para perigos, atrair polinizadores ou partilhar recursos; e sinais não voláteis, que são libertados no solo ou nos tecidos vegetais e utilizados para a comunicação entre raízes ou para controlar o seu crescimento e desenvolvimento.

"A comunicação consiste principalmente na transmissão de informação entre as diferentes partes do corpo, a nível biológico. Nos animais vertebrados, o sistema nervoso desempenha esse papel primordial. No entanto, mesmo nas plantas, a transmissão de informação por meios químicos, hidráulicos ou mesmo elétricos existe entre as suas diferentes partes, como em qualquer organismo", sublinha o investigador Quentin Herniaux, professor da Universidade Livre de Bruxelas.

Plantas: Uma Sensibilidade a Redescobrir
O documentário questiona os investigadores sobre as formas de inteligência e sensibilidade nas plantas. Os exemplos são abundantes. As plantas conseguem sentir o tato, como quando as folhas da mimosa se dobram quando beliscadas. Mas também podem aprender a evitar pesticidas que as matam ou adaptar-se ao seu ambiente e às alterações climáticas, modificando o seu crescimento ou metabolismo. Podemos, no entanto, dizer que se trata de uma forma de inteligência?

Embora algumas interpretações sejam atualmente objeto de debate, especialistas de diferentes disciplinas concordam que temos de redefinir os nossos conceitos de sensibilidade, comunicação, inteligência e reconhecer que as plantas são dotadas destas capacidades, à sua maneira e de acordo com a sua própria biologia. O mundo das plantas poderá até fornecer-nos soluções saudáveis para o nosso futuro. Está na hora de rever os nossos conceitos sobre as plantas e perceber que temos de as ter mais em consideração.

Título Original: Le Incroyable Royaume des Plantes
Realização: Céline Malèvre
Ano: 2023 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Universidade de Coimbra confirma segurança de agente de controlo biológico para combater a acácia


Um estudo liderado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) confirma a segurança ecológica de Trichilogaster acaciaelongifoliae, o primeiro agente de controlo biológico introduzido em Portugal continental para combater a planta invasora acácia-de-espigas (Acacia longifolia).

Este trabalho, liderado por Francisco López-Núñez, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC, está publicado na revista Restoration Ecology e representa um marco no rigor do acompanhamento pós-libertação de agentes de controlo biológico.

«A Trichilogaster acaciaelongifoliae é uma pequena vespa nativa da Austrália, que atua depositando ovos nos botões florais e vegetativos da acácia-de-espigas, formando galhas que interrompem a sua capacidade de reprodução e dispersão de sementes e crescimento, respetivamente. Após extensivos testes de especificidade, este agente de controlo biológico foi selecionado e libertado em 2015 em vários locais do litoral português», explica Francisco López-Núñez.

Três anos após a introdução deste agente de controlo biológico, uma equipa de investigadores da FCTUC e do Instituto Politécnico de Coimbra demonstrou, através de análise de redes tróficas complexas, que este inseto altamente especializado não causou impactes negativos, diretos ou indiretos, em espécies não-alvo.

O estudo incluiu a análise e identificação de 154 espécies de plantas, cerca de 45 mil galhas e 11 mil insetos no Litoral Centro de Portugal, além da construção e análise de redes tróficas complexas entre plantas, galhas e parasitoides. Os resultados mostram que, quando devidamente planeado e monitorizado, o controlo biológico pode ser uma estratégia segura e eficaz para ajudar a restaurar ecossistemas invadidos, com impacte mínimo sobre a biodiversidade nativa.

«A ausência de efeitos não desejados sobre outras plantas e insetos nativos é um sinal muito promissor. Este é um passo pioneiro na Península Ibérica, e muito importante para aumentar a confiança no uso sustentável do controlo biológico na conservação da natureza. Este estudo reforça a importância da monitorização a longo prazo e demonstra que é possível avaliar detalhadamente as interações ecológicas geradas por agentes de controlo biológico», conclui Francisco López-Núñez.

O artigo científico “Three-trophic level food webs support the safety of a biocontrol agent 3 years after release” pode ser consultado aqui.

domingo, 8 de junho de 2025

Petição - Lei de proteção dos carvalhos autóctones

Carvalho-de-Monchique

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,

Os signatários vêm por este meio solicitar a V. Ex.ª que submeta à consideração desse hemiciclo, a casa da democracia portuguesa, a urgente necessidade de criação de um enquadramento legal que assegure a proteção efetiva dos carvalhos autóctones portugueses e das formações florestais naturais onde estes se inserem.

A degradação e desaparecimento progressivo dos carvalhais — habitats únicos e de elevado valor ecológico, climático, paisagístico e cultural — resulta da ausência de legislação nacional específica, que permita salvaguardar estes ecossistemas singulares da pressão crescente sobre o uso do solo, do corte indiscriminado, da expansão de monoculturas e da proliferação de espécies exóticas invasoras.

A presente petição propõe:
- O reconhecimento legal da importância ecológica e biogeográfica dos carvalhos autóctones, com destaque para o carvalho-cerquinho (Quercus faginea), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), o carvalho-galego (Quercus orocantabrica) e o carvalho-de-monchique (Quercus canariensis);
- A criação de critérios técnicos claros para a sua proteção, conservação e restauro;
- A implementação de mecanismos de compensação, incentivo e apoio à conservação em propriedades privadas e públicas;
- A valorização do arvoredo isolado e das florestas climácicas com importância ecológica, genética e patrimonial.

Num contexto de alterações climáticas e perda de biodiversidade, proteger os carvalhos autóctones é também investir na resiliência do território e na preservação da identidade natural de Portugal.

Assinar e partilhar a Petição aqui

6 Ways Trees Benefit All of Us




Trees have been with us throughout our whole lives. They’re the background of a favorite memory and that welcome patch of green our eyes seek as we gaze out our windows.

While they are silent and stationary, trees hold tremendous powers, including the power to make all our lives better and healthier.

1: Trees help fight climate change.
Through photosynthesis, trees absorb carbon dioxide from the air and store it in its wood. Trees and plants will store this carbon dioxide throughout their lives, helping slow the gas’s buildup in our atmosphere that has been rapidly warming our planet.

In the U.S., forests are one of the most promising natural climate solutions—that is actions to protect, better manage or restore nature to store more carbon. Trees are looking out for us, so we have to look out for them. Older, larger trees store a lot more carbon than young trees, so it’s important that in addition to planting new trees, we conserve and protect ancient giants of old growth forests.

2: Trees boost our mental and physical health.
A healthy tree can lead to a healthy you and me. A study by a TNC scientist shows that time in nature—like a walk among the trees in a city park—correlates with a drop in anxiety and depression. In Louisville, Kentucky, researchers have found that planting 9,000 trees improved neighbors' health conditions that are linked to heart disease, stroke and some types of cancer.

The good news: it doesn’t take a lot of time in nature for these soothing powers to kick in. You may have felt the benefits from a short walk or hike in your neighborhood. We’re drawn to green spaces, and for good reason.

Access to nearby green space also contributes to better physical health by encouraging us to move around and exercise. Because we move around more when we have access to trees and parks, nature can help lower rates of obesity.

How does nature improve your health? (2:04) Spending more time around nature can do amazing things for your health. In fact, taking care of the planet is one of the best things we can do to take care of ourselves.

3: Trees clean the air so we can breathe more easily.
Leave it to leaves. Trees remove the kind of air pollution that is most dangerous to our lungs: particulate matter. This pollution arises from the burning of fossil fuels and can reach dangerous concentrations in the largest cities as well as in neighborhoods near highways and factories.

Trees’ leaves will filter this dangerous pollution, but only if they’re planted near the people who need them; most of the filtration occurs within 100 feet of a tree. More trees in cities, especially in lower-income neighborhoods close to highways and factories, can reduce ailments like asthma and heart disease that cause 5% of deaths worldwide.

4: Trees and forests provide habitat for a diversity of life.
A forest is more than a collection of trees. It is a complex ecosystem of diverse plants and animals. And this interconnected relationship of all forest species ensures the whole forest thrives—from soil to canopy. Old-growth forests, the forests that we need to protect most urgently, create habitats at the ground level, at the top of their tree canopies, and everywhere in between. All of these different habitats in a single area allow so many diverse species to thrive.

5: Trees cool down your life, and could even save it.
Trees give us all shade—and that’s a good thing! Temperatures are rising and heatwaves are getting longer due to climate change. Some places feel the heat more than others. Neighborhoods with lots of pavement absorb more heat and can be five to eight degrees hotter than surrounding areas. These areas also stay hotter later into the night, which is detrimental to our health.

Enter our branchy, leafy neighbors. A tree’s shade acts like a natural air conditioning and can even keep down the energy costs of our actual air conditioning systems, which are increasingly working overtime.

6: Trees and forests filter your water, making your drinking supply cleaner and more reliable.
Raise a glass to a tree near you! Actually, raise your glass to trees far from you, as your water has traveled on a long journey to your faucet. Trees store and filter more than half of the water supply in the United States.

Forests do this by removing pollutants and sediments from rainfall and then slowly releasing the water back into waterways and underground aquifers. Thanks to trees, this naturally cleaner water is easier and cheaper to treat before it ends up in your tap. The water supply is also steadier because all of the rainwater didn’t end up in a river right away; it seeped through these natural filters over time.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

A Nação das Plantas

Existe uma nação sem hierarquias ou fronteiras onde é proibido o uso de recursos naturais não renováveis. É a “Nação das Plantas”, cuja Constituição foi escrita pelo botânico italiano Stefano Mancuso.

Ver as coisas do ponto de vista das plantas é revolucionário. Somos quase o oposto delas. Nós consumimos energia e recursos. Elas produzem. Nosso organismo é concentrado e hierárquico. O delas é difuso, em rede. Fizemos o mundo à nossa imagem: todas as organizações são hierárquicas, há sempre uma “cabeça” no topo que toma todas as decisões. Isso é muito ineficiente. As plantas não têm nada que se compare ao nosso cérebro. Funcionam em rede, como a internet. Todas as decisões são tomadas localmente.

“A Nação das Plantas” imagina uma Constituição vegetal.
A Constituição das plantas tem oito artigos. O primeiro afirma que a nação das plantas reconhece a Terra como o lar comum de toda a vida e que todo ser vivo é soberano. A nação das plantas não reconhece nenhuma hierarquia ou fronteiras e proíbe o consumo de quaisquer recursos que não sejam renováveis para as próximas gerações.

Sobre o Autor
Stefano Mancuso nasceu em 1965, em Catanzaro, na Itália. É formado pela Università degli Studi di Firenze (UniFI). Em 2005, fundou o LINV – International Laboratory of Plant Neurobiology, um laboratório dedicado à neurobiologia vegetal, que explora a sinalização e a comunicação entre plantas em todos os seus níveis de organização biológica. Em 2012, participou do projeto Plantoid e projetou um robô para que agisse e crescesse como uma planta. Em 2014, ele abriu, na UniFI, uma start-up dedicada à biomimética vegetal, ramo que envolve artefatos tecnológicos imitando determinadas capacidades das plantas, e desenvolveu um modelo de estufa flutuante chamado “Jellyfish Barge”. É considerado um dos expoentes da neurobiologia vegetal. Publicou, entre outros, os livros, "Revolução das plantas", "A incrível viagem das plantas" e "Planta do mundo"

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Solos que defendem: a importância da vida subterrânea na resiliência do montado


Quando se avalia a vitalidade de uma árvore, é natural começar pela observação da copa. A morfologia da ramagem, a coloração da folha, a densidade do rebentamento e a presença de necroses periféricas são sinais úteis de diagnóstico. No entanto, limitar a leitura à parte aérea é negligenciar aquilo que sustenta a árvore em permanência: o solo. Não como substrato físico, mas como sistema vivo. Um sistema onde coabitam milhares de organismos por grama, estruturados em cadeias tróficas subterrâneas que regulam a disponibilidade de água, a dinâmica nutricional, a estabilidade radicular e, num sentido mais profundo, a capacidade de resposta do ecossistema face ao stresse.
Falar em solo vivo implica reconhecer a sua função como interface biofísico entre a planta e o território. Implica também admitir que a saúde da árvore é inseparável da complexidade da microbiota edáfica que a rodeia.
Quando essa complexidade se degrada, por disrupção da estrutura física, mineralização excessiva da matéria orgânica, acidificação não compensada ou colapso da diversidade microbiana, o solo deixa de atuar como mediador ecológico e passa a funcionar como meio permissivo. É nesse contexto que as árvores se tornam vulneráveis ao avanço de agentes patogénicos radiculares e à instalação de pragas oportunistas. Não por causa da sua genética ou da idade, mas por perda de simbiose e de capacidade simbiótica.
A literatura científica designa por solos supressores aqueles que, pela ação combinada de fungos antagonistas, bactérias benéficas, nemátodes predadores, complexidade porosa e equilíbrio bioquímico, limitam ou inibem a expressão de organismos fitopatogénicos. Esta capacidade de supressão biológica não se refere a um efeito pontual, mas a uma propriedade emergente de um sistema que mantém relações de antagonismo funcional no plano microbiano. Microrganismos como Trichoderma spp., Gliocladium, Bacillus subtilis, Pseudomonas fluorescens, entre outros, competem com agentes como Phytophthora cinnamomi, Armillaria mellea ou Fusarium oxysporum por espaço, nutrientes e acessos à zona rizosférica. A sua presença ativa desencadeia mecanismos de resistência sistémica induzida na planta hospedeira, que se traduzem em maior resiliência aos fatores bióticos de pressão.
Nos montados do sul do país, onde predomina a azinheira e o sobreiro, os sistemas radiculares estabelecem simbioses ectomicorrízicas com fungos do género Tuber, Boletus, Scleroderma, entre outros. Estas associações expandem a área de absorção radicular, reforçam a tolerância hídrica, facilitam a disponibilização de macro e micronutrientes e ativam defesas endógenas contra agentes de apodrecimento e necrose radicular. A sua ausência, observada em muitos solos compactados ou sujeitos a práticas disruptivas de mobilização e aplicação excessiva de químicos de síntese, precede frequentemente os surtos de declínio e a colonização lenhosa por insectos xilófagos como Cerambyx cerdo, Platypus cylindrus ou os vectores de Biscogniauxia mediterranea.
A questão, portanto, não é apenas se o solo é fértil, mas se é funcionalmente simbiótico e defensivo. E isso exige outro tipo de leitura em campo. O cheiro húmico, a friabilidade da camada superior, a atividade de fauna edáfica (como colêmbolos, formigas estruturantes, minhocas), a presença de pastagens perenes com efeitos alelopáticos, a ausência de escorrência superficial e a presença de micorrizas aderentes às radículas finas são sinais que indicam um solo com capacidade suprimente. Em contrapartida, a crosta superficial após precipitação, a compactação à pressão manual, a ausência de macrofauna, a mineralização visível sem humificação e a presença crónica de árvores cloróticas, apontam para um ecossistema edáfico em perda de função.
Recuperar essa função não é uma questão de adubação. É um processo de regeneração sistémica. Começa pela compostagem localizada, pela inoculação direcionada de fungos simbióticos, pelo estabelecimento de coberturas vegetais biodiversas que respeitem as fases fenológicas da azinheira, pela eliminação de mobilizações e pela ativação dos ciclos de carbono a partir de matéria vegetal in situ. Ao fim de dois a três ciclos, é possível observar um reforço da rebentação vegetativa, um aumento da densidade foliar e, sobretudo, a redução da frequência e da intensidade dos surtos de pragas e doenças. Não por ausência de risco externo, mas por reconstituição da barreira subterrânea. A médio prazo, este tipo de abordagem reduz custos com fitossanidade, diminui a dependência de inputs externos e contribui diretamente para a recuperação produtiva dos povoamentos em declínio.
O solo pode não ser visível, mas é o elemento estrutural da resiliência. Um montado com solo vivo não é um sistema fechado. É um sistema adaptativo, capaz de modular as pressões a que está sujeito sem entrar em colapso. A árvore, nesse contexto, deixa de ser uma unidade isolada e passa a ser parte de um organismo mais vasto e interdependente. É esse organismo que importa restaurar.

Ricardo Dinis

Diretor de Projeto e Investigação nas Florestas de Iroko

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico - é um dever civilizacional

Fonte: aqui
Cresci a reconhecer as árvores que moldaram os lugares mais marcantes da minha infância. Os carvalhos e os pinheiros-bravos eram cúmplices nas subidas aos montes junto à casa dos meus avós, no Minho. À sombra de uma nogueira imponente ficava o meu baloiço predileto, e eram os pinheiros mansos, alinhados sobre as dunas, que testemunhavam os piqueniques familiares de Verão, em rituais que pareciam suspensos no tempo.
Recordo com nitidez as árvores de fruto que visitava em ritmos sazonais: tangerineiras e laranjeiras, macieiras e pereiras, pessegueiros e cerejeiras, ameixoeiras que me desafiavam em tardes demoradas sobre os seus ramos. Havia ainda uma figueira, cúmplice das delícias do meu avô, e os castanheiros, cuja frutificação exuberante anunciava o fim das férias. Estas foram as árvores da minha infância - presenças silenciosas, mas constantes, cuja generosidade eu reconhecia como um gesto natural do mundo.
Mais tarde, já no percurso universitário em Biologia, reencontrei essas mesmas árvores, agora com outros nomes. Aprendi a designá-las como Quercus faginea, Quercus suber, Quercus pyrenaica, Pinus pinaster, Pinus pinea. Em visitas de estudo, do Gerês à Serra da Arrábida, comecei a distinguir as espécies, os seus habitats, os padrões de ecológicos e as suas relações íntimas com a paisagem.
Foi nesse contacto aprofundado que tomei consciência da vulnerabilidade de muitas espécies e da urgência de estratégias para a sua conservação. A fisiologia vegetal revelou-se para mim um domínio científico de assombro: a forma como as árvores extraem água e nutrientes do solo, muitas vezes a profundidades impressionantes, e os transportam até à copa sem romper o seu complexo sistema condutor, numa coreografia invisível de elegância e precisão. Essas árvores, que germinam e crescem num mesmo local, enfrentam ali todas as adversidades, conquistam os seus aliados naturais, otimizam as suas funções, tudo no único espaço vital que conhecem.
Nos últimos anos, tornou-se recorrente, e com fundamento, o debate sobre a desflorestação e a perda irreparável que representa para a Humanidade. Reconhece-se hoje, de forma mais clara, o papel estruturante das árvores na estabilidade dos solos, na regulação do ciclo hidrológico, na produção de oxigénio e na fixação de carbono atmosférico.
Mas para além das métricas e funções dos ecossistemas, as árvores possuem um estatuto singular no imaginário humano. As árvores habitam-nos. São raízes da nossa história, sombras da nossa infância, matéria-prima da memória e da imaginação. Inspiram mitos, preservam rituais, atravessam gerações. Têm uma longevidade que desafia o tempo humano. Uma beleza que não pede licença. Um metabolismo que é puro engenho.
Conservar as árvores não é apenas um imperativo ecológico; é um dever civilizacional. Porque nelas se enraíza não apenas a floresta, mas também parte do que somos, do que recordamos e do que ainda poderemos ser.

PS: O Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado a 22 de maio, assinala a adoção da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (1992). Em 2025, o tema “Harmonia com a natureza e desenvolvimento sustentável” destaca a articulação entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, apelando à ação conjunta de governos, setor privado, academia e sociedade civil para integrar a biodiversidade na luta contra a pobreza e acelerar a implementação dos Planos Nacionais de Biodiversidade.

Ler mais:
António Guterres: Humanidade está a destruir a biodiversidade

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Place de Catalogne


A  Place de Catalogne , localizada no 14º arrondissement de Paris, sofreu uma transformação impressionante. Outrora uma praça circular pavimentada em pedras, projetada pelo arquiteto catalão Ricardo Bofill na década de 1980, foi reinventada como uma exuberante floresta urbana. Até 2024, mais de 470 árvores transformaram o espaço num próspero oásis verde no coração da cidade.

Contra o abate de sobreiros em Condeixa-a-Nova



Porque não instalam estes projetos em solos pobres, impróprios para cultivo ? Em solos secos e degradados, como antigos povoamentos de eucalipto, abandonados? Isso sim até contribuiria para redução de risco de incêndios no Verão ! Ou em áreas ocupadas por várias espécies de plantas exóticas invasoras, como mimosas e acácias, que são cada vez mais extensas em Portugal devido ao êxodo e abandono rural?

Não faz qualquer sentido destruir áreas importantes do ponto de vista da biodiversidade, áreas que abrigam espécies de plantas e animais autóctones, cada vez mais ameaçadas, e de todos os benefícios que proporcionam às populações!

As Árvores VIVAS sustentam Vidas e RETIRAM CARBONO DA ATMOSFERA.
ESTAMOS NA PRIMAVERA, ÉPOCA DE REPRODUÇÃO DAS AVES E OUTRAS ESPÉCIES dependentes das árvores para alimento e abrigo, para ninhos! Onde está o ICNF, Instituto de de Conservação da Natureza e Florestas? Onde está a APA, Agência Portuguesa do Ambiente a defender a SAÚDE AMBIENTAL E SAÚDE HUMANA?

Nem os nossos avós, camponeses analfabetos, fariam semelhante coisa. Eles tinham SABEDORIA E AMOR À TERRA. JAMAIS FARIAM UM CORTE RASO DE TODO O SEU PATRIMÓNIO ARBÓREO!

Saberão os proprietários que hoje há medidas que podem permitir um rendimento do Estado por manterem as suas arvores VIVAS pelos benefícios prestados à comunidade ?
Já agora, qual o destino que estas empresas pretendem dar à madeira retirada dos terrenos despidos de vegetação?

Será que vai ser usada para mobiliário e outros bens de longa duração, que sequestram o carbono capturado em vida pelas árvores?

Ou será essa madeira encaminhada para queimar na forma de pellets na queima residencial urbana para aquecimento das casas no inverno, ou em caldeiras e centrais que queimam a madeira e libertam dióxido e monóxido de carbono entre dezenas de outros poluentes, como os compostos orgânicos voláteis, o carbono negro, a matéria particulada fina e ultrafina?

Não estaremos A AUMENTAR A EMISSÃO DE GASES COM EFEITO DE ESTUFA NA EUROPA E EM PORTUGAL com este tipo de transição? A. AGRAVAR O PROBLEMA DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E AQUECIMENTO GLOBAL?

Parece-me que estamos a fazer o oposto do que deve ser feito e a criar um sério risco de saúde pública, seja pelo impacte directo da destruição local do arvoredo, seja pela fomentação da queima de biomassa lenhosa noutros locais do país. O fumo da queima de madeira é altamente poluente, aumenta o risco de doenças respiratórias e cardíacas, diabetes, hipertensão , cancro e até demência, a longo prazo.
Substituir as melhores "máquinas" de captura de carbono que são os SERES VIVOS que fazem FOTOSSÍNTESE, como as árvores, arbustos e ervas, e a biomassa do solo por painéis solares com duração limitada levará à contaminação dos solos por plásticos, metais e possivelmente herbicida - isto em áreas saudáveis, ricas em espécies nativas de flora e fauna.
Isto faz algum sentido ?
É esta a forma correcta de gerar energia ?
É esta a energia VERDE" e "LIMPA"? que nos estão a vender ?
Queimam árvores para electricidade na indústria e nas centrais de biomassa isoladas. Queimam toneladas por ano na queima residencial urbana que arruína a qualidade do ar nas aldeias urbanizadas, nas vilas e cidades, por todo o país.
Queremos a Transição MAS ASSIM É UMA ABERRAÇÃO. Uma insanidade. Assim NÃO.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Captura de gases libertados por inaladores exige plantar 1,3 milhões de árvores em Portugal


Um artigo hoje divulgado estima que seria necessário plantar anualmente em Portugal mais de 1,3 milhões de árvores para capturar os gases libertados na atmosfera pelos inaladores pressurizados, usados no tratamento de doenças respiratórias como a asma.

O artigo, com coassinatura do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, é divulgado na Acta Médica Portuguesa, publicação da Ordem dos Médicos, e refere que "com o aumento do volume de vendas dos inaladores pressurizados tradicionais", que utilizam gases fluorados com efeito de estufa, responsáveis pelo aquecimento global, "aumenta também o seu impacto ambiental".

Segundo o artigo, que tem como referência dados de 2022, a pegada carbónica dos inaladores pressurizados tradicionais prescritos em Portugal foi estimada em 30.236 toneladas de dióxido de carbono (CO2), o equivalente a cerca de 0,84% das emissões totais do setor da saúde no país e a aproximadamente 95% do total de emissões dos inaladores.

"O impacto carbónico destes dispositivos equivale à pegada de 150 viagens transatlânticas entre Londres e Nova Iorque, e seria necessário plantar anualmente mais de 1,3 milhões de árvores para capturar estes gases da atmosfera", salienta o texto.

Por definição, a pegada carbónica corresponde ao volume total de gases com efeito estufa gerado pelas atividades económicas e quotidianas, sendo expressa em toneladas de CO2 emitidas para a atmosfera.

No artigo, o Conselho Português para a Saúde e Ambiente e várias sociedades médicas listam uma série de recomendações para reduzir o impacto ambiental dos inaladores em Portugal, incluindo a prescrição de inaladores de pó seco, a aplicação de estratégias de incentivo à devolução de dispositivos usados nas farmácias e ao seu reaproveitamento e a introdução nas plataformas de prescrição de um mecanismo de alerta sobre a pegada ecológica de cada inalador, com um sistema de cores.
A lista de recomendações engloba também a promoção da literacia ecológica de doentes e público em geral, a divulgação de boas práticas de sustentabilidade ambiental na saúde e a aplicação de critérios de emissões líquidas de gases com efeito de estufa tendencialmente nulas nas compras, contratações e adjudicações públicas.

Um inquérito realizado para este artigo a 348 médicos revelou que mais de 70% não têm em conta os aspetos ambientais no ato da prescrição de inaladores, embora metade assuma conhecer a pegada ambiental dos dispositivos.

O texto sublinha, a este propósito, que "os profissionais de saúde têm o dever ético de participar ativamente na luta contra as alterações climáticas e a degradação ambiental, e pela redução da pegada ecológica do setor da saúde, não só como cuidadores, mas também como 'defensores' dos doentes".

O artigo teve o contributo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e da associação de doentes Respira.

Criado em 2022, o Conselho Português para a Saúde e Ambiente é uma organização não-governamental que visa, nomeadamente, "defender a necessidade do setor da saúde de reduzir a sua pegada ecológica".

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Chimpanzés poderão estar a automedicar-se com plantas medicinais


Os chimpanzés parecem consumir plantas com propriedades medicinais para tratar as suas doenças, de acordo com um estudo publicado na revista PLOS ONE por Elodie Freymann da Universidade de Oxford, Reino Unido, e colegas.

Muitas plantas produzem compostos que têm efeitos medicinais nos seres humanos e noutros animais. Os chimpanzés selvagens comem uma grande variedade de plantas, incluindo algumas que são nutricionalmente pobres mas que podem tratar ou atenuar os sintomas de doenças.

No entanto, é difícil determinar se os chimpanzés se auto-medicam, procurando intencionalmente plantas com propriedades que ajudem as suas doenças específicas, ou se consomem passivamente plantas que por acaso são medicinais.

Os autores do presente estudo combinaram observações comportamentais de chimpanzés selvagens (Pan troglodytes) com testes farmacológicos das plantas potencialmente medicinais que comem. Monitorizaram o comportamento e a saúde de 51 chimpanzés de duas comunidades habituadas na Reserva Florestal Central de Budongo, no Uganda.

Em seguida, recolheram extratos de plantas de 13 espécies de árvores e ervas da reserva, que suspeitavam que os chimpanzés poderiam estar a utilizar para se automedicarem, e testaram as suas propriedades anti-inflamatórias e antibióticas.

Estas incluíam plantas que observaram os chimpanzés doentes ou feridos a comer, mas que não faziam parte da sua dieta normal, e plantas que investigações anteriores sugeriram que os chimpanzés poderiam consumir pelas suas propriedades medicinais.

88% dos extratos de plantas inibiam o crescimento bacteriano
Os investigadores descobriram que 88% dos extratos de plantas inibiam o crescimento bacteriano, enquanto 33% tinham propriedades anti-inflamatórias. A madeira morta de uma árvore da família Dogbane (Alstonia boonei) apresentou a atividade antibacteriana mais forte e também tinha propriedades anti-inflamatórias, sugerindo que poderia ser utilizada para tratar feridas.

A casca e a resina da árvore de mogno da África Oriental (Khaya anthotheca) e as folhas de um feto (Christella parasitica) apresentaram efeitos anti-inflamatórios potentes.

Os investigadores observaram um chimpanzé macho com uma mão ferida a procurar e a comer folhas do feto, o que pode ter ajudado a reduzir a dor e o inchaço. Também registaram um indivíduo com uma infeção parasitária a consumir casca da árvore espinho-de-gato (Scutia myrtina).

Os resultados sugerem que os chimpanzés procuram plantas específicas pelos seus efeitos medicinais. O estudo é um dos primeiros a fornecer provas comportamentais e farmacológicas dos benefícios medicinais para os chimpanzés selvagens de se alimentarem de cascas e madeira morta.

As plantas medicinais que crescem na Reserva Florestal Central de Budongo também podem ser úteis para o desenvolvimento de novos medicamentos para enfrentar os desafios das bactérias resistentes aos antibióticos e das doenças inflamatórias crónicas, dizem os autores.

Os autores concluem: “Neste artigo, demonstramos como observar e aprender com os nossos primos primatas pode acelerar a descoberta de novos medicamentos, ao mesmo tempo que enfatizamos a importância de proteger as nossas farmácias florestais”.

sábado, 15 de junho de 2024

Homens que cortaram árvore centenária, destruindo património mundial, vão a julgamento no Reino Unido


Daniel Graham e Adam Carruthers: são os nomes dos homens acusados de ter abatido uma árvore centenária e causado danos na muralha de Adriano. O julgamento dos dois suspeitos, no Tribunal da Coroa britânico, começa esta quarta-feira.

O caso começou a 28 de setembro do ano passado, quando o Parque Natural de Northumberland, no norte de Inglaterra, acordou com a notícia que que a árvore com mais de 150 anos tinha sido deliberadamente cortada. A árvore, um bordo, ficou famosa por crescer solitária num vale da planície, uma imagem cinematográfica que ficou imortalizada no filme de 1991 Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões.

Depois de cortada, a árvore caiu em cima da Muralha de Adriano, uma fronteira do tempo do império romano que se estendia ao longo de mais de 100 quilómetros, de oeste ao este da Grã-Bretanha. A ruína, que foi declarada Património Mundial da UNESCO em 1987, ficou parcialmente destruída pela queda da árvore.

Segundo a BBC, a polícia britânica abriu uma investigação ao caso, para averiguar os culpados, acabando por deter Graham e Carruthers em abril deste ano.

Os suspeitos foram depois presentes ao tribunal de Newcastle no dia 15 de maio. A procuradora Rebecca Brown, citada pela AP, declarou que o custo dos danos aos dois marcos emblemáticos ultrapassou as 620 mil libras (cerca de 735 mil euros). “A acusação diz que a árvore foi deliberadamente abatida em 28 de setembro do ano passado e que a queda resultante danificou a Muralha de Adriano, Património Mundial da UNESCO”, afirmou Brown no tribunal.

Os homens enfrentam duas acusações de crime de dano. Em tribunal, Daniel Graham declarou-se inocente, enquanto Carruthers não se pronunciou.

A juíza Zoe Passfield acabou por redirecionar o caso para o Tribunal da Coroa, responsável pela apreciação dos casos penais graves. Justificou-se, dizendo que “o caso é demasiado grave para ser julgado no tribunal de magistrados”. Nas suas declarações, citadas pela Sky News, Passfield afirmou: “Estou ciente de que os ânimos estão exaltados em relação a este caso”.

O caso mediático começa a ser julgado no Tribunal da Coroa de Newcastle, esta terça-feira, dia 12 de junho. Entre os dois julgamentos, os suspeitos foram libertados sob fiança.

sábado, 1 de junho de 2024

Conto: Arlindo


Num mundo onde as estrelas sussurravam segredos e a lua brilhava com uma familiaridade perturbadora, vivia um homem chamado Arlindo. Seu rosto alongado exibia a expressão cansada de alguém que tinha visto muito e entendido muito pouco. Ele vagou por uma paisagem de árvores esqueléticas e pontiagudas e estruturas de pedra em ruínas, cada passo ecoando um som oco que reverberava pela noite.

As noites de Arlindo eram passadas sob o céu sinistro e rodopiante, onde as estrelas tremeluziam como os olhos de espíritos vigilantes. Os corpos celestes acima pareciam pulsar com vida própria, lançando um brilho fraco e assustador sobre o mundo abaixo. A lua, perpetuamente cheia, estava baixa e pesada, lançando longas sombras que se contorciam e giravam como gavinhas de sonhos esquecidos.

Uma noite, enquanto Arlindo caminhava por um caminho ladeado por pedras irregulares, ouviu uma voz. A princípio foi suave, um zumbido suave que parecia surgir da própria terra. Ele parou, olhando em volta, mas não viu nada. A voz ficou mais alta, mais distinta, formando palavras que envolviam sua mente como os tentáculos das sombras.

"Arlindo", sussurrou a voz, "você procura a verdade?"

Arlindo estremeceu, a sua respiração visível no ar frio da noite. "Quem é você?" ele perguntou, a sua voz pouco mais que um sussurro.

“Eu sou a voz das estrelas”, respondeu. "Eu sou o guardião dos segredos e o revelador das verdades. Você vagou por tanto tempo, em busca de um significado. Você deseja saber o que está além?"

O coração de Arlindo batia forte no peito. Ele passou a vida tentando compreender os mistérios do mundo, a estranha beleza do céu noturno e as sombras que pareciam ter vida própria. "Sim", disse ele, com a voz trémula de medo e esperança. "Eu quero saber."

A voz suspirou, um som que parecia carregar o peso do universo. "Então siga o caminho para a montanha. No pico você encontrará as respostas que procura."

O caminho para a montanha era traiçoeiro, serpenteando por florestas de árvores esqueléticas e planícies áridas. Quanto mais Arlindo se aproximava da montanha, mais o ar parecia vibrar com energia, as estrelas acima ficavam mais brilhantes e intensas. Ele sentiu como se estivesse sendo observado, guiado por forças invisíveis.

Quando finalmente atingiu o pico, Arlindo estava exausto. O vento uivava ao seu redor, trazendo consigo os sussurros das estrelas. No centro do cume havia uma única e antiga árvore, os seus galhos alcançando o céu como se estivesse em súplica.

"Toque na árvore", ordenou a voz.

Arlindo hesitou e depois estendeu a mão trémula. Assim que os seus dedos roçaram a casca áspera, o mundo ao seu redor mudou. As estrelas acima explodiram numa luz brilhante e o chão abaixo dele pareceu desaparecer. Ele se viu flutuando no vazio, cercado pelo cosmos rodopiante.

Naquele momento, Arlindo compreendeu. Ele viu as conexões entre todas as coisas, a delicada teia da existência que unia o universo. Ele viu o passado, o presente e a miríade de futuros possíveis, todos dispostos diante dele como uma tapeçaria. Os segredos das estrelas eram dele para serem vistos e, com eles, o fardo do conhecimento.

Quando ele voltou ao mundo, Arlindo mudou. A paisagem era a mesma, as árvores esqueléticas e as pedras em ruínas inalteradas, mas ele agora via a beleza na sua decadência, a poesia na sua existência. Os sussurros das estrelas já não o assombravam, mas o guiavam, companheiro constante na sua eterna busca pela compreensão.

E assim, Arlindo continuou a vagar, um guardião silencioso dos segredos do universo, sempre ouvindo os sussurros das estrelas e as histórias que elas tinham para contar.