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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Tendências recentes sobre o tráfico ilegal de marfim


1. Tendência global recente (2015–2024)
👉 Antes da COVID-19 (2015-2019):
O tráfico de marfim atingiu níveis muito elevados, com grandes apreensões de várias toneladas partindo sobretudo de África para a Ásia. Em 2019, houve apreensões recorde de marfim representando dezenas de toneladas. Wildlife Justice Commission+1


👉 Impacto da pandemia (2020-2024):
A pandemia de COVID-19 disrompeu fortemente as cadeias de tráfico, levando a:

  1. queda substancial no número de grandes apreensões de marfim;
  2. menor volume total reportado de apreensões em comparação com o período pré-pandemia;
  3. mercados ilegais aparentemente mais estáveis, porém em níveis mais baixos do que antes de 2020. Wildlife Justice Commission+1

📉 2. Estatísticas de apreensões recentes
✔ Entre 2023 e abril de 2025, cerca de 25 toneladas métricas de marfim foram confiscadas mundialmente, com a maior parte de grandes apreensões ainda sendo relatadas
👉 No entanto, especialistas observam que:
  1. pode haver menos detecções porque as redes criminosas estão melhorando as técnicas de ocultação e/ou mudando métodos operacionais;
  2. ou simplesmente porque a ação contra o tráfico tem sido mais eficaz em certos pontos. 
  3. Portanto, o volume de apreensões sozinho não fornece o quadro completo - mudanças nas técnicas de tráfico podem ocultar tendências reais.
🐘 3. Poaching e impacto sobre elefantes
📍 Estimativas anteriores (antes de 2018) mostraram que o tráfico de marfim estava ligado à morte de dezenas de milhares de elefantes por ano (ex.: até cerca de 40 000 elefantes mortos anualmente em alguns períodos históricos).
👉 Estas estimativas variam muito ao longo do tempo e dependem de dados de campo e modelagens, mas indicam o enorme impacto histórico do tráfico sobre populações de elefantes.

🌍 4. Factores que influenciam as tendências
📌 Redução da procura legal
Proibições e encerramentos de mercados domésticos (como na China e em outros países) reduziram a compra aberta de marfim, afetando a dinâmica global do tráfico
📌 Online e mercados ocultos
Apesar das proibições, vendas ilegais online continuam ativas, com plataformas sociais facilitando oferta e procura em alguns mercados regionais. 
📌 Ações de fiscalização e legislação
Leis mais duras e operações internacionais (como apreensões e cooperação policial) têm contribuído para reduzir algumas rotas de tráfico - embora redes criminosas ainda se adaptem

📊 Em resumo
Período Tendência do Tráfico de Marfim2015–2019

Queda significativa e estabilização 
Wildlife Justice Commission2023–2025 - Apreensões ainda grandes, mas menor que antes da pandemia 

Artigo Científico

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Craig, elefante ícone de Conservação da Natureza, morreu este fim-de-semana


Craig, o velho elefante que vivia no parque nacional de Amboseli, Quénia, morreu este fim-de-semana aos 54 anos de idade, aparentemente de velhice e devido ao desgaste da sua última série de molares. Este indivíduo era um símbolo, conhecido de muita gente

Apesar deste desfecho triste é positivo que Craig tenha conseguido ter uma vida longeva, a salvo das ameaças que continuam a pairar sobre esta espécie. As autoridades de conservação quenianas acompanharam a situação e tomaram as medidas para garantir que as presas deste magnífico animal, com 45 kg cada, não foram desviadas para fins ilícitos.

Fonte: Amboseli Trust for Elephants

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Elefantes machos dão o sinal de “vamos” com sons profundos


Os elefantes reúnem-se na frescura da noite para beber. Depois de algum tempo, um macho sénior levanta a cabeça e afasta-se do charco. Com as orelhas a abanar suavemente, solta um ruído profundo e ressonante.

Os outros respondem, um a um, e as suas vozes sobrepõem-se num coro sonoro e infrasónico que sussurra por toda a savana. Este quarteto de barbearia de elefantes transmite uma mensagem clara: É altura de seguir em frente.

Gradualmente, os elefantes mudam de posição, os seus corpos maciços balançam à medida que seguem o seu líder ruidoso para a próxima paragem nas suas deambulações noturnas.

Pela primeira vez, cientistas da Universidade de Stanford e de outras instituições documentaram elefantes machos a usarem sons de “vamos” para assinalar o início da partida de grupos do charco de Mushara, no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia.

As vocalizações são iniciadas pelos machos mais integrados socialmente, e frequentemente os mais dominantes, em grupos sociais muito unidos.

As descobertas, apresentadas em pormenor na revista de acesso livre PeerJ, são surpreendentes porque se pensava que este comportamento era exclusivo das elefantes fêmeas em grupos familiares.

“Ficámos espantados ao descobrir que os elefantes machos, normalmente considerados como tendo laços sociais frouxos, se envolvem numa coordenação vocal tão sofisticada para desencadear ações”, disse a autora principal do estudo, Caitlin O’Connell-Rodwell, uma investigadora associada do Centro de Biologia da Conservação da Universidade de Stanford.

“Estas chamadas mostram-nos que há muito mais a acontecer na sua comunicação vocal do que se sabia anteriormente”, acrescentou.

Um projeto de 20 anos
O’Connell-Rodwell gravou pela primeira vez o estrondo do macho “ vamos lá” em 2004, enquanto realizava trabalho de campo à noite para compreender como as vocalizações dos elefantes se propagam pelo solo.

“Fiquei muito entusiasmada quando o consegui gravar”, recorda, sublinhando que “foi emocionante perceber que estes machos estavam a usar uma coordenação vocal complexa, tal como as fêmeas.”

De 2005 a 2017, a equipa recolheu dados no charco de Mushara, principalmente durante as estações secas. Utilizaram equipamento de gravação de alta tecnologia, incluindo microfones enterrados e câmaras de vídeo de visão noturna, para captar as vocalizações infrasónicas, inaudíveis aos ouvidos humanos, e os comportamentos dos elefantes machos.

Os investigadores analisaram as vocalizações em busca de propriedades e padrões acústicos e utilizaram a análise de redes sociais para compreender as relações e a hierarquia entre os machos, registando quais os elefantes que iniciavam os estrondos, como os outros respondiam e a sequência de acontecimentos que conduziam às partidas coordenadas.

Um ritual transmitido
Os ruídos de “vamos embora” observados nos elefantes machos têm semelhanças impressionantes com os anteriormente registados nas elefantes fêmeas. De facto, O’Connell-Rodwell e a sua equipa colocam a hipótese de os elefantes machos aprenderem o comportamento quando são jovens.

“Eles cresceram numa família onde todas as líderes femininas participavam neste ritual”, disse O’Connell-Rodwell. “Pensamos que à medida que amadurecem e formam os seus próprios grupos, adaptam-se e utilizam estes comportamentos aprendidos para se coordenarem com outros machos”, acrescentou.

No caso dos elefantes machos e fêmeas, o grito do iniciador é seguido pelo ruído do indivíduo seguinte, com cada elefante a esperar que o som anterior quase termine antes de acrescentar a sua própria voz. Isto cria um padrão harmonioso e rotativo semelhante a um quarteto de barbearia, disse O’Connell-Rodwell.

“É muito sincronizado e ritualizado. Quando um vai alto, o outro vai baixo, e eles têm esse espaço vocal onde estão coordenando”, explicou.

Este estudo segue-se a outro estudo inovador que utilizou a IA para revelar que os elefantes selvagens têm nomes únicos uns para os outros, o que indica a utilização de substantivos na sua comunicação.

“No nosso artigo, mostramos que os elefantes estão a usar verbos na forma deste grito de ‘vamos embora’. Se eles estão a usar combinações de substantivos e verbos em conjunto, isso é sintaxe. Isso é linguagem”, disse O’Connell-Rodwell.

Mentoria de elefantes
Para além destes conhecimentos linguísticos, o estudo também revela que alguns elefantes machos dominantes desempenham papéis cruciais nos seus grupos sociais, ajudando a manter a coesão e a estabilidade.

“Estes indivíduos assumem papéis de mentores”, afirmou O’Connell-Rodwell. “Preocupam-se com estes jovens que são muito carentes e querem sempre estar em contacto físico. Os machos mais velhos estão dispostos a tomá-los sob a sua asa, a guiá-los, a partilhar recursos com eles e a participar nos seus altos e baixos emocionais”, acrescentou.

Nos países onde a caça é permitida, deve ter-se o cuidado de evitar caçar os elefantes machos mais velhos, socialmente ligados, acrescentou, uma vez que a sua remoção poderia perturbar a coesão social e as estruturas de tutoria nas populações de elefantes.

A investigação também sugere que fortes laços e interacções sociais são essenciais para o bem-estar dos elefantes machos em cativeiro e semi-cativeiro, salientando a necessidade de ambientes que apoiem estas estruturas sociais.

“As nossas descobertas não só sublinham a complexidade e a riqueza da vida social dos elefantes machos”, disse O’Connell-Rodwell, ”como também aumentam a nossa compreensão da forma como utilizam as vocalizações em rituais e coordenação e, na verdade, aproximam-nos da ideia de linguagem dos elefantes”, conclui.

domingo, 12 de maio de 2024

Elefantes cumprimentam-se uns aos outros combinando vocalizações e gestos


Os elefantes africanos (Loxodonta africana) podem mudar a forma como se cumprimentam uns aos outros, dependendo se o outro está a olhar para eles ou não, segundo um estudo de nove elefantes publicado na revista Communications Biology.

O estudo conclui também que os elefantes utilizam diferentes combinações de gestos, como o abanar das orelhas, e vocalizações, como as trombetas, nas suas saudações, o que pode promover o reconhecimento individual e a criação de laços sociais.

Investigações anteriores referiram que os elefantes participam frequentemente em rituais de saudação que envolvem vocalizações e ações físicas. No entanto, não é claro se estas ações físicas são gestos deliberados usados para comunicação e como os gestos e as vocalizações são combinados durante as saudações.

Vesta Eleuteri, Angela Stoeger e colegas estudaram as vocalizações e ações físicas utilizadas durante as saudações dos elefantes, observando elefantes africanos da savana semi-cativos que vivem na Reserva de Jafuta, no Zimbabué, entre novembro e dezembro de 2021. Observaram 89 eventos de saudação que consistiam em 1.282 comportamentos de saudação, dos quais 1.014 eram ações físicas e 268 eram vocalizações.

Os autores descobriram que os elefantes se cumprimentavam com combinações específicas de vocalizações e gestos, tais como roncos com batimento de orelhas ou espalhamento de orelhas, para além de outros movimentos físicos aparentemente menos deliberados, tais como levantar a cauda e abanar a cabeça.

A combinação de roncos e tapas nas orelhas foi a forma mais comum de saudação, embora tenha sido mais frequentemente utilizada entre fêmeas do que entre machos. Observaram também que a urina, a defecação e as secreções de uma glândula sudorípara exclusiva dos elefantes – conhecida como glândula temporal – estavam presentes em 71% dos cumprimentos, sugerindo que o cheiro pode desempenhar um papel importante durante o cumprimento.

Os autores também observaram que os métodos de comunicação utilizados pelos elefantes durante as saudações variavam consoante o sujeito da saudação estivesse a olhar para eles.

Os animais eram mais propensos a usar gestos visuais – tais como abrir as orelhas, alcançar a tromba ou balançar a tromba – quando estavam a ser observados, mas eram mais propensos a usar gestos que produziam um som – tais como bater com as orelhas no pescoço – ou a tocar o destinatário da saudação com a tromba quando não estavam a ser observados.

Em conjunto, os resultados sugerem que os elefantes se cumprimentam uns aos outros combinando vocalizações e gestos e que podem alterar deliberadamente os seus métodos de comunicação consoante tenham ou não a atenção visual do indivíduo que estão a cumprimentar.

Investigações anteriores relataram que os chimpanzés e outros macacos também combinam vocalizações e gestos e alteram os seus métodos de comunicação em resposta ao facto de estarem a ser observados. Os autores propõem que estes métodos de comunicação podem ter evoluído de forma independente nestas espécies distantemente relacionadas para mediar as interações sociais.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Presidente do Botsuana ameaça enviar 20.000 elefantes para a Alemanha


O Presidente do Botsuana ameaçou ontem a Alemanha com o envio de 20.000 elefantes, devido às críticas de Berlim à caça de paquidermes e à exportação de troféus, que o país utiliza para regular o número de animais.

Os alemães devem “viver com os animais que nos tentam ditar”, afirmou o Presidente do Botsuana, Mokgweetsi Masisi, em declarações ao diário alemão Bild, hoje publicadas.

“Não se trata de uma brincadeira”, esclareceu em relação à sua proposta de transferir 20.000 paquidermes para a nação europeia, acrescentando que “não aceitaria um não como resposta” a este “presente”.

O Botsuana, um país sem litoral na África Austral, alberga a maior população de elefantes do mundo, com cerca de 130.000 exemplares, com os quais é muitas vezes difícil coabitar, segundo o Presidente, que referiu os ataques a seres humanos, aldeias e culturas.

As críticas do Ministério do Ambiente alemão, que é dirigido por ambientalistas, têm sido dirigidas aos troféus de caça de elefantes comprados por clientes ocidentais abastados.

No início deste ano, o Ministério levantou a possibilidade de impor limites mais rigorosos à importação destes troféus devido aos problemas de caça furtiva.

“No seio da União Europeia (UE), estamos a discutir a possibilidade de alargar a exigência de autorização de importação (…) a outros troféus de caça de animais protegidos”, disse hoje uma porta-voz do Ministério à agência noticiosa France Presse (AFP).

A Alemanha é um dos maiores importadores de troféus de caça da UE, pelo que tem “uma responsabilidade especial” nesta matéria, acrescentou a porta-voz.

Quanto ao “presente” anunciado por Masisi, o Ministério do Ambiente alemão disse que “o Botsuana ainda não entrou em contacto” sobre o assunto.

Em 2019, o Botsuana levantou uma proibição total da caça, introduzida cinco anos antes para inverter o declínio das populações de elefantes e outras espécies.

Desde então, o Botsuana tem decidido todos os anos uma quota de animais que podem ser caçados, sendo a caça comercial também uma importante fonte de receitas locais.

O levantamento da proibição mereceu as críticas dos conservacionistas.

No ano passado, o país ofereceu 8.000 elefantes a Angola.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Amor de mãe elefante - Elephant mother love


Há fotografias que nos marcam. Como é possível abater elefantes? O tráfico de marfim? Em circos?

Os elefantes africanos são os maiores mamíferos terrestres do mundo, com os machos, em média, atingindo até 3m de altura e pesando até 6 toneladas.

Após o declínio populacional ao longo de várias décadas devido à caça ilegal de marfim e perda de habitat, o elefante africano da floresta está agora listado como criticamente ameaçado. O elefante africano da savana também está listado como ameaçado de extinção na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN.

O número de elefantes africanos da floresta caiu mais de 86% num período de 31 anos, enquanto a população de elefantes africanos da savana diminuiu pelo menos 60% nos últimos 50 anos, de acordo com as avaliações. Ambas as espécies sofreram declínios acentuados desde 2008 devido a um aumento significativo da caça furtiva, que atingiu o pico em 2011, mas continua a ameaçar as populações. Atualmente, existem cerca de 415.000 elefantes africanos em estado selvagem.

Outras grandes ameaças para ambas as espécies de elefantes africanos incluem a conversão contínua dos seus habitats naturais para agricultura e outros usos da terra.

Estamos a fazer o tudo o que podemos para ajudar, desde a monitorização de rebanhos até o treino de guardas florestais comunitários e a proteção do habitat. Ao proteger os elefantes, também estamos a ajudar a apoiar as comunidades locais por meio de medidas para reduzir o conflito entre humanos e elefantes e iniciativas para apoiar os meios de subsistência locais. Precisamos da sua ajuda para protegê-los.

Poque é que os elefantes africanos são tão importantes
Os elefantes desempenham um papel essencial no seu ambiente. Eles são “arquitetos paisagistas” – por exemplo, enquanto se movem e se alimentam, eles criam clareiras em áreas arborizadas, o que permite que novas plantas cresçam e as florestas se regenerem naturalmente.

E depois há a dispersão de sementes. Quando os elefantes comem plantas e frutas com sementes, as sementes muitas vezes ressurgem sem serem digeridas. É assim que muitas plantas se espalham. E os elefantes podem comer sementes grandes que animais pequenos não podem.

Sem os elefantes, a estrutura natural e o funcionamento das suas paisagens seriam muito diferentes, o que teria impactos na restante vida selvagem e nas pessoas que partilham aquele espaço.

A população local depende dos recursos naturais encontrados nos habitats dos elefantes, por exemplo, para alimentação, combustível e rendimento. Como um dos “cinco grandes” da vida selvagem de África, os elefantes são populares entre os turistas, o que pode ser uma importante fonte de rendimento para as comunidades.

Ao ajudar a proteger os elefantes, também ajudamos a garantir que seu ambiente e seus recursos naturais estejam disponíveis para as próximas gerações.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Afinal, os elefantes podem desempenhar um papel crucial na salvaguarda do Planeta



A preservação de populações de elefantes florestais em perigo crítico é crucial não só para os próprios animais, mas também para proteger as capacidades de sugar carbono dos ambientes em que vivem, revela um novo estudo.

A floresta tropical da África Central e Ocidental, que é a segunda maior da Terra, poderia perder 6 a 9% da sua capacidade de captura de carbono atmosférico se as comunidades de elefantes fossem dizimadas – acelerando ainda mais o aquecimento do planeta.

Os elefantes florestais desempenham um papel crucial no ciclo do carbono, ‘desbastando’ o dossel da floresta tropical comendo árvores mais altas de crescimento rápido que capturam menos carbono. Isto cria mais espaço e luz solar para as árvores de crescimento mais lento por baixo das quais capturam mais carbono do ambiente.

“Se perdermos elefantes florestais, estaremos a prestar um mau serviço global à mitigação das alterações climáticas”, diz o biólogo Stephen Blake da Universidade de Saint Louis, no Missouri.

“A importância dos elefantes florestais para a mitigação das alterações climáticas deve ser levada a sério pelos decisores políticos para gerar o apoio necessário para a conservação dos elefantes. O papel dos elefantes florestais no nosso ambiente global é demasiado importante para ser ignorado”.

Utilizando dados de estudos anteriores e novas informações recolhidas no terreno, a equipa analisou cerca de 200.000 registos de padrões de alimentação de elefantes florestais em África, abrangendo mais de 800 espécies de plantas individuais.

A preferência que os elefantes têm pelas árvores de menor densidade de carbono parece dever-se ao valor nutricional que obtêm deles em vez de terem disponibilidade: são mais palatáveis para os animais e mais fáceis de digerir.

No entanto, em termos de frutos, os elefantes preferem árvores com maior densidade de carbono, que têm frutos maiores e mais doces. Isto significa que os elefantes também ajudam a distribuir sementes para estas árvores com maior densidade de carbono em redor da floresta. Algumas espécies arbóreas não conseguem sequer sobreviver sem a ajuda destes animais.

“Os elefantes comem muitas folhas de muitas árvores, e fazem muitos danos quando comem”, diz Blake.

“Eles tiram as folhas das árvores, arrancam um ramo inteiro ou desenraízam um rebento quando comem, e os nossos dados mostram que a maior parte destes danos ocorre em árvores de baixa densidade de carbono”, explicou.

Pensa-se que existem agora menos de 500.000 elefantes africanos em estado selvagem, contra os 3-5 milhões durante o século passado. A caça ao marfim é responsável por esta drástica redução, com 80% das manadas perdidas em algumas áreas. A perda de habitat e os conflitos entre humanos e elefantes estão a reduzir ainda mais o número de populações.

Este novo estudo enfatiza a importância de proteger estes elefantes africanos, os maiores animais que caminham na Terra. Eles são uma das 9 espécies de mega herbívoros – comedores de plantas terrestres com uma massa corporal superior a 1.000 quilos ou 2.200 libras.

Existem agora muito menos mega herbívoros do que antigamente, e as florestas tropicais estão a sofrer em resultado disso, dizem os investigadores. Estão agora planeados estudos futuros, olhando para outras regiões e outras espécies, para ver como outros grandes herbívoros, tais como o elefante asiático e primatas, poderiam afetar a saúde das florestas tropicais.

“Os elefantes são os jardineiros da floresta”, diz Blake.

“Eles plantam a floresta com árvores de alta densidade de carbono e livram-se das ervas daninhas que são as árvores de baixa densidade de carbono”. Eles fazem um trabalho tremendo mantendo a diversidade da floresta”.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Animais homossexuais – Uma questão de irracionalidade?


Para os animais, não há sequer a expetativa do “assumir” da sua orientação sexual, ao contrário dos humanos, pressionados socialmente por essa mesma palavra, como se se tratasse de alguma responsabilidade de notificação da sociedade, satisfazendo uma necessidade mesquinha de julgamento alheio. Eles são simplesmente aquilo que são, sem qualquer dilema moral ou complicação a nível social
No passado 17 de maio, celebrou-se o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, tendo sido alcançados 32 anos da remoção da homossexualidade enquanto doença classificada da Organização Mundial de Saúde. Este momento de celebração recordou-me, que pela altura do meu nascimento, o estigma social dirigido a homossexuais – e “por defeito” a todas as pessoas que hoje se identificam enquanto LGBTQI+ – era ainda promovido pela referida entidade.

Tudo isto me reavivou memórias de várias conversas e discussões, quer em ambiente escolar, quer em convívio entre amigos, conhecidos ou familiares. Naturalmente, inúmeros disparates – baseados em preconceitos ou pura ignorância – são proferidos em catadupa quando tratamos estes temas, que gostamos de afirmar como sendo “fraturantes”. A partir de algumas dessas considerações decidi escrever este artigo, sobre o qual vos convido a refletirem.

Há alguns anos, apanhei-me numa discussão com amigos e conhecidos. Entre imperiais, debatia-se a expressão “escolha”, no que respeita à orientação sexual de uma pessoa. Comecei por expor que a orientação sexual não seria uma escolha, mas que independentemente da mesma, determinado indivíduo poderia escolher ter uma relação homossexual por qualquer motivo que lhe aprouvesse. A conversa foi então desbravando caminho até ao ponto em que alguém afirmou: “escolha ou não, comportamentos homossexuais não são naturais”. Perante esta afirmação, retorqui: “Quer comportamentos homossexuais, quer orientação homossexual, são algo de natural. Na medida em que existem transversalmente na natureza, não são um fenómeno exclusivo dos humanos.”

De facto, independentemente de se tratarem de animais gregários ou solitários, a homossexualidade e comportamentos homossexuais estão descritos em variadas espécies do Reino Animal, desde besouros a chimpanzés bonobo, ou até mesmo em golfinhos e elefantes. Já em 1999, Bruce Bagemihl, na obra intitulada “Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity” (Exuberância Biológica: Homossexualidade Animal e Diversidade Natural – tradução livre), descreve a prevalência de comportamento e/ou orientação homossexual como praticamente universal no reino animal, tendo sido observada em mais de 1500 espécies de animais, com sólida documentação em mais de 450 das mesmas. Portanto, é no mínimo algo de frequente e comum entre as diferentes espécies animais.

Após ser escutado com alguma atenção, reparei num revirar de olhos e sorriso condescendente da parte de alguém, acabando por me dizer: “Mas os outros animais são irracionais. Nós, seres humanos, somos racionais”.

Confesso que ainda hoje preciso de respirar fundo sempre que ouço aquela frase, seja naquele contexto, seja noutro qualquer. O que me incomoda mais, na verdade, é a forma e não tanto o conteúdo, pois trata-se sempre de uma “declaração”, como se não houvesse qualquer espaço para uma teoria ou proposta diferente. Efetivamente, é um lugar comum abordarmos o tema da racionalidade enquanto domínio exclusivo dos humanos, até mesmo por pessoas altamente letradas. É uma questão cultural que acredito estar intimamente relacionada com crenças religiosas, mais concretamente com as que assentam parte da sua construção dogmática no antigo testamento. Ora, segundo a Bíblia Sagrada (Génesis), Deus terá criado a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, no jardim do Éden. Ao “homem” era permitido alimentar-se de todas as árvores, com excepção da sagrada Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Não querendo ser muito exaustivo e também por se tratar de uma história sobejamente conhecida, em suma, Eva cedeu à tentação quando se deixou encantar pelo discurso de uma serpente, seduzindo Adão seguir-lhe o gesto.

Deixando para segundo plano a trama bíblica, além das consequências reais mais óbvias destes escritos – a culpabilização crónica da mulher e a demonização das serpentes – vale a pena debruçarmo-nos sobre a consequência exclusivamente associada ao consumo do fruto proibido. Ou seja, Adão e Eva acederam à fonte do conhecimento, apercebendo-se automaticamente da sua condição de nudez e ganhando a noção de vergonha. Por simples que possa parecer, este é o momento chave, ditado biblicamente, que nos torna seres racionais, ao invés dos restantes animais criados por Deus e que nunca provaram daquele fruto.

À parte destas crenças, não há fundamentos científicos para afirmar a irracionalidade das restantes espécies animais, fazendo com que esse argumento, associado à sua potencial expressão homossexual, seja inválido, pura e simplesmente. Os animais podem exibir comportamentos homossexuais tanto pela sua orientação, como pela simples procura de prazer, ou até mesmo em busca de vantagens sociais.

Quando me perguntam se acredito não haver diferenças entre nós e as restantes espécies, reconheço que evoluímos no sentido da elaboração de sociedades, da definição de regras e da criação de instituições, procurando garantir a prosperidade da nossa espécie. No entanto, perdemos a simplicidade que caracteriza as pequenas comunidades de animais, onde coisas como a orientação sexual são simplesmente irrelevantes, não por irracionalidade, mas sim por racionalidade. Para os animais, não há sequer a expetativa do “assumir” da sua orientação sexual, ao contrário dos humanos, pressionados socialmente por essa mesma palavra, como se se tratasse de alguma responsabilidade de notificação da sociedade, satisfazendo uma necessidade mesquinha de julgamento alheio. Eles são simplesmente aquilo que são, sem qualquer dilema moral ou complicação a nível social.

Enfim, talvez possamos aprender algo com os ditos “irracionais”…

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Morre paleontólogo Richard Leakey, descobridor de fósseis dos primeiros hominídeos


O carismático paleontólogo, personagem político e defensor do meio ambiente, o queniano Richard Leakey, reconhecido mundialmente por suas descobertas de fósseis dos primeiros hominídeos, morreu neste domingo (2/01) aos 77 anos, anunciou o presidente do Quênia.

Leakey teve um papel fundamental na compreensão das origens da humanidade e também lutou contra os caçadores ilegais de elefantes. Embora a causa de sua morte não tenha sido anunciada, o paleontólogo tinha saúde frágil há anos.

"Recebi com profunda tristeza ao meio-dia a notícia do falecimento do doutor Richard Erskine Frere Leakey, ex-encarregado do Serviço Público do Quênia", declarou o presidente Uhuru Kenyatta em um comunicado publicado neste domingo.

Nascido em 19 de dezembro de 1944, Richard Leakey, filho de outros dois paleontólogos de fama mundial, Louis e Mary Leakey, conseguiu seu reconhecimento graças a descobertas que permitiram provar a evolução da humanidade na África.

Crânios de 1,9 milhão de anos
Sem formação formal em arqueologia, Leakey participou de escavações nos anos 1970 que trouxeram à luz, por exemplo, os primeiros crânios de Homo habilis (de cerca de 1,9 milhão de anos) em 1972 e de Homo erectus (1,6 milhão de anos) em 1975.

Mas sua maior descoberta ocorreu no lago Turkana, no Quênia, em 1984, quando encontrou um esqueleto quase completo de um Homo erectus, batizado de "o menino de Turkana".

Protetor dos elefantes
Comprometido desde os anos 1980 com a luta contra a caça ilegal de elefantes e o comércio das presas de marfim, o presidente queniano na época, Daniel arap Moi, o nomeou encarregado do Serviço de Vida Selvagem do país (KWS, em inglês).

Em 1993, sofreu um acidente com seu avião particular Cessna no vale do Rift, no Quênia, e perdeu as duas pernas.

Richard Leakey também se comprometeu com a política, pois chefiou várias instituições da sociedade civil e ocupou brevemente a direção do Serviço Civil local.

Apesar da saúde frágil, entre 2015 e 2018 voltou a chefiar o KWS, diante de uma crescente onda de caça ilegal.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

China: A Convivência Nem Sempre Pacífica Entre Humanos e Elefantes

Esbarrar com um elefante selvagem está a transformar-se em algo comum para alguns aldeões na China, onde o aumento de espécimes e a redução do seu habitat implica uma convivência às vezes complicada com os humanos.


Atualmente, a China está apaixonada pelos paquidermes devido à incrível travessia de 14 desses animais, que no ano passado saíram de uma reserva no sudeste tropical rumo ao norte.

Acompanhada diariamente pelas câmaras de televisão, esta misteriosa transumância destrói plantações agrícolas e causa calafrios às autoridades, preocupadas com a segurança dos moradores.

Quase todos os elefantes asiáticos presentes na China estão na cidade de Xishuangbanna, um território tropical povoado por minorias étnicas e localizado nas fronteiras com Mianmar e Laos.

Os elefantes asiáticos estiveram à beira da extinção na China na década de 1980, quando havia apenas 150 espécimes restantes. A proibição da caça em 1988 e a criação de reservas no território fragmentado melhoraram a situação e hoje há mais de 300 animais. Elefantes num centro de tratamento em Xishuangbanna, província de Yunnan 

Com um peso que pode chegar a quatro toneladas, cada animal é capaz de comer até 200 quilos de alimento por dia, o que os leva a roubar quintas, devorar cultivos e provocar danos nas casas, com prejuízos estimados em 20 milhões de yuanes (quase 3 milhões de dólares) por ano.

Em Xishuangbanna, eles são inclusive a principal fonte de pedidos de indemnização às seguradoras, de acordo com Zhang Li, professor de Ecologia na Universidade Normal de Pequim e comprometido com a proteção dos elefantes.

Os paquidermes também mataram 41 pessoas entre 2013 e 2019, afirma. As vítimas foram estranguladas, pisoteadas ou até mesmo desmembradas.

A imprensa local informa com frequência sobre os ataques, que costumam ser cometidos por mães que protegem os filhos ou por machos jovens solitários e instáveis.

Os moradores acostumaram-se e sabem como agir em caso de alerta. Devem refugiar-se em locais fechados, subir as escadas, não se aproximar dos animais e, acima de tudo, não usar fogos de artifício para assustá-los, já que isso os enfurece.

A viagem dos 14 elefantes continua
A razão exata pela qual os 14 elefantes começaram sua viagem para o norte ainda é um mistério.

"A perda e fragmentação de seu habitat poderia ser a causa principal", estima o professor Zhang Li. Um fenómeno que se intensificou com a competição entre paquidermes pela comida, à medida que sua população aumenta. Zhang Li acredita que as coisas podem piorar ainda mais com o aquecimento global.

A China está a desenvolver um novo sistema de parques nacionais para fortalecer a proteção do habitat de espécies como pandas e tigres. Um elefante "beija" uma turista num parque temático dedicado aos animais em Xishuangbanna, província deYunnan 

Os cientistas propõem um parque nacional dedicado aos elefantes de Xishuangbanna. O projeto, no entanto, é politicamente arriscado, já que exigiria tomar terras agrícolas e deslocar centenas de milhares de pessoas para garantir a continuidade territorial entre as diferentes áreas.

Enquanto isso, os chineses estão a aprender a conviver com os elefantes. "Não posso dizer que gosto dessa situação", disse o agricultor Lu Zhengrong. "Mas temos de encontrar um equilíbrio entre os animais e os humanos. Devemos protegê-los", acrescentou.

sábado, 24 de outubro de 2020

A UE deve combater o colapso da biodiversidade



Tradução de Ana Pacheco
Original
The EU Must Fight the Collapse of Biodiversity
Os trabalhos de Charles Darwin sobre biologia evolutiva, com a aplicação do principio da selecção natural: “sobrevivência do mais apto” inspiraram uma série de ideologias e actividades humanas que vão desde o fascínio fascista pela eugenia e pureza de raça, ao desenvolvimento de organismos geneticamente modificados na agricultura e à economia “Laissez-faire”.
A mentalidade da sobrevivência do mais apto continua muito viva na geopolítica de hoje. A centralização de poder foi racionalizada, como um meio natural de segurança, que, por sua vez, exige competição por recursos e ideologias opostas.
Actualmente, as ilhas Galápagos, um ecossistema com elevada biodiversidade, onde Darwin efectuou a sua pesquisa, sofrem com a sobrepesca das frotas pesqueiras chinesas que saqueiam as áreas marinhas ao seu redor, numa flagrante demonstração de poder. Com esta actuação, a China contribui para a destruição do oceano, que abriga espécies criticamente importantes, como os tubarões-martelo, alterando toda uma cadeia alimentar onde a humanidade se inclui.
Este exemplo não é apenas um evento isolado. Na verdade, a destruição da biodiversidade passou a ser a norma. Os humanos causaram o desaparecimento de 83% dos mamíferos selvagens, e 50% das plantas, nas últimas quatro décadas. Acresce que, ainda mais impressionante, o último relatório da Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Ecossistemas (IPBES) anunciou que teve início a sexta extinção em massa do planeta. Como mostra a revisão de Dasgupta, esta extinção está directamente relacionada com a aceleração da globalização económica actual.
De salientar que uma extinção em massa não se limitaria aos reinos vegetal e animal. Como humanos é fundamental que entendamos a nossa pertença e interdependência à natureza, se quisermos salvar a humanidade da fome, do colapso civilizacional e da extinção.

Porquê que a biodiversidade é importante?

Biodiversidade é vida.
A maioria das pessoas demonstra um grande desconhecimento acerca da biodiversidade que os rodeia: que uma complexa ligação de plantas e insectos acarreta a polinização das plantas, que por sua vez produz alimentos. Espécies chave – animais que têm um papel central em determinados ecossistemas, como os castores que projectam paisagens, regulam fluxos de água e contribuem para a filtração da mesma. O fitoplâncton e a vegetação marinha e terrestre usam o dióxido de carbono para a produção de oxigénio. Certas espécies de animais e plantas que participam na despoluição de solos, enquanto outras o descompactam, permitindo o estabelecimento de vida. Os mangais que protegem os litorais de inundações e tempestades devastadoras, ao mesmo tempo que alimentam a vida marinha.
Individualmente, as espécies desempenham funções cruciais no solo, subsolo, nas profundezas oceânicas e em diversas paisagens terrestres. Juntas, cada espécie complementa outras, colaborando de forma interdependente para o benefício comum dentro dos ecossistemas e entre ecossistemas. Em suma, a biodiversidade é a base da resiliência ecossistémica, que é essencial para combater as mudanças climáticas.
A biodiversidade é essencialmente uma arte e ciência da natureza. É informação em movimento e inteligência dos modelos, cores, formas, texturas, cheiros e aprendizagem. É a própria evolução, e nós fazemos parte dela. As culturas humanas costumam emanar de bio-regiões, resultando em diferentes hábitos alimentares, arquitecturas e negócios económicos. O termo francês “terroir” integra este conceito na perfeição: a cultura que exerce a sua força sobre os ecossistemas, criando uma economia e pessoas resilientes.

A Visão Global da Biodiversidade
Contudo, dois fenómenos interligados estão a enfraquecer as culturas humanas e a biodiversidade natural. Primeiro, a globalização económica que favorece as economias de escala em relação à produção tradicional. Para tal, contribuem os fortes benefícios macroeconómicos, que produzem efeitos colaterais: padronização, uma vez que, os humanos precisam de forma crescente de solo para as suas monoculturas, e urbanização, dependente da forma como a economia desenvolve os sectores industriais e de serviços. Como resultado temos a invasão exponencial humana dos habitats naturais.
O segundo fenómeno é a uniformização das técnicas agrícolas de cultivo. Estas aumentaram significativamente após a Segunda Guerra Mundial e com a Revolução Verde (na qual os países em desenvolvimento começaram a usar pesticidas e culturas de elevado rendimento), assim como, o uso de poluentes e combustíveis fósseis. Como consequência, este comportamento acarretou um ataque aos solos e à água das quais a biodiversidade depende. Com o tempo, esta uniformização enfraqueceu a saúde dos ecossistemas em todo o mundo, degradando a sua capacidade de armazenar carbono, água e vida. Para os humanos, isto significa que a água está poluída e que as cadeias alimentares estão contaminadas. Como resultado, os alimentos são menos nutritivos, porque os solos perderam nutrientes que a biodiversidade produz.
Além destes fenómenos decorrentes do crescimento económico e das estratégias de desenvolvimento, a biodiversidade passou a ser um objecto directo de consumo. Como as espécies-chave, exemplo dos tigres, leões e elefantes, que são cada vez mais raras, também é mais lucrativo caçar. Em 2014, a Interpol alertou que o tráfico de animais selvagens se tornou a quarta actividade mais lucrativa em todo mundo – correspondendo a cerca de 15 mil milhões de euros anuais em receitas. Este sector ilegal combina altos níveis de violência com corrupção, resultando em abusos sistémicos dos direitos humanos de defensores ambientais e comunidade indígenas. Em 2017, cerca de quatro defensores ambientais foram mortos por semana. Com eles, o conhecimento precioso para redesenhar de forma sustentável os habitats humanos foi perdido.
Todas estas questões estão intrinsecamente ligadas a níveis crescentes de desigualdade económica. Na verdade, a desigualdade realmente prevê a perda de biodiversidade. Este é um aviso severo: a padronização económica não apenas despojou os ecossistemas da sua vitalidade, como também despojou as comunidades humanas da sua capacidade de administrar a natureza e contribuir para a sua complexidade. Para ilustrar, os acordos de livre comércio entre a Europa e os países latino-americanos promovem produções em grande escala que invadem os ecossistemas locais e os meios de subsistência tradicionais. Isso reduz os preços das culturas tradicionais e empurra os agricultores para a pobreza, ao mesmo tempo que estimula a dependência económica de aportes agroquímicos. Na verdade, não há nada de gratuito ou libertador neste tipo de actuação.
O resultado? Desintegração social e ecológica. Quanto mais a política falha em reconhecer os fundamentos aberrantes sobre os quais se sustenta, mais rápido irá gerar conflito a várias escalas.

Qual o papel da União Europeia neste contexto?
Para que a UE tenha sucesso na luta concomitante contra as alterações climáticas e o colapso da biodiversidade, deve abordar os fatores fundamentais da desintegração ecológica. O Acordo Verde da UE é um passo significativo na direção certa. Ainda está em fase de desenvolvimento estratégico, para o qual o setor de política externa deve contribuir de forma proactiva e construtiva. Algumas áreas já precisam de mais atenção e maior priorização.
A biodiversidade, a economia circular e as estratégias do campo à mesa devem ser apoiadas pela reforma de antigos mecanismos como a Política Agrícola Comum (PAC), que em seu estado actual mina a credibilidade do Acordo Verde quer na Europa, quer nos restantes países fora da Europa. A PAC na Europa é o principal motor da perda de biodiversidade e um dos principais contribuintes para as emissões de dióxido de carbono. O próximo quadro financeiro plurianual deve fornecer incentivos robustos para mudanças sistémicas em direção a abordagens agroecológicas e restauração de ecossistemas.
Acresce que, a PAC incentiva a concorrência desleal com parceiros em todo o mundo, incluindo países da África Ocidental. Em Burkina Faso, a PAC pode diminuir a contribuição dos meios de subsistência tradicionais para a economia nacional e criar pobreza desnecessária, pois os produtos europeus subsidiados inundam os mercados e automaticamente excluem os produtores de leite, por exemplo. Na melhor das hipóteses, a UE é uma celebração da diversidade em todas as suas formas. Portanto, deve também celebrar as paisagens produtivas da biodiversidade como um marco político em seus investimentos internos e externos.
Num mundo onde a competição geopolítica leva países e povos a saquear a natureza, é essencial que a UE construa a sua reputação como parceiro de política externa, que apoia novos contratos socio-ecológicos a nível mundial. Devemos mapear e reconhecer as interdependências ecológicas que regulam o nosso planeta, e então governar de acordo com elas. Devemos alinhar políticas, investimentos e projetos com a gestão social e económica da natureza. A UE deve investigar como conceber a sua política externa de forma a preservar, regenerar e institucionalizar a saúde dos ecossistemas locais ao longo dos seus compromissos diplomáticos. Assumir este compromisso também implica habilitar ou incentivar os sistemas sociais e políticos a assumirem uma função de administração do seu ambiente natural, por exemplo, fortalecendo os direitos humanos e ambientais em conjunto.
A UE também deve contribuir urgentemente para tornar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) das Nações Unidas mais coesos em questões ambientais. Um estudo recente demonstra que as metas ambientais dos ODS não preservam a biodiversidade. Em vez disso, distorcem os dados em direção a indicadores socioeconômicos que promovem o progresso em detrimento da natureza. O financiamento de desenvolvimento da Europa deve resolver esse problema.
Finalmente, dentro do Acordo Verde, a UE deve ser extremamente cuidadosa para não comparar o clima com as metas ambientais. É cada vez mais claro que a tecnologia digital europeia e as ambições verdes dependem das atividades de mineração que terão efeitos negativos nos principais ecossistemas que regulam o clima. A menos que a UE invista em maior pesquisa e desenvolvimento de novas baterias, a demanda industrial e popular por extração mineral levará rapidamente a UE a ultrapassar as fronteiras planetárias - limites naturais essenciais cuja extensão levaria a danos dramáticos e irremediáveis a uma escala global.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Así es la mina de cobre de una oscura empresa que acabará con decenas de elefantes e hipopótamos

Fonte: aqui

Un controvertido proyecto minero puede acabar con un pedazo de paraíso africano. Tras una batalla legal de más de cinco años, el Tribunal Superior de Lusaka, capital de Zambia, ha dado luz verde a la ejecución de una mina de cobre a cielo abierto en el Parque Nacional del Bajo Zambeze, una paraje natural insólito que, además de ser el hogar de hipopótamos y manadas de elefantes, es el sustento de comunidades locales que viven del turismo. Un fallo judicial que rechazan tajantemente desde la organización conservacionista WWF.

El Parque Nacional del Bajo Zambeze, localizado enfrente del Parque Nacional Mana Pools de Zimbabue, declarado Patrimonio de la Humanidad por Unesco, es una de las zonas de conservación más vírgenes de África. Ahora, tras el fallo, las sabanas por las campan leones, leopardos y antílopes están en peligro. "La concesión de esta licencia minera en un parque nacional ecológicamente sensible como el Bajo Zambeze puede establecer un precedente peligroso para inversiones a gran escala en áreas de alta biodiversidad del país", sentencia en un comunicado la organización ecologista. “Además de robar a las actuales y futuras generaciones de zambianos su patrimonio de recursos naturales”, añaden.

Este territorio fue nombrado Parque Nacional en 1983 para conservar la biodiversidad; proteger las cuencas de los ríos Rufunsa, Chakwenga y Chongwe; cuidar los ecosistemas como amortiguadores de los impactos del cambio climático; y para promover el avance del conocimiento científico, la educación pública y el desarrollo turístico. Objetivos que ahora pueden estar amenazados si se ejecuta la explotación minera.

Según esta ONG defensora del medio ambiente, está previsto que la mina abarque aproximadamente el 25% del parque, pero se estima que se perderá más del 50% del territorio, toda la parte norte. El plan minero también podría contaminar las aguas del río Zambeze y amenazar la pesca de subsistencia que proporciona seguridad alimentaria y proteica a 20.000 personas a lo largo de las orillas del río. Además de la pesca, las comunidades locales dependen de la agricultura, turismo y silvicultura, sectores que también podrían verse afectados significativamente por la mina.
Comunidades locales en peligro

Junto a las impresionantes cataratas Victoria, este Parque Nacional es uno de los mayores reclamos turísticos del país. Los establecimientos del parque y las áreas de interés circundantes emplean a más de 1.000 locales. "No hay duda de que la mina matará el turismo en la zona y significará el final de una microeconomía próspera que se ha construido a su alrededor, dejando a cientos de personas sin trabajo", sentencia la periodista y activista Sharon Gilbert-Rivett al diario local Daily Maverick

En 2014, el juez Mubanga Kondolo detuvo temporalmente el proyecto alegando que el daño medioambiental sería una cuestión de interés público que afectaría a todas las personas nacidas y no nacidas, según informa el medio Zambia Watchdog. Pero ahora, el Tribunal Superior ha eliminado la suspensión. La licencia de la mina está en manos de Mwembeshi Resources Ltd, pero aún no está claro dónde se encuentran sus propietarios, Grand Resources Ltd. Están registrados en Dubai, pero abundan las sospechas de que la propiedad es china, según explica Gilbert-Rivett.

Tras el fallo, la ONG local Conservation Lower Zambezi (CLZ) también expresó su preocupación por el potencial impacto medioambiental en esta "zona de importancia internacional para la conservación, que acoge a una de las poblaciones más importantes de elefantes africanos de la región, además de muchas otras especies". Junto a otros tres parques, el del Bajo Zambeze genera el 96% de los ingresos que el Departamento de Parques Nacionales y Vida Silvestre zambiano recauda para la gestión de la vida silvestre en el país, según CLZ.

Desde WWF explican a EL ESPAÑOL que el siguiente paso es recurrir la sentencia ante el Tribunal Superior, pero aseguran que, si es necesario, harán lo posible para que el asunto sea escuchado ante la Corte Suprema. También han pedido al Gobierno de Zambia que actúe de inmediato y que cancele la licencia.

Más de 12.000 personas han firmado una petición para detener la explotación minera. "El Bajo Zambeze es un ecosistema natural, un delicado equilibrio entre la vida silvestre y las plantas autóctonas. Bajo ninguna circunstancia se puede perturbar con actividades mineras, sin mencionar la devastación que los residuos tóxicos de tales actividades traerán al suelo y a los ríos", denuncian. 

Para más inri, el reciente fallo judicial choca de lleno con el objetivo 15 de Desarrollo Sostenible de Naciones Unidas que busca "proteger, restaurar y promover el uso sostenible de los ecosistemas terrestres, gestionar de forma sostenible los bosques, combatir la desertificación y detener e invertir la degradación de la tierra y detener la pérdida de biodiversidad".