Mostrar mensagens com a etiqueta Anfibios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Anfibios. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2026

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Rãs galáxia em risco de extinção devido a práticas fotográficas antiéticas


Cientistas da Sociedade Zoológica de Londres alertam para o possível desaparecimento das rãs galáxia de Querala, na Índia. Os resultados constam de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Herpetology Notes.

As Melanobatrachus indicus, nome científico das rãs galáxia, são endémicas das florestas do sul da Cordelheira dos Gates Ocidentais, da Índia, mais concretamente da floresta tropical de Querala. Trata-se de pequenos anfíbios, do tamanho da ponta de um dedo e que se caracterizam pelas suas manchas reluzentes, usadas como forma de comunicação entre os espécimes.

É a “única representante” da sua subfamília no reino animal e está classificada como “vulnerável” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, desde 2020.

O seu habitat a ser conquistado por explorações agrícolas de café e chá.
Se uma investigação feita pelos autores do estudo em 2020 dava conta da existência de sete espécimes debaixo de “troncos caídos incrustados na serapilheira”, as buscas efetuadas em 2021 e 2022 não detectaram a presença de rãs galáxia na floresta.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador Rajkumar KP alerta para a destruição do micro-habitat destes animais. Um dos troncos estava “completamente destruído e fora do lugar” e a vegetação estava “pisada”.

Alerta para os perigos da prática fotográfica desregulada
De acordo com vigilantes locais, “grupos de quatro a seis fotógrafos visitaram o local” em várias ocasiões, entre junho de 2020 e abril de 2021. Tiraram fotografias com flash e tocaram nos espécimes encontrados para serem levados para locais mais “fotogénicos, como musgos e troncos”.

Numa das ocasiões, juntaram cinco espécimes, sendo que as visitas podem ter resultado na morte de dois deles, algo não confirmado pelo estudo. Cada sessão fotográfica durava cerca de quatro horas.

Apesar de tentarem impedir a entrada destes grupos, os fotógrafos utilizavam autorizações oficiais para terem acesso aos habitats protegidos.

Tendo em conta que estes animais respiram pela pele, que é ultrassensível, o estudo aponta para o perigo de dessecação dos corpos dos espécimes decorrente do uso de flashs e de transmissão de doenças provocado pela ausência de uso de luvas na captura dos animais.

O incidente chama a atenção para os riscos do turismo fotográfico desregulado, de acordo com Rajkumar, que coloca em causa espécies vulneráveis e a preservação dos seus habitats, assim como provoca alterações de comportamento dos animais e até a sua morte.

O estudo propõe medidas para “promover” práticas de fotografia de natureza “mais éticas”, como a inclusão de “conhecimento das práticas éticas na fotografia de vida selvagem para o procedimento de seleção de guias licenciados” pelo Ministério do Turismo e a elaboração de um código de ética que inclua “restringir a captura, manuseamento e perseguição” dos espécimes, assim como a minimização do uso de “luzes de alta intensidade”.

Também é proposta a penalização dos fotógrafos que não cumpram as medidas.

As restrições à fotografia na Índia não são inéditas, existindo já proibições na fotografia durante as épocas de acasalamento e de ninhos durantes competições fotográficas.

sábado, 13 de setembro de 2025

Financiamento para conservação da biodiversidade está a esquecer espécies menos visíveis e mais ameaçadas



A maioria do financiamento, a nível global, de projetos para a conservação de espécies selvagens tem como foco espécies maiores e mais emblemáticas, como aves e grandes mamíferos, e a deixar de lado espécies menos visíveis e mais ameaçadas, como anfíbios e algas.

De acordo com investigadores das universidades de Hong Kong (China) e de Florença (Itália), com base na análise do financiamento de mais de 14 mil projetos de conservação em todo o mundo entre 1992 e 2016, parece existir um “viés taxonómico substancial” a favor de certas espécies ou grupos, alguns deles nem ameaçados de extinção.

Num artigo publicado esta semana na ‘PNAS’, os cientistas estimam que, no total, foram investidos cerca de 1,9 mil milhões de dólares nesses projetos, a maioria para a conservação de vertebrados. Dentro desse grupo, as aves e os mamíferos são os mais apoiados.

Depois de identificarem as espécies-alvo de cada projeto, os autores compararam os estatutos de ameaça de cada uma delas, com base na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, e a quantidade de financiamento recebido para a sua conservação.

“Quase 94% das espécies identificadas como ameaçadas, e, por isso, em risco direto de extinção, não receberam qualquer apoio”, lamenta Benoit Guénard, primeiro autor do artigo, citado em comunicado. Os investigadores acreditam que a preferência das entidades financiadoras (governos, empresas, instituições internacionais) por espécies mais vistosas e carismáticas não permite uma “efetiva conservação da biodiversidade”.

“Proteger esta maioria negligenciada, que desempenha uma miríade de papéis nos ecossistemas e representa estratégias evolutivas únicas”, sustenta Guénard, “é fundamental se o nosso objetivo comum for a preservação da biodiversidade”.

No artigo, os autores escrevem que vários grupos altamente ameaçados, como os anfíbios, recebem pouco apoio financeiro para a sua conservação, e há cada vez menos dinheiro a ser investido na sua conservação.

Os grupos que recebem mais financiamento são, de longe, as aves e os mamíferos, seguidos pelos peixes e pelas plantas terrestres. No fim da lista, surgem os anfíbios e os invertebrados, e, a uma distância enorme de todos os outros, surgem as algas e os fungos.

Financiamento, à escala global, de projetos de conservação de espécies selvagens entre 1992 e 2016 (valores em milhões de dólares). A barra verde representa projetos com apenas uma espécie-alvo, a barra amarela representa projetos com mais do que uma espécie-alvo.
Fonte: Universidade de Hong Kong

Os cientistas dizem que a falta de financiamento para os grupos com maior biodiversidade limita o que se pode fazer para protegê-los, incluindo a atualização do conhecimento existente.

“Alguns dos grupos com os níveis mais altos de extinção, como caracóis de água doce, têm as avaliações mais desatualizadas de todas”, aponta Alice Hughes, outra das principais autoras.

Além disso, mais de metade os projetos e do financiamento foram direcionados para a proteção de apenas uma espécie, “em vez de se focarem em múltiplas criaturas”, argumentam os investigadores.

“Os governos, em particular aqueles que representam as principais fontes de financiamento [de projetos de conservação], têm de seguir uma abordagem mais rigorosa e orientada pela Ciência no que toca ao financiamento da conservação”, defende Guénard.

“É também urgentemente necessária uma maior cooperação global para estudar e proteger grupos ricos em espécies, e partilhar informação sobre investimentos em conservação”, apela o investigador da Universidade de Hong Kong.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Mais de 1500 animais atropelados nas estradas portuguesas em 2023. Taxa de mortalidade é superior nos gatos


No ano de 2023 foram registados no continente 1.539 atropelamentos de animais nas estradas geridas pela Infraestruturas de Portugal (IP), menos 28,3% do que em 2022, de acordo com o relatório mais recente do organismo.

A recolha dos dados sobre a mortalidade da fauna nas estradas portuguesas é feita desde 2010 pelas Unidades Móveis de Intervenção e Apoio (UMIA) distritais da IP.

Relativamente ao relatório de 2023, o mais recente da empresa, a informação é relativa a cerca de 13.830 quilómetros de vias que estão sob gestão direta da IP, na sua maioria estradas nacionais (EN) ou regionais (ER).

Em 2023 foram registados 1.539 atropelamentos no continente, o que representa uma diminuição em cerca de 28,3% do valor registado em 2022 (2.147) e 37,7% mas baixo do que o valor médio dos anos 2015 a 2022 (2.471,9).

Em declarações à agência Lusa, a bióloga Graça Garcia, coordenadora do relatório, explicou que “é natural existirem flutuações nestes números, decorrente de variáveis como o clima, disponibilidade alimentar, as doenças epidemiológicas, assim como as alterações nos níveis de tráfego”.

Contudo, a responsável ressalvou que “a IP tem levado a cabo nos últimos anos um conjunto de medidas que têm contribuído para diminuir o número de atropelamentos”.

“A continuidade do Programa de Monitorização da Mortalidade de Fauna permite avaliar a eficácia das medidas implementadas, tendo já sido possível perceber uma redução da mortalidade das espécies-alvo na maioria dos troços intervencionados, demonstrando que os objetivos do programa estão a ser cumpridos”, sublinhou.

De acordo com o relatório, os animais domésticos foi um dos grupos que registou mais mortalidade, com 488 ocorrências, constituindo 32% dos registos totais de 2023.

Dentro deste grupo, os registos de maior mortalidade nas estradas foram de gatos, uma vez que “têm mais facilidade em trepar as vedações existentes nas autoestradas”.

No que respeita a animais silvestres, a maior incidência verificou-se nos mamíferos carnívoros (70,6%), maioritariamente raposas, seguindo-se as aves (23,5%), como as garças-boleiras e as aves noturnas de rapina.

Em menor número foram os répteis (3,3%) e os anfíbios (2,4%), o que poderá estar relacionado com “a sua baixa detetabilidade e elevada taxa de degradação”.

No que respeita a animais de grande porte, as ocorrências aumentaram relativamente ao ano anterior, tendo sido registadas as mortes de quatro corços, nove veados e 63 javalis.

As estradas identificados como mais problemáticos pela IP foram o Itinerário Complementar 1 (IC1), o IC33 (Santiago do Cacém – Grândola), Estrada Nacional 4 (EN4, Montijo – Elvas), EN114 (Peniche – Évora), EN18 (Guarda — Ervidel), EN380 (Évora), IC8 (Pombal – Vila Velha de Ródão), EN260 (Beja — Vila Verde de Ficalho) e IC27 (Castro Marim -Alcoutim).

A melhoria das vedações existentes e a construção em estradas onde não existem, assim como a edificação de passadiços e a realização de obras de beneficiação são algumas das medidas que a IP tem levado a cabo no sentido de reduzir o número de animais que são atropelados.

“De referir, ainda, que foi recentemente implementada uma solução de alerta aos condutores, em tempo real, da presença de linces ibéricos junto à estrada, através da aplicação móvel ‘Waze’, para reforçar a sua atenção e reduzir o risco de atropelamento”, explicou a coordenadora do relatório.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

O verdadeiro custo da reprodução no reino animal

Verdilhão (Chloris chloris)

Um novo estudo publicado na revista Science e liderado por biólogos da Universidade Monash revela que o custo energético da reprodução é muito maior do que se pensava anteriormente.

A investigação, liderada por Samuel C Ginther, da Escola de Ciências Biológicas, desafia os pressupostos há muito defendidos sobre a dinâmica energética da reprodução e as suas implicações para a evolução da história de vida.

O estudo concluiu que a energia investida pelos progenitores na reprodução inclui não só a contida nos próprios descendentes (custos diretos), mas também a energia gasta para os produzir e transportar (custos indiretos). Na maioria das espécies, os custos indiretos, como a carga metabólica da gravidez, excedem os custos diretos.

A equipa de investigação analisou dados de 81 metazoários, desde rotíferos a seres humanos, para estimar os custos energéticos totais da reprodução e dos seus componentes. Esta abordagem global fornece um novo quadro para a compreensão da dinâmica energética da reprodução numa vasta gama de animais.

Embora os cientistas tenham compreendido os custos energéticos diretos associados à descendência (como a energia utilizada para a criar e alimentar), os custos indiretos – a carga metabólica da gravidez e dos cuidados parentais – têm sido largamente ignorados. Esta nova investigação revela que estes custos indiretos podem ser imensos.

Por exemplo, nos mamíferos, apenas cerca de 10% da energia utilizada na reprodução é canalizada para os próprios descendentes. No entanto, 90% é gasta no processo de gestação, que exige muito metabolismo. Os seres humanos, com as suas gravidezes prolongadas, têm alguns dos custos indiretos mais elevados, atingindo cerca de 96%.

Descobertas importantes para perceber como é que os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes

“Os resultados foram surpreendentes”, afirmo Ginther, revelando que descobriram que, para muitos animais, a energia gasta simplesmente no transporte e nos cuidados com a prole antes do nascimento “ultrapassa de longe a energia investida na própria prole”.

“Estas descobertas têm implicações significativas para a compreensão da forma como os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes. Também levantam preocupações sobre o potencial impacto das alterações climáticas no sucesso reprodutivo das espécies, uma vez que o estudo concluiu que os custos indiretos são particularmente sensíveis às flutuações de temperatura”, acrescenta.

O estudo concluiu que os mamíferos despendem mais energia na reprodução do que os ectotérmicos (anfíbios, répteis, peixes, etc.), representando os custos indirectos cerca de 90% do total das suas despesas de energia reprodutiva, enquanto os ectotérmicos que vivem têm custos indirectos mais elevados do que as espécies que põem ovos.

“O estudo altera fundamentalmente a nossa compreensão da dinâmica energética da reprodução e do seu profundo impacto nos fluxos de energia de um organismo”, afirma o coautor do estudo, o Professor Dustin Marshall, também da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Monash.

“O estudo também destaca a sensibilidade dos custos da energia reprodutiva ao aquecimento global, particularmente nos ectotérmicos”, adianta.

Dustin Marshall explica ainda que “as temperaturas mais quentes podem aumentar as taxas metabólicas, aumentando potencialmente os custos indiretos da reprodução”.

“Isso pode levar a descendentes menores e ter implicações para a reposição da população num mundo em aquecimento”, conclui.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Walt Whitman e o melro


“Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas | E que a formiga não é menos perfeita, nem um grão de areia, nem um ovo de carriça | E que o sapo é uma obra prima para o mais exigente | E que as amoras silvestres adornariam os salões do Céu | E que a mínima articulação da minha mão escarnece de toda a maquinaria | E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera a estátua | E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis.
Descubro que trago em mim gnaisse, carvão, filamentos de musgo, frutos, cereais, raízes comestíveis E que fui estucado com quadrúpedes e pássaros | E que me distanciei, por boas razões, do que está por detrás de mim | Mas quando quero faço regressar seja o que for ....... ”
Walt Whitman, Folhas de Erva

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

No Outono também há muita biodiversidade - Leave Leaves Alone

Em Portugal há ainda muita gente que acha que as folhas das árvores são "lixo"!!!... Leiam...e "deixem as folhas em paz"!


Deixe as folhas mortas no seu quintal.

Não varra as folhas caídas que cobrem o relvado. Nem use bombas para remoção das folhas.

Os ambientalistas dizem que é melhor deixar isso como está. A camada foliar é como um miniecossistema que é útil para os insetos, abrigo de muitos anfíbios, alimento para as aves e pequenos mamíferos , tartarugas e cágados. A camada foliar é portanto muito importante para o solo e a saúde geral do seu jardim.

No entanto, alguns especialistas em paisagismo dizem que certos quintais precisam de ancinho. Se for esse caso, ou se preferir o visual bem cuidado, é incentivado a usar as folhas para compostagem.

As folhas em decomposição enriquecem o solo, agregando nutrientes e matéria orgânica. Você também pode pensar desta forma: deixar as folhas em nossas propriedades significa menos coleta e descarte em nossas cidades, reduzindo custos e emissões de carbono dos camiões de recolha.

A cobertura morta das folhas tem muitas vantagens: 
  • Reduz o ruído e os gases de efeito estufa. 
  • Também melhora a saúde do seu quintal. 
  • O material das folhas trituradas cria um composto valioso, que enriquece a camada superficial do solo. 
  • A cobertura morta de folhas também limita a propagação de poeira e contaminantes no ar e economiza tempo e dinheiro.
Os benefícios de aplicar cobertura morta nas folhas do quintal são numerosos e comprovados cientificamente:
  1. O manto de folhas mortas é mais silencioso e limpo do que soprar folhas;
  2. A cobertura morta reduz a necessidade de fertilizantes e evita a poluição da água, reduzindo a lixiviação de fósforo e fertilizantes;
  3. O manto de folhas reduz o risco de segurança de folhas empilhadas ou ensacadas nas margens das estradas e poupa o dinheiro do contribuinte para a recolha municipal de folhas;
  4. As folhas mortas melhoram a estrutura do solo, retenção de água e percolação;
  5. O mulching incentiva as raízes a penetrar mais profundamente, melhorando a saúde da relva;
  6. O mulch torna o relvado mais resistente a eventos climáticos como secas e inundações.
Porém queria chamar a atenção para as tartarugas e os cágados.

Em Portugal não existem tartarugas terrestres nativas. No passado, a tartaruga-do-Mediterrâneo existia por toda a Península Ibérica. Em Portugal, aliás, existem vários registos fósseis com alguns milhares de anos em Peniche, Sesimbra, Bombarral, Tomar e no Algarve. Talvez a tartaruga-mediterrânea seja mais adaptada ao clima presente da Península, mas com o tempo, talvez a tartaruga-moura, habituada a um clima mais árido, seja a mais indicada; talvez possam até viver lado a lado. Ambas precisam de um habitat de mosaicos, entre zonas abertas e zonas fechadas com floresta e arbustos. Em Espanha, há centros de reprodução de tartarugas e programas de reintrodução em várias zonas. Pode a tartaruga terrestre regressar a Portugal? Claro que sim. Haja equipas, investigadores, porque habitats temos, apesar de muita fragmentação, monoculturas, mato, etc.

Desde logo, para que esse regresso seja uma realidade, é necessário avançar com um programa de reintrodução, identificar áreas protegidas, encontrar animais para libertar e soltar as tartarugas em novas áreas. Esta expansão para novas áreas pode ainda ajudar a tartaruga terrestre a adaptar-se aos efeitos das alterações climáticas.

Em Portugal existem várias zonas com potencial para a tartaruga terrestre: as serras do Algarve, o Vale do Guadiana, os montados do Alentejo, a Costa Vicentina, os pinhais de Melides e do Meco, a Arrábida e Estuário do Sado, as serras de Aire e Candeeiros e de São Mamede, o Tejo e o Douro Internacional, a Serra da Malcata e o Planalto do Côa até Trás-os-Montes.

Quanto às tartarugas de água doce em Portugal temos o Cágado-mediterrâneo (Mauremys leprosa) e o Cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis).

Estas duas espécies partilham inúmeras vezes o mesmo habitat, sendo que o Cágado-de-carapaça-estriada é o mais raro e menos abundante, encontrando-se em risco de extinção no nosso país. A tardia maturidade sexual das fêmeas associada a baixas taxas de fecundidade e a uma mortalidade infantil elevada implicam uma taxa de crescimento populacional muito baixa, colocando a espécie numa situação particularmente frágil e vulnerável perante eventuais impactes negativos.

Além da introdução de espécies invasoras, estas espécies são frequentemente capturadas ilegalmente para animais de estimação, fabrico de objectos ornamentais e alimentação. Os cágados são também alvo de perseguição por parte dos pescadores motivados pela crença popular de que estes se alimentam de peixes dulciaquícolas. Estas capturas ilegais são responsáveis por elevadas taxas de mortalidade que põem em causa a dinâmica das populações de cágados. Também as mortes acidentais causadas pelas redes e outras artes de pesca representam uma significativa ameaça.

Saber mais:

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Ações humanas estão a eliminar “ramos inteiros da árvore da vida”

Um par de lobos-da-tasmânia no Zoológico de Hobart antes de 1921

A extinção em massa provocada pelo ser humano está a eliminar espécies, mas também “ramos inteiros da árvore da vida”, alertam os autores de um estudo da Universidade norte-americana de Stanford.

Uma análise feita em conjunto com a Universidade Nacional Autónoma do México, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que os humanos estão a fazer desaparecer espécies, mas também géneros, a categoria superior em que os taxonomistas classificam os seres vivos.

Os cientistas dão como exemplo três vítimas recentes do que muitos consideram ser a sexta extinção, uma vez que as ações humanas estão a eliminar espécies de animais vertebrados centenas de vezes mais depressa do que se não existissem essas ações.

Falam do pombo-passageiro, uma espécie extinta no início do século passado e que era endémica da América do Norte, falam do lobo da Tasmânia, um marsupial da Austrália também extinto no século passado, e falam do Baiji, o golfinho do rio Yang-tze, na China, uma das espécies de golfinho de água doce e também extinto. Cada uma destas espécies foi também o último membro do seu género.

Até agora, o interesse público e científico tem incidido na extinção das espécies. Mas no estudo agora divulgado, Gerardo Ceballos, da universidade mexicana, e Paul Ehrlich, de Stanford, descobriram que géneros inteiros também estão a desaparecer, naquilo a que chamam uma “mutilação da árvore da vida”.

“A longo prazo, estamos a fazer uma grande mossa na evolução da vida no planeta”, diz Gerardo Ceballos, alertando que por isso, neste século, se vai causar “muito sofrimento à humanidade”.

Paul Ehrlich, noutra abordagem, salienta que as ações do Homem estão a fazer com que este perca os únicos companheiros vivos conhecidos em todo o universo.

Os dois investigadores usaram bases de dados de entidades como a União Internacional para a Conservação da Natureza ou a “Birdlife International” e examinaram 5.400 géneros de animais vertebrados terrestres, abrangendo 34.600 espécies.

E concluíram que desde o século XV foram extintos 73 géneros de vertebrados terrestres, com as aves a sofrerem as maiores perdas, com 44 géneros extintos, seguindo-se os mamíferos e depois os anfíbios e depois os répteis.

Com base na taxa histórica de extinção de géneros entre os mamíferos, estimam os responsáveis que a atual taxa de extinção de géneros de vertebrados exceda em 35 vezes a do último milhão de anos.

Ou seja, sem a influência humana, a Terra teria perdido apenas dois géneros nesse período. Em cinco séculos as ações humanas extinguiram géneros que sem elas levariam 18.000 anos a desaparecer.

“Como cientistas, temos de ter cuidado para não sermos alarmistas”, afirma Gerardo Ceballos, acrescentando que a gravidade das descobertas exige “uma linguagem mais forte do que o habitual”.

“Não seria ético não explicar a magnitude do problema, uma vez que nós e outros cientistas estamos alarmados”.

O responsável explica que a muitos níveis as extinções de géneros são mais graves do que as extinções de espécies, porque quando uma espécie se extingue outra do mesmo género pode preencher esse papel no ecossistema. Em termos de árvore da vida é como se um único galho caísse e à sua volta outros se ramificassem.

O pior, acrescenta, é quando ramos inteiros (géneros) caem, o que “deixa um enorme buraco na copa das árvores” que pode demorar milhões de anos a ser tapado.

“A humanidade não pode esperar tanto tempo pela recuperação dos seus sistemas de suporte de vida”, já que “a estabilidade da nossa civilização depende dos serviços prestados pela biodiversidade da Terra”, frisa.

Gerardo Ceballos dá o exemplo da doença de Lime (transmitida por carrapatos), que está a aumentar: os ratos de patas brancas, principais portadores da doença, costumavam competir com os pombos-passageiros por alimentos e com o desaparecimento destes as populações de ratos aumentaram e com eles os casos da doença.

Neste caso, está envolvido o desaparecimento de um único género, mas uma extinção em massa de géneros pode significar uma explosão proporcional de desastres para a humanidade, avisa o responsável.

Para se evitarem novas extinções e consequentes crises sociais, os dois investigadores apelam a uma ação política, económica e social imediata e a uma escala sem precedentes.

Os esforços de conservação, dizem, devem ser prioritários nas regiões tropicais, uma vez que estas apresentam a maior concentração de extinções de géneros e de géneros com apenas uma espécie remanescente.

De acordo com o sistema que organiza os seres vivos, a espécie é definida como um grupo de organismos que se podem reproduzir e originar novos seres e o género é um conjunto de espécies.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Parque das Serras do Porto - um olhar independente


Um trabalho independente sobre o estado atual da área verde mais importante do Grande Porto. E que na minha opinião não está a ser devidamente acautelada. Este documentário de cerca de 12 minutos contou com os depoimentos de Jorge Gomes, José Pereira, Vitor Parati, Serafim Riem e Filipa Almeida. 
Um projeto de consciência Loving the Planet.

Site:

domingo, 12 de fevereiro de 2023

'Uma ameaça crescente para a saúde humana': estamos mal equipados para os perigos das infecções fúngicas

Cerca de 2 milhões de pessoas morrem por ano como resultado de um grupo central de fungos, e a OMS está preocupada por não estarmos preparados para o futuro.


O ano é 2003, e uma espécie de fungo Cordyceps passou de formigas para humanos, transformando seus hospedeiros em zumbis frenéticos e sedentos de sangue que espalham a infecção para todos que mordem. A solução proposta por uma importante micologista em Jacarta, na Indonésia, onde foram detectados os primeiros casos, é radical, mas, a seu ver, essencial: bombardear a cidade inteira e todos os que estão nela para interromper o contágio. , comumente conhecido como “fungo formiga-zumbi”, a se adaptar para sobreviver em temperaturas mais altas, tornando os humanos um hospedeiro alternativo.

O roteirista e produtor Craig Mazin – que também nos deu a minissérie de Chernobyl – defendeu a premissa do programa, explicando que tudo o que sugere que os fungos fazem, eles já fazem e vêm fazendo desde sempre – incluindo sequestrar o cérebro das formigas e obrigá-las a propagar seus esporos dos assassinos. Outros fungos já podem produzir efeitos que alteram a mente em humanos (pense em cogumelos mágicos).

The Last of Us se passa 20 anos após a civilização moderna ter sido destruída por uma infecção fúngica. Fotografia: HBO/Warner Media

The Last of Us ainda é muito ficção científica, mas há muitos outros motivos para se preocupar com fungos. As infecções fúngicas já matam cerca de 2 milhões de pessoas por ano – mais do que a tuberculose ou a malária – e o número está crescendo. Os fungos também estão se tornando cada vez mais resistentes ao pequeno número de tratamentos disponíveis, e há muito poucas alternativas em andamento. O mundo estava relativamente despreparado para uma pandemia viral quando a Covid atingiu, mas pelo menos os cientistas já estavam desenvolvendo vacinas contra o coronavírus. Não existem vacinas humanas contra fungos.Em outubro, a Organização Mundial da Saúde divulgou sua lista de patógenos fúngicos prioritários, o primeiro esforço global para criar uma lista micológica “mais procurada” dos 19 fungos mais perigosos para os seres humanos. “Apesar de representar uma ameaça crescente à saúde humana, as infecções fúngicas recebem muito pouca atenção e recursos globalmente”, disse o relatório. “Tudo isso torna impossível estimar a carga exata de infecções fúngicas e, consequentemente, dificulta a galvanização de políticas e ações programáticas”.

Os fungos são a forma de vida mais populosa do planeta, com cerca de 12 milhões de espécies existentes em todo o mundo. A maioria nunca foi categorizada. Apenas uma fração dessas espécies infecta humanos, mas são responsáveis ​​por cerca de um bilhão de infecções a cada ano. “A maioria são coisas superficiais, como pé de atleta, com as quais ninguém se preocupa particularmente, mas há um grupo principal que causa infecções com risco de vida, principalmente em populações suscetíveis, como os muito velhos ou jovens, e aqueles com sistemas imunológicos que não funcionam adequadamente”, diz Mark Ramsdale, professor associado de micologia no Centro MRC de Micologia Médica em Exeter.

Cerca de 1,5 milhão de pessoas morrem por ano como resultado dessas infecções, diz Ramsdale – embora isso possa ser uma subestimação, porque os fungos infectam predominantemente pessoas que já têm grandes problemas de saúde. “A principal causa de morte provavelmente será leucemia ou transplante de coração, ou qualquer outra coisa”, diz ele. “Mas o que realmente mata o paciente é uma infecção fúngica, então há um forte elemento de subnotificação acontecendo.”

No topo da lista da OMS estão três formas de levedura patogénica, além do Aspergillus fumigatus, um fungo comum encontrado no solo e na vegetação em decomposição que pode causar uma infecção com risco de vida chamada aspergilose em pessoas com imunidade comprometida, como aquelas com HIV, doença pulmonar crónica, ou receptores de transplante de órgãos.

Alguns dos fungos da lista da OMS também podem afetar pessoas saudáveis. Coccidioides , conhecidos coloquialmente como “Cocci”, são fungos que vivem no solo encontrados no sudoeste dos EUA, México e partes da América do Sul que causam uma doença semelhante à gripe chamada febre do vale em um subconjunto de pessoas que os respiram. a 10% dos indivíduos infectados desenvolverão problemas pulmonares graves ou de longo prazo, enquanto em cerca de 1% dos casos a infecção se espalha para outras partes do corpo, incluindo o cérebro, onde pode ser fatal. Cerca de 150.000 pessoas nos EUA são infectadas a cada ano e cerca de 75 morrem por causa disso.

O alcance de algumas dessas infecções também está aumentando. Casos de febre do vale foram recentemente detectados no norte do estado de Washington. O número de infecções relatadas também aumentou 400% entre 1998 e 2015, possivelmente devido às mudanças climáticas.

Outras infecções fúngicas parecem ter aumentado como resultado da Covid, incluindo aspergilose e mucormicose, ou “síndrome do fungo preto”, uma infecção rara, mas perigosa, que pode fazer com que o tecido infectado morra e fique preto. Como essas infecções são mais comuns em pessoas com imunidade suprimida ou danos pulmonares, os médicos suspeitam que estejam capitalizando os danos físicos causados ​​pela Covid.

Um médico se prepara para realizar uma cirurgia em um paciente com mucormicose em Allahabad, na Índia. A mucormicose apresenta elevada prevalência no país. Fotografia: Ritesh Shukla/Getty Images

Os sintomas da mucormicose podem ser terríveis. Frequentemente começando nos seios da face, a infecção pode se espalhar para tecidos e órgãos vizinhos, incluindo olhos e cérebro, resultando em pele enegrecida, inchaço facial, visão turva, consciência alterada ou coma. Alguns pacientes perderam a visão em ambos os olhos ou tiveram que fazer uma cirurgia para remover ossos e tecidos mortos ou infectados.

Por mais horríveis que sejam essas doenças, uma graça salvadora é que a maioria das doenças fúngicas não é transmitida de pessoa para pessoa. Em vez disso, eles geralmente são retirados do meio ambiente, o que tende a limitar sua propagação. A mucormicose, por exemplo, é 70 a 80 vezes mais prevalente na Índia do que no resto do mundo.

No entanto, existem excepções a esta regra. Uma delas é Candida auris , um parente mortal da levedura que causa aftas. Está na lista “crítica” da OMS, pois está superando rapidamente nossos melhores tratamentos antifúngicos. Como muitos patógenos fúngicos, Candida auris ataca predominantemente pessoas com sistema imunológico enfraquecido; se entrar no sangue ou invadir outros órgãos e tecidos, suas hipóteses de sobrevivência são de aproximadamente 50-50.

Semelhante ao fungo em The Last of Us, Candida auris veio até nós do nada. Era desconhecido da ciência até que foi encontrado no canal auditivo de uma japonesa de 70 anos em Tóquio em 2009. Em alguns anos, infecções foram relatadas na Ásia, África e Oriente Médio.

“Agora está em todo o mundo e é um pesadelo absoluto nos hospitais porque é resistente a muitos dos medicamentos antifúngicos da linha de frente”, diz o professor Matthew Fisher , do Centro MRC para Análise Global de Doenças Infecciosas do Imperial College London. Também é parcialmente resistente a desinfetantes e ao calor, o que o torna extremamente difícil de erradicar. Sua detecção pode desencadear o fechamento temporário de enfermarias hospitalares inteiras.

De onde veio Candida auris é incerto. “Estamos supondo que, na profunda biodiversidade de fungos que existe, essa espécie em particular teve sorte”, diz Fisher. Alguns fatores podem ter contribuído. A mudança climática pode ter promovido a mudança desse organismo de um hospedeiro desconhecido para nós, e é até possível que, como em The Last of Us, temperaturas mais altas tenham selecionado variantes que podem crescer na temperatura do corpo humano.

Outra possibilidade é que o uso excessivo de medicamentos antifúngicos na medicina ou na agricultura tenha suprimido o crescimento de organismos concorrentes, abrindo nichos nos quais cepas de Candida auris resistentes a medicamentos e outros fungos potencialmente nocivos podem prosperar. Para agravar o problema, existem apenas quatro classes de drogas antifúngicas, e há muito poucas em andamento.

Fungo Cordyceps atacando uma mosca. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

O desenvolvimento de novos medicamentos será um desafio. “Como os fungos estão realmente intimamente relacionados aos animais, quaisquer drogas que possam interferir no crescimento e desenvolvimento de um fungo são frequentemente tóxicas para nós”, diz Ramsdale. Apesar dessas preocupações, os fungos atualmente recebem menos de 1,5% de todo o financiamento de pesquisa de doenças infecciosas. O relatório da OMS pede maior vigilância e desenvolvimento de antifúngicos, bem como melhores ferramentas de diagnóstico, para garantir que os pacientes sejam tratados prontamente com os medicamentos corretos. A educação também é crítica, diz Ramsdale: “Muitos médicos recebem apenas uma ou duas palestras [sobre patógenos fúngicos] durante todo o treinamento na faculdade de medicina”.

A OMS disse que era importante não sensacionalizar a ameaça representada pelos fungos. Bactérias resistentes a antibióticos apresentam uma ameaça mais imediata e quantificável. “Este é um apelo para aumentar a conscientização, gerar evidências e gerar ciência – não apenas a pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, mas também a ciência básica para entender a dinâmica da doença, epidemiologia, ecologia e distribuição global de infecções fúngicas, ” diz o Dr. Hatim Sati, da divisão de resistência antimicrobiana da OMS, que ajudou a escrever o relatório.

No entanto, a ameaça representada pelos fungos não se limita necessariamente às espécies que desenvolveram a capacidade de nos infectar. Cerca de 6.000 espécies de fungos são conhecidas por causar doenças em plantas comerciais e, a cada ano, 40% das safras de arroz do mundo são perdidas para uma doença fúngica chamada brusone do arroz. “Esse é um grande problema de segurança alimentar”, diz Ramsdale.

Doença fúngica da podridão parda em maçãs. Fotografia: Sabena Jane Blackbird/Alamy

O relatório da OMS também não lida com ameaças fúngicas desconhecidas – aquelas que ainda não chegaram aos humanos. Desde a década de 1990, os biólogos conservacionistas observam horrorizados espécies após espécies de anfíbios sucumbirem a uma doença causada por fungos quitrídios que tem sido associada ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios e à extinção de 90. Semelhante ao cenário imaginado em The Last of Us, não há nenhuma medida eficaz conhecida para controlar a doença.

Com tantas espécies de fungos por aí, ficar atento a ameaças emergentes é uma tarefa assustadora. “Não há micologistas suficientes no mundo para acompanhar tudo isso”, diz Ramsdale. Treinar mais deles seria um bom lugar para começar. Mas tanto quanto os fungos representam um perigo para nós, eles também apresentam oportunidades. O primeiro antibiótico do mundo, a penicilina, foi descoberto em um molde. Quem sabe que outros truques químicos eles têm em seus micélios? “Como bactérias ou vírus, os fungos são antigos e estão por toda parte”, diz Fisher.

Subestimá-los seria um erro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Documentário: Domínio - "Dominion" (2018), em Português


Dominion é um documentário australiano lançado em 2018 pelo ativista dos direitos dos animais Chris Delforce. 

O filme é centrado numa postura realista sobre práticas agrícolas de animais para educar as percepções do público sobre a agricultura animal, apresentando imagens gráficas reais filmadas secretamente usando câmaras escondidas e drones aéreos. O filme foca seis tópicos: animais de quinta, animais selvagens, animais de companhia, animais de entretenimento, animais de pele e experimentação animal. 
O filme, e o seu movimento Dominion relacionado, é administrado por uma organização de proteção e direitos dos animais, Farm Transparency Project, anteriormente conhecida como Aussie Farms. O filme foi filmado para ser uma sequência documental de longa-metragem de Lucent (2014), que se concentrou principalmente na indústria australiana de criação de porcos.

Sinopse 
Dominion descreve, em 18 capítulos, como diferentes espécies animais são usadas e mal utilizadas de maneiras diferentes. O filme é dividido em segmentos que abrangem diferentes espécies: porcos, galinhas poedeiras e frangos de carne, perus, patos, vacas, ovelhas, cabras, peixes, coelhos, visons, raposas, cães, cavalos, camelos, ratos, animais exóticos, focas e golfinhos , e uma conclusão dos narradores.


Site principal do Filme:

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Os zombies da natureza que superam as histórias de ficção científica

Bassettia pallida is a parasite that infests oak trees and is itself infested by another newly discovered wasp

Os zumbis que conhecemos na ficção científica são pós-humanos ferozes que se alimentam de carne. Enquanto essas histórias nunca viraram realidade, a natureza está cheia de casos de zumbificação entre plantas e animais. Às vezes, os paralelos são impressionantes.

Há algo assustador na ideia de que o comportamento de um animal possa ser drasticamente transformado por uma infecção ou um parasita, mas é um fenômeno bastante consagrado na natureza.

Foram encontrados até mesmo fósseis com evidências de formigas zumbis que datam de 48 milhões de anos atrás.

Conheça os zumbis da vida real, alguns deles mais estranhos que a ficção:

Formigas zumbis

Há alguns anos, Matt Fisher fazia uma pesquisa de campo à noite nas densas florestas da Guiana Francesa quando se deparou com algo surpreendente. "Encontramos cadáveres de insetos que haviam sido parasitados fixados no alto da vegetação, com corpos cheios de esporos sendo projetados para fora de seus crânios", lembra ele.

Fisher, epidemiologista de doenças fúngicas do Imperial College London, sabia exatamente do que se tratava: restos mortais das "formigas zumbis", insetos infectados com um parasita fungal que controla seus corpos e mentes, fazendo elas rastejarem sobre plantas, onde ficam presas. Quando elas morrem, os esporos fúngicos infeccionados caem sobre outras formigas abaixo delas, espalhando ainda mais o contágio.

Se os zumbis da ficção frequentemente espalham suas infecções por mordidas, essas formigas se fixam a plantas de uma maneira parecida. Às vezes elas se prendem às folhas com suas mandíbulas e morrem com a trinca intacta.

O grupo de fungos que consegue fazer isso pertence ao género Ophiocordyceps. Uma vez infectada, a formiga zumbi irá rastejar até um tipo específico de locação determinada pela espécie de fungo que a vitimou.

Talvez o fungo mais famoso, Ophiocordyceps unilateralis, deixe sua hospedeira morrer empoleirada sob uma folha.

A maneira como um fungo pode exercer esse efeito específico num organismo tão mais complexo que o seu não é óbvia. Mas os cientistas David Hughes, Harry Evans e seus colegas tentam resolver o mistério - eles têm estudado fungos Cordyceps por décadas. Descobriram que espécies diferentes de Ophiocordyceps unilateralis evoluíram para combinar com os diferentes ciclos de vida de qualquer espécie de formiga hospedeira que eles usarem como vítima. É um "impressionante exemplo de coevolução", diz Evans.

Num artigo de 2016, Evans e seus coautores explicaram que o fungo provavelmente usa uma série de enzimas que alteram processos no corpo da formiga hospedeira. Essas enzimas podem, por exemplo, mudar a expressão dos genes de uma maneira que influencie o comportamento das formigas.

Também se sabe que, uma vez que elas são "zumbificadas", o tecido muscular das formigas cede gradualmente.

Também pode haver manipulação direta do sistema nervoso da formiga e controle de neurotransmissores de "mensageiros químicos" como a dopamina - o que também pode modificar o comportamento dos animais. Essas interações ainda não são completamente compreendidas. O que está claro é que mais exemplos de insetos-fungos zumbis ainda estão sendo descobertos.

"A próxima questão que estamos tentando descobrir é se a mesma coisa acontece com aranhas", diz Evans. "E a resposta parece ser sim".

Esses zumbis da vida real até influenciam a representação de zumbis na ficção. Conforme eles foram ficando mais conhecidos, os fungos Cordyceps inspiraram fábulas modernas sobre os mortos-vivos. Por exemplo, no romance de M. R. Carey, A menina que tinha dons, e no videogame The Last of Us, as vítimas humanas são infectadas por um fungo parasita, não um vírus zumbi.

Parasitas zumbis

A situação na qual as vidas dos dois organismos estão diretamente ligadas - como quando há um parasita e seu hospedeiro - é conhecida como simbiose. No mundo dos insetos, há vários exemplos disso.

Tome como exemplo a vespa parasita Glyptapanteles, que põe seus ovos no corpo de lagartas. Quando os ovos se partem, as larvas de vespa se alimentam dos fluidos corporais da lagarta antes de formar um casulo nas proximidades.

Mas a lagarta, apesar de ser prejudicada pelo processo, continua viva e em posição de uma espécie de segurança zumbi que espanta agressivamente besouros que se aproximam e poderiam se alimentar dos casulos. Os pesquisadores que estudam esse comportamento descobriram que, com uma segurança-lagarta perto, o número de predadores que se aproximam dos casulos pode ser diminuído em uma óbvia vantagem de sobrevivência.

O termo parasitoide significa um parasita que pode matar seu hospedeiro em algum momento. Há vários exemplos de vespas parasitoides que influenciam o comportamento dos hospedeiros de maneiras cruéis.

Kelly Weinersmith, ecologista da Universidade de Rice, estudou um exemplo macabro em 2017. Ele ficou conhecido como a vespa guarda-criptas, ou Euderus set.

Essa vespa parasitoide espera que outras espécies de vespas parasitem uma árvore ao depositar seus ovos para atacá-las.

A descoberta foi festa depois que Scott Egan, colega de Weinersmith, descobriu uma cripta de vespa parasita fora do comum enquanto passava as férias com a família. Nesse caso, a cripta havia sido criada por uma espécie de vespa chamada Basettia pallida.

Geralmente, a B. pallida faria a incubação de seus ovos e em algum momento um buraco na cripta antes de voar para longe. Mas com a guarda-cripta à solta, seu destino não é tão certo. Isso é porque a Euderus deposita seu ovo dentro da cripta.

"Nós não sabemos os mecanismos através dos quais ela faz isso, mas faz com que a primeira vespa que estava no local crie um buraco de emergência", diz Weinersmith. "Só que o buraco é menor que o comum e em vez de sair, sua cabeça fica presa e ela morre ali dentro".

A vespa guarda-cripta agora está no comando. Ela come a vespa que morreu presa para se manter enquanto cresce. "Quando termina de se desenvolver, ela sai pela cabeça de sua hospedeira", diz Weinersmith.

Então a parasita gera uma parasita. A primeira vespa, B. pallida, ela mesma uma parasita da árvore, foi transformada em uma espécie de zumbi suicida - e uma fonte de nutrição para seu próprio parasita, o guarda-cripta. Os dois casos individuais de controle aqui, um dependente do outro, faz desse caso um raro exemplo de hipermanipulação, diz Weinersmith.

Zumbis sexuais

Se um zumbi é um organismo cujo comportamento é drasticamente modificado para beneficiar seu parasita, então outro exemplo bizarro disso pode ser encontrado nas pererecas japonesas da Coreia do Sul.

Em março de 2016, Bruce Waldman, da Universidade Nacional de Seul, e seu aluno Deuknam An publicaram evidências de uma extraordinária manipulação comportamental causada por um fungo patogénico, Batrachochytrium dendrobatidis.

O fungo é uma ameaça conhecida para muitas espécies de sapos, mas as pererecas japonesas na Ásia não parecem morrer tão abruptamente quando uma população é infectada. Quando Waldman e Na escutaram os sons reprodutivos de 42 sapos machos, perceberam que os nove que foram infectados com Batrachochytrium dendrobatidis emitiam sons mais rápidos e longos - tornando-os mais atraentes para cruzas em potencial.

"Ainda assim, não podemos dizer com certeza se as diferenças no chamado são atribuíveis aos fungos manipulando o hospedeiro", diz Waldman. Poderia ser, por exemplo, devido a outra reação que os sapos podem ter devido à infecção.

Matt Fisher diz que os anfíbios podem ser transformados em "zumbis sexuais", cujas interações subsequentes com cruzas apenas aumentam a possibilidade de os fungos se espalharem ainda mais. "Não é uma hipótese comprovada, mas os indícios são fortes", diz.

Plantas zumbi mutantes

Talvez um dos exemplos mais surpreendentes na natureza de um zumbi da vida real esteja fora do reino animal, nas plantas que são transformadas em versões mutantes de si mesmas.

Saskia Hogenhout, do Centro John Innes, e seus colegas descobriram o mecanismo pelo qual um grupo de bactérias, chamado de fitoplasma, transforma plantas impotentes em zumbis. Eles publicaram sua pesquisa em 2014.

A bactéria em questão precisa ser espalhada por insetos que se alimentam da seiva das plantas, como as cigarrinhas. Mas, para atrair esses veículos de contágio, plantas infectadas precisam ceder às bactérias.

"Parece que esses parasitas estão dominando outras plantas", diz Hogenhout.

Hogenhout e sua equipe descobriram que a bactéria estava secretando proteínas que alteram processos moleculares dentro das plantas. Ou seja, eles alteram fatores de transcrição: as próprias proteínas da planta que controlam a expressão do gene e ajudam a diferenciar várias partes do organismo, como uma folha de uma flor ou de um caule.

As proteínas invasivas da bactéria deslocam as das plantas num um nível em que a planta infectada começa a se transformar. As flores da planta começam a morfar em flores verdes, tornando-se folhas. A infecção as torna mais atraentes para os insetos que vão colher a bactéria e carregá-las para novos hospedeiros de plantas. "Ficou bastante claro que o parasita está interferindo em processos bastante essenciais da planta e mudando a identidade delas - é basicamente o que um zumbi faz", diz Hogenhout. "Elas estão usando outra identidade".

As plantas zumbis são um exemplo especialmente interessante porque a própria planta não morre como resultado da infecção. Ela simplesmente é transformada num veículo útil para ainda mais contágio. Como o biólogo Jon Dinman, da Universidade de Maryland, afirma, algumas infecções bem-sucedidas estilo zumbi mantêm o hospedeiro vivo.

Em geral, a doença é transmitida entre organismos quando sua virulência - sua habilidade de prejudicá-los - é colocada em xeque. É exatamente isso o que acontece com as plantas zumbis, por exemplo.

Felizmente, os humanos não são ameaçados por esses patogénicos.

O mesmo não pode ser dito a respeito de muitos insetos e outros organismos, porém. Em florestas no mundo todo, os hospedeiros zumbis já estão soltos, suas mentes e corpos torcidos sob o efeito de parasitas espetaculares.

Mais imagens e fotos aqui

quarta-feira, 23 de março de 2022

Maria Ceguinha


Era uma mulher robusta, uma pele invejável, carinhosa e muito minha amiga.
O marido dela trabalhava na recolha do lixo e tinha sempre um livro ou dois para me dar. Aos domingos de manhã, depois da missa e da catequese, passava pela casa deles. Não tinham televisão. Era um T0, em termos de linguagem actual. Cozinhava muito bem. 
Por vezes convidavam para almoçar com eles. Mas tinha outros planos. Queria chegar a minha casa para não perder nenhum episódio do Verão Azul. Lá vinha muito contente pela rua abaixo com mais um livro ou dos "Sete" ou dos "Cinco" de Enid Blyton. Li-os todos graças ao casal. 
Os domingos de tarde, por vezes, ocupava-os a ver o Júlio Isidro. Outras vezes tinha reuniões de escuteiros nos Carvalhos, onde ia com muito gosto. Certos domingos, ia desafiar o Pedro para irmos aos gambuzinos. Era um riacho que passava numa pradaria ali perto onde ele vivia. Quando chegava a casa punha-os num jarro grande mas morriam todos. Grandes e pequenos. Nem eu, nem minha mãe sabiam o que comiam. Deixei de trazer gambuzinos. Foi a decisão mais correcta. 
Certa vez capturei uma salamandra-lusitânica e um tritão-ibérico. Das duas vezes, a minha mãe passou-se. Não gostava mesmo nada destes animais viscosos. Lá ia eu retorná-los à Natureza, com pena minha porque queria estudá-los.
A D. Maria não era totalmente ceguinha. Dizia que via os vultos e algumas cores. Era amigo de a ajudar. Quando podia, estava ela a fazer compras, ajudava-a a carregar os sacos e dava-lhe o meu braço para ela não cair e estar segura até chegar a casa.

domingo, 20 de março de 2022

"O senhor Dona Alice" por Ana Primavesi


O senhor Dona Alice
"O túnel era escuro mas bastante cômodo. Era arrematado com uma massa viscosa que tornava as paredes duras e estáveis. De vez em quando forquilhava para dar acesso a uma gruta espaçosa, cujo chão e paredes eram revestidas caprichosamente com pedrinhas.

Aqui morava Dona Alice, uma minhoca da nobre tribo dos Enchytraideos. Tinha trazido as pedrinhas, uma por uma da superfície para arrematar seus quartos, onde descansava e dormia. Agora mesmo, estava repousando numa de suas salas lendo o noticiário das minhocas. Achou um absurdo que estavam importando minhocas da família das Eisenia para criação de rãs. Era uma família vagabunda, que vivia quase que exclusivamente de esterco de gado, crescia rápido e praticamente não cavava túneis e casas. Mas finalmente, recebia o que merecia. Era criada somente para ser jogada como comida à rãs que as devoravam.

Dona Alice sentiu um arrepio porque era um sistema bastante cruel. Outra notícia dizia que um professor da tribo dos Octaclátios virá para dar uma palestra sobre a melhor maneira de misturar a terra com húmus. Mas Dona Alice achou que não iria adiantar muito porque nesta região tropical, o húmus era raro, e o que se tinha para comer eram folhas frescas ou semi-decompostas. Leu ainda, que a maior população de minhocas vivia no Alto do Araguaia na Amazônia, onde se supunha que não existissem minhocas.

Fechou o jornal e foi à sua despensa para beliscar uma folha que estava sendo preparada pelas bactérias. Estava quase no ponto para ser comida. Passou por um de seus depósitos de lixo e olhou com curiosidade as bactérias e fungos, especialmente os actinomicetos que brigavam pelos restos. E de repente lhe veio a pergunta: será que são tão pobres que não têm coisa melhor para comer do que meu lixo, ou ela era tão fina que jogava tanta coisa boa fora?

Comeu uns fios de fungos sem pedir licença e seguiu seu caminho. Inspecionou os quartos onde iria depositar os casulos com seus ovos. Aqui estariam protegidos e os filhotes poderiam viver um bom tempinho dentro do casulo, consumindo o líquido nutritivo que tinha colocado com muito cuidado. Aqui, ninguém iria incomodá-los e poderiam sobreviver bem à primeira fase de sua vida. Depois viria a luta pela sobrevivência.

Hoje, não estava de bom humor. Tinha brigado com seu companheiro o Senhor Eisino, porque tinha dito para ele que nas próximas semanas ela seria o dono da casa. “Como?” perguntou ele, “Sem mais nem menos você quer que troquemos?” “Naturalmente,” disse Dona Alice, “A partir de hoje eu sou o Senhor Alicio e você é a Dona Eisina. Acho muito justo que troquemos. Por que somente eu devo fazer os ninhos e produzir os casulos, se você também pode?”

E quando uma raiz de Cambará entrou para perguntar se poderia usar seu túnel, em busca de água, lá em baixo, no lago subterrâneo, e ainda não sabia da troca chamando-a de Dona Alice, esta berrava irritada: “Nada de Dona Alice. Sou o Senhor Alicio! Está bem!” “Desculpe,” gaguejava a raiz, “Não sabia que tinham trocado novamente.” “É algo confuso seu status. Nunca sei se devo dizer Dona Alice ou Senhor Alicio.” A minhoca olhava desconfiada para a raiz, não sabendo se era gracejo ou se falava sério. Mas quando viu que era toda sincera, alisou suas cerdinhas que sempre eriçava quando estava brava, desenrolou seu corpo em todo seu tamanho para mostrar seu cinto novo e disse algo conciliador: “Diga simplesmente senhor Dona Alice, aí se evita confusão.”

A raiz riu baixinho, com cuidado para que o senhor Dona Alice não a visse nem ouvisse, e seguiu seu caminho em direção à água.

Eisino, agora Eisina, foi à superfície para pegar algumas folhas e ventilar sua raiva. Ontem ainda era o maridinho e hoje devia ser esposa. Mas depois consolou-se que a vida das minhocas era assim mesmo. Ia colher algumas folhas semi decompostas porque eram mais gostosas. E caso não encontrasse nada, arrastaria também uma plantinha nova para sua casa. Depois resolveu fazer outro túnel para não encontrar mais com Alicio naquele dia. Empurrava a terra com força.

“Nossa!"- gritou uma vespinha que estava prestes a depositar um ovo numa larvinha e que foi varrida por este terremoto, enquanto a larvinha aproveitava para fugir. “Que maneira grosseira, onde se viu empurrar a casa dos outros?” Eisina não disse nada mas andava igual a um caterpiller, derrubando tudo que estava em seu caminho. Mas depois a terra ficou dura e seca e resistia à sua cavação. Já se arrependia um pouco de sua teimosia, mas como verdadeira minhoca não desistia facilmente. Molhava a terra com água de sua reserva que sempre carregava junto e depois, sem maiores dificuldades, a engolia, porque não tinha onde depositá-la. Usava sua própria barriga como carreta. Depois, quando saída da terra despejava tudo na superfície, agora misturada com húmus e cálcio de sua glândula especial e formando pequenos cones. Tinha certeza que a chuva não iria destruí-las e a entrada de água estaria garantida. Sem umidade nem minhoca nem planta consegue viver.

A região onde estava era nova e ainda não existiam folhas semi decompostas. Assim mesmo, carregou algumas folhas para sua despensa, que ainda não estava revestida, e respingou um líquido por cima das folhas para atrair bactérias, que deveriam começar a digeri-las. Bactérias trabalham bastante rápido e logo iriam dar uma comida especial. Enquanto isso, comeu alguns fios de fungos e caçou algumas larvinhas de saltadores ou colêmbolos e até de nematoides.

Os nematoides velhos que estavam por perto olhavam-na com ódio. Mas nesse dia, Eisina estava nervosa e não suportou esta sem-vergonhice dos nematoides, esses verminhos brancos e sem forma alguma que pareciam simplesmente uns fios. Avançou contra eles e espirrou um jato de líquido por cima deles que os fez dissolver em forma de espuma. “Estes não vão me provocar mais” pensou satisfeito. Mas agora estava com fome e furtivamente, entrou no túnel comum dela e de Alicio e comeu com gosto uma folha preparada por bactérias. Uma raiz de grama-batatais entrou, virou-se e disse: “Como está gostoso aqui: fresquinho e úmido. Lá fora tem um calorão horrível.” E para agradar Eisina, deixou cair algumas radículas e disse ocasionalmente, mas suficientemente alto para ser ouvido: “Aqui debaixo do meu manto espesso nunca haverá calor e seca, e, comida nunca faltará.” “Enquanto não lhe queimarem.” Disse Eisina secamente.

Com tantas minhocas na terra, o pasto era bom, muito bom, até bom demais. Pelo menos o dono do pasto pensava assim. Aqui iria dar uma ótima lavoura de algodão. Fincou uma enxada para tirar uma mostra da terra, justamente onde estava Eisina, e a cortou ao meio. Um besouro que passava nesse instante, quase morreu de rir. “Dona Flor e seus “dois maridos!”gritou ele: “Esposas” observou Eisina triste.

Uma formiga que se encontrava por perto, olhou e perguntou: “Como se chamará a outra metade?” E logo apareceu uma centopeia que fez seus cálculos se dava para comer uma das partes, uma vez que a minhoca diminuiu de tamanho, e parecia exatamente adequada. Mas depois desistiu. Alguns saltadores que não tinham medo de nada, perguntaram: “Qual das duas partes é a Eisina?” A Eisina também não sabia. Como iria saber se cada parte iria dar uma minhoca inteira? Um ácaro sugeriu: “Chame uma parte de Eisina e outra de Aloisia, em homenagem a Alicio. Mas agora as duas partes se revoltaram. Isso lhes faltava. Homenagear outros com a própria desgraça. Mas afinal, nem sabia ao certo se era uma desgraça ou uma vantagem. O único que poderia sabê-lo, era a velha toupeira, o bicho mais sábio debaixo da terra, mas não queria perguntar, porque corria o risco de ser engolida na hora.

Atraído pelo barulho geral, apareceu Alicio. Olhou algo surpreso as duas partes de Eisina e disse laconicamente: “Eisina I e Eisina II, agora somos um casal a três.” Mas uma aranha que passava abanou a cabeça em desaprovação: “Embora isso seja moda entre os humanos em Brasília, não precisam imitar esta sem vergonhice!”

A entrada da enxada foi somente o início de uma série de catástrofes. Resolveram arar e gradear o campo e plantar algodão. E para não nascerem plantinhas nativas, que chamavam de invasoras, aplicaram herbicida. Das minhocas da terra revolvida, quase nenhuma escapou dos passarinhos. Alicio se refugiou a tempo para o fundo de seu túnel, arrastando consigo Eisina I e II. Mas veio ainda pior. Aplicaram liberalmente adubo e, o nitrogénio amoniacal é mortal para a maioria dos bichinhos da terra. A terra nua e desprotegida aqueceu muito sob os raios solares diretos. Os depósitos das minhocas se esvaziaram, e as folhas semi-decompostas terminaram. Não tinha mais comida. Mas a vista não lhe animou. Havia somente algodão, plantinhas novas que nem pensavam em jogar alguma folha. E, mesmo se as tivesse jogado, não teria ajudado, pois estavam impregnadas de veneno.

Eisina se levantou e se espichou, mas não podia ver nada, a não ser algodão. Não poderia migrar por cima desta terra seca e quente. E ir para longe, era impossível. Minhoca que se preze, não migra muito. Somente as da família dos lumbricus migram com gosto, mas também após uma chuva.

Quando finalmente choveu, Alísio tentou fugir com as duas Eisinas. Mas a plantação não tinha fim. Era grande demais. Cansados, desistiram. E agora?

Todas estavam famintas e fracas. Era melhor voltar à terra. Cavaram um pequeno túnel e deitaram. “Agora, quem iria fazer túneis para as raízes poderem buscar água? Quem iria proteger as entradas dos túneis, para a água poder entrar? Quem iria preparar a terra fofinha e rica em cálcio para as plantas? Quem iria matar os nematóides ou criar bactérias benéficas?” quis saber Eisina I. Alício deu um nó duplo no seu corpo e Eisina I e II fizeram o mesmo. Já quase anestesiada perguntou ainda: “E se essas adversidades não terminarem tão cedo?” O fim da frase foi um sussurro quase inaudível e depois elas caíram num sono profundo do qual nunca mais iriam acordar.

Os homens não se deram conta que as minhocas eram seus melhores amigos.
In: A Convenção dos Ventos - Agroecologia em Contos