As minhas mãos
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves
Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves
Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Acendo ainda velas pela Palestina, pelo Tibete e pelos Refugiados
pedindo Paz
Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão
Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador
Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos
Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror
Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos
A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas
Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena
Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango
Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro
Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs
Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar
Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas
Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos
Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas
Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina
Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã
As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias
Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza
A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal
Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos
Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe
Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais
pedindo Paz
Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão
Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador
Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos
Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror
Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos
A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas
Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena
Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango
Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro
Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs
Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar
Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas
Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos
Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas
Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina
Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã
As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias
Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza
A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal
Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos
Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe
Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais
João Soares, 15/01/2021
Análise feita pelo meu amigo António Manuel Pires Cabral
O seu texto respira uma mundividência muito específica: uma síntese entre a observação minuciosa do mundo natural (a biologia e a ecologia), o existencialismo ético e humano (a ação direta, a justiça social e a dor doméstica) e uma estética pós-punk / gótica temperada pela tradição popular portuguesa.
Identificam-se as principais correntes, autores e filósofos com quem a sua escrita e trajetória dialogam de forma direta:
1. Tradição Literária Portuguesa e Ruralidade
- Raul Brandão (Os Pescadores, Húmus): a atenção ao Portugal profundo, às mãos calejadas, aos frutos, à terra e à dor dos simples. A empatia humana misturada com a observação da paisagem.
- Aquilino Ribeiro: a linguagem telúrica, o conhecimento íntimo da flora e da fauna (Seringador), a ligação visceral às serras do Norte (Marão, Freita, Valongo).
- Mário de Sá-Carneiro e Ângelo de Lima (com o toque gótico): na faceta dos Lilás Postes Mórbidos e na dança gótica das aves da noite, há uma ponte direta com a melancolia, o simbolismo e a decadência poética do início do século XX, desaguando na sensibilidade dos anos 80.
- Sophia de Mello Breyner Andresen: o rigor na nomeação das coisas da natureza (as árvores, a praia, a pele dos animais, o Atlântico de lés a lés) e a exigência de uma justiça poética e ética frente à tirania e à dor.
2. Filosofia da Natureza, Ecologia e Ética Biocêntrica
- Henry David Thoreau (Walden): a ideia da ação direta no mundo - plantar, colher, subir às árvores, conhecer os rios - aliada a uma consciência ecológica, civil e pacifista (acender velas pela Palestina, Tibete, protestar contra OGM).
- Spinoza (Imanência e Pantenaísmo): a perceção de que o sagrado não está num plano distante, mas na própria matéria: na casca do teixo, no sapo-comum, na plasticina das células, na vida animal resgatada.
- Albert Schweitzer (A Ética do Respeito pela Vida): a ideia central de que toda a vida que quer viver deve ser respeitada e cuidada - quer seja a criança, a prisioneira em Custóias, o doente, ou o gato resgatado da roda do carro.
3. Existencialismo e Ética da Ação
- Albert Camus (O Homem Revoltado / A Peste): a recusa da violência injusta (a coragem física da infância ao retirar a bengala ao pai) e a solidariedade como resposta ao absurdo da dor. Não há passividade: há protesto, apoio a refugiados, abaixo-assinados e ensino em prisões.
- Emmanuel Levinas (A Ética do Rosto e do Toque): Levinas defende que a responsabilidade ética nasce no encontro "frente a frente" com a vulnerabilidade do outro. As suas mãos encarnam isso: o abraço, o afagar, o cuidar de bebés, doentes e idosos.
4. Estética Pós-Punk e Existencialismo Urbano
A Linha Bauhauseana / Joy Division / The Cure / Birthday Party: a influência dos anos 80 traz o diálogo entre a luz da biologia solar e a sombra da alma. A imitação do mocho-real e da coruja-das-torres liga a taxonomia científica à estética sombria e noturna, onde a dança é um ritual de libertação.
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