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sábado, 8 de junho de 2024

Fotos que testemunham os efeitos nocivos do glifosato em Matosinhos


Em Matosinhos a autarca (Luísa Salgueiro) continua a aplicar de forma indiscriminada este tipo de pesticidas, ou seja, os mesmos que alteram a microbiota intestinal e provocam doenças, entre elas as patologias neurodegenerativas.
Acresce que, para além de envenenar a primavera, os munícipes, os seus animais e todo o planeta, ainda permite que se escreva o vocábulo "Ecológicos" no edital que anuncia a aplicação de herbicidas. 
Os herbicidas de síntese NÃO SÃO ecológicos. Vamos aos factos: 

1. A eliminação de árvores autóctones, no caso, de um carvalho pela aplicação de herbicidas designados por "ecológicos" pela autarquia, numa propriedade privada.

2. Após a aplicação de herbicidas, designados como "ecológicos" pela autarquia  ocorreu a morte de joaninhas e abelhões.

3. As plantas com flor, alimento dos polinizadores, em agonia, após a aplicação de herbicidas designados por "ecológicos" pela autarquia.

Fotos recolhidas pela minha amiga Ana Pacheco

quinta-feira, 9 de maio de 2024

O alerta severo de David Attenborough: Deixar florir os relvados. Parar os cortes até ao fim da floração.


O alerta severo de David Attenborough para evitar tarefas comuns de jardinagem até julho.
Sir David Attenborough exortou os britânicos a 'atrasar o corte' de seus relvados - e disse às pessoas que essa tarefa comum de jardinagem não deveria ocorrer até meados de julho.
O raciocínio por trás deste apelo não é apenas estético, mas também relacionado ao bem-estar de nossas populações de insetos. Insetos como borboletas, abelhas e vespas dependem fortemente de margaridas e outras plantas que crescem entre as lâminas da relva para polinizar e sustentar seus ecossistemas.
Sir David corroborou essas advertências no documentário sobre a natureza das Ilhas Selvagens da BBC. Ele destacou que cortar a grama alta pode perturbar e até matar esses insetos cruciais, que são parte integrante do ecossistema mundial.
Ele disse: “Nenhum lugar aqui é mais rico em flores silvestres e insetos polinizadores do que os nossos tradicionais prados de feno. Infelizmente, nos últimos 60 anos, perdemos 97% deste precioso habitat."

Saber mais:

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

A arquitectura paisagística está há 80 anos a pensar o futuro, mas ninguém a ouve

Francisco Caldeira Cabral foi o propulsor da arquitetura paisagista em Portugal

E se as cheias ou os incêndios não fossem uma tragédia anual? O cenário parece de sonho, mas é uma realidade possível aos olhos dos arquitetos paisagistas. Têm na sua génese muito mais do que a estética. Aprendem sobre anatomia, plantas, sociedade, cultura e tanto mais. A disciplina tem cerca de 80 anos de história e 50 de reconhecimento, apresentando soluções para a gestão equilibrada entre o ser humano e a natureza. O que falta para ser escutada?

Não fosse estar em causa o bem-estar (e até a vida) do ser humano e poderíamos considerar a história da arquitetura paisagista um autêntico filme. Um daqueles em que o “bom da fita” nunca é ouvido. Até ser tarde de mais. E, à imagem de muitos filmes, não falta neste um cliché: o do “eu avisei”. A expressão parece ser utilizada pelos arquitetos paisagistas para demonstrar que há algo com que todos se preocupam agora que, para estes profissionais, já é uma “cantiga antiga”. Mas do que se trata? Das alterações climáticas. Ou melhor, de como a atividade do ser humano exacerbou e acelerou alterações climáticas ao ponto de sofrermos atualmente com fenómenos climáticos extremos, diários, em torno de todo o Globo. Mas tudo poderia ser diferente. Como? Já lá vamos.

Primeiro, reforcemos o “eu avisei”. “O fenómeno parece novo. Fala-se em todo o lado. Faz capas de jornais quase todos os dias. Mas, para nós, arquitetos paisagistas, não é novidade nenhuma. Estavam à espera que acontecesse o quê?” Quem o questiona é Aurora Carapinha, arquiteta paisagista, investigadora, docente e apaixonada por jardins, que realça que não foi apenas um alerta que a profissão deixou à sociedade, tendo também apontado soluções. “Todos os nossos projetos da altura, por volta dos anos 1980, procuravam dar respostas para que situações extremas com que nos deparamos anualmente hoje não ocorressem.”

Fala-se de cheias, incêndios, perda de biodiversidade, recuo da linha de costa, entre tantos outros assuntos que, hoje, são tema recorrente e catalogados como “nova crise”. Aurora Carapinha lamenta que muitos desses projetos inovadores e solucionadores “tenham sido metidos na gaveta”. Problemas que todos os anos são recorrentes poderiam ser mitigados se tivesse havido um trabalho real com a arquitetura paisagista nos últimos anos? “Sem dúvida alguma. E não o digo por arrogância”, remata.

Arquitetura sem teto
E como é que a arquitetura paisagista tem um poder tão grande perante as alterações climáticas e os fenómenos extremos? Porque tem capacidade de prever e gerir mudanças a longo prazo, indica Carapinha. “O Professor Nuno Portas chamava-nos, com muita graça, os arquitetos sem teto. E trabalhar sem teto é o maior desafio que existe, porque é uma arquitetura que está exposta à intempérie, à mudança das estações, à mudança da luminosidade, às diferentes temperaturas. Enquanto na ‘arquitetura com teto’ posso controlar essas variáveis, aqui não.”

E, por isso, o arquiteto paisagista tem de aprender, por exemplo, onde chove, quanto chove, de que forma se comporta e acumula a chuva. Entre outros dados. E, acima de tudo, completa a docente da Universidade de Évora, “o arquiteto paisagista tem de saber como aproveitar essa chuva”. Em suma, além de prever acontecimentos, a disciplina trabalha para que esses acontecimentos sejam aproveitados em benefício do bem-estar humano e do “bem-estar” da natureza. “Eu não trabalho contra a natureza. Trabalho com as dinâmicas dos sistemas naturais. E tenho de ter duas coisas: a ciência para os saber e a arte para os reinventar, criando novos lugares e oportunidades de vida.”

É no balanço entre ciência e arte que se baseia a definição da arquitetura paisagista, que, nas palavras de Caldeira Cabral, figura histórica da profissão, “é a ciência e a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem”. E os equilíbrios parecem ser o ex-líbris. “Equilíbrios que vão além do estético, mas que alcançam dimensões como o equilíbrio económico, ecológico ou social”, afirma Carapinha.

A primazia do económico
Nestes vários equilíbrios, João Ceregeiro, arquiteto paisagista e presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), acredita que se encontra a fórmula (ou fórmulas) que poderia solucionar diversos problemas da sociedade. Fórmulas essas que, tal como já frisado por Aurora Carapinha, não são novas para a profissão. “O que hoje se fala de conforto climático, de sequestro de carbono, da economia circular, da economia verde… tudo isso são temas que para os arquitetos paisagistas não são novos, porque estão implícitos na sua própria prática há muitas décadas”, esclarece o dirigente. E, agora, a pergunta de “milhões”.

Porque é que essas tais soluções não foram aplicadas e esses tais alertas escutados? “Porque a prática da arquitetura paisagista não se compagina com aquilo que é a agenda dos decisores políticos e económicos, ela está sistematicamente a ser protelada em função de outras prioridades”, em especial, prioridades economicistas, que não têm uma visão complexa e de longo prazo como a profissão assim exige, denuncia Ceregeiro. Porque construir uma praça viável ou ordenar uma mata ou uma floresta poderá ter um custo no momento presente que só será “devolvido” dali a décadas, e nem sempre se trata de um retorno financeiro – o que parece ser difícil de aceitar para uma sociedade que vive em torno do lucro.

A visão exclusivamente economicista e de prazo limitado é também criticada por Aurora Carapinha. Passemos a um exemplo. E logo dos mais complexos. “O problema dos incêndios é muito mais do que dizermos que há árvores demasiado perto das casas. É uma consequência de anos de desertificação do interior. E se quem vive lá é constantemente colocado à margem da sociedade e vive na pobreza, tem de procurar forma de subsistência, para a qual a solução foi, muitas vezes, a exploração do pinhal. É um rendimento fixo e a curto prazo que, de três em três anos, serve para subsistir a família e para pagar as contas extra. Não podemos simplesmente chegar a um local e arrancar de lá as pessoas ou tirar-lhes a forma de sobrevivência.” Por muito prejudicial que essa forma seja para o ambiente.
Aurora Carapinha considera que o arquiteto paisagista pensa “na complexidade social, económica, cultural, simbólica e ecológica da paisagem”, sendo muito mais do que plantar “a árvore certa”.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

A Europa perdeu cerca de 550 milhões de aves em 40 anos. A maior causa? Pesticidas e fertilizantes

Trigueirão (Emberiza calandra) em vinhedos em Cosne-sur-Loire (Nièvre), em dezembro de 2012

As aves há muito fascinam cientistas amadores e profissionais, e uma estreita cooperação em toda a Europa criou um profundo conhecimento sobre seus hábitos, necessidades e números. Alguns dos conjuntos de dados mais antigos desse tipo dizem respeito a pássaros que vivem pelo menos parte de suas vidas na Europa.

Esses dados mostram um quadro sombrio: cerca de 550 milhões de aves foram perdidas da população total da Europa nos últimos 40 anos. É uma estatística chocante e nos diz algo profundo sobre o relacionamento rompido da humanidade com a natureza.

Os cientistas sabem que a biodiversidade está sob pressão crescente, especialmente devido às rápidas mudanças na forma como a terra é usada (da floresta para a agricultura, por exemplo) e ao aumento das temperaturas. Mas como as diferentes espécies respondem a essas pressões, qual delas é a mais importante e como os conservacionistas podem responder para aliviá-las, tudo isso continua sendo uma questão controversa.

Turbinas eólicas, urbanização, perda de habitat, iluminação noturna, alterações climáticas, caça ou até predação por gatos. A multiplicidade de causas potenciais para o colapso das populações de aves europeias tem sido um dos pretextos para a inação política. O trabalho europeu, de escopo sem precedentes e publicado segunda-feira, 15 de maio em Proceedings of the National Academy of Sciences, dissipa em grande parte a neblina muito conveniente da "multifatorialidade". Eles conseguiram estabelecer, pela primeira vez, uma hierarquia geral das causas do declínio das populações de aves no Velho Continente e apontam o uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos como o principal fator, à frente do aquecimento global.

Aproveitando dados de alta qualidade sobre aves, este novo artigo analisou como 170 espécies de aves responderam às pressões induzidas pelo homem na Europa, usando dados coletados em mais de 20.000 locais de monitorização em 28 países ao longo de 37 anos, incluindo dados do Reino Unido.

Descobri que os produtos químicos usados ​​nas quintas para controlar insetos e plantas vistos como ervas daninhas que podem reduzir o rendimento das colheitas estão a privar muitas aves da sua principal fonte de alimento e que esta é a maior causa de seu declínio em toda a Europa.

Fonte: Le Monde

A guerra química contra os insetos e as aves
Uma das principais conclusões do estudo é que o grande uso de pesticidas e fertilizantes é o fator mais significativo para o declínio da população de aves em toda a Europa, incluindo o Reino Unido. Isso não é uma grande surpresa – muitos estudos chegaram a essa conclusão. Mas este é o primeiro estudo a analisar os motores feitos pelo homem de uma só vez, usando alguns dos melhores dados disponíveis e métodos estatísticos modernos. Os resultados são claros.

As práticas agrícolas começaram a mudar significativamente após a segunda guerra mundial, quando os países introduziram medidas para aumentar a produção das quintas. No entanto, tais esforços para aumentar a produção, incluindo uma crescente dependência de pesticidas e fertilizantes, tiveram um custo significativo para as aves e outros animais selvagens – e, de forma crítica, para a saúde geral do meio ambiente.

Um relatório recente do governo do Reino Unido descobriu que a perda de biodiversidade, juntamente com a mudança climática, representava a maior ameaça de médio a longo prazo para a produção doméstica de alimentos. A perda da biodiversidade tem consequências para a sociedade muito além das espécies ameaçadas de extinção.

Acreditamos que as aves são afetadas principalmente por pesticidas e fertilizantes através da perda de alimentos, embora esses produtos químicos também possam afetar diretamente a sua saúde. Os pesticidas são projetados para matar os insetos e invertebrados que os pássaros comem. Os fertilizantes mudam o tipo de planta que cresce num ambiente, muitas vezes em detrimento de uma grande variedade de espécies. Os invertebrados precisam dessa vegetação para se alimentar e se abrigar, e os pássaros também – assim como os invertebrados.

Os invertebrados são uma parte importante da dieta de muitas espécies de aves, mas são combustível de foguete para os filhotes em crescimento, que são o motor do crescimento populacional. Os invertebrados são particularmente importantes durante o período de reprodução para mais de 80% das aves em nosso estudo. A dramática perda de insetos de que ouvimos falar parece ter um impacto profundo nas aves.

Comida amiga da natureza
A questão é a melhor forma de responder. A natureza está com problemas nas terras agrícolas, mas os agricultores podem ser uma grande parte da solução se forem apoiados pelas políticas certas.

Precisamos de um apoio muito maior para práticas agrícolas favoráveis ​​à natureza e de uma mudança na agricultura dominada por pesticidas e fertilizantes inorgânicos. Isso seria bom para a natureza, para os agricultores e para a produção de alimentos, para o clima, para os consumidores – e muitos agricultores progressistas estão liderando o caminho.

Nossos resultados também mostram o poder da ciência cidadã e da cooperação internacional para avançar a ciência e entender melhor o mundo natural – e como mudar as coisas.

Agora precisamos que os governos de todo o mundo apoiem esquemas de gestão de terras que recompensem a agricultura amiga da natureza, como o compromisso de administrar pelo menos 10% das terras agrícolas para a natureza, o que, por sua vez, ajudará a sustentar ou até mesmo aumentar a produtividade agrícola .

Mas também precisamos de uma reforma mais ampla do sistema alimentar, incluindo dietas amigas da natureza. Retalhistas, fornecedores e processadores podem fazer sua parte para garantir um ambiente saudável que possa nos alimentar e trazer de volta a natureza – com todos os benefícios que isso trará para as pessoas.

Saber mais:

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Câmara de Coimbra aposta na reconversão de relva para prados


A Câmara de Coimbra vai apostar na reconversão de relva nos espaços urbanos para prados, de modo a reduzir o consumo de água e para promover a polinização, afirmou o presidente do município.

“Queremos aumentar os prados e estender esta iniciativa a mais espaços da cidade”, afirmou o presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva, que falava aos jornalistas durante a apresentação de uma campanha lançada sexta-feira que procura sensibilizar as pessoas para a importância dos prados em meio urbano.

A campanha conta com placas explicativas em oito espaços verdes do concelho com prado em vez de relva.

“Este prado não está a ser cortado [ou regado]. É mesmo assim!”, lê-se numa das placas que salienta a importância do prado em vez da relva, por reduzir o consumo de água (está mais adaptado ao clima nacional) e potenciar a presença de insetos polinizadores.

A autarquia tem avançado com algumas ações de reconversão de relvado em prado, tendo o objetivo de continuar a aumentar as áreas com prado na cidade de Coimbra, disse José Manuel Silva.

“Temos de mudar a mentalidade das pessoas, que pensam [ao olhar para um prado] que isto está abandonado, mas é mesmo assim. Os prados são fundamentais para a resiliência das cidades e para uma Coimbra mais natural e mais verde”, vincou.

Segundo o autarca, a relva exige muito consumo de água e vários cortes ao longo do ano.

Recordou também a importância dos prados para promover a existência de insetos polinizadores.

“Sem polinizadores, não há vida no planeta. Temos de dar o nosso contributo”, salientou.

Também presente na sessão de apresentação da campanha, estava o vereador responsável pelos espaços verdes e jardins, Francisco Queiró, que defendeu, igualmente, a aposta nos prados.

“As pessoas preferem o que ao olho parece bonitinho e arranjadinho, que é o relvado. Mas os prados têm muito mais a ver com o nosso clima”, realçou.

Segundo o município, os prados nos espaços verdes urbanos são compostos por plantas nativas, adaptadas às condições climáticas locais, tendo um aspeto menos uniforme.

No outono e inverno, os prados “parecem relvados e estão verdes, na primavera, estão floridos e pujantes, enquanto na estação seca ficam amarelados”, explicou.

A campanha está inserida no Plano Municipal de Redução e Contingência para o consumo de água de rega dos espaços verdes para 2023.

O plano prevê uma redução de consumo de água de rega na ordem dos 10%.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Tina Turner: uma das muitas vítimas da "medicina alternativa"

Em 2016, vítima de um cancro intestinal, aconselhada por charlatães, optou por tratamentos fitoterápicos (e homeopatia).Resultado: ela destruiu os rins, sobreviveu apenas graças a um transplante, em estado lamentável.
"Nada é mais poderoso do que uma ideia, e nada é mais potencialmente prejudicial do que um equívoco ou um equívoco que todos consideram verdadeiro sem nunca questionar nem por um momento, ou apenas verificar.
A atual popularidade da chamada medicina alternativa em geral, e dos remédios fitoterápicos em particular, baseia-se em vários mitos comumente aceites, sendo o principal deles, o líder, a ideia de que tudo o que é "natural" é bom.
Esses mitos, no entanto, não resistem ao escrutínio crítico. Eles florescem porque tocam uma corda sensível na psicologia humana. A indústria multimilionária de mezinhas ​​usa esses mitos como um plano de marketing fabuloso e os usa para consolidá-los no público a tal ponto que se tornaram parte da cultura.
Conclusão: nenhum tratamento - seja ele qual for - sem orientação médica, um produto "natural" pode ser muito mais tóxico que um medicamento!

sábado, 13 de maio de 2023

Abandone a sua pá, esqueça o fertilizante, ouça as ervas daninhas: o guia para uma jardinagem descontraída


Ansioso para colocar os seus canteiros de flores ou hortas em forma, agora que a primavera finalmente chegou? Não tão rápido! A vida é muito mais fácil quando você trabalha com a natureza e não contra ela

Depois de quase 30 anos de jardinagem, vários deles em boas instituições, como a Royal Horticultural Society e Kew Gardens, percebi que muito do que me ensinaram, se não está errado, também não está exatamente certo. Todo aquele esforço trabalhoso – capinar, fertilizar, cavar, cuidar e podar, selecionar e conformar – não está funcionando. Não pelas plantas, pelo solo ou pela comunidade ao seu redor, o que inclui você e eu. Culturas indígenas em todos os lugares basearam suas práticas em observar e honrar a ecologia, enquanto nós, no “mundo desenvolvido”, escrevemos nossas regras. Nossa tentativa de controlar a natureza tem perpetuado relações precárias com todos os seres do jardim, transformando tudo em uma espécie de batalha, ou regimes sem fim, seja ceifando, capinando, regando ou atacando algum bicho. É muito trabalho e hoje em dia muito mais do que estou preparado para fazer. Agora a primavera está finalmente se desenrolando, esta estação de crescimento, talvez, em vez de trabalhar em nossos jardins, todos pudéssemos relaxar um pouco, passar mais tempo olhando e ouvindo, esperando em vez de reagir, estando no jardim tanto quanto jardinando ativamente. Aqui está como é feito.

Deite fora a sua pá
Se você estiver minimamente interessado em jardinagem, já deve ter ouvido falar de “no dig”, no qual você evita sua pá e pega numa enxada. Em vez de revirar o solo, uma estrutura que levou centenas de milhões de anos para ser construída e, portanto, pensou muito sobre qual caminho deveria ser, você capina levemente ou “faz cócegas” no solo para remover quaisquer ervas daninhas indesejadas e deixa suas multidões de micróbios, fungos e insetos intactos, exatamente onde eles querem estar. Micróbios felizes tornam as raízes das plantas felizes, mais capazes de absorver nutrientes, combater pragas e doenças e resistir à seca. Conforme você continuar fazendo isso, haverá menos ervas daninhas para remover.

Todo solo tem seu banco de sementes de ervas daninhas: diz o ditado que uma semente de um ano são sete anos de ervas daninhas, mas na verdade são décadas para várias delas. Eles estão lá não para incomodá-lo, mas para agir como um colete salva-vidas para o solo. O solo exposto e livre de ervas daninhas é muito facilmente danificado ou erodido pelo clima: o sol o queima, o vento assola, a chuva o abate, compactando-o ou se vier um dilúvio, causando escoamento. Mais uma vez, aqueles vários milhões de anos de evolução não eram um sistema parado, mas avançando para um ponto de auto-resiliência. A grande maioria das sementes de ervas daninhas precisa de luz para germinar. Quanto mais você perturba o solo, abrindo-o, cavando coisas, mais luz você deixa entrar e mais o solo tem que correr para se proteger. Ele libera seu banco de sementes de ervas daninhas como uma camada protetora para manter o sistema unido.

Facilitar a remoção de ervas daninhas
Falando em ervas daninhas, é hora de abandonarmos a palavra completamente. Até mesmo a própria exposição de flores de Chelsea já está a redefinir  as ervas daninhas como “plantas heroicas”. Talvez possamos falar deles como pessoas comuns ou anciãos (eles existem há muito mais tempo do que nós), porque cada erva daninha no seu jardim está a tentar lhe dizer algo muito importante.

Quanto mais um tipo domina, mais alto é o sermão. Os dentes-de-leão estão dizendo que seu solo é um pouco compacto, com poucos nutrientes superficiais, principalmente cálcio e potássio; as urtigas dizem que há muito azoto na superfície (não tão bom quanto parece). Uma enxurrada de ervas daninhas anuais – erva-do-mato comum, morugem e agrião-menor – dizem que o seu solo é dominado por bactérias, enquanto cardos, docas, alcanetes verdes e confrei são outro sinal de que a superfície está com poucos nutrientes e apenas aqueles com raízes longas para minar a camada do subsolo pode prosperar. As silvas tendem a proliferar onde há excesso de azoto, mas a terra foi deixada em paz para que elas possam se desenvolver melhor. Há alguma evidência, porém, de que elas têm um papel potencial na regeneração natural de mudas de árvores: os cervos não vão pastar no meio de um matagal e, numa floresta, isso significa que as mudas de árvores não serão mordiscadas, enquanto os fungos micorrízicos vão explorar a rede da floresta para aumentar as mudas com crescimento suficiente para compensá-lo e sair do matagal.

Uma vez que você comece a estudar a ecologia de qualquer coisa que chamamos levianamente de erva daninha, você descobrirá que é fundamental na reciclagem de nutrientes, fornecendo alimento na forma de néctar e pólen para todos os tipos de insetos, em todos os tipos de clima. E não apenas para polinizadores, mas também para coisas como minadores de folhas que se transformam em micro-mariposas e moscas que se transformam em comida para bocas famintas saindo do ninho, que se transformam em comida para aves de rapina voando alto. "Eu sei", eu ouço você chorar. Claro que sim, mas aposto que você ainda sai capinando quando não precisa.

Muitas dessas pessoas comuns chegam para ajudar o solo. Se você diminuir a remoção de ervas daninhas (você ainda terá que intervir algumas vezes) e, em vez disso, prestar atenção ao solo, muitas das pessoas comuns rapidamente se tornarão pessoas ocasionais. Os anuais são um sinal de que o solo se tornou dominado por bactérias, tendo evoluído de planícies aluviais a prados e campos, e prosperando na companhia de bactérias. Eles não prosperam nos solos dominados por fungos das florestas. Os fungos prosperam em solo rico em carbono porque é isso que eles comem.

Se você tiver muitas ervas daninhas anuais, adicione mais carbono ao seu solo na forma de composto caseiro volumoso, papelão (pode ser triturado, pode ser colocado como uma folha, pode ser adicionado à sua compostagem doméstica) ou folhas marrons (você nem precisa fazer molde de folha). Você não precisa cavar - as minhocas irão incorporar tudo no solo. Ou seja, se você desistiu de sua pá porque uma das maiores ameaças às minhocas é nosso hábito de arar e cavar, em parte porque se você for cortado ao meio, não volta a crescer e porque os túneis de minhocas têm sua própria bela arquitetura que suporta o solo, mas não se eles desabaram.

Abrace a podridão e a morte
'Se uma coisa prolifera em um sistema natural, outra coisa virá para aproveitar esta oportunidade.' 

Então, deitamos fora a pá, consideravelmente afrouxada na capina; agora é hora de abrir mão da arrumação. Todos nós fazemos isso, removemos uma folha amarelada ou mordiscada, varremos as folhas gastas e pegamos gravetos, podamos os mortos e moribundos. Em parte porque a ideia era que todo esse material abrigasse lesmas, outras pragas e doenças. Pode, mas a praga de uma alma é o jantar de outra. É verdade que as lesmas adoram uma pilha de folhas húmidas e levemente apodrecidas, mas também os escaravelhos que as caçam.

Esta história se repete continuamente: se uma coisa prolifera num sistema natural, outra coisa, às vezes muitas coisas, virá para aproveitar essa oportunidade, para restaurar o equilíbrio. Um jardim que consegue encontrar esse equilíbrio não tem problemas com pragas ou doenças – tem seres, que vivem e morrem, às vezes prosperando, mas raramente à custa de todo o sistema. Esse acto de equilíbrio leva tempo, vários anos ou mais, mas eu prometo a você: até as lesmas se acalmam. Apodrecimento, doenças, pragas são apenas o sistema de reciclagem da Terra. Não é um grande ato de fé confiar no tempo. As plantas existem há muito mais tempo do que jardinagem, com muito tempo para trabalhar nas nuances da reciprocidade.

Pare de perseguir o crescimento rápido
Desde a II Guerra Mundial, temos adorado falsamente o azoto e o fósforo como reis no jogo dos fertilizantes. Os fertilizantes sintéticos, uma ressaca muito ruim da fabricação de bombas, nos levaram a acreditar que poderíamos manipular o sistema. Usá-los significava que os agricultores podiam transformar cada pedacinho de solo num campo, pelo menos por um tempo, e isso se refletiu na maneira como jardinávamos.

Há um debate muito mais amplo sobre o uso excessivo de fertilizantes , em particular o azoto, na agricultura, mas isso está fora de nosso controle. O jardim não é.

Não há necessidade de produtos químicos manufaturados de qualquer tipo aqui. Em primeiro lugar, todos os solos diferem, mas os fertilizantes sintéticos, particularmente os vendidos a jardineiros, adoptam uma abordagem de tamanho único. Independentemente de onde você esteja, você aplica a mesma quantidade de alimento vegetal. Estes fertilizantes sintéticos não ficam in situ; eles fogem. E há evidências de que, com o tempo, eles podem esgotar o carbono armazenado dos solos , reduzindo a fertilidade, mesmo que a matéria orgânica ainda seja adicionada. Em resumo, se você compra fertilizantes, está pagando por ganhos de curto prazo. O composto caseiro é gratuito e vai construir o seu solo, ajudando a armazenar carbono e a alimentar as suas plantas. Mesmo se você fizer isso muito mal.

Composto in situ

Chega de trabalho pesado... deixe o seu solo fazer o trabalho pesado 

Se você deseja uma abordagem ainda mais despreocupada, pode fazer a maior parte da compostagem sem espalhar coisas. Não limpe as suas colheitas gastas, deixe os caules e as folhas da abóbora, derrube os pés velhos de tomate e feijão e deixe tudo na terra. Você pode cobri-lo para acelerar as coisas - os jardineiros tendem a usar plástico preto por conveniência, mas o papelão é abundante, gratuito e fácil o suficiente para um pequeno jardim. Coberto ou não, permite que os resíduos da colheita voltem direto para o lugar de onde vieram. Se você quiser plantar de volta no espaço que acabou de colher ou limpar, tente cortar, aparar, triturar ou cortar manualmente as colheitas usadas e plantar diretamente nelas. É mais rápido, evita carregar coisas para a pilha de compostagem e vice-versa e cria um solo maravilhoso e friável. Toda aquela noção de capinar e ajuntar o solo para fazer uma boa lavoura para crescer? Acontece que é melhor feito pelo sistema do solo do que pelo seu suor.

Não estou sugerindo que devamos desistir do composto. Ainda é a melhor maneira de lidar com a matéria orgânica doméstica, seja restos de comida, papel e papelão, pêlos de animais, etc. Os métodos de solo podem levá-lo a um solo mais rico com menos esforço e menos custo. E se você trouxer composto, nunca, nunca use turfa. Estamos a destruir preciosos habitats de turfa que precisamos para armazenamento de carbono, água limpa e gestão de enchentes. Os seres vivos que vivem em turfeiras não querem viver em mais nenhum outro lugar, então não vamos destruir a sua casa pelas idiotices da jardinagem.

Incentive a promiscuidade das plantas
Finalmente, vamos abraçar o diverso, o ligeiramente diferente, o variável em nossas flores e alimentos. Durante milénios, selecionamos e cultivamos plantas para que elas nos beneficiem – esta é a nossa história de origem. Mas, por muito tempo, esse foi um processo descontraído de deixar os polinizadores trabalharem, guardando sementes, crescendo e percebendo o que funcionava melhor nas condições em que você estava. É conhecido, tecnicamente, como criando um landrace, uma cultivar antiga que é variável, muitas vezes contendo muitos alelos (formas de genes) que não estão presentes nas cultivares modernas altamente cultivadas. A Jardinagem Landrace é o oposto: semelhante a uma orgia de plantas, você permite que todas as suas variedades de cenoura, ou o que quer que esteja cultivando, se polinizem entre si para criar uma população reprodutora diversificada. É uma estratégia de sobrevivência que diversifica o pool genético, tornando-o melhor preparado para o futuro do que é algo altamente criado.

'Não sabemos para onde estamos indo, mas é melhor irmos preparados com um amplo pool genético.' 

O resultado é uma beterraba ou um feijão ou uma flor que não é uniforme; à medida que os diferentes alelos desempenham sua expressão, uma raça varia em cor, tamanho, textura e até sabor. Qualquer um pode se tornar um jardineiro Land Race . É uma experiência divertida de mais de cinco anos que exige muito pouco esforço e o recompensará com vegetais e flores que funcionam inteiramente para o seu sistema de cultivo e solo. Não quer passar o verão todo regando excessivamente (posso lembrar como o verão passado foi quente)? Crie uma folha verde que não precise dela. Tem solo pobre? Crie uma batata que adora. Quer um tomate com gosto de alguma coisa, mas não se importa com uma geada tardia? É tudo possível.

Semeie todas as variedades nomeadas que tenham as características que deseja, cultive-as e, com a ajuda das abelhas, promova a promiscuidade e deixe-as fazer a polinização cruzada. Selecione e salve sementes apenas daquelas que se dão bem em seu solo. Comece novamente na próxima primavera, semeando a sua semente salva. Até a metade pode não sobreviver, mas você terá muitas sementes, então não importa. Deixe os polinizadores nas novas plantas, selecione as sementes daquelas que estão funcionando e continue. Em algumas temporadas, você pode ter alho totalmente adaptado ao seu solo – pode levar mais alguns anos para encontrar aquela abóbora ou tomate perfeito.

Não sabemos para onde estamos indo no que diz respeito ao nosso futuro neste planeta, mas podemos ir preparados com um amplo pool genético, em relação às nossas plantas populares comuns e as suas comunidades, maravilhados com os nossos insetos, fascinados pelos nossos amigos fungos, com os nossos solos e as nossas energias reabastecidas. E como qualquer grupo de amizade, isso é feito melhor saindo, relaxando e aproveitando a companhia um do outro.

Em tudo isso, não estou defendendo a desistência da jardinagem, mas mudando a perspectiva do que precisa ser feito. Se o dente-de-leão, as azedas ou as amoras não estiverem no caminho que esperava, deixe-as. Se a planta cair numa orgia de pulgões, deixe-a para algum outro ser do jardim limpá-la. Deixe as plantas morrerem no lugar, aprenda a observar e observar antes de fazer qualquer movimento. Você verá que a natureza está muito mais disposta a ajudar do que a causar problemas.

Para saber mais:

sábado, 8 de outubro de 2022

Uma em cada oito espécies de aves está ameaçada de extinção em todo o mundo. Situação em Portugal “é igualmente preocupante”, alerta SPEA


Este sábado, dia 8 de outubro, assinala-se o Dia Mundial das Aves Migratórias, uma efeméride que tem como propósito alertar para a necessidade de conservação dessas espécies e dos habitats de que elas dependem. Contudo, apesar dos esforços até aqui empreendidos, é preciso fazer mais para proteger as aves, todas elas, das ameaças criadas pela ação humana sobre o planeta.

De acordo com o mais recente estudo da associação BirdLife International, divulgado no final de setembro, “quase metade de todas as espécies de aves estão em declínio, com mais de uma em cada oito em risco de extinção”.

Os especialistas apontam que “as pressões que causam essas diminuições são bem conhecidas, e a grande maioria são impulsionadas pela ação humana” e que “os desafios para a conservação estão a escalar e o tempo está a esgotar-se”. Publicado a cada quatro anos, o estudo de 2022 indica que a conservação de locais que sejam importantes para as aves através da gestão comunitária e a proteção e a gestão eficientes desses mesmos locais são ações fundamentais para ajudar a travar a perda dessas espécies.

Destacando que “a situação no nosso país é igualmente preocupante”, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) adianta que, em Portugal, dados relativos ao período entre 2007 e 2018 revelam que “há 53 espécies em declínio, enquanto 38 estarão a aumentar e 32 estão estáveis”. No entanto, os especialistas afirmam que “para 63 espécies no nosso país não há informação sobre o estado das suas populações, e outras 52 têm tendência incerta – uma situação preocupante que demonstra a necessidade de maior monitorização para serem recolhidos dados que permitam uma boa avaliação o estado das espécies”.

Voltando de novo o olhar para o plano global, o relatório da BirdLife International identifica que as perdas de aves se devem, essencialmente, à expansão e intensificação da agricultura, com a SPEA a afirmar que essa “é também a maior ameaça às aves em Portugal, causando declínios acentuados de espécies como o sisão, a águia-caçadeira (ou tartaranhão-caçador), e os picanços”.

A exploração madeireira é apontada como outro dos principais motores da diminuição das populações de aves em todo o mundo, a par de uma gestão insustentável da floresta, do uso de produtos químicos e da conversão de prados e pastagens em áreas de cultivo.

A somar a tudo isso, as alterações climáticas, aceleradas pela atividade humana, estão também a pressionar cada vez mais as populações de aves a nível global, estimando-se que, atualmente, “34% das espécies ameaçadas já estão a ser afetadas, e prevê-se que o nosso clima em mudança venha rapidamente a tornar-se um problema ainda maior”, relata a SPEA.

Patrícia Zurita, CEO da BirdLife International, alerta que “a Natureza está em declínio em todo o mundo, com o desenvolvimento insustentável a degradar habitats naturais e a empurrar espécies para a extinção”. A responsável salienta que “a expansão e a intensificação agrícola, a atividade madeireira, espécies invasoras e a sobre-exploração continuam a alimentar esta tendência”.

“O que é necessário é vontade política e compromissos financeiros”, defende Zurita, para ser possível implementar soluções adequadas, e atempadas, para travar e reverter a perda de populações de aves e da biodiversidade no geral.

E acrescenta que “a Estrutura Global pós-2020 para a Biodiversidade que está atualmente a ser negociada [e que se espera que venha a ser aprovada na COP15 de dezembro] é a melhor, e talvez última, hipótese do mundo para travar a perda de natureza e para orientar-nos para a conservação e recuperação do planeta”.

“Desta vez, os governos têm de ser bem-sucedidos onde anteriormente falharam, traduzindo as suas promessas em ação substantiva”, frisa a responsável.

Por sua vez, a SPEA declara que “apesar do estado preocupante do mundo natural, as aves dão-nos motivos de esperança” e que “com ações efetivas, as espécies podem ser salvas e a natureza pode recuperar”.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O relvado sintético é um disparate estético, ecológico e sanitário


De fato, os relvados artificiais são feitos com os chamados PFAS, substâncias per e polifluoroalquil, que possuem características tóxicas, e alguns ainda são produzidos com pneus triturados, que podem conter metais pesados, benzeno, compostos orgânicos voláteis e outros cancerígenos.

Além de uma aberração estética, são uma praga ecológica, que liberta metano, um poderoso gás de efeito estufa, despeja microplásticos nos cursos de água e contribui para a criação de ilhas de calor.

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Fonte da Notícia: 

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Mito: Não há necessidade de deixar as bermas das estradas com ervas e arbustos

Manhattan Waterfont

Muitas pessoas pensam assim mas as boas práticas ambientais, de acordo com estudos científicos recomendam a manutenção de corredores ecológicos a ligar as localidades entre as zonas ainda rurais e as urbanas. Esses "corredores ecológicos" são justamente as bermas floridas. Solo vivo com vegetação é uma mais valia. Infelizmente muitas ervas espontâneas da Flora Vascular de Portugal Continental já só ocorrem precisamente em bermas de estradas e há espécies animais, sobretudo insetos, que dependem delas para se abrigarem, efetuarem posturas de ovos e se alimentarem. 

É dramática a redução do número de espécies nativas de ervas espontâneas e paralelamente a expansão assustadora de espécies exóticas invasoras nas bermas dos caminhos e terrenos de Portugal (ex. Erva das Pampas, espanta-lobos, tintureiras, avoadinhas, etc). 

Um dos maiores erros é a aplicação de herbicida, que contamina o solo, o outro o corte das ervas espontâneas em flor, em plena Primavera, antes da fecundação e formação dos frutos e sementes. 

Como são plantas anuais que secam e morrem naturalmente, no fim do seu ciclo de vida, se não completarem o ciclo e não largarem as sementes no solo não se renovam no ano seguinte e vão desaparecendo, acabando por se extinguir.

Uma coisa é o controle e redução das espécies invasoras das bermas, outra coisa é o corte cego e raso. As plantas não são todas iguais.

Sugiro que consulte algumas páginas aqui no Facebook, como a do FLOWer Lab , a da rede polli.NET e Lousada Ambiente para ficar a perceber melhor e ficar a par de boas práticas no que respeita à conservação das ervas e insetos polinizadores, dos quais também depende a produção alimentar. 

Na Alemanha, por exemplo, o mel urbano já rivaliza com o mel das zonas rurais e há quem defenda ser melhor pelo facto de os seus produtores não usarem pesticidas na cidade, ao contrário do que sucede hoje em dia nas zonas rurais. 

Na Alemanha, em Munique por exemplo, o teto das paragens de autocarro e topo dos edifícios é usado para semear ervas (flores silvestres) para alimentar abelhas e outros insetos. Até a Kate, nora do Rei Carlos III contratou arquitetos paisagistas para lhe fazerem um jardim de "ervas daninhas" - flores silvestres- para que as crianças inglesas possam conhecer as espécies da flora selvagem de Inglaterra.

Nós temos uma biodiversidade incrível e damos cabo dela. Mas isto está a mudar. Já vai tarde para as plantas que desapareceram, mas mais vale tarde que nunca.

Benefícios dos Corredores Verdes e de deixar que bermas das estradas tenham ervas e arbustos

Se nos focamos nos benefícios para o meio ambiente, os mais importantes são:
  • Ao haver mais áreas verdes, aumentam a biodiversidade no contexto urbano.
  • Promovem uma mobilidade não poluente: bicicletas ou patinetes, por exemplo.
  • Reduzem a poluição atmosférica e poluição acústica da cidade.
  • Ajudam na não-formação do fenómeno "ilhas de calor", reduzindo a temperatura de forma eficaz.
  • Contribuem para uma melhor gestão das águas pluviais, ou seja, a água das chuvas.
  • Um dos aspectos mais relevantes dos corredores verdes é que, além dos benefícios para o meio ambiente já mencionados, também geram benfeitorias sociais, culturais e económicas. Por exemplo: melhoram a qualidade de vida das pessoas favorecendo a atividade física e o relaxamento mental, promovem a vida cultural ao contar com auditórios ao ar livre ou edifícios para exposições e, em vários casos, são um chamariz turístico com efeitos positivos na economia das cidades.
Saber mais:

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Prado de Sequeiro, em Lisboa


Uma cidade verdejante, repleta de relvados, bem regados e com o corte em dia – a imagem que aprendemos a associar à qualidade da estrutura verde da cidade pode estar errada. Prezam-se os relvados, mas, para existirem, paga-se um preço alto. A sua manutenção faz-se através do uso intensivo da água, recurso escasso e cuja boa gestão é particularmente importante em meses secos.

Em Lisboa, a noção da cidade verde está a ser desafiada, assim como a própria perceção da cor. Relvados são substituídos por prados. Será o verde, na cidade, mesmo verde? Talvez seja preciso voltar a treinar o olho. Reformular: talvez o verde não seja o expoente maior da sustentabilidade.

Na ação climática urbana, a cor que dá pelo mesmo nome nem sempre é a resposta. A obsessão pelo relvado, perfeitamente aparado, pode não ser uma expectativa saudável para uma cidade que se quer sustentável no presente e preparada para um futuro marcado pelas alterações climáticas.
No Parque da Bela Vista, onde antes havia relva, existem agora prados. 

No Parque da Bela Vista, os relvados estão a ceder. É verão, os termómetros marcam mais de 30 graus e, onde antes havia relva, estão hoje dois talhões de prado de sequeiro biodiverso. O calor e a secura levam o amarelo a dominar.

No outono e inverno é o verde e, na primavera, todas as cores. A explicação é dada por um sinal vertical, não vá o mais incauto dos transeuntes pensar que o que ali se vê é a incúria na gestão do espaço. Não é. É um prado de sequeiro biodiverso – um espaço renaturalizado, marcado pela presença de “espécies autóctones, da nossa flora, adaptadas ao nosso clima e que têm um período de vida natural”, diz Rui Simão, chefe de divisão de Manutenção e Requalificação da Estrutura Verde da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Não precisam de rega, contribuem para a retenção de água no solo e atraem insetos que promovem o controlo de pragas. Nasceram em 2020, ano em que Lisboa hasteava a bandeira de Capital Verde Europeia, mas as primeiras experiências com estas estruturas naturais aconteceram em 2012, no Corredor Verde de Monsanto, nas traseiras do Palácio da Justiça.

Uma estratégia de todas as cores

“A estratégia não é só verde. É castanha, também”, diz Rui Simão. O ciclo biológico dos prados de sequeiro segue o calendário das estações. “Têm a produção, de sementes durante o verão, a semente cai para o solo, começa a aumentar o seu tamanho e germina, depois, na primavera”. As novas plantas, verdes, “fazem a floração e voltam a produzir a semente”. Assim se fecha o ciclo, explica o responsável.

Só aqui foram substituídos 20 mil metros quadrados – ou dois hectares – de espaço de rega por prados de sequeiro biodiverso. A eliminação da rega traduz-se numa poupança anual de 6 mil metros cúbicos de água – o mesmo que dizer seis milhões de litros, ou, de acordo com a Federação Internacional de Natação (FINA), o suficiente para encher duas piscinas olímpicas e ainda sobrar um milhão de litros.

A iniciativa faz parte do Life Lungs, um projeto de adaptação às alterações climáticas com financiamento europeu e liderado por Lisboa, em parceria com a cidade espanhola de Málaga.

“Temos de nos mentalizar que, com toda a conversa à volta das alterações climáticas, estamos a viver isso na pele e temos de tomar medidas para mudar a forma como interpretamos os nossos espaços verdes, especialmente na zona mediterrânica. Estamos numa área que tem vindo a evoluir para um clima semi desértico, infelizmente. E temos de nos adaptar”.

De acordo com o Plano de Ação Climática, Lisboa traçou, para 2030, uma meta que implica a redução em 70% das emissões de gases com efeito de estufa, relativamente a valores de 2002. Até 2018, a redução terá sido já de 40%, mas até 2040 a cidade pretende alcançar a neutralidade carbónica, dez anos antes da meta traçada pelo continente europeu.

Na estrutura verde urbana, são várias as mudanças que podem ajudar a colocar a cidade no caminho certo. Os prados são apenas uma face de um plano de adaptação e mitigação das alterações climáticas, que compreende ações como o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, com um orçamento de 180 milhões de euros e o objetivo de ajudar a cidade a enfrentar inundações, ou a implementação de uma Zona de Emissões Reduzidas (ZER) no centro histórico da cidade, que prevê uma redução da circulação automóvel estimada em 40 mil veículos por dia.

A medida, que prevê restrições à circulação automóvel e uma redução nas emissões de 60 mil toneladas de gases com efeito de estufa por ano, chegou a estar prevista para o verão de 2020, encontrando-se a sua implementação, no entanto, suspensa.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Sobre o ervado



A relva não tem valor ecológico (não cria biodiversidade), é uniforme e exigente em água potável. Em muitas regiões, as ervas do relvado estão a tornar-se invasoras.

As pradarias de relva podem interferir na saúde do gado [estudo]. O uso de herbicidas e glifosato no controle de ervas daninhas em relvados contaminam os lençóis freáticos  e na população das abelhas.  Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences expôs as abelhas a níveis da substância encontrados em jardins e plantações e descobriu que, quando ingerido pelas abelhas, o glifosato afeta o microbioma intestinal dos insetos e diminui a sua capacidade de combater infecções.    
      
O ervado é precisamente o oposto: é belo, são plantas silvestres autóctones, não exigem manutenção e geralmente com menos consumos de água potável, um bem escasso. 

Como requerem menos manutenção do que os relvados, ainda ajudam a poupar dinheiro.

As flores silvestres melhoram a produção agrícola e biodiversidade [estudo] e potenciam a população de polinizadores.

E assim somos amigos das abelhas [declínio global dos polinizadores ameaça os ecossistemas e a humanidade], com elas regressam mais insectos, as aves insectívoras regressam e ajudam no controlo de pragas e temos micro-ecossitemas instalados. 

Os polinizadores assumem um papel vital na manutenção das populações de plantas silvestres, que por sua vez albergam muitos outros organismos, e no fornecimento de alimento, com cerca de 75% das nossas culturas a beneficiar de serviços de polinização [webinar- a força dos polinizadores].

Ervas e ervas aromáticas 
Tê-las num jardim é 6x vantajoso: comestível, bom para a nossa saúde, zero de poluição dos lençóis freáticos, bom para os polinizadores, bonito e protector da nossa flora autóctone!

As ervas têm uma grande influência na nossa saúde. Também consideram-se importantes fazer refeições, infusões e tinturas. Elas ajudam na pressão arterial, reduzem os níveis elevados de colesterol e suprimem as alergias sazonais.
 
Os frutos, flores e muitos componentes vegetais são benéficos para a nossa saúde, sobretudo quando frescos.

O ervado também se insere nas medidas destinadas à redução do risco de inundação numa cidade. 

Para obter sementes nativas portuguesas contacte Sementes de Portugal.

Corredores de flores silvestres em estradas e auto-estradas
Em Kingston upon Hull, uma cidade no nordeste da Inglaterra, os separadores centrais e as bermas de muitas estradas, incluindo algumas das mais movimentadas, estão agora cobertos de milhares de flores silvestres.

Kingston upon Hull
Saber mais:

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Pollinators Are in Trouble. Here's How Transforming Your Lawn Into a Native Wildflower Habitat Can Help


Anyone can build a tiny habitat amidst the sea of green that is our lawns. Whether it’s a strip of right-of-way outside your urban apartment, your manicured suburban lawn or many mowed acres surrounding your house in the countryside, we’ve all got a little sod we could consider giving back to nature. Researchers have been learning more and more about declines in native pollinators, all while finding out the ways mowed, watered, fertilized and herbicided lawns can negatively affect the environment. That’s why University of Central Florida entomologist Barbara Sharanowski teamed up with ecologist Nash Turley to create the Lawn to Wildflowers program. They’ve developed an app to coach users on how to turn any patch of lawn into native wildflower habitat; it will also collect valuable data. Discover spoke with Sharanowski about the new project, which launched in May 2020.

Q: Some people might shrink at the thought of more bugs in their yard. What do you wish people knew about them?

BS: I’m an entomologist, and I love bugs. I think everybody should love bugs. Anyone can go out into their backyard and look at plants and see the interactions that they have with beneficial insects. Not all insects are something that you want to kill or you need to manage. Most of them are just doing their thing, and many are even helping us out, either controlling pests naturally, or pollinating our flowers and crops. So, I want people to go look at them, and be excited about bugs rather than afraid of them.

Q: We know that bees are in trouble. How will Lawn to Wildflowers help?
BS: Even though a lot of people talk about honeybees and colony collapse disorder, that’s a non-native, managed species in the U.S. What we really want to promote are native plants that improve biodiversity and abundance of native pollinators, of which there are thousands of species. Meanwhile, there are so many lawns in the world, and they use a lot of water and provide no resources for biodiversity. It’s kind of a waste, especially when even planting a small 6-foot-by-6-foot pollinator garden can really do a lot for the native insects. So we’re trying to get anyone who is able to convert part of their lawn into a pollinator habitat. That’s the whole end goal of the project: Create something that contributes to the greater health of the environment.

Q: What’s in the app?
BS: The app gives people information on how to convert a patch of lawn to wildflowers. There’s information like how to kill the grass in sustainable ways and what plants are best. We recommend using very different plants in different regions, but all you have to do is click your region to find the right mix for pollinators in your area. We also want people to collect data for us, because we want to know about pollinator abundance and diversity in the plots that they’ve made. So we’ve built a training game into the app, which teaches people to recognize major pollinator groups — things like honeybees versus bumblebees versus all kinds of other bees, plus butterflies, and some flies and beetles. People can play those games to study, and then once they get good enough at it, they can start to count pollinators in their plot and submit data we’ll use for our research.

Q: What will you do with the information the gardeners submit?
BS: We’ll use the data to study factors affecting pollinators in the U.S. and Canada. For instance, we want to see how different elements around the neighborhood, like how much natural area is nearby, impact pollinator abundance and diversity [meaning, population numbers and variety of species.]

Q: What are some of the biggest barriers to getting people to do this?
BS: We did a big mail-out survey and discovered that the largest barriers are time, and not knowing how to plant a pollinator garden. Time will obviously always be an issue, but we’re hoping the resources we provide in the app — like videos, howtos and other information — take away that latter barrier. The other persistent barriers are things like homeowners’ associations and local ordinances that might restrict unmowed areas. We can’t do a lot about those, but we’re hoping to motivate people to encourage their homeowners’ associations to provide an allowance for pollinator habitat, because it does beautify things. It doesn’t make it unkempt; it actually makes the neighborhood prettier and better serves biodiversity.

Fonte: Discover

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sábado, 17 de setembro de 2022

É alarmante o colapso dos insectos


Autores, académicos, investigadores têm vindo a alertar para este problema civilizacional. É que sem insectos, em particular, os polinizadores, a escalada de preços de bens alimentares vai acontecer. 
Os insectos também desempenham outros papéis importantes. Eles decompõem os resíduos, ajudam a reciclar nutrientes do solo e servem de alimento para pássaros, anfíbios e outros animais da mesma cadeia alimentar da qual os humanos fazem parte.
Jardins com relva faz parte do passado.
Pavimentar as nossas casas, porquê? Dá menos trabalho, claro. E despende-se água potável para as lavar.
Quebras de habitat não é aceitável. Pressão urbanística, hoteleira ou mineração de lítio sobre regiões nacionais consideradas património agrícola mundial é inaceitável.
Manter as bermas das estradas com plantas silvestres.
Mais sistemas agroecológicos no nosso País. Estão comprovadamente adaptados às condições biogeoquímicas e geográficas e contribuímos para restauro dos ecossistemas, menos pegada ecológica e hídrica e salvaguardamos as teias da vida, onde estão incluídos os insectos.
Pequenos gestos diários como evitar pesticidas , quintais com a maior diversidade de plantas nativas, observa-se aumentos substanciais da população destes insectos em pouco tempo.

Livro para ler- clique na imagem


Factos
  1. Germany has lost three-quarters of the flying insects in its nature reserves and protected areas.
  2. In the rainforests of Puerto Rico, there has been a 98 percent decline in biomass of insects since the 1970s
  3. Denmark, a 97 percent decline since the 1990s. 
  4. In North America, one in four bumblebee species is in decline or threatened with extinction.
  5. We may have lost 95 percent of the world’s tigers, for example, but that’s happened over 100 to 150 years
  6. We’ve chopped down a third of the world’s trees since the industrial era began
  7. There’s one estimate that U.S. agricultural land has become 48 times more toxic than it was 25 years ago

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Qatar, o Mundial da Vergonha

No próximo dia 21 de Novembro, às quatro da tarde em ponto, hora local, um esférico denominado Al Rihla ("A Jornada"), fabricado pela marca Adidas, com uma cobertura de poliuretano texturizado e 20 gomos, será colocado no centro de um grande rectângulo de relva. Em seu redor, um estádio com 60 mil lugares sentados, projectado pela firma alemã AS+P, querendo "AS" dizer Albert Speer, o filho do arquitecto de Hitler. A empresa holandesa que forneceu os relvados dos últimos três Mundiais de Futebol recusou-se a colaborar neste torneio após ter sabido que só na construção dos estádios já pereceram mais de 6750 trabalhadores, todos oriundos da Índia, do Bangladesh, do Nepal e do Sri Lanka. Nenhum cidadão do Qatar, país anfitrião, morreu na edificação das infraestruturas que irão receber o Mundial da Vergonha.

Para os jornalistas e turistas que lá forem, para os que ficarem colados aos écrans a ver as fintas e os passes dos craques, talvez fosse útil saber um pouco mais sobre o que é o Qatar, pelo que se recomenda a leitura de um livro-reportagem acabado de sair, assinado por John McManus, um antropólogo social e escritor, que tem passado a última década no Médio Oriente e na Turquia (vive em Ancara), tendo já publicado, aliás, um outro livro sobre a paixão futeboleira turca e suas fúrias. Este de que agora falo tem o título pouco inspirado de Inside Qatar - Hidden Stories From One of the Richest Nations on Earth (Icon Books, 2022) e, ao contrário do que se possa julgar, não é um relato preconceituoso e impiedoso dos muitos males que afligem o emirado, antes uma digressão pelas fundas incoerências de um país recente, que só viu a independência em 1971 e, desde então, anda em busca de um caminho entre os biliões do petróleo, grandiosas ambições de modernidade e pesados arcaísmos islâmicos.

Um relatório da ONU, já de 2020, descreve o Qatar como "quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade", o que em parte, mas só em parte, se compreende, pois os cataris representam uma ínfima minoria no seu próprio país, sendo cerca de 313 mil cidadãos, numa população total de cerca de três milhões, essencialmente composta por imigrantes vindos da Índia (24% da população), do Nepal (16%), das Filipinas (11%), do Bangladesh (5%), do Paquistão (4%) e do Sri Lanka (2%). Com tantos trabalhadores migrantes, a esmagadora maioria dos quais na construção civil (44% da força laboral do país trabalha nas obras), não admira que 72% da população seja masculina. Mulheres estrangeiras, no Qatar, só as empregadas domésticas vindas das Filipinas e de África, especialmente do Quénia.

Sendo óbvio que os opulentos privilégios de que gozam os cataris não poderiam estender-se à restante população (por ex., os nativos não pagam impostos e dois terços da população não trabalha, nem tem sequer ocupação), o que espanta e confrange é a brutal disparidade entre nacionais e não-nacionais, mesmo os vindos do Ocidente para empregos sofisticados e bem pagos. Atroz ironia: na Europa e na América, onde hoje tanto se combatem as injustiças do racismo, não houve ainda um movimento em larga escala para boicotar um Mundial de Futebol realizado num dos países mais racistas do mundo, onde, segundo as estatísticas oficiais, 43% dos cataris casam com membros da sua própria família, geralmente primos em primeiro grau, o que tem provocado sérios problemas de consanguinidade, que o director do Centro de Genética Médica de Doha reconhece, mas desvaloriza em nome da preservação da "pureza de sangue do país". Goebbels não diria melhor.

À semelhança da independência, também a riqueza é recente - mas imensa. Sem aptidão agrícola ou vocação industrial, a economia do Qatar baseava-se historicamente na apanha de pérolas em alto-mar, mas acabou por se afundar com o crash bolsista de 1929 e com a descoberta, pelos japoneses, de métodos de cultivo artificial de pérolas (facto que bem poderia servir de lição para a actualidade e para os riscos da monocultura do petróleo e do gás). Em meados dos anos 1940, a população reduzira-se a umas 16 mil almas e o xeque Abdullah Al Thani foi ao ponto de ter de fazer um empréstimo hipotecário sobre o seu palácio. Entretanto, em 1939, geólogos da Anglo-Persian Oil Company descobriram frondosas jazidas de petróleo e, dez anos depois, começaram as exportações do ouro negro. É ele a causa de o Qatar ser um dos países mais ricos do mundo: de 2002 a 2014, foi o mais rico; desde então, está em terceiro lugar, atrás do Luxemburgo e de Singapura. Dinheiro a jorros, mas que beneficia quase em exclusivo 11% da população residente, os cataris de raça. Dinheiro que tem permitido compras multimilionárias pelo mundo fora: além do Harrod"s, estima-se que o Estado do Qatar tenha mais propriedades em Londres do que a rainha Isabel II, para não falar dos investimentos em marcas de luxo como a Valentino ou a Tiffany, entre tantas outras.

© Vìtor Higgs / DN

Dominado desde o século XIX pela Dinastia Al Thani, e governado desde 2013 pelo emir Tamim bin Hamad Al Thani, um autocrata que, segundo se diz, é ainda mais conservador do que o seu pai, o Qatar é mais liberal do que outras nações de Golfo, com destaque para a Arábia Saudita (por exemplo, as cataris podem conduzir automóveis, ainda que tenham várias limitações para obter a carta; a pena de morte não é aplicada desde 2003; as mulheres são encorajadas a estudar e 2/3 dos licenciados são do sexo feminino). O país gosta, aliás, de transmitir uma imagem de modernidade e abertura ao mundo, com a Qatar Airways e a Al-Jazeera (bem menos independente do que parece), e, importa dizê-lo, muitas das práticas que mantém são elementares medidas de autodefesa de uma população ultraminoritária na sua própria terra, a qual tem, ademais, uma relação nada fácil com os seus poderosos vizinhos. Em 2017, o Qatar foi alvo de um grave bloqueio por parte de diversos países muçulmanos (Arábia Saudita, Iémen, Bahrain, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Maldivas, Líbia) e ficou sem acesso a alimentos e a matérias-primas, alegadamente por causa das suas relações incestuosas com a Irmandade Islâmica e com o Daesh.

Até às reformas constitucionais dos anos 90, que deram ao emir o poder de designar o seu filho como sucessor, a chefia do Estado não obedecia ao princípio da primogenitura, o que dava azo a um sem-fim de conflitos e de intrigas palacianas e o país é bem menos estável do que parece, tendo assistido, nos últimos 70 anos, a duas abdicações, em 1949 e 1960, e a dois golpes de Estado, em 1972 e 1995, o último dos quais levou um filho a depor o próprio pai. A ambiguidade estratégica tem sido chave de sobrevivência: o Qatar tanto alberga a maior base dos EUA no Golfo Pérsico, Al-Udeid, com mais de 11 mil soldados estacionados, como mantém relações cordiais com o Irão e namora e favorece o extremismo islâmico (a principal mesquita de Doha é, de resto, dedicada ao fundador do ultraconservador Movimento Wahhabista).

Além da opressão sobre o povo e da ausência de democracia e de respeito pelos Direitos Humanos, traços comuns às monarquias do Golfo, o principal e mais vil pecado do Qatar, a sua singularidade repulsiva, é o modo como trata os trabalhadores estrangeiros. É certo que, também nesse plano, não se destaca muito das barbáries praticadas naquelas paragens, bastando lembrar que, no Líbano, em 2018, a etíope Lensa Lelisa se atirou da janela da casa dos patrões (por sinal, donos de uma das marcas mais fashion do país, a Eleanore Couture) por não suportar mais os espancamentos diários com cabos eléctricos, entre outras torturas; ou que, no Kuwait, o cadáver desmembrado da filipina Jonna Demafelis, de 29 anos, foi encontrado na arca congeladora do casal que servia; ou o caso de Tuti Tursilawatti, uma empregada doméstica indonésia de 34 anos, executada na Arábia Saudita por ter morto o patrão quando este a tentou violar, ao fim de um ano de sevícias sexuais.

E não, não são casos isolados, mas sim a ponta de um icebergue miserável. Das cerca de 176 mil empregadas domésticas que trabalham no Qatar, 83% tiveram os seus passaportes confiscados mal chegaram ao país, segundo um relatório de 2020 da Amnistia Internacional. E só conseguem entrar se tiverem o patrocínio de um empregador, segundo o sistema da kafala, ficando inteiramente nas mãos dos seus senhores e amos, sem dinheiro para obter o visto e comprar passagem de regresso a casa, sem possibilidade de mudar de emprego ou de patrão, um inferno na terra. Na esmagadora maioria dos casos, os migrantes, logo à chegada, são confrontados com um contrato novo, com salários mais baixos e piores condições do que aquele que haviam assinado antes de partirem. Sindicatos não existem e os contratos laborais têm todos prazos curtos de um, dois anos, mesmo para quem trabalhe para a mesma empresa ou patrão há dez, 20 anos, ou mais.

A kafala é o cancro maior do Qatar: a existência de um patrono, que, segundo a lei islâmica, constituía uma forma de os mais fortes protegerem os mais fracos (por ex., quando estes assinavam contratos ou iam a tribunal), converteu-se, muito por culpa do colonizador britânico, num sistema de paternalismo esclavagista, com os empregadores a apoderarem-se dos vistos de entrada, dos passaportes e das autorizações de trabalho e residência dos pobres migrantes. Não admira, assim, que, para milhares deles, a jornada de trabalho comece às 4.30 da manhã, com interrupção à hora do calor (por vezes, nem isso), e só termine pelas sete ou oito da noite.

Um inquérito de 2018 concluiu que os operários das obras do Mundial trabalhavam dez horas por dia, seis dias por semana, em condições deploráveis, sendo frequentes jornadas de trabalho de 12 a 14 horas e até casos de escravos que trabalharam 148 dias consecutivos sem uma única folga. Com a aproximação do torneio e a aceleração da obra, a situação agravou-se. Contudo, e dadas as atenções internacionais e as inspecções mais regulares, os trabalhadores do Mundial são até dos mais protegidos - simplesmente, correspondem a 4% da força laboral do país; os restantes 96% continuam à mercê de um sistema iníquo em que até os relatórios oficiais do país reconhecem que milhares de desgraçados são obrigados a trabalhar em condições de "stress de calor", a temperaturas acima dos 40ºC, com humidade horrível, com um em cada três trabalhadores a sofrer de hipertermia.

Um artigo publicado em 2019 na revista Cardiology estabeleceu uma correlação inequívoca entre o calor extremo e a morte de 500 operários nepaleses. O problema agrava-se pelo facto de o Qatar não realizar autópsias, sendo todas as mortes atribuídas a "causas naturais" ou "doenças cardiovasculares", o que, tendo em conta a idade jovem da maioria dos migrantes, é coisa mirabolante. Para efeitos estatísticos, aliás, o Registo Nacional de Traumas só contabiliza as mortes que têm lugar após a chegada ao hospital, ou seja, deixa de fora o imenso universo dos acidentes letais ocorridos nos locais de trabalho. Apesar de tudo isto, é consensual entre as ONG e os observadores externos que os abusos mais graves e os piores maus-tratos não são perpetrados pelos cataris, mas pelos migrantes sobre outros migrantes, até seus compatriotas, sendo frequente a descoberta de horríveis redes de exploração e de tráfico humano nos países de origem da Ásia e de África.

Mesmo ao fim de décadas a viver e a trabalhar no país, é praticamente impossível obter a cidadania; é necessário falar árabe, residir no Qatar há 25 anos e a lei determina que, por ano, só podem ser concedidas 50 naturalizações. De igual modo, e ao contrário do que se passa no Dubai, por exemplo, é quase impossível a um estrangeiro comprar propriedades ou enviar os filhos para escolas de qualidade, excepto ocidentais privilegiados, sendo também estranho que num país com tantos asiáticos não exista um só templo budista ou hindu (há uma minúscula zona cristã que os cataris não podem frequentar).

Até por isso, o que se passa com o futebol é particularmente abjecto. O Qatar não tem tradições na modalidade e o seu primeiro clube só foi criado em 1950; desde então, foram fundados outros - o Al-Rayyam, o Al-Arabi, o Al-Saad - que servem para arredondar as contas de jogadores ou técnicos em fim de carreira, como Pep Guardiola, Gabriel Batistuta ou Xavi Hernández, mas que, apesar dos investimentos milionários, não levam os cataris aos estádios. Mesmo com bilhetes a preços caricatos - cerca de 3 euros nas bancadas, 14 euros num lugar VIP - nunca mais de mil pessoas assistem a um jogo ao vivo, preferindo fazê-lo no conforto de casa, algo que, obviamente, será uma tormenta no pós-Mundial: que destino irão ter tantos estádios, tão sumptuosos e volumosos?

De resto, por causa do clima e não só, são poucos os cataris que praticam futebol e diz-se que este é, isso sim, um brinquedo caro do xeque Jassim bin Hamad Al Thani, filho do antigo emir, que governou o país de 1995 a 2013. O xeque Jassim, ao que parece, tem até um gigantesco estádio de futebol em sua casa e foi um dos principais promotores do actual Mundial, no qual o Qatar investiu a única coisa que tem: dinheiro. Através da Qatar Airways, foram patrocinados grandes clubes europeus, como o AC Roma ou o Bayern de Munique, ao mesmo tempo que se construía um hospital de ponta de Medicina Desportiva, a que já acorreram diversas estrelas, e se lançava um canal internacional de desporto, o beIN Sports, e a multimilionária Academia Aspire, que recruta talentos da bola ao abrigo de um programa designado Football Dreams, orçado em muitos milhões de dólares, que já escrutinou mais de 3,5 milhões de jovens pelo mundo fora, dos quais anualmente são selecionados uns 20, no máximo, a quem são oferecidas condições estratosféricas e o maior prémio de todos - a cidadania do Qatar.

Se o país é xenófobo e racista, avesso a naturalizar estrangeiros, mesmo os que nele trabalham há décadas, no domínio desportivo passa-se o inverso, com concessões escandalosas e rapidíssimas de nacionalidade: em 1999, a equipa de lançamento de peso do Qatar foi desqualificada dos Jogos Árabes por se ter descoberto que nela participavam quatro atletas búlgaros; em 2003, o queniano Stephen Cherono, supostamente a troco de avultada maquia e de uma pensão vitalícia, tornou-se nacional catari com o nome Saif Saaeed Shaheen; em 2004, para fúria da FIFA, o Qatar tentou naturalizar, numa semana, três futebolistas brasileiros, Ailton, Dédé e Leandro.

Graças aos biliões injectados na Academia Aspire, o Qatar conseguiu conquistar a Taça Asiática de 2019, um feito extraordinário num país que, dois anos antes, estava na 102ª posição no ranking mundial, atrás da Serra Leoa e das Ilhas Faroé. Resta acrescentar que se tratou de um triunfo forjado na base da fraude, mesmo que autorizada pelos complacentes critérios da FIFA: dos 23 jogadores da selecção, 17 eram naturalizados, muitas vezes às pressas e, pior ainda, segundo regras e procedimentos jamais aplicáveis aos que vivem e trabalham no país há décadas. Argumentar que em todas as selecções desportivas do mundo há casos como este só obscurece o essencial: o abominável racismo selectivo do país anfitrião do próximo Mundial. Racismo que se estende ao desporto: cerca de metade da população do país tem origem no sul da Ásia, pelo que o críquete é, de longe, a modalidade mais popular e praticada. Ora, enquanto o fundo soberano do Qatar já gastou, desde que comprou o Paris St. Germain, em 2011, muitos biliões com o futebol, incluindo a compra-recorde do brasileiro Neymar por 262 milhões de dólares, a Associação de Críquete do Qatar recebe anualmente um subsídio que não chega aos 200 mil dólares.

Ou seja, o futebol é usado como instrumento de dominação da minoria catari sobre a legião de migrantes que sofrem e mourejam no deserto, sob calores escaldantes. Os que se erguem, e bem, contra o racismo da Europa e da América deveriam também, no mínimo, olhar para outras paragens do mundo, mil vezes piores e mais bárbaras. E saber, por exemplo, que 15% das hospitalizações de migrantes no Qatar derivam de tentativas de suicídio; e que, num país com serviços médicos gratuitos e de alto nível, 90% dos migrantes nunca chegam a receber o seu cartão de saúde das mãos dos patrões.

Depois, houve a tremenda corrupção que deu a vitória ao Qatar na corrida à organização do torneio, não deixando de ser irónico que, num ano em que o mundo sofreu uma vaga de calor sem precedentes (e a Europa a maior seca de 500 anos), causada pelo aquecimento global e pelos combustíveis fósseis, nos preparemos para assistir alegremente ao Mundial do Petróleo - e do Gás. O Qatar, convém lembrá-lo, tem a maior reserva de gás natural do mundo, situada no mar setentrional do país, estimada em 900 triliões de metros cúbicos (e é também um dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do planeta, com um cadastro ambiental miserável). Quando agora se fala da dependência europeia do gás e do petróleo russos (a propósito, quando conheceremos o plano de contingência e de poupança energética do governo português? E porque não existe uma campanha nacional de poupança da água?), deve recordar-se que, em 2021, um quarto de todo o gás importado pela Grã-Bretanha veio do Qatar. Se a isso juntarmos as vultuosíssimas compras de armamento à América e ao Reino Unido, os biliões ganhos pelos gabinetes que projectaram e pelas empresas que construíram os novos e faraónicos estádios, orçados em 10 mil milhões de dólares (!), não custa concluir que era óbvio que o Qatar iria ser o anfitrião deste Mundial vergonhoso, que faz lembrar o da Argentina de 1978, que branqueou e legitimou a cruel ditadura de Videla. Pequeno grande detalhe: desde há décadas, e para polir a imagem, o Qatar gasta biliões nas maiores empresas de lóbi de Londres e Nova Iorque - Hill+Knowlton Strategies, Portland Communications, Blue Rubicon, Grey, Brown Lloyd James - e contratou a peso de ouro diversos "embaixadores" da sua candidatura - Samuel Eto"o, Xavi Hernándes, David Beckham.

Tudo isto é bem o espelho daquilo em que o futebol se tornou nas últimas décadas: uma actividade viciada, viciosa e viciante que de desportiva pouco tem. Todos os anos, com a cumplicidade dos paizinhos, sedentos de terem um Ronaldo em casa que os converta em milionários, milhares de jovens são atraídos por uma carreira na bola, seduzidos por promessas de clubes que os usam como escravos descartáveis. São ínfimas, quase nulas, as probabilidades de um jovem praticante nas "academias" vir a jogar nos escalões seniores dos clubes grandes: menos de 0,012%. Repete-se: menos de 0,012%. À conta dessa miragem, milhares de moços, talvez milhões, perdem dez anos de vida, largam os estudos, comprometem o futuro, o deles e o dos seus países, que na quimera da esfera desbaratam gerações de miúdos, com efeitos não despiciendos na produtividade e nas qualificações da mão-de-obra de uma nação inteira. Se a isso juntarmos outros males - corrupção generalizada de dirigentes, árbitros e jogadores; promiscuidade com políticos, autarcas, interesses imobiliários, negócios escuros; promoção de uma cultura boçal e alarve, machista, sexista e racista, assente na violência física e verbal, com sucessão de "casos" e "escândalos", muitos dos quais do foro criminal, sobretudo os desencadeados pelas horripilantes "claques"; transferências com valores pornográficos; ocupação tirânica do espaço público, com vários canais e jornais e horas infindas de "comentários", em detrimento de outras actividades intelectual e espiritualmente mais enriquecedoras - percebemos que aquilo que hoje se passa no mundo do futebol poderá ser muita coisa, mas desporto não é certamente. No próximo mês de Novembro, enganar-se-á quem julgar estar a assistir a um jogo de futebol na TV: no rectângulo, disputa-se a bola, mas o que aí verdadeiramente se joga são negócios fabulosos de petróleo e armamento, conjuras geopolíticas, fundamentalismos religiosos, a opressão de mulheres e de migrantes, o absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e pela dignidade humana. É este o belo espectáculo que estamos prestes a aplaudir.

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