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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Dia Mundial do Ambiente - Relatório global oferece uma alternativa ao colapso climático, ao extremismo político e às tensões económicas

A humanidade pode elevar os padrões de vida, reduzir a desigualdade e manter o aquecimento global abaixo dos 2 °C, de acordo com uma visão abrangente para a sobrevivência do planeta.

O relatório do World Inequality Lab (WIL) pretende ser a tentativa mais detalhada até à data de navegar pela policrise que está a empurrar o mundo para o colapso climático, o extremismo político e tensões económicas e sociais cada vez maiores.

O documento oferece um conjunto de propostas políticas ousadas, incluindo impostos pesados sobre a riqueza dos multimilionários, reduções acentuadas no horário de trabalho, uma alteração nas dietas e uma transferência de investimento de setores materialmente intensivos, como a indústria e a mineração, para a educação e a saúde.

Se estas e outras medidas forem tomadas, diz o relatório, os rendimentos de 89% da população mundial duplicariam até 2100 e o aquecimento global seria mantido abaixo dos 2 °C em relação à média pré-industrial.

Os autores afirmam que a sua visão fornece uma alternativa positiva às projeções sombrias dos tecnoextrativistas de extrema-direita, nacionalistas e multimilionários que afirmam que o futuro trará inevitavelmente mais combustíveis fósseis, perturbação climática e desigualdade.

«Está a decorrer uma enorme batalha cultural, intelectual e política. E todos nós temos um papel a desempenhar», afirmou Thomas Piketty, codiretor do WIL e professor na Escola de Economia de Paris.

«A ideologia que vemos com [Donald] Trump e com todos os "pequenos Trumps" que temos por toda a Europa e por todo o mundo simplesmente não vai dar resultados. No final de contas, teremos de chegar a este tipo de redistribuição cooperativa de recursos e de poder, porque a alternativa levará simplesmente a resultados desastrosos, tanto no ambiente e no clima, como a nível social.»

O Global Justice Report (Relatório sobre a Justiça Global), publicado na quinta-feira, tenta superar as lacunas das abordagens tradicionais à policrise, incluindo a ênfase excessivamente materialista dos partidos tradicionais de esquerda, a eficácia questionável do decrescimento económico proposto por muitos ecologistas e a falta de estudos de impacto social por parte do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

O relatório visa retificar essas limitações incorporando estudos sobre a desigualdade, a ciência climática e propostas para a criação de uma coligação política capaz de reformar a arquitetura financeira mundial.

Este «plano para a igualdade e a prosperidade dentro dos limites planetários» é o produto de 45 autores, com base em bases de dados compiladas por mais de 200 investigadores de todo o mundo.

Na sua génese está o conceito de suficiência — a ideia de que as pessoas podem desfrutar de uma vida próspera e saudável sem procurarem constantemente consumir ou acumular mais bens materiais que degradam o mundo natural do qual depende toda a vida.

Para alcançar este objetivo, os autores preveem três etapas: reduzir para mais de metade o tempo médio de trabalho, passando de 2100 horas por ano para 1000 horas (o equivalente aproximado a uma semana de trabalho de dois dias e meio); incentivar as pessoas a comerem menos carne vermelha, que é o principal motor da desflorestação e da destruição ecológica; e redirecionar a economia para atividades de baixo consumo, duplicando o investimento na educação para 8400 € por pessoa e na saúde para 14 400 €.

Piketty explicou: «Um euro extra de PIB na educação e na saúde tem uma pegada material e um consumo de energia três a quatro vezes menor do que um euro extra de PIB no setor transformador. É por isso que as mudanças setoriais são imensamente importantes.»

Combater a desigualdade é um objetivo central. Segundo o plano, o rendimento nacional bruto médio per capita em todo o mundo seria de 5000 € por mês até ao final do século — um aumento para quase toda a gente, com os maiores ganhos no Sul Global. A exceção seriam os megarricos, que seriam fortemente tributados por serem os maiores responsáveis pela crise climática. A quota da riqueza global detida pelos multimilionários, que representam apenas 0,001% da população mundial, cairia de 6% para 0,05%, enquanto os 50% mais pobres veriam a sua quota de riqueza aumentar de 2% para 30%.

A outra prioridade é reduzir os riscos climáticos, cortando as emissões para o valor mais próximo possível de zero. O relatório analisa três cenários de descarbonização até meio do século delineados pela Agência Internacional da Energia (AIE) e projeta-os até 2100. Sob o seu plano mais ambicioso, o capital seria redirecionado dos indivíduos mais ricos do mundo e investido em tecnologia eólica, solar e outras energias renováveis para acelerar a descarbonização total e a eletrificação do abastecimento energético até 2050. Reduções adicionais de emissões viriam da redução do horário de trabalho e da mudança nas dietas e na atividade económica.

Prevê-se que isto mantenha o aumento da temperatura global nos 1,8 °C até ao final do século — consideravelmente abaixo das estimativas catastróficas de 4 °C a 4,5 °C em cenários de descarbonização lenta e de procura cada vez maior de bens materiais. É também um resultado melhor do que os 1,9 °C projetados num cenário de decrescimento económico generalizado.

Entre os passos práticos fundamentais necessários para alcançar as metas do relatório estaria a criação de um fundo de justiça global para financiar a transição energética e supervisionar um aumento dos gastos em educação e saúde para 38% do PIB mundial (atualmente fixado nos 13%). Este trabalho seria apoiado por um fundo soberano mundial, que reequilibraria as detenções globais de riqueza pública e privada para proporções semelhantes às vistas pela última vez em 1970.

«Um século XXI habitável e igualitário é materialmente possível», conclui o relatório. «O que impede a sua concretização não é a impossibilidade técnica, mas sim a escolha política e o trabalho árduo, mas crucial, de construir uma coligação que a apoie.»

Cornelia Mohren, coautora e coordenadora ambiental do WIL, admitiu que o relatório era «visionário e talvez utópico», mas afirmou que isso era necessário para mostrar que outros caminhos são possíveis.

«É bom saber que podemos combinar um mundo igualitário com o cumprimento dos orçamentos de carbono», disse. «Esse é um resultado muito útil. Dá-me esperança. Vimos o que é possível e também vemos o quão difícil é com esta realidade política, o que pode ser deprimente.»

Piketty afirmou que a história recente mostra que os objetivos do relatório são plausíveis. Países como a Suécia e a Noruega já foram extremamente divididos do ponto de vista económico, mas fizeram progressos rápidos na redução da desigualdade graças a políticas governamentais e ao redirecionamento do investimento para a educação e a saúde. Além disso, o horário de trabalho na Europa reduziu-se para metade desde o século XIX, o que vai ao encontro do objetivo traçado no relatório.

A chave, acrescentou Piketty, é abordar a desigualdade e a habitabilidade do planeta em conjunto. Sem essa abordagem dupla, afirmou, os governos correm o risco de repetir os erros que causaram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) na França, contra um imposto sobre o carbono que teria afetado as classes trabalhadora e média muito mais do que os ricos.

«Se não colocarmos isto no centro da análise e se falarmos de políticas verdes e de ambiente de forma abstrata, isto simplesmente não vai funcionar», sublinhou.

O relatório será apresentado e debatido na Conferência Mundial sobre a Desigualdade, que decorre de 4 a 6 de junho em Paris, contando com oradores como Ha-Joon Chang, Jean Drèze, Jayati Ghosh, Mariana Mazzucato, Branko Milanović, Lea Ypi e Gabriel Zucman.

Jason Hickel, professor na Universidade Autónoma de Barcelona e membro sénior visitante na LSE (London School of Economics), afirmou: «É uma intervenção importante e oportuna. Tudo isto é tecnicamente viável de alcançar — podemos ter vidas boas para todos dentro dos limites planetários — mas exigirá uma luta política organizada para que aconteça.»

Toda a informação, com gráficos ilustrativos aqui

Página Oficial do Dia Mundial do Ambiente 2026

sábado, 22 de julho de 2023

Decrescimento: uma resposta a Branko Milanovic


No final de 2017, Branko Milanovic escreveu uma postagem no blog intitulada “A ilusão do decrescimento num mundo pobre e desigual ”. Ele o escreveu, diz ele, após uma conversa que teve com um defensor do decrescimento, que era eu. Escrevi uma resposta, que atualizei aqui para maior clareza e para dar conta de novos dados.

Para recapitular o argumento de Milanovic: ele imagina um cenário em que limitamos o PIB global aos níveis atuais. Os países pobres então aumentam seu PIB per capita para a média global, enquanto os países ricos diminuem seu PIB per capita de acordo. Ele diz que isso implicaria uma redução da produção e do consumo no Ocidente, com a atividade econômica reduzida a um terço de seu tamanho atual.

Para Milanovic, isso é distópico: “Fábricas, comboios, aeroportos, escolas funcionariam um terço do horário normal; eletricidade, aquecimento e água quente estariam disponíveis 8 horas por dia; os carros podem ser conduzidos um dia em cada três; trabalharíamos apenas 13 horas por semana, etc. - tudo para produzir apenas um terço dos bens e serviços que o Ocidente está produzindo agora. Milanovic chama isso de “o empobrecimento do Ocidente” e o descarta como “nem mesmo vagamente provável de encontrar qualquer apoio político em qualquer lugar”. Esqueça isso, ele diz; precisamos de crescimento. Em vez disso, vamos nos concentrar em reduzir nosso consumo de bens e serviços intensivos em emissões, tributando-os, e “pensar em como as novas tecnologias podem ser aproveitadas para tornar o mundo mais ecológico”.

A visão de Milanovic aqui sofre de uma série de falhas empíricas e analíticas. Deixe-me tentar explicar alguns deles:

1. O PIB médio mundial não é distópico; é mal distribuído e mal utilizado
Primeiro, um pequeno ponto para corrigir o registro. O PIB médio mundial per capita é de US$ 17.600 (PPC). Isso não é distópico. Pelo contrário, é mais ou menos consistente com o limite do Banco Mundial para “alto rendimento”.

Isso é bem superior ao que está associado a níveis muito elevados de desenvolvimento humano. De acordo com o PNUD, algumas nações pontuam “muito alto” (0,8 ou mais) no índice de expectativa de vida com apenas US$ 3.300 per capita (e acima de 0,9 com apenas US$ 8.000) e “muito alto” no índice de educação com apenas US$ 8.700 per capita. Na verdade, as nações podem ter sucesso em todos os principais indicadores sociais representados pelos ODS – não apenas saúde e educação, mas também emprego, nutrição, apoio social, satisfação com a vida etc. – com apenas US$ 10.000 per capita.

Noutras palavras, em teoria poderíamos alcançar todos os nossos objetivos sociais, para cada pessoa no mundo, com muito menos PIB do que temos atualmente, simplesmente investindo em bens públicos e distribuindo renda e oportunidade de forma mais justa (agora os 5% mais ricos capturam quase metade do PIB global), mesmo dentro da lógica dos quadros económicos realmente existentes.

Mas tudo isso é irrelevante para a questão em questão, porque:

2. Decrescimento não é redução do PIB; é sobre recursos e energia
Este é o primeiro erro de Milanovic. Decrescimento não é redução do PIB. Em vez disso, trata-se de reduzir o excesso de recursos e produção de energia, ao mesmo tempo em que melhora o bem-estar humano e os resultados sociais; a literatura é bastante clara sobre isso. Do ponto de vista da ecologia, isso é o que importa.

Neste momento, o uso global de recursos é de cerca de 100 biliões de toneladas por ano; aproximadamente o dobro do que os cientistas consideram ser um nível sustentável. Este é um dos principais impulsionadores da degradação ecológica e da perda de biodiversidade. O uso global de energia também é muito alto. O IPCC deixa claro que precisamos reduzir significativamente o uso global de energia (de 400 EJ hoje para cerca de 240 EJ até 2050) para permitir a transição para energias renováveis ​​com rapidez suficiente para ficar abaixo de 1,5°C ou 2°C (Grubler et al 2018; IPCC 2018).

Crucialmente, o uso excessivo de recursos e energia está sendo conduzido por nações ricas, não por nações pobres. Assim, as nações ricas precisam reduzir o seu uso de recursos e energia. Aceitamos que a redução do rendimento agregado de recursos e energia provavelmente levará a uma taxa mais lenta de crescimento do PIB, ou talvez até mesmo a uma redução do PIB; tudo depende da taxa de eficiência. Mas mesmo que o PIB acabe caindo, tudo bem, como veremos. E isso me leva ao próximo ponto:

3. Quando se trata de bem-estar humano, contar o PIB é irrelevante
O segundo erro de Milanovic é que ele assume uma relação de um para um entre o PIB e o bem-estar humano. Quando você parte dessa suposição, é provável que conclua (como faz Milanovic) que estamos numa situação de escassez: claramente não há o suficiente para que todos vivam bem e precisamos de mais (apesar do ponto 1). Mas esse raciocínio é problemático porque o PIB não é, e nunca teve a intenção de ser, uma medida substituta do bem-estar humano. Em vez disso, é uma medida do valor monetário das mercadorias que produzimos e trocamos por dinheiro. Sem surpresa, não há relação causal entre o PIB e os resultados sociais. Usá-lo para esse fim não é científico.

O que realmente importa para o bem-estar humano é o abastecimento – em outras palavras, o acesso das pessoas aos recursos de que precisam para viver vidas longas, saudáveis ​​e prósperas. A razão pela qual o PIB é uma métrica inadequada aqui é porque ele contabiliza apenas uma fatia muito estreita da atividade econômica; especificamente, o que tem a ver com o valor de troca da mercadoria. Não contabiliza todas as formas de aprovisionamento; na verdade, muito do provisionamento do qual dependemos é totalmente ignorado e irrelevante para o PIB. Milanovic sabe disso .

Portanto, é bem possível que o PIB suba enquanto o provisionamento diminui; por exemplo, se o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido fosse privatizado, o PIB aumentaria, mas o acesso das pessoas aos serviços de saúde seria reduzido (o mesmo vale para praticamente todas as formas de privatização ou confinamento). Da mesma forma, o PIB pode cair enquanto o provisionamento melhora; por exemplo, se o governo do Reino Unido impusesse controles de aluguel ou restaurasse a habitação pública, o PIB poderia sofrer um impacto, mas as pessoas teriam acesso mais fácil à habitação. Essa troca é conhecida como Paradoxo de Lauderdale.

Agora, quando pensamos na questão de provisionamento de recursos, o quadro muda um pouco. Fica claro que não há escassez alguma. Pesquisas recentes descobriram que poderíamos acabar com a pobreza global e garantir uma vida próspera para todos no planeta (para 10 bilhões de pessoas em meados do século), incluindo saúde e educação universais, com 60% menos energia do que usamos atualmente (150 EJ, ​​bem dentro do que é considerado compatível com 1,5ºC ) . Quanto ao uso de recursos, sabemos que nações de alto rendimento poderiam atender às necessidades materiais de seus cidadãos em alto padrão, com até 80% menos uso de recursos , trazendo-os de volta ao limiar sustentável.

Deste ângulo, fica claro que o capitalismo é altamente ineficiente quando se trata de atender às necessidades humanas; produz tanto e ainda deixa 60% da população humana sem acesso até mesmo os bens mais básicos. Por quê? Porque uma grande parte da produção de commodities (e toda a energia e materiais necessários) é irrelevante para o bem-estar humano. Considere esta experiência mental: Portugal tem resultados sociais significativamente melhores do que os Estados Unidos, com 65% menos PIB per capita. Isso significa que US$ 38.000 do rendimento per capita dos Estados Unidos são efetivamente "desperdiçados". Isso soma US$ 13 triliões por ano para a economia americana como um todo; US$ 13 triliões em extração, produção e consumo a cada ano, e US$ 13 triliões em pressão ecológica, que nada acrescentam, por si só, ao bem-estar humano. É dano sem ganho.

Isso não deveria ser uma surpresa, porque o objetivo do capitalismo é a extração de excedentes, a acumulação da elite e o reinvestimento para expansão – não atender às necessidades humanas. Na medida em que o sistema atende às necessidades humanas, isso geralmente é resultado de intervenções políticas (ou seja, sindicatos, direitos dos trabalhadores, sector público, etc.).

É irracional esperar que um sistema organizado em torno do aumento da extração e acumulação irá, de alguma forma, melhorar automaticamente os resultados sociais. Se melhorar os resultados sociais é o nosso objetivo, faz muito mais sentido atingi-lo diretamente, organizando a economia primeiro em torno do que sabemos ser necessário para o florescimento humano, em vez de apenas aumentar o PIB indiscriminadamente e esperar que ele satisfaça magicamente as necessidades das pessoas. E quando se trata de bem-estar humano (ou seja, saúde, educação, longevidade, felicidade, satisfação com a vida), os dados são claros: o que importa são os serviços públicos universais, empregos significativos, democracia e uma distribuição justa de renda.

4. Não é o salário em si que conta; é o poder de compra do bem-estar do salário
Os serviços públicos universais são importantes para esta visão por uma série de razões. Primeiro, eles são mais económicos e menos ecologicamente intensivos do que seus equivalentes privados (noutras palavras, você obtém mais provisionamento com menos impacto). Por exemplo, o sistema público de saúde da Espanha gera resultados significativamente melhores do que o sistema dos EUA (a expectativa de vida da Espanha é cinco anos a mais) com menos de um quarto do custo e uma fração das emissões. O transporte público é menos intensivo do que os carros particulares. A água pública é menos intensiva do que a água engarrafada. etc.

Em segundo lugar, os serviços públicos melhoram o "poder de compra do bem-estar" das rendas. Por exemplo: se as pessoas nos Estados Unidos não tivessem que pagar preços exorbitantes por saúde e educação superior, precisariam de muito menos renda para viver bem. Em resumo, a contabilidade de renda de Milanovic não tem sentido porque não é a renda em si que importa; é o que as pessoas podem comprar com essa renda, em termos de bens de que precisam para viver bem. É o poder de compra da renda que conta.

E o poder de compra da renda do bem-estar não é estático; pode ser significativamente melhorado. Na verdade, esse é o objetivo do decrescimento. Pesquisas em economia ecológica deixam claro que desmercantilizar os bens públicos e fechar os bens comuns é uma boa maneira de aliviar a pressão do planeta, porque permite que as pessoas acessem os bens de que precisam para viver bem sem precisar de altas rendas para fazê-lo (o que também significa menos pressão para trabalhar e produzir coisas desnecessárias, o que, por sua vez, significa menos pressão para o consumo em outras partes do sistema). Em outras palavras, inverte o paradoxo de Lauderdale.

5. O decrescimento não busca reduzir todos os setores; apenas desnecessários e destrutivos
Milanovic imagina um cenário em que todos os setores da economia são reduzidos a um terço da sua capacidade atual: fábricas, aeroportos e escolas, em igual medida. Se isso acontecesse, seria realmente desastroso. Mas não é isso que o decrescimento exige; e, novamente, isso é algo que Milanovic saberia se lesse a literatura.

Na economia existente, operamos com base no pressuposto de que todos os setores devem crescer, todos os anos, para sempre, independentemente de realmente precisarmos ou não. Em outras palavras, há uma espécie de lógica totalitária no growthismo. Não é preciso muito para perceber que isto é um absurdo, tanto em termos de necessidades humanas quanto de ecologia. O decrescimento exige uma abordagem mais razoável: vamos conversar sobre quais setores ainda precisam crescer (como energia renovável, serviços públicos, trens, etc.), quais setores já são grandes o suficiente e quais setores são muito grandes e precisam decrescer significativamente (ou seja, combustíveis fósseis, SUVs, publicidade, obsolescência planejada, McMansões, armas, carne bovina industrial, jatos particulares etc. ) .

Num cenário real de decrescimento, o objetivo seria reduzir a produção ecologicamente destrutiva e socialmente menos necessária (o que alguns podem chamar de parte do valor de troca da economia), ao mesmo tempo em que protege e até melhora partes da economia organizadas em torno do bem-estar humano e da regeneração ecológica (a parte do valor de uso da economia). Por outras palavras, é o oposto do cenário de miserabilidade de Milanovic.

6. O crescimento verde não é uma coisa
Milanovic acredita que a tecnologia virá em nosso socorro e tornará o crescimento “verde”. Infelizmente, há um forte consenso contra essa suposição. Revimos as evidências empíricas relevantes aqui (“ É possível o crescimento verde? ”), examinando as emissões de CO2 e o uso de recursos.

Resumidamente, sobre o CO2, a questão não é se o PIB pode ser dissociado das emissões (sabemos que pode ser), a questão é se isso pode ser feito com rapidez suficiente para permanecer dentro de orçamentos de carbono seguros e, ao mesmo tempo, aumentar o PIB. E a resposta para isso é não. Mais crescimento implica em mais uso de energia, e mais uso de energia torna ainda mais difícil atender a essa demanda com energias renováveis. Os únicos cenários que conseguem reduzir as emissões com rapidez suficiente para nos manter abaixo de 1,5 ou 2°C envolvem uma redução no uso de recursos e energia (em outras palavras, decrescimento). Eu discuto isso com mais profundidade aqui . Esta revisão de 2020 examina 835 estudos empíricos e conclui que a dissociação por si só não é adequada para atingir as metas climáticas; requer o que os próprios autores chamam de cenários de “decrescimento”.Este artigo na Nature Sustainability chega a conclusões semelhantes.

Quanto aos recursos: o uso de recursos continua a aumentar junto com o PIB (apesar de melhorias significativas de eficiência e uma mudança significativa para serviços e conhecimento como parcela do PIB) e, de fato, todos os modelos existentes indicam que é improvável que ocorra dissociação absoluta, mesmo sob fortes condições políticas. Veja aqui e aqui para mais.

Ward et al (2016) descobrem que mesmo as projeções mais otimistas de melhorias de eficiência não produzem dissociação absoluta no médio e longo prazo. Os autores afirmam: “este resultado é uma refutação robusta à alegação de dissociação absoluta”; “a dissociação do crescimento do PIB do uso de recursos, seja relativo ou absoluto, é, na melhor das hipóteses, apenas temporária. O desacoplamento permanente (absoluto ou relativo) é impossível… porque os ganhos de eficiência são, em última instância, regidos por limites físicos.” Schandl et al (2016) encontram a mesma coisa. Mesmo em sua projeção de melhor cenário, o consumo global de materiais ainda cresce de forma constante. Os autores concluem: “Nossa pesquisa mostra que, embora algum desacoplamento relativo possa ser alcançado em alguns cenários, nenhum levaria a uma redução absoluta na pegada de energia ou materiais”.

Nossa revisão foi publicada em 2019 e a literatura sobre isso cresceu desde então: ou seja, aqui e aqui o último artigo revê 179 estudos sobre dissociação publicados desde 1990 e não encontra “nenhuma evidência de dissociação absoluta de recursos em toda a economia, nacional ou internacional, e nenhuma evidência do tipo de dissociação necessária para a sustentabilidade ecológica”. Aqui está uma meta-análise de 2020 de todos os dados disponíveis sobre PIB e uso de recursos, que chega à mesma conclusão.

Em suma, é irracional esperar, contra as evidências, que o nosso sistema económico atual proporcione os resultados de desenvolvimento que desejamos e, ao mesmo tempo, reverta o colapso ecológico. Precisamos ser mais espertos do que isso. O decrescimento fornece uma alternativa empiricamente informada: um caminho para reduzir o excesso de recursos e uso de energia e, ao mesmo tempo, garantir uma vida próspera para todos. Dados os riscos da crise que enfrentamos, devemos estar abertos a novos pensamentos.

terça-feira, 9 de junho de 2020

O futuro do sistema que domina o mundo


Qual desenho se pode traçar da globalização que temos hoje? Quais são as suas características? O que a distingue de períodos anteriores de expansão económica vocacionados à internacionalização? E os cenários para o futuro? O que fazer para ao menos mitigar as visíveis desigualdades espalhadas por todos os continentes? 
Em Capitalismo sem rivais , Branko Milanović demonstra que o capitalismo acabou por se tornar o único sistema económico vigente no planeta após séculos de convivência ou rivalidade com outros modos de produção. No livro, o economista sérvio-americano oferece uma visão original sobre a evolução das sociedades comunistas no Leste Europeu e em outras partes do mundo, com destaque para a China — que constitui hoje, na análise do autor, o exemplo maior do que ele chama de capitalismo político, em contraposição ao capitalismo meritocrático liberal representado, em especial, pelos EUA. Com erudição e didatismo, Milanović mostra as diferenças entre os dois capitalismos predominantes, as formas como se relacionam entre si, de que maneiras se constituem suas desigualdades internas e como eles se manifestam, com características próprias, em todas as regiões do globo.

Como o próprio título indica, o Capitalismo tem dominado o mundo desde a queda da União Soviética, sem que tenhamos outro sistema como alternativa viável. Por capitalismo, a definição usada por Branko é a do sistema que i) utiliza a propriedade privada dos meios de produção, ii) o capital é usado para contratar trabalhadores, iii) a produção ocorre de forma descentralizada, isto é, não há um comando central ditando as regras, e iv) as decisões de investimento são realizadas por empresas privadas ou indivíduos. Veja que eu escrevi que não temos um sistema alternativo viável. Isso exclui o socialismo, dado o seu fracasso em gerenciar economias. É uma balela o argumento levantado por alguns defensores do socialismo de que o "socialismo real" ainda não foi implantado. Fracassaria do mesmo jeito, e pelas mesmas razões. Branko dedica poucas páginas para explicar a impossibilidade prática do socialismo, uma vez que este ponto já está bem claro (ou deveria estar!). 

Definido o conceito de capitalismo, o autor afirma que três movimentos reforçam e fortalecem o capitalismo. O primeiro é o fluxo de bens. O segundo é a mobilidade do capital. E o terceiro é a migração de trabalho entre os países. Enquanto a mobilidade de bens e de capital segue ritmo acelerado, movimentos migratórios têm enfrentado resistências em algumas nações - com a ascensão de movimentos nacionalistas. De qualquer forma, a tendência é de crescente fluxo de trabalhadores, com tecnologias acelerando essa tendência. Temos evidências de médicos realizando operações com o auxílio de computadores, eliminando a necessidade de presença física no local da cirurgia. No futuro, pode ser que o fator trabalho contribua com a produção sem precisar se deslocar fisicamente, uma vez que tecnologias conectariam o seu trabalho. O capitalismo contemporâneo tem o suporte da globalização.

Um mundo capitalista caminha de mãos dadas com a ideologia praticamente incontestável de fazer dinheiro (money-making). Gerar e acumular dinheiro não somente é respeitável como também é o principal objetivo na vida das pessoas. Reconhecida essa inflexão nos nossos pensamentos, ela produz efeitos significativos em nossas vidas. Por exemplo, como conciliar áreas não monetárias com o pensamento comercial? 

Branko Milanovic nos diz que há dois tipos de capitalismo em curso atualmente. Um deles é o capitalismo das economias ocidentais, cunhado de capitalismo meritocrático liberal. Suas principais características são a democracia e o Estado de Direito. É um capitalismo no qual o Estado se esforça em melhorar as instituições para que os indivíduos as utilizem como âncoras em suas decisões. O Estado, portanto, teria um papel passivo no desenvolvimento económico. As decisões são descentralizadas, principalmente as concernentes ao progresso tecnológico. Uma vantagem desta variedade de capitalismo é a de que cada indivíduo é tratado de forma igualitária, com mobilidade social de acordo com os resultados de sua vida produtiva. 

A segunda variação de capitalismo é o capitalismo político, autoritário, com a figura central do Estado. A China seria o grande exemplo deste capitalismo. Neste capitalismo, diferentemente do capitalismo meritocrático liberal, o Estado conduz a economia, estabelece diretrizes para serem seguidas. Há uma burocracia eficiente para entregar os resultados propostos. Não temos o Estado de Direito garantindo direitos individuais. Portanto, há discricionariedade por parte do Estado em julgar e tomar decisões. Em outras palavras, este enfrenta poucas amarras jurídicas para suas decisões. Uma de suas principais qualidades é a entrega de elevadíssimo crescimento económico, propiciando o aumento de salário das pessoas. 

Todavia, esses dois capitalismo têm os seus próprios problemas, os quais podem representar a sua degeneração e possível queda. Pelo lado do capitalismo meritocrático liberal, marcadamente nos Estados Unidos, há crescente disparidade de rendimento entre as elites e o restante da população. Essa elite consegue capturar o governo por meio de financiamento e apoio durante as eleições, exigindo, em contrapartida, leis e regulações que beneficiem os seus negócios. A dinâmica de funcionamento do capitalismo contribui para essa desigualdade, uma vez que essa elite possui de forma notoriamente elevada a posse de capital, ao passo que o restante da população possui parcela muito inferior. Branko fornece dados (os quais eu não tinha ideia) de desigualdade de capital, e não de renda. Mesmo nos países mais igualitários, como a Noruega, o Gini é de 0,9. Na Alemanha e nos Estados Unidos, os valores são de 0,8 a 0,9. Lembre que o Gini varia de 0 a 1. O número 1 denota uma sociedade totalmente desigual, na qual toda a renda está concentrada em apenas uma pessoa. Milanovic argumenta que o 0,01% da população detém maciça parte do capital, conseguindo extrair renda e expandindo ainda mais sua riqueza. E esse 0,01% se utiliza do Estado para influenciar as regras do jogo, contribuindo para elevar ainda mais essa riqueza. 

Do lado do capitalismo político, o principal problema é a corrupção. Dada a ausência do Estado de direito, a burocracia se beneficia de amplo poder, podendo utilizá-lo para acumular riqueza. A população percebe essa corrupção, entretanto, como afirmei anteriormente, o Estado entrega emprego, renda e condições melhores de vida. Há esse contrato implícito. E vez ou outra o governo chinês realiza expurgos no seu quadro político, quando a corrupção se torna flagrante aos olhos de todos. Nesta parte, imaginei a sabedoria popular "boi de piranha". Sacrifica-se uma ovelha para amansar todo o rebanho. 

O livro destrincha em detalhes esses dois sistemas, recorrendo a eventos históricos e atuais para apoiar os argumentos. É um dos pontos fortes da obra. Uma distinção interessante entre esses dois capitalismos é a de que o capitalismo ocidental é voltado para a construção de instituições, ao passo que o capitalismo político se concentra no fornecimento de infraestrutura para propiciar os elevados níveis de crescimento. 

Branko discute algumas teorias antigas, como a teoria da dependência, defendida no passado pela CEPAL. Essa teoria dizia que o capitalismo colocava alguns países na periferia para servirem os interesses dos países centrais. As nações da periferia estariam condenadas a exportar produtos primários, commodities, enquanto as centrais exportariam produtos com alto valor agregado. O resultado seria o aprofundamento da pobreza e atraso dos países periféricos. Branko mostra que a globalização comercial quebrou e derrubou essa teoria, uma vez que quaisquer países, especialmente as economias emergentes, podem fazer parte das cadeias globais de valor. 

Essas cadeias se caracterizam pelo fornecimento de insumos em várias etapas da produção por diferentes países. Nenhum país tenta ser o melhor em toda a etapa, pois seria inviável e pouco eficiente. Ao invés disso, ele se especializa em sua etapa, ou seja, ele se integra nessa cadeia de produção. O lado atrativo para economias atrasadas é o de que elas não precisam realizar amplo investimento em capital físico para fazerem parte dessas cadeias. 

Retornando ao exame das consequências do capitalismo em nossas vidas, Branko apresenta um lado bom e outro ruim deste sistema. O lado bom é o de que ao buscar melhorar nossas vidas, terminamos por contribuir com todo o resto da população. É o velho argumento, e ainda válido, da mão invisível de Adam Smith. O padeiro não acorda cedo para ajudar ninguém em especial, ele procede desta forma para obter dinheiro e rendimento. Todavia, ao fazer isso, ele auxilia toda a população ao ofertar o seu produto. Generalize esse comportamento e temos uma das razões para o sucesso do capitalismo. O lado negativo, por outro lado, é o de que o capitalismo reforça vícios, como a ambição, o egoísmo, e mesmo a mentira. Esses vícios, amplamente criticados em textos antigos, como a Bíblia, passam a ser vistos como virtudes. A hipocrisia tende a fazer parte do dia a dia: apresenta-se virtudes, mas no fundo há somente vícios. Em parte, isso ocorre devido ao receio de receber críticas ao afirmar que a principal motivação é o ganho privado, o dinheiro e o lucro. Para mascarar, diz-se que o objetivo é ajudar o próximo, a população, os pobres. 

Outras consequências da disseminação e aprofundamento do capitalismo é a atomização. As famílias tendem a encolher em tamanho e perder sua importância. No passado, família era uma instituição prática para o suporte mútuo, principalmente na velhice. Hoje, por outro lado, com a também crescente mercantilização de praticamente tudo, pode-se substituir o apoio familiar com o pagamento de serviços. "Tudo tem um preço em um mundo comercial", afirma o autor. Não há a necessidade de cuidar de pais idosos, pois pode-se pagar enfermeiras e casas de idosos. O serviço de limpeza pode ser terceirizado. A comida pode ser comprada fora de casa. E por aí vai. Se a tendência prosseguir, como pode ser visto em países ricos, como a Suécia, as famílias encolhem para o número entre 1 e 2 de pessoas. 

O capitalismo invade a esfera privada, comercializando nosso tempo livre. Novamente, praticamente tudo passa a ter um custo de oportunidade. O lazer pode ser trocado pela oferta de serviços por aplicativos, como a Uber. Desta forma, o lazer representaria a abdicação de mais renda, pois há serviços esperando por nossa prestação. Qual seria o limite? Casamentos e amizades também entrariam nessa conta. Cada decisão de nossa vida passa pelo fio matemático de valor monetário. 

No final da obra, o autor arrisca alguns pitacos de possíveis desdobramentos do capitalismo. Ele não acredita que políticas de redistribuição de renda seriam capazes de reverter de forma estrutural a crescente desigualdade entre a elite e o restante da população. Branko argumenta em favor do capitalismo igualitário, o qual daria parcelas semelhantes de capital para os indivíduos e os dotariam com habilidade similares. Mas migrar das atuais formas de capitalismo para essa é trabalho para pesquisas futuras. Branko admite a dificuldade em fornecer esses passos. Apenas fornece dicas para superar algumas das dificuldades contemporâneas. 

Em resumo, o livro é muito bom. Tem uma leitura agradável, que não se torna monótona em momento algum (algo difícil e raro em livros de economia). Branko tem didática e domina o tema. A leitura é densa no sentido de discutir muitas coisas. Tive dificuldades em fazer essa resenha, dada a amplitude de tópicos discutidos. De toda forma, o livro é um prato cheio para quem deseja entender um pouco melhor o mundo econômico em que vive.

sábado, 17 de março de 2012

Entrevista a Branko Milanovic - Chamar ao poder só tecnocratas “não é bom para a democracia”


A ler

2. Entrevista a Branko Milanovic, economista-chefe do Banco Mundial (excerto)
Como é que vê a resposta europeia para ultrapassar a crise neste contexto em que já se percebeu que os maiores não estão a salvo?
Estou relativamente pessimista sobre as medidas de austeridade que estão para vir. Entrámos numa espécie de espiral negativa. Os países tiveram de cortar nas despesas, de tentar equilibrar as contas públicas e aumentaram os impostos indirectos, no IVA ou uma [taxa] equivalente, em vez dos impostos directos, e tudo isto teve um impacto negativo na igualdade de rendimentos. Os impostos indirectos são geralmente regressivos, o que significa que, proporcionalmente, afectam mais os pobres do que os ricos. Os impostos directos têm um impacto progressivo, porque os ricos pagam mais.

Os últimos dados do Eurostat mostram que, na União Europeia, 23% da população está em risco de pobreza ou de exclusão social. Os contrastes sociais na Europa têm vindo a aumentar?
Houve certamente mais conflitos sociais em 2009. Não vejo que haja uma ameaça maior hoje. Assistimos é, potencialmente, a um [modelo de] desenvolvimento perigoso em que os governos eleitos democraticamente são substituídos por tecnocratas, como aconteceu em Itália e na Grécia, o que indica indirectamente que o próprio sistema democrático não foi capaz de debelar a crise. Portugal e Espanha estão em posições diferentes, porque têm novos governos [eleitos], onde o sistema foi capaz de resolver o problema [da crise política]. Em Itália e na Grécia, tiveram de chamar tecnocratas. [Mario] Monti não é um líder político, não foi eleito. [Lucas] Papademos também não. Consigo entender a lógica, porque ganham um suporte mais vasto [dos partidos] por serem tecnocratas, mas não é bom para a democracia. Se há uma crise séria e o sistema político [vigente] não consegue resolver essa crise, a substituição por tecnocratas não é bom para o desenvolvimento democrático. Não tenho nada contra os tecnocratas – eu próprio sou um tecnocrata… – mas não penso que os líderes políticos tenham de o ser. Os tecnocratas podem ajudar (através de conclusões, produzindo relatórios, dando ideias), mas os líderes políticos devem ser pessoas próximas dos cidadãos.

Branko Milanovic, economista-chefe do Banco Mundial, alerta para o resultado desigual das políticas do FMI  no passado. Mas não vê outra solução para a crise europeia.

O sistema não foi capaz de debelar a crise financeira há quatro anos e, hoje, a Europa assiste à substituição dos líderes políticos por tecnocratas que precisam de “ser pessoas próximas dos cidadãos”. O retrato é feito pelo economista-chefe do Banco Mundial, Branko Milanovic, que atribui falta de criatividade aos dirigentes europeus para travar o contágio da crise.

Dedicado ao estudo da distribuição de rendimentos desde os anos 1980, quando se formou em Belgrado, investigador no Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, Milanovic sublinha o efeito da austeridade na classe média e, em particular, nos pobres. Mas ressalva que o impacto nas desigualdades globais é relativo. À conversa com o PÚBLICO, quando esteve recentemente em Lisboa para falar sobre globalização e desenvolvimento, tema que aborda no seu último livro, The Haves and the Have-Nots (Os que Têm e Os que Não Têm, numa tradução livre), deixa um aviso aos líderes europeus: se, perante uma crise séria, o sistema chama tecnocratas ao poder sem antes irem a eleições, os Governos estão a entrar numa lógica perigosa. E o sinal que dão aos cidadãos não é saudável para a democracia.

Quando começou a escrever sobre a distribuição da riqueza mundial, no final dos anos 1980 e a Europa de Leste e Central estava a caminho da transição para a economia de mercado, alguma coisa fazia prever este aumento das desigualdades na distribuição de rendimentos no interior dos países?
Não era imediatamente perceptível. Houve um grande aumento [da riqueza] e a razão tem a ver com a globalização; se olharmos para a perspectiva económica, era expectável que os países pobres tivessem um crescimento maior do que os países ricos, porque a ideia era a de que, com a globalização, existisse uma transferência de capital maior para os países pobres, que podiam também usar tecnologia que não estavam normalmente aptos a usar, e que, essencialmente, se pudessem especializar em transaccionar aquilo em que eram bons a produzir. No fundo, estava patente uma ideia de convergência entre países pobres e países ricos, mas o que, de facto, aconteceu entre 1980 e 2000 foi o contrário: uma divergência na distribuição de rendimento. Estamos a falar especificamente da diferença entre o Produto Interno Bruto (PIB), mas é preciso ter em atenção que a China e a Índia tiveram uma boa trajectória e que representam um terço da população mundial.

Neutralizaram as diferenças?
Houve um travão no aumento das desigualdades. Existem, essencialmente, três forças nas desigualdades mundiais: o aumento entre países (por exemplo, entre Portugal, os Estados Unidos, o Reino Unido, China, Rússia); depois, uma grande divergência entre regiões (a África, a Europa de Leste e a América Latina a crescerem muito devagar ou com um crescimento negativo); e por outro lado, o mundo desenvolvido com um bom desempenho. Portugal está neste último grupo. Mas aqui entra uma quarta força, que foi o rápido crescimento da China e da Índia, que reduziram as desigualdades mundiais. É por isso que penso ser importante distinguir entre estras três-quatro forças que actuam sobre as desigualdades mundiais.

Olhando para o caso europeu: há hoje sinais de desmantelamento do Estado Social, uma vaga de austeridade que, em alguns casos, ameaça a classe média e uma escalada do desemprego. É um sinal da relação estreita entre as desigualdades na distribuição de rendimentos e a crise financeira global?
Existe uma relação próxima, porque hoje podemos argumentar que existe uma relação em dois sentidos, particularmente nos Estados Unidos. Por um lado, existem muitas pessoas com grande poder económico e activos financeiros ao ponto de não terem mais momentos de oportunidade para investir – e o sector financeiro teve de encontrar oportunidades de risco. Por outro, há o problema de os rendimentos da classe média não terem aumentado em duas décadas [nos EUA]. E isto tornou-se um problema político. Para os políticos foi bom, durante um período, estimular os empréstimos à classe média, fazendo com que parecesse que os rendimentos aumentavam como o dos ricos – que, na verdade, cresciam –, mas o rendimento da classe média não cresceu; foi suportado pelos empréstimos e, consequentemente, pareceu como se, na verdade, fosse assim. Há hoje cada vez mais pessoas a acreditar que, como reacção à crise, há pessoas ricas que procuram meios de usar o seu capital, depois, pessoas com rendimentos médios que precisam de acreditar que o seu rendimento está a crescer e, ainda, os políticos, que precisam de fazer a classe média feliz, porque precisam do seu voto. E, finalmente, temos o sector financeiro, que também quer emprestar, porque procura ao mesmo tempo fazer dinheiro. Todos estes grupos têm o seu próprio interesse em fazer isto. Naturalmente o problema verifica-se quando a classe média não consegue pagar os seus empréstimos e, nessa altura, todo o sistema pára.

Qual o efeito inverso, ou seja, os impactos directos da crise na desigualdade de distribuição da riqueza?
Na verdade, os primeiros impactos são diferentes, por causa do primeiro efeito da crise nos países ricos, que geralmente no início perdem rendimento e activos – por exemplo, pessoas que tinham grandes posses, que tinham investido em obrigações e que perderam até a propriedade. Este é o primeiro impacto. O problema é que o segundo e o terceiro, particularmente na Europa, onde são tomadas políticas de austeridade restritivas, são sentidos pela classe média e, em especial, pelos pobres. O desemprego começa a aumentar, as pessoas perdem emprego ou começam a trabalhar mais horas, são alteradas regras [na atribuição] das pensões... O segundo impacto tem um reflexo no aumento das desigualdades, mas também é preciso dizer que vários autores encontraram impactos relativos na Europa Ocidental.

Como é que vê a resposta europeia para ultrapassar a crise neste contexto em que já se percebeu que os maiores não estão a salvo?
Estou relativamente pessimista sobre as medidas de austeridade que estão para vir. Entrámos numa espécie de espiral negativa. Os países tiveram de cortar nas despesas, de tentar equilibrar as contas públicas e aumentaram os impostos indirectos, no IVA ou uma [taxa] equivalente, em vez dos impostos directos, e tudo isto teve um impacto negativo na igualdade de rendimentos. Os impostos indirectos são geralmente regressivos, o que significa que, proporcionalmente, afectam mais os pobres do que os ricos. Os impostos directos têm um impacto progressivo, porque os ricos pagam mais.

É preciso uma política de estímulos alternativa? Um quadro diferente da resposta ao que hoje se propõe: recessão para depois se crescer e ganhar competitividade?
Aqui entramos na macroeconomia, que já sai fora da minha área [de estudo]. Mas digo apenas que estas políticas cíclicas exacerbaram o ciclo de queda da economia... E, depois, cortam-se as despesas e mais despesas... Uma vez que o euro é controlado pelo Banco Central Europeu, não existe a possibilidade de imprimir mais moeda. Pessoas como [Joseph] Stiglitz e [Paul] Krugman criticaram-no. Estas políticas foram aplicadas nos países em desenvolvimento desde há 30 anos. O que está a acontecer à Grécia neste momento e as políticas adoptadas em Portugal, Espanha e Itália não são novas. Aproximam-se do que se passou no Brasil, no México, na Argentina e em países de África. São políticas-padrão aplicadas pelo FMI e os resultados foram desiguais.

Os últimos dados do Eurostat mostram que, na União Europeia, 23% da população está em risco de pobreza ou de exclusão social. Os contrastes sociais na Europa têm vindo a aumentar?
Houve certamente mais conflitos sociais em 2009. Não vejo que haja uma ameaça maior hoje. Assistimos é, potencialmente, a um [modelo de] desenvolvimento perigoso em que os governos eleitos democraticamente são substituídos por tecnocratas, como aconteceu em Itália e na Grécia, o que indica indirectamente que o próprio sistema democrático não foi capaz de debelar a crise. Portugal e Espanha estão em posições diferentes, porque têm novos governos [eleitos], onde o sistema foi capaz de resolver o problema [da crise política]. Em Itália e na Grécia, tiveram de chamar tecnocratas. [Mario] Monti não é um líder político, não foi eleito. [Lucas] Papademos também não. Consigo entender a lógica, porque ganham um suporte mais vasto [dos partidos] por serem tecnocratas, mas não é bom para a democracia. Se há uma crise séria e o sistema político [vigente] não consegue resolver essa crise, a substituição por tecnocratas não é bom para o desenvolvimento democrático. Não tenho nada contra os tecnocratas – eu próprio sou um tecnocrata… – mas não penso que os líderes políticos tenham de o ser. Os tecnocratas podem ajudar (através de conclusões, produzindo relatórios, dando ideias), mas os líderes políticos devem ser pessoas próximas dos cidadãos.

As decisões políticas submeteram-se às decisões dos mercados financeiros?
Não penso que alguém seja a favor disso, mas é muito difícil ver como é que hoje se pode sair desta situação. Os tecnocratas que estão agora no poder vieram precisamente como resposta aos mercados financeiros. Parece não haver saída. A sua posição política é dizer: “Temos de cortar o défice”, posição que se compreende – eu não encontro uma solução para a crise. A sua posição é: “Nós podemos continuar endividar-nos, mas vamos pagar uma taxa de juro insustentável”. A Grécia é o expoente máximo disto. Alguém pode pagar 15% de juros? Ninguém consegue. E, então, dizem: “A única forma de baixar as taxas de juro para um nível sustentável é cortando o défice”. [Os Governos] não têm alternativas a apresentar. No entanto, o efeito é conhecido: cortes nas pensões sociais, aumento de impostos, aumento do desemprego e um sentimento de insatisfação do país em relação à política e, obviamente, os partidos não são capazes de sobreviver a eleições. Não penso que alguém consiga ver saída para isto, excepto a saída da zona euro. Mas, neste caso, o jogo já é outro. É um cenário impensável; penso que o euro irá sobreviver.

Quais as consequências sobre a unidade política de um país?
Podem ter muitas consequências negativas. Uma é óbvia: se existirem grandes desigualdades, os mais ricos, o poder político e o poder económico tentam manter as suas posições. A Bolívia ou a Venezuela sempre tiveram sérios conflitos sociais que impediram uma política económica consistente. Um segundo tipo de consequências é visível, por exemplo, na Ex-Jugoslávia, com diferenças entre religiosos: uns muito ricos e outros muito pobres. Algo semelhante está agora a acontecer na China, com os mais ricos a tornarem-se cada vez mais ricos e, ao mesmo tempo no mesmo país, dois terços da população pobre.

Mais do que pela classe, as desigualdades de rendimento podem ser explicadas pela origem do país?
Tem muito a ver com a nacionalidade. Entre as desigualdades a nível global, cerca de 80% devem-se a diferenças entre países. Por outras palavras, é determinante se uma pessoa é cidadã de um país desenvolvido, porque, mesmo sendo uma pessoa pobre num país rico, em termos comparativos com a distribuição da riqueza a nível mundial, estará melhor.

É uma ideia que não mudou nos últimos 20 anos?
Mudou ligeiramente, por causa do aumento da riqueza em países como a China, a Indonésia, o Brasil. Estes países cresceram, fizeram com que mudasse alguma coisa, mas não de uma forma brusca. Tivemos os países ricos a crescer muito lentamente e os países pobres a crescer muito rapidamente.

Daí o impacto directo das desigualdades na eficiência económica?
Será por aí, mas sobre isso há duas teorias: uma, que a desigualdade é boa para o crescimento e, outra, que [diz que] é má. Pessoas como Mitt Romney, nos Estados Unidos, acreditam que é boa, porque se na desigualdade houver pessoas ricas, estas vão investir e criar novos empregos, com um efeito positivo para a economia. As pessoas que pensam que a desigualdade é má acreditam que um país mais igualitário preservará o poder político e económico.

Se a distribuição de rendimentos tem na nacionalidade uma causa tão forte, depois no interior de um país, que influência resta para as políticas nacionais?
É muito influenciada. Depende em larga medida das políticas, mas é também influenciada por aquilo que se tem. Por outras palavras, num país que está no nível riqueza mais baixo, a diferença entre pessoas muito qualificadas e a restante população será muito grande. Um país pobre não pode fazer muito a favor da distribuição da riqueza. As decisões políticas têm muito mais poder nos países desenvolvidos, porque perto de 40% do PIB é taxado e é possível fazer alguma coisa com isso. Nos países pobres, os governos não podem aumentar muito os impostos. Os países realmente pobres não podem ter políticas sociais que os Estados ricos podem praticar: o acesso gratuito à educação, programas de saúde públicos... Os países pobres não conseguem pagar pensões, pagar uma taxa de desemprego...

A crise é resultado de um ciclo vicioso de perpetuação da pobreza?
No caso da Europa, vive-se um ciclo vicioso. O PIB está estagnado ou poderá contrair-se. A eficiência orçamental mantém-se insuficiente, porque os países pagam taxas de juro mais elevadas para se endividarem e têm de cortar no seu défice, o que implica menos despesa e que o sector privado gaste menos. A política económica, seja onde for, tem dois braços: um orçamental e outro de controlo. Na Europa, os países apenas têm a orçamental, porque o controlo é feito pelo Banco Central Europeu.

Podemos questionar a existência, hoje, de uma classe média?
A nível global, temos para cada país critérios individuais para definir a classe média. Isto em termos económicos. A definição sociológica é mais subjectiva. Se em Portugal se perguntar quem é da classe média, toda a gente vai dizer: “Eu sou da classe média, eu sou da classe média”. Muito poucas pessoas ricas dirão: “Eu sou rico”. Dirão que são da classe média – é subjectivo. Já a definição económica é muito clara: a partir do rendimento médio de um país, olha-se para 25% acima e abaixo deste rendimento e calcula-se a percentagem da população. Nos países com uma grande classe média, têm muitas pessoas neste grupo, cerca de 40% da população, em países da Escandinávia, a Alemanha, França… Portugal estará próximo deste número. Mas, depois, os países que estão nos extremos têm tanto pessoas muito ricas como pessoas muito pobres: os países da América Latina têm 15% a 30% de classe média. O mundo não é uma sociedade de classe média, tem algo como 800 milhões de pessoas de classe média, o que é pouco em relação aos 7000 milhões da população mundial.

Na própria Europa, não falamos de classe média da mesma forma em Portugal do que, por exemplo, na Alemanha.
Esse é um outro problema, que é de rendimento, mais do que de definição. Em Portugal, 85% da população terá um rendimento inferior ao de um salário de um professor. Um alemão terá um salário superior, porque a média dos rendimentos na Alemanha é mais alta. É um problema de distribuição.