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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Painéis solares em turfeiras podem ser uma dupla vantagem para o clima e para a natureza

Investigadores na Alemanha descobriram que a instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas proporciona um habitat único para espécies de aves, além de gerar energia verde e, potencialmente, reter carbono.

A instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas (rewetted) representa um novo tipo de uso da terra, oferecendo uma forma de gerar energia verde e de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Agora, uma investigação da Universidade de Greifswald descobriu que este uso inovador do solo também pode beneficiar a natureza.

No estudo, publicado na revista Ecological Solutions and Evidence, os investigadores compararam a diversidade de aves num parque solar situado numa turfeira novamente alagada no norte da Alemanha. O local estava rodeado por turfeiras drenadas e exploradas de forma agrícola intensiva.

Os autores descobriram que o parque solar servia de habitat para várias espécies de aves ameaçadas e apresentava uma mistura invulgar de espécies associadas a ecossistemas agrícolas, zonas húmidas e até zonas florestais.

Hanna Rae Martens, ecologista de turfeiras na Universidade de Greifswald e autora principal do estudo, afirmou:

"A presença de espécies de zonas húmidas, como a escrevedeira-dos-caniços e o ameaçado petinha-dos-prados, mostra que o parque solar está realmente alagado e que as espécies típicas de turfeiras estão a regressar."

"No entanto, também registámos espécies como o pardal-montez e o petinha-das-árvores, que normalmente não se encontram em turfeiras. Todas parecem utilizar a estrutura dos painéis solares. Quando estou no terreno, vejo muitos petinhas-dos-prados pousados nos painéis, que voam para apanhar insetos e depois regressam ao seu poiso."

Cerca de 80% das turfeiras no Reino Unido estão degradadas. Na Alemanha, este número é ainda mais elevado, atingindo os 95%, devido principalmente à drenagem e à utilização agrícola. A nível global, as turfeiras drenadas são responsáveis por 5% das emissões de gases com efeito de estufa.

O alagamento de turfeiras drenadas poderia reduzir drasticamente estas emissões e restaurar a biodiversidade, mas existem dois problemas fundamentais. O primeiro é que, uma vez alagadas, a maioria das culturas agrícolas comuns já não pode ser produzida nestes terrenos. O segundo é que a restauração de turfeiras profundamente degradadas até um estado saudável e funcional pode demorar várias décadas.

O local do estudo é um dos primeiros a instalar painéis solares em turfeiras novamente alagadas. Ao abrigo de um programa do governo alemão, os proprietários de terras recebem incentivos financeiros para instalar painéis solares e alagar o terreno, proporcionando-lhes uma fonte alternativa de rendimento. As conclusões do estudo sugerem que, pelo menos a curto prazo, esta medida poderá também estar a impulsionar a biodiversidade.

"Nos casos em que a alternativa seria uma turfeira drenada e gerida de forma intensiva, a nossa investigação demonstra que os painéis solares em turfeiras novamente alagadas podem beneficiar a diversidade de aves", afirmou Hanna Rae Martens. "Mas não estamos a sugerir que se transformem todas as turfeiras da Alemanha, do Reino Unido ou de qualquer outro país em parques solares. As turfeiras saudáveis ou aquelas que têm um elevado potencial de restauração devem ser evitadas. Os parques solares são apenas mais uma ferramenta possível para apoiar o alagamento das turfeiras."

No estudo, que decorreu entre março e outubro de 2024, os investigadores utilizaram gravadores de áudio e inteligência artificial (machine learning) para comparar a diversidade de aves num parque solar em turfeira alagada com a de turfeiras drenadas vizinhas, utilizadas para a produção de pasto para gado.

Os investigadores alertam, contudo, que o seu estudo representa apenas um caso prático deste novo tipo de uso da terra. Hanna Rae Martens referiu:

"Até à data, existem cerca de cinco parques solares instalados em turfeiras novamente alagadas. São necessárias mais investigações para tirar conclusões sólidas sobre se estes resultados se repetem noutros locais e quais os fatores que contribuem para a composição das espécies."

Os investigadores pretendem agora expandir o seu estudo a mais locais, monitorizar outras espécies — como morcegos e insetos — e identificar quais os elementos das estruturas dos parques solares que podem ser otimizados para favorecer a biodiversidade.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Could nature itself hold the solution to climate change?


In 2019, my scientific research was nearly brought to an early end when my team and I published the bombastic statement that natural forest restoration was the “best climate change solution” available in a paper for the peer-reviewed journal Science.

I remember a colleague from the World Wildlife Fund advising me that this message represented career suicide. He argued that people would be furious because reducing greenhouse gas emissions was the most urgent priority. The revival of nature might help with 30% of our carbon drawdown needs, but you cannot stop rising temperatures without cutting emissions.

I agreed both then and now. However, I explained that when we referred to the “best” solution, we didn’t simply mean the one with the largest impact in terms of CO2; we meant the best option for improving the livelihoods and wellbeing of people, too. And that, as we shall see, plays a crucial role in magnifying the beneficial effect.

Many people believe the scale of the climate challenge calls for immense technological innovation, geoengineering, or the transformation of our economy. But with these solutions there are often painful trade-offs. Almost every technological or geoengineering fix you can imagine comes at the expense of something else.

Stratospheric aerosol injection is one example. Creating clouds of reflective particles could block the sun and cool the land below. But alterations in sunlight and rainfall patterns could disrupt the growth of the crops we depend on for food. Similarly, direct air carbon capture has incredible potential to remove C02, but the huge financial and energy costs currently stand in the way of deploying it at the scale we need.

There is one set of solutions, however, that present no trade-off at all when they are done right. The restoration of natural habitats like forests is an exception in our climate toolkit because it draws on the same network of connections that allowed life to flourish in the first place.

The resilience of the natural world comes from ancient, underappreciated forces known as feedback loops. A positive feedback loop occurs when the outcome of a process has an effect that amplifies the process itself. You can see these patterns all the time in different aspects of life: for example whenever your anxiety about sleeping makes it harder to drift off.

Around 3.8bn to 4.2bn years ago, feedback loops allowed life to spread on an otherwise toxic and uninhabitable planet: Earth. As life gained a foothold, it began to transform the environment, making it hospitable to more life. Species emerged that generated opportunities for even more species. This self-reinforcing process created the Eden that allowed our own species to thrive, as well as providing every ounce of food, oxygen, timber, medicine and fuel we have ever needed.

But as we are all aware, the success of our species has initiated new feedback loops. The exploitation of natural resources by human beings has allowed population growth that has driven even more exploitation, which has warmed the planet, causing carbon to be released from the soil, driving more warming. As forests dry out, they are able to store less moisture, which causes more drying. Many loops such as this are now in motion, threatening to tip our planet into an entirely new state.

If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum

But just as feedback loops can cause damage, they can be harnessed as a pathway to recovery. They are not objectively good or bad: they are simply agents of change. If we can work with nature’s feedback loops rather than distorting them, we can reap the benefits of their self-sustaining momentum.

In Argentina’s Iberá national park, you can see a stunning example of runaway revival. After decades of degradation, the reintroduction of jaguars has reduced bloated herds of grazing herbivores, allowing wetland plants to recover. The plants’ roots trap moisture in the soil, and their branches provide a habitat for species that make this one of the most spectacular wetlands – and carbon sinks – on the planet. After just a few years, caimans now bask on the banks, macaws flash scarlet across the sky and giant otters patrol the waterways.

Of course, nature-based solutions are not always so successful. Companies have created vast carbon farms via monocultural tree planting, destroying native species in the process. The drying of peatlands to reduce methane production leads to the release of huge amounts of CO2. Nature’s power lies in its complexity, so attempting to simplify or reengineer the system often backfires.

The risks and trade-offs tend to disappear, though, when you get one vital part of the equation right. Time and again, when the revival of local biodiversity improves the livelihoods and wellbeing of local people, change becomes truly sustainable. Whenever people are intrinsically motivated to protect the environment around them, they become an integrated part of a natural feedback loop that can quickly gather momentum.

In the Iberá wetlands example, ecotourism became the engine of a new “restoration economy” employing rangers, chefs, hosts, wildlife trackers and guides. There are hundreds of such examples around the world: in Saseri, northern India, strategic soil management and tree restoration is trapping water to improve the yields of more than 1,200 farmers. A thousand kilometres to the south-west, in Gujarat, Indigenous women are restoring mangroves to protect 12 coastal villages from erosion while simultaneously improving the productivity of fisheries, crops and livestock.

What these and countless other projects illustrate is that we do not need remarkable innovation or great sacrifice to move things forward. We just need to allow a tiny fraction of our collective attention and wealth (perhaps less than 1% of global GDP) to flow towards these rural land stewards, supporting their ongoing efforts. Cumulatively, they result in hundreds of millions of tons of C02 captured – but that is only the beginning of their potential impact.

The more degraded nature becomes, the more desperately we need it. When nature starts to bounce back, it doesn’t only provide livelihoods, food security and carbon storage; it revives the hope, joy and inspiration that our species so desperately needs at this critical moment in time. Though they might seem beside the point, these emotional reactions are the lifeblood of nature restoration, with the potential to generate their own feedback loops, far into the future.

Prof Thomas Crowther is an ecologist and author of Nature’s Echo (Torva). He is Founder of Restor.eco, a non-profit platform for nature restoration sites

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Já ouviu falar do Síndrome da Referência Móvel - Shifting Baseline Syndrome?



Do you suffer from Shifting Baseline Syndrome (SBS)? Well, the answer is that everyone probably does. While SBS is not an actual medical condition, it has been gaining traction across environmental disciplines, as well as featuring in modern environmental literature, as seen in Isabella Tree’s Wilding: The Return of Nature to a British Farm and George Monbiot’s Feral.

What is Shifting Baseline Syndrome?

Coined by Daniel Pauly in 1995, while speaking of increasing tolerance to fish stock declines over generations, SBS also has roots in psychology, where it is referred to as ‘environmental generational amnesia’. Simply put, Shifting Baseline Syndrome is ‘a gradual change in the accepted norms for the condition of the natural environment due to a lack of experience, memory and/or knowledge of its past condition’. In this sense, what we consider to be a healthy environment now, past generations would consider to be degraded, and what we judge to be degraded now, the next generation will consider to be healthy or ‘normal’. As Soga and Gaston (2018) argue, without memory, knowledge, or experience of past environmental conditions, current generations cannot perceive how much their environment has changed because they are comparing it to their own ‘normal’ baseline and not to historical baselines.

Evidence for Shifting Baseline Syndrome in Conservation
While Shifting Baseline Syndrome is acknowledged by environmental scientists, particularly by conservationists, there is little research to support its existence that is beyond anecdotal, yet this evidence occurs globally; for example, in Eastern Indonesia, where biodiversity has declined rapidly over 30 years, younger fishers were found to recall a lower abundance of wildlife in the past, meaning they were perceiving less of a decline in the wildlife population, compared to older fishers. Similarly, in the Bolivian Amazonia, it was found that younger generations perceived the number of locally-extinct tree and fish species as lower compared to older generations. Again, a study in the Seward Peninsula in Alaska, USA, an area that is facing rapid hydrological environmental change as a result of climate change, found that younger people were less aware of changes in the quality and availability of five local water resources. While these studies are not directly about SBS, they have each recorded a difference in how older and younger generations perceive environmental change locally, which draws back to Soga and Gaston’s framework, which emphasises the importance of differences in memory, knowledge, and experience.

Despite the lack of empirical evidence, Shifting Baseline Syndrome is being given attention, perhaps because it has implications for individuals and environmental policy in fighting against climate change.

On an individual level, SBS has increased our tolerance to environmental degradation, including wildlife population decline, increased pollution and loss of natural habitats. This is because people will evaluate the severity of environmental degradation by referencing it back to their own cognitive baseline. In the UK, George Monbiot summarises the state of conservation, saying, “conservation in this country has become indistinguishable from destruction because what we’re conserving is an ecocidal system of sheep ranching. Sheep eat everything, and as a result, there’s no birds, no insects. We’ve lost almost everything, and yet we regard that as normal and natural.” In the UK people are actively conserving ecologically desolate ecosystems as they have no reference to past British wilderness.

At a societal level, this unawareness of past environmental conditions or current rates of degradation has implications for policymakers. For example, in the UK, the Environment Act of 1995 (the original legislation for National Parks was introduced in 1949) revised the legislation stating the statutory purpose for National Parks. Their main goal is to ‘conserve and enhance the natural beauty, wildlife and cultural heritage’. Those who introduced this legislation originally had a perception of ‘natural beauty, wildlife, and cultural heritage’, and so current National Park conservation practise is driven by a static perception, despite itself studying a subject of constant dynamism. When National Parks were originally established they were characterised by traditional agriculture. While this may seem insignificant the inclusion of ‘cultural heritage’ protects agriculture as part of the landscape, despite its environmental impact. Therefore the conservation approach in these areas can be described as unambitious as they maintain what is simply there or set targets that are not inclusive of historical data and trends. However, people are satisfied because the landscape looks the same as when the legislation was introduced.

Thus, our conservation and policy efforts are becoming less effective with each generation, while we become more satisfied with our diminishing actions because our targets are weaker in terms of biodiversity and habitat heterogeneity. The result is a feedback loop, where every generation’s increasing tolerance for environmental decline results in insufficient conservation efforts that inevitably cannot forestall degradation which next generations will tolerate because they have no preconception of the state of the environment.

Despite the ‘doom and gloom’, Soga and Gaston have designed theoretical response frameworks that could help mitigate the effects of SBS. They argue that solutions to minimise the impact of SBS lie in environmental restoration, increased data collection, reducing the ‘extinction of experience’ (the decline of people interacting with nature) and education.

Environmental restoration, mainly in the form of rewilding, will be able to demonstrate historical baselines to those who are potentially affected by SBS. Data collection will help to better inform current and future generations how the environment is changing and has changed from past conditions. Soga and Gaston suggest that citizen science could play a huge role in creating ‘large-scale, long-term data sets’ as well as increasing people’s interactions with nature to reduce this extinction of experience. In addition to this, reducing the extinction of experience through the promotion of positive experiences with nature will help to increase interaction with the environment. Finally, education will help individuals to better assess the state of the environment and to accurately communicate its past and present condition.

Thus, even while we wait for the scientific study of Shifting Baseline Syndrome to begin, the acknowledgement of this concept in environmental science means that leaders in the field could take steps to help mitigate its potential effects. Soga and Gatson’s solutions, specifically rewilding and education, could increase people’s interactions with nature and promote the importance of effective conservation.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O legado ambiental de Ted Turner


Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


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World Bear Day

sábado, 7 de março de 2026

Forest restoration would reduce the risk of forest fires. Countries like Portugal stand to benefit greatly


Fern Forest campaigner Siim Kuresoo shares insights from a recent field-trip to meet with foresters, local leaders and community members in Portugal – a country that has increasingly experienced severe forest fires.

As European summers get hotter and drier, devastating forest fires are becoming the Portuguese norm, along with dramatic images of fast-moving flames, airplanes trying to quell them, and people fleeing for their lives.

The overriding impression is that this is what we need to expect in the era of climate change. But is there more to this story?

To find out, Anna Muizniece (she/her) and I spent a few days in northern Portugal meeting with experts to find out what’s happening: João Paulo Fidalgo Carvalho (forestry academic and head of Pro Silva Portugal); Miguel Ribeiro (a forestry and restoration officer at NGO Quercus); and Fernando Antunes Amaral (forest fire survivor and activist). We visited impacted areas and talked with people eager to prioritise community safety and resilience.

They taught us much about the history of the problem, including that this is not a naturally occurring problem. The fires are heightened by the eucalyptus plantations that have been expanding for more than half a century, taking over land as rural abandonment grows and agricultural patterns change. Such plantations provide raw material for the mighty pulp and paper industry, and money for landowners struggling to find a purpose for their land.

But the social and environmental costs are enormous
Portugal’s natural tree species form less flammable, more biodiverse and carbon-rich ecosystems able to provide higher long-term economic returns for the landowner, but shifting to continuous cover forestry takes work, and the financial rewards aren’t immediate.

Nonetheless, some municipalities and communities are taking on the hard work and financial burden, despite receiving little of the external support they need, like funding and technical advice. And while the EU is helping by coordinating emergency help to put out fires, it would be cheaper in the long run for EU funds to help prevent the fires from happening in the first place. The Nature Restoration Regulation (NRR) explicitly requires Portugal to support the transition away from eucalyptus and EU funds could initiate a systemic change in land use.

But change will not happen while the pulp industry dominates policy and resource allocation. Funds from the Common Agricultural Policy must not be used to subsidise an industry determined to put production of short-lived products above people's safety.

EU funds must prioritise ambitious National Restoration Plans.
Doing so would support the inspiring people we met on our journey such as José and Joaquim, the former and current mayor of the local municipality of Bragança. Despite being fierce political opponents, they both take huge pride in the region’s forest restoration and share smiles when discussing turning a eucalyptus plantation into an oak forest. O Sr. Sergio, from Talhadas village, who responded to a big fire in 2024 by organising the community to restore natural forests. He doesn’t mind long working days but is increasingly worried about being seen as an enemy by the pulp industry and its powerful friends, and what this means in terms of obstacles to his mission.

So there is more to the story of Portugal’s fires. The very landscape has become a danger to its inhabitants because of one powerful industry, and because of the perverse use of funds to support this harmful type of forestry. But sadly, this is not just the case in Portugal. Similar stories are occurring across the EU, as revealed by Metodi Sotirov’s recent study Funding resilient forests: Rethinking EU and State subsidies. We still have time to implement the changes he recommends, but do we have the political will?

quarta-feira, 4 de março de 2026

Estudo liderado por investigadores do TERRA revela que mais de 94% dos rios europeus precisam de restauro ecológico


Foi hoje publicado na revista científica Global Change Biology um novo artigo científico liderado por investigadores do Laboratório Associado TERRA – Laboratório para a Sustentabilidade do Uso da Terra e dos Serviços de Ecossistemas – que mapeia, pela primeira vez à escala europeia, as necessidades de restauro dos ecossistemas de água doce.

Os resultados revelam um cenário preocupante pois menos de 5% das unidades fluviais analisadas cumprem simultaneamente os objetivos das duas principais diretivas ambientais europeias — a Diretiva Habitats e a Diretiva-Quadro da Água.

De acordo com o estudo, cerca de 89% das áreas analisadas apresentam habitats de água doce em estado de conservação desfavorável, mais de 55% apresentam espécies em estado de conservação desfavorável e aproximadamente 46% não atingem o “Bom Estado Ecológico” exigido pela legislação europeia da água. No total, mais de 94% das unidades fluviais europeias revelam necessidades de restauro associadas a pelo menos uma das diretivas.

Uma abordagem inovadora para apoiar políticas públicas
Para chegar a estes resultados, a equipa utilizou uma unidade de análise espacial — as River Restoration Units (R2U) (em português, Unidades de Restauro para Rios) — que permite integrar dados de biodiversidade e qualidade ecológica à escala da rede hidrográfica europeia, respeitando a estrutura funcional dos rios.

Esta abordagem permitiu harmonizar informação proveniente de diferentes fontes oficiais e identificar padrões espaciais claros de degradação, incluindo um gradiente europeu em que os habitats apresentam maior degradação, seguidos das espécies e, por fim, do funcionamento ecológico avaliado pela Diretiva-Quadro da Água.

Segundo os autores, este padrão pode refletir um processo sequencial: a degradação de habitats antecede a perda de biodiversidade, que por sua vez pode conduzir, com atraso temporal, à perda de estabilidade e funcionamento dos ecossistemas — um fenómeno descrito na literatura como “dívida de extinção” e “dívida de estabilidade”.

 Implicações para a nova Lei do Restauro da Natureza
Os resultados surgem num momento crucial para a política ambiental europeia, com a entrada em vigor do novo Regulamento Europeu do Restauro da Natureza.

Este estudo fornece uma base científica sólida de apoio à implementação desta legislação, identificando de forma explícita à escala europeia onde as necessidades de restauro são mais urgentes e onde a ação pode gerar maiores benefícios ecológicos.

Os investigadores sublinham que, apesar de décadas de políticas ambientais, a degradação dos ecossistemas de água doce continua generalizada na Europa. No entanto, destacam que existe uma janela de oportunidade: uma implementação ambiciosa e coerente das políticas de restauro poderá travar a acumulação da “dívida ecológica” e inverter as trajetórias atuais de perda de biodiversidade.

O estudo, intitulado “Europe’s Ecological Debt: Mapping Freshwater Restoration Needs”, foi coordenado por investigadores do Centro de Estudos Florestais (CEF), da Universidade de Lisboa, e membros do Laboratório Associado TERRA, e envolveu uma equipa internacional de cientistas de Portugal, Áustria, Dinamarca e Alemanha.[Fonte]

terça-feira, 3 de março de 2026

Shifting baseline syndrome key to growing nature disconnect


Not long ago, summer in the Pacific Northwest felt seasonal. Campfires were the norm, free from bans and fears of sparking catastrophic blazes. Windshield fluid had to be replenished after a long road trip — especially on rural highways or backcountry roads. We were lucky to get a week or two of hot weather.

Now, with drought alerts, heat and fire warnings and eerily fewer insects buzzing around the road, summer feels terminal. Many of us are old enough to be amazed at how quickly “normal” environmental conditions can change. Many of us are young enough to have never known anything different.

This latter inability to recognize the true scope of environmental change is a widespread phenomenon, called “shifting baseline syndrome.” Shifting baseline syndrome is “a socio-psychological phenomenon in which historical environmental information is lost over time and people do not notice changes in biological systems.” This concept was first coined by Daniel Pauly, a marine biologist at the University of British Columbia. In 1995, he observed that fisheries scientists evaluated changes in fish stock size and composition using the quantities at the beginning of their careers as a reference. With the next generation of fishers, fish stocks typically declined. However, each generation of scientists saw this degraded state as the new baseline, as there was, and still is, a lack of knowledge transfer between fishers. Without the passage of knowledge of environmental conditions, understanding of the magnitude of environmental change is lost. This ultimately shifts the condition’s “baseline,” which continues with each generation.

Shifting baseline syndrome is mainly linked to a lack of experience, memory and knowledge of historic conditions, typically caused by a lack of intergenerational communication about past environmental conditions and historical information. Studies have shown that older generations more readily recall accurate past environmental conditions compared to younger generations, indicating a “generational amnesia.” This gap between generations is happening through three avenues: lack of awareness or difficulties in accessing historical environmental data, lack of familiarity and knowledge of natural history and declining interactions between people and the environment. This last avenue is partly caused by increased urbanization, with fewer opportunities to interact with the environment, and partly because people are more inclined to go on social media or the internet instead of spending time in nature.

Why does it matter? 
Shifting baseline syndrome is increasingly recognized as a significant barrier to implementing policies and actions that could address some of today’s environmental challenges, because we misinterpret the scale and impact of change over time. When more experienced, older fishers fail to share their expertise and stories, newer fishers often accept the present ecosystem state without question. This can lead to less-effective measures being taken to address collapsing fish stocks because the resource decline was not recognized. This tolerance of degraded environments is one of many consequences of shifting baseline syndrome. When society gets used to a degraded environment as the baseline, further degradation will not be seen as something to be concerned about. With this generational amnesia and society’s decreasing contact with nature, we may see inappropriate conservation, restoration and management targets by policy-makers and stakeholders, and pushback against necessary conservation and restoration efforts. Even more concerning is the loss of public support for conservation measures such as the establishment of terrestrial and marine protected areas, which would go some way to halting environmental loss.

Shifting baseline syndrome is difficult to combat because it acts as an accelerating feedback loop. Trying to reduce its effects would take four strategies, suggested by researchers. The most direct action would be environmental restoration, specifically through rewilding efforts. As environmental degradation accelerates, this is of utmost importance to protect biodiversity. Second is to gather more high quality and consistent environmental data. This gives future researchers and scientists an actual, holistic baseline and makes them more informed regarding environmental conservation efforts they partake in. Furthermore, the broader public should be encouraged to increase interactions with nature to gain a better understanding and relationship with the environment. Finally, through public education, we can increase people’s familiarity with nature while also providing more accurate information on historic and current environmental conditions. Indigenous knowledge is crucial to limiting the syndrome’s effects, as it pushes forward the lived experiences of communities that recognize historic baseline conditions. In this way, sharing Indigenous knowledge is a remedy against generational amnesia.

Shifting baseline syndrome has been fuelled by the lack of connection that people have with one another and between people and the environment. In the article “Integrating historical sources for long-term ecological knowledge and biodiversity conservation,” the researchers highlight the value of historical data sources for providing a baseline for species and ecosystem change over time. Since beginning this initiative, we have pored over historical images and maps and read accounts of voyages from the 1800s describing vast schools of dolphins and porpoises playing about ships and a sea that abounds with fish. How much we have lost! Over the month of March, we will compare historical records with present-day imagery and historical storytelling to represent generational change. We hope that through our exploration of shifting baseline syndrome, we can encourage communities to reflect on changes they’ve observed and encourage action and advocacy for increased environmental protection, so that we can begin to halt biodiversity decline.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Documentário - Côa Mais Selvagem (Wilder Côa)


O lado mais selvagem de Portugal. A premissa não podia ser melhor. O documentário de natureza “Côa Mais Selvagem” dá exatamente a conhecer o lado mais selvagem de Portugal que é esta região do Grande Vale do Côa. 

Acompanhe a entusiasmante viagem do rio Côa, que corre de sul para norte, surpreenda-se com as suas paisagens de perder de vista, conheça a vida selvagem que o rodeia e que a ele está a regressar, e saiba como a Rewilding Portugal está a renaturalizar todo este grande corredor de vida selvagem nos últimos cinco anos. Uma paisagem onde os processos naturais são repostos, o ciclo da vida volta a estar completo e funcional e onde pessoas e vida selvagem coexistem de forma positiva e duradoura. 

Vencedor de vários prémios internacionais: Gold Medal in Wildlife Conservation (International Tourism Film Festival Africa 2025); 1st place in Green Movie (International Disaster Film Festival 2025); Best DOP Documentary (Fest5 International Film Festival 2025) and Best Wildlife Documentary (Xposure International Photography Film Awards).

Realizador: João Cosme
Produção: Fernando Teixeira | Rewilding Portugal 
Voz: Ana Varela 
Estúdio: Rádio Cova da Beira
Financiamento: Rewilding Europe, ELSP, LIFE - Comissão Europeia

domingo, 23 de novembro de 2025

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar

Hoje é Dia da Floresta Autóctone. Porém há poucos motivos para festejar. Se celebramos o “dia da floresta autóctone” com a imagem romântica de florestas antigas, biodiversas e protegidas, a realidade florestal em Portugal torna essa celebração algo ambígua: a maioria das florestas são plantações, privadas, de reflorestação e sem uma gestão unificada ou ecológica profunda.

Há mais motivos para preocupação (incêndios, gestão deficiente, fragmentação) do que para festejo triunfal de uma floresta “autóctone” bem conservada.                                                                      Embora haja sinais de progresso: os programas de reflorestação com espécies autóctones, a certificação e os relatórios recentes mostram que há algum movimento para melhorar a qualidade (não só a quantidade) da floresta.

Segundo o relatório FRA 2025 , estima-se para 2025 uma área florestal de 3,36 milhões de hectares, o que corresponde a cerca de 36,7% do território nacional. 

Isso representa um ligeiro aumento comparado a alguns momentos anteriores, embora haja incerteza: a estimativa baseia-se em tendências, já que o último IFN (Inventário Florestal Nacional) completo disponível é o IFN6, relativo a 2015. 

Por outro lado, a Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) 2023 aponta para uma percentagem de floresta de 31,8% do território continental, o que sugere uma diminuição — embora sejam metodologias diferentes (COS vs IFN). 

Mas os grandes desafios persistem:
1. A predominância de plantações (74% segundo FRA 2025) continua alta, o que significa que muito da floresta não é “autóctone original” nem está em estado natural antigo.

2. A fragmentação da propriedade, com muitos proprietários muito pequenos, limita a coordenação para a gestão sustentável ou preventiva (incêndios, biodiversidade, restauração).

3. A falta de planos de gestão em muitas áreas torna a floresta vulnerável: sem gestão sistemática, mesmo as iniciativas de reflorestação serão fragilizadas (manutenção, crescimento, proteção).

4. A privatização massiva torna difícil ao Estado impor metas de renaturalização ou conversão para espécies autóctones em larga escala, sem incentivos ou regulamentação forte.

5 .Segundo a avaliação da FAO (FRA 2025), cerca de 74% da floresta estimada para 2025 é floresta plantada (2,49 M ha), enquanto apenas ~26% é regeneração natural e menos de 1% é floresta primária (i.e., muito antiga / original). 

Isso reforça a ideia de que, mesmo que muitas formações sejam “autóctones” (espécies locais), grande parte da floresta é resultado de plantações (muito geridas, monoculturas de eucalipto e de Pinus), não remanescentes naturais primários.

6. Propriedade florestal
Continua a haver elevada percentagem de floresta privada: fontes da PEFC afirmam que 84% da floresta é de propriedade privada. 
Segundo o FRA 2025 citado por Florestas , mais de 92% da floresta portuguesa é privada (dado de 2020 usado como base). Só cerca de 2% da floresta é de domínio público (Estado).

A pequena propriedade é ainda muito comum: por exemplo, segundo o ECO, a área média por propriedade florestal em Portugal é de apenas 0,57 hectares, o que dificulta a gestão integrada. 

7. Gestão florestal / planos de gestão
Portugal tem uma das menores percentagens de floresta com plano de gestão de longo prazo na UE. 
Isso significa que, mesmo com propriedade privada dominante, nem toda a floresta é eficazmente “gerida” para prevenir riscos como incêndios, de modo coordenado.

8. Certificação florestal
Quanto à floresta plantada certificada (PEFC), há cerca de 248 mil hectares certificados em Portugal no final de 2022. 
Isso mostra um esforço de parte dos proprietários para uma gestão mais “sustentável” (no sentido de certificação), mas esse número é apenas uma fração da floresta total privada.

9. Incêndios e resiliência da floresta autóctone
Monoculturas de eucaliptos (o eucalipto ocupa cerca de 26,2% da área florestal segundo o PEFC)  e de Pinus, os matos, o desconhecimento das demarcações de territórios rústicos, com muitos proprietários muito pequenos e a falta de limpezas,  continuam a ser um fator crítico.

A solução não está em plantar mais árvores — está em gerir melhor
Plantámos muito nas últimas décadas.
O problema é o que acontece depois: falta manutenção; falta continuidade ecológica, falta criação de solos saudáveis, falta acompanhamento de 3, 5 ou 10 anos, falta gestão para reduzir o risco de incêndio.
O país troca sistematicamente a restauração ecológica por “eventos de plantação”.
É o equivalente florestal às “selfies de voluntariado”.

O que fazer então?
Aqui está um caminho realista — e urgente.
1. Agrupar a gestão da pequena propriedade ZIF, AIGP, condomínios rurais — chamem-lhe o que quiserem. Sem gestão conjunta, nada funciona. Só assim se consegue escala para limpar, planear, prevenir e restaurar.

2. Incentivos sérios para gestão a longo prazo
Precisamos de financiamentos que mantenham a floresta viva, não só plantada: fundo nacional de manutenção, contratos de 5–7 anos para gestão ativa, apoio à condução de povoamentos e criação de descontinuidades.

3. Restaurar floresta autóctone verdadeira
Não basta escolher espécies nativas.
É preciso: restaurar linhas de água, proteger solos, criar bosques contínuos, ligar manchas de habitats, aumentar a idade média da floresta.
A natureza não se reconstrói com eventos: constrói-se com décadas de persistência.

4. Reequilibrar o modelo das plantações industriais
Não se trata de eliminar o eucalipto — mas de o domar: limitar onde pode ser plantado, impedir a continuidade total, obrigar a mosaicos com espécies nativas.

5. Reforçar fiscalização e meios
Uma lei sem fiscalização é só poesia jurídica.
É preciso garantir: cumprimento de planos, gestão mínima obrigatória, controlo de novas plantações ilegais, eliminação de invasoras, recrutar mais técnicos e vigilantes da natureza e criar melhores incentivos 

6. A sociedade civil também tem um papel crucial
Exigir políticas públicas com base em dados, não slogans.
Apoiar projetos de restauração que fazem manutenção, não apenas plantação simbólica.
Aumentar a literacia ecológica (saber distinguir floresta de matagal e de plantação).
Um país que não entende o que é a sua floresta não pode defendê-la.

Conclusão: Celebrar menos, transformar mais
Em vez de celebrar uma floresta autóctone que quase não existe,
talvez seja tempo de trabalhar para que ela exista realmente.
A boa notícia?
Há conhecimento, há técnicos, há soluções e há vontade local.
O que falta é coragem política, coordenação e persistência.
Se queremos que o “Dia da Floresta Autóctone” deixe de ser simbólico e passe a ser real, então é preciso fazer o que nunca fizemos: gerir o território como um todo, com ciência, escala e visão ecológica.
Porque a floresta não precisa de aplausos — precisa de cuidado e de uma política florestal de médio e longo prazo.

Saber mais:

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Serão as agências de classificação do carbono a chave para evitar o greenwashing?


Com a União Europeia a retomar a utilização de créditos de carbono como um mecanismo para ajudar as indústrias e empresas europeias a compensar as suas emissões de gases com efeito de estufa, a Euronews falou com Sebastien Cross, cofundador e diretor de inovação da agência de classificação de carbono BeZero Carbon, sediada em Londres.

Fundada em 2020, a agência tem como principal função avaliar os créditos de carbono e analisar a probabilidade de estes compensarem uma tonelada de carbono, um método análogo à forma como as agências de notação financeira avaliam a probabilidade de incumprimento de obrigações e instrumentos financeiros.

"O que fazemos como agência de notação é avaliar os créditos", disse Cross. "Não fornecemos as metodologias, não acreditamos. Analisamos os créditos e dizemos qual é a probabilidade de estes créditos refletirem efetivamente uma tonelada de carbono emitida, o que todos eles são rotulados como fazendo".

O mercado de carbono da UE27, o Regime de Comércio de Licenças de Emissão (CELE) permite às empresas europeias comprar e vender licenças para cobrir as suas emissões. Até 2020, o bloco utilizou créditos de carbono, então conhecidos como créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitiam às nações mais ricas ganhar créditos investindo em projetos sustentáveis nos países em desenvolvimento.

A utilização dos MDL foi abandonada na sequência de acusações de "greenwashing", de crédito excessivo e de desvio dos esforços genuínos de redução das emissões a nível interno. No entanto, com o advento da lei da UE relativa ao objetivo climático para 2040, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 90%, o bloco está novamente a considerar a utilização de créditos de carbono internacionais para reduzir 5% das suas emissões.

Mercados de carbono em maturação
O cofundador da agência BeZero afirmou que os governos que utilizam classificações estão a procurar ajuda para avaliar a credibilidade dos créditos que estão a adquirir ao abrigo do artigo 6.

"Vimos o interesse dos governos em usar as classificações como uma ferramenta enquanto procuram projetar como desejam usar os créditos de carbono em seus sistemas de conformidade", disse ele. "Obviamente, as discussões na UE são muito interessantes nessa perspetiva".

Cross observou que muita coisa mudou nos últimos cinco anos, incluindo a mentalidade sobre o risco e o desempenho real dos créditos de carbono.

"A agência de notação está a fornecer aos compradores e investidores uma medida de risco que lhes permite compreender a dinâmica subjacente real", afirmou, referindo que há cinco anos os mercados de carbono não tinham qualquer métrica de risco associada.

Cross afirmou que os mercados de carbono estão a tornar-se mais maduros, o que considerou um desenvolvimento positivo, dada a crescente atenção política aos créditos de carbono e ao seu papel na descarbonização.

A UE, o Brasil, a China, a França, a Alemanha e o Reino Unido, entre outros, aprovaram recentemente um compromisso global para os mercados de carbono, à margem da cimeira sobre o clima COP30. Esta iniciativa assinala uma ampla intenção de desenvolver mecanismos de fixação de preços do carbono e um mercado mundial do carbono.

Os créditos de carbono são emitidos em dois sistemas distintos: o mercado de cumprimento e o mercado voluntário.

Os governos gerem o mercado de conformidade, no qual certas empresas têm de comprar licenças oficiais que lhes permitem libertar uma determinada quantidade de CO2 ao abrigo de leis e limites rigorosos.

O mercado voluntário, por sua vez, permite às empresas comprar créditos de projetos ambientais, como a proteção das florestas ou a energia limpa, para reduzir a sua pegada de carbono.

No entanto, como explicou Cross, com a UE aberta a incluir os créditos de carbono como instrumento de descarbonização e a integrar o artigo 6.º do Acordo de Paris nos seus objetivos, será a UE ou os Estados-membros a fixarem o preço dos créditos.

"Precisamos de preços de carbono mais elevados para manter o incentivo à descarbonização", afirmou Cross. "E a preocupação é que, se os créditos forem permitidos no estrangeiro, o preço do carbono é reduzido, o que não incentiva as empresas a investir nas coisas necessárias para descarbonizar a nível nacional".

Também partilhou preocupações sobre as implicações da integração de créditos de carbono no CELE, uma vez que a UE27 está atualmente a ponderar a inclusão de remoções permanentes de carbono no seu âmbito.

"Existe um risco percetível de que isso reduza o preço do CELE, uma vez que os créditos serão mais baratos", disse Cross.

O problema da validação
Num sistema de crédito de carbono, os países ou empresas que emitem mais gases com efeito de estufa têm de comprar mais licenças de crédito. Caso emitam menos emissões, podem vendê-las, criando assim um sistema de comércio de licenças.

"O crédito de carbono considera uma atividade, ou melhor, uma intervenção, que está a reduzir ou a remover carbono e tenta creditar o carbono que foi reduzido ou removido", explicou Cross.

Estas intervenções podem ser baseadas na natureza, como a florestação e a proteção de mangais e turfeiras, ou não baseadas na natureza, como a utilização de tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

"No que respeita às intervenções não baseadas na natureza, temos tido historicamente muitos créditos de energias renováveis. Se os créditos se referem ao facto de a energia marginal que produzimos ser proveniente de energias renováveis e não da rede, estamos a reduzir a intensidade de carbono", afirmou Cross.

Sempre que os créditos de carbono são emitidos, as empresas que os utilizam são obrigadas a tornar pública uma determinada quantidade de informação.

"Quando analisamos projetos emitidos, podemos começar com a informação disponível ao público. Depois, contactamos o promotor ou o proprietário do projeto se algumas informações não forem claras, precisarem de ser clarificadas ou estiverem em falta", explicou Cross.

"O papel da agência de notação é fornecer o máximo de informação e dados que pudermos para questionar a exatidão desses números. E isso reflete-se depois na nossa classificação principal".

Desempenho dos créditos de carbono
Cross disse à Euronews que existe uma variação considerável entre a eficácia dos diferentes créditos de carbono e que avaliar o seu verdadeiro desempenho é muitas vezes impossível.

"Não se pode observar exatamente o que estão a conseguir porque existem fatores como as linhas de base contrafactuais, em que não se pode observar, apenas se tenta estimar", disse. "Nunca há dados perfeitos por trás do número de créditos que são emitidos".

No caso da captura direta de dióxido de carbono da atmosfera, por exemplo, existe muita informação disponível para avaliação, porque os sistemas tecnológicos determinarão a quantidade de carbono que está a ser separada de outros componentes do ar e transportada. No entanto, ainda é necessário determinar um valor de referência para avaliar o impacto que estes esforços estão realmente a ter.

"É a parte mais controversa de um projeto de crédito de carbono - tentar perceber o que teria acontecido se o projeto não fosse para a frente - porque é isso que é preciso creditar entre essas duas linhas", disse Cross.

Esta é uma das razões pelas quais a UE teve dificuldades com a integração do MDL, explicou, porque vários projectos alegaram falsamente que estavam a fazer algo que levaria a evitar um certo número de emissões.

"A principal diferença agora é a disponibilidade de ferramentas como as nossas, que permitem compreender realmente o que está a ser alcançado ao nível do projeto", acrescentou, referindo-se a imagens de satélite e tecnologias mais avançadas do que qualquer outra disponível anteriormente.

sábado, 15 de novembro de 2025

Há alternativas ao eucalipto? Sim, há - exige uma mudança hercúlea de paradigma de floresta portuguesa


Ponto Prévio - Os bosques maduros são florestas antigas, ricas em biodiversidade especializada, mas extremamente raras em Portugal. Estes ambientes representam manchas cada vez mais escassas no território, resultado de séculos de exploração, degradação e fragmentação.

Vamos à análise
Pinheiro (Pinus, sp.) e Eucalitpto são lixo florestal! Um lixo florestal, pois endivida os pequenos proprietários e só crescem acácias depois dos incêndios. Há que haver uma política ecológica forte e interdisciplinar para restaurar a nossa floresta nativa, também rica em fibras para celulose, mas com crescimento mais lento. 

1.Na região Norte e Centro sugiro Choupo/álamo (Populus spp.)- porém a cadeia industrial em Portugal ainda está pouco desenvolvida e Bétula (Betula alba)

2. Outras árvores autóctones 
2.1..Medronheiro (Arbutus unedo)
Resiste bem ao fogo e rebenta vigorosamente.
Pode gerar rendimento pela produção de fruto.
2.2. Loureiro, amieiro, freixo, salgueiro
Adequados a zonas húmidas e linhas de água.
Muito úteis na restauração de ecossistemas.

3. Alternativas para sistemas agroflorestais / multifuncionais
3.1. Castanheiro + pastoreio
Elevado valor económico.
Melhora solos.
3.2. Olival ou nogueira combinados com floresta
Produção alimentar + proteção paisagística.
3.3. Sistemas silvopastoris com sobro ou azinheira
Produção de cortiça + sombra para gado. 

4. Reciclagem - contribuidor em ascensão
Portugal tem boa taxa de reciclagem, mas ainda expandível. Associação de Empresas de Resíduos alerta para a situação crítica dos aterros
Reduz significativamente a necessidade de pasta virgem.
Adequado para papel de impressão, embalagem e papel tissue (com mistura).

Sim, há um estudo da Wildforests que diz que o eucaliptal não é um deserto ecológico. Porém, salvaguardam que a diversidade e os padrões de vida das espécies animais em florestas plantadas para produção de madeira é ainda um assunto pouco estudado. Contribuir para este conhecimento foi um dos objetivos que levou a The Navigator Company a disponibilizar as suas propriedades para que o trabalho de campo do projeto WildForests pudesse ser realizado.

Antes do arranque deste projeto, a empresa já tinha identificado vários destes mamíferos nas propriedades que gere e já realizava algumas destas boas práticas, estando a integrar, caso a caso, outras recomendações emanadas do WildForest. A manutenção de pequenas manchas de vegetação nativa nas plantações, assim como de afloramentos rochosos e de árvores que permitem criar corredores ecológicos, contínuos ou descontínuos (stepping stones) são alguns exemplos. De resto, todo o projeto permite saber mais sobre as espécies presentes em eucaliptais e sobre as práticas que a favorecem, ajudando a The Navigator Company a tomar as melhores opções de gestão florestal a integrá-las na sua estratégia de conservação da biodiversidade.

Artigo científico aqui

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

E.O.Wison e a renaturalização

"There can be no purpose more enspiriting than to begin the age of restoration, reweaving the wondrous diversity of life that still surrounds us." We have ancient and new born trees, according to old registrations.
A walk in our preserved forest makes us feel quite proud, and it's all thanks to nature. Finally : the true meaning of life is to plant native trees, under whose shade you do not expect to sit. Hope our legacy will continue for next generations!

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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Contra a extinção do ICNF


A anunciada intenção do Governo de extinguir o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), redistribuindo as suas competências pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e pelas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), representa um retrocesso preocupante na política de conservação da natureza.

A conservação da natureza exige uma visão estratégica que ultrapasse fronteiras administrativas e compromissos limitados a cada região. A biodiversidade e os ecossistemas não obedecem a fronteiras locais. Integram um património comum cuja proteção decorre em grande medida de responsabilidades assumidas por Portugal no quadro europeu e internacional, incluindo a Estratégia da Biodiversidade 2030 e o Pacto Ecológico Europeu, bem como as obrigações decorrentes da Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU e dos seus Acordos de Kunming-Montreal sobre o Quadro Global da Biodiversidade 2030. Gerir espécies e ecossistemas protegidos apenas a nível regional é abdicar da coerência científica e política necessária para cumprir estas obrigações partilhadas. É indispensável existir uma instituição da administração central do Estado com uma visão nacional, e supra-nacional, da conservação da natureza para garantir a salvaguarda de espécies e habitats que, embora abundantes localmente, são raros e estratégicos no contexto nacional, europeu e global.

O ICNF, apesar das suas limitações operacionais e orçamentais, é a única entidade pública com uma visão nacional das prioridades de conservação da natureza, capacidade técnica e científica para gerir áreas protegidas, conservar habitats e espécies, e promover uma silvicultura sustentável. A sua extinção não resolve os problemas que enfrenta – pelo contrário, agrava-os, fragmentando competências e diluindo responsabilidades. É fundamental a administração central do Estado manter esta capacidade técnica e esta visão nacional, e a salvaguarda dos interesses de Portugal nas negociações internacionais neste domínio.

A APA tem outra vocação e um foco principal na gestão da água, na defesa do clima e atmosfera, e na monitorização e licenciamento ambientais, enquanto as CCDR são estruturas político-administrativas regionais, com missões de desenvolvimento territorial que frequentemente conflituam com os imperativos da conservação da natureza.

Mais grave ainda é o risco de politização. O ICNF, apesar de ser um instituto público, tem mantido uma relativa autonomia técnica, essencial para resistir a pressões locais, políticas e de interesses económicos. Ao colocar a gestão da natureza nas mãos de estruturas regionais, mais expostas a lógicas de proximidade, e com uma visão parcelar do território nacional, abre-se a porta à erosão dos critérios científicos e visão integrada que devem nortear a proteção ambiental. É uma medida que descredibilizará o país e poderá colocar em risco financiamento europeu.

Pensemos no exemplo de uma espécie protegida – o sobreiro. O montado de sobro cobre cerca de 30% da região do Alentejo, menos de 10% do território nacional e menos de 0,5% do território da União Europeia. Tendo a CCDR Alentejo por missão desenvolver a sua região, poderá este organismo regional ter a mesma independência e sensibilidade que o ICNF para avaliar a relevância do abate de sobreiros para se construir uma estrada, um empreendimento turístico, um data centre ou uma exploração agrícola intensiva? É evidente que não, dados os conflitos de interesses a que estará exposta.

Reformar o ICNF, tornando-o mais eficiente, reforçando a sua presença no território e melhorando a sua articulação com outras entidades, faz todo o sentido. Extinguir este instituto é abdicar de uma visão integrada da conservação da natureza, substituindo-a por uma abordagem dispersa, vulnerável e, em última instância, menos eficaz. A natureza e os serviços dos ecossistemas, essenciais a vida humana neste planeta, não se defendem com estruturas administrativas fragmentadas. Defende-se com instituições fortes, tecnicamente capazes, independentes e comprometidas com o interesse público. O ICNF, com todos os seus defeitos, é uma dessas instituições. Extingui-lo, ou reduzi-lo a um departamento da APA, será um erro histórico.

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