Mostrar mensagens com a etiqueta Punk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Punk. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ramones - We’re A Happy Family

Melho som aqui
Letra
[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy (2X)

[Chorus 2]
Sitting here in Queens
Eating re-fried beans
We're in all the magazines
Gulpin' down Thorazines
We ain't got no friends
Our troubles never end
No Christmas cards to send
Daddy likes men

[Verse]
Daddy's telling lies
Baby's eating flies
Mommy's on pills
Baby's got the chills
I'm friends with the president
I'm friends with the pope
We're all making a fortune
Selling Daddy's dope

[Chorus 2]

[Chorus 1]
We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, Mom and Daddy

Lançada em 1977 no aclamado álbum Rocket to Russia, a canção "We’re A Happy Family" dos Ramones é uma das obras mais emblemáticas do punk rock norte-americano. Oriunda de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, a banda imortalizou-se através de um estilo musical caracterizado pela velocidade avassaladora do punk, enraizado no garage rock e enriquecido com melodias orelhudas inspiradas no bubblegum pop dos anos 60.

O Sonho Americano em estilhaços
O significado da canção reside numa sátira profundamente corrosiva ao ideal do American Way of Life e ao mito da família suburbana impecável, exaustivamente vendido pelos meios de comunicação da época. A letra pinta o retrato de um lar completamente disfuncional e caótico, no qual os membros negociam psicotrópicos ("sellin' Thorazine"), consomem comida enlatada de forma compulsiva e lidam com fobias, vícios e psicoses. O génio da composição reside no contraste irónico: quanto mais degradante e surreal se torna o quotidiano daquela casa, com maior insistência a família repete o refrão que assegura estarem todos felizes.

Uma música intemporal
A atemporalidade de "We’re A Happy Family" deve-se à persistência do fenómeno que crítica. Se nos anos 70 a farsa do bem-estar se concentrava nos postais ilustrados e nos comerciais de televisão, hoje encontra o seu eco perfeito na cultura de aparências e validação das redes sociais. Além disso, a opção por abordar a alienação social através do humor negro e de uma sonoridade simples e direta garantiu que a faixa mantivesse o seu frescor ao longo das décadas.

A nível de influências literárias e filosóficas, embora os Ramones mantivessem uma postura estritamente urbana e sem pretensões académicas, a faixa conecta-se diretamente com o Absurdismo e o Existencialismo de pensadores como Albert Camus, ao expor a futilidade de tentar manter convenções sociais num mundo sem sentido. Em termos literários, a canção alinha-se com a ficção satírica da contracultura norte-americana de autores como Kurt Vonnegut e William S. Burroughs, utilizando o bizarro e a paródia para desmantelar a hipocrisia da sociedade de consumo.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Documentário: The Tube (1984)


Em março de 1984, a jornalista musical britânica Muriel Gray visitou Berlim Ocidental para filmar um segmento para o programa musical pioneiro do Reino Unido, The Tube (ITV), guiada pelo músico britânico expatriado e representante da Factory Records, Mark Reeder.

O conteúdo: as filmagens documentaram a vibrante, isolada e caótica subcultura da Berlim Ocidental da Guerra Fria, apresentando entrevistas e cenas da cena musical alternativa, incluindo artistas como Blixa Bargeld.
O contexto: Esta viagem fez parte de um esforço mais amplo e de longo prazo de Reeder para documentar a "cidade-ilha" no início da década de 1980. Imagens dessa época, incluindo a visita de 1984, foram posteriormente incorporadas no documentário de 2015, B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989.
Atividade de 1984: por volta desta altura, Reeder estava a transformar a sua banda pós-punk Die Unbekannten (com Alistair Gray) no projeto Shark Vegas, de sonoridade mais eletrónica, pouco antes da digressão com os New Order.

Saber mais:
Iconic Underground
New Statesment
Post Punk

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Adam and The Ants - Stand And Deliver


Letra
I'm the dandy highwayman whon you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets
Well, I'm the dandy highwayman
The one you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets

Chorus:
Stand and deliver! Your money or your life!
Try and use a mirror, no bullet or a knife!
I don't let no lockdown, I don't let no door
I'm the dandy highwayman that you're looking for!

It's your money or your life
And if you tell a lie, you challenge me to die!
Even though you fool around with your fancy clothes
I'm the dandy highwayman who's looking for your nose!

(Chorus)

Qua qua da diddly qua qua da diddly
(Repeat)

Resultados desta canção com enorme sucesso em todo o mundo.

O Significado: A Estética como Arma de Assalto
O significado de "Stand and Deliver" assenta numa metáfora histórica brilhante para descrever a cena pop britânica do início dos anos 80. Adam Ant assume a personagem de um salteador de estrada (highwayman) do século XVIII, mas com um toque de "Dandy" — ou seja, um homem extremamente elegante e preocupado com a imagem.

A expressão que dá título à canção era o grito de guerra dos bandidos que assaltavam carruagens na Inglaterra antiga, equivalente ao nosso "Alto e para o baile!" ou "A bolsa ou a vida!". No entanto, Adam subverte este conceito: ele não quer apenas o teu dinheiro, ele quer a tua atenção e quer desafiar a monotonia da sociedade.

Quando ele canta "Try and use a mirror, no bullet or a knife" (Tenta usar um espelho, nada de bala ou faca), ele está a dizer que a verdadeira revolução daquela época não se fazia com violência, mas sim com a imagem e a identidade. Para o movimento New Romantic, a maquilhagem, as fardas militares históricas e os penteados extravagantes eram formas de rebeldia contra o cinzentismo do pós-punk.

Em suma, a música é um manifesto sobre o poder do estilo. Adam Ant apresenta-se como um "ladrão" que invade as tabelas de vendas e a televisão, forçando o público a olhar para ele. Ele usa a figura do salteador para mostrar que ser extravagante e "perigoso" visualmente era a forma mais eficaz de chocar o sistema naquela altura.

Adam Ant é o nome artístico de Stuart Leslie Goddard

Site

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Fokofpolisiekar - Ek Skyn(Heilig)


Te vinnigTe veelEk sal al my beloftes breek as jy my net 'n kans kan geeWie sal vir my liefde maak?Wie sal vir my liefde maak?As die somer so lekker is, hoekom voel ek so fucked?
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
GeliefdesOns weet'n Hond sal altyd na sy braaksel toe terugkeerMoenie so verbaas wees nieGooi net 'n bietjie vet op die vuurDoos siek en melancholies
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
Ek bly verveeldEn my bene is seerEk staan voor jou deurEn my kop klop
Genade onbeskryflik grootEk is die Hel inBibber en beef die boere bedriëerDie wêreld gaan jou haat, my seunAs jy die waarheid praat gaan hulle jou wil doodmaak
Ek skynEk skyn heiligOnder die straatligOnder die maanligSê vir my as die rewolusie verby is
Ek bly verveeldEn my bene is seerEk staan voor jou deurEn my kop klop

Curiosidade: O nome da banda traduz-se literalmente como "Fck Off Police Car" o que gerou muita controvérsia na África do Sul na época da sua formação em 2003.

A canção "Ek Skyn(Heilig)" é uma das obras mais profundas e críticas do Fokofpolisiekar. Para entender o seu significado, é preciso olhar para o trocadilho no título e para o contexto cultural da banda.

1. O Jogo de Palavras: "Ek Skyn(Heilig)"
O título é um trocadilho brilhante em língua africâner:

"Ek skyn": Significa "Eu brilho".

"Skynheilig": Significa "Hipócrita" (literalmente, alguém que "brilha como um santo" mas não o é).

Ao colocar o "Heilig" (Santo) entre parênteses, a banda sugere que, enquanto tentam "brilhar" ou ser autênticos, a sociedade ou a religião os rotula como hipócritas — ou vice-versa.

2. O Significado e Temas Principais
A letra é um desabafo contra as expectativas da sociedade conservadora sul-africana e a desilusão com a religião institucionalizada.

A Luta contra a Hipocrisia: A música critica as pessoas que mantêm uma aparência de santidade ("brilham") mas vivem vidas vazias ou julgadoras. A banda questiona as normas morais impostas pela geração anterior.

Crise de Identidade: O refrão explora a sensação de estar perdido. Eles cantam sobre não se sentirem em casa e sobre a dificuldade de encontrar a "luz" (verdade) num mundo cheio de falsidade.

Desespero Existencial: Há um tom de cansaço. A música pergunta se vale a pena tentar ser "bom" segundo os padrões de outros quando isso parece inalcançável ou falso.

3. Impacto Cultural
Lançada no álbum Swanesang (2006), esta música tornou-se um hino para a juventude africâner que se sentia alienada pela Igreja Reformada Holandesa e pelo peso histórico do Apartheid. A canção diz, essencialmente: "Eu prefiro admitir que sou imperfeito do que brilhar com uma santidade falsa."

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Budhi - Pax Americana


No dia 24 de Janeiro deste ano, passará 22 anos que os Budhi lançaram o seu disco Promo CD, editado e distribuído pela Editora Cobra, propriedade do Miguel Pedro e do António Rafael, elementos da famosa banda de rock alternativo bracarense Mão Morta.
Já em 2004 era preocupação o abuso de poder e interferência militar ou económica dos EUA na soberania de países no mundo.

Pax Americana

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Minha homenagem a Pam Hogg


Designer de moda, artista, DJ e música, mas mais do que isso, ícone da cultura visual britânica desde os anos 80, morreu esta quarta-feira a escocesa Pam Hogg, com um percurso marcado pela independência e por uma estética inspirada no punk e pós-punk, que atravessou a moda, a música, a boémia ou as artes visuais. No campo da música, para além de ter sido líder da banda Doll, vestiu imensa gente (de Lady GaGa a Rihanna, de Grace Jones a Beyoncé), tendo uma relação – profissional e pessoal – privilegiada com nomes tão diversos como Siouxsie Sioux, Debbie Harry, Björk, Duran Duran, Peaches, Chicks on Speed, Nick Cave ou Bobby Gillespie, inspirando várias movimentações, do pós-punk aos neo-românticos, passando pelo electroclash. Era também uma ativista. A sua última colecção, de 2024, focava-se nas questões ambientais e na Palestina. “É um mundo injusto e desigual este, por favor, usem a vossa voz, no presente, para o corrigir”, foi uma das suas derradeiras proclamações.

Saber mais

Site oficial

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Billy Bragg - Waiting for the Great Leap Forwards


“Waiting for the Great Leap Forwards”, lançada em 1988 por Billy Bragg, é uma canção que combina crítica política, autoironia e uma reflexão amarga sobre a relação entre ideais revolucionários e a realidade prática. Bragg desmonta, com humor e lucidez, a ideia do “grande salto em frente” — expressão historicamente ligada à retórica revolucionária — transformando-a numa metáfora para a promessa sempre adiada de mudança. A canção revela o cansaço e a frustração com a política institucional, mostrando como slogans, reformas e líderes que prometem transformação acabam frequentemente por reproduzir a mesma lógica de espera passiva. 

O artista não poupa ninguém, incluindo a si próprio: reconhece as contradições de ser um músico engajado que, ao mesmo tempo, depende da indústria cultural, e admite que até a rebeldia pode ser rapidamente transformada em mercadoria. 

Assim, critica a facilidade com que o mercado absorve e neutraliza o radicalismo, convertendo causas sociais em produtos de consumo. 

O humor é central à canção, não apenas como recurso estilístico, mas como arma política; serve para expor o absurdo da política-espetáculo e das ilusões utópicas embaladas em discursos grandiosos.

Apesar do tom cético, a música não capitula ao niilismo: permanece um fio de esperança, uma sugestão de que a verdadeira transformação não virá de um salto súbito, mas de uma prática constante de ação e questionamento. Em última análise, Bragg convida-nos a abandonar a espera pela mudança miraculosa e a encarar o processo político como algo construído no quotidiano — menos espetáculo, mais empenho real.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Sem distracções


Por Anabela Fino 
As palavras de ordem “Palestina Livre” e “Morte às IDF” foram proferidas pela dupla de punk rap Bob Vylan num concerto transmitido em directo pela BBC. Tornaram-se num assunto de Estado: Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, condenou o sucedido; a embaixada israelita denunciou a “retórica odiosa”; os EUA revogaram os vistos da banda; a United Talent Agency cancelou a sua representação do grupo; a BBC retirou a gravação do ar, emitiu uma declaração de desagravo e acabou com os directos; a polícia britânica iniciou uma investigação não se sabe a quê. A criminalização do activismo pró-Palestina e a identificação de crítica com anti-semitismo aumentam na razão directa da crescente impossibilidade de negar o genocídio. Criminoso é quem comete genocídio, não quem o denuncia.

«Hoje, muitas pessoas querem fazer-vos acreditar que uma banda punk é a ameaça número um à paz mundial. Não somos a história. Somos uma distracção da história. E quaisquer sanções que recebamos serão uma distracção. O governo não quer que perguntemos por que razão se mantém em silêncio perante esta atrocidade? Que perguntemos por que não fazem mais para parar a matança? Para alimentar os famintos?»

As palavras acima constam da declaração emitida pela dupla de punk rap Bob Vylan, na sequência do escarcéu suscitado pela sua condenação das IDF [Forças de Defesa de Israel], durante a actuação no palco West Holts do Festival de Glastonbury, a 28 de Junho. De forma certeira, a banda põe a nu a hipocrisia sem limites das chamadas democracias ocidentais no que respeita à questão da Palestina e a conivência com os crimes de Israel.

A criminalização do activismo pró-Palestina e a identificação de crítica com anti-semitismo aumentam na razão directa da crescente impossibilidade de negar o genocídio. Não há memória de os genocidas anunciarem tão claramente as suas intenções como faz Israel. Consulte-se a documentação apresentada pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça. Alguns exemplos: diz Benjamin Netanyahu que esta é «uma luta entre os filhos da luz e filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva»; «estamos a enfrentar monstros… Esta é uma batalha não apenas de Israel contra esses bárbaros, é uma batalha da civilização contra a barbárie».

O presidente Isaac Herzog, que escreve mensagens à mão nas bombas lançadas sobre Gaza, não destoa: «É uma nação inteira lá fora que é responsável … lutaremos até lhes quebrarmos a espinha»; «erradicaremos o mal para bem de toda a região e do mundo».

Os ministros fazem coro: «cerco completo a Gaza. Sem electricidade, sem comida, sem água, sem combustível. Tudo está fechado. Estamos a lutar contra animais humanos»; «são todos terroristas e devem ser destruídos».

EUA, NATO, UE aplaudem e apoiam o regime sionista, o terrorismo de Estado, a ocupação, o apartheid, o genocídio dos palestinianos, os assassinatos de estrangeiros, a invasão e ocupação de outros países. Criminosos, nesta versão distópica da “democracia”, são os que denunciam os crimes, os que não se calam, os que não se rendem. A ver se nos distraem do essencial. Em vão. Por cada um que cair, outro virá para empunhar a bandeira.

sábado, 28 de junho de 2025

Sex Pistols - Bodies


She was a girl from BirminghamShe just had an abortionShe was a case of insanityHer name was Pauline, she lived in a tree
She was a no-one who killed her babyShe sent her letters from the countryShe was an animalShe was a bloody disgrace
Body, I'm not an animalBody, I'm not an animal
Dragged on a table in a factoryIllegitimate place to beIn a packet in a lavatoryDie little baby screaming
Body, screaming, fucking, bloody messNot an animal, it's an abortion
Body I'm not an animalMummy, mummy, mummy, I'm an abortionThrobbing squirm, gurgling bloody mess
I'm not a dischargeI'm not a loss in proteinI'm not a throbbing squirm
Ah! Fuck this and fuck thatFuck it all the fuck out of the fucking bratShe don't wanna a baby that looks like thatI don't wanna a baby that looks like that
Body, I'm not an animalBody, an abortionBody, I'm not an animalBody, I'm not an animalAn animalI'm not an animalI'm not an animal, an animal, an-an-an animalI'm not a bodyI'm not an animal, an animal, an-an-an animalI'm not an animalMummy! Uh!

A Crítica Social e a Controvérsia em 'Bodies' dos Sex Pistols (1977)
A música 'Bodies' dos Sex Pistols é uma das mais controversas e provocativas do punk rock, refletindo a crítica social agressiva que caracteriza a banda. A letra narra a história de Pauline, uma adolescente que realizou um aborto e é descrita de maneira perturbadora e desumanizada. A repetição das frases 'I'm not an animal' e 'I'm not an abortion' sugere um grito de identidade e humanidade, questionando as visões sociais sobre o aborto e a marginalização de indivíduos.

O uso de linguagem explícita e imagens chocantes serve para chamar a atenção para as condições desumanas e a falta de empatia enfrentadas por pessoas como Pauline. A banda utiliza a música como um espelho crítico da sociedade, desafiando o ouvinte a refletir sobre temas de autonomia corporal, estigma social e a brutalidade com que certos temas são tratados. A abordagem direta e sem censura é típica do estilo punk dos Sex Pistols, que não temia abordar questões controversas de frente.

'Bodies' não é apenas uma música, mas um manifesto sobre a complexidade das escolhas pessoais e as consequências sociais que acompanham essas escolhas. Através de sua letra provocativa, os Sex Pistols convidam a uma reflexão sobre como a sociedade julga e trata os mais vulneráveis, especialmente em questões tão divisivas como o aborto. A música permanece um exemplo poderoso de como a arte pode ser usada para provocar discussão e mudança social.

Saber mais:

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Elogio ao Anarquismo

Foto: Derek Nas veias da terra corre o sonho,
Liberdade que nasce sem lei ou dono.
Nos ventos revoltos, semeia-se o grito,
O caos é arte, o controle, um mito.
Caminhos sem muros, sem cercas ou prisões,
A força do povo nas próprias mãos.
Não há tronos nem coroas de ouro,
Somos iguais, no chão ou no topo.
O poder dissolvido em cada olhar,
A palavra é livre, o medo é quebrar.
Não há quem governe, não há quem obedeça,
O mundo é de todos, sem realeza.
Eis o canto do espírito liberto,
Onde o futuro é sempre incerto.
Mas nas mãos unidas, na força do riso,
Construímos juntos o nosso paraíso.


sexta-feira, 22 de março de 2024

Música do BioTerra: Billy Morrison - Drowning


Let me paint the picture for all to see
You got a head full of lies, we all agree
The information don't make sense
Another motherfucker just sitting on the fence
Losing lives, would you throw in high-fives?
Please advise, don't compromise
Lay it down, for once, for real
Gotta get off of this spinning wheel
It's your atrocity

Drowning, I'm drowning
Look into my eyes
Feel the weight inside
Drowning, I'm drowning
Now I'm breathing all your lies

Another invitation to fuck things up
And now I'm sipping sheepish from a plastic cup
I got a 911 and I'm reeling
I don't understand this feeling
Gotta keep it going, baby, never stop
I gotta make my way to the highest rooftop
Another day with a different face
Yeah, I'm a fucking disgrace
It's your atrocity
My sweet monotony

Drowning, I'm drowning
Look into my eyes
Feel the weight inside
Drowning, I'm drowning
I'm going under

Drowning, I'm drowning
Look into my eyes
Feel the weight inside
Drowning, I'm drowning
Welcome to the masquerade
Let's have a big parade
I'm gonna drown again
We're gonna see the end
We're gonna drown again

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Patti Smith


Há norte-americanos fabulosos. Patti Smith é esse o exemplo. Tem poemas fabulosos e exploratórios. Apesar de Patti Smith nunca ter tido um disco certificado pela RIAA, apesar de ter lançado um único single que chegou ao Top 20, é reconhecida como uma das mais importantes e influentes artistas da história do rock. A revista Rolling Stone recentemente colocou-a no 47º lugar na sua lista dos cem maiores artistas de todos os tempos. 
Em 2012, Smith recebeu um doutorado honorário em belas artes do Pratt Institute.
Em 10 de Dezembro de 2016, Patti cantou "A Hard Rain's A-Gonna Fall" na cerimónia de entrega do Prémio Nobel a Bob Dylan (outro talentoso). 
Um novo festival em 2024 traz Patti Smith de volta a Portugal com Maria João e Camané e muitos outros ao CCB. Já está agendado.

sábado, 27 de maio de 2023

Documentário: Punk Rock Vegan Movie


"Punk Rock Vegan Movie” explora as ligações entre o punk e o veganismo e conta com as participações de Dave Navarro, Rob Zombie ou Ian MacKaye. Moby sabe do que fala: tem um passado no punk ‘hardcore’.

O documentário foi escrito e realizado pelo próprio Moby, que também se encarregou da banda-sonora, e contém entrevistas com nomes como Rob Zombie, dos White Zombie, Dave Navarro, dos Jane's Addiction, e Ian MacKaye, dos Fugazi, entre outros.

Moby é há muito ativista pelos direitos dos animais, tendo-se tornado vegetariano em 1984 e vegano em 1987. Em declarações ao “NME”, o músico revelou que o seu mundo se alterou quando os Vatican Commandos, banda hardcore punk da qual fez parte, passou uma noite numa casa ocupada vegana. “Tinha 15 anos e nem sequer sabia o que era um vegano”, disse.

“Punk Rock Vegan Movie” tem a duração de 1h30 e está disponível, na íntegra, no YouTube. “O realizador e os produtores esperam que ninguém pague para ver este documentário, já que é fruto de amor e ativismo”, pode ler-se na legenda no vídeo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

The Men That Will Not Be Blamed For Nothing - The Great Stink (Steampunk)


Animated video for our song 'The Great Stink', done by Immo Horn and Amyric Films. Taken from our album 'This May Be The Reason Why The Men That Will Not Be Blamed For Nothing Cannot Be Killed By Conventional Weapons'. See us live, October 4th, The Garage, London: http://tinyurl.com/kccq2ze New double a-side single The Gin Song/Third Class Coffin out Oct 7th.

Biografia

Youtube

Site

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Hoje, dia dos Sex Pistols e de Roger Waters e o papel da música de intervenção




Sex Pistols - "Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols" é o único álbum de estúdio dos Sex Pistols, lançado neste dia (28 de outubro) em 1977.


O insuspeito nosso Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva fez um trabalho científico sobre a cena punk em Portugal "Estigma, experimentação e risco: A questão do álcool e das drogas na cena punk"

Os Cure, banda britânica, que enchem estádios, são anti-monárquicos enquanto o "selvagem" Mick Jagger aceitou o título monárquico. Houve polémica antes da decisão.

Jimmy Savile, o maior pedófilo inglês, foi condecorado Cavaleiro da Coroa Britânica pela raínha de Inglaterra.

Pink Floyd e a canção "Another Brick in The Wall- "Hey! Teacher! Leave them kids alone!"...e por aí fora. 

O que dizer da posição de Roger Waters? Dividiu a opinião mundial acerca do conflito Rússia-Ucânia.

Por cá temos a Amália, Zeca Afonso, António Variações que marcam e marcarão gerações.

Desobediência Civil, que muitos cantantoures promovem nas suas letras, inspiram até acções e documentários sobre o meio ambiente [ex: Documentário - Disobedience]

Biografias
Sex Pistols
Sex Pistols (youtube)
Roger Waters
Roger Waters

Página Oficial
Sex Pistols
Roger Waters