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sábado, 19 de setembro de 2026

A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?


Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local. 
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”. 
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade. 
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho. 
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade. 
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos. 
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural. 
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado. 
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram: 
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão 
- Desprotege a vegetação do vento e do solo  
- Modifica o habitate da fauna endémica 
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural 
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem. 
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais. 
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito. 
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema. 
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica. 
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem). 
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas. 
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus. 
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”. 
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer. 
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"


domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Domingos Xavier Viegas: "Ainda vemos muitas pessoas a enfrentar o fogo de calções e chinelos"

Licenciou-se em engenharia mecânica com especialidade na engenharia do vento, mas foi o fogo que chamou a sua atenção. Aos 76 anos, o diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, dedica-se a investigar a forma como o fogo se comporta em vários tipos de território e de condições climáticas numa tentativa de prevenir grandes incêndios e proteger as populações

Estudam há anos a resiliência dos solos quanto à humidade?
Começámos em 1986 a recolher amostras de combustíveis finos - plantas que podem arder como as folhas secas do pinheiro e do eucalipto -, que são recolhidas próximo do aeródromo. No verão, todos os dias é feita uma colheita a meio do dia, a hora de maior calor, e durante o resto do ano, uma vez a duas por semana. A humidade das folhas secas vai variando e sabemos que se quando a humidade é baixa pode representar condições de perigo elevado de incêndio. Trabalhamos com o Instituto Portugês do Mar e da Atmosfera e podemos prever antecipadamente qual vai ser a humidade combustível nos próximos dias em face das condições meteorológicas e difundimos esses dados às autoridades, para estarem informados.

Que descobertas realizaram no laboratório?
Fomos os primeiros no mundo a estudar o comportamento do fogo em estruturas com a forma de desfiladeiros. Percebemos que mesmo que seja um pequeno foco de incêndio, se começar num desfiladeiro, ele cria o seu próprio vento e este faz acelerar a velocidade de propagação. Foi o que aconteceu em Armamar. Aquilo que as pessoas muitas vezes diziam ter-se tratado de uma mudança do vento, conseguimos mostrar que não é nada disso, é o próprio fogo que cria o vento e faz alterar o seu comportamento.

É esse o fogo a que se chama de sexta geração?
Não. O fogo de sexta geração refere-se a intensidade de propagação do fogo, ou seja, quando o fogo tem uma intensidade de propagação que é superior a 60 megawatt (MW). Mas um fogo de primeira geração, que gera uma intensidade de propagação superior a 10 MW, que corresponde a chamas superiores a 10, 15 metros de altura, liberta uma potência calorífica que já não se consegue combater. Já é considerado extremo. Quando o fogo tem uma propagação de 20, 30, 40, até 60 megawatts, são chamados de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, até 6ª geração. Só nos últimos anos é que se tem vindo a observar incêndios com estas intensidades de propagação.

O incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, foi de sexta geração?
Correto, foi um dos incêndios mais intensos que nós tivemos. De acordo com os nossos dados, ainda é um incêndio que teve a maior velocidade de propagação que temos registo. Estamos a falar é da convecção que é criada pelo incêndio e faz essa aceleração. Isso pode acontecer até num pequeno incêndio, como o de Armamar, em que a extensão de área ardida não foi grande, mas que levou à morte de 14 bombeiros.

O que aconteceu em Pedrógão Grande para atingir aquelas proporções?
Dois focos de incêndio encontraram-se e interagiram. Esse é outro dos nossos contributos. Verificámos, ao estudar casos reais na natureza e depois em laboratório, que quando dois incêndios que estão perto um do outro e se juntam geram velocidades de propagação muito grandes, das mais altas que se têm registado. Foi o que aconteceu em Pedrógão Grande. Houve dois focos de incêndio que começaram debaixo de uma linha elétrica, em dois pontos diferentes, mas que, a certa altura, com a proximidade da tempestade, eles ficaram deitados no terreno e a propagar-se, mais ou menos, paralelamente na mesma direção. E ao interagirem, deram origem a esse incêndio de grandes proporções, que atingiu uma velocidade de 14 km por hora, é das velocidades mais altas registadas em Portugal.

Quando é que o combate ao fogo se torna impossível?
Quando a intensidade de propagação ultrapassa 10 MW por metro torna-se impossível de combater de forma diretamente, mesmo com aviões pesados, não se consegue suprimir uma frente de chamas que está a propagar-se com uma altura de chamas de mais de 10 metros.

A quantidade de árvores caídas provocadas pela tempestade Kristin aumenta o risco de um incêndio destas proporções?
Existem dois fatores: um é a quantidade de combustível e o outro é a velocidade de propagação. Se tivermos maior quantidade de combustível, maior é a intensidade de propagação, maior é a energia libertada. Na zona de Leiria, onde foram derrubadas muitas árvores e em que a carga de combustível duplicou em algumas zonas do terreno, podemos ter grandes intensidades de propagação mesmo que o fogo se propague a baixa velocidade.

O que é que influencia a velocidade de propagação?
Em primeiro lugar é o teor da humidade do combustível no terreno, depois são as condições de topografia e as condições do vento. Se tivermos um declive maior, a velocidade de propagação é maior, se tivermos um vento mais forte, a velocidade da propagação é mais elevada. Mas quando existe muita carga combustível, como em Leiria, não é preciso haver tanto vento, nem declive para termos uma velocidade e uma intensidade de propagação que pode dar origem a incêndios que não são combatíveis.

O eucalipto permanece o vilão dos fogos?
Nós temos três espécies dominantes: o sobreiro, o eucalipto e o pinheiro. Realmente, se só tivéssemos o sobreiro e floresta como existe, por exemplo, no Alentejo, em que as árvores estão espaçadas e há pouco combustível no solo, muito provavelmente não teríamos grandes incêndios. O problema é que nós temos na grande parte do país, todo o centro e norte, dominado pelo pinheiro e eucalipto e com um clima cada vez mais agravado. São áreas que não estão geridas, ou seja, onde não há capacidade para retirar a biomassa que existe. E, muitas vezes, são áreas com grande densidade de pinhal e eucaliptal: em vez de terem poucos pés por hectare e espaçados uns dos outros, são como que florestas de árvores muito finas, muito densas e que se o fogo entra nelas é difícil dar-lhe combate. porque não há condições de defesa. Nesse sentido, estas duas espécies são realmente perigosas.

Mas o eucalipto causa maior risco?
O eucalipto traz condições agravantes porque a mesma quantidade de folhas liberta muito mais calor do que as do pinheiro. Por outro lado, também liberta focos secundários, sobretudo pedaços de casca que podem ser transportados pelo vento a arder a distâncias grandes. Em Portugal, temos registo de focos secundários a distâncias de 10 quilómetros ou mais.

E é mais usado?
Sim. Aponta-se como vilão porque é uma espécie de investimento rápido. Num período de 10, 15 anos, as árvores estão crescidas e é possível ter algum retorno do investimento feito. O pinheiro precisa de mais tempo, 20 a 30 anos, e por isso, o risco de arder é maior. Nesse sentido, o eucalipto tem-se difundido muito e infelizmente em terrenos que não são apropriados e não são geridos. Por exemplo, as empresas de celulose gerem algumas plantações de eucalipto e, de modo geral, são bem cuidadas e não são tão afetadas pelo fogo.

O abandono do interior do país é um dos fatores para o aumento dos incêndios?
Não é apenas o abandono, porque há muitos proprietários que têm os seus terrenos e que são bem geridos. Mas quando essas propriedades são muito pequenas - a nossa propriedade está muito dividida, devido às heranças - torna-se muito difícil tirar qualquer rendimento dessas propriedades e caem no abandono, ficam cobertas de mato e, nas condições climáticas que estamos a ter, vão sendo cada vez mais sujeitas aos incêndios.

O Estado deveria intervir aí com sapadores florestais?
É muito difícil gerir toda a floresta, mas algumas partes do território deveriam ser geridas no sentido de reduzir a biomassa. E isso pode ser feito de diferentes maneiras, quer por meios manuais, mecânicos, quer pelo uso de fogo, quer pelo uso de pastoreio. Pelo menos, aquelas faixas de descontinuidade dos combustíveis, que existem nos altos das serras, que criam intervalos e permitem ajudar a parar o fogo.

Como?
Quando o fogo tem uma intensidade de propagação muito alta e não se pode atacar diretamente, pode-se fazer um contra-fogo que vai ao encontro da frente principal e parar um incêndio dessa maneira. Mas, para tal, precisamos ter essas faixas de descontinuidade na paisagem e na vegetação.

Na Catalunha, Espanha, está a investir-se em vinha para travar o fogo. É uma solução viável?
É a paisagem em mosaicos de que se fala muito hoje em dia. Uma paisagem feita de cobertos florestais diferentes, que não seja só a mesma espécie e que não tenha toda a mesma idade. A ideia é criar zonas agrícolas sem continuidade porque havendo essa continuidade o fogo propaga-se de um modo mais violento.

Isso implica um regresso ao interior.
Haver empreendimentos agroflorestais, onde se fomente a agricultura com a floresta e com a pecuária ajudava a gerir a biomassa e trazia mais pessoas para o interior que ajudam a vigiar e a intervir em casos de incêndio. Nos anos 40 do século passado, quando havia mais gente a viver no campo, as pessoas acorriam prontamente quando ocorria uma ignição e havia poucas dezenas de incêndios e algumas centenas de hectares ardidos.

Faltam bombeiros e recursos para combater estes grandes incêndios?
Quando há grandes incêndios, todos os recursos são poucos. O nosso país tem uma estrutura de prevenção e combate muito razoável. E mesmo em relação ao número de bombeiros, penso que estamos bem em comparação com outros países. Mas mais importante que o número é a preparação e a formação dos bombeiros: temos de dar uma formação ainda melhor aos bombeiros. Agora, quando temos grandes incêndios, muito alargados pelo país, na verdade, todas as pessoas são poucas e até os próprios cidadãos podem ajudar.

Os habitantes devem ajudar no combate?
No ano passado, em agosto, tivemos uma boa parte do centro do país a arder. Não tivemos muita destruição de casas e tivemos, relativamente, poucas vítimas mortais face à intensidade de propagação dos incêndios. Uma das razões é porque havia muita gente presente no território por ser agosto. Havia pessoas que tinham ido visitar as aldeias, os imigrantes que vieram de estrangeiro e, ao estarem lá, contribuíram no combate.

É importante dar formação de combate à população?
Sem dúvida. Existe o mito que o interior é povoado apenas por pessoas de idade, já sem capacidade, mas não é bem assim. Parte da população está envelhecida, mas também há muitas pessoas válidas que conhecem o fogo, sabem lidar com os incêndios, mas não têm os meios para o fazer. Desde logo, por exemplo, não têm roupa adequada e vemos pessoas a enfrentá-lo de calções, t-shirts e chinelos. E recorrem a baldes e alguidares quando deveriam ter realmente recursos necessários para proteger as suas casas e as suas aldeias. E, se possível, dar apoio aos bombeiros no combate, porque isso já foi uma realidade.

Quando?
No incêndio de Águeda de 1986, fez 40 anos no dia 14 de junho. O incêndio começou na Serra do Caramulo e os bombeiros demoraram mais de uma hora a chegar ao local do início do fogo. As pessoas que viviam nas aldeias da serra deram-se conta de que se tivessem meios poderiam ter até atacado o fogo e evitar a morte de 16 pessoas [13 bombeiros e três civis]. Mais tarde essas pessoas criaram unidades locais de proteção civil: através de subscrições e ofertas, adquiriram veículos de combate iguais aos dos bombeiros e tiveram treino fornecido pelos bombeiros. No verão estavam preparados e se havia incêndios naquela zona eles em 5 ou 10 minutos estavam em cima do incêndio.

Ainda existem hoje?
Sim, estas unidades locais foram replicadas em vários outros pontos do país e devem existir cerca de uma centena em todo o país. É o que se faz também noutros países do mundo.

O centro de estudos colaborou na construção de abrigos coletivos. O que são?
Os abrigos resultam do estudo e da análise de vários incêndios em que as pessoas se encontraram ameaçadas por um incêndio sem possibilidade de se retirarem em segurança. Podem ser refúgios em espaços abertos, como um campo de futebol ou uma piscina. Ou abrigos, espaços fechados que tenham resistência ao fogo, em geral são as igrejas, ou então, construções feitas para esse fim. Colaborámos em alguns desses projetos. Um deles na aldeia de Ferrarias de São João, em Penela.

Quais são as características do abrigo?
É uma área de betão completamente coberta, fechada, com espaços no interior onde as pessoas possam permanecer durante horas, preservadas de fumos e de gases quentes, até mesmo pessoas com necessidades respiratórias. Em outros casos, estamos a aproveitar construções que já existam e que são adaptadas, por exemplo, um salão de festas ou uma cave. O que é desaconselhado em absoluto é que as pessoas fujam à última hora, que se metam nos carros para o meio do incêndio, é assim que têm acontecido as maiores tragédias.

O que aprendemos com Pedrógão Grande?
Pelo menos nos primeiros anos, notámos uma sensibilidade grande relativamente à limpeza da vegetação em torno das casas. Também as autoridades têm sido mais atentas, a fiscalizar essa medida legal, que já havia de antes, só que não era respeitada. A diferença é que antes de Pedrógão, a maior parte das vítimas eram bombeiros, depois a maioria das vítimas foi entre cidadãos comuns. Qualquer pessoa em quase qualquer ponto do território pode ser atingida por um incêndio.

A inteligência artificial é usada no combate aos incêndios?
É usada num projeto nacional que se chama Gémeo Digital da Floresta em que estamos a criar um sistema informático que utiliza bases de dados sobre a floresta, desde o coberto vegetal, o terreno, a história dos incêndios passados, áreas ardidas e meteorologia. Quando lidamos com um número muito grande de bases de dados, a inteligência artificial identifica a relação entre parâmetros e facilita a tomada da melhor decisão na prevenção e no combate.

domingo, 14 de junho de 2026

“Paradoxo da biodiversidade”: Investigação portuguesa avisa que, por vezes, mais pode ser menos


Um novo estudo liderado por Vasco Vieira, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/ARNET (Universidade NOVA de Lisboa), ajuda a esclarecer um dos paradoxos clássicos da ecologia: porque é que comunidades muito diversas podem perder espécies à medida que crescem.

A investigação, publicada recentemente na revista ‘Communications Earth & Environment’, mostra que as comunidades vegetais naturais atingem um limite físico de compactação de biomassa a partir do qual já não conseguem acomodar mais indivíduos.

Dizem os autores deste trabalho que esse limite, conhecido há décadas para povoamentos monoespecíficos, é agora demonstrado também ao nível comunitário e envolvendo múltiplas espécies.

Quando mais passa a ser menos
O estudo agora publicado dá a conhecer a relação entre biodiversidade e biomassa, e indica que a mesma não é linear, aumentando até um máximo e diminuindo depois, o que aponta para um “paradoxo da biodiversidade”.

Explicam os investigadores que esta relação, definida para comunidades vegetais naturais, permitiu demonstrar o mecanismo que leva comunidades diversas a perder espécies quando atingem densidades elevadas.

Especificamente, o estudo revela a existência de self-thinning ao nível comunitário, um processo em que a competição por espaço elimina os indivíduos e espécies menos competitivas. Até agora, o self-thinning tinha sido demonstrado apenas para povoamentos monoespecíficos, mas esta investigação mostra, pela primeira vez, que o mesmo fenómeno ocorre também em comunidades naturais multiespecíficas.

Água, o fator invisível que dita as regras
Realizado na Charneca de Caparica, o estudo monitorizou um total de 17.089 plantas de 46 espécies, ao longo de 2021 e 2022.

Os investigadores descobriram que a disponibilidade de água é o principal mediador desta dinâmica. Em 2021, com mais chuva, as plantas cresceram mais e ocuparam o espaço com máxima eficiência, o que levou à diminuição da diversidade por exclusão competitiva dos indivíduos e espécies menos competitivas. Em contrapartida, a menor pluviosidade de 2022 travou o crescimento e reduziu a ocupação do espaço, o que se traduziu numa menor competição e consequente aumento da diversidade.

Os resultados confirmaram um padrão bem estabelecido na ecologia, o de que condições ambientais mais favoráveis e estáveis reforçam o domínio de algumas espécies, o que acaba por reduzir a diversidade global do ecossistema.

A este respeito, Vasco Vieira explica que “a um máximo de abundância de vida não corresponde um máximo de diversidade de vida”. Salienta o primeiro autor do estudo que “abundância e diversidade não são sinónimos, e podem mesmo ser antagónicas em caso de extrema abundância”.

Para o cientista do MARE, “a diversidade não pode ser tomada como um bioindicador universal da qualidade ambiental, contrariando a perceção dominante pela sociedade não-especializada, pois a um máximo de diversidade não correspondem máximos de abundância nem de qualidade e estabilidade ambientais”.

Teoria de Allan Savory posta em causa
Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo contraria parte da teoria de “Gestão Holística” proposta por Allan Savory. Esse ecólogo, nascido no Zimbabué em 1935, defende que a desertificação de pastagens (particularmente em África) pode também resultar da acumulação de talos secos de plantas mortas por falta de pastoreio, que, ao ocuparem espaço, impediriam o nascimento de novas plantas.

A equipa do MARE testou este cenário ao analisar parcelas cobertas por uma camada espessa de relva morta e seca, com uma média de 354 gramas de matéria seca por metro quadrado.

Os resultados demonstraram o oposto do defendido por Savory. Isto é, que a acumulação de biomassa morta não impediu o desenvolvimento de uma comunidade vegetal diversa. Aliás, mostraram mesmo que essa camada serviu como protetora e promotora do crescimento de plantas mais suscetíveis à herbivoria e dissecação.

O Espaço como indicador ecológico e o combate a invasoras
O estudo aplicou uma métrica ecológica que mede quão perto cada comunidade vegetal está do seu limite máximo de biomassa, que os investigadores dizem ser uma forma objetiva de avaliar a eficiência com que as plantas ocupam o espaço disponível.

Ao calcularem esta eficiência separadamente para a comunidade autóctone e para a invasora Oxalis pes-caprae (também conhecida por nomes vulgares como erva-azeda, trevo-azedo ou erva-canária), comum no sul da Europa, a equipa identificou a principal vantagem competitiva dessa espécie invasora: a capacidade de surgir muito cedo no inverno e ocupar rapidamente o espaço antes das espécies nativas. Esta antecipação ajuda a explicar o seu sucesso em ecossistemas mediterrânicos.

Os autores deste estudo acreditam que as suas descobertas fornecem “ferramentas robustas para decisores políticos e engenheiros ambientais”. E consideram que, ao compreender como a biodiversidade e o espaço interagem em diferentes condições de stress hídrico, torna-se possível desenhar melhores estratégias de restauro ecológico e planos de controlo de espécies invasoras num cenário de alterações climáticas.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

sábado, 21 de março de 2026

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

quinta-feira, 5 de março de 2026

Solar e Agricultura: como os projetos agrivoltaicos apoiam os agricultores e a economia rural?


Os projetos agrivoltaicos são uma solução prática que combina a atividade agrícola com a produção de eletricidade a partir de energia solar no mesmo terreno, permitindo um duplo uso do solo. Com um bom planeamento, os projetos agrivoltaicos asseguram que a terra continue produtiva, gerando novos rendimentos para os proprietários e proporcionando maior estabilidade às comunidades locais.

Estudos recentes indicam que a implementação de projetos agrivoltaicos na União Europeia pode aumentar a eficiência do uso do solo, permitindo manter o rendimento agrícola, promovendo soluções como o pastoreio e a apicultura.
Protegendo a agricultura através da transição energética

A transição energética é um dos maiores desafios da atualidade, e a energia solar assume um papel central nesse processo. Segundo a International Renewable Energy Agency (IRENA), em 2024 foram adicionados 585 GW de nova capacidade renovável a nível global, representando 92,5% de toda a expansão de capacidade elétrica.

À medida que a energia solar cresce, surge uma questão essencial: como maximizar o uso do solo, conjugando simultaneamente a produção energética e a atividade agrícola?

O que são projetos agrivoltaicos e como funcionam?
Esta tipologia de projetos combina a agricultura com a produção de energia solar no mesmo terreno instalando painéis solares de forma a permitir a continuidade do uso agrícola do solo, seja para pastoreio, culturas específicas ou apicultura.

Exemplos comuns incluem:
  1. Pastoreio de ovinos
  2. Culturas de baixo porte adaptadas à sombra parcial
  3. Instalação de colmeias
A estrutura dos painéis (cerca de 2,5 a 3 metros no ponto mais alto) permite a circulação de animais e a manutenção da atividade agrícola regular, combinadas com a produção de energia solar.

Projetos agrivoltaicos e rendimento agrícola: dados concretos
Estudos internacionais indicam que esta tipologia de projetos permite:
  1. Reduzir a perda de água das culturas, mitigando o stress hídrico em contextos de calor extremo através de sombreamento parcial

  2. Melhorar a produtividade de determinadas culturas sensíveis ao calor extremo
  3. Aumentar a eficiência do uso dos solos
Para agricultores rurais, isto traduz-se em:
  1. Diversificação de fontes de receitas
  2. Redução da dependência exclusiva de ciclos agrícolas voláteis
  3. Maior previsibilidade financeira a longo prazo
Projetos agrivoltaicos e economia rural: impacto local
Para além do rendimento direto para agricultores, os parques solares podem gerar benefícios económicos locais:
  1. Contratação de serviços locais
  2. Receita fiscal municipal
  3. Estabilidade financeira para proprietários de terrenos
  4. Criação de emprego durante construção e operação – o setor solar fotovoltaico é o maior empregador global nas renováveis, representando cerca de 4,9 milhões de empregos em 2022
Promoção de soluções que favoreçam biodiversidade e polinizadores

Apicultura e energia solar: uma parceria natural
Parques solares integrados em modelos agrivoltaicos podem apoiar polinizadores e apicultores locais, integrando apicultura e energia solar na atividade agrícola existente.

A criação de prados floridos e zonas de pastoreio solar permite instalar colmeias, monitorizar a biodiversidade e gerar rendimento complementar, contribuindo para reforçar a economia rural.

Como os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores e economia rural?
Os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores ao permitir que continuem a utilizar a terra para a atividade agrícola enquanto geram rendimento adicional através da energia solar. Este modelo diversifica receitas, reduz riscos associados à variabilidade climática e contribui para a estabilidade económica das comunidades.

Energia solar e agricultura: possibilidades de uso duplo do solo
Quando cuidadosamente planeados, os parques solares funcionam de forma a complementar a atividade agrícola, não a inviabilizá-la ou substituí-la. A transição energética pode ser também uma estratégia de revitalização rural.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Data center builders thought farmers would willingly sell land, learn otherwise


It seems that tech giants eyeing rural zones for data center development have underestimated how attached American farmers have grown to their lands in the decades they’ve been nurturing them.

Across the country, several farmers have firmly rejected eye-popping offers—sometimes in the tens of millions. These offers dwarf the value of their properties, but farmers have refused to put a price on the lands that they love most.

In a report on Monday, The Guardian highlighted a handful of cases nationwide where farmers’ refusals have frustrated plans to build data centers in areas long deemed rural.

It’s unclear how many farmers have received such offers, but rural lands have been increasingly targeted as demand for data centers to power AI has grown—most recently projected to increase by 165 percent by 2030. Globally, 40,000 acres are needed to support data center growth over the next five years, Hines Research estimated.

For “Silicon Valley executives,” rural areas are likely attractive due to “weak zoning protections, cheap power, and abundant water,” The Guardian reported.

It likely doesn’t help to sell the farmers these deals when they tend to come out of nowhere, following a knock on the door from a middleman who doesn’t make it clear who wants to buy the land or how the land would be used.

One 82-year-old Kentucky woman, Ida Huddleston, turned away a “Fortune 500 company” offering $33 million for 650 acres. NBC News reported that several of her neighbors received similar offers. Huddleston joined at least five other residents in the county who refused to move forward after learning they’d have to sign a non-disclosure agreement just to find out who they would be dealing with. Ultimately, Huddleston had to search public records to figure out that a data center was even being planned in the area, The Guardian reported. The lack of transparency is a problem, farmers have said, because what buyers want to do with the land matters.

“You don’t have enough to buy me out,” Huddleston told the company representatives when rejecting the deal. “I’m not for sale. Leave me alone, I’m satisfied.”

Notably, one resident in Huddleston’s county who received an offer, 75-year-old Timothy Grosser, even declined a proposal to “name your price” when a tech company sought to buy his 250-acre farm, The Guardian reported.

“There is none,” Grosser said.

The farm is where he “lives, hunts, and raises cattle” and where his grandson hunts a turkey every Christmas for the family feast.

“The money’s not worth giving up your lifestyle,” Grosser said.

Another farmer in Wisconsin, Anthony Barta, reportedly fretted about what would happen to his neighbors if he took a deal he was offered—showing the deep bonds of people whose farms have bordered each other for years. In his community, another farmer was offered between $70 million and $80 million for 6,000 acres.

“Me and my family, we own the farm and run close to 1,000 animals,” Barta said. “What would that do if that’s next to it? Can they even be there? You know, that’s our livelihood—the farm. We’re just concerned what, if it would go through, what would happen to us and our neighbors and farms and our community? What would happen to that?”

Some tech companies are apparently not taking “no” for an answer. At least one farmer who spent 51 years milking cows in Pennsylvania prior to the AI boom described tech companies as “relentless.”

Eighty-six-year-old Mervin Raudabaugh, Jr., found a creative solution to end the pressure to sell two contiguous farms. He reportedly staved off developers by turning to “a farmland preservation program dedicating taxpayer dollars toward protecting agricultural resources.”

By working with the program, Raudabaugh will only receive about one-eighth of what the developers were offering. But he said it’s worth it to know his land would be preserved for farming purposes and out of reach of persistent tech companies.

“These people have hounded the living daylights out of me,” Raudabaugh said.

Data center deals come amid fragile farm economy
For people in rural communities, data center fights go beyond concerns about water and electricity consumption—although those are concerns, too. Communities are defending the character of the land, which they don’t want to see suddenly disrupted by extensive construction, data center noise pollution, or untold environmental impacts from massive operations.

There are also public health concerns, as an attorney with environmental nonprofit Earthjustice, Jonathan Kalmuss-Katz, told The Guardian that the pollution new data centers will emit could possibly proliferate “forever chemicals” known as polyfluoroalkyl substances (PFAS).

“We know there are PFAS in these centers, and all of that has to go somewhere,” Kalmuss-Katz said. “This issue has been dangerously understudied as we have been building out data centers, and there’s not adequate information on what the long term impacts will be.”

Some rural communities are fighting to block rezoning requests that would allow developers to build data centers in areas previously zoned only for agricultural lands. But those fights are seemingly hard-won. At least one Michigan community sought to settle after a developer firm working for an unnamed tech company reportedly sued to push through a construction project on farmland.

For farmers, the data center deals come at a particularly difficult time financially. On Friday, the National Farmers Union issued a statement after the Supreme Court blocked the majority of Trump’s tariffs. In it, NFU President Rob Larew confirmed that “many family farmers and ranchers have already felt the consequences” of Trump’s tariffs, which have raised costs, disrupted sales, and triggered retaliations impacting US agricultural goods.

“In an already fragile farm economy, uncertainty has hit family operations hardest,” Larew said.

The deals also arrived at a time when the number of US farms is shrinking, continuing “a long-lasting trend of declining farm numbers,” Farm Journal reported this month. In total, the US lost about 15,000 farms in 2025, with no state reporting an increase in farms.

So far, not much farmland has been ceded to data centers, the report seemed to indicate, perhaps due to farmers who dig their heels in when developer representatives come knocking.

Perhaps particularly in this dire climate—where farms are shrinking and existing farms are cash-strapped from unpredictable tariffs—it seems notable that farmers are not being swayed by developers’ offers of what the Guardian described as “unimaginable riches.”

But Huddleston made it sound easy to turn down $33 million, because her ties to the land run deep. She told The Guardian that “four generations of the Huddleston family have watched the world change from the same fields,” while raising cattle and living off the land.

“My whole entire life is nothing but the land,” Huddleston said. “It’s provided me with anything and everything that I’ve needed for 82 years.”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

domingo, 11 de maio de 2025

11 de maio é o Dia Mundial do Kuffiyeh, símbolo da Palestina, identidade e cultura



Este tradicional acessório representa a identidade nacional palestiniana e a ligação com a sua terra. Adoptado por milhões de pessoas em todo o mundo, representa a solidariedade com a Palestina e a sua luta pela liberdade e justiça.

O keffiyeh palestiniano, foi reconhecido como Património Cultural Imaterial pela UNESCO. O anúncio foi feito pelo Ministério da Cultura da Palestina em 16 de novembro de 2024, por ocasião do “Dia Nacional do Keffiyeh”. Este reconhecimento é um importante marco na preservação do legado cultural palestiniano e reforça a identidade e a resiliência do povo palestiniano.

Originalmente usado por pastores e agricultores nómadas, o keffiyeh "tornou-se uma peça de vestuário icónica usada globalmente por revolucionários anticolonialistas, ativistas e afins, embora continue a ser usado como um toucado tradicional pelos anciãos e agricultores", disse Majeed Malhas, jornalista palestino-canadiano e candidato a doutoramento em antropologia na Universidade de Toronto.

Fonte: aqui

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Rostos da Aldeia - Pitões das Júnias


A curta documental “PITÕES DAS JÚNIAS - vidas na montanha” produzida pelo colectivo Rostos da Aldeia conquistou o GOLD AWARD na categoria documentário do Japan World's Tourism Film Festival 2025. A cerimónia de entrega de prémios decorreu no passado dia 19 de março, na cidade de Wakayama.
Este é o terceiro galardão internacional conquistado por este filme. Conquistas que partilhamos naturalmente com quem partilhou as suas histórias connosco: a gente boa de Pitões das Júnias.
Saber mais aqui

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Os cavalos selvagens de Espanha estão em perigo. Na Galiza, são essenciais para prevenir fogos florestais


Os cavalos selvagens de Espanha estão em perigo. Na Galiza, são essenciais para prevenir fogos florestais
Os incêndios florestais que costumavam arder todos os Verões nos bosques acima da aldeia espanhola de Barro diminuíram para quase nenhum desde que Lucia Perez começou a pastorear cavalos selvagens.

“Costumava haver incêndios todos os anos, mas desde 2019, quando começamos a vir aqui, tivemos um pequeno incêndio no primeiro ano e nada desde então”, disse Perez, 37, explicando como, ao limpar a vegetação rasteira entre as árvores, os cavalos ajudam a impedir que os incêndios se acendam e se espalhem.

A prevenção de incêndios é um dos vários papéis que estes animais desempenham na preservação dos ecossistemas delicados da região noroeste da Galiza. Mas a maior manada de cavalos selvagens da Europa diminuiu para menos de metade dos 22 mil que percorriam as suas montanhas, florestas e charnecas na década de 1970.

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A prevenção de incêndio é apenas um dos benefícios ecológicos que os cavalos selvagens oferecem na Galicia, uma região no noroeste da Espanha conhecida por seus delicados ecossistemas.

Os cientistas disseram que o maior rebanho de cavalos selvagens da Europa desempenha um papel fundamental na manutenção dessas paisagens, embora a população tenha caído dramaticamente. Na década de 1970, cerca de 22.000 cavalos selvagens percorreram as montanhas, florestas e charnecas da região. Hoje, apenas metade permanece.

Na Serra Da Groba, localizada a 80 km a sudoeste de Barro, os cavalos selvagens se alimentam das flores amarelas de Gorse – uma planta altamente combustível. “Ao limpar seletivamente (Gorse), os cavalos ajudam a prevenir incêndios florestais”, disse Laura Lagos, pesquisadora da Universidade de uma Coruna.

O pasto a cavalo permite que outras plantas, como urze de flor roxa e asfodelos brancos, florescessem, explicou Lagos. “Também ajuda a preservar a urze em torno de turfeiras, que são abundantes em musgos de esfagno – um dos ecossistemas mais eficazes para capturar carbono”, disse ela.

Um estudo de 2021 da Universidade de Corunha em que Lagos participou descobriu que o pastoreio de cavalos selvagens era o método mais eficaz para prevenir incêndios florestais, promovendo a biodiversidade vegetal e capturando carbono. O estudo comparou esse método com outros usos da terra, incluindo o plantio de florestas de pinheiros de longo prazo, plantações de eucalipto de curto prazo e pastoreio por animais domesticados.

Embora ovelhas e gado também possam ajudar a reduzir os riscos de incêndios florestais através do pastoreio, Lagos observou que os cavalos selvagens são adaptados exclusivamente ao terreno acidentado da Galicia. Ela destacou uma característica distinta: “Migidos que aparecem projetados para proteger seus lábios do tojo espinhoso”.

O clima mais quente e mais seco devido às mudanças climáticas está aumentando a frequência e a intensidade dos incêndios florestais na Galiza. De 2001 a 2023, os incêndios queimaram a 970 m² (375 m²) na região, de acordo com a Global Forest Watch.

Essa tendência coincidiu com a proliferação de árvores de eucalipto, trazida para a Galicia da Austrália por um missionário no século XIX. As árvores são pirófitas, o que significa que elas dependem de fogo para libertar e dispersar suas sementes. Sua disseminação contribuiu para o aumento dos riscos de incêndio, além de reduzir pastagens de pastagem para cavalos selvagens, porque apenas as samambaias crescem embaixo deles.

As florestas de eucalipto da Galiza agora representam 28 % da população total de árvores da região, de acordo com um estudo do governo local. A demanda por madeira de eucalipto das fábricas regionais de celulose impulsionou a expansão dessas plantações.

A história dos cavalos selvagens na Galiza remonta a milhares de anos. As esculturas de cavalos sendo caçadas por seres humanos sugerem sua presença na região durante o período neolítico.

Com o tempo, humanos e cavalos desenvolveram uma relação simbiótica. Conhecidos como “Besteiros” no dialeto galego, as pessoas tradicionalmente monitoravam a saúde de cavalos de roaming livre em troca de ocasionalmente domesticar ou vendê-los por carne.

Uma vez por ano, os cavalos foram arredondados durante os eventos chamados “Rapa Das Bestas”, ou “cisalhamento dos animais”. Durante essas reuniões, os animais foram dentulados, vacinados e tiveram suas crinas aparadas para impedir que os lobos os pegassem.

Hoje, o “Rapa Das Bestas” evoluiu para um festival cultural. O evento mais famoso de Sabucedo atrai milhares de turistas anualmente, que se reúnem para assistir aos habitantes locais lutarem cavalos selvagens no chão para tratamento.

Embora essas tradições continuem a honrar a conexão entre a Galicia e seus cavalos selvagens, os crescentes riscos de mudanças climáticas, perda de habitat e número de rebanho em declínio destacam a necessidade urgente de proteger os cavalos e os ecossistemas que eles sustentam.