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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

GEOTA removeu mais uma barreira obsoleta no rio Alviela


No dia 29 de novembro foi removido, perante uma assistência entusiástica, o açude do Sourinho, uma barreira obsoleta à conectividade fluvial.

Esta remoção faz parte de um conjunto de ações de reabilitação a decorrer num troço de 300 m do rio Alviela. Coordenados pelo GEOTA, os trabalhos iniciaram-se em meados de novembro com a limpeza das margens e controle de espécies invasoras.

Na presença da população, proprietários e representantes das principais entidades envolvidas, a coordenadora do Programa Rios Livres GEOTA, Ana Catarina Miranda, salientou a relevância da colaboração institucional com a APA, o Município de Alcanena, entidades académicas como o ISCTE e o Instituto Superior Técnico (que apoiam no processo de participação pública e na monitorização de peixes e de sedimentos), a CLAPA e a E.RIO. Esta última foi representada por Pedro Teiga, que teve a oportunidade de explicar sucintamente o projeto de reabilitação em curso. Nuno Silva, Vice-Presidente do município de Alcanena, enfatizou a importância que estes projetos têm para o município e afirmou que continuarão a apoiar projetos como este.

A coordenadora do Programa Rios Livres do GEOTA, Ana Catarina Miranda, disse que esta é a segunda barreira removida no Alviela, num país onde “existem cerca de 15 mil barreiras à conectividade fluvial identificadas, grande parte delas obsoletas”, causando prejuízos ambientais e diminuição da resiliência às alterações climáticas.

“São estruturas que já não servem qualquer propósito económico ou social e que tendem a provocar impactos ecológicos significativos, desde a limitação das migrações piscícolas à retenção de sedimentos essenciais para combater a erosão costeira”, explicou.

A responsável sublinhou que Portugal tem o objetivo de libertar cerca de 500 quilómetros de rios, no âmbito da meta europeia de remoção de barreiras e recuperação da conectividade em 25 mil quilómetros de cursos de água.

“Atingir esta meta é o objetivo do Estado, mas a capacidade de atuação tem sido limitada. Projetos como o nosso, promovidos por organizações não governamentais e envolvendo a sociedade civil, os governos locais e as instituições académicas, colaboram com o Estado para que seja atingida esta meta”, afirmou.

O projeto no Alviela decorre desde 2023 e inclui mapeamento e priorização de barreiras, participação pública e monitorização.

A intervenção no açude de Sourinho é financiada pela DIMFE, pelo programa internacional Open Rivers Europe,  pela Fundação Calouste Gulbenkian  e pelo prémio Dam Removal Europe 2023, no valor de 15 mil euros, atribuído ao GEOTA pela remoção do açude de Vaqueiros (a primeira barreira eliminada no Alviela, em abril de 2023), com a segunda remoção a representar um investimento global na ordem dos 100 mil euros.

Segundo Ana Catarina Miranda, o GEOTA pretende remover uma barreira por ano entre 2026 e 2028, dependendo da aprovação de novo financiamento internacional.

“Aprendemos muito com as duas intervenções no Alviela. A partir de sábado, existirão menos duas barreiras nesta bacia, mas o problema é nacional e muito mais vasto”, salientou.

No final, Teresa Álvares, Administradora Regional da ARH Tejo e Oeste na APA, sublinhou que “a APA continuará a apoiar e a promover ações de reabilitação fluvial”, destacando os benefícios ecológicos, sociais e económicos que estas iniciativas proporcionam.

Siga o desenvolvimento dos trabalhos em curso em: Sourinho

terça-feira, 21 de maio de 2024

Como conter enchentes, segundo criador das 'cidades-esponja': 'Barragens estão fadadas ao fracasso'

Eventos atmosféricos extremos com períodos prolongados de fortes chuvas e inundações, como as ocorridas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas, se tornarão cada vez mais comuns e intensos, segundo os cientistas.

Mas o que as cidades podem fazer para evitar ou mitigar esse tipo de tragédia?

Para o criador do conceito de cidades-esponja, o arquiteto chinês Kongjian Yu, a resposta está em parar de "lutar contra a água" e investir em soluções duradouras e baseadas na natureza.

"Temos uma escolha a fazer: investir em grandes barragens e diques que estão fadados a fracassar ou apostar em algo que é duradouro, sustentável e ainda bonito e produtivo", questionou o decano da faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim em entrevista à BBC News Brasil.

Para Yu, as soluções tradicionais baseadas em barragens de cimento e tubulações impermeáveis já se mostraram incapazes de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas, já que as chuvas são cada vez mais intensas e o nível da água de rios e mares não para de subir.

Como alternativa, o arquiteto propõe adotar uma infraestrutura verde, baseada em um balanço hídrico artificial que seja o mais parecido possível com o natural e dê espaço e tempo para que a água seja absorvida pelo solo.

Em outras palavras, criar espaços e infraestruturas capazes de absorver, reter e liberar a chuva de forma que ela retorne ao ciclo natural da água sem causar estragos.

O conceito já foi aplicado pela equipe de Yu em diversas cidades na China e também na Tailândia, Indonésia e Rússia — e por outros arquitetos em todo o mundo.

Segundo o chinês, ele pode ser reproduzido em qualquer lugar, inclusive no Brasil.

"Funciona em qualquer lugar. As cidades-esponja são uma solução para climas extremos, onde quer que eles estejam", diz.

"E o Brasil pode se dar muito bem com elas, porque tem muitas áreas naturais, o que dá mais espaço para a água escoar."

De acordo com o arquiteto, além de impedir inundações, o modelo também pode ser útil durante os períodos de seca, já que a água armazenada pode ser utilizada para irrigação e para manter as árvores e plantas da cidade em boas condições.

Além das fortes chuvas, períodos mais prolongados de seca também são efeitos das mudanças climáticas.

Antes de sofrerem com as inundações, muitos produtores gaúchos já haviam sido castigados pela falta de água no ano safra de 2021/22.

Mas para que o conceito das cidades-esponja funcione, ele deve se basear em três grandes estratégias, segundo Kongjian Yu.

1. Contenção da água
O primeiro princípio adotado nos projetos do chinês é reter a água assim que ela toca o solo. Segundo Yu, isso pode ser alcançado por meio de grandes áreas permeáveis e porosas, não pavimentadas.

Da mesma forma que uma esponja com muitos orifícios, a cidade deve conter a chuva com lagos artificiais e áreas de açude alimentados naturalmente ou por canos que ajudam a escoar a água de rios e represas.

Telhados e fachadas verdes, assim como valas com áreas verdes com camadas de solo permeáveis ​​por baixo também são usadas para esse propósito.

Kongjian Yu explica que, em áreas cultiváveis, reservar 20% do terreno para operar como um sistema de açude é suficiente para impedir que o restante do lote seja inundado. Essa área pode ainda ser adaptada para colheitas resistentes à umidade e para posteriormente abastecer o restante das plantações em épocas de seca.

Apesar de ser algo recente, a base teórica na qual as cidades-esponja resgata as antigas tradições chinesas da agricultura e da gestão da água.

"Temos que aprender com a aquacultura como fazer essa terra fértil, quais culturas podem sobreviver e usar essas áreas para isso", diz. "O arroz é um exemplo de uma plantação que pode funcionar."

2. Redução da velocidade
Em seguida, o arquiteto aconselha pensar no manejo da água coletada. Isto é, desacelerar o fluxo d'água.

Em vez de tentar canalizar a água rapidamente para longe em linhas retas, rios tortuosos com vegetação ou várzeas reduzem a velocidade da água.

Eles oferecem mais um benefício, que é a criação de áreas verdes, parques e habitats para animais, purificando a água escoada na superfície com plantas que removem toxinas poluentes e nutrientes.

Yu conta que se interessou pelo tema da urbanização e da contenção das águas após vivenciar uma experiência com inundações durante a infância.

Na época com apenas 10 anos, o chinês vivia em uma fazenda na Província de Zhejiang, perto de Hangzhou. Durante um período de fortes chuvas, o córrego da região inundou os campos de arroz da comunidade agrícola e Yu foi pego pelas águas, carregado pela enchente.

Mas as plantas, troncos e salgueiros ao longo do córrego reduziram a velocidade do fluxo do rio, permitindo que ele se agarrasse à vegetação e saísse das águas.

"Se o rio fosse como muitos são hoje, nivelados com paredes de concreto, certamente eu teria me afogado", contou Yu à BBC.

As técnicas usadas pelo arquiteto em seus projetos atuam da mesma forma que a vegetação no córrego na fazenda de Yu, desacelerando a água.

3. Escoamento e absorção
A terceira estratégia é adaptar as cidades para que elas tenham áreas alagáveis, para onde a água possa escorrer sem causar destruição.

"Em vez de construir barragens e ir acumulando a água em áreas de cimento, precisamos nos adaptar à água, deixa a cidade lidar com a água de forma saudável", diz Yu.

A principal forma de fazer isso é criar grandes estruturas naturais alagáveis para que a água possa ser contida por um tempo e, depois, absorvida pelo lençol freático.

Yu defende que essas áreas alagáveis permaneçam desocupadas, evitando-se construções nas áreas baixas.

Nos casos de infiltração, podem ser feitas caixas infiltrantes, que facilitam a entrada da água no solo.

Algumas cidades usam "jardins de chuva" que armazenam o excesso de chuva em tanques subterrâneos e túneis. A água só é descartada nos rios depois que os níveis diminuem.

Plantas que absorvem água também podem ser usadas para dar conta do alto volume de chuvas.

"A natureza se adapta. O conceito de cidade-esponja é baseado no princípio de que a natureza regula a água", diz o arquiteto. "Não é apenas a natureza em si. Sistemas feitos pelo homem devem ser certamente usados, mas a natureza deve ser dominante."

Yu afirma ainda que, para conter as grandes inundações previstas para os próximos anos, é preciso expandir essa estratégia por várias regiões e criar um "planeta-esponja" onde a força das águas possa ser dissipada e desacelerada aos poucos.

Ainda na visão do chinês, além de parques adaptados e áreas cultiváveis capazes de absorver mais água, lagoas e pântanos podem coexistir com rodovias e arranha-céus.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Organizações ambientalistas reivindicam 15 medidas urgentes pela água


Mais de 70 organizações de seis movimentos ambientalistas, de norte a sul do país, apresentaram esta quinta-feira um manifesto reivindicativo que apela aos partidos políticos para que olhem para 15 medidas consideradas urgentes para proteção dos rios e da água.

"Aquilo que se pretende é efetivamente pôr na agenda política as questões da gestão da água e do uso eficiente da água, por forma a que esse recurso, que é finito, seja bem usado e para aquilo que é efetivamente necessário", disse à Lusa Paulo Constantino, porta-voz do Movimento pelo Tejo -- proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha (Santarém).

Segundo alertou o dirigente, "as práticas que se vislumbram e que têm vindo a ser propostas conduzirão ao seu esgotamento e a uma escassez contínua por um excessivo consumo".

Entre as 15 reivindicações apresentadas, a poucas semanas das eleições legislativas de 10 de março, estão, por exemplo, medidas de combate à seca, de proteção de rios e águas subterrâneas, ou contra os transvases e construção de novas barragens, açudes e dessalinizadoras.

"Não pode haver ofertas ilimitadas de água", afirmou Constantino, tendo defendido a importância de "gerir as necessidades e as disponibilidades de água em cada bacia hidrográfica, satisfazendo as necessidades humanas e as necessidades ecológicas".

'Não aos transvases entre bacias hidrográficas' é a primeira reivindicação que consta num documento que os signatários enviaram na quarta-feira aos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República e a que a Lusa teve acesso.

Na lista de 15 reivindicações apresentadas, divididas entre o sim e o não, do lado a combater, segundo os signatários, está o "não aos transvases entre bacias hidrográficas, ao desperdício de água, aos projetos sustentados num aumento do consumo de água (dessalinizadoras, barragens), à construção da dessalinizadora do Algarve, e "à proliferação de barragens e açudes".

Do lado positivo elencam o "sim à proteção das águas subterrâneas, ao cumprimento integral e urgente da legislação comunitária e nacional (Diretiva Quadro da Água, Lei da Água) e à implementação urgente das medidas previstas nos Planos de Bacia Hidrográfica (PGRH), à definição e implementação rigorosa de regimes de caudais ecológicos", e à "implementação de processos de recuperação ecológica".

Ainda do lado positivo está o "sim ao efetivo controlo físico-químico e biológico dos efluentes libertados nos meios hídricos", à redução dos valores limite de emissão dos efluentes libertados pelas estações de tratamento, à definição de políticas eficazes no sentido de regulamentar a proliferação de monoculturas, à disseminação da informação 'online' de acesso livre, a uma estratégia de desenvolvimento conduzida por planos nacionais de restauro fluvial, de eliminação de barreiras transversais, de erradicação de invasoras e de eficiência hídrica a par do "desenvolvimento de programas que de uma forma massiva combatam a iliteracia ecológica".

Os movimentos ambientalistas pedem a "introdução destas questões na campanha eleitoral", e a "observação de um discurso com pensamento estratégico que represente um projeto viável de ação coletiva e individual responsável e com sentido de justiça intergeracional".

As 15 reivindicações pelos rios e pela água são subscritas por mais de 70 organizações nacionais e locais - que incluem Organizações Não Governamentais (ONG, ONGA, associações e municípios -, bem como cidadãos a título individual que fazem parte de seis movimentos com representatividade nas principais bacias hidrográficas do país (AMORA, Mondego Vivo, #MovRioDouro, MUNDA, PAS e proTEJO).

"(...) Chegámos à situação que nos coloca no limiar da sobrevivência face à rapidez das alterações climáticas e, em particular, face à degradação da quantidade e qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respetivos ecossistemas", alertam os movimentos subscritores, num documento em que pedem aos decisores políticos para se "agir prioritariamente sobre as causas como forma de combater os efeitos".
Fonte: DN

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Remoção de barreiras fluviais obsoletas bate novos recordes em 2022 – relatório


Pelo menos 325 barreiras fluviais obsoletas foram removidas na Europa em 2022, um novo recorde, segundo um relatório da organização “Dam Removal Europe”.

A remoção de 325 barreiras desnecessárias e prejudiciais à natureza representou um aumento de 36% em relação ao recorde do ano anterior, indica a organização, uma coligação de sete organizações internacionais.

As barreiras foram removidas em 16 países europeus, na maior parte dos casos represas, quase sempre antigas e obsoletas e sem a remoção representar grandes custos.

A organização atribui o grande número de remoções a novas oportunidades de financiamento disponíveis, como o “Open Rivers Programme”, os esforços coordenados de autoridades públicas para divulgar a informação e uma maior sensibilização para o problema.

Espanha é o país europeu que mais barragens removeu, seguindo-se a Suécia e a França. O Luxemburgo registou a primeira remoção de barragens. Portugal não tem expressão nesta matéria.

Os responsáveis da organização referem a proposta da Comissão Europeia para uma lei da Restauração da Natureza para afirmar que é importante continuar a destacar a remoção de barragens como uma ferramenta crucial para a restauração de ecossistemas. A Estratégia para a Biodiversidade 2030 quer libertar pelo menos 25.000 quilómetros de rios europeus.

A remoção de barreiras também contribui para o Desafio Global da Água Doce, de restaurar 300.000 quilómetros de rios degradados até 2030, um objetivo lançado na Conferência das Nações Unidas sobre a Água, realizada em Nova Iorque em março passado.

Os ecossistemas de água doce enfrentam problemas de poluição, degradação de habitats, exploração excessiva de recursos naturais e também de excesso de obstáculos, como barragens e açudes, que prejudicam a biodiversidade mas também as comunidades que dependem dos cursos de água.

Mais de 1,2 milhões de barreiras fragmentam os rios europeus, sendo muitas delas estruturas abandonadas (pelo menos 150.000 segundo a organização internacional WWF). Essas barreiras impedem as migrações de peixes de água doce, cujas populações sofreram na Europa um declínio de 93% (76% a nível mundial).

A “Dam Removal Europe” junta as organizações “World Wide Fund for Nature” (WWF), “The Rivers Trust”, “The Nature Conservancy”, “The European Rivers Network”, “Rewilding Europe”, “Wetlands International”, e “World Fish Migration Foundation”.

Na semana passada o ministro do Ambiente disse que o programa de recuperação da rede hidrográfica vai incluir um plano nacional de remoção de barreiras obsoletas nos rios portugueses, contando com a colaboração das organizações não-governamentais na identificação das prioridades.

Duarte Cordeiro falava numa sessão que decorreu na margem do rio Alviela, em Vaqueiros, no concelho e distrito de Santarém, que se seguiu à remoção de um antigo açude que impedia o curso livre do rio, no âmbito de um projeto da organização não-governamental (ONG) Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), financiado pela fundação suíça MAVA.

A responsável pelo projeto “Rios Livres”, do GEOTA, Catarina Miranda, afirmou na altura que se estima em cerca de 30.000 as barreiras à conectividade fluvial em Portugal, muitas delas obsoletas, apelando para que, a exemplo do que acontece em outros países da Europa e do mundo, Portugal inicie um programa de remoção de pequenos açudes a grandes barragens “que já não têm nenhum papel atual, nem económico, nem social, nem cultural”.

Em março, a associação ambientalista ANP/WWF lançou uma petição pública para pedir ao Governo prioridade na remoção de barreiras desnecessárias em rios e atenção ao restauro fluvial.

Na altura a associação procedeu à primeira remoção de uma barreira fluvial obsoleta, o açude de Galaxes, no concelho de Alcoutim.

O relatório da “Dam Removal Europe” do ano passado indicava que em 2021 foram removidas 239 barragens em 17 países europeus.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

AAE do Plano de Gestão da Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve está em consulta pública


A Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) dos Planos de Gestão de Região Hidrográfica (PGRH) e dos Riscos de Inundações (PGRI) da Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve está a ser alvo de discussão pública desde ontem, 2 de Fevereiro, e até dia 15 de Março.

Os Planos de Gestão de Região Hidrográfica (PGRH) e os Planos de Gestão dos Riscos de Inundações (PGRI) estão sujeitos ao processo de AAE, uma vez que se enquadram no setor da gestão das águas.

A participação dos interessados nesta fase de discussão pública de ambos os planos pode ser feita através do portal Participa.pt, clicando aqui. É neste local que está disponível toda a documentação que permitirá fazer a avaliação.

O PGRH das Ribeiras do Algarve (RH8) para o período 2022-2027 (3º ciclo de planeamento), define as medidas necessárias para se alcançarem os objetivos ambientais, ou seja, atingir o bom estado ou o bom potencial das massas de água.

O Resumo Não-Técnico esclarece que o PGRI das Ribeiras do Algarve para o período 2012-2027 (2º ciclo de planeamento) «foi desenvolvido em estreita articulação com o PGRH e, atento ao expresso na Diretiva Inundações, procedeu à identificação das zonas críticas, à elaboração das respetivas cartas das zonas de inundação e de risco de inundação e as respetivas medidas de prevenção, preparação, proteção e recuperação em relação aos efeitos das inundações».

A Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve – RH8 tem uma área total de 5 511 quilómetros quadrados (km2) , integra as bacias hidrográficas das ribeiras do Algarve incluindo as respetivas águas subterrâneas e águas costeiras adjacentes.

A RH8 engloba total ou parcialmente 18 concelhos, sendo que 10 estão totalmente englobados na RH e 8 estão parcialmente abrangidos.

Os concelhos totalmente abrangidos são Albufeira, Aljezur, Faro, Lagoa, Lagos, Monchique, Olhão, Portimão, Silves, Vila do Bispo, enquanto os parcialmente abrangidos são Almodôvar, Odemira, Ourique, Castro Marim, Loulé, S. Brás de Alportel, Tavira e Vila Real Santo António.


Os principais cursos de água da região hidrográfica nascem nas serras de Monchique e Espinhaço de Cão, a Ocidente, e na do Caldeirão no setor Nordeste, sendo o mais importante o rio Arade.

Os documentos em discussão assinalam que «a maioria dos cursos de água possui um regime torrencial com caudais nulos ou muito reduzidos durante uma parte do ano, correspondente ao período de estiagem».

O rio Arade, com nascentes na Serra do Caldeirão, alinha-se no contacto entre a serra xistenta e o barrocal calcário na região de Silves.

A ribeira de Algibre abrange, praticamente em toda a sua extensão formações calcárias, segue a direção leste-oeste, aproveitando o alinhamento da falha de Alportel, escoando para oeste até à confluência com a ribeira de Quarteira.

A ribeira de Alportel, à semelhança da ribeira de Algibre, apresenta um trecho extenso alinhado na direção oeste-leste.

A ribeira de Odelouca, que nasce na Serra do Caldeirão, após um trecho inicial com orientação leste-oeste, com vertentes vigorosas talhadas na superfície xistenta, inflete para sudoeste para contornar a Serra de Monchique e no trecho final escoa para sul em direção ao estuário do rio Arade.

Cerca de 15 quilómetros antes da confluência com o rio Arade, o vale alarga consideravelmente, embora mantenha as vertentes de declive acentuado. Esta ribeira atravessa, na maior parte da sua extensão, formações xistentas.



No que diz respeito ao Plano de Gestão da Região Hidrográfica do Ribeiras do Algarve, neste 3º ciclo foi feita a atualização da caraterização da RH8, nomeadamente ao nível da delimitação das massas de água (superficiais e subterrâneas), zonas protegidas, pressões significativas, avaliação do estado das massas de água, disponibilidades e necessidades de água.

Foram identificadas 81 massas de água superficiais (das quais 72 são naturais, 8 são fortemente modificadas e 2 artificiais) e 25 massas de água subterrâneas.
As principais pressões, como se pode ver na tabela seguinte, estão as 57 rejeições de ETAR urbanas, das quais 63% resultam de tratamento mais avançado secundário. Ou seja, 43% ainda não têm este tipo de tratamento.

Há ainda as águas rejeitadas pela produção e culturas de produtos hortícolas no Sotavento algarvio, que representa 87% da carga total das rejeições pela indústria alimentar.

Segundo os dados do Plano, a situação é mais significativa na a sub-bacia do Sotavento, que «é a mais pressionada [em todo o Algarve] pelas rejeições da indústria alimentar e do vinho, com 97% da carga total rejeitada».

Quanto aos impactos do Turismo e das atividades a ele ligadas, a «sub-bacia do Barlavento é a mais pressionada», já que o setor das atividades desportivas, de diversão e recreativas, que inclui parques aquáticos e temáticos e autódromo, contribui com 72% da carga total rejeitada pelos empreendimentos turísticos.

Em termos de água captada para vários fins na Bacia das Ribeiras do Algarve, «67% do volume captado é para a agricultura e 22% para o abastecimento público».


A bacia sobre ainda muitas «pressões hidromorfológicas», que passam pela «implantação de obstáculos, alteração do regime hidrológico e modificações nas caraterísticas físicas das massas de água superficiais», em resultado da existência de «2712 barragens e açudes, das quais 9 são grandes barragens (altura > 15m); 9 alterações do leito e margens (8 regularizações e 1 canalização); 3 dragagens e 1 alimentação artificial de praia; 43 intervenções costeiras (das quais se destacam 14 esporões, 14 molhes, 7 pontões e 1 quebramar); 27 estruturas de apoio à navegação em águas de transição e costeiras; 357 pontes e 27 viadutos; 109 diques e 165 comportas; 10 entubamentos; 3 instalações portuárias».

No que diz respeito às pressões biológicas, os documentos identificam 50 espécies exóticas, das quais 42 são invasoras. A sua maioria pode ser encontrada nas águas interiores (37 espécies exóticas, todas invasoras), destacando-se a presença da cana, do lagostim-vermelho-da-Luisiana, da perca-sol e da gambúsia.

Quanto ao estado das massas de água superficial existentes nesta RH, constata-se que cerca de 62% apresentam um estado global Bom e Superior e cerca de 38% apresentam um estado global Inferior a Bom.

No que concerne aos rios, 61% deles são classificados com estado global Bom e Superior. As albufeiras, por seu lado, apresentam, na sua totalidade, estado global Bom e Superior.


Mais preocupante é que 62,5% das massas de água subterrânea (aquíferos) apresentam um estado global Medíocre, como se pode ver na figura acima. Os aquíferos da chamada Campina de Faro e Querença-Silves estão bastante afetados.

Quem quiser analisar os documentos e participar nesta Avaliação Ambiental Estratégica dos Planos de Gestão de Região Hidrográfica (PGRH) e dos Riscos de Inundações (PGRI) da Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve, pode clicar aqui para aceder ao portal Participa.pt.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Movimento aponta problemas na gestão da região hidrográfica do Tejo

Créditos: José Freitas

O movimento proTEJO alertou hoje para vários problemas presentes no plano de gestão da região hidrográfica do Tejo e das ribeiras do Oeste, alegando, entre outros pontos, que a estratégia nada refere sobre um regime de caudais ecológicos.

No âmbito da discussão pública daquele plano de gestão para 2022/2027, que terminou a 30 de dezembro, o Movimento pelo Tejo -- proTEJO apresentou várias propostas e críticas ao documento, nomeadamente, a favor da eficiência no uso da água e a restauração da biodiversidade "com rios livres e caudais ecológicos".

Em nota de imprensa enviada à agência Lusa, aquele movimento realça que a versão provisória do plano de gestão "nada refere" e nem apresenta "uma meta cronológica para a implementação de um regime de caudais ecológicos em cumprimento da Diretiva [europeia] Quadro da Água, quanto às afluências do rio Tejo de Espanha", submetendo-se aos caudais mínimos estabelecidos na Convenção da Albufeira, "que são ilegais à luz desta diretiva comunitária", por terem sido estabelecidos administrativamente por Portugal e Espanha.

"A prioridade de melhoria dos caudais do rio Tejo deve centrar-se no cumprimento da Diretiva Quadro da Água com negociações com Espanha", realçou o movimento.

O proTEJO defende também a rejeição de novas pressões com origem na construção de barragens e açudes e a implementação rápida de "um projeto de remoção e adaptação de barragens e açudes obsoletos, inoperacionais ou para as quais existam soluções alternativas à sua utilização".

No comunicado, é salientado que o plano de gestão não dá nota das pressões "significativas que dizem respeito às espécies piscícolas autóctones de água doce, em especial, às espécies migratórias, sendo conhecido que as populações monitorizadas de peixes de água doce migratórios diminuíram na Europa em média 93%".

O movimento destaca também que, na área de gestão dos riscos, o documento não considera como questão significativa "a contaminação radiológica, ignorando os riscos de acidente nuclear do prolongamento da vida útil da Central Nuclear de Almaraz até 2028 e o conteúdo dos relatórios do Laboratório de Proteção e Segurança Radiológica do Campus Tecnológico Nuclear do Instituto Superior Técnico que têm vindo a reconhecer que existem níveis de radioatividade artificial no rio Tejo superiores aos que naturalmente são observados noutros rios (Zêzere, Mondego e Douro)".

Apesar de reconhecer uma evolução positiva na qualidade técnica e transparência do plano de gestão, o proTEJO frisou que as medidas previstas no documento só poderão ser executadas com meios financeiros suficientes, recordando que o anterior ciclo do plano de gestão foi marcado por um grau de execução e cumprimento das metas "muito aquém do previsto".

Ver Alegações do proTEJO à versão provisória do plano da gestão da região hidrográfica do Tejo e das ribeiras do Oeste de 2022/2027 do 3º ciclo de planeamento

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Mais uma ecoparolice - Passadiços do Mondego


“Haverá um antes e um depois dos passadiços”, garante o presidente da autarquia. Abrem no domingo, dia 6, e incluem travessias, pontes suspensas, cascatas, levadas... Veja as primeiras imagens.

Os Passadiços do Mondego, no concelho da Guarda, integrados no Parque Natural da Serra da Estrela e no Estrela Geopark Mundial da UNESCO, vão abrir ao público no domingo, anunciou a Câmara Municipal.

Em comunicado, a autarquia informou que a inauguração dos Passadiços do Mondego “será no domingo, pelas 12h30 e contará com a presença da ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa”.

“Garanto-vos que haverá um antes e um depois dos Passadiços do Mondego. Este é um investimento fundamental para o Turismo da Guarda e para toda a região. Esta obra será a referência para o turismo e lazer do nosso concelho e de todo o nosso território, com a qual poderemos pensar positivamente no seu sucesso futuro”, referiu o presidente da Câmara, Sérgio Costa.

Segundo aquele responsável, a Guarda “está pronta para começar a sua viagem para o sucesso na atracção do turismo e da actividade económica a nível nacional e internacional”.

Com um percurso pelas margens do rio Mondego e os seus afluentes de cerca 12 quilómetros, os passadiços começam junto à barragem do Caldeirão, estendendo-se depois pelo vale do Mondego, nos territórios das localidades de Trinta, Vila Soeiro e terminando já na montanha, em Videmonte.

“O percurso aproveita cinco quilómetros de caminhos já existentes e integra uma zona de sete quilómetros de travessias, passadiços e três pontes suspensas com paisagens de cortar a respiração e onde abundam as veredas, açudes, cascatas, levadas e moinhos”, salientou o município.

Os Passadiços do Mondego estão integrados no Parque Natural da Serra da Estrela e no Estrela Geopark Mundial da UNESCO.

O seu itinerário compreende geossítios como o Miradouro do Mocho Real, escombreiras e cascalheiras do Alto Mondego e ainda os vestígios de património industrial de antigas fábricas e engenhos de lanifícios ou de produção de electricidade (na aldeia de Trinta), “testemunhos de um passado ligado à indústria têxtil deste território, onde teve origem o afamado cobertor de papa”.

Também abrange “vestígios mais antigos como uma ponte medieval (entre Pêro Soares e Mizarela) que se acredita ter surgido sobre uma ponte já existente da época romana”.

No percurso, há “muito para descobrir e aprender” num local “onde se pode ver a Natureza em harmonia com a passagem humana pela paisagem”.

“Esta é uma obra de valorização do património natural da Guarda que pretende mostrar a importância deste rio para a região e para o país, destacando o valor cultural e paisagístico das aldeias de montanha que atravessa”, referiu o município.

Os Passadiços do Mondego representam um investimento na ordem dos quatro milhões de euros, em parte co-financiados a 85% por fundos europeus, no âmbito do Centro 2020, FEDER.

Em Maio, durante uma visita ao local, o presidente da Câmara Municipal da Guarda, que considerou os Passadiços do Mondego como os “mais bonitos do país”, adiantou que iriam abrir ao público no verão.

No entanto, segundo Sérgio Costa, tal não aconteceu devido a factores que atrasaram a execução das obras, como o período crítico de incêndio.

O autarca também informou, no final da reunião do executivo municipal do dia 10 de Outubro, que “apenas no dia 29 de Setembro” ficou concluída a regularização da titularidade dos terrenos abrangidos.

domingo, 13 de março de 2022

Projeto do CEF vai pela primeira vez quantificar impacto das barragens europeias na conectividade fluvial


O projeto Dammed Fish (Impacto da perda de conectividade estrutural e funcional de redes hidrográficas na biodiversidade piscícola – otimizando soluções de gestão) vai, pela primeira vez, quantificar o impacto de todas as barragens da Europa na conectividade fluvial Europeia.

Liderado pelo Centro de Estudos Florestais (CEF) do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em conjunto com parceiros internacionais, o projeto vai produzir “ferramentas gratuitas” para que os gestores possam identificar qual o “melhor cenário de restauro, em cada bacia hidrográfica, de modo a maximizar a conectividade para as várias espécies de peixes”, reduzindo os “custos de intervenção” e a “perda de serviços de ecossistema resultante das barreiras”, explica o Centro, num comunicado.

O Dammed Fish é um projeto que se alinha com várias estratégias e diretivas Europeias, pelo que a equipa espera poder contribuir decisivamente para uma “melhor gestão das bacias hidrográficas e influenciar as futuras políticas da Europa sobre conectividade fluvial e conservação da biodiversidade piscícola”, lê-se no mesmo comunicado.

De acordo com o CEF, os rios ocupam menos de 1% da superfície terrestre e contêm apenas 0,01% de todo o volume de água presente no planeta. No entanto suportam cerca de 9,5% de todas as espécies animais conhecidas e quase 50% de todos os peixes, tendo, por isso, uma importância desproporcional para a manutenção da biodiversidade global.

O desenvolvimento das sociedades humanas teve sempre uma ligação estreita aos sistemas de habitas com água doce, que foram ficando cada vez mais impactados por pressões de origem antropogénica.

De todas estas pressões, a “construção de barragens e açudes”, que fragmentam os rios, é considerada a pressão que “afeta mais espécies de peixes a nível europeu”, influenciando “75% de todas as espécies de peixes ameaçadas” na Europa, refere o centro, acrescentando que, estas barreiras, além de muitos outros efeitos, “não permitem que os peixes se desloquem ao longo do rio, impedido a reprodução com sucesso de muitas espécies”.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Proteger os Ecossistemas de Água Doce

Os ecossistemas aquáticos de água doce são dos habitats mais ameaçados do planeta. O engenheiro florestal Amílcar Teixeira, investigador do CIMO, tenta preservar a qualidade dos rios e ribeiras nacionais, combatendo as grandes ameaças que sobre eles pairam.




O Homem está na origem dos grandes problemas que ensombram a conservação dos nossos rios e ribeiras. A qualidade da água é colocada em causa pelo excesso de poluição e pela enorme quantidade de material orgânico; a pesca excessiva tem um importante impacto predatório sobre os peixes, crustáceos e bivalves mais raros; a introdução de espécies exóticas compete ferozmente e contribui para a aniquilação das espécies autóctones. Como se isso não fosse suficiente, a construção de barragens e açudes muda a natureza das linhas de água, impede migrações e destrói habitats sensíveis.

Todos estes temas estão na agenda de Amílcar Teixeira. Sediados em Montesinho, em pleno Parque Natural, este investigador e a sua equipa do CIMO - Centro de Investigação da Montanha multiplicam-se em estudos de ecologia e de gestão destas áreas vulneráveis. Uma das suas riquezas é a Biodiversidade que albergam - um património natural, que presta serviços essenciais ao planeta e à Humanidade. Um simples mexilhão de água-doce, espécie atualmente muito ameaçada, pode filtrar 50 litros de água por dia. Sem a ajuda de químicos ou de substâncias industriais. Por isso, quando os troços dos rios de montanha eram cobertos por colónias deste mexilhão, a sua água não podia ser mais pura. E este é apenas um exemplo, que se pode multiplicar por toda a frágil cadeia ecológica.

Mesmo nos mais recônditos espaços de montanha, já não encontramos habitats verdadeiramente selvagens. Todos os ecossistemas sofreram alterações provocadas pela presença humana. Mas em locais como o Parque Natural de Montesinho, e em muitas outras áreas protegidas, a Natureza e o Mundo Rural podem e devem coexistir. Depende dos decisores políticos, centrais e locais, a definição de medidas que permitam a conciliação entre a conservação da Natureza e as atividades económicas, como a agricultura, a caça, a pesca e o lazer. Graças ao trabalho dos investigadores, como Amílcar Teixeira, sabemos qual a capacidade de carga desses espaços, como podem ser usufruídos de forma equilibrada e como devemos preservar o património natural que ainda guardam - e que é essencial para combatermos as alterações climáticas em curso.


terça-feira, 23 de março de 2021

Má planificação e gestão de barragens e canais é “fatal para muitas espécies”


A má planificação e gestão de estruturas como barragens, canais, lagos artificias e arrozais é “fatal para muitas espécies”, sendo necessário encontrar “melhores formas de gestão” daquelas construções para “mitigar impactos na fauna e flora”, alerta um estudo.
Em comunicado enviado hoje à Lusa, a Universidade do Minho (UMinho) refere um estudo coordenado por um dos seus investigadores, Ronaldo Sousa, que alerta para o facto de que os “habitats artificiais de água doce podem tornar-se armadilhas ecológicas devido a gestão danosa ou falta de condições para certas espécies”.
O estudo, publicado na revista científica Global Change Biology, envolveu 36 autores de 22 países e analisou 228 espécies presentes em habitats artificiais distribuídos por todo o mundo.
A UMinho explica que “muitos ambientes naturais do globo são destruídos e substituídos por lagos artificiais, canais, barragens e arrozais, para servir necessidades humanas, como a produção de eletricidade ou alimentos”.
Segundo o texto, o estudo acerca da biodiversidade naquelas estruturas “tem sido negligenciado a nível internacional”, sendo que este trabalho encabeçado por Ricardo Sousa, do Centro do Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da UMinho, recolheu uma amostra de 709 registos de habitats artificiais de todo o mundo, colonizados por 228 espécies de mexilhões de água doce, um grupo de organismos altamente ameaçado.
A maioria dos exemplos inclui canais e barragens da Europa e América do Norte, sendo que um total de 34 espécies registadas são consideradas ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
O investigador explica no texto que “alguns daqueles refúgios artificiais podem ter condições com estabilidade suficiente para um grande número de espécies, incluindo invertebrados e vertebrados como peixes, anfíbios, aves e mamíferos”.
Porém, alerta, “outros refúgios podem funcionar como armadilhas ecológicas, devido a más práticas de gestão ou por não haver condições ambientais para determinadas espécies”.
Ronaldo Sousa aponta que “as grandes barragens são altamente prejudiciais para animais que preferem viver em zonas de corrente, levando em alguns casos ao seu desaparecimento” e, por outro lado, canais de rega podem ser sujeitos a atividades de manutenção ou limpeza, que requerem a retirada de sedimento ou o esvaziamento temporário da água naquelas estruturas.
“Este tipo de ações pode levar à morte de grande parte dos organismos aquáticos”, salienta Ronaldo Sousa, reforçando que “os habitats artificiais não devem ser vistos como uma panaceia para resolver os problemas de conservação da biodiversidade”.
O estudo defende ser “necessário perceber melhor o uso humano daquelas estruturas e o seu valor, para se preservar certas espécies e encontrar as melhores formas de gestão que mitiguem impactos na fauna e flora”.
A Universidade do Minho lembra que também em Portugal há habitats artificiais colonizados, como canais de moinhos antigos com uma grande diversidade de organismos, incluindo o mexilhão de rio (Margaritifera margaritifera), “espécie criticamente ameaçada na Europa”.
Em termos de gestão, lê-se, “há um bom exemplo na mini-hídrica de Mirandela, no rio Tua, cujos trabalhos de manutenção em 2018 incluíram a monitorização das populações de bivalves e peixes” e que os indivíduos que ficavam em risco eram translocados para águas mais profundas.
Por outro lado, refere a universidade, em 2017 uma ação de manutenção num açude em Vila Real, no rio Corgo, deixou os animais sem água, levando à sua morte.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Novo estudo alerta para fraca qualidade ecológica e perda de biodiversidade dos rios em todo o mundo



Uma equipa de 29 peritos de todos os continentes, liderada por Maria João Feio, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), fez o ponto da situação sobre a qualidade ecológica dos rios no mundo e as notícias não são boas.

O estudo, que abrangeu 88 países, revela fraca qualidade ecológica dos rios em todo o mundo e a sua elevada perda de biodiversidade. Cerca de metade dos troços ou rios analisados encontra-se abaixo do nível aceitável na Europa e nos Estados Unidos, um terço na Austrália e um quarto na Coreia do Sul.

Uma das consequências da fraca qualidade ecológica dos rios «é uma perda muito elevada de biodiversidade. Por exemplo, na Nova Zelândia 70% das espécies de peixes de água doce estão em perigo, enquanto no Japão 40% estão ameaçadas. Noutros países a monitorização físico-química mostra um grau de poluição muito elevado que põe em risco a saúde humana», assinala Maria João Feio no artigo científico publicado na revista Water, intitulado “The Biological Assessment and Rehabilitation of the World’s Rivers: An Overview”.

Os cientistas avaliaram também o estado de implementação da biomonitorização dos rios, ou seja, a avaliação dos rios com base nas comunidades aquáticas – por exemplo, peixes, invertebrados bentónicos, algas ou outras plantas –, e as medidas que estão a ser tomadas para os recuperar, tendo concluído que, «na maioria dos países do mundo, a monitorização biológica dos rios de forma regular não está a ser feita. Numa grande parte dos países existe, no máximo, uma análise físico-química da água o que é insuficiente para traduzir a degradação destes sistemas resultantes das ações humanas (tais como a artificialização das margens, corte de vegetação, presença de espécies não nativas e espécies invasoras, açudes e barragens que alteram a circulação da água, sedimentos e espécies ao longo das bacias hidrográficas)», expõe Maria João Feio.

Em relação à implementação de medidas de reabilitação dos rios, o panorama também não é animador. Segundo os autores do estudo, «apesar de existirem bons exemplos, tanto na Europa (principalmente no norte) como nos Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, concluímos que a este nível muito pouco tem sido feito a nível global».

«Se recuperados, os rios podem fornecer serviços muito importantes às pessoas, desde o fornecimento de água e alimento, e contribuir para a melhoria da qualidade do ar, do solo, a mitigação de extremos climáticos e ainda proporcionar zonas de lazer essenciais ao bem-estar humano», comenta a investigadora da FCTUC.

No que respeita aos rios portugueses, Maria João Feio diz que seguimos o padrão europeu, «com cerca de metade das massas de água analisadas em bom estado ecológico. E temos situações muito críticas ao nível dos grandes rios que estão muito alterados por barragens. Em todo o país, existem ainda casos de poluição pontual e difusa e também fortes alterações na vegetação ribeirinha, que é essencial tanto para o funcionamento do ecossistema aquático como para melhorar a qualidade do ar e do solo e filtrar as águas de escorrência que vão ter aos rios».

Tendo em vista a melhoria da qualidade dos rios, a equipa internacional de peritos produziu ainda um conjunto de recomendações, destacando-se, por exemplo, «a necessidade de definição de objetivos ecológicos realistas e claros para os planos de reabilitação/restauro; a obrigatoriedade de fazer planos de reabilitação/restauro ecológico com base em dados recolhidos, a priori, em programas de monitorização e fazer o acompanhamento desses planos também com monitorização ecológica».

Os especialistas defendem ainda a necessidade da criação de equipas interdisciplinares na elaboração dos referidos planos – cientistas conhecedores dos ecossistemas, engenheiros e ainda cientistas sociais –, de modo a «permitir envolver todos os tipos de utilizadores da água (população, indústria, decisores) num objetivo comum. É ainda essencial existir financiamento adequado e que a recuperação dos rios seja colocada nas prioridades políticas nacionais e internacionais».

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Plano Nacional de Barragens vai custar ao Estado (e a todos nós) 16 mil milhões de euros, vão produzir 0% de energia líquida e vamos ter a factura mais cara da Europa!



Outras consequências
Barragens de rios provocam erosão no litoral
As barragens de rios - tanto as que servem a hidrelétricas quanto as que têm a função de manter açudes em ambientes áridos - impactam a zona costeira a quilómetros de distância de onde foram construídas. É o que prova um estudo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, que ganhou neste ano o Prêmio Fundação Bunge no tema Oceanografia. "Quando se constrói uma barragem, parte dos sedimentos que o rio levaria para o mar acaba ficando no mesmo lugar. Estima-se que hoje em dia os oceanos recebam apenas 50% dos sedimentos transportados há 100 anos, antes da construção das grandes represas", afirma Luiz Drude de Lacerda, pesquisador que trabalha na bacia do Rio Jaguaribe, que corta 70% do Ceará e tem 87 reservatórios de água. 
Esse material deveria repor o alimento das espécies marinhas e substituir parte do terreno que é engolido pela ação do mar. Por isso, Drude defende que os relatórios de impacto ambiental de barragens considerem também os ecossistemas marinhos onde os rios afetados desaguam. Fonte: Estadão Brasil

sábado, 5 de maio de 2007

Dossiê Água, Rios e Lagos

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Dados de 2004

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domingo, 20 de junho de 2004

Como evitar os riscos de erosão induzidos pelos incêndios florestais



EVITAR OS RISCOS DE EROSÃO INDUZIDOS PELOS INCÊNDIOS FLORESTAIS
- 6 MEDIDAS PREVENTIVAS -



A primeira reacção a uma catástrofe como os fogos florestais que assolaram o país nas últimas semanas tende a ser a elaboração de grandes planos de recuperação das áreas ardidas.
Muitos desses planos nunca são implementados, caindo rapidamente no esquecimento há medida que a época de incêndios termina e os fogos deixam de ser um acontecimento mediático. No entanto, as medidas mais imediatas a implementar no terreno são por regra esquecidas.

A LPN - Liga para a Protecção da Natureza vem apresentar, uma vez mais, soluções concretas para o problema dos fogos florestais e das suas consequências.

Os incêndios florestais acarretam problemas secundários graves que se propagam no tempo.
Um dos principais está relacionado com a erosão do solo (desprotegido após o incêndio florestal) durante a época de chuvas. Apesar disso, é geral o desconhecimento por parte de muitos produtores florestais e mesmo entidades públicas sobre as medidas adequadas para prevenir ou minimizar os efeitos de erosão e perca de solo.
Muitas dessas medidas são de fácil implementação no terreno e algumas, podem e devem ser tomadas durante o processo de corte da madeira queimada. Para isso é necessário que as diversas entidades envolvidas reconheçam que o investimento a este nível mais do que justifica os benefícios que daí advêm. O esforço de alguns meses não pode ter comparação com a duração da formação de solo, medida em milhares de anos. O que for perdido hoje não poderá tão cedo ser recuperado.

O problema da erosão e da perca de solo não toca apenas a cada um dos muitos proprietários florestais portugueses que por si, trabalhando isoladamente, pouco poderão fazer para evitar tais riscos. O solo, como a floresta, é um bem de todos. É urgente e imperioso o envolvimento de todas as entidades com responsabilidade na gestão do território para a resolução deste problema.

A LPN acredita que só com o esforço concertado de proprietários, associações de produtores florestais, Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Direcções Regionais de Agricultura, entre outros, se poderá evitar ou minimizar uma segunda catástrofe no início deste Inverno.
Uma catástrofe silenciosa e menos mediática que os fogos que a causam mas que pode, deve e tem, a todo o custo, que ser evitada!

Já agora, valia a pena pensar nisto...

A média de formação de solos de xisto, (solos típicos de muitas das áreas mais afectadas), prevendo-se uma erosão nula, é de:

0,03 a 0,05 cm / ano

0,3 a 0,5 cm / 10 anos

3 a 5 cm / 100 anos

30 a 50 cm / 1000 anos !!!

Um solo ideal para actividades de produção demora cerca de 7 mil anos a formar-se!!!


6 MEDIDAS PREVENTIVAS

Os riscos de erosão depois de um fogo dependem essencialmente de três factores:

declive dos terrenos afectados;

natureza geológica e pedológica do terreno;

intensidade das chuvas (particularmente as primeiras) que se seguem aos incêndios;

A intensidade das primeiras chuvas de Inverno é determinante nos efeitos erosivos ao nível do solo. Uma grande chuvada inicial terá efeitos catastróficos. Por outro lado, uma pluviosidade menos intensa favorecerá o estabelecimento de uma primeira vegetação de cobertura que diminuirá o efeito da erosão.

1. BOAS PRÁCTICAS FLORESTAIS
A primeira intervenção situa-se ao nível dos trabalhos de corte da madeira queimada. Há alguns cuidados básicos que podem e devem ser seguidos pelas empresas que procederam ao corte da madeira queimada:

- Cortar apenas o que não tem viabilidade de regenerar.
Sempre que possível deixar em pé o arvoredo afectado mas com capacidade de resistir. Neste caso atenção particular às quercíneas (Carvalho-negral, sobreiro, azinheira, carrasco).

- Cuidados a ter com a rechega (arrastamento dos toros).
Esta é a operação que mais problemas causa dado implicar a movimentação de equipamentos pesados com rodados que sulcam o solo (uns mais que outros) e o arrastamento dos toros cortados. Geralmente é efectuada de vários pontos de uma encosta para um único local de carregamento, criando situações com desenho próximo do "pé de galinha" onde os problemas de erosão são fortemente agravados. As movimentações de maquinaria sobre o terreno devem se restritas ao essencial e de modo a evitar configurações de sulcos que promovam um maior escoamento da água.

2. CRIAÇÃO DE BARREIRAS COM A VEGETAÇÃO
A vegetação queimada que após o corte é deixada no terreno pode ser aproveitada para a criação de barreiras ao escoamento da água. Usando, por exemplo, dois toços adjacentes de pinheiro como pontos de apoio, os ramos podem ser dispostos entrecruzados, como uma vedação, usando ramos mais resistentes como pontos de apoio intermédios.

3. ABERTURA DE VALAS DE RETENÇÃO
Estas valas devem ser abertas, sempre que possível, ao longo das curvas de nível à semelhança de socalcos. O seu fundo deve ser recoberto com pedras ou restos de material vegetal queimado de modo a aumentar o atrito, reduzindo assim a velocidade de escoamento da água e, logo, o seu efeito de erosão. A sua dimensão deve ser relacionada com o grau de pluviosidade prevista para a área.

4. CONSTRUÇÃO DE AÇUDES DE RETENÇÃO
O sistema de valas descrito anteriormente pode ser desenhado de modo a desaguar em pequenos açudes de retenção. Nestes pequenos charcos a água acumulada terá possibilidade de se infiltrar no solo.
A taxa de infiltração de água poderá ser grandemente aumentada com a plantação de espécies adaptadas a zonas húmidas (como o junco ou a tábua), facilmente transplantáveis.
A LPN chama, no entanto, à atenção para o facto da recolha destas plantas não dever ser feita em locais de vegetação depauperada ou em áreas protegidas e nunca de uma forma uniforme numa dada área. Deve-se sim acautelar a possibilidade de regeneração da vegetação deixando sempre muito mais do que aquilo que é retirado.

5. VALAS DE DRENAGEM COM BARRAGENS DE CORRECÇÃO TORRENCIAL
Nas linhas de escorrimento ou nas valas abertas para drenagem podem ser espaçadamente construídas barragens de correcção torrencial de construção básica, do tipo dois toros de suporte e tábuas para barrento do curso de água. A construção e dimensão destas barragens deve ter em linha de conta o caudal específico da linha de água dado que o que se pretende não é barrar de todo o escorrimento da água mas apenas retardar no tempo esse escorrimento evitando caudais tumultuosos e mantendo um fluxo de água mais ou menos regular.

6. SEMEAR ÀS PRIMEIRAS ÁGUAS
Efectuar, se possível, uma sementeira de pasto às primeiras chuvas, espalhando as sementes na zona afectada pelos fogos. Onde exequível, a sementeira aérea é de extrema eficácia. O pasto, que rapidamente crescerá, ajudará a consolidar o solo.


A Direcção Nacionalda da Liga para a Protecção da Natureza

Para mais informações:
Liga para a Protecção da Natureza - Estrada do Calhariz de Benfica, 187 - 1500-124 Lisboa
José Manuel Alho 217 780 097

Foto da ESA