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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Caoilfhionn Rose - Canyons


A atuação ao vivo de "Canyons" pela cantora e compositora britânica (com raízes familiares irlandesas e sediada em Manchester) Caoilfhionn Rose transmite uma beleza singular ao despir-se de artifícios de produção, apostando plenamente na atmosfera, na geografia e na textura sonora. Gravado numa encosta remota junto ao Loch Cluanie, na Escócia, o vídeo regista um momento puro e autêntico, onde a sua voz e a guitarra acústica azul interagem diretamente com o ar livre. Em vez de recorrer a um estúdio requintado, a atuação apoia-se na acústica natural, no vento ambiente discreto e num cenário vasto e contemplativo que espelha fisicamente os temas da canção sobre distância, espaço e perspetiva.

Musicalmente, a peça cruza o folk tradicional com nuances atmosféricas de dream pop e jazz espiritual, um estilo distintivo associado à sua editora, a Gondwana Records. A sua interpretação vocal leve e delicada cria um contraste íntimo com a imensidão da paisagem escocesa.

Em termos de influências literárias e filosóficas, o tema inspira-se diretamente no livro On Connection do poeta e dramaturgo britânico Kae Tempest, bem como em reflexões de cariz existencialista e estoico sobre a transitoriedade do tempo. A letra aborda o distanciamento emocional - os "desfiladeiros" que se abrem entre as pessoas - não como uma tragédia, mas sim como um lembrete sereno para valorizar o presente e aceitar os ciclos de mudança da vida. A obra destaca-se por parecer menos um videoclipe encenado e mais um registo íntimo e espontâneo capturado em viagem.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza


J.S.Bach : Gigue, BWV 1006, alto recorder 




Video original aqui

O despertar da Consciência Cósmica na música e na natureza
Sob o abóbada de pedra onde as eras repousam em cinza silencioso,
Uma palheta de madeira ganha fôlego e põe a luz a brincar.
O ar transforma-se em melodia, um fio de prata a dançar,
Tecido através da quietude onde o passo sagrado é dado.

A luz do sol jorra pelo arco antigo e encontra o campo aberto,
Onde a terra e o céu cedem num padrão contínuo.
O vento lá fora, o tubo de madeira, o pulsar do coração na sala,
São fios de uma teia profunda que rompe a sombra na penumbra.

Uma criança senta-se perto com olhos tranquilos, atenta em pensamento suave,
O seu espírito unido a cada fio que a graça da música teceu.
Ela não ri, mas escuta profundamente, descansando sem sobressaltos —
Um eu tão vasto como todo o cosmos, fundindo-se com o sonho.

Pois a matéria não é poeira pesada, nem estrutura fria ou sem vida,
Arde em fogo interior, ascendendo em chama.
A Natureza é o espírito visto, uma visão trazida à luz,
E o espírito é a terra silenciosa transformada em luz viva.

Cada nota desdobra uma arquitetura, folha por flor a crescer,
Um fluxo mórfico de harmonia que flui para sempre em liberdade.
A sala expande-se com ar dinâmico, um santuário amplo,
Onde a consciência cósmica desperta e não deixa nenhum coração de fora.

A canção dissolve-se no silêncio, sagrada e completa,
Deixando o universo em louvor onde a terra e o altar se encontram.

João Soares, 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Sopro do Sagrado em Serrabona


O 'Preludio' da suite em mi para violino: é uma das obras mais conhecidas de J.S. Bach, tão popular e maravilhosa que foi transcrita para quase todos os instrumentos. A versão em fá funciona às mil maravilhas na flauta de bisel alto. 
Local: o Prioriado de Serrabona - uma obra-prima do século XI, perdida nas montanhas catalãs perto de Perpignan
A piece  of Bach a day keeps the doctor away

O Sopro do Sagrado em Serrabona

Nas pedras seculares de Serrabona,
onde o tempo esquece a pressa dos homens,
a flauta suspende um sopro primordial
e desperta o sagrado no mais fundo.

Não há fronteira entre o templo e a terra,
entre a madeira que vibra e o espaço que ressoa;
a aragem que cruza as serras catalãs
é a mesma que se molda em harmonia.

Pelas mãos do mestre, o génio de Bach
deixa de ser nota e torna-se prece.
Cada frase musical é um degrau de silêncio,
um fio invisível tecido na matéria da vida.

Na memória do granito e no eco que se esvazia,
revela-se uma ordem discreta, um rasgo de luz pura:
auscultar essa arquitetura no cume dos Pirenéus
é sentir o pulso do cosmos na própria rocha.

João Soares, 12.08.2026

Página oficial do flautista 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A relação íntima com a Natureza: porque cuidar do mundo vivo é cuidar de nós


Existe uma ligação afetiva singular entre as pessoas e os ecossistemas que habitam. Uma ligação que se constrói na convivência de todos os dias, na familiaridade com uma paisagem, no reconhecimento dos seus sons, dos seus cheiros, das suas estações. Uma intimidade feita de tempo, de memória e de pertença. E não apenas porque desses lugares retiramos sustento, rendimento ou condições de sobrevivência.

Há algo mais profundo. Algo que não cabe na lógica da utilidade ou do benefício. Há lugares que se tornam parte de nós, tal como nós nos tornamos parte deles. Lugares onde reconhecemos quem somos e aos quais sentimos, quase instintivamente, que devemos cuidado. É dessa pertença que nasce o respeito; e desse respeito, a vontade de proteger. Não por obrigação, mas porque cuidar daquilo a que pertencemos é também uma forma de cuidarmos de nós próprios.

Neste diálogo, tornou-se particularmente evidente o quanto empobrecemos as nossas vidas quando perdemos essa proximidade. Ao afastarmo-nos dos territórios, dos ciclos naturais e das múltiplas formas de vida que nos acompanham, deixámos adormecer qualquer coisa de essencial em nós. Perdemos gestos, memórias, afetos e até palavras. Perdemos, talvez, a capacidade de escutar a poesia que existe na reciprocidade - na consciência simples e profunda de que não estamos perante a natureza, como quem observa algo exterior a si. Somos natureza. Pertencemos a esse mundo vivo e ele também nos habita.

Talvez seja precisamente essa ausência que hoje sentimos; essa erosão lenta e quase imperceptível do encantamento, da proximidade e da pertença. Porque a falta de poesia nas nossas vidas talvez comece aí: no momento em que esquecemos que existe uma relação íntima, ancestral e indivisível entre aquilo que somos e o mundo vivo que nos rodeia.

domingo, 14 de junho de 2026

A Garça de Camurça e Oiro

Papa-ratos (Ardeola ralloides)

Silenciosa, orgulhosa e belamente vestida,
Uma vigia solitária à beira da vala escondida,
Saudando os ventos suaves do arrozal e a luz pálida da manhã,
Sobressaltada pelo passo repentino ou pela sombra de um estranho que passa,
Procurando apenas a poula silenciosa e um ramo isolado para pousar,
Adornada com as suas penas domingueiras de um fino camurça e oiro,
Uma habitante fundida  onde as águas mansas se cruzam com o céu,
Um espírito do caniçal plantado na terra.

João Soares, 14.06.206

sábado, 6 de junho de 2026

Pandora


Pandora

Oculta sob a asa inferior verde-musgo de bosques antigos,
Filha do romper da alva e do cardo aquecido pelo sol,
Que ama o primeiro calor do sol matinal, o néctar doce das flores roxas e a quietude silenciosa antes do voo,
Que suporta o frio diário da sombra matinal, esperando que a luz lhe desperte as asas,
Que deu ao mundo um contraste impressionante de brilhantismo oculto, provando que um exterior modesto pode guardar uma maravilha deslumbrante,
Que anseia manter os seus segredos guardados sob as asas dobradas, mas que inevitavelmente liberta o seu espírito vibrante no ar,
Que traz uma tempestade mítica da história a um campo simples, unindo o abismo entre os contos antigos e a natureza viva,
Residente dos vales banhados pelo sol, para sempre ancorada por um frágil fio de Esperança.

Saber mais sobre Pandora - Mitologia Grega:

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Morcheeba - Sounds Of Blue


Letra
[Verse 1]
A sort of stoned silence
Sat on that boat floating out
The waters left me open
All my emotions fog my lenses
Trusting in a stranger
There's nowhere to run, enjoy it
It's all about the here and now
Illuminate the darkness

[Chorus]
The waves awoke emotive emotions
Whilst resisting this urge to
Breathe as I'm swimming down
Free when I'm sinking down

[Verse 2]
Last breath in, closed eyes
Nose hold, equalize
Pulling down under, bound
Descending, deep ending
Earth, under, found
Free-dive, amplified
Sounds of blue
Floating particles as it falls clear
Don't look up, don't look down
I might drown into you

[Chorus]

[Bridge]
Take it all in to begin with
Don't let it out 'til the surface
Now with a purpose, I'm ascending
So romantic, this is tantric, oceanic
Up, rising, looking into his framed eyes
No surprise why we fall in love with these guys
It went deeper than I dared
I went deeper than I cared
I'm out of air

[Chorus]

A canção "Sounds of Blue", dos Morcheeba, utiliza a prática do mergulho livre (free-diving) — o mergulhar em apneia, sem botijas de oxigénio — como uma metáfora perfeita para a entrega emocional, a vulnerabilidade e a vertigem de se apaixonar. O próprio título do tema introduz uma forte componente sinestésica, fundindo a audição e a visão para traduzir a experiência subaquática: debaixo de água, os ruídos do mundo exterior desaparecem e dão lugar ao bater do coração e ao silêncio ecoante do oceano, criando aquilo que a banda define como os "sons de azul", um estado de espírito que evoca simultaneamente a melancolia do blues e uma paz interior absoluta.

No início da letra, a atmosfera de silêncio e flutuação introduz o desarmamento das defesas da personagem. Ao expressar que as emoções lhe toldam a visão e que decidiu confiar num estranho, a música transporta-nos para aquele momento em que deixamos de resistir e decidimos simplesmente viver o presente. A descida para as profundezas do oceano funde-se com a própria descida ao desconhecido de uma nova relação. Curiosamente, o ato de afundar surge despido de pânico; pelo contrário, transforma-se numa experiência de libertação profunda, onde o desapego e o deixar-se ir trazem uma inesperada sensação de paz e liberdade, mostrando que é preciso silenciar a mente e aceitar a pressão exterior para se conseguir flutuar emocionalmente.

A descrição técnica do segundo verso detalha o ritual que antecede a imersão, remetendo para o foco absoluto e para o estado de transe que tanto o desporto como a paixão exigem. Quando o mundo exterior desaparece e os sentidos se amplificam no azul do mar, a fronteira entre a água e o sentimento esbate-se, culminando na admissão de que a personagem se pode afogar no outro. Na reta final, durante o regresso à superfície, a experiência assume contornos quase transcendentais e sensuais, onde a subida e o reencontro com o olhar do parceiro consolidam a paixão. O desfecho da viagem deixa um aviso subtil: a personagem foi mais fundo do que ousava e acabou sem ar, ilustrando na perfeição o impacto avassalador de um amor que nos tira o fôlego.

Morcheeba é um grupo musical britânico de Londres. A banda estreou-se em 1995, com aquela que é considerada a formação histórica do grupo: Skye Edwards (voz), Paul Godfrey (DJ) e Ross Godfrey (guitarrista e teclista). Tendo-se estabelecido na cena trip hop britânica no final da década de 1990, a sua fama continuou a crescer ao longo do tempo. Ao longo dos seus 20 anos de carreira, abraçaram mais do que um género musical com a utilização de elementos eletrónicos, incorporando elementos de pop rock, rock alternativo e indie rock. O termo "Morcheeba" significa "A Rua da Cannabis" e é composto por "MOR", uma expressão inglesa que indica um género musical semelhante ao smooth jazz, bem como, literalmente, o meio da estrada ("Middle of the Road"), e "cheeba", a gíria para canábis.
Esta canção é do álbum Blackest Blue lançado 2021.



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Biofilia- o cordão vital que esquecemos de cortar

Cartaxo-comum ( (Saxicola rubicola)- macho

A nossa existência não é um fenómeno isolado, mas sim um capítulo indissociável da narrativa biológica da Terra. O ser humano, por mais que se cerque de betão e silício, carrega no seu ADN uma herança ancestral que clama pela proximidade com o mundo natural. Esta interdependência é capturada pelo conceito de biofilia - a nossa tendência inata para procurar ligações com a natureza e outras formas de vida. Como afirmou o biólogo Edward O. Wilson, o proeminente impulsionador deste conceito: 
"A nossa existência depende desta propensão, o nosso espírito tece-se a partir dela, e a esperança nela reside." 
Não se trata de um capricho estético ou de uma nostalgia romântica pelo campo; a biofilia é, em última análise, uma estratégia de sobrevivência. Num mundo que idolatra o betão, a luta pelo domínio dos recursos não renováveis e agora a Inteligência Artificial, insistir na nossa interdependência com o mundo natural é frequentemente ridicularizado como um delírio utópico ou um radicalismo fora de horas. No entanto, o verdadeiro irrealismo reside na crença de que podemos prosperar enquanto cortamos os laços com o sistema que nos mantém vivos. Como Edward O. Wilson alertou, a nossa essência está tecida na biodiversidade. Ignorar este vínculo não é apenas um erro filosófico, é um passo em direção à extinção. 

Quando rotulamos de "radical" quem defende a integração da natureza nas cidades ou a prioridade dos ecossistemas sobre o lucro imediato, estamos a sofrer de uma miopia civilizacional. A biofilia relembra-nos que o impacto ambiental não é um "problema lá fora", mas uma ferida no nosso próprio corpo coletivo. Negar esta ligação é como tentar viver num vácuo: podemos ignorar as leis da biologia por algum tempo, mas a conta acaba sempre por chegar. O vínculo essencial com a Terra não é uma escolha ideológica; é a nossa única apólice de seguro.

A metáfora do "cordão umbilical" é fascinante porque, ao contrário de um nascimento biológico onde o corte simboliza a conquista da independência, na biofilia, o corte simboliza a interrupção do fluxo vital. Se cortarmos essa conexão, não nos tornamos independentes da natureza; tornamo-nos biológica e psicologicamente órfãos de um sistema do qual somos apenas uma engrenagem, o que torna a ideia de "cortar o cordão" não uma evolução, mas um erro de cálculo fatal.

O ser humano moderno comporta-se como um adolescente que declara independência dos pais, mas continua a usar o cartão de crédito e a comer a comida deles. O nosso "cartão de crédito" são os recursos finitos do planeta. Não se trata de um luxo ou de um passatempo de fim de semana, mas sim de um imperativo evolutivo. Se essa ligação for definitivamente rompida, enfrentamos uma degenerescência em várias frentes. Psicologicamente, a humanidade já sofre daquilo que os investigadores chamam de "Perturbação de Défice de Natureza", onde a desconexão gera picos de ansiedade e um isolamento existencial que nenhum algoritmo consegue mitigar. Fisicamente, a nossa sobrevivência depende de serviços ecossistémicos que não controlamos, como a polinização e os ciclos de purificação da água. Cortar o cordão seria, na prática, desligar as máquinas que sustentam a nossa sobrevivência no planeta.

Muitas vezes, a civilização moderna age como se o progresso fosse o ato de superar a natureza, mas essa é uma antítese falsa. A verdadeira resiliência da nossa espécie depende da nossa capacidade de integração e não do isolamento em ambientes puramente sintéticos. Tentar viver inteiramente fora da biofilia seria como tentar manter um peixe vivo num copo de leite: a estrutura física está lá, mas o meio é incompatível com a essência da vida. Portanto, a biofilia não é um laço que nos prende ao passado, mas sim a rede de segurança que nos permite ter um futuro. Se a cortarmos, não estaremos a nascer para uma nova era, estaremos a assinar a nossa própria extinção.

Referências bibliográficas
  1. Abram, David (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World. 
  2. Fromm, Erich (1973). The Anatomy of Human Destructiveness.
  3. Kaplan, Stephen (1995). The restorative benefits of nature: Toward an integrative framework. Journal of Environmental Psychology.
  4. Kellert, Stephen R. & Heerwagen, Judith (2008). Biophilic Design: The Theory, Science, and Practice of Bringing Buildings to Life.
  5. Kellert, S.R., Wilson, E.O. (Eds.). 1995. The biophilia hypothesis. 
  6. Louv, Richard (2005). Last Child in the Woods: Saving Our Children from Nature-Deficit Disorder.
  7. Terrapin Bright Green (2014). 14 Patterns of Biophilic Design.
  8. Wilson, Edward O. (1984). Biophilia.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Documentário - Leo from Chicago


1. Documentário do Vaticano
O documentário "Leo from Chicago", realizado pelo cineasta James Keach, é um retrato profundamente humanista e comovente que narra a extraordinária trajetória de Leo, um homem que viveu durante décadas nas ruas de Chicago. Longe de ser uma abordagem assistencialista, Keach utiliza a sua lente para capturar a essência de um indivíduo que, apesar de mergulhado na pobreza extrema e na invisibilidade social, nunca abandonou a sua dignidade ou a sua fé inabalável. Em Chicago, Leo era conhecido não apenas pela sua condição de sem-abrigo, mas pela sua inteligência, pela doçura do seu trato e por uma resiliência silenciosa que o tornava uma figura respeitada na sua comunidade urbana.

A narrativa ganha uma dimensão quase transcendente quando descreve como Leo chegou ao Vaticano. Através de uma rede de amizades e do apoio de pessoas que reconheceram nele uma luz espiritual invulgar, Leo foi convidado a viajar até Roma. Este percurso simboliza um contraste visual e emocional poderoso: a transição das calçadas frias e hostis do Midwest americano para a grandiosidade secular e o mármore dos palácios pontifícios. O documentário culmina no encontro simbólico entre Leo e a cúpula da Igreja Católica, personificando a visão de uma "Igreja para os pobres" e demonstrando que a verdadeira riqueza não se encontra na opulência dos edifícios, mas na pureza de coração de quem nada possui. É uma obra elegante que nos recorda que, independentemente das circunstâncias materiais, a essência humana permanece sagrada.

2. Outro Documentário: Robert Prevost - De Chicago ao Papa Leão XIV
Um Papa diferente de todos os outros. Na primavera de 2025, o mundo assistiu ao fumo branco a subir sobre a Basílica de São Pedro, assinalando um novo capítulo na história católica. O homem escolhido: Robert Prevost — um antigo coroinha de Chicago, missionário no Peru e humilde frade agostiniano. Agora, é o Papa Leão XIV, o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica global.

Neste documentário aprofundado traça a vida extraordinária do Papa Leão XIV, desde a sua infância cheia de fé no coração da América até aos bairros poeirentos do Peru, aos corredores do Vaticano e, finalmente, à varanda papal. Testemunhe como um construtor de pontes moldado pela compaixão, justiça e humildade ascendeu para pastorear 1,4 mil milhões de almas.

Através de uma narrativa cinematográfica e de uma rica perceção histórica, exploramos o homem, a missão e a mensagem por detrás de Leão XIV — um Papa que convoca o mundo para a unidade, a paz e a renovação missionária.

sábado, 28 de março de 2026

Albert Einstein sobre a nossa interconectividade ecológica e cósmica


"O ser humano é uma parte do todo a que chamamos 'Universo', uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia-se a si próprio, aos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto — uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência.

Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, que nos restringe aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A nossa tarefa deve ser libertarmo-nos dessa prisão, alargando o nosso círculo de compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza na sua beleza."

Esta passagem profunda pertence a uma carta de condolências escrita por Albert Einstein em 12 de fevereiro de 1950.

O destinatário era o Rabino Robert S. Marcus, na época Diretor Político do Congresso Judaico Mundial. O Dr. Marcus havia escrito a Einstein num momento de desespero absoluto, procurando conforto espiritual após a morte prematura do seu filho de 11 anos, vítima de poliomielite.

O Contexto da Carta
Marcus questionava Einstein sobre como conciliar a visão científica do mundo com a necessidade de acreditar na imortalidade da alma para suportar a dor da perda. Einstein respondeu com este texto, que se tornou uma das suas reflexões mais famosas sobre a espiritualidade secular e a interconexão da vida.

O Texto Original (Inglês)
"A human being is a part of the whole, called by us 'Universe,' a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest — a kind of optical delusion of his consciousness.

This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole of nature in its beauty."

Onde ler o original
Como Einstein escreveu esta carta de forma privada, ela não foi um artigo científico publicado originalmente, mas foi preservada nos Arquivos Albert Einstein. Pode encontrar o registo e transcrições em fontes arquivísticas e literárias de referência:

  1. Albert Einstein Archives: o documento está catalogado sob a referência 33-188.
  2. Livro: The New Quotable Einstein, editado por Alice Calaprice (Princeton University Press).
  3. Digital: o site The Marginalian possui um artigo detalhado que inclui a carta enviada pelo Rabino e a resposta de Einstein.
A carta completa também está no livro "The Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet", 2020

Matthieu Ricard formou-se em biologia molecular, trabalhou e concluiu um Doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, sob a supervisão do cientista francês François Jacob, um cientista vencedor do Prémio Nobel, mas quando leu sobre filosofia budista, sentiu-se atraído pelo budismo. Eventualmente, deixou a sua vida na ciência para estudar com mestres tibetanos e é agora monge budista e tradutor do Dalai Lama, vivendo no mosteiro de Shechen, perto de Katmandu, no Nepal. Trinh Thuan nasceu numa família budista no Vietname, mas ficou intrigado com a explosão de descobertas na astronomia durante a década de 1960. Foi para o prestigiado Instituto de Tecnologia da Califórnia para estudar com alguns dos maiores nomes da área e é agora um astrofísico aclamado e especialista em como as galáxias se formaram.
Quando Matthieu Ricard e Trinh Thuan se conheceram numa conferência académica, no verão de 1997, começaram a discutir as muitas ligações notáveis ​​entre os ensinamentos do Budismo e as descobertas da ciência recente. Esta conversa transformou-se numa correspondência surpreendente, explorando uma série de questões fascinantes. O universo teve um início? Ou será que o nosso universo é apenas um numa série de universos infinitos, sem fim nem princípio? Será que o conceito de um início do tempo é fundamentalmente falho? Será que a nossa perceção do tempo é, na verdade, uma ilusão, um fenómeno criado nos nossos cérebros que não possui uma realidade última? Será que o impressionante ajuste fino do universo, que produziu as condições ideais para a evolução da vida, é um sinal de que um "princípio da criação" está em ação no nosso mundo? Se tal princípio da criação sustenta o funcionamento do universo, o que nos diz isto sobre a existência ou não de um Criador divino? Como é que a interpretação radical da realidade oferecida pela física quântica se conforma e, ao mesmo tempo, difere da conceção budista da realidade? O que é a consciência e como evoluiu? Pode a consciência existir independentemente de um cérebro que a gere?
A estimulante viagem de descoberta percorrida pelos autores nas suas discussões é recriada de forma primorosa em "O Quântico e o Lótus", escrito ao estilo de um diálogo animado entre amigos. Tanto os ensinamentos fundamentais do Budismo como as descobertas da ciência contemporânea são apresentados com grande clareza, e o leitor ficará profundamente impressionado com as muitas correspondências entre as duas correntes de pensamento e de revelação. Ao longo do seu diálogo, os autores chegam a um notável encontro de mentes, oferecendo, em última análise, uma nova e vital compreensão das muitas formas como a ciência e o budismo se confirmam e se complementam, e das formas como, como escreve Matthieu Ricard, "o conhecimento dos nossos espíritos e o conhecimento do mundo são mutuamente esclarecedores e fortalecedores".
"O Quântico e o Lótus é uma exploração instigante e reveladora dos paralelos fascinantes entre o pensamento vanguardista na física e o Budismo - uma conversa brilhante que qualquer pessoa pensante teria prazer em ouvir." — Daniel Goleman, autor de "Inteligência Emocional"
"O Quântico e o Lótus é o resultado rico e inspirador de um diálogo profundamente interessante entre a ciência ocidental e a filosofia budista. Este livro notável contribuirá muito para uma melhor compreensão da verdadeira natureza do nosso mundo e da forma como vivemos as nossas vidas." —Sua Santidade o Dalai Lama

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

sábado, 21 de março de 2026

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

sexta-feira, 20 de março de 2026

The Common Root, The Open Field


The sun is a golden carpenter, planed and raw,
Not a thought of God, just the heat upon the stone.
I see with eyes that have forgotten how to name,
Stripping the silk from the corn, the myth from the bone.
I am the keeper of flocks that are only the passing wind,
Content to let the river be water, and the air be thinned.

And so the valley breathes a deep, fern-scented sigh,
Where ancient hemlocks haunt the mist-drenched floor.
There is a poetry in the granite’s edge, the eagle’s cry,
The rhythmic pulse of the river’s wild and hidden roar.
I see the silver birch’s bark, a lily in the gloom,
And the vast, tangled geometry of the mountain’s room.

Yet, look closer—there is a circuit made of sun, 
Where silent cells weave the carbon from the air. 
The plant is not a thing, but a process, a run
A thinking heart that finds the cosmic everywhere.
The earth is a living being, dreaming in the dark,
Waiting for the human soul to strike the inner spark.

I walk the lanes where a poet lost his mind to find his soul,
Naming every nested bird and the trembling of the rye.
The fences steal the common, but they cannot take the whole
Of the vast, unlettered music of the open summer sky.
The badger in the brake, the lady-smock in the dew—
Simple things are the only things that are ever truly true.

And when the world begins to fray, when the shadows grow too long,
A steady hand reaches out and leads me through the grief.
To love the world is to mourn it, a fierce and ancient song,
Finding the "Great Turning" in the falling of a leaf.
We are the web itself, the pulse of the ancient deep,
Awakening from the long, industrial, lonely sleep.

Finally, there is the white silence of a master’s hand,
Where the word is a body, bare and salt-washed by the sea.
A solar clarity that understands the shifting sand,
And the brief, bright miracle of what it means to be.
Just the earth. Just the light. Just this breath we share—
The common root of everything, blossoming in the air.

domingo, 15 de março de 2026

Urze de Lume - Besta Soberana


Na linha de bandas como ROME, representando a melancolia das cinzas da Europa, os Urze de Lume são o fogo que ainda arde nas serras portuguesas. Falar da filosofia deste projeto nacional, liderado por Ricardo de Castro e Tiago de Castro, é mergulhar no que eles próprios chamam de "Música das Terras Ásperas", uma missão de resgate cultural que vai muito além da estética. O pilar central do seu pensamento é o atavismo, a recuperação de instintos ancestrais que a modernidade tentou apagar, focando num Portugal profundo, rural e pré-cristão. Esta música serve como uma ponte para um tempo em que o homem e a terra eram um só, manifestando um saudosismo espiritual e telúrico em vez de político.

A própria materialidade do som é uma declaração filosófica, rejeitando o sintético através do uso de instrumentos tradicionais como adufes, bandolins e gaitas-de-fole transmontanas, além de elementos orgânicos como ossos, pedras e o som do ofício manual de pastores e ferreiros. O nome "Urze de Lume" simboliza esta resiliência: a urze que cresce em solos pobres e o lume que purifica e aquece, sugerindo que a cultura portuguesa, embora pareça esquecida, pode sempre voltar a arder com a faísca certa. Diferente do Neofolk nórdico, a filosofia da banda foca no animismo ibérico e na sacralidade do solo, celebrando divindades pré-romanas como Endovélico e integrando sons reais das serras da Estrela ou do Gerês. Em resumo, os Urze de Lume propõem uma "Ecologia da Alma", um convite para olhar para as montanhas e para o silêncio dos campos, ecoando em cada batida de adufe o sentimento de que nascemos da terra e a ela voltaremos.

Site oficial
Urze de Lume

terça-feira, 3 de março de 2026

The First Morning

The First Morning
"The world is old and breathing here,
In mossy lungs and silvered river.
No clock has dared to etch a line
Upon this cathedral of leaves and water.

To stand amidst this hallowed wild
Is to feel the earth find her stolen child;
The noise of the age begins to cease
In the ancient ache of a perfect peace. "

João Soares - 03.03.2026

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem - e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: a sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Documentário - Côa Mais Selvagem (Wilder Côa)


O lado mais selvagem de Portugal. A premissa não podia ser melhor. O documentário de natureza “Côa Mais Selvagem” dá exatamente a conhecer o lado mais selvagem de Portugal que é esta região do Grande Vale do Côa. 

Acompanhe a entusiasmante viagem do rio Côa, que corre de sul para norte, surpreenda-se com as suas paisagens de perder de vista, conheça a vida selvagem que o rodeia e que a ele está a regressar, e saiba como a Rewilding Portugal está a renaturalizar todo este grande corredor de vida selvagem nos últimos cinco anos. Uma paisagem onde os processos naturais são repostos, o ciclo da vida volta a estar completo e funcional e onde pessoas e vida selvagem coexistem de forma positiva e duradoura. 

Vencedor de vários prémios internacionais: Gold Medal in Wildlife Conservation (International Tourism Film Festival Africa 2025); 1st place in Green Movie (International Disaster Film Festival 2025); Best DOP Documentary (Fest5 International Film Festival 2025) and Best Wildlife Documentary (Xposure International Photography Film Awards).

Realizador: João Cosme
Produção: Fernando Teixeira | Rewilding Portugal 
Voz: Ana Varela 
Estúdio: Rádio Cova da Beira
Financiamento: Rewilding Europe, ELSP, LIFE - Comissão Europeia

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Encontros Improváveis - somos todos parte de um mesmo planeta


"A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra." - Carlos de Oliveira, no livro Sobre o Lado Esquerdo, 1978

É uma bela metáfora poética que expressa a ideia de partilha e solidariedade global, significando que enquanto aqui é noite, a luz do dia está a iluminar outra parte do mundo, e vice-versa, mostrando que o pôr do sol de um é o nascer do sol de outro, numa dança cósmica de dia e noite que une a humanidade.

Em essência, é um lembrete poético de que somos todos parte de um mesmo planeta, partilhando os ciclos da natureza e a luz e a escuridão.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está se não te vejo magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”