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sábado, 25 de abril de 2026

25 Abril: Rui Tavares acusa André Ventura de citar Adolf Hitler e mito nazi na sessão solene


O porta-voz do Livre Rui Tavares acusou hoje o presidente do Chega de ter citado Adolf Hitler e um mito nazi no discurso da sessão solene do 25 de Abril quando repetiu diversas vezes a expressão “apunhalado pelas costas”.

Em declarações aos jornalistas durante a tradicional descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa, para celebrar a Revolução dos Cravos, Rui Tavares afirmou que Ventura, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, no parlamento, repetiu “quatro ou cinco vezes uma frase de Hitler, como se não fosse nada”.

“A famosa frase ‘apunhalada nas costas’, que é uma frase que vem dos nazis, e que se referia à Primeira Guerra Mundial e que ele hoje usou para a Guerra Colonial, como se não fosse nada”, sustentou.

Em causa está a crítica feita por André Ventura na intervenção desta manhã no parlamento, em que criticou aqueles que “exaltam guerrilheiros que estavam a matar militares portugueses por todo o mundo” e afirmou, repetindo a expressão três vezes, que estes portugueses foram “apunhalados pelas costas”.

A “lenda da punhalada nas costas” foi um mito político difundido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, segundo o qual o exército alemão não teria sido vencido no campo de batalha, mas sim traído internamente por, entre outros, socialistas, bolcheviques e judeus alemães, tendo contribuído para a ascensão de Hitler do Partido Nazi.

Rui Tavares considerou que há uma escalada no discurso político que está a ser ignorada: “Hoje cita Hitler e os nazis, toda a gente faz de conta que não ouviu, e amanhã diz ou faz qualquer coisa ainda mais terrível, e toda a gente faz de conta que não é consigo”.

Também a deputada do PS Eva Cruzeiro criticou a expressão utilizada por André Ventura, considerando, numa publicação feita na rede social ‘X’, que não se trata de uma “frase qualquer”.

“Remete diretamente para a Dolchstoßlegende [Lenda da Punhalada pelas Costas], um dos pilares da propaganda que abriu caminho ao nazismo. Foi usada sistematicamente para alimentar ressentimento, fabricar inimigos internos e justificar a erosão da democracia da República de Weimar. Foi central na narrativa que Adolf Hitler explorou para chegar ao poder”, criticou.

Para a socialista, o líder do Chega não estava a fazer “um desabafo inocente”, mas sim a “convocar um imaginário político perigoso, assente na divisão, na desconfiança e na distorção da história”.

E conclui: “Quem conhece a história reconhece estes sinais e sabe que a democracia não se perde de um dia para o outro, desgasta-se quando se normalizam discursos que já provaram, no passado, aonde conduzem. André Ventura mostra abertamente o seu plano. É inaceitável”.

A tentativa de André Ventura em adaptar a "Lenda da Punhalada pelas Costas" (Dolchstoßlegende) ao contexto da Descolonização (1974-1975)

Essa narrativa de que Portugal foi "apunhalado pelas costas" durante o processo de descolonização é um exemplo flagrante de pós-verdade, pois ignora os factos históricos em favor de um revisionismo emocional que serve interesses políticos atuais. Ao transpor o mito alemão da Dolchstoßlegende para a realidade portuguesa de 1974, André Ventura e a direita radical operam uma inversão da causalidade: tentam convencer o público de que o 25 de Abril "causou" a derrota em África, quando, na verdade, foi a exaustão de uma guerra impossível de vencer que causou o 25 de Abril. Esta construção ignora que o exército português enfrentava um impasse militar absoluto, um isolamento diplomático total perante a ONU e uma economia asfixiada que consumia cerca de 40% do orçamento do Estado na defesa do Ultramar.

Ao utilizar esta retórica, Ventura não está a fazer uma análise histórica, mas sim a praticar uma "pesca de arrasto" no ressentimento de antigos combatentes e retornados, oferecendo-lhes um culpado conveniente — a "elite de Abril" — para um trauma coletivo que é muito mais profundo e complexo. A pós-verdade reside precisamente nesta simplificação: transforma-se uma transição histórica inevitável e tardia numa traição planeada, substituindo a complexidade do fim dos impérios coloniais europeus por uma fábula de "bons patriotas" contra "traidores entreguistas". No fundo, é a utilização de uma mentira histórica confortável para atacar a legitimidade da democracia portuguesa e reabilitar um passado autoritário sob a capa de um orgulho nacional ferido.

Historiografia
Museu Histórico Alemão - Dolchstoßlegende

O mito da punhalada pelas costas (em alemão: Dolchstoßlegende, pronuncia-se Lenda da Punhalada pelas Costas) é uma teoria da conspiração anti-semita e anticomunista, promovida por Adolf Hitler.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Faleceu António Lobo Antunes

Morreu António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"

António Lobo Antunes - o Escritor maior e grande contador de histórias
“Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.”
Figura maior da literatura portuguesa tinha 83 anos. Entre crónicas e romances, deixa-nos uma vasta obra, com mais de 40 livros escritos entre 1979 e 2024. Venceu o Prémio Camões em 2007.
Especializou-sem em Psiquiatria na Faculdade de Medicina em Lisboa. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, período que foi central na sua obra, começando pelos primeiros livros, “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas” e “Conhecimento do Inferno”.
A sua obra foi traduzida em várias línguas, e o escritor foi, durante décadas, apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

António Lobo Antunes e actividade Política
António Lobo Antunes manteve, ao longo da sua vida, uma relação complexa e frequentemente crítica com a política, caracterizando-se por uma postura de independência e um ceticismo profundo em relação às instituições partidárias. Embora tenha tido momentos de aproximação, como quando integrou as listas da Aliança Povo Unido (APU) nas legislativas de 1980, o escritor rapidamente se afastou, justificando que a sua natureza individualista e rebelde era incompatível com a disciplina de qualquer partido. Mais tarde, em 1985, manifestou um apoio público à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, movido por uma convicção íntima nos seus valores. Em anos posteriores, chegou a admitir que, na falta de alternativas, o seu voto tenderia para o Partido Socialista, embora notasse com nostalgia que a força política já não era a mesma dos tempos de Mário Soares.

Para Lobo Antunes, a política era vista através de uma lente quase irracional; ele defendia que as opções políticas eram tão afetivas como as escolhas de clubes de futebol, argumentando que as ideologias tradicionais se estavam a dissolver em fórmulas caducas. Esta visão era acompanhada por uma indisfarçável antipatia pela classe política, moldada em grande parte pelo trauma da Guerra Colonial. O autor nunca perdoou os líderes que enviavam homens para o combate sem nunca terem vivido o horror da guerra. No plano social, as suas posições foram igualmente marcantes: causou polémica ao defender o Iberismo — a ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só país — e utilizou frequentemente a sua voz para denunciar a pobreza, a desigualdade social e o abandono da classe média, que considerava serem as verdadeiras raízes da violência na sociedade. 

Recordo-me bem destas entrevistas: Por Outro Lado: 2001 e 2006

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Por uma Economia da Felicidade e dizer não ao regresso do Fascismo



Podemos ser o país da Europa como o Butão e apostar na Felicidade Interna Bruta. As semelhanças connosco estão na difícil orografia do País, mas Butão é um País muito interior, sem oceano. E nós temos a vantagem de uma ZEE por explorar. O País, incluindo Madeira e Açores tem 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km². O que se pensa sobre isso: segurança nacional apenas ou investimento na Economia Azul? Vemos o mar sempre de costas voltadas, quando bem gerido, é uma nova "indústria", salvaguardando o património pesqueiro. 

A minha intenção  da foto do Ventura vestido com fardamento militar era expor o rei "Vai Nú". Ventura na cabeça dele e de Nuno Melo sonham/deliram que se refaça o Golpe de 28 de Maio de 1926. O que aconteceu: militares liderados por Gomes da Costa derrubaram a Primeira República, iniciando a Ditadura Militar que evoluiu para o Estado Novo sob Salazar. O movimento partiu de Braga e espalhou-se pelo país, com adesão em massa das guarnições. 
A Ditadura Nacional e o Estado Novo totalizaram 48 anos de fascismo penosos, de graves atrasos científicos e de escolaridade. Um regime da bufaria e muito sangrento com a Guerra Colonial.                Durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974), cerca de 10 mil militares portugueses morreram nas frentes de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, com números oficiais revistos para cima de estimativas anteriores de 8 mil. 
Civis africanos sofreram perdas muito maiores, estimadas em mais de 100 mil, incluindo massacres como o da Baixa do Cassange (200-300 mortos) e Wiriyamu (385-450).
Repressão colonial e contra-ofensivas provocaram dezenas de milhares de civis africanos mortos. Marcelo Caetano, como muitos à primeira impressão pensam, não foi um ditador fofinho. Nos últimos anos do Salazarismo foi indecente e Marcelo perpetrou mais opressão sobre os países escravizados : 247 em Angola (1970), 128 em Moçambique (1971) e 123 na Guiné (1973).  
​Estimativas totais superam 100 mil, incluindo fuzilamentos, bombardeios e fome induzida.
O nosso País é muito seguro. Portugal manteve o 7º lugar no Global Peace Index (GPI) 2025 graças a um desempenho forte em baixa militarização e elevada segurança social. Indicadores positivos chave incluíram despesa militar mínima em percentagem do PIB, baixa participação em missões de paz da ONU e elevada sensação de segurança ao caminhar sozinho à noite.
A maior criminalidade apenas é de pequeno tráfico de droga, pequenos furtos e a violência doméstica. Não quero um País com estereótipos de machão. Quero um País que proteja e une. Um País que acolhe e integra. Um País para a frente, mais pragmático e com melhores salários. Há e é possível a criação de bons empregos em várias áreas, que não seja apenas o turismo e o beija-mão às Cimenteiras, às monoculturas, Navigator e o Grupo Amorim. Que faça urgentemente um TGV Porto-Vigo e outro entre Évora e Madrid. Um novo aeroporto em Lisboa. Um País com maior coesão territorial, sem recorrer apenas a auto-estradas. Isso não é "progresso". É uma medida de maior fuga do Interior para o Litoral. Há que respeitar e fortalecer as comunidades raianas e do interior. Têm direito a viver nesses locais. 
Os think tanks mais influentes e procurados a nível internacional em Portugal incluem o Institute of Public Policy (IPP), o Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS),  destacando-se pela produção de análise académica e debate público sobre políticas europeias e globais.
Avaliações dos think tank baseiam-se em citações académicas (Scimago), impacto mediático e eventos internacionais, onde Portugal tem presença modesta comparado a Bruegel ou Chatham House.
O IPP não figura em métricas científicas como Scopus/Web of Science, dada a natureza não peer-reviewed das publicações.
O IPRI publica em revistas académicas de RI (ex.: Janus), com alguma visibilidade em redes como TEPSA, mas o impacto científico é modesto comparado a universidades, sem posições destacadas em rankings bibliométricos.
Quanto à FFMS tem destaque em dados públicos (Pordata) e estudos sociais, com influência doméstica alta, mas publicações não científicas excluem-na de rankings como Scimago ou InCites, focados em artigos indexados.
A dinâmica migratória portuguesa mudou de forma significativa na última década e, pela primeira vez em várias décadas, há mais jovens portugueses a regressar do que a emigrar. A conclusão é de Manuel Caldeira Cabral, professor da Universidade do Minho e ex-ministro da Economia e Socialista que assinou um artigo no Expresso, em 3 de Dezembro do ano passado onde defende que Portugal entrou “numa nova realidade migratória”.  Segundo o economista, a emigração deixou de ser uma viagem sem regresso e passou a ser, para muitos jovens, uma experiência temporária. “Há sempre amigos que já viveram e trabalharam no estrangeiro e decidiram regressar”, observa.
Mas o fenómeno que destaca o ex-ministro da Economia é outro: Portugal tornou-se também um destino para jovens qualificados vindos de países ricos, como Alemanha, França, Itália, EUA ou Reino Unido. Desde 2019, afirma Caldeira Cabral, o número destes jovens que vêm trabalhar para Portugal supera o número de portugueses que emigram para os mesmos países.
Dados recentes mostram que entram anualmente no país cerca de 45 mil estrangeiros oriundos de economias com salários superiores aos portugueses, dos quais 33 mil são cidadãos da União Europeia. Só no último ano, cinco mil norte-americanos, seis mil italianos, quase quatro mil alemães e número semelhante de franceses pediram residência permanente em Portugal — a maioria com menos de 45 anos.
A ideia de que Portugal vive uma fuga de talentos não resiste aos números, argumenta Caldeira Cabral. O professor da UMinho sublinha que, embora tenham aumentado as qualificações dos jovens que emigraram, cresceram ainda mais as qualificações dos jovens que permaneceram no país.
Citando o Boletim Económico do Banco de Portugal, o autor explica que, entre os jovens que emigraram, 30% têm ensino superior, mas entre os que ficaram essa proporção chega aos 38,5%. “A propensão a emigrar é menor entre os mais qualificados, exatamente o contrário da fuga de cérebros”, afirma.
O saldo global também joga a favor de Portugal: nos últimos quatro anos, o emprego de licenciados cresceu 320 mil, enquanto o sistema de ensino superior formou apenas 230 mil. “A diferença — cerca de 90 mil — só pode ser explicada pela imigração qualificada”, sustenta. No mesmo período, terão saído entre 40 e 50 mil licenciados, mas entraram entre 150 e 160 mil.
Para Caldeira Cabral, estes dados demonstram que Portugal deixou de encaixar no modelo clássico de migração “Norte-Sul”, em que trabalhadores se deslocam apenas dos países mais pobres para os mais ricos. O país aproxima-se agora do padrão “Norte-Norte”, típico das migrações dentro da UE: fluxos nos dois sentidos, com saída e entrada de trabalhadores qualificados.
O professor afirma que esta mudança obriga a repensar o debate sobre a emigração jovem. “Se os jovens saem apenas porque os salários são maiores lá fora, como explicar que tantos estejam a voltar?”, questiona. E acrescenta: “Se Portugal não tivesse oportunidades interessantes, porque estaria a atrair jovens da Alemanha, França, Itália ou EUA?”
Entre 2020 e 2023, regressaram ao país mais portugueses do que aqueles que partiram. Só no último ano, 31 mil cidadãos nascidos em Portugal voltaram, a maioria jovens trabalhadores. Para o ex-ministro, esta tendência deve ser encarada como uma oportunidade: “Temos de olhar para os nossos jovens emigrantes não como uma perda, mas como uma força estratégica”, defende, sugerindo que o país os mobilize como “embaixadores” e valorize a experiência internacional que trazem.
Caldeira Cabral recorda ainda que países como Luxemburgo, Irlanda ou Suíça têm taxas de emigração jovem superiores à média europeia — e isso não significa decadência, mas abertura ao mundo. O mesmo, afirma, deve aplicar-se a Portugal.
Com o aumento do número de regressos e a capacidade de atrair talento estrangeiro, o autor defende que Portugal deve abandonar a visão fatalista sobre emigração. “Não devemos ficar a chorar o leite derramado dos que escolhem sair, porque muitos vão mais tarde escolher voltar”, escreve.
A prioridade, conclui, deve ser manter incentivos e criar condições para que regressar a Portugal se torne vantajoso — para os jovens e para o país.              
Há que fazer um esforço político e das instituições e autarquias para terminar em Portugal o que é designado por crony capitalism. Sistemas onde o sucesso empresarial depende mais de relações pessoais, familiares ou redes de proximidade (familiaridade) do que de mérito ou concorrência aberta, favorecendo "sempre os mesmos" grupos conectados por laços de confiança ou lobby. 
Implicações Económicas e Sociais
Esse modelo reduz a concorrência, eleva custos para consumidores e fomenta corrupção, contrastando com mercados meritocráticos.
As oportunidades de trabalho e transparência para atrair os jovens estão aí, sobretudo na área ambiental, numa boa transição verde, o País que exporte novas dinâmicas culturais, que aposte  num plano biocentrado nos oceanos do que apenas preocupado em segurança policial e controle, uma nova urbanidade (e há tanto a fazer e temos tão bons especialistas, idealizando a economia circular, a mobilidade suave, em cidades de 15 minutos, restauro dos serviços de saúde e continuar a investir na literacia digital e científica dos idosos) e na preservação da biodiversidade. 
O património biológico é fundamental neste séc XXI. As políticas globais e capitalistas infelizmente elevam o carbofascismo e exploração das terras raras. É um desafio gigante pois, a Saudi Aramco, empresa de petróleo e gás natural, é a empresa mais rentável do mundo, tendo facturado 105,37 mil milhões de dólares no último ano fiscal.
Contudo a preservação da nossa biodiversidade gera vantagens económicas directas e indiretas, sustentando ecossistemas essenciais para atividades humanas rentáveis. Há que renaturalizar Portugal.
Valores Directos
Recursos como madeira, peixes, plantas medicinais e produtos agrícolas derivados da biodiversidade geram PIB e emprego, com mercados globais de biotecnologia e farmacêuticos a valerem biliões de dólares anualmente. E um turismo diferente. Um turismo imersivo, já ouviram falar?

O Butão cobra uma taxa turística sustentável (Sustainable Development Fee, SDF) de 100 dólares americanos por dia para visitantes internacionais a partir de 2024, reduzida de valores anteriores mais altos como 200-250 USD. Essa taxa aplica-se por noite de estadia e inclui serviços como visto, tarifa mínima de hotel de categoria superior, refeições principais, guia licenciado, transporte interno e oxigénio de emergência quando necessário.
Valor Atual
Crianças de 2 a 11 anos pagam metade (50 USD/dia), menores de 2 anos estão isentos, e cidadãos de nações vizinhas como Índia e Bangladesh têm taxas simbólicas ou diferentes regras. Indianos, por exemplo, pagam cerca de 1.200 NPR (rupees nepaleses) por dia. A taxa financia 100% projetos de desenvolvimento sustentável e é obrigatória para todos os turistas, exceto residentes.
Vantagens para o Butão
A taxa preserva a felicidade nacional bruta (Gross National Happiness), limitando o overturismo e protegendo o meio ambiente frágil dos Himalaias. Gera receitas que financiam saúde, educação gratuita, conservação de 72% do território como floresta e infraestrutura rural, mantendo a cultura budista intacta. Isso equilibra economia (cerca de 45% do PIB turístico pré-pandemia) com bem-estar local, evitando massificação vista em vizinhos como Nepal.
Portugal devia fazer o mesmo. 
Valores Indirectos
Serviços ecossistémicos como polinização, regulação climática, proteção de solos e purificação de água e rios livres poupam custos em agricultura, seguros contra desastres e tratamento de água, estimados em 125-145 biliões de dólares por ano globalmente. A perda de biodiversidade aumenta riscos económicos, como colapsos de colheitas ou inundações mais frequentes.
A União Europeia definiu 5 objetivos estratégicos para o período 2021-2027, que serão as prioridades do Portugal 2030. Nesse sentido, temos que aproveitar eficientemente os fundos europeus destinados ao País, com transparência, sem capitalismo de cunhas ou clientelismo económico. São eles: 
1. Portugal + Inteligente, investindo na investigação e inovação, na digitalização, na competitividade e internacionalização das empresas, nas competências para a especialização inteligente, a transição industrial e o empreendedorismo.
2. Portugal + Verde, orientado para a transição verde, acompanhando a emergência climática e incorporando as metas da descarbonização, da eficiência energética e reforço das energias renováveis, e apoiando a inovação, a economia circular e a mobilidade sustentável.
3. Portugal + Conectado, com redes de transportes estratégicas, baseada numa forte aposta na ferrovia, potenciando a mobilidade de pessoas e bens, bem como a qualificação dos territórios, garantindo a sua atratividade, competitividade e inserção nos mercados nacional e internacional.
4. Portugal + Social, apoiando a melhoria das qualificações da população, a igualdade de acesso aos cuidados de saúde, promovendo o emprego de qualidade, a inclusão social, seguindo as prioridades estabelecidas no Pilar Europeu dos Direitos Sociais.
5. Portugal + Próximo dos cidadãos, apoiando estratégias de desenvolvimento a nível local, promotoras de coesão social e territorial, e apoiando o desenvolvimento urbano sustentável, baseado no conceito de interligação de redes, centrada nas necessidades das pessoas.
6. Portugal + Transição justa, para assegurar que a transição para uma economia sustentável e neutra em carbono se processo de forma justa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Francisco Pinto Balsemão: um protector dos ricos


Francisco Pinto Balsemão foi membro do núcleo director do Bilderberg e representou Portugal no grupo durante 33 anos. Mais que político foi um empresário e da elite global, infuenciando a política económica e social em todo o Mundo e, sobretudo, Portugal.  Ele participou em praticamente todas as reuniões anuais desde 1988. Em 2015, Balsemão deu o seu lugar no "comité de direção" do Bilderberg a José Manuel Barroso. Em 2018, Balsemão criou um grupo semelhante ao Bilderberg em Cascais, onde foram convidados empresários e outras figuras importantes da sociedade portuguesa. Balsemão criou um grupo de Bilderberg à portuguesa em Cascais - "Encontros de Cascais". A direcção contava além dele com onze personalidades, entre empresários, banqueiros, gestores de topo e milionários, como Paula Amorim, Leonor Beleza, Carlos Carreiras, António Ramalho e Carlos Gomes da Silva.
Fundou com 19 deputados a Ala Liberal. A Ala Liberal era um grupo de deputados do partido fascista no poder.
Os «liberais» pertenciam às elites do Estado Novo e, no seu seio, exerceram aquilo que Tiago Fernandes designa, na esteira de Juan Linz, uma «semioposição» ao Estado Novo, estando em parte dentro e em parte fora do regime da ditadura.
Com o passar do tempo e o avolumar das desilusões, começaram a estar cada vez mais fora, sobretudo à medida em que se apercebiam de que as iniciativas que levavam a cabo no plano da legalidade – na revisão constitucional, nas leis de liberdade religiosa e de imprensa, em defesa dos presos políticos – eram sistematicamente votadas ao insucesso.
Em momento algum, porém, trilharam caminhos revolucionários ou romperam com o modelo de oposição legal, ou legalista, em que sempre se moveram.
Foi, até à sua morte, membro do Conselho de Estado, órgão de consulta do Presidente da República.
Portanto Balsemão nunca foi um social democrata, antes pelo contrário, foi defensor da elite neoliberal e protegeu os milionários.

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sexta-feira, 25 de abril de 2025

O dia em que Portugal acordou Livre


Numa suave manhã de abril de 1974, Portugal despertou agitado ao coro da mudança. O perfume dos cravos mesclava-se com as aspirações de uma nação cansada de anos sob o jugo opressivo da ditadura. Neste dia singular, o descontentamento silencioso do povo encontrou eco no coração daqueles que ousaram sonhar, anunciando o fim de um regime que sufocava a liberdade e reprimia o progresso social, económico e cultural do país. Portugal erguia-se, enfim, com a ambição de prosperar, deixando para trás um caminho solitário que havia trilhado durante demasiado tempo. 
A Revolução dos Cravos não nasceu da violência, mas da coragem. Foi o grito sereno de um povo que já não aceitava viver calado, a coragem de militares que escolheram a pátria e o povo em vez da opressão. Foi o instante sublime em que a utopia se tornou possível, e Portugal, cansado da noite longa da ditadura, amanheceu livre.
Essa revolução, embora nascida em solo português, ecoou muito além das fronteiras, como um hino universal à dignidade humana. O mundo viu um povo erguer-se com cravos nas mãos e justiça no peito. Homens e mulheres comuns tornaram-se heróis anónimos de uma mudança que brotou das entranhas da sociedade - com resiliência, com sonho, com a sede de um novo amanhã.
O fim da ditadura não foi apenas o desmantelamento da censura ou a criação de instituições democráticas. Foi o início de uma caminhada intensa, nem sempre fácil, mas profundamente transformadora. A democracia chegou com debates, com escolhas difíceis, com o peso e a beleza da liberdade. Trouxe conquistas nos direitos civis, na igualdade de género, na afirmação das minorias, e na ousadia de construir uma economia moderna e aberta ao mundo.
Foi também um renascimento cultural. A palavra voltou a ter valor. A arte, a literatura, o cinema e a música floresceram como sementes guardadas durante décadas, à espera de solo fértil e céu limpo. Expressar-se tornou-se não só um direito, mas um dever cívico, e o país inteiro respirou, finalmente, em liberdade.
O legado do 25 de Abril é eterno enquanto resistirmos à amnésia coletiva. É farol e bússola. Lembra-nos que a liberdade é conquistada, não concedida. Que a democracia se cultiva todos os dias, com participação, com justiça social, com o combate à corrupção e à desigualdade.
Hoje, ao celebrarmos a liberdade, é vital recordar a força dos que nos trouxeram até aqui. Porque num tempo em que tantas conquistas parecem frágeis, revisitamos Abril não como nostalgia, mas como promessa. Promessa de que o povo português saberá sempre - se preciso for - voltar a encher as ruas de coragem, de cravos e de futuro.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

De volta à “raça”: usos da história e memória do colonialismo nas redes sociais

Sabemos — e melhor o sabe quem estuda estes temas de forma consistente e rigorosa — que as redes sociais são objectos estranhos, seja como espaços de interacção, seja (ainda mais) como objectos de estudo. Nem sempre é fácil descortinar o que é espontâneo. O que por vezes julgamos serem vários utilizadores diferentes é, afinal, um só e o mesmo. Mais difícil, ainda que não se tratem de dois mundos incomunicáveis, é complicado perceber como se articulam as redes sociais e as esferas da acção social e política, pois estas não se espelham rigorosamente nem, muito menos, podem aquelas ser pensadas como representativas das segundas.

Começo com este introito porque o exercício que aqui proponho está longe de poder revestir-se de qualquer autoridade científica. É uma impressão que resulta de um apanhado de interacções nas ditas redes, não validado por critérios igualmente científicos e carecendo de uma metodologia rigorosa. Mas beneficia de um acompanhamento mais ou menos regular a discussões nas redes sociais que versam sobre alguns destes temas, sobretudo em torno da história mais recente de Portugal e o seu passado ultramarino.

Há cerca de dois meses, num ensaio em que procurava ilustrar, parcial e episodicamente, como o Estado Novo lidou com a questão da discriminação racial de um ponto de vista administrativo e político — frequentemente não deixando sequer que na esfera pública fossem enunciados e caracterizados casos de racismo e discriminação racial que ocorriam em território nacional (então integrando diversos espaços geográficos) —, chamei a atenção para o que me parecia ser uma dinâmica relevante para o presente, mas entrelaçada em acontecimentos e processos que se situam no passado. No contexto das redes sociais e nos azimutes mais reaccionários da direita nacional, sugeri que se poderia estar a operar uma reconfiguração da relação que estes sectores estabelecem com as ideias tidas por tributárias do discurso oficial do Estado Novo. Referia-me, aqui, ao que se costuma caracterizar como “lusotropicalismo”, ou seja, o sucedâneo, em forma propagandística e de uso fácil e multifunções, da teoria cunhada por Gilberto Freyre. Esse sucedâneo traduzir-se-ia num conjunto de ideias-chave, assentes numa suposta excepcionalidade portuguesa, que faria dos portugueses particularmente avessos ao racismo, por obra e graça da deusa história, dados a uma sã convivialidade ecuménica que ignorava a diferença étnico-racial ou sócio-cultural.

Muitas coisas já foram ditas sobre o lusotropicalismo. Uma delas foi que poderá ter servido de freio ao alastrar de sentimentos, ou pelo menos declarações, explicitamente racistas no discurso político e público no Portugal democrático. Outra foi que esse mesmo sucedâneo serviu amiúde para obscurecer manifestações de discriminação racial que persistem no presente, desta forma impedindo que o racismo seja mais eficazmente combatido. A estas poder-se-ia acrescentar outras. Por exemplo, a de que o uso instrumental do lusotropicalismo pelo Estado Novo não se limitou a uma forma repetida e, na mesma medida tosca e directa, de propaganda. Manifestou-se de diversas formas, da estruturação dos currículos escolares ao controlo do aparelho mediático durante a ditadura. Traduziu-se também em recorrentes comparações entre realidades do império com as de outras sociedades, sobretudo aqueles casos que representavam formas mais óbvias, e denunciadas, de uma organização social e política estritamente racial, como na África do Sul ou na Rodésia. Falta, ainda hoje, perceber de que forma esta comparação não contribuiu para a cristalização de uma ideia de discriminação racial que se fixa na imagem das casas de banho segregadas ou na proibição de casamentos mistos, não capturando práticas e políticas que se desenhavam em torno de um claro viés racial, ainda que de forma não tão explícita, logo mais subtil e resistente ao correr do tempo.

São muitas, e diversas, as formas através das quais podemos pensar como o processo de resistência à descolonização encabeçado pelo governo autoritário português condicionou, e talvez ainda condicione, a forma como, no debate público, reflectimos sobre racismo no Portugal contemporâneo. Sendo muitas e diversas as formas de interpretar os efeitos do lusotropicalismo nos debates contemporâneos sobre racismo, não me parece demasiado arrojada a ideia de que o lastro histórico do Estado Novo limitou, de certa forma, a possibilidade de introduzir declarações ou tropos abertamente racistas em discursos políticos proferidos em espaços institucionalizados ou mesmo nos media, para o que contribuiu, também, a evolução normativa, tanto no quadro do Estado português como internacionalmente. Houve sempre excepções, é claro, e há infaustos acontecimentos na nossa história mais recente que se encarregam de nos lembrar disso. Formas estritamente biológicas de dar corpo a um suposto “conceito” de raça e a defesa de sociedades etnicamente homogéneas, protegidas de qualquer forma de “miscigenação” ou de entendimentos plurais da pertença, manifestaram-se nos anos finais do império, e sobreviveram à transição democrática, como pode ser atestado pela presença de grupos supremacistas em Portugal há já longas décadas.

Arrisco-me, contudo, a sugerir que este estado de coisas está a mudar de forma mais substantiva hoje. Ainda há pouco tempo, uma deputada do Chega questionou (ainda que se tenha apressado a fazer marcha-atrás) a “identidade” da selecção francesa, evocando para isso uma foto de Kyllian Mbappé, nascido e criado em França, publicando-a e escrevendo: “França aos franceses”. Longe de ser um método infalível, quem acompanha as publicações nas redes sociais da deputada identifica um conjunto de padrões. As suas publicações procuram acompanhar o ritmo de publicações de outras figuras ou redes da direita radical no estrangeiro (facto que me foi relembrado por utilizadores do X [antigo Twitter], a quem agradeço) mas procuram também acompanhar o “pulsar” das gerações mais jovens de portugueses radicalizados ou radicalizáveis. Não é por acaso que se dá a “marcha-atrás”, acontecimento que está longe de ser inédito na postura da deputada nas redes sociais. Trata-se, creio, de um permanente e contínuo teste a ver até onde pode ir. Também se poderá dar o caso de estar a ver engenho maquiavélico onde apenas se encontra oportunismo não muito pensado. Mas, da mesma forma que normalmente argumento que é preciso levar o pensamento e acção daqueles que conduziram o Estado Novo a sério, também diria que desajudará mais do que iluminará subestimar aqueles que fizeram do projecto da direita radical um caso de sucesso, tanto de um ponto de vista estritamente eleitoral como enquanto força gravitacional de carreiristas e arrivistas de diversa estirpe, franchise que começa agora a ser disputado.

Entendamo-nos, o cinismo não atenua o dolo, e não há razões para estar optimista. Não foram poucos os que subscreveram as suas palavras. Como não são poucos os que, nas redes sociais, e como referido no dito ensaio, questionam a “verdadeira” pertença de atletas portugueses que obtêm medalhas em nome da pátria, sempre que estes apresentem uma tez um pouco menos clara. Dá-se, aqui, um corte com o lusotropicalismo, mais genericamente, mas também, em muitos casos, com a tese defendida estrenuamente pelo Estado Novo, que postulava que os antigos territórios coloniais eram, efectivamente, Portugal.

Há cerca de dez anos, nas redes sociais, comentários deste tipo mereceriam uma outra censura social. Afinal, os portugueses não distinguiriam ou discriminariam em função da cor da pele, e a vitória de atletas portugueses com origens nos países hoje independentes, mas que antes foram colónias, seria uma vitória póstuma da ideia de império, cuja desintegração, segundo a mesma narrativa, teria redundado na afirmação do racismo, ao mais claramente organizar territórios e populações em função da cor da pele (o que não deixa de conter um pitada de verdade, ainda que muito parcial). De resto, para muitos, os laços que se mantêm após as independências entre Portugal e as antigas populações colonizadas seriam a prova da validade da tese do Estado Novo e da robustez de uma ligação “espiritual” que sobrevive às diversas independências.

Entre outros aspectos, a enxurrada de comentários que assola qualquer publicação que anuncie os sucessos desportivos de portugueses como Pedro Pichardo ou Auriol Dongmo parece apontar para uma mudança, em certos sectores da sociedade portuguesa e, sobretudo, nas faixas etárias mais novas, na forma como “raça” e discriminação racial são entendidas, e também na relativa unanimidade que existia em torno do opróbrio social que tais manifestações deviam merecer.

Com esta ideia na cabeça, fiz um pequeno exercício no X , publicando um tweet em que afirmava que, no momento em que Salazar deixou de ser presidente do conselho de ministros, havia mais muçulmanos a viver em território português do que ao dia de hoje, o que é factualmente correcto. Já levo alguns anos desta conversa, e não há nada de extraordinário na recusa de muitos interlocutores em aceitar que a sociedade portuguesa de hoje ainda conserva uma certa dose de responsabilidade perante o mandato que o império declarou seu. Isto é, não é particularmente surpreendente que muitos portugueses, mais ou menos ou até nada sensíveis à doutrina estado-novista, entendam que, com a descolonização, Portugal, enquanto Estado e sociedade, ficou liberto de qualquer responsabilidade perante as antigas populações colonizadas. Mesmo que sejam as mesmas populações a quem, desde pelo menos finais do século XIX, ninguém perguntou se se sentiam mesmo portuguesas. Pelo contrário, combateram-se três guerras em territórios diferentes para garantir que elas continuavam portuguesas, pressuposto assente num suposto plebiscito diário e silencioso, como ensinava Renan, mas que recusava qualquer possibilidade de essas populações serem consultadas num plebiscito de facto.

Trata-se de um sentimento que trai uma ideia peculiar de convívio multicultural. Enquanto estas populações vivessem lá longe, numa posição social, económica e política diminuída, teríamos todo o gosto em acolhê-las à distância. Coisa diferente seria, com a descolonização e com Portugal privado dos territórios ultramarinos, fazer jus à ideia de que o nosso compromisso com uma Portugalidade global se iria manter, nomeadamente com as populações que, no longo tempo histórico, foram as que mais sofreram: no tempo do império, durante a descolonização e nos futuros pós-coloniais e pós-imperiais que se lhe sucederam.

Porém, a centena e tal de comentários com que fui presenteado não afinaram exactamente por este argumento. Alguns houve, como é normal, que me recomendaram sortidas formas de sexo não-reprodutivo. Outras que instaram a universidade a que pertenço a que tomasse “medidas” porque eu teria incorrido em argumentos “falaciosos”. Mas a maior parte apontou para um facto claro: Moçambique e Guiné-Bissau não eram territórios portugueses, nem essas populações eram portuguesas — um corte não apenas com o articulado constitucional da altura, mas com a própria retórica repetidamente enunciada pelos dirigentes, ideólogos e propagandistas do Estado Novo.

Muito provavelmente, se colocados perante a questão de se eram estes territórios parte de Portugal, noutro contexto, muitos destes utilizadores, que denotam particular afinidade por nomes falsos, escudos com cruzes de Cristo e copos de vinho tinto (uma combinação perigosa…) diriam que, sim, Guiné e Moçambique eram Portugal. Como dizia um conhecido no X, o problema da maioria era o de haver muçulmanos em Portugal continental, não lá nos confins do império, e não lhe disputarei a razão.

Mas creio que não será inusitado perceber como se reconfigura, neste meio, a relação com a história e memória do antigo império, pois creio que é bastante evidente, e sintomático, que algo está a borbulhar. Por exemplo, numa conta do X que se dedica a glorificar os feitos do Estado Novo podemos ver uma imagem de propaganda em que três soldados africanos seguram uma bandeira portuguesa, procurando demonstrar o apoio multirracial de que aquele beneficiava na sua gesta para manter o império incólume. Um dos comentários que se segue é o seguinte: “3 não portugueses. Deixei de seguir esta página”. Outro: “muito gostam os boomers de catinga”. Segue-se outro que refere que “esta página é gerida pelo brasileiro mestiço YYYYY”, desta forma questionando a pureza biológica da página (há coisas do diabo). Trata-se, pelo que se percebe da leitura da sua página, de alguém que intervem frequentemente em tudo o que tenha que ver com a história imperial do Estado Novo, defendendo os seus supostos princípios de “assimilação cultural” em vez de critérios estritamente fenotípicos de definição de pertença. Entre as coisas que se pode ler na sua página, está a ideia de que o Chega está “internamente” a estudar a possibilidade de recriar um novo “estatuto do indígena”. Ou seja, um estatuto que diferencia racialmente, mas abre a possibilidade de teórica de “assimilação”, para lidar com a crescente diversidade étnica e racial de “Portugal” e, em particular, com os fluxos migratórios. Afirma, contudo, que “o próprio Chega está fracturado entre os que, como eu, são lusotropicalistas e acreditam que os imigrantes podem vir se cumprirem os requisitos para assimilação do antigo Estatuto do Indígena e da União Nacional e de outro lado os racistas que querem implantar uma one drop rule cá”.

O estatuto do indígena, ou indigenato, é uma via interessante para se perceber como estão a evoluir estas discussões em certos sectores da sociedade portuguesa. Importa aqui um parêntesis, para quem não teve vagar de ler o ensaio supra. O estatuto do indígena, ou como é mais frequentemente conhecido, o regime do indigenato, trata-se da estrutura jurídica, política e administrativa “especial” onde se enquadrava a maioria das populações negras das três colónias mais populosas (Angola, Moçambique e Guiné), um regime distinto do que se aplicava aos “cidadãos portugueses”, e que, desde a década de 20 do século passado até o início da década de 1960, lhes negava direitos políticos e civis e lhes impunha deveres particulares, como o dever moral de trabalhar, base conceptual do regime de trabalho forçado que acompanhou a reputação do império durante décadas.

Muitos destes utilizadores das redes sociais, frequentemente, face a discursos como este, que procuram negar a natureza discriminatória do indigenato, chamam a atenção para o facto de o indigenato referir explicitamente a “raça negra” como critério inexorável na atribuição desta condição jurídica diminuída. Acreditam que Salazar não acalentava ilusões sobre as diferenças inultrapassáveis entre “raças”. Mais, acreditam que a abolição do estatuto, como diz um utilizador, só aconteceu por pressão de factores externos, nomeadamente a interferência da ONU, quando o império se encontrava em perigo, com o início da guerra em Angola e a crescente projecção internacional, negativa neste caso, da “questão colonial portuguesa”. Como afirma uma conta também anónima mas com considerável alcance, “Em Portugal, os não-brancos do império só tiveram cidadania plena nos anos 1960s”. É muito curioso, porque estes argumentos, partilhados por vários historiadores (incluindo eu próprio) foram tradicionalmente usados para demonstrar que, não obstante toda a retórica, o regime estado-novista nunca abandonou completamente critérios raciais, mais ou menos explícitos, para governar o seu vasto império, e que resistiu denodadamente a reformar-se por livre recriação, sendo amiúde levado a fazê-lo como forma de responder a acusações, denúncias e crescente pressão política. Em comum, temos a rejeição de uma narrativa que apresenta o império português como essencialmente não-racista, seguindo as pisadas de Franco Nogueira quando afirmava o pioneirismo português na construção de sociedades multirraciais. Mas nestas contas próximas da direita radical essa constatação aponta num sentido ético e político distinto: procura-se demonstrar o racismo sempre presente no Estado Novo, e o carácter instrumental das reformas normalmente atribuídas a Adriano Moreira, para resgatar orgulhosamente o legado racista da direita radical portuguesa.

A direita radical portuguesa, hoje, portanto, deve afirmar sem pejo esse legado, afirmando-se racista, não cedendo ao lusotropicalismo que subverteu e emasculou o salazarismo. Como diz mais um utilizador, com a bandeira portuguesa no nome, sobre este assunto: “Salazar, por muito que goste dele, deixou um cancro gravíssimo na nossa direita”. Como refere um outro, que também justifica a revogação do indigenato com a pressão da ONU, “E, sim, se somos brancos temos que preservar essa natureza racial”. A mesmo conta citada em cima, com vários seguidores, não podia ser mais explícita: “Salazar era racista e há vários exemplos disso”. Um outro, saturado, não deixa margens para dúvidas: “Pode vir com a mesma cassete habitual lusotropicaleira que aqui não cola: negros são africanos e não pertencem a Portugal, pertencem a África e foi por isso que lhes demos a independência”. Repare-se como há aqui o recurso sistemático ao que tem vindo a ser produzido nos estudos sobre o colonialismo nas últimas décadas emprestando-lhe um sentido totalmente diverso, que em alguns casos questiona tibiamente a “cedência” de Salazar, noutros procura desvelar os seus verdadeiros sentimentos, e noutros, ainda, rejeita por completo a herança do lusotropicalismo com um vigor que não empresta contra aqueles que, defendendo que se tenha em conta os legados do Estado Novo na sociedade actual, apontam para o seu carácter incontornavelmente racista.

Isto é apenas um apanhado rápido de tweets, facilitado por alguma experiência em acompanhar estes temas. Não é difícil expandir o universo a que corresponde este discurso, com algum trabalho. Já não é tão fácil perceber, como dizia no início, quantas pessoas perfilham este tipo de ideias e de que forma isto reverbera e reverberará política e socialmente. As redes sociais geram, com facilidade, ilusões de óptica ou efeitos de paralaxe. Um estudo mais robusto, creio, ajudar-nos-ia a perceber a dimensão da questão, coadjuvado por outros métodos, de entrevistas a inquéritos. O que aqui quis, de certa forma, foi chamar a atenção para um fenómeno, talvez marginal, mas que se torna cada vez mais visível para quem acompanha estes temas. O problema aqui não é historiográfico ou circunscrito aos discursos públicos que versam sobre a história e memória colectiva. É uma janela a partir da qual nos podemos interrogar sobre o sentido destes debates na contemporaneidade, numa altura em que se multiplicam contas nas redes sociais que se dedicam a criar pânico social, a maior parte das vezes mentindo ou insinuando, imputando pulsões violentas e irracionais supostamente intrínsecas a grupos étnico-raciais que não se coadunam ao que têm pela norma “portuguesa”. De volta à “raça”, estamos perante um conjunto de portugueses, creio, cada vez maior que se entretém a alimentar fantasias de uma guerra racial que trai um enorme medo de tudo e todos. E, depois de décadas a acreditar em múltiplos excepcionalismos, desde o Portugal harmonioso e ultramarino até ao mais recente sobre a imunidade do país à direita radical, faríamos melhor em não ignorar o que corre o risco de alastrar de caves bolorentas até ao salão nobre da assembleia da república, agora que a oferta de partidos dispostos a acolitar estas ideias se vem multiplicando; revelador da aliciante oportunidade de negócio que muitos aqui antevêem, deitados borda fora os escrúpulos. Sem que nos tenhamos apercebido, a forma como se estruturam as posições mais ou menos fixas que nos habituámos a ter por garantidas nos debates sobre o passado recente está a mudar e a fragmentar-se.

sábado, 8 de junho de 2024

Música do BioTerra: The Culture Club - The War Song




Quando Boy George lançou o tema The War Song, tive uma reacção cínica e achei o video muito light: como é que o pessaol pode dançar com o sofrimento de tantas vítimas das armas e guerras? Algumas guerras são motivações espúrias e estúidas: efeitos de alcool, drogas, gente maluca, com ideias imperalistas, nacionalistas,falsas interprtações da realidade etc... Agora, que envelheci vejo o clip de outra forma. Há alguma ingenuidade do cantor, mas realmente o mundo devia ser mais divertido, baseado em jogos de crianças, mais pacifista e aproveitar os bons momentos da vida, como por exemplo, dançar.

terça-feira, 7 de maio de 2024

A guerra nunca partiu, de Mia Couto


"A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda."- Mia Couto in "O Último Voo do Flamingo"

quinta-feira, 25 de abril de 2024

50º Aniversário do 25 de Abril- Em cada rosto, dignidade!


50 anos anos de 25 de Abril
O balanço da Revolução de Abril é globalmente positivo
A Revolução liquidou o colonialismo português, conquistou os direitos, liberdades e garantias fundamentais de um regime democrático e permitiu um certo grau de desenvolvimento económico, social e cultural.
Claro está que a Revolução não logrou alcançar aquilo que, em determinada altura, passou a ser o seu objectivo principal: a liquidação do capitalismo e da exploração do homem pelo homem e a instauração do socialismo.
Estas continuam a ser as tarefas centrais e cada vez mais actuantes da Revolução em Portugal e no Mundo.

Agora vou até à Avenida dos Aliados celebrar a Festa dos Cravos

50º Aniversário do 25 de Abril


O 25 de Abril de 1974 em Portugal é realmente uma data marcante, cheia de significado e poesia. Foi o dia em que o povo português, cansado da ditadura que oprimia suas liberdades, se uniu numa revolução pacífica e determinada. É um exemplo poderoso de como a vontade coletiva pode transformar o destino de um País.

Esta revolução não apenas trouxe o fim da ditadura, mas também inaugurou uma nova era de liberdade, democracia e esperança para o país. As ruas de Lisboa, naquela primavera de 1974, ecoaram não apenas com os sons da mudança política, mas também com a poesia da transição de um regime opressivo para um regime republicano livre e pluripartidário. Rapidamente em todas cidades e aldeias do nosso País, a Revolução dos Cravos chegou e fizeram-se festas populares. Gritos de liberdade e canções de intervenção foram entoados por todo o território de Portugal.

O 25 de Abril é uma celebração da coragem e da determinação do povo português em lutar por um futuro melhor. É um lembrete de que, mesmo diante das adversidades, a união e a vontade de mudança de um povo podem superar qualquer obstáculo. Que essa data continue a inspirar gerações futuras a lutar pelos seus direitos e pela justiça, sempre de forma pacífica e entusiástica.

Logo à tarde, vou estar a celebrar na Avenida dos Aliados a Festa da Liberdade. Viva o 25 de Abril! Fascismo, nunca mais!

Tenham cuidado, ele é idoso! Ele é o Óscar "Tortura" Cardoso

Óscar Cardoso é um dos inspetores da PIDE que recebeu de Cavaco Silva uma pensão vitalícia por serviços relevantes prestados à Pátria.
A mesma pensão que Cavaco recusou atribuir ao Salgueiro Maia.

Se não viu torturar ninguém era perguntar-lhe porque é que Militão Ribeiro morreu na cadeia com 32 kg de peso e escreveu a carta de despedida com o próprio sangue. Tante gente boa a morrer e estes crápulas fascistas continuam por cá.

Este criminoso é o ex-inspector da pide, Óscar Cardoso que no dia 26 de Abril de 1974 mandou disparar contra populares, tendo morrido 4 pessoas. 


Uma das figuras centrais da liderança da PIDE era António Barbieri Cardoso; a sede da política política ficava na Rua António Maria Cardoso; o ex-inspector da DGS que deu este fim-de-semana uma sinistra entrevista ao Correio da Manhã em que desvaloriza a tortura chama-se Óscar Cardoso. Desagradável. É impossível não associar este apelido a alguém que nos persegue com o intuito de nos fazer mal. Em princípio, foi por isso que surgiu a expressão "Ala, que é Cardoso". Enfim. Não tenho alternativa senão dirigir-me aos Registos para solicitar a imediata alteração do meu apelido.

Óscar Cardoso vive na Ericeira, tal como José Sócrates. Afinal, a Ericeira não é apenas um destino de eleição para nómadas digitais. Não só seduz pessoas que se fartaram de salas de escritórios, como deslumbra pessoas que se fartaram de salas de interrogatórios. Vive, segundo o Correio da Manhã, numa casa decorada com retratos de Salazar. Apesar de tudo, são peças esteticamente mais arrojadas do que os quadros que se encontram pelos Airbnbs da vila, como aqueles em que se lê "Keep Calm and Carry On". Curiosamente, um slogan potencialmente ofensivo para Óscar Cardoso, uma vez que terá contribuído para que os britânicos resistissem à Alemanha nazi.

Bom, divago. A entrevista de Óscar Cardoso é fascinante porque, aos 88 anos, os seus olhos azuis só brilham quando fala dos netos. Dos netos? Não, não. Brilham quando fala dos métodos de tortura da polícia política. No entanto, enquanto relata torturas da PIDE, nega que tenha existido torturas na PIDE. "As pessoas não foram torturadas pela PIDE, as pessoas foram chateadas pela PIDE". Sim, sim, chateadas. Consta até que a maior parte dos agentes da PIDE teriam 8 anos e limitavam-se a sentar-se atrás dos presos políticos a dizer "Já chegámos? E agora? Já chegámos? E agora?". Pelo menos, fica claro que a PIDE tinha aconselhamento jurídico. É que há convenções que proíbem a tortura, mas não há nenhum tratado que ilegalize a chatice.

Quando lhe perguntam como conseguia obter confissões, Cardoso empolga-se ao relatar a aplicação de choques elétricos, que qualifica como "brincadeiras". Não sei como é que não dá para escolher a profissão de PIDE na Kidzania. "Não é tortura, faz uma comichão e tal", sossega-nos o ex-agente. Obviamente. Entendo agora o verdadeiro sentido da frase "a PIDE dava coças". Aliás, a ditadura só caiu porque as pessoas estavam fartas de comichão: no 25 de abril costuma circular imenso pólen e havia dificuldades em importar anti-histamínicos.

Após uma descrição dos métodos desumanos a que a PIDE recorria nas colónias, a jornalista pergunta "Isso em Angola. E em Portugal?", como se estivesse a fazer uma entrevista ao Matias Damásio sobre o sucesso dos últimos concertos. Longe de me intrometer no trabalho da repórter, mas verdadeiro serviço público seria questionar qual a marca das gomas de melatonina que este homem toma para conseguir dormir à noite.

1961: ano que marca o início do conflito nos territórios africanos.
Em Angola dá-se o arranque de toda uma situação só terminada após a queda do regime em 25 de Abril de 1974.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Estado Novo - pobreza instituída, bufaria, guerra e tortura


A tremenda miséria que eu vi neste país no tempo do ditador é incontornável e insuportável. E Irene Pimentel estimou que durante o Estado Novo morreram cerca de 600.000 crianças, adultos e idosos. A esperança de vida era muito mais baixa que hoje.
Quando os fascistas da rede X vêm contestar os 50 anos de Liberdade, compararam o Portugal de Salazar com regimes de Cuba e da ex-União Soviética. Relembro este gráfico da mortalidade infantil pós- 25 de Abril. Elucidativo. Vocês não têm argumentos. 
Repararem como Salazar está com luvas para encher um copo a um pobre (podia ter doenças, medo de ser contagiado com alguma doença)

O 25 de Abril acabou com: 
A censura 
A tortura
A prisão e execução arbitrárias 
A guerra colonial 
O domínio imperial 
A bufaria e a PIDE 
O partido único 
A repressão dos trabalhadores 
Portanto não, não acho estranho que quem se afirme de direita seja contra. Acho estranho que aceitemos a antidemocracia.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Não ao Serviço Militar Obrigatório

Parece que é altura de recuperar velhas playlists. Tropa? Não, obrigado.

Peste & Sida - Pátria Sábia


(Re)Ler: Serviço inútil obrigatório

Serviço inútil obrigatório

Por Filipe Gil
Foi o dia mais inútil da minha vida. Bem cedo, numa manhã de sol, fui de autocarro até à Calçada da Ajuda, em Lisboa, para o dia de inspeção militar. Eu e uma centena de jovens de várias regiões do país (notava-se pelos diferentes sotaques) juntámo-nos num pavilhão do Quartel da Ajuda para ouvir um militar - não me lembro da patente - discursar sobre aquele momento e a importância do serviço militar para Portugal. Depois seguimos para uma longa fila à espera da dita inspeção. Horas e horas de espera num dia de sol que, mesmo depois do discurso do militar, não deixaram de parecer completamente inúteis.

Uma vez feitos os testes, sentei-me em frente de um outro militar para responder a um questionário. Das perguntas recordo-me de uma que julguei ter-me deixado em maus lençóis, sobretudo porque o meu interesse em ir à “tropa” era nulo. Estava muito mais interessado em continuar os estudos do que ver a minha vida interrompida durante uma série de meses para fazer o tal serviço militar então obrigatório. À pergunta: “Faz desporto?”, respondi orgulhosamente: “Sim, sou federado em andebol há vários anos!”. Arrependi-me meio segundo depois quando vi o militar a sorrir como quem dizia: “já não te safas!”. Mas a pergunta seguinte, sobre a área de estudo que ia seguir, colocou-me certamente na reserva. Respondi que ia estudar Ciências da Comunicação, e aí o militar encolheu os ombros com indiferença. Fiquei feliz. E mais feliz fiquei quando ao final da tarde os militares indicaram que não seria necessário regressar no dia seguinte como até aí estava previsto. Foram horas totalmente inúteis que não despertaram em mim qualquer veia patriótica para me juntar ao serviço militar. E naquelas horas de tédio lembrei-me do meu pai contar um dos piores momentos da sua vida: o dia em que se despediu dos seus pais para embarcar na viagem que o levou para combater na guerra em Angola. E como diz o ditado, “filho és, pai serás…”, sou pai de dois rapazes e não consigo ficar indiferente a esta memória, nem à ideia agora trazida à baila por várias chefias militares portuguesas do regresso do Serviço Militar Obrigatório (SMO)  - e o que isso implicará na vida dos meus filhos.

É certo que vivemos uma ameaça cada vez mais real de Putin atacar outros países para além da Ucrânia, o que implicará uma resposta à altura dos países da NATO (à qual Portugal pertence). Mas basta ligar as televisões e ler os jornais para ver que a forma de fazer guerra mudou, é feita com muita tecnologia e com militares muito especializados. O coronel (e capitão de Abril) Carlos Matos Gomes relembrou isso mesmo num artigo publicado na revista Visão esta semana: “As guerras atuais assentam em sofisticados sistemas de armas e os soldados só servem como alvo e para morrer dentro das trincheiras”. Será preciso acrescentar mais?

Convém relembrar que, em tempos, as forças armadas, tal como a ida para o seminário, eram formas de sair da pobreza extrema da ditadura de Salazar. Um país que viu demasiadas vezes os filhos das famílias amigas do regime serem dispensados de irem “à tropa” ou de serem enviados para a guerra. 
Por isso, ao invés de se pensar no SMO “com base em estados de alma”, como disse o general Luís Valença Pinto na edição de ontem do DN, não será sim melhor pensar o assunto com estratégia para  “valorizar a carreira militar”, como disse em campanha Pedro Nuno Santos ou criar um “sistema de incentivos” para a carreira militar como disse na mesma altura o agora primeiro-ministro Luís Montenegro?

Em tempo de paz, o serviço militar obrigatório vai interromper a vida de muitos jovens, que nesse período devem ter outras experiências muito mais interessantes , estudar, viajar, entre outras coisas. Já se for em tempo de guerra, o SMO servirá para mandar carne para canhão. E se há cerca de um milhão de portugueses muito ávidos de saudosismo, convém relembrar todos os dias que são uma minoria, o resto não vai em cantigas saudosistas. Mas o caminho não é por aí, devemos pensar sim no serviço militar com uma forte vertente profissionalizada, bem paga, e sempre como uma escolha, nunca como uma obrigação. Ideias avulsas, atiradas para o ar, como esta do regresso do SMO, tiram-nos o foco do que é importante e de tratar os assuntos de forma séria. Mas vá, concentremo-nos no que importa: o velho e o novo logótipo do governo português…

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Fascistas, novamente? Não obrigado!

"Sou um homem, sou pai de família, sou avô e... sou fascista!" Foi dito publicamente na última 6.ª Convenção Nacional do Chega.
Pois bem, meus caros. Não esquecemos! Não esquecemos nem queremos recalcamentos nem pós-verdade. Ainda há muito silêncio e carrascos fachos que não chegaram à barra dos tribunais.
A Ditadura Nacional (1926–1933) e o Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933–1974) foram, conjuntamente, o mais longo regime autoritário na Europa Ocidental durante o séc. XX, estendendo-se por um período de 48 anos. Teve impacto global.
O regime franquista foi igual. Global. O Franquismo foi um regime totalitário de caráter nazifascista fundado pelo ditador Francisco Franco, que dominou a Espanha e os países ibero-americanos durante os anos de 1939 a 1975.
Por favor voltar a rever este excelente documentário.
O Silêncio dos Outros, retrato da luta das vítimas do franquismo é um dos mais importantes e premiados documentários do ano 2019.
Produzido por Pedro Almodóvar e realizadado por Almudena Carracedo e Robert Bahar, o filme conquistou, nos prémios mais importantes do cinema espanhol, o Goya de Melhor Documentário e venceu o Prémio do Público da secção Panorama no Festival de Berlim.
O Silêncio dos Outros mostra a luta épica das vítimas dos 40 anos da ditadura de Franco, em Espanha, que continuam hoje a procurar justiça. Filmado ao longo de 6 anos, o filme acompanha várias vítimas e sobreviventes, enquanto organizam o "Processo Argentino" e enfrentam uma amnésia imposta pelo Estado perante crimes contra a Humanidade num país, que após quatro décadas de democracia, continua dividido.

Desde sua morte, em 1975, o corpo de Franco esteve no Vale dos Caídos, um imponente mausoléu a 50 quilómetros de Madrid. Por decisão do próprio ditador, o local foi construído por milhares de presos políticos espanhóis nos anos 1940 e 1950. Neste templo católico, onde se destaca uma cruz de 150 metros de altura, também estão os restos mortais de 27 mil combatentes leais a Franco e das vítimas de seu regime, 10 mil republicanos, retirados de fossas comuns e cemitérios e levados para o local sem aviso prévio às famílias. O franquismo e o salazarismo tiveram impactos globais. Salazar com a Guerra Colonial e Franco estendendo o seu impacto nos países ibero-americanos.
Não esquecemos!

domingo, 14 de janeiro de 2024

Pacheco Pereira - Só vale a pena comemorar o 25 de Abril em modo combativo


«Os 50 anos do 25 de Abril vão ser comemorados por todo o lado (só o Arquivo Ephemera tem cerca de 50 pedidos de organização ou cedências de material para exposições e participação em debates e conferências, de escolas, autarquias, universidades e outras instituições, dos quais talvez se consiga responder a metade…). Não tenho dúvidas de que vai haver centenas e centenas de realizações e, embora haja o risco de overdose e de a partir de Março não se poder mais ouvir falar do 25 de Abril, isto significa que a data entrou completamente na normalidade institucional do país, o que é bom e mau ao mesmo tempo.

Que se lembre a determinação e coragem dos que o fizeram, que se fale por comparação com os anos da ditadura, é bom. O que é mau é que se comemore a data mais ou menos por obrigação como se fosse um dia santo republicano e laico, e não a Revolução de 25 de Abril. Sim, a “revolução”, que está muito para além da data, porque o 25 de Abril a partir da manhã deixou de ser um golpe de Estado para ser uma revolução, quando muitos milhares de pessoas vieram para as ruas, os militares tiveram que acelerar a ocupação da PIDE e a prisão dos agentes, que, recorde-se, mataram as últimas vítimas directas do Estado Novo na metrópole, tiveram que libertar os presos políticos, acabar com a censura nas ruas e aceitar a realização do 1.º de Maio e mil e um pequenos/grandes factos consumados que a Junta de Salvação Nacional não desejava.

A rua somou-se aos quartéis e a rua fez a revolução. Os historiadores, os sociólogos e os políticos têm usado o termo ou criticado o seu uso, têm-no definido com vários graus de exigência, mas que o 25 de Abril foi uma revolução, isso foi. Por muito tumultuoso que tenha sido o processo – e em bom rigor era difícil que não fosse, num país com tão longa ditadura e com uma guerra colonial em curso –, no dia 24 não havia liberdade, nem democracia, e no dia 25 havia liberdade e desta passou-se à democracia. Pode tudo estar a correr mal, podem os partidários do “cumprimento de Abril” dizer que este está “por cumprir”, mas a diferença entre 24 e 25 ainda está viva e bem viva.

Mas ter liberdade e democracia nunca é isento de perigos, e a sua fragilidade exige uma combatividade do bem que está longe de existir. Temo aliás que, por complacência e preguiça, por mesquinhez com as pequenas insatisfações de cada um, pela degradação da qualidade de vida e pela degenerescência cultural, pela falta de exigência, pelo egoísmo individual, as comemorações sejam mais um ritual do que algo com significado em 25 de Abril de 2024. Tanto mais que, entre eleições e crises políticas, o certo crescimento da direita radical, e não é só no Chega, vai ser a pior ecologia para recordar uma data que vai valer a pena lembrar mas só em modo combativo.

Pouca gente atacará o 25 de Abril directamente, principalmente no terreno da política, mas existem ataques que minimizam o seu significado. Quando se coloca o 25 de Novembro em paralelo com o 25 de Abril, para além de uma asneira histórica, está-se a diminuir o 25 de Abril. Foi feito. Ou, noutra variante, o retorno de “como era bom Mussolini porque fazia os comboios chegarem a horas”, que alguns pseudo-académicos que não se enxergam dizem por aí da ditadura. Foi dito.

Qualquer minimização da violência, crueldade, atraso, fraude, discriminação, perseguição, e mais mil e uma coisas como a ideia falsa de que a corrupção é uma característica da democracia e não existia no “tempo de Salazar”, devia obrigar a ler os milhares de cortes da censura que protegiam o regime das notícias perturbadoras para a “paz” dos espíritos, a começar pelo capítulo intitulado “desfalques”. Foi sugerido. Do mesmo modo, a pedofilia, os abusos sexuais e a sistemática violência contra as mulheres... – lá porque não se falava disso, não quer dizer que não fosse um período negro favorável a todos os abusos, exactamente porque não se podia falar disso. Foi minimizado. Aliás, talvez o que de mais grave se esquece, mesmo nas comemorações, é que a ditadura tem milhares de mortos à sua responsabilidade, não porque a PIDE matasse muito menos do que as suas congéneres europeias, como alguns dizem, e é verdade para a metrópole, mas havia três guerras coloniais em curso e nelas morreram muitos soldados portugueses e muitos africanos. Foi esquecido.

O que queria dizer ao enumerar todos estes males sociais e políticos que desgastam a liberdade e a democracia é que eles têm autores, uns mais conscientes do que estão a fazer, outros porque vão na onda e acham que não têm nada a perder, e estão a estragar o 25 de Abril. Usando um exemplo trivial, é como aqueles que nunca quiseram saber dos sindicatos, até os desprezavam, mas que quando são despedidos vão lá bater à porta, para ter um advogado que defenda os seus direitos.
O que digo é que é importante defender o que temos, antes de ir bater a uma porta que pode até já não existir.»

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ainda a Homenagem a Sara Tavares - afinal o racismo negro contra os brancos existe em Portugal


Porque é que Cristina Roldão não escreve em cabo-verdiano "bunita"?? Bela homenagem logo no título!! Diz a cronista que corriam os anos de 1993 e 1994 e que "naqueles breves minutos - quando a Sara Tavares cantou e venceu o Chuva de Estrelas e o Festival da Canção- , deixámos de ser mandadas para a “nossa terra”, porque subitamente éramos daqui; deixámos de ser as “pretas da Guiné que lavavam a cara com chulé”, as “barrote queimado”, as “macacas” que cheiravam a “catinga”. Só se for em Lisboa.
Quantos "brancos" portugueses que conheço e adoptaram menino(a)s moçambicanos, cabo-verdianos, tomeenses já antes dessa altura.... Os próprios retornados de África foram os pioneiros na adopção de crianças africanas. Não trouxeram ódio. Muitos dos seus filhos mantiveram a dupla-nacionalidade (Angola-Portugal, Moçambique-Portugal, Guiné-Bissau-Portugal, por aí fora).  Cristina Roldão mal!! Não convoquemos racismo negro. Sara Tavares não era racista!! Contudo e por falar  nos anos 80 (e 90) na faculdade onde estudei havia muitos estudantes universitários CPLP. Portugal nunca falhou o pagamento da bolsa. Já os seus países de origem demoravam a pagar. Tinham que trabalhar para concluir os estudos. Os macaenses também igual sorte. 
Outra homenagem racista leio em Joacine Katar Moreira, apelando ao orgulho preto, dizendo que morreu "uma luz para todas nós, meninas negras". Sara foi adoptada por avós brancos no Pragal. Morreu uma MULHER. Ponto. Grande voz, amor eterno à música. Lembremos a Sara Tavares, sem etnia nem côr. 
P.S. Uns tios meus "brancos" ( já falecidos ) adoptaram uma menina manca moçambicana. Isto há 40 anos atrás. Agora é uma mulher realizada, está casada com um homem "branco" e têm dois filhos mestiços. Já conversei com ela muitas vezes sobre se alguma vez sentiu em Portugal alguma discriminação por  ser "preta" e ela diz-me que não e que está-se a marimbar para o Black Lives Matters. "Isso é um fenómeno dos States", diz ela. E tem razão.

sábado, 10 de junho de 2023

O 10 de Junho do nosso descontentamento

O 10 de Junho é um cadáver exumado anualmente em soturnas comemorações oficiais.
Os EUA exaltam o 4 de julho, data da declaração da Independência, e fazem desse dia a festa nacional. Que melhor razão para celebrar o dia do que o nascimento do país, que promulga uma constituição avançada e declara o direito à felicidade?
A França fez da tomada da Bastilha, em 14 de julho, o símbolo da liberdade, a festa da Revolução que aboliu as velhas monarquias de direito divino e deu origem às modernas democracias governadas por cidadãos que o voto popular escrutina.
O Estado português escolheu, não a independência, não a glória das descobertas, não a liberdade, mas o óbito de um poeta, singular e grande, é certo, mas a morte, nem sequer o nascimento cuja data e local ignora.
Os EUA e a França celebram a liberdade e os povos exultam, Portugal evoca a morte e os portugueses deprimem-se. O dia 10 de Junho era na ditadura o «Dia de Camões, de Portugal e da Raça». Era um dia de nojo, na dupla aceção, com os carrascos a distribuir veneras pelas viúvas, pais e irmãos dos militares mortos na guerra colonial.
Hoje, em democracia, o dia 10 de Junho apenas perdeu a Raça. É o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Não é festa, é velório.
Portugal tem uma Revolução para festejar o seu dia, o dia que fez a síntese do melhor que herdámos do liberalismo e do 5 de Outubro, a madrugada que emocionou o Mundo e libertou Portugal da mais longa ditadura do Século XX – o 25 de Abril.
Portugal prefere o velório à festa, a véspera da perda da independência à alvorada da libertação, a continuidade das cerimónias da ditadura à aurora de todas as liberdades, à festa do povo e à grandeza épica do 5 de Outubro e do 25 de Abril.
A exaltação da data, a nível nacional, deve-se ao salazarismo que aproveitou os heróis da República, expurgando-os do sentido positivista e laico que os republicanos lhes atribuíram, e introduzindo um sentido nacionalista adequado à propaganda fascista.
O Presidente da República, versão civil e culta de Américo Tomás, começou este ano a comemorar a data, em Braga, no seu jeito excessivo, talvez saudoso de um 28 de maio que abateu a liberdade.
Américo Tomás era diferente, nunca foi eleito democraticamente, mas a liturgia pouco mudou na coreografia pífia.
O atual Presidente da República, de Braga a Peso da Régua, parecia, na sanha contra o Governo, seguir os passos do marechal Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa. Hoje, como em 1926, os amigos dirão que é para «tirar o Governo aos devoristas e sanguessugas da República» e os adversários que «é o caminho para a ditadura» em cujo ambiente foi educado.