Mostrar mensagens com a etiqueta Fascismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fascismo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Ayman Odeh Calls for Unified Arab List to Challenge Netanyahu Government



Arab lawmaker Ayman Odeh, head of the Democratic Front for Peace and Equality–Arab Movement for Change list in the Knesset, said Arab political parties are moving to form a unified joint list to confront what he described as the “fascist” government led by Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu in the upcoming elections.

In statements carried by Quds News, Odeh said the push to reunify the Arab parties is a direct response to the will of Palestinians inside the territories occupied in 1948 and reflects growing concern over the current government’s policies.

Odeh held Netanyahu’s government responsible for the killing of more than 71,000 Palestinians in Gaza, including tens of thousands of children, stressing that the upcoming elections are not merely about seats or numbers, but a political, moral, and national obligation.

“These elections are not just about arithmetic,” Odeh said. “They are a political and ethical battle to prevent the continuation of Netanyahu’s policies and those of his extremist ministers.”

Targeting the Joint List
Odeh also addressed repeated attacks by far-right National Security Minister Itamar Ben-Gvir, who has described Arab lawmakers as a “coalition of terrorism representatives.”

He said such rhetoric reflects the government’s unease over the potential strength of a unified Arab list, warning that Israeli authorities may attempt to raise the electoral threshold or activate legal measures aimed at preventing the joint list from entering the Knesset.

“These attacks are not media stunts,” Odeh said. “They are part of a broader political effort to control the system and prevent Arabs from achieving the largest possible representation.”

He noted that previous iterations of the Joint List demonstrated its electoral potential, securing between 13 and 15 seats, a result that continues to alarm the current government.

Racism, Crime, and Political Exclusion
Odeh said the renewed effort to reunify the Arab parties is also driven by mounting fears over the rise of racism and the entrenchment of what he called a “fascist government,” alongside the escalation of crime within Arab communities—policies he said are actively supported by Ben-Gvir.

He warned that another election cycle under the current government could lead to what he described as a “phase of elimination” across all aspects of life for Palestinians inside Israel.

According to Odeh, the upcoming elections will be decisive not only for Arab parties but also for Israel’s broader opposition, as the outcome could directly affect Netanyahu’s ability to form a governing coalition.

He cautioned that the government may exploit procedural or legal maneuvers to weaken the joint list, reiterating that its core objective is to preserve Arab political unity and apply sustained pressure on the government.

Odeh concluded by emphasizing that the political struggle ahead is not solely over parliamentary seats, but over rights, equality, and the protection of Arab citizens inside Israel.

“The unity of Arab parties and commitment to a joint list is the surest path to defending our rights and confronting attempts to exclude us or label us as ‘terrorists,’” he said.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

WhiteDate. 32 homens em Portugal tinham perfis no "Tinder Nazi"



Mais de 30 homens residentes em Portugal tinham contas na plataforma de encontros WhiteDate, conhecida como o "Tinder Nazi", um site que promovia encontros entre pessoas de ascendência europeia com valores "tradicionais".
 
O WhiteDate (que na tradução livre significa literalmente "Encontro Branco", referindo-se à etnia caucasiana) apresentava-se como um local para pessoas de valores "tradicionais" e de "ascendência europeia", que pretendiam contribuir para "criar uma sociedade racialmente pura".

O site foi, entretanto, apagado, mas graças ao trabalho de Martha Root (pseudónimo) - uma hacker alemã que levou a cabo a divulgação dos perfis e dados de quem tinha uma conta - é possível ainda consultar esta informação.

No site, criado pela própria, os utilizadores podem consultar um mapa mundo, onde são assinalados os perfis de quem tinha uma conta no WhiteDate. Para aprofundar a informação, pode-se ainda visitar estes perfis um a um e ler o que tinham na plataforma.


"Nascido em Portugal, mas a viver na Noruega, consciente do que significa ser europeu, procuro encontrar uma parceira de ascendência europeia para criar e cuidar de uma família", lê-se no perfil de um homem de 31 anos. 

Mais abaixo, nas orientações políticas, este utilizador admite ser de extrema-direita e até mesmo fascista.

"Estou farto de toda a degeneração que tem corroído a civilização ocidental, sobretudo nas relações entre homens e mulheres", lê-se numa outra biografia. "A necessidade de encontrar uma parceira a quem eu possa dedicar todo o meu coração na sociedade atual parece valer a pena apenas com a ajuda de iniciativas como esta comunidade romântica online para pessoas brancas", acrescenta.

E num outro perfil, este de um homem de 23 anos: "Acho que é importante para nós, brancos, termos os nossos próprios espaços, especialmente no que diz respeito às relações sexuais".

Nas dezenas de perfis, a grande maioria apresenta-se como "pro-white" ou "pró-branco", em português, com muitos a dizerem-se também anti-vacinas e a admitirem não terem sido vacinados contra a Covid-19.

As idades variam entre os 20 e os 50 anos.

Mas há um outro dado que se faz notar: em Portugal, não há um único perfil de uma mulher, apesar de todos estes homens estarem à procura de uma parceira.

De facto, no total dos oito mil perfis divulgados, com mais de 6.500 ativos na altura da exposição, cerca de 86% pertencia a homens. Apenas 14% dos utilizadores da plataforma eram mulheres.

Perante a disparidade, Martha Root chegou mesmo a ironizar, dizendo que a plataforma "faz com que a aldeia dos Smurf parecia uma utopia feminista".

A hacker alemã infiltrou-se na plataforma durante uma conferência tecnológica realizada em Hamburgo, na Alemanha, em dezembro de 2025, (onde apareceu mascarada de Power Ranger rosa para proteger a sua identidade) mas a ação resultou de um trabalho de vários meses.

Ao longo desse tempo, Root disse ter descoberto que a cibersegurança da plataforma era tão má que "faria a conta de AOL da tua avó corar".

"Imagina dizeres que fazes parte da ‘raça superior’ e esqueceres-te de proteger o teu próprio site - talvez seja melhor dominar o WordPress [plataforma de criação de sites] antes de dominar o mundo", atirou.

O WhiteDate era gerido, alegadamente, por uma mulher de extrema-direita a partir da Alemanha.

Dos cerca de 6.500 perfis ativos, cerca de metade eram dos Estados Unidos com 3.411 utilizadores. Seguia-se o Reino Unido, com 399 perfis, França, com 380, e o Canadá, com 357. A vizinha Espanha tinha 46 utilizadores. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

"Este é o NOSSO Hemisfério"- diz Trump sobre eventual invasão ilegal da Gronelândia


Hitler chamou-lhe Lebensraum ("Espaço Vital").
Putin chama isso de Russkiy Mir ("o Mundo Russo").
Trump chama isso de "Nosso Hemisfério".

Seja em sua forma nazi, racista ou fascista americana, esse imperialismo descarado deve ser combatido por todos os amantes da liberdade, em qualquer lugar do mundo.
O direito internacional, tal como a Carta da ONU, reconhece a igualdade de soberania dos Estados.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Encontros Improváveis - Violent Vickie e Nino Oxilia (Rapsodia Satanica)


Come to me
Wild and free
Trust in me 

Come to me
Break the mold
Thing to hold

Broken arms
Cut up legs
End the race

Come to me
Love that’s free
Willingly

Come to me
Wild and free
Trust in me 

Come to me
Break the mold
Thing to hold

Broken arms
Cut up legs
Win the race

Come to me
Love that’s free
Willingly

I know you’re mine
In endless time
Open the door

Know you’re mine
Endless time
Say no more

Know you’re mine
Endless time
Open the door

May you please
Arrive
May you please
May you please
Arrive

Vídeo com extractos do Filme "Rapsodia Satanica" (1917)

Significado da canção:

“Open the Door”, da Violent Vickie, é geralmente interpretada como uma canção sobre isolamento emocional, desejo de ligação e vulnerabilidade, usando a imagem simples de uma porta fechada como metáfora central.

A letra sugere alguém que está do lado de fora, pedindo acesso não apenas físico, mas sobretudo emocional. “Abrir a porta” significa permitir proximidade, intimidade e confiança, enquanto a recusa ou demora em abri-la aponta para medo, retraimento ou trauma. A insistência do pedido transmite urgência e fragilidade, quase infantil, o que contrasta com o tom frio e minimalista da música.

Dentro da estética cold wave / minimal synth da Violent Vickie, a canção reforça sentimentos de alienação, solidão urbana e incomunicabilidade, típicos do pós-punk. Não é uma narrativa literal, mas antes um estado emocional: alguém que quer ser visto, acolhido e reconhecido, enfrentando o silêncio ou a indiferença do outro lado.

Assim, a canção pode ser lida tanto como um apelo romântico quanto como uma metáfora mais ampla sobre a dificuldade de criar ligações humanas num mundo fechado, defensivo e emocionalmente distante.

Sobre o filme
Rapsodia Satanica é um filme mudo italiano de 1915, dirigido por Nino Oxilia, com Lyda Borelli interpretando uma versão feminina de Fausto, baseada em poemas de Fausto Maria Martini. Pietro Mascagni compôs a sua única trilha sonora para o filme e regeu a primeira apresentação em julho de 1917.

Rapsodia Satanica é um dos filmes mais emblemáticos do cinema mudo italiano. Aborda o tema do pacto com o diabo como metáfora para o medo do envelhecimento, a vaidade e o desejo de juventude eterna. A história acompanha Alba d’Oltrevita, uma mulher rica e já envelhecida que, atormentada pela perda da beleza e do poder de sedução, aceita um acordo com uma figura demoníaca para recuperar a juventude. Em troca, compromete-se a não amar, condição que entra em conflito com a sua natureza humana quando se envolve emocionalmente com dois irmãos. A transgressão do pacto conduz a um desfecho trágico, sublinhando a ideia de que o desejo de desafiar o tempo e a ordem natural tem um preço inevitável. O filme insere-se no imaginário simbolista e decadentista da época, funcionando como uma versão feminina do mito de Fausto e refletindo uma visão moral e melancólica sobre a beleza, o amor e a efemeridade da vida.

A ligação à literatura decadente e simbolista é profunda. O filme dialoga com autores como Gabriele D’Annunzio, Charles Baudelaire, Joris-Karl Huysmans e Oscar Wilde, que exploram temas como a exaustão moral da modernidade, o culto da beleza artificial, o prazer ligado à morte e a atração pela ruína. Alba encarna a figura típica da femme fatale decadente: bela, melancólica, destrutiva, consciente da própria teatralidade e condenada pela intensidade do desejo. O enredo privilegia o estado de alma e a atmosfera em detrimento da ação, algo característico do simbolismo.

Do ponto de vista histórico, Rapsodia Satanica é fundamental para o desenvolvimento do cinema como arte estética e não apenas narrativa. O filme aposta numa encenação altamente estilizada, movimentos coreografados, figurinos exuberantes e gestos exagerados que transformam o corpo da atriz num elemento expressivo central. A música original de Pietro Mascagni, composta especificamente para o filme, antecipa a ideia de banda sonora sinfónica integrada na dramaturgia, algo raro na época. Além disso, o filme consolidou o modelo do diva film italiano, influenciando a representação da mulher no cinema mudo europeu e abrindo caminho para um cinema mais psicológico, lírico e autoral.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Dois livros essenciais para compreender o fenómeno do crescimento contemporâneo da extrema-direita


Mark Sedgwick (2019) - Key Thinkers of the Radical Right 
O ressurgimento da extrema-direita na América e na Europa chamou a atenção para a existência de filósofos e escritores políticos cujos nomes são apenas ocasionalmente familiares e cujo pensamento é geralmente desconhecido. Chega a surpreender alguns o facto de a extrema-direita possuir de facto uma filosofia política, para além do nazismo ou do fascismo de Mussolini, ambos, na verdade, desacreditados e marginais. Em vez disso, a extrema-direita ressurgente inspira-se em pensadores consagrados como Nietzsche e Hegel, em pensadores menos conhecidos como Oswald Spengler e Julius Evola, e nos escritos relativamente obscuros de filósofos políticos contemporâneos como Alain de Benoist, em França, e Alexander Dugin, na Rússia. E há ainda toda uma panóplia de pensadores emergentes, muitas vezes americanos, alguns desconhecidos e outros famosos apenas pelas suas intervenções mediáticas. Este livro examina o cânone clássico, os pensadores modernos mais influentes e uma seleção de pensadores emergentes. Dezasseis especialistas explicam dezasseis pensadores, oferecendo uma introdução à sua vida e obra, um guia para o seu pensamento e uma explicação da recepção das suas obras. O livro fornece, portanto, uma introdução completa e autorizada ao pensamento por detrás das acrobacias e do ressurgimento, o pensamento da extrema-direita.


A. James McAdams e Alejandro Catrillon (2021) - Contemporary Far-Right Thinkers and the Future of Liberal Democracy
Este livro é a primeira análise sistemática dos esforços de um vasto leque de pensadores contemporâneos de extrema-direita para popularizar as suas críticas às normas e instituições liberal-democráticas e tornar as suas ideias objecto de debate político e académico contínuo.

O livro centra-se em pensadores influentes da Europa Ocidental e Oriental, Rússia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Entre eles estão Alain de Benoist, Guillaume Faye, Götz Kubitschek, Pat Buchanan, Fróði Midjord, Jason Jorjani, colaboradores da revista online Quillette e a figura enigmática conhecida como o Pervertido da Idade do Bronze. O livro explora os diversos fundamentos intelectuais das posições destes pensadores, as semelhanças e diferenças nas suas ideias e as suas perspetivas de influenciar as atitudes em relação à política democrática nos respetivos países. Examina diversos movimentos e correntes de pensamento, incluindo a Nova Direita Europeia, o Paleoconservadorismo, a Alt-right, o Identitarismo, o Nacionalismo Branco e o antifeminismo.

Oferecendo uma perspetiva global muito necessária, este livro será de grande interesse para estudantes e investigadores de populismo, extremismo de direita, política identitária, fascismo, racismo e conservadorismo.

Ler aqui uma entrevista James McAdams

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Chega e o Ódio - "Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível"


Já li o livro excelente de Miguel Carvalho- "𝐏𝐨𝐫 𝐃𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚 -𝐀 𝐟𝐚𝐜𝐞 𝐨𝐜𝐮𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥".
A narrativa inflamada, os epítetos boçais, a opacidade das contas (afinal cai o pano de "Limpar Portugal" e financiamento deste "partido" (corrupto, quando acabamos de ler o livro) é também racista, fascista e xenófobo.
Outro aspecto que André Ventura e sua comandita proclamam é o candidato “do povo” contra as “elites. Nada mais falso. É alimentado por uma elite económica nacional e internacional que depois, caso chegue ao poder, vai cobrar e os portugueses ficam mais pobres e haverá austeridade.

Em junho de 2020 a Revista Visão já havia publicado extensa matéria sobre um banquete na luxuosa Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. O centro das atenções era André Ventura, que recém havia lançado o Chega (2019). Entre os convidados estava João Maria Bravo, dono da Sodarca, empresa com contratos milionários de fornecimento de armas às forças de segurança e ao exército.

Outro grande empresário presente era Miguel Félix da Costa, cuja família representou durante 75 anos a marca de lubrificantes Castrol em Portugal, atual homem forte da Slil, uma sociedade gestora de participações nas áreas do imobiliário e turismo, e que conta ainda com interesses na agricultura e na criação de cavalos. A eles se juntou Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, então administrador acionista da TAP, e João Pedro Gomes, do grande escritório de advogados BSGG.

Também comensal da Quinta do Barruncho foi Francisco Cruz Martins, que administra as imobiliárias Mocaja e Xaroco, ambas pertencentes à Breteuil Strategies, sediada no Chipre, um dos mais importantes paraísos fiscais europeus. O nome do advogado foi amplamente citado no escândalo dos “Papéis do Panamá”, por causa das ligações a sociedades offshore.

𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗴𝗮 𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗲 𝗼 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗼
Além deles, outros 70 grandes empresários de diversos ramos económicos portugueses, como representantes do antigo Grupo Espírito Santo. Carlos Barbot, dono do império empresarial das Tintas Barbot, e Paulo Mirpuri, ex-dono da falida operadora de aviação Air Luxor, CEO da Mirpuri Investments e da Hi-Fly, também estiveram nos almoços do Chega.
Entre os doadores do Chega já foram detectados membros da família Champalimaud, que figuram como maiores acionistas da CTT (Correios e banco) e do hotel de luxo The Oitavos, em Cascais, onde o partido organiza encontros com financiadores, dentre outros ramos de negócios.
O episódio recente da CNN foi mais um acto de vitimização, próprio dos ditadores. Recordo que André Ventura num debate para as Legislativas de 2024 disse "𝗘𝘂 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗿𝗼𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗾𝘂𝗶𝘀𝗲𝗿”. Lembram-se? Um total de 1.661 interrupções e cerca de 30% das interrupções foram feitas pelo líder do Chega.

𝗢 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗹𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗼 𝗖𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮𝘀
Obriga frequentemente ao uso de fact-checking. Agora aprimoraram-se na deepfake recorrendo à Inteligência Artificial.
A camada principal do Chega é polarizar a nossa sociedade e instrumentalizar e promover o ódio e a intolerância.
Já dizia Camilo Castelo Branco, um grande escritor e por vezes muito esquecido entre nós, tal como p.ex. Aquilino Ribeiro escreveu o seguinte - "Ó𝐝𝐢𝐨 é 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐚𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐫𝐞𝐳í𝐯𝐞𝐥"  (Trecho retirado do seu romance "A Neta do Arcediago")
"Somente desprezível" significa que algo ou alguém é digno de desprezo e nada mais. Refere-se a algo ou alguém que não merece consideração, que é vil, abjeto ou sem valor, não apresentando qualquer outra qualidade.
Que merece ser desprezado: A expressão destaca a falta de valor e a indignidade.
Que não merece respeito: Implica que a pessoa ou coisa em questão é de baixo caráter, abjeta ou sórdida.
Sem outras qualidades: Sugere que, além de desprezível, não há nada de positivo a ser dito sobre o assunto.
Uma situação e efeito do ódio é a nível psicológico e de abalos de valores pessoais e colectivos. Ver estudo académico "Why we hate". 
Porém o aspecto perigoso do ódio é quando ele está na política, num partido, num agregado social. O ódio deriva de uma mentalidade “nós contra eles”, ao mesmo tempo que é um método simplificado para a difícil tarefa de gerir a diferença.

𝐏𝐨𝐥𝐚𝐫𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐧ã𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐥𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐫𝐚𝐭𝐮𝐢𝐭𝐨 — 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐭𝐨𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨.
A política não se esgota no consenso, pelo que também é confronto quando o que está em jogo a dignidade de vidas inteiras. Polarizar não é rejeitar o diálogo, mas sim recusar a normalização da violência arbitrária. É traçar uma linha ética, mas não moralista, que diga que daqui não se ultrapassa. 

Afinal, existem momentos em que a empatia exige a tomada de posições e a capacidade de ouvir o outro cede lugar à resistência.

Contudo, o exercício da empatia não se restringe apenas aos opositores de opinião. Dentro dos nossos próprios espaços políticos, deve imperar a capacidade de ouvir o outro e de respeitar a sua humanidade, independentemente das diferenças. Na luta por um mundo mais justo, a empatia deve ser o alicerce de todas as nossas relações, não apenas com aqueles que pensam de forma diferente, mas também dentro dos espaços que ocupamos.

Em conclusão, é preciso mais do que nunca, resgatar a política como exercício de cuidado, como espaço de construção comum. Porque sem empatia, sem estratégia de educação ambiental e relações de proximidade a política perde o seu sentido.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Alerta: Não Amplifiquem a Propaganda Chegana

Assine aqui a Iniciativa Cidadã

Evitem partilhar, republicar ou comentar vídeos e publicações de páginas associadas ao Chega, mesmo que o façam com intenção crítica.
Nas redes sociais, cada visualização, partilha ou comentário (mesmo negativo) aumenta o alcance do conteúdo original e ajuda o algoritmo a promovê-lo a mais pessoas.

Se quiserem denunciar ou expor uma publicação:
1. Façam capturas de ecrã (screenshots) ou gravem o vídeo, sem partilhar o link original.
2. Usem trechos curtos ou imagens que ilustrem o conteúdo, mas sem gerar tráfego para a fonte original.
3. Denunciem diretamente na plataforma (Facebook, X/Twitter, Instagram, TikTok, YouTube) por incitação ao ódio, desinformação ou assédio.
4. Denunciem também na Internet Segura

Cada clique conta!
Não reforcem a máquina de propaganda do Chega! E de outros partidos racistas: ADN
Combatam-na com silêncio estratégico, factos e responsabilidade.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Os cartazes abjectos do Chega - como denunciar



Não partilho as fotos dos cartazes abjectos.
Partilho que já mandei queixa para CNE, PGR, Internet Segura e outros órgãos de soberania. Qualquer cidadão pode fazer. Não é preciso ser especialista em direito para perceber a violação do artigo 240 do código penal.
Aproveitem agora, porque se continuarmos muito por este caminho e voltarem novos salazares, piar é verbo que pode deixar de existir no dicionário.

"Venho por este meio denunciar e solicitar a atuação da Comissão Nacional de Eleições, Ministério Público e demais órgãos de soberania perante os cartazes colocados em locais públicos associados à candidatura presidencial de André Ventura.
Cartazes que têm por objetivo difamar e acicatar o ódio relativamente a comunidades imigrantes e à comunidade cigana. Tais mensagens, além de chocantes do ponto de vista social e humanitário, além de causarem alarme público e social, violam claramente a Constituição e em específico o Artigo 240 do Código Penal português, "Discriminação e incitamento ao ódio e à violência".
Para mim, enquanto cidadão, é inconcebível que num estado de Direito como é Portugal, cartazes daquele teor sejam expostos e mantidos no espaço público sem serem rapidamente retirados. Tal como não é compreensível que os continuados promotores destas mensagens, contrárias aos princípios da democracia, continuem impunes, apesar de o Artigo 240 prever até penas de prisão em diferentes alíneas."

Seguro diz que cartazes do Chega são inaceitáveis e violam valores constitucionais

domingo, 26 de outubro de 2025

Agostinho da Silva dixit


“Valioso para mim é a noção de que o que importa não é educar, mas evitar que os seres humanos se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias. Seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo.” ~ Agostinho da Silva

Pensa nisto e agarra-te a este mantra, para não seres seduzido por André Ventura, facho, boçal e assim como atraído(a) pelos 60 acólitos (muitos com cadastro) na Assembleia da República. Dizem eles que querem limpar Portugal, mas são racistas e corruptos.
Parque de Serralves, Porto. Foto minha.

Salazar era essa ficção moral e impoluta que nos tentam agora vender? Não, Salazar era corrupto.

Principais evidências de corrupção sob Salazar

  1. Rede de pedidos de favores (“cunhas”)

    • No livro Salazar Confidencial (de Marco Alves), analisaram milhares de cartas enviadas a Salazar por amigos, familiares, ministros, padres, etc., pedindo favores: emprego, promoções, casas, intervenção em processos judiciais, e mais. 

    • Essas cartas mostram como a máquina do Estado era usada para beneficiar pessoas próximas, burlando regulamentos formais. 

  2. Escândalos sexuais e de abuso

    • O “Caso Ballet Rose” nos anos 1960 envolveu figuras importantes do regime em abusos de menores. 

    • Segundo a enciclopédia Visão, esses escândalos existiam, mas eram abafados, porque não havia imprensa livre e a polícia política era poderosa. Visão

  3. Uso institucional para manter poder

  4. Debate parlamentar sobre “corrupção”

    • Um artigo na Italian Political Science Review analisa como nas Assembleias Nacionais do Estado Novo (1935–74) se falava de “corrupção”, mas muitas vezes de forma discursiva/política, para criticar pessoas, em vez de haver investigações reais independentes. 

  5. Violência política e uso da PIDE

    • O regime dispôs de um aparelho repressivo (PIDE) que ajudava a silenciar oposição e potenciais denúncias.

    • Isso implica que a corrupção “visível” poderia ter sido limitada por medo ou pela repressão, mas isso não significa que não existisse favorecimento interno.


Interpretação

  • A corrupção sob Salazar não é tão simples como em regimes democráticos com investigação pública livre: muitos abusos não foram denunciados ou foram escondidos.

  • Parte da “corrupção” era institucional: o regime dependia de redes de influência e favores para manter poder, em vez de simplesmente roubo público.

  • Também há uma narrativa idealizada (em parte mítica) de que “no tempo de Salazar não havia corrupção”; mas a historiografia recente mostra que isso é uma simplificação.


📚 Livros e estudos recomendados

  1. Salazar Confidencial: A História Secreta da Rede de Cunhas e Favores do Estado Novo — Marco Alves

    • Este livro é uma investigação jornalística / histórica baseada em milhares de cartas enviadas a Salazar: pedidos de emprego, favores, influências políticas, promoções, casas, “cunhas”. 

    • Mostra como funcionava uma “máquina de favorecimentos” no Estado Novo, revelando uma face de clientelismo que vai para além do discurso público de austeridade moral ou integridade de Salazar. 

    • Índice do livro mostra capítulos específicos dedicados a como Salazar usava o Estado para benefícios privados (“como Salazar usava os meios do Estado na sua vida privada”).

    • Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

      É a primeira vez que toda a correspondência particular enviada a Oliveira Salazar é tratada para um livro, numa investigação exaustiva sobre 2446 processos individuais, de onde se analisaram 70243 páginas de cartas, relatórios, currículos e fotografias.

      Os documentos mostram os surpreendentes bastidores do Estado Novo, expondo a intimidade de um regime sustentado em cunhas e favorecimentos pessoais

  2. Salazar e os Fascismos: Ensaio breve de história comparada — Fernando Rosas

    • Rosas, historiador de renome, analisa o Estado Novo no contexto dos fascismos europeus, o que ajuda a entender a natureza autoritária do regime. ihc+1

    • Embora não seja um livro “sobre corrupção” per se, examina a estrutura de poder, ideologia e instituições do regime, contribuindo para a compreensão de como o poder era mantido, distribuído e reproduzido. 

    • Discute também os mecanismos políticos internos e a elite política que sustentava o regime, o que pode estar ligado a práticas de clientelismo institucional.

  3. O Estado Novo de Salazar. Uma Terceira Via Autoritária na Era do Fascismo — António Costa Pinto (coordenação)

    • Esta obra coletiva reúne vários historiadores e analisa o Estado Novo como um regime autoritário que se coloca entre a democracia liberal e o fascismo clássico.

    • O livro aborda temas de estrutura de poder, recrutamento da elite governamental e institucionalização do regime. Esses aspetos são relevantes para entender como funcionavam os privilégios e os favores políticos.

    • Também contribui para a reflexão de que, embora o regime não fosse “corrupção aberta” no sentido tradicional, existiam mecanismos de poder muito hierarquizados, clientelistas e centralizados.

  4. O Império do Professor: Salazar e a Elite Ministerial do Estado Novo (1933–1945) — António Costa Pinto (artigo)

    • Este é um artigo académico (publicado na revista Análise Social) que analisa como a elite ministerial era composta, como se recrutava e como funcionavam as nomeações políticas. 

    • Ajuda a ver a “corrupção” ou clientelismo no nível das nomeações de poder: como Salazar distribuía cargos, a sua relação com os ministros e a forma como o regime se mantinha por redes de lealdade pessoal.

  5. Public Finances of a European Dictatorship: Portugal under the Estado Novo Regime — Ricardo Ferraz

    • Este livro analisa as finanças públicas durante o Estado Novo (1933–1974) com rigor econométrico. 

    • Interessa para a corrupção porque examina receitas, despesas, endividamento e uso do orçamento estatal. Revela de que forma o regime geria recursos públicos e quais eram os seus desafios fiscais — isto pode ser interpretado como uma forma de “corrupção institucional” (no sentido de uso político das finanças).

    • Também coloca o caso português em contexto comparado, o que é útil para entender se os desequilíbrios financeiros eram mais devidos a prática clientelista ou a dificuldades estruturais.

  6. Vítimas de Salazar: Estado Novo e Violência Política — Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha

    • Este livro aborda a repressão política, violência e a forma como o regime silenciava a oposição. 

    • Embora o foco principal seja a violência política e não diretamente a “corrupção”, entender o papel da PIDE (polícia política) e a repressão é importante para perceber porque muitas práticas de favorecimento ou abusos de poder não foram contestados ou investigados: o medo era uma via de controle.

  1. Salazar e os milionários, Pedro Jorge Correia;
  2. Salazar Confidencial, Marco Alves;
  3. Os Donos de Portugal - Jorge Costa, Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, Cecília Honório.
  4. Jubileu, 1953

A facharia não é uma inevitabilidade vitalícia. Mas quantas vidas vamos ter de perder por causa disso?


"Enquanto uma parte significativa da população (em todo o espectro político) vota, defende, ignora, minimiza, sente um medo paralizante, duvida do perigo ou amplifica o discurso da extrema-direita.
Enquanto os partidos (sobretudo de direita) continuam a pactuar, a normalizar e a aplicar as ideias e propostas da extrema-direita, desrespeitando totalmente o legado de Abril e todas as pessoas que deram a vida para que hoje tivéssemos uma democracia.

Enquanto as esquerdas continuam divididas, presas a querelas internas e a jogos de poder, a considerar os partidos como um fim e não como um meio, incapazes de ver que já não se trata de ganhar eleições ou de lutar pela própria sobrevivência, mas de lutar pela própria existência da democracia.

A extrema-direita, em Portugal (mas também em França, e no mundo), avança. Avança sem freio, sem resistência, sem vergonha, incitando ao ódio e desafiando o Estado de direito. Diz, com todos os dentes, números e letras, ao que vem, o que faz e o que vai fazer. Ninguém pode dizer que não sabia.
A expressão dos "3 salazares" não foi utilizada de forma espontânea, mas de forma propositada e ensaiada. Os recentes cartazes absolutamente infames, racistas e ilegais contra as pessoas ciganas fazem parte da estratégia de testar os limites do "regime", de normalizar o inaceitável, de fazer prova de força através da impunidade.

Enquanto isso, nos coletivos das pessoas que já são atacadas, ciganas, negras, muçulmanas, mulheres, queer, imigrantes, não se debate se a extrema-direita é ou não fascista, nem como fazer para que não ganhem eleições, mas sim como nos vamos organizar e resistir enquanto “inimigos do interior”, a nível local, nacional e internacional. Não temos o privilégio nem da perplexidade, nem do desespero, nem da inação.

Não tenhamos dúvidas: quando a extrema-direita estiver no poder supremo, ninguém estará a salvo. Quanto mais o tempo passa, mais difícil será a luta, apesar de nunca ser impossível. A facharia não é uma inevitabilidade vitalícia. Mas quantas vidas vamos ter de perder por causa disso?" - Luísa Semedo

Estou de acordo. E o insucesso é global. Vejamos a entrevista assustadora de Steve Bannon E mais. A direita radical e terrorista já existe. Já não poderemos chamar extrema-direita. Vai ser um luta armada. E mais. O conceito de seita existe. Uma espécie de clã, de um primitivismo atroz, quase teológico. Que abala todos os nossos valores de humanismo, de ajuda mútua, valores democráticos e extinção da mesma. Realmente esta corja, com intentos irracionais e antidemocráticos, vai chegar o apelo à força, ao armamentismo. Esta mensagem está ganhar terreno desde inícios de Janeiro por fulanos como Elon Musk (o homem mais rico do mundo), que já chegou a dizer que empatia ameaça a civilização. Ele está errado. Ele é essa ameaça.

sábado, 25 de outubro de 2025

Não precisamos de mais coveiros da Democracia

Yuri Klapouh (pintor Ucraniano, nascido em 1963)

Por Carla Castelo
Precisamos de mais cidadãos e cidadãs que intervenham na vida pública e política.
Precisamos de mais projetos comunitários que mostrem que só temos a ganhar com o reforço dos laços de vizinhança.
Precisamos de quem trabalhe com e para as pessoas.
Precisamos de quem não se deixe silenciar.
Precisamos de mais jornalistas que enfrentem a máquina trituradora em que se tornaram tantas redações.
A propósito de mais uma entrevista de AV, agora no papel de candidato a ditador
Há nas televisões jornalistas que são excelentes profissionais, que muito admiro e que continuam a ser uma referência, mas há também uma máquina que impõe cada vez mais a sua agenda de interesses que não são os da busca da verdade e de informar com rigor e isenção.
Isto não é de agora e já deu duas enormes vitórias ao partido que quer enterrar de vez a democracia.
O candidato AV tem sido levado ao colo com dezenas de entrevistas em que faz afirmações e proclamações cada vez mais graves. 
Já não tem pejo em dizer que acabaria com as instituições democráticas. Sim, chegámos ao ponto em que estamos à beira de um precipício.
Pelo tempo de antena desproporcionado e pela banalização da informação-espetáculo, os media têm a sua quota parte de responsabilidade se dermos o passo em frente.

"A maior catástrofe de fome desde a Grande Depressão". América prepara-se para cortar ajuda alimentar em novembro. 42 milhões de norte-americanos afectados!
At least 25 states plan to cut off food aid benefits in November



quarta-feira, 8 de outubro de 2025

A Rita Cyyd Matias voltou a publicar a "lista" das crianças, agora brincando com a situação FALSA


Não, os estrangeiros não têm prioridade nas creches em Portugal.
As vagas nas creches (públicas, IPSS ou com acordo com a Segurança Social) são atribuídas com base em critérios sociais e familiares, e não na nacionalidade.

Os critérios mais comuns incluem:
1.Situação profissional dos pais (por exemplo, ambos a trabalhar ou a estudar).
2.Situação económica do agregado familiar.
3.Existência de irmãos já inscritos na mesma instituição.
4.Proximidade da residência ou do local de trabalho dos pais.
5.Situações de risco ou vulnerabilidade social (por exemplo, famílias monoparentais, crianças sinalizadas pela CPCJ, etc.).

Fonte: Portaria n.º 198/2022 - Artigo 9.º 
Importante destacar que são critérios objetivos, e não há referência a nacionalidade.
Em nenhum dos pontos prioritários, tanto no Despacho Normativo n.º 10-B/2021 como na Portaria n.º 198/2022, está expresso que os alunos vindos do exterior têm prioridade sobre os restantes.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia

Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, 22 de novembro de 2023. Foto de Mohammed Dahman

A esfera pública, tanto nas redes sociais quanto na diplomacia internacional, está dominada por uma novilíngua cautelosa, onde a precisão sucumbe ao medo da reação. Palavras como genocídio, racismo, xenofobia, e apartheid são substituídas por termos amenos, não porque perderam relevância, mas porque se tornaram mistificação e que ameaçam os ditadores e multinacionais.

Nas plataformas digitais, a autocensura é uma tática de sobrevivência e de submissão, à custa de desinformação massiva e de desgaste e até MEDO. Evitamos nomear o ódio e a violência com termos exatos para não sermos punidos por algoritmos ou pelo "cancelamento". O despeito pelas reivindicações dos sindicatos existe e os globocratas tudo estão a fazer (via controlo dos media, plataformas digitais, com desinformação e com posições abertamente desumanas e cheias de maldade) para os denegrir e isso é também uma ameaça à democracia. Acrescentaria arrivismo!

Essa moderação artificial impede que o público/ cidadão chame o que é sujo pelo seu nome, distorcendo a gravidade dos problemas sociais e ideológicos.

Há claramente uma lavagem do cidadão (citizen washing). A citizen washing refere-se a estratégias de empresas, governos ou organizações que usam uma retórica de cidadania, participação cívica ou empoderamento social para melhorar a sua imagem, sem realmente promoverem mudanças estruturais ou garantirem uma participação efetiva dos cidadãos. É, portanto, uma forma de “lavagem” comunicacional: aparentar compromisso democrático ou inclusivo sem o praticar de facto.

No palco global, essa mesma pressão se manifesta. O caso de Israel e o conflito em Gaza é o exemplo perfeito. A coragem da África do Sul de usar a palavra "genocídio" na Corte Internacional foi recebida com indignação por nações ocidentais, que preferiam a linguagem de "crise humanitária" ou "direito de defesa". Essa rejeição inicial serve para defender o status quo e evitar implicações políticas e jurídicas.

Estamos também mergulhados numa crise democrática com novos colonialismos: químicos (pesticidas e outros venenos) , lavagem verde, monoculturas intensivas e exóticas (eucalipto, soja, milho, etc), minerais raros, ouro, diamantes, Big Oil, Big Tech e Big Pharma. Onde vivem cá Elon Musk e os seus comparsas multibilionários, todos reconhecidamente de direita e por vezes com atitudes e compromissos da ultra-direita.

O Sul Global e a China perseguem os seus "activistas" ora ambientais ora dos direitos humanos e até os assassinam!

No fim, a novilíngua não é sobre civilidade, é sobre controle. Ao nos impedir de usar as palavras mais quentes, ela nos impede de sentir a indignação e a urgência necessárias para exigir mudanças. É uma ferramenta de moderação que prioriza a ordem da narrativa em detrimento da verdade nua e crua.

Assim como não chamamos de genocidas, quem comete crimes contra a humanidade, também não chamamos de fascistas quem defende políticas fascistas! Chamamos de extrema direita, suavizando o que são realmente. Para os Palestinianos, demorar a chamar de genocídio apenas aumenta o número de mortos.

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia.

Referências bibliográficas

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025