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terça-feira, 3 de março de 2026

Petição - Reconhecimento oficial de um Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem (1 de março)




1 de março poderia ser Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem. Porque a proteção da vida selvagem não pode depender das fronteiras, estamos a exigir que a União Europeia dê passos concretos e coordenados para travar o envenenamento ilegal de fauna em toda a Europa:
Reconhecimento oficial de um Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem (1 de março)
Criação de uma base de dados europeia para identificar focos e reforçar a monitorização
Aplicação efetiva do Plano Estratégico de Roma 2020–2030
As ferramentas existem. Os planos existem. Agora é preciso vontade política.
Assine a petição

No Dia Mundial da Vida Selvagem, que se assinala esta terça-feira, 3 de março, a Quercus divulgou o balanço da atividade dos seus três Centros de Recuperação de Animais Selvagens (CRAS) em 2025, revelando a entrada de 1.673 animais ao longo do ano.

Segundo o comunicado, o número representa um aumento de 7% face a 2024.Do total, cerca de 1.577 animais ingressaram com vida e 42,2% recuperaram e regressaram ao habitat natural.

Aves representam mais de 80% dos ingressos
As aves constituíram 83,8% dos animais recebidos, seguindo-se os mamíferos com 14,4% e os répteis e anfíbios com 1,7%.

O mês de julho concentrou o maior número de admissões, com cerca de 440 animais, o equivalente a 26% do total anual, em grande parte crias órfãs.

Entre as principais causas de ingresso destacam-se a queda do ninho ou orfandade, responsável por 35,1% dos casos, e traumatismos de origem desconhecida, com 19,3%. O comunicado refere ainda situações associadas a ações humanas ilegais, como tiro (1,1%), cativeiro ilegal (1,7%) e envenenamento (0,09%).

Espécies ameaçadas entre os animais acolhidos
Em 2025, os centros acolheram 127 indivíduos de espécies classificadas com estatuto de ameaça: 111 na categoria «Vulnerável», 10 «Em Perigo» e seis «Criticamente em Perigo».

Os CRAS integraram ainda 137 estagiários e voluntários e fazem parte da Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna, coordenada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Monitorização e educação ambiental
A Quercus sublinha que o trabalho desenvolvido nestas estruturas permite identificar padrões nas causas de ingresso, fatores de ameaça e áreas com maior incidência, contribuindo para a implementação de medidas corretivas.

Os centros são igualmente referidos como espaços de recolha de informação biológica, permitindo avaliar o estado dos ecossistemas e das populações, apoiar investigação aplicada à conservação da natureza e promover ações de educação e sensibilização ambiental.

Os três centros em funcionamento são o CERAS, em Castelo Branco, o CRASM, no Cadaval, e o CRASSA, no Litoral Alentejano.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Falcões aliados dos produtores de cereja, reduzindo 81% de danos na produção e evitando o uso de pesticidas

Mais exemplos de SBN em que os agricultores, morcegos e aves de rapina ambos beneficiam

Os quiriquiri, pequenos falcões, caçam ratos, voles e aves canoras que danificam as culturas de cerejeira. Há décadas que os agricultores adicionam caixas de nidificação para atraí-los.

Podemos tentar cá. Não conheço nenhuma iniciativa destas. Aumentávamos a população de falcões especialmente o Peneireiro-das-torres e Falcão-peregrino e reduzíamos não só o furtivismo assim como reduziríamos exactamente uma das causas principias da vulnerabilidade destas duas espécies: o uso de pesticidas. Segue o estudo académico no Estado de Michigan (27.11. 2025)

Produtores de cereja do Michigan encontram um aliado inesperado na segurança alimentar: os falcões
A colheita da cereja terminou há meses. Mas no norte do Michigan, alguns produtores já antecipam o ressurgimento primaveril de uma pequena ave de rapina que poderá beneficiar a colheita da próxima temporada.

O peneireiro-americano é o falcão mais pequeno dos EUA. Enquanto aves de rapina, os peneireiros dissuadem aves mais pequenas que gostam de petiscar os frutos dos agricultores. No entanto, uma nova investigação sugere que estes "seguranças alados" podem ter um benefício adicional: a segurança alimentar.

Isto de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Michigan (MSU), publicado a 27 de novembro no Journal of Applied Ecology.

“É fascinante observá-los em voo”, afirmou a autora principal, Olivia Smith. Eles pairam no ar enquanto examinam o solo abaixo em busca de insetos, ratos e pequenas aves.

As novas descobertas mostram que, ao afugentarem as aves que picam as cerejas, os peneireiros também evitam que estas contaminem as culturas com os seus dejetos. Segundo os investigadores, a investigação poderá ajudar os agricultores a cultivar alimentos mais seguros e saudáveis, gerando maiores lucros.

O desafio do controlo de pragas
“É difícil manter as aves fora das plantações”, disse Smith, professora assistente de horticultura e membro do Programa de Ecologia, Evolução e Comportamento da MSU.

Os produtores já tentaram métodos como redes, dispositivos ruidosos, espantalhos e pulverizações, mas estas abordagens podem ser dispendiosas e nem sempre funcionam. Mesmo com medidas de controlo em vigor, os produtores de cereja doce em estados como Michigan, Washington, Califórnia e Oregon perdem anualmente entre 5% a 30% da sua produção devido às aves.

As aves famintas representam outro problema: defecam. Algumas pessoas receiam que a sujidade que deixam para trás possa estar contaminada com agentes patogénicos que causam doenças nos seres humanos. Assim, os investigadores decidiram verificar se atrair predadores para patrulhar os pomares poderia ajudar a reduzir os riscos.

Resultados da patrulha aérea
A equipa focou-se em caixas de ninhos instaladas em oito pomares de cereja doce no norte do Michigan e descobriu que os peneireiros — que dependem de cavidades em árvores e outras fendas existentes para criar os seus filhotes — instalaram-se rapidamente.

Posteriormente, registaram todas as aves que conseguiam ver ou ouvir à medida que a época da colheita se aproximava. A equipa descobriu que aves como tordos, estorninhos e graxas tinham muito menos probabilidade de visitar os pomares e devorar os frutos quando os peneireiros nidificavam por perto. Ao afugentarem os visitantes famintos, os peneireiros reduziram a probabilidade de danos nas cerejas em mais de dez vezes.

Mas a sua presença teve outro benefício. Os investigadores também encontraram menos sinais de dejetos de aves nas cerejeiras. A presença de peneireiros foi associada a uma redução de 3 vezes nos dejetos avistados nos ramos.

“Certamente, os peneireiros também defecam”, disse a autora sénior Catherine Lindell, professora associada emérita de Biologia Integrativa. No entanto, o número de aves frugívoras que eles mantêm fora do pomar compensa largamente esse facto, acrescentou. De facto, descobriram que as cerejeiras mais próximas das caixas de ninhos dos peneireiros tinham menos probabilidade de estar cobertas de dejetos.

Segurança alimentar e saúde pública
A análise de ADN revelou que 10% dos dejetos continham Campylobacter, uma bactéria que causa frequentemente doenças de origem alimentar, com sintomas como diarreia, febre e cólicas estomacais.

Os investigadores ressalvam que isto não significa que a próxima taça de cerejas vá causar dores de estômago; nenhum dos surtos de doenças alimentares causados por Campylobacter foi associado a cerejas. Da mesma forma, Smith acrescentou que poderá ser cedo demais para culpar as aves por culturas contaminadas. Apenas um surto foi rastreado até aves: um surto de Campylobacter em 2008 causado por grou-comuns migratórios em campos de ervilhas no Alasca.

Contudo, a investigação sugere que os peneireiros poderiam ser uma forma de melhorar a segurança alimentar noutras culturas que têm sido associadas a surtos, como os vegetais de folha verde.

“Eles são realmente bons a manter o nível de dejetos baixo”, disse Olivia Smith. “Isso significa menos oportunidades de transmissão.”

“Isto não resolverá todos os problemas de aves que os agricultores enfrentam”, admitiu. Um dos problemas de depender dos peneireiros, por exemplo, é que eles têm mais probabilidade de se estabelecerem em algumas regiões do que noutras.

“Mas é uma ferramenta de baixo custo e baixa manutenção para os produtores utilizarem no seu conjunto de ferramentas de gestão de aves”, concluiu Lindell.

Leituras adicionais

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Acordo UE-Mercosul foi aprovado. Preocupações ambientais mantêm-se


Os países que votaram contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul justificaram a sua posição sobretudo com preocupações económicas e ambientais, fortemente ligadas à agricultura. França, Irlanda, Polónia, Áustria e Hungria consideram que o acordo expõe os agricultores europeus a uma concorrência considerada desleal, em especial nos sectores da carne bovina, aves, açúcar e cereais, uma vez que os produtores do Mercosul operam com custos mais baixos e regras ambientais e sanitárias menos exigentes do que as da UE. Para estes países, isso pode provocar uma queda dos preços, perda de rendimentos e dificuldades acrescidas para a agricultura familiar. 

Além disso, França e Áustria têm sublinhado que as salvaguardas ambientais incluídas no acordo são insuficientes, nomeadamente no que diz respeito ao combate à desflorestação na Amazónia e ao cumprimento dos compromissos climáticos. Em vários destes Estados-membros, a oposição ao acordo é também alimentada por forte pressão política interna do sector agrícola e por posições já assumidas anteriormente pelos respetivos parlamentos ou governos, tornando o voto contra uma decisão tanto económica e ambiental como politicamente estratégica.

Os defensores do acordo afirmam que este ajudará a aprofundar a cooperação económica da UE com o Sul Global, onde a China já procura alianças em consequência da rutura provocada por Donald Trump na ordem comercial internacional.

O acordo ajudará também a UE a libertar-se da dependência da China em relação aos minerais críticos e às terras raras vitais para os sectores automóvel e tecnológico, uma vez que estes elementos são abundantes nos países do Mercosul.

O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de grafite, níquel, manganês e terras raras. Mas também detém 94% das reservas globais de nióbio, um metal utilizado na indústria aeroespacial, enquanto a Argentina é o terceiro maior produtor de lítio, um material utilizado nas baterias de veículos elétricos.

“O acordo não se resume apenas a questões económicas. A América Latina é uma região de intensa competição por influência entre os países ocidentais e a China. A não assinatura do acordo de comércio livre UE-Mercosul representava o risco de aproximar ainda mais as economias latino-americanas da órbita de Pequim.

“A conclusão do acordo sinaliza também que os europeus estão empenhados em diversificar os seus mercados de exportação, reduzindo a dependência dos EUA”, afirmou Agathe Demarais, investigadora sénior do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, um dos principais thinktank da UE.

Bélgica optou por abster-se na votação.

Preocupações ambientais mantêm-se

1.No final do ano passado, um conjunto de organizações agrícolas acusava o acordo de representar “graves riscos” para a segurança alimentar europeia, para os objetivos ambientais, para o bem-estar animal, para os padrões de condições de trabalho e para a subsistência dos agricultores.

2. Em abril passado, a organização não-governamental CAN Europe publicou uma análise na qual se dizia que o acordo UE-Mercosul provavelmente faria aumentar a contribuição do bloco para a crise climática, ao aumentar o comércio de produtos de elevada intensidade em termos de emissões. Na mesma análise, são levantadas preocupações relativamente à influência do acordo no aumento da desflorestação, com um aumento esperado nas importações europeias de carne de bovino e de soja, no enfraquecimento dos compromissos ambientais dos Estados-membros e no aumento do comércio de pesticidas proibidos no bloco europeu.

3. Mais de 450 organizações europeias e sul-americanas (incluindo redes ambientais, sindicatos, movimentos sociais e associações indígenas) têm criticado o acordo por “ser ruim para o planeta e para as pessoas”, denunciando negociações opacas e exclusão da sociedade civil.

4. Ambientalistas também criticam a falta de cláusulas vinculativas e mecanismos de sanção ambiental. As disposições actuais são vistas como insuficientes para garantir que padrões ambientais sejam realmente respeitados.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Estudo que negava riscos do glifosato é retirado após 25 anos de alertas

O mundo da ciência e da regulação ambiental sofreu um abalo significativo com a retratação formal de um dos estudos mais influentes de sempre sobre a segurança do glifosato. Publicado originalmente no ano 2000 na revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo assinado pelos investigadores Williams, Kroes e Munro — que podes consultar no arquivo original da ScienceDirect — serviu, durante um quarto de século, como o principal escudo científico para afirmar que o herbicida Roundup não representava riscos de cancro ou toxicidade para os seres humanos. Agora, conforme reportado recentemente pelo jornal Público e no The Guardian, a própria revista decidiu retirar o estudo, admitindo que o processo foi marcado por má conduta ética.

A decisão de retratar o estudo surge após décadas de pressão por parte de cientistas independentes e da revelação de documentos internos da Monsanto, conhecidos como "Monsanto Papers". Estes documentos, que vieram a público durante processos judiciais nos Estados Unidos, revelaram que funcionários da multinacional estiveram diretamente envolvidos na redação, revisão e edição do texto original. Esta prática, conhecida como ghostwriting (escrita fantasma), foi ocultada na altura, apresentando o estudo como o trabalho de académicos independentes quando, na verdade, houve uma intervenção direta da empresa interessada no veredito de segurança.

Para além da escrita fantasma, a nota de retratação oficial emitida pela editora Elsevier aponta para falhas graves na integridade dos dados e na transparência. O estudo de 2000 baseou-se quase exclusivamente em relatórios internos não publicados da própria Monsanto, ignorando evidências científicas que já na altura sugeriam potenciais efeitos adversos. A falta de declaração de conflitos de interesse foi outro fator decisivo: os autores não revelaram que foram pagos pela empresa nem que o desenho da investigação foi influenciado pela estratégia de marketing e defesa legal da marca.

O impacto desta decisão é profundo, uma vez que este artigo foi citado em mais de 700 outros estudos e serviu de base para decisões regulatórias críticas em agências como a EPA nos Estados Unidos e a EFSA na União Europeia. Embora muitas destas agências continuem a manter a aprovação do glifosato baseando-se em avaliações mais recentes, a retirada deste "estudo seminal" desmorona o fundamento histórico que permitiu a normalização do uso massivo do herbicida a nível global. Para a comunidade científica e para organizações como o Pesticide Action Network, o caso serve como um aviso severo sobre os perigos da influência corporativa na ciência que dita as políticas públicas de saúde.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Quercus alerta para proposta da Comissão Europeia de desregulação dos pesticidas e apela à mobilização dos cidadãos


A Quercus manifesta profunda apreensão à proposta de alteração do Regulamento Omnibus sobre Alimentos e Rações, que será considerada para votação oficial no próximo dia 16 de Dezembro pela Comissão Europeia. A proposta, liderada pela Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG SANTE), sob o pretexto da “simplificação”, “representa na realidade um ataque sem precedentes aos pilares do Regulamento (CE) 1107/2009, relativo à colocação de pesticidas no mercado, que visa proteger os cidadãos e o ambiente dos riscos dos pesticidas”, sublinha em comunicado.

Segundo a mesma fonte, tratam-se de “três alterações gravíssimas da proposta de alteração do Regulamento Omnibus":
1. Aprovações de Pesticidas por Prazo Ilimitado: Elimina as revisões periódicas obrigatórias (a cada 10-15 anos), que são o mecanismo crucial para reavaliar substâncias à luz do conhecimento científico mais atual. Sem este incentivo, pesticidas perigosos podem permanecer no mercado indefinidamente, ignorando novos dados sobre a sua toxicidade.
2. Abandono da Ciência Independente nas Autorizações Nacionais: Remove a obrigação legal dos Estados-Membros, recentemente reforçada pelo Tribunal da UE, de considerarem as evidências científicas independentes mais recentes ao autorizarem produtos pesticidas. Isto desarma a capacidade nacional de tomar decisões informadas e protetoras.
3. Duplicação dos Prazos de Carência para Pesticidas Proibidos: Permite que pesticidas já considerados demasiado perigosos e oficialmente proibidos continuem a ser vendidos e utilizados por mais três anos. Significa uma exposição prolongada e injustificada da população e dos ecossistemas a substâncias cancerígenas, disruptoras endócrinas e neurotóxicas.

Alexandra Azevedo, Presidente da Quercus, alerta: “Esta proposta representa um grave retrocesso, ameaçando a ciência e colocando em risco o Princípio da Precaução e o propósito de proteger a saúde pública e a biodiversidade”.

Tal como frisou Angeliki Lyssimachou, Diretora de Ciência e Política da PAN Europe, no comunicado inicial da PAN : “Pesticidas altamente tóxicos como o clorpirifós, que afeta o desenvolvimento cerebral em crianças, ou o mancozebe e o tiaclopride, que prejudicam a reprodução, ou ainda o PFAS flufenacet, que atua como disruptor endócrino, nunca teriam sido proibidos sob um sistema tão enfraquecido. Da mesma forma, os neonicotinóides que matam abelhas ainda estariam em uso hoje. Foi a ciência independente, e não os estudos da indústria, que revelou a sua toxicidade excessiva.”

“É inaceitável que, perante as exigências de redução de uso de pesticidas por parte dos cidadãos europeus, através de consultas públicas, de barómetros, da Conferência sobre o Futuro da Europa, de duas Iniciativas de Cidadania Europeia bem-sucedidas e um inquérito de opinião da IPSOS, a Comissão Europeia prepare um retrocesso legislativo que coloca os interesses da indústria à frente da saúde pública, da biodiversidade e da qualidade da água e dos solos”, lê-se na nota.

A Quercus junta-se ao apelo da Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), da qual é membro, exigindo que a Comissão Europeia rejeite categoricamente estas alterações e apelando a todos os cidadãos que se juntem a esta iniciativa, através do envio de um email para a comissária portuguesa, Maria Luís Albuquerque, instando-a a rejeitar a proposta. Este envio pode ser realizado de uma forma simplificada, através do acesso à página da Pesticide Action Network, onde, após aceder ao link disponibilizado, deverá preencher as suas informações e clicar em “Send an Email”: 

Para a Quercus, a urgência é “transitar para territórios livres de pesticidas, através de uma agricultura verdadeiramente sustentável, práticas florestais mais próximas da Natureza e gestão das áreas urbanas e vias de comunicação sem herbicidas ( e outros pesticidas)”.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Estudo influente sobre glifosato retirado após décadas de alertas de envolvimento da Monsanto


Um estudo influente que afirmava que o glifosato não apresenta riscos graves para a saúde foi recentemente retirado por suspeita de conflito de interesses, 25 anos após a publicação, que orientou várias decisões políticas.

Embora os investigadores tenham saudado esta retratação, a lentidão levanta questões sobre a integridade da investigação realizada em torno do ingrediente principal do Roundup, o herbicida mais vendido no mundo.

O produto da gigante Monsanto está no centro de importantes debates políticos, especialmente na Europa, enquanto os seus riscos para a saúde são objeto de numerosos processos judiciais.

Publicado em 2000 no jornal Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo agora retirado está entre os mais citados sobre o glifosato, nomeadamente por muitas autoridades governamentais que regulamentam a sua utilização.

Na nota de retratação publicada na semana passada, a revista cita uma série de lacunas "críticas": omissão de incluir certos estudos sobre os perigos relacionados com o cancro, não divulgação da participação de funcionários da Monsanto na redação e divulgação dos benefícios financeiros recebidos pelos autores da Monsanto.

A Elsevier, editora do jornal, garantiu à agência France Presse que o processo de reexame do estudo foi iniciado "assim que o atual editor-chefe tomou conhecimento das preocupações relativas a este artigo, há alguns meses".

Mas já em 2002, uma carta assinada duas dezenas de investigadores denunciava "conflitos de interesses, falta de transparência e ausência de independência editorial" na revista científica, mencionando a Monsanto.

O caso veio a público em 2017, quando documentos internos da empresa foram divulgados, revelando o papel dos funcionários da Monsanto na redação do estudo, agora retirado.

Naomi Oreskes, historiadora de ciência da Universidade de Harvard, e coautora de uma publicação em setembro que detalha a enorme influência do estudo em causa, disse à AFP estar "muito satisfeita" com uma retratação "há muito esperada", acrescentando que "a comunidade científica precisa de melhores mecanismos para identificar e retirar artigos fraudulentos".

Os motivos descritos pelo jornal para justificar a retirada do estudo "correspondem totalmente ao que denunciámos na época", disse à AFP Lynn Goldman, da Universidade George Washington, que também assinou a carta de 2002.

Gary Williams, um dos autores do estudo retirado, não respondeu ao pedido de comentários da AFP. Os seus coautores já faleceram.

A Monsanto, por seu lado, reiterou que o seu produto não apresentava riscos e garantiu que a sua participação no artigo criticado, reconhecida pela empresa, "não atingiu um nível necessário para declarar a sua autoria e foi devidamente divulgada nos agradecimentos".

A empresa, posteriormente adquirida pela Bayer, não reagiu à existência de e-mails internos nos quais uma cientista da empresa escreveu que queria agradecer a um "grupo de pessoas" que trabalhou nesse artigo e ainda em outro estudo, "pelo excelente trabalho", oferecendo-lhes t-shirts Roundup.

O glifosato foi comercializado como herbicida na década de 1970, mas teve uma adoção crescente na década de 1990. Classificado em 2015 como "provável carcinógeno" pelo Centro Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial da Saúde, o glifosato é proibido em França desde o final de 2018 para uso doméstico.

Nathan Donley, cientista do Centro para a Diversidade Biológica nos Estados Unidos, disse à AFP que esta notícia provavelmente não mudará a opinião favorável da Agência de Proteção Ambiental (EPA) da Administração de Donald Trump, decididamente pró-indústria. Porém, acrescentou, pode ser levada em consideração pelos reguladores europeus.

Acima de tudo, observou ainda, o episódio constitui um exemplo de um fenómeno mais amplo na literatura científica.

"Tenho a certeza de que existem muitos artigos semelhantes, escritos por outros que não os seus autores declarados e com conflitos de interesses não declarados", disse também John Ioannidis, professor da Universidade de Stanford.

Porém, "é muito difícil revelá-los, a menos que se mergulhe" nos arquivos, acrescentou.

Pode haver mais retratações a caminho. Kaurov, que está agora a frequentar o doutoramento em ciência e sociedade na Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, diz que ele e Oreskes enviaram recentemente um pedido de retratação à revista Critical Reviews in Toxicology para um artigo de 2013 publicado em nome de outros dois autores, que não revela completamente o papel da Monsanto no artigo. "Não é o fim da história", diz.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Novo relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade

Pode descarregar aqui

Para além da denúncia do Intercept, outro relatório "A COP dos Lobbies" alerta que muitas corporações usam a COP30 para promover interesses privados sob a fachada de sustentabilidade.

A investigação de 94 páginas analisou oito grandes companhias — Bayer, BTG Pactual, Cosan, Itaú, Marfrig/MBRF, Norsk Hydro, Suzano e Vale — e concluiu que essas empresas têm usado a COP30 como vitrine para reforçar as suas marcas sob o discurso da “transição verde”, apesar de acumularem extensos passivos ambientais. O documento aponta que a conferência vem sendo moldada para favorecer projetos de descarbonização e créditos de carbono, que transformam a preservação ambiental em oportunidade de mercado.

Segundo o relatório, as empresas vêm financiando pavilhões e eventos paralelos em Belém, como a AgriZone, patrocinada pela Bayer, e a Estação do Desenvolvimento, ligada à Cosan, muitas vezes em parceria com ministérios e governos locais. A prática levanta suspeitas sobre conflitos de interesse, uma vez que os mesmos órgãos públicos responsáveis por fiscalizar essas companhias participam dos espaços financiados por elas.

Um exemplo citado é o fato de que o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, deverá despachar da AgriZone, espaço custeado pela Bayer, durante a conferência. Para os pesquisadores, essa aproximação entre poder público e corporações enfraquece a independência das negociações e legitima a agenda empresarial dentro da COP.

Greenwashing
Além da presença física nos espaços da COP30, o relatório aponta uma estratégia coordenada de greenwashing estrutural. As corporações investem pesado em comunicação e patrocínios à mídia para se apresentarem como líderes da sustentabilidade.
Cinco das oito empresas analisadas financiaram a cobertura jornalística da COP30 em grandes veículos de comunicação, como Globo, Folha, Estadão, CNN e Liberal. Há ainda o registro de treinamentos e viagens para jornalistas custeados por Itaú e Norsk Hydro, com o objetivo de influenciar a percepção pública sobre seus projetos “verdes”.

As contradições
O relatório dedica capítulos específicos para ilustrar as contradições das empresas que se apresentam como protagonistas da agenda climática.
A Bayer, por exemplo, é acusada de violações de direitos em comunidades da América do Sul e de pulverizar agrotóxicos sobre aldeias do povo Ava Guarani, em Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, lidera iniciativas de “agricultura tropical” e promove uma nova “Revolução Verde” na COP30.
Já a Vale é lembrada pelos desastres de Mariana e Brumadinho. Segundo o estudo, enquanto a mineradora investe R$ 430 milhões em negócios de impacto socioambiental, enfrenta ações judiciais relativas a degradação ambiental, contaminação de poços e danos à saúde pública, cujo valor é 65 vezes maior que o investimento.

Os bancos Itaú e BTG Pactual, embora se apresentem como financiadores da restauração florestal, ocultam o histórico de apoio a desmatadores e setores de alto impacto ambiental. No caso do BTG, o relatório destaca a comercialização de créditos de carbono baseados em plantações comerciais de eucalipto e pinus.

A influência empresarial também se manifesta na criação de coalizões e grupos de lobby que buscam legitimar a presença corporativa nas negociações climáticas. Entre elas estão a Sustainable Business COP30 (SBCOP), a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.) e a Brazil Restoration and Bioeconomy (BRB) Finance Coalition, todas patrocinadas por bancos e mineradoras.

Essas articulações, segundo o relatório, consolidam a financeirização da natureza e deslocam o debate climático para um eixo econômico, em detrimento de pautas de justiça ambiental e dos direitos de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que historicamente protegem os ecossistemas e agora lutam por espaço dentro da conferência.

COP30 favorece protagonismo de corporações
O relatório “A COP dos Lobbies” alerta que, sem mecanismos robustos de transparência e regulação do lobby empresarial, as conferências do clima correm o risco de se tornarem plataformas de legitimação do greenwashing corporativo.

Para os pesquisadores, o protagonismo das corporações na COP30 ameaça o caráter público e científico das negociações, transformando a conferência em um evento voltado mais à reputação empresarial do que à busca por soluções reais para a crise climática.

O estudo sinaliza que os verdadeiros defensores da natureza, as comunidades tradicionais, cientistas e movimentos sociais, estão sendo empurrados para os espaços secundários, enquanto os principais poluidores conduzem o debate global sobre o clima.

A COP30 é patrocinada por empresas com notórias responsabilidades em violações e desastres ambientais



Primeira cúpula do clima na Amazônia, a COP30 deveria ser um espaço de discussão de soluções e metas para enfrentar a crise climática. Mas ela pode virar palanque de quem quer lucrar mais enquanto destrói o planeta. Nossa cobertura mostra os interesses corportativos e políticos por trás do discurso de sustentabilidade promovido durante a COP30.

Envolvida nos rompimentos das barragens de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, duas das principais tragédias socioambientais do Brasil na última década, a Vale é a principal patrocinadora da cobertura da imprensa tradicional brasileira sobre a COP30.

Um levantamento do Intercept Brasil mostra que a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal.

Mas a Vale não é a única empresa envolvida em desastres e crimes ambientais na última década que está financiando a cobertura jornalística brasileira da maior conferência sobre clima do mundo.

As notícias sobre a COP30, evento que começa oficialmente nesta segunda-feira, 10, em Belém e almeja traçar compromissos e metas globais para lidar com a crise climática, também estão sendo bancadas por outras corporações apontadas como grandes contribuintes do colapso do planeta.

A segunda empresa que mais está patrocinando a cobertura da mídia tradicional sobre a conferência, segundo o levantamento, é a gigante da indústria da carne JBS, financiando sete veículos: CBN, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, Veja e Neofeed.

Maior produtora de proteína animal do mundo, a JBS é também a empresa do setor de carne que mais emite gases do efeito estufa no planeta, segundo um relatório recente da ONG Profundo que avaliou o impacto climático da indústria de carne e laticínios.

Completam a lista das empresas que mais patrocinam as coberturas da COP neste ano no Brasil duas gigantes com histórico de violações ambientais. A primeira é a Hydro, multinacional norueguesa do setor de alumínio, condenada pela Justiça Federal no ano passado a pagar R$ 100 milhões por um desastre ambiental em Barcarena, no Pará.

A segunda é a Suzano, gigante do setor de papel e celulose, envolvida em denúncias de uso de agrotóxicos e violações de direitos contra comunidades quilombolas em diferentes regiões do país.

Ambas patrocinam quatro veículos cada. A Hydro está apoiando a cobertura de CNN, Estadão, Exame e do jornal O Liberal, do grupo Liberal de comunicação, do Pará, estado-sede da COP30. Já a Suzano patrocina CBN, O Globo, Valor Econômico e Capital Reset.

Na lista das empresas patrocinadoras do jornalismo tradicional durante a COP ainda estão empresas como a Ambipar, que patrocina a cobertura da Exame, Folha de S.Paulo e Estadão, enquanto lidera projeto de carbono que pretende usar terras públicas e está impedindo pescadores de trabalhar na Ilha do Caju, no Maranhão, em aliança com um empresário sueco. Procurada, a Ambipar afirmou que não irá se posicionar.

Outra patrocinadora é a Philip Morris Brasil, gigante do setor de tabaco que já teve entre seus fornecedores, segundo a Repórter Brasil, uma fazenda investigada por manter um cemitério de animais silvestres em canais de irrigação. Procurada pela reportagem, a Philip Morris Brasil afirmou que “seus contratos com empresas de mídia não envolvem qualquer influência em conteúdo jornalístico” e que “todos os conteúdos institucionais produzidos pela empresa são devidamente sinalizados em todas as publicações”.

No total, segundo o levantamento do Intercept, 59 entidades diferentes, entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONGs, patrocinam a cobertura da imprensa na COP30.

Para fazer o levantamento, o Intercept considerou dados de TVs, rádios, veículos impressos e online com maior alcance, segundo o Reuters Digital News Report 2025, relatório produzido anualmente pelo Instituto da Reuters na Universidade de Oxford, na Inglaterra, que analisa as tendências de consumo de mídia.

Também foi feita uma pesquisa manual, por meio de buscadores online, utilizando termos combinados como “patrocínio”, “cobertura”, “apoio” e “COP30”, entre os meses de setembro e outubro, além de uma pesquisa nas redes sociais dos veículos.

O levantamento ainda apontou que pelo menos 13 veículos de comunicação brasileiros tiveram patrocínios de empresas privadas, ao longo deste ano, com foco na conferência do clima. Além do patrocínio direto à cobertura, também foi disponibilizada verba corporativa para a realização de séries de debates e formações para jornalistas.
Os interesses por trás do patrocínio

O patrocínio dessas empresas à cobertura da COP30 não significa necessariamente uma influência na linha editorial das reportagens publicadas. No entanto, segundo Melissa Aronczyk, professora da escola de comunicação da Rutgers University, uma das principais pesquisadoras do mundo sobre influência das empresas poluidoras na mídia e autora do livro “Natureza Estratégica”, a atitude das empresas deve no mínimo acender o alerta sobre interesses corporativos ao se vincular a uma agenda de sustentabilidade.

“Não existe patrocínio neutro. Nenhuma organização e certamente nenhuma empresa privada dará dinheiro, apoio ou seu nome a outra organização ou evento, a menos que veja um benefício para si mesma”, afirma Aronczyk.

Para a professora, por meio do patrocínio da cobertura noticiosa, as empresas querem promover uma associação positiva na mente das pessoas entre a marca delas e a COP30, e isso tem preceito histórico. Foi também no Brasil, durante a Rio 92, conferência considerada a mãe das COPs, que observou-se pela primeira vez na história o patrocínio corporativo tomando conta das cúpulas do clima da ONU. 

“Em 1992, líderes de empresas, agências de relações públicas, publicitários e lobistas vieram ao Rio para garantir que a voz das empresas fosse representada. E isso só piorou a cada ano, desde então. Temos mais de 30 anos de cooptação da Cúpula das Nações Unidas sobre o Clima”, diz Aronczyk.

O que mineradoras e empresas do agro tentam fazer agora na COP do Brasil, com tentativas de usar os veículos de comunicação para limpar a própria imagem, está no DNA da expansão de setores como os da mineração, carvão, produtos químicos e petróleo e gás.

“Os primeiros clientes das empresas de relações públicas eram empresas poluidoras que tinham o desejo de promover uma imagem positiva, mesmo enquanto continuavam poluindo”, analisa Aronczyk.

Nas décadas de 1970 a 1980, com a ascensão do discurso sobre mudanças climáticas, as empresas de combustíveis fósseis passaram a trabalhar em estreita relação com agências de relações públicas. Mas, enquanto naquela época o foco delas era negar as mudanças do clima, hoje o objetivo dessas empresas ao usar a mídia é outro: atrasar a busca e o encontro de soluções.

“São formas sutis de obstrução climática, que envolvem manipular jornalistas ou manipular os veículos de comunicação, com o uso de mídias sociais e influenciadores também, para divulgar mensagens e outros tipos de campanhas que atrasam as ações contra as mudanças climáticas, questionando a necessidade de políticas e regulamentações climáticas”, afirma a professora.

Coordenadora geral de pesquisa do Netlab, o Laboratório de Internet e Redes Sociais da UFRJ, a pesquisadora Deborah Salles também pondera que não é possível fazer uma correlação direta entre o patrocínio das empresas e a linha editorial das coberturas, mas alega que o financiamento levanta suspeitas sobre a capacidade de o jornalismo brasileiro cobrir temas complexos e sensíveis, inclusive para os seus patrocinadores.

“A ideia de jornalismo patrocinado é, em si, algo problemático”, pontua. Para Salles, a busca pelo patrocínio nas coberturas midiáticas da COP30 tem a função, ainda, de frear o senso crítico com relação à mineração, à exploração de petróleo e gás, mas também de garantir que os interesses dessas empresas não estejam em risco em um momento tão sensível como é o de negociações por metas e financiamento climático.

“Ao influenciar a opinião pública e tomadores de decisão e garantir que a cobertura vai continuar sendo pouco incisiva, a gente continua com essa possibilidade de passar projetos de lei da devastação e derivados. Em alguma medida, a comunicação corporativa tem como objetivo garantir mais espaço para essas empresas, e mais espaço é menos estresse para as suas atividades”, analisa Salles.

Relatório "A COP dos Lobbies" denuncia avanço do lobby corporativo na COP30 em Belém.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Agrotóxicos e colonialismo químico. Conheça o trajecto e trabalho de Larissa Bombardi



Larissa Bombardi é geógrafa, investigadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas (ULB) no projeto Friction e professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo - USP.

Ela é autora do atlas: “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia”, lançado em 2019 em sua edição em Inglês na Europa (Escócia e Alemanha) e "Geografia das assimetrias: o círculo vicioso dos agrotóxicos e o colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia ", lançado em 2021 no Parlamento Europeu.

Após a publicação deste atlas Larissa passou por uma campanha de desinformação que visava atacar a sua credibilidade e a sua carreira. A juntar à campanha difamatória a casa de Larissa foi assaltada e recebeu várias outras ameaças.

Ela é também autora do livro “Agrotóxicos e Colonialismo Químico”, lançado em 2023 em Português e publicado em Francês (Pesticides – Um colonialisme Chimique) em 2024. Pode aceder ao conjunto cartográfico aqui

Larissa é membro do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (Brasil), membro da diretoria da organização internacional "Justice Pesticide" e curadora da aliança Internacional IPSA (International Pesticides Standard Alliance).


Mais informações sobre a Larissa e o seu trabalho:

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Abelha: sabia que enfrentam até mil vezes maior risco de extinção?


O Dia Mundial da Abelha celebra-se todos os anos a 20 de maio. Este dia homenageia o aniversário do esloveno Anton Janša, pioneiro nas modernas técnicas de apicultura do século XVIII.

Esta data comemora a importância dos seres polinizadores e procura sensibilizar-nos para as ameaças que as abelhas enfrentam. Pretende-se valorizar a sua importância para o equilíbrio do ecossistema, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável.

A ONU estima que as várias espécies de abelhas enfrentam, atualmente, um risco 100 a 1.000 vezes superior de extinção, devido ao impacto humano na natureza.

O tema em 2024 é “Compromisso com as abelhas, de mãos dadas com os jovens”. Pretende sensibilizar os jovens e outros interessados ​​para o papel essencial das abelhas e de outros polinizadores na agricultura, no equilíbrio ecológico e na preservação da biodiversidade. Ao envolvê-los em atividades de apicultura, iniciativas educacionais e esforços de defesa, envolve-se uma nova geração de líderes ambientais de modo a influenciar positivamente o mundo.

O Dia Mundial da Abelha foi proclamado pela Resolução 72/211 adotada na Assembleia Geral da ONU de 20 de dezembro de 2017.

Mas porque há a necessidade desta preocupação toda com as abelhas?
Com o avanço do uso de pesticidas e agrotóxicos, a população mundial de abelhas tem sido severamente afetada. A vida humana sem esses insetos é praticamente impossível, afinal eles são responsáveis por pelo menos 90% das flores silvestres do mundo, de acordo com a ONU.

O impacto negativo dessas tecnologias de plantio pode trazer mais problemas para o mercado da agricultura do que benefícios. Isso porque, além dos potenciais efeitos colaterais dos agrotóxicos para os seres humanos, eles também podem exterminar populações inteiras de abelhas, danificando permanentemente a plantação.

Ao todo, existem mais de 25 mil espécies de abelhas na Terra, distribuídas através de todos os continentes – menos a Antártida. Todas elas são essenciais para a manutenção da segurança alimentar humana, devido ao seu trabalho polinizador. Até a menor das plantas pode ser polinizada por esses insetos alados, já que existem espécies tão pequenas que mal podem ser vistas.

Mas para além da polinização de culturas, a abelha também é importante para a produção de alimentos em escala mundial. Isso porque ela produz o mel e própolis, matérias primas para doces e certos medicamentos naturais.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Renúncia fiscal: soja recebe quase R$ 60 biliões ao ano, o dobro da cesta básica


A soja tem dificuldades em abrir mão do Estado-babá? Como todo produto do colonialismo, o grão depende fortemente de subsídios públicos. Um novo estudo mostra que a produção custa quase R$ 60 biliões ao ano apenas em renúncia fiscal. O valor é o dobro das desonerações garantidas à cesta básica, e seria suficiente para arcar com quatro meses de Bolsa Família.

O relatório O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva, lançado nesta terça-feira (17), reforça o papel concentrador desse grão na disputa por terras, financiamento e benesses. E, em meio à discussão sobre reforma tributária, propõe que sejam repensados os subsídios ao setor.

O autor, o economista Arnoldo de Campos, destrincha leis que garantem isenções para a produção agrícola em várias etapas, desde insumos (como fertilizantes e agrotóxicos) até a livre circulação pelos estados e a exportação, passando pelo processamento de óleos, biodiesel e farelo de soja.

O resultado é uma estimativa de renúncia de R$ 56,81 biliões apenas em impostos federais ao longo de 2022. Isso equivale a 15% do faturamento estimado para a produção de soja, de R$ 400 biliões.

"Estamos trazendo ao público a informação de quanto é o custo para o país como um todo de uma opção estratégica que foi tecida durante a ditadura, onde não houve esse processo de transparência, participação e democracia. Esse é o cerne do nosso estudo", diz Marcos Woortmann, coordenador de Políticas Socioambientais do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), uma das organizações responsáveis pelo estudo. Ele faz alusão ao fato de que a estrutura tributária atual do país começou a ser instituída durante o regime autoritário, e depois foi apenas sendo sucessivamente remendada.

"O Brasil é o país que mais se desindustrializou no mundo nos últimos trinta anos. E existe uma razão do porquê isso aconteceu. Não houve priorização da indústria na economia. Um setor está pagando, o outro está recebendo. O setor industrial paga IPI, CSLL, Cofins. E o setor da soja não paga. E quem paga somos nós como contribuintes."

O relatório traça ainda uma projeção para a renúncia fiscal de ICMS em Mato Grosso, maior produtor de soja e estado-símbolo do agronegócio no Brasil. A estimativa é de uma perda de quase R$ 8 biliões, o que equivale a 6,1% do faturamento da cadeia de soja no estado. No total, a desoneração foi maior que a própria arrecadação, projetada em R$ 5,9 biliões.

"Não sou um otimista", diz Woortmann sobre a possibilidade de que a reforma em tramitação no Congresso acabe com os privilégios do agronegócio. "O Brasil está subsidiando a destruição ambiental, a concentração de renda e o autoritarismo. A democracia brasileira está subsidiando as forças que atentaram contra ela. E isso ficou profundamente nítido a partir das investigações de financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Esses atos foram subsidiados por empresas subsidiadas pelo contribuinte. Existe uma complexidade do momento histórico que é gravíssima."


Papa-tudo

Não é de hoje que a capacidade da soja em ser predatória com outras culturas chama atenção. Ainda assim, o avanço do grão nos últimos anos tem se dado em bases astronômicas. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra atual é de 44 milhões de hectares, o equivalente à soma dos territórios de Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Se fosse um país, a soja teria o tamanho aproximado de Marrocos.

Como assinala o relatório, é verdade que o cultivo teve um ganho de produtividade, mas a principal explicação reside na expansão geográfica: na comparação com o primeiro mandato de Lula, a soja mais do que dobrou de tamanho.

"O estudo é uma oportunidade de abrir um debate de que existem alternativas", assinala Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, outra das organizações responsáveis pela análise. "Para desnaturalizar essa coisa que está dada na sociedade, de que o agronegócio é que salva a lavoura no Brasil. Esses números mostram que o que a gente tem de aparentemente bem-sucedido é o fruto de um investimento de décadas. Hoje a gente sabe que esse investimento tem uma série de consequências ambientais e de saúde humana. A gente pode rever essa rota."

Essa capacidade de concentração fica explícita também na pesquisa Produção Agrícola Municipal, cuja versão mais recente foi divulgada em setembro pelo IBGE. Tirando da conta o milho, nem mesmo a soma de todos os demais produtos faz frente à soja: são R$ 292,7 biliões entre cana-de-açúcar, café, algodão, trigo, arroz, laranja, feijão, mandioca e outros alimentos.

Como temos mostrado no Joio, o mote de que o agro é tudo cai por terra diante da desproporção entre a soja e todo o restante. Sem o grão, o agro perderia quase metade do valor de produção, o que expõe a fragilidade do setor que se apresenta como "indústria-riqueza do Brasil".

Segundo o estudo, a participação da cadeia da soja no PIB do agro passou de 9% para 27% entre 2010 e 2022 – uma expansão de 58%, contra apenas 8% do agro como um todo.

O relatório analisa como essa concentração se reflete na concessão de crédito. Os dados do Banco Central mostram que o grão sugou 52% dos recursos de financiamento em 2022. "Ou seja, de um total de R$ 133,2 biliões emprestados para custear as lavouras no país, R$ 69,5 biliões foram destinados para financiar exclusivamente o custo da soja."

Somando o milho, chega-se a 72%, ou seja, todos os restantes alimentos, num total de 140 culturas, ficam com apenas 28% do crédito rural. O feijão, por exemplo, ficou com menos de 1% dos recursos, num total de 8,4 mil contratos para um universo de quase um milhão de produtores.

A porta de saída

O estudo defende que a soja é o exemplo-mor da ênfase colocada pelo Estado na transformação do país em potência agrícola. O grão é o resultado de políticas agrícolas, comerciais, de infraestrutura e de tributação. Vale lembrar que a adaptação do cultivo ao Cerrado é vista como uma das maiores realizações da Embrapa, que celebra 50 anos em 2023.

"Se o objetivo de fomentar e desenvolver o agronegócio foi alcançado, como demonstra o caso da soja aqui destacado, será que faz sentido manter os atuais níveis de apoio que as cadeias produtivas privilegiadas receberam ao longo de décadas?", questiona o relatório, sugerindo que está na hora de o agronegócio brasileira começar a devolver parte dos investimentos feitos pelo país.

O texto aponta que parte da elite do país questiona o tempo do qual famílias pobres dependem de programas sociais, como o Bolsa Família, "e cobra do poder público as chamadas 'portas de saída', para que estas famílias deixem, depois de um determinado período, de receber o apoio do Estado. Dizem que as famílias não deveriam ficar ‘dependentes’ das políticas sociais".

Então, por que a soja deveria ficar eternamente dependente do Estado? A pergunta, ao fim, é: o agronegócio sobrevive sem fartos apoios públicos?

O relatório "O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva" foi produzido por ACT Promoção da Saúde, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Agrotóxicos: um "Atlas" global expõe o desastre


Um Atlas Mundial, agora publicado, expõe uma série de dados sobre esses produtos tóxicos. As mulheres são vítimas inocentes do uso de agrotóxicos no mundo.´

Principais dados:

1 — O consumo de pesticidas no mundo aumentou 80% desde 1990
A União Europeia gostaria de reduzir o consumo de agrotóxicos para metade até 2030. Em França, o plano Écophyto tinha esse objetivo. Mas tanto em França como na União Europeia, o consumo está estagnado em vez de cair. Em outras partes do mundo, determinados continentes concentram o aumento do consumo. Na América Latina, mais que dobrou (+119%) entre 1999 e 2020. No mesmo período, a África aumentou o seu consumo em 67%. A União Europeia garante a proibição dos pesticidas mais perigosos. No entanto, isso não a impede de continuar a fabricá-los no seu território e exportá-los. O Reino Unido, a Alemanha e a Itália são os três maiores exportadores desses pesticidas proibidos na Europa por serem muito perigosos. Eles são vendidos principalmente no Brasil, Ucrânia e África do Sul. Enquanto 195 pesticidas considerados "extremamente perigosos" pela ONG Pesticide Action Network são proibidos na UE, apenas 20 são proibidos no Mali, 19 na Nigéria, 18 na Argentina.


2 – Quatro empresas controlam 70% do mercado global de agrotóxicos
A indústria de agrotóxicos está concentrada nas mãos de um punhado de empresas. Syngenta, Bayer, Corteva e BASF controlavam 70% do mercado global de pesticidas em 2018 (contra 29% 25 anos antes). As mesmas detêm 57% do mercado de sementes. O mercado de pesticidas cresce 4% ao ano desde 2015 e pode atingir os 130,7 mil milhões de dólares (120 mil milhões de euros) em 2023. Mas "a rentabilidade do setor dos pesticidas seria atualmente impossível sem o apoio público e a cobrança coletiva dos impactos negativos", estima o Atlas. Calcula ainda que em França, em 2017, os benefícios da indústria dos pesticidas atingiram 200 milhões de euros a mais do que as despesas por eles geradas (poluição das águas, tratamento das doenças que provocam, etc.) custaram 372 milhões de euros. Ou seja, quase duas vezes mais caro.

3 – 80% dos solos europeus estão contaminados
Na Europa, as análises mostraram que em 317 canteiros agrícolas testados, mais de 80% continham resíduos de pesticidas. A água também está contaminada. Segundo um estudo da Agência Europeia do Ambiente, cerca de um terço das estações europeias de monitorização das águas superficiais apresentaram níveis de pesticidas superiores aos limites nacionais entre 2013 e 2019. No ar, foram encontrados resíduos de pesticidas a mais de 1.000 quilómetros de seu local de aplicação.

4 – As mulheres estão mais expostas aos perigos dos pesticidas
As mulheres, menos alfabetizadas no mundo, portanto menos capazes de ler rótulos e conselhos de aplicação, são mais vulneráveis ​​aos pesticidas, aponta o relatório. Por exemplo, no Nepal, 53% dos agricultores do sexo masculino lêem e entendem os rótulos, em comparação com 25% das agricultoras. No Gana, 65% dos agricultores do sexo masculino conhecem os pesticidas proibidos, em comparação com 5% das agricultoras.

5 – Mudar o sistema agrícola custaria menos
“É todo o sistema agrícola e alimentar que precisa de ser mudado”, explica Mathilde Boitias, diretora da Fábrica Ecológica e coordenadora do Atlas. A agricultura orgânica é a única que garante a não utilização de agrotóxicos sintéticos. A União Europeia gostaria de triplicar o número de quintas orgânicas até 2030. Isso custaria 1,85 bilião de euros por ano, menos do que os custos sociais ligados aos pesticidas, sublinha l'Atlas.

Fonte: Reporterre

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Desinformação da indústria de pesticidas: o que está em jogo? Saúde, clima, biodiversidade

“O objetivo da propaganda moderna não é apenas desinformar ou impor uma agenda. É para esgotar o seu pensamento crítico, para aniquilar a verdade.” — Garry Kasparov


Em 5 de dezembro de 2022, a US Right to Know lançou Merchants of Poison: How Monsanto Sold the World on a Toxic Pesticide , de Stacy Malkan, com Kendra Klein, PhD e Anna Lappé (você pode ler o relatório completo aqui). A análise se baseia em milhares de páginas de documentos corporativos internos divulgados durante ações judiciais movidas por pessoas processando a Monsanto por alegações de que a exposição a herbicidas Roundup à base de glifosato os levou a desenvolver cancro; e muitos outros documentos obtidos por meio de uma investigação de registros públicos de anos pela US Right to Know. Os documentos revelam muitos detalhes, explicados em nosso relatório, sobre como a indústria de pesticidas nega a ciência e conduz suas campanhas de defesa de produtos. Neste trecho, explicamos por que escrevemos o relatório e descrevemos o grande corpo de evidências científicas que levantam preocupações sobre o glifosato e o que está em jogo para nossa saúde e para o planeta.
As empresas de pesticidas ajudaram a escrever o manual de desinformação

Na manhã de 14 de abril de 1994, o Comitê de Energia e Comércio Subcomitê de Saúde e Meio Ambiente empossou sete executivos do tabaco para uma audiência sobre a regulamentação dos produtos do tabaco. O vídeo daquele dia [1] — com executivo após executivo declarando uma versão de “Não acredito que a nicotina ou nossos produtos sejam viciantes” — está gravado na memória coletiva das mentiras e decepções da Big Tobacco. De fato, décadas antes desse testemunho, os executivos do tabaco sabiam que os cigarros causavam cancro – e que a nicotina é, de fato, viciante. 

Em outubro de 2019, em uma audiência do subcomitê de supervisão da Câmara sobre direitos civis, Martin Hoffert, ex-consultor da Exxon, testemunhou que, no início dos anos 1980, os cientistas que trabalhavam para a empresa já previam como o uso de combustíveis fósseis aumentaria os níveis de dióxido de carbono, levando a temperaturas crescentes. [2] Documentos internos mostrariam que, já em 1968, o American Petroleum Institute, um grupo comercial da indústria do petróleo, havia identificado a ameaça do aquecimento global e o papel das empresas de seu setor nisso. [3]

Os executivos da indústria do petróleo sabiam que o uso de combustíveis fósseis causaria o aquecimento global e, no entanto, não apenas esconderam a ciência, mas atacaram ativamente aqueles que deram o alarme. Os executivos do tabaco sabiam e encobriam os riscos à saúde de seus produtos. [4] Essas indústrias usaram táticas de desinformação agora bem documentadas para promover a dúvida e o negacionismo. [5] As táticas da Big Tobacco provavelmente custaram milhões de vidas, já que os regulamentos surgiram muito depois de se tornar evidente que os cigarros causam câncer - e continuam a custar vidas. (A OMS estima que 8 milhões de pessoas morrem anualmente devido ao uso do tabaco). [6]A rotação do setor de combustíveis fósseis impulsionou o negacionismo científico e a inação política que levaram a um aquecimento global e estão associados a milhões de mortes por ano, [7] com poucos caminhos claros para evitar mudanças climáticas catastróficas.

Durante décadas, a indústria de pesticidas usou estratégias de comunicação igualmente enganosas para moldar o debate público e influenciar os reguladores – até mesmo manipulando a própria ciência sobre a qual as políticas são feitas – para desviar a atenção das evidências de que a agricultura intensiva em pesticidas ameaça os ecossistemas e a saúde humana. Neste relatório, mostramos como as empresas de pesticidas não apenas seguiram os passos do Big Oil e Big Tobacco, mas também ajudaram a escrever o manual de relações públicas que obscurece os perigos de produtos de consumo amplamente utilizados que a ciência mostra que estão ameaçando a saúde humana e ambiental em todo o mundo. globo. Este relatório sobre a campanha da Monsanto para defender o glifosato conta uma parte de uma história mais ampla: que, por décadas, as empresas de pesticidas realizaram caras campanhas de relações públicas para moldar a narrativa sobre a ciência e nosso sistema alimentar, promovendo as ideias gêmeas de que os pesticidas - um termo que abrange inseticidas, herbicidas, fungicidas e muito mais - são seguros e que precisamos deles para alimentar o mundo. Nos últimos anos, estudos globais inovadores mostraram a grave ameaça que os produtos químicos agrícolas representam para a biodiversidade e a saúde pública e como eles falham em cumprir suas promessas de maior produtividade agrícola, levando à perda de colheitas e à resistência de ervas daninhas e pragas.[8] No entanto, apesar das evidências crescentes, a indústria de pesticidas dobrou as mensagens enganosas.

Este relatório chega em um momento de consolidação cada vez maior da indústria no setor de agroquímicos e sementes — muito parecido com o que vimos em toda a economia. Em 2020, graças a compras recentes, incluindo o acordo Bayer-Monsanto, apenas quatro empresas controlavam 62% do mercado global de agroquímicos e 51% do mercado global de sementes comerciais, de acordo com o ETC Group, participação de mercado da Bayer em agroquímicos, 16% , ficou atrás apenas da ChemChina/Syngenta com 25 por cento, seguida pela BASF com 11 por cento do mercado e Corteva (o nome renomeado da empresa fundida Dow e Dupont) com 10 por cento. Para sementes comerciais e características de sementes, a Bayer controla 23 por cento do mercado, enquanto a Corteva tem uma participação de mercado de 17 por cento, com a ChemChina em 7 por cento e a BASF em 4 por cento. [9]

Para esclarecer o giro de relações públicas da indústria de pesticidas, este relatório fornece um mergulho profundo em uma empresa e uma campanha de relações públicas: a Monsanto, comprada em 2018 pela multinacional farmacêutica e agroquímica alemã Bayer AG, e sua campanha de defesa de produtos para promover herbicidas à base de glifosato vendidos sob a marca Roundup, e para proteger esses produtos da ameaça de regulamentação. Este relatório baseia-se num white paper de 2015 escrito por Kari Hamerschlag, da Friends of the Earth, juntamente com Stacy Malkan e Anna Lappé, que documenta algumas das mensagens e táticas de grupos de frente da indústria de alimentos, incluindo os milhões de dólares que gastam todos os anos para moldar o história do nosso sistema alimentar. [10]

Dois grandes desenvolvimentos nos últimos anos levaram a mais relatórios sobre este tópico: Primeiro, novas evidências científicas, discutidas abaixo, tornam clara a urgência de abordar os impactos ambientais e de saúde associados aos produtos da indústria de pesticidas, incluindo formulações de herbicida glifosato. Em segundo lugar, o acesso a novas evidências de documentos corporativos internos, obtidos nos últimos cinco anos por meio de ações legais e investigações de interesse público, fornece uma nova visão sobre como a Monsanto conduziu suas operações de propaganda, com a ajuda das indústrias de pesticidas e alimentos processados. Graças a dezenas de milhares de páginas de documentos corporativos internos disponibilizados por esses esforços, o público tem acesso sem precedentes a como o setor desenvolve estratégias para enganar o público. Esses documentos incluem os “Papéis da Monsanto” obtidos em litígios sobre herbicidas à base de glifosato e registos públicos disponibilizados por meio de uma investigação liderada por colegas da US Right to Know. (Muitos desses documentos estão disponíveis no site US Right to Know e via documentos que doamos aos arquivos de documentos da indústria química e alimentícia da UCSF.) [11]

Este relatório soma-se a um crescente corpo de pesquisas e reportagens sobre as táticas enganosas da indústria de pesticidas: as reportagens do The Intercept sobre o giro de relações públicas empurrando os neonicotinoides, a classe de pesticidas que impulsionam o “ apocalipse dos insetos ” e detalhando as táticas usadas pela indústria manter o mortal pesticida paraquat no mercado por décadas; ou a reportagem do The New Yorker sobre os ataques da empresa de pesticidas Syngenta ao cientista Tyrone Hayes; ou mapeamento do DeSmog dos pontos de desinformação da indústria de pesticidas. Em conjunto, este relatório ajudou a revelar as principais táticas de relações públicas da indústria de pesticidas e ajudou a expor a criação de mitos sobre a segurança e a necessidade de pesticidas.
Em suas próprias palavras…

O relatório do Merchant's of Poison acrescenta a esta pesquisa detalhando as táticas de spin usadas para empurrar o herbicida mais onipresente do mundo: o glifosato. Mostramos — usando as próprias palavras da indústria em seus próprios documentos — como o maior produtor de herbicidas à base de glifosato, a Monsanto (comprada pela Bayer AG em 2018), usou táticas furtivas para obscurecer a verdade e moldar a narrativa sobre esse pesticida e nosso sistema alimentar mais amplamente. Detalhamos como a empresa produziu ciência corrupta , minou instituições de saúde pública, comprou influência nas mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, e implantou um exército de aliados terceirizados para espalhar mensagens de defesa do produto, incluindo ataques a cientistas e jornalistas. Mostramos como a empresa rastreou e atacou os críticos e tentou dominar espaços online relacionados a pesticidas e organismos geneticamente modificados (OGMs). Ao longo deste relatório, mostramos como um pequeno grupo de especialistas do setor implantou mensagens enganosas por meio de vozes aparentemente independentes, usando muitas das mesmas estratégias e fluxos de financiamento – e às vezes as mesmas pessoas – que as indústrias de tabaco e combustíveis fósseis usam para enganar o público.

Por que focar no giro de relações públicas em torno do glifosato? Certamente existem pesticidas mais tóxicos para uso agrícola. Há o paraquat, em que a exposição até mesmo a uma tampa cheia pode ser mortal, e a classe de inseticidas conhecidos como neonicotinoides, que aumentaram a toxicidade da agricultura dos EUA para insetos em 48 vezes nos últimos 25 anos. [12]Mas, embora não seja o mais tóxico, o glifosato ainda é tóxico para os seres humanos e devastador para os ecossistemas; discutimos na Parte 1 a ciência que liga o glifosato ao câncer, danos reprodutivos, doenças renais, declínio da borboleta-monarca e outros impactos ambientais e de saúde. E, como o produto químico agrícola mais difundido no mundo, um detalhamento de há quanto tempo a empresa sabia sobre essa toxicidade, o quanto ela fez para criar uma história diferente e como continua a gerar dúvidas, negação da ciência e desvio ao enfrentar milhares de ações judiciais de agricultores e jardineiros que sofrem de câncer relacionado ao uso de glifosato é extremamente importante. Além disso, os documentos internos mostram uma imagem clara das táticas de relações públicas que a Monsanto/Bayer usou e os jogadores dos quais a empresa depende,

Finalmente, esta história é importante porque está ligada à promoção e defesa de cultivos geneticamente modificados ou OGMs, comercializados pela primeira vez em meados da década de 1990. A conexão é simples: a maioria das culturas transgênicas vendidas até agora foram desenvolvidas com características para expressar um inseticida ou tolerar um herbicida ou ambos, e quase todas foram modificadas com a característica de tolerância ao glifosato. [13] Portanto, os debates sobre os riscos e recompensas dos OGMs estão intimamente ligados à história do giro em torno da segurança do glifosato.

A maioria das culturas transgénicas no mercado foram modificadas para tolerar o glifosato.


Com base nessas milhares de páginas de documentos internos da Monsanto e relatórios investigativos, analisados ​​juntos em um só lugar pela primeira vez, este relatório revela cinco táticas de desinformação da indústria de pesticidas , relatando como a Monsanto:

1) Corrompeu a ciência: mostramos como os funcionários da Monsanto moldaram a ciência do glifosato, incluindo o pagamento de acadêmicos, redação de artigos fantasmas, influência de agências reguladoras e uso de outras táticas secretas para moldar o registro científico e regulatório;

2) Academia cooptada: Relatamos como a Monsanto e outras empresas de pesticidas fizeram parceria e pagaram universidades e professores que, por sua vez, promoveram e defenderam o glifosato e as sementes transgênicas projetadas para tolerar o herbicida. Muitas dessas parcerias não eram transparentes para o público.

3) Aliados terceirizados mobilizados: Descrevemos a grande e bem financiada câmara de eco de terceiros - os grupos de frente, organizações profissionais, universidades, campanhas de astroturf e outros - que disseminaram mensagens elaboradas pela Monsanto e suas empresas de relações públicas para esse fim de se opor aos regulamentos de saúde, segurança e transparência para produtos da indústria de pesticidas.

4) Cientistas, jornalistas e influenciadores rastreados e atacados: examinamos como grupos da indústria que afirmam ser “pró-ciência” – incluindo o Projeto de Alfabetização Genética e o Conselho Americano de Ciência e Saúde – visaram os pesquisadores de câncer da Organização Mundial da Saúde e outros cientistas e jornalistas que informaram sobre as ligações do glifosato com o câncer.

5) Espaços on-line dominados: discutimos como a Monsanto e outras empresas implantaram os mesmos grupos de fachada que atacaram cientistas e jornalistas em defesa do glifosato para se infiltrar em espaços on-line e obter a melhor colocação nas pesquisas do Google News para elevar as mensagens do setor.

Este relatório também documenta como as próprias campanhas de influência do setor são grandes negócios : Juntas, seis das associações comerciais nomeadas nos documentos da Monsanto para a defesa do glifosato — a Biotechnology Innovation Organization, CropLife America, American Chemistry Council, a Grocery Manufacturers Association, a National Corn Grower's Association e a American Soybean Association — gastaram US$ 1,3 bilhão em um período de cinco anos (2015-2019) financiando marketing, lobby e mensagens. (Consulte o Apêndice I) E apenas sete das organizações sem fins lucrativos nomeadas nos documentos internos da Monsanto como principais aliadas em sua estratégia de defesa de produtos gastaram até US$ 76 milhões durante o mesmo período. (Isso tudo além dos US$ 206 milhões que a Monsanto gastou em seu orçamento de publicidade relatado durante o período de três anos antes da compra da Bayer). [14] Embora a defesa do glifosato seja apenas parte do que essas organizações fazem - em alguns casos, uma pequena parte - o tamanho de seus orçamentos transmite os enormes recursos disponíveis para grupos que executam campanhas de defesa de produtos usando as táticas de desinformação que descrevemos neste relatório.

Esses grupos são uma indústria inquestionável em si mesmos: seu objetivo é proteger e defender os alimentos, produtos e processos com uso intensivo de produtos químicos que são a base da cadeia alimentar industrial atual.

Enquanto este relatório vai para a impressão, a União Europeia está debatendo se deve reautorizar o uso do glifosato no próximo ano. Aqui nos Estados Unidos, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito decidiu em junho de 2022 que a aprovação do glifosato pela EPA era ilegal. [15] No mesmo mês, a Suprema Corte dos EUA rejeitou a tentativa da Bayer de se esquivar de um prêmio de $ 25 milhões do júri para um homem da Califórnia que disse que décadas de exposição ao Roundup à base de glifosato causaram seu linfoma não-Hodgkin. [16] Em grande parte como resultado das pressões do litígio do glifosato, a Bayer anunciou em julho de 2021 que substituiria seus produtos à base de glifosato no mercado residencial “Lawn & Garden” dos EUA por novas formulações a partir de 2023. [17]O uso agrícola do glifosato continuará. Inúmeros outros usos comerciais e industriais, incluindo escolas e parques da cidade, também continuarão. Embora esses usos ainda sejam permitidos, há uma crescente pressão pública para regulamentar ainda mais o herbicida.

Os debates sobre o futuro do glifosato, na verdade, todas as formulações de pesticidas, devem ser deliberados à luz do que é revelado neste relatório e em outros relatórios sobre a indústria de pesticidas: o fato de que agora está bem documentado como a indústria de pesticidas funciona para moldar a ciência e a opinião pública a fim de evitar a regulamentação. Neste contexto, este relatório levanta questões-chave: Como podemos expor a manipulação da indústria da ciência em torno de pesticidas? Como garantimos que substâncias químicas nocivas, como o glifosato, não sejam substituídas por outras ainda mais tóxicas? E como regulamentamos os pesticidas para proteger a saúde pública e os ecossistemas e não ficar à mercê da ação voluntária das empresas químicas? De forma mais ampla, como garantimos que os funcionários públicos, não influenciados pela indústria ou seus aliados,

Em última análise, a história de engano que este relatório documenta é uma história sobre a vulnerabilidade da indústria de pesticidas: para escapar da regulamentação e da transparência que afetariam sua lucratividade e participação de mercado, a indústria de pesticidas - assim como as indústrias de petróleo e tabaco - depende profundamente da sucesso do subterfúgio de relações públicas para manter a lucratividade. Compreender como esse subterfúgio funciona é fundamental para jornalistas, formuladores de políticas e grupos de interesse público que trabalham para informar o público sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente decorrentes do uso crescente de pesticidas e da disponibilidade de alternativas mais seguras.