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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Do Holoceno ao Antropoceno: por que razão a nossa civilização ficou desatualizada?

Se ontem refletíamos sobre por que ter esperança é urgente e revolucionário perante a rutura ecológica, hoje precisamos de olhar de frente para o diagnóstico material que exige essa mesma ação transformadora. A nossa esperança não pode ser passiva, porque a civilização que herdámos foi construída para um planeta que, literalmente, já não existe.
Todas as civilizações humanas surgiram sobre condições climáticas e ecológicas que não criaram. No entanto, na escala de tempo geológico da Terra, toda a história da civilização ocupa pouco mais do que um piscar de olhos.

A Terra tem aproximadamente 4,5 mil milhões de anos, a vida existe há pelo menos 3,7 mil milhões de anos, o Homo sapiens há cerca de 300.000 anos, enquanto o Holoceno - o intervalo climático dentro do qual a agricultura, as cidades e as sociedades complexas se desenvolveram - começou há apenas cerca de 11.700 anos.

Quase toda a história da Terra - e quase toda a história da vida - precede por ordens de grandeza o mundo humano construído na relativa estabilidade do Holoceno. Vistas a partir do tempo profundo, as nossas cidades e infraestruturas já ostentam a aparência de futuras ruínas: monumentais, pesadas e extraordinariamente recentes, erguidas num intervalo climático estreito cuja estabilidade foi tratada como permanente.

Esta estabilidade climática formava uma condição material tácita da civilização humana. A recorrência das estações, a relativa previsibilidade da precipitação e do caudal dos rios, e a persistência de regimes de temperatura familiares tornaram o mundo físico suficientemente previsível para que a agricultura, os povoamentos e as infraestruturas fossem organizados em torno da expectativa de que as suas condições básicas permaneceriam amplamente reconhecíveis ao longo das gerações.

O Holoceno foi uma infraestrutura que nunca tivemos de construir


Ilustração conceptual da janela climática do Holoceno. Informado por Kaufman et al., Scientific Data (2020), e Osman et al., Nature (2021).

E como nenhuma sociedade teve de a construir, o capitalismo pôde tratá-la como se fosse gratuita. O capital herdou talvez a infraestrutura mais valiosa da história humana: um clima relativamente estável.

Não o produziu nem pagou pela sua reprodução. A estabilidade climática não constava de nenhum balanço; o capital simplesmente assumiu que ela continuaria lá amanhã.

Construímos cidades para temperaturas retiradas do passado. Sistemas de drenagem para padrões familiares de precipitação. Agricultura em torno de ciclos de estações relativamente previsíveis. Casas para amplitudes históricas de calor e frio. Portos e povoamentos costeiros em redor de linhas de costa que se assumia moverem-se devagar. Infraestruturas inteiras foram concebidas com base na expectativa de que o dia de ontem permaneceria um guia razoável para o dia de amanhã.

Essa expectativa já não se verifica.

A rutura climática é, portanto, mais radical do que uma sucessão de eventos extremos. Significa que as regularidades ecológicas silenciosamente incorporadas na organização da vida social se estão, elas próprias, a tornar instáveis.

Aquilo que surge como a desestabilização da "natureza" regressa, assim, ao interior da sociedade como a desestabilização das suas fundações materiais.
Esta é a contradição no centro da crise climática: o capital acumulou-se tratando a estabilidade planetária como uma condição gratuita de produção e, no decurso da acumulação, começou a destruir essa própria condição.

O mundo construído sobre esses pressupostos permanece de pé enquanto as condições sob ele se alteram. Neste sentido, o capitalismo assemelha-se cada vez mais ao Wile E. Coyote (Bip Bip e Coiote) depois de correr para além da borda do penhasco: as pernas continuam a mover-se, a maquinaria continua a funcionar e a acumulação prossegue - enquanto o solo que tornava o movimento possível está a desaparecer debaixo dos pés.

Exceto que o capitalismo também tem vindo a dinamitar o penhasco atrás de si.

O Peso de uma Civilização Morta
O planeta muda mais depressa do que a civilização material construída sobre ele.

Cidades, autoestradas, fábricas, portos, centrais elétricas e edifícios não podem simplesmente migrar inalterados para um clima diferente. São imensos depósitos de matéria, energia e trabalho passado, construídos para permanecer no mesmo lugar durante décadas ou séculos. Quanto mais depressa as condições planetárias mudam, mais esta herança material começa a parecer uma civilização construída para o dia de ontem.

Existe agora, literalmente, mais deste mundo construído do que matéria viva na Terra.



Fonte: Elhacham et al., “Global human-made mass exceeds all living biomass,” Nature 588, 442–444 (2020), Fig. 1.

No início do século XX, a massa total de objetos produzidos pelo ser humano correspondia a apenas cerca de três por cento da biomassa do planeta. Por volta de 2020, de acordo com um estudo publicado na Nature, a massa antropogénica - betão, agregados, asfalto, tijolos, metais, plásticos e tudo o mais que os humanos construíram - atingiu cerca de 1,1 biliões de toneladas e ultrapassou a massa seca de todos os organismos vivos na Terra. Tinha vindo a duplicar aproximadamente a cada vinte anos. A humanidade estava a adicionar mais do que o seu próprio peso corporal em massa manufaturada por pessoa, todas as semanas.

A esta escala, o mundo construído já não é apenas um artefacto social; tornou-se um facto planetário. Este é o Antropoceno: a humanidade tornou-se uma força geológica, capaz de alterar o próprio sistema terrestre. Contudo, dizer que a humanidade se tornou uma força geológica não é dizer que a humanidade agiu como um sujeito coletivo único.

Um bilião de toneladas de betão não é a expressão de algum "instinto humano" universal para construir. São o resultado material de relações de classe, hierarquias sociais e distribuições desiguais de poder - a história endurecida em matéria, embutida nas infraestruturas do capital fóssil.

O capitalismo industrial sedimentou as suas relações sociais no mundo físico.
Entre 1900 e 2010, o stock de materiais acumulados em edifícios, infraestruturas e maquinaria aumentou cerca de vinte e três vezes. Uma vez construídos, criam dependências do passado (path dependencies): os investimentos de ontem determinam a procura de energia e materiais de amanhã.

Em termos marxianos, o trabalho passado confronta a sociedade viva sob a forma material - "trabalho morto que, como um vampiro, se alimenta do trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais dele suga" (O Capital, Vol. I, Cap. 15). Sob o capitalismo, máquinas, fábricas e infraestruturas adquirem um poder material de comando sobre o trabalho e a natureza.

Uma vez construída, a infraestrutura começa a exigir a sua continuação. Uma refinaria exige um fluxo contínuo de petróleo. Um sistema de autoestradas exige automóveis. Uma central elétrica a combustível fóssil construída para funcionar durante quarenta anos carrega dentro do seu betão e aço uma expectativa sobre o futuro.

O passado adquire um poder material sobre o futuro.
Esta é uma das razões pelas quais a transição ecológica é muito mais difícil do que "substituir uma fonte de energia por outra". O capitalismo acumulou um enorme mundo material cuja operação contínua reproduz o metabolismo social que, em primeiro lugar, desestabilizou o clima.

A contradição é cada vez mais gritante, uma vez que herdámos uma infraestrutura concebida para um conjunto de condições planetárias enquanto entramos noutro.

A infraestrutura pode permanecer de pé muito depois de o mundo para o qual foi construída ter começado a desaparecer.

Cidades de betão sem sombra, habitações expostas, redes de transporte fóssil e paisagens urbanas que retêm o calor assemelham-se cada vez mais aos vestígios de uma civilização industrial - ruínas futuras de um mundo cujas condições materiais já estão a desaparecer.

A Privatização da Sobrevivência
Se as condições materiais herdadas do Holoceno continuarem a deteriorar-se enquanto as relações de propriedade e riqueza existentes permanecerem intactas, a crise ecológica intensificará as desigualdades que acompanham o capitalismo industrial desde os seus primórdios. A classe social sempre moldou o acesso aos cuidados de saúde, à alimentação nutritiva, à habitação segura, a ambientes limpos e à possibilidade de viver uma vida mais longa e confortável. A rutura climática ameaça transformar estas diferenças de privilégio em diferenças na capacidade de sobreviver.

À medida que as condições básicas de vida se tornam menos fiáveis, a riqueza determinará cada vez mais quem pode comprar proteção contra o colapso ecológico. O que outrora era dado como garantido enquanto condição comum da vida tornar-se-á, cada vez mais, uma mercadoria. Os mais abastados poderão comprar distância em relação ao calor, à escassez e ao deslocamento forçado, enquanto as classes, comunidades e regiões mais pobres serão forçadas a absorver a crise em primeiro lugar e de forma mais violenta.

"Não há Planeta B" tornou-se, e bem, um dos slogans definidores do ambientalismo. No entanto, paradoxalmente, o Planeta B é precisamente o sonho dos tecno-oligarcas milionários: desde enclaves fortificados na Terra ao sonho de Elon Musk de colonizar Marte. A possibilidade de fuga torna-se mais fácil de imaginar do que a transformação das relações sociais que impulsionam o colapso ecológico no nosso planeta partilhado.

A obscenidade mais profunda desta trajetória é que a própria sobrevivência se pode tornar o privilégio supremo daqueles que mais beneficiaram do sistema que tornou o planeta cada vez mais difícil de habitar.

A adaptação climática sem transformação social é a privatização da sobrevivência.

Uma Civilização para o Planeta Que Existe
O problema, então, é como construir a vida social para condições planetárias que já não podem ser dadas como garantidas. Grande parte do mundo que herdámos foi concebida em torno de regularidades climáticas que já estão a escapar-nos.

A adaptação é inevitável, mas a sua direção é política. Prolongar a vida de uma civilização fóssil forçando corpos, cidades e ecossistemas a absorver um calor, instabilidade e perturbação cada vez maiores apenas preservaria a maquinaria do colapso.

Um planeta em mudança exige a transformação da organização material da vida social: a forma como construímos cidades e casas, produzimos e distribuímos energia, organizamos os transportes e a agricultura, gerimos a água, estruturamos o trabalho e reproduzimos a vida quotidiana. Um mundo mais quente força uma questão mais profunda: que tipo de sociedade pode permanecer compatível com as condições de vida?

Mas uma civilização fóssil não se pode tornar habitável simplesmente substituindo combustíveis fósseis por energias renováveis, plantando mais árvores ou adicionando espaços verdes enquanto se mantém intacta a sua organização material subjacente. Temos de repensar as divisões herdadas entre cidade e campo, sociedade e natureza, desenvolvimento humano e os limites biofísicos do planeta.

Nada disto é possível sem ir além do próprio capitalismo.

Este é o horizonte do ecossocialismo: não a gestão ecológica do mundo que herdámos, mas a reorganização democrática das suas fundações materiais em torno das necessidades coletivas, da prosperidade humana e da reprodução da vida na Terra.

O capitalismo passou séculos a adaptar a natureza aos requisitos da acumulação. Hoje, a crise ecológica confronta-nos com a tarefa inversa: reorganizar a vida social em torno dos requisitos materiais de um planeta habitável.

Construímos um mundo para um planeta que já não existe. Agora temos de construir um para o planeta que existe.

Da "Salvação do Planeta" ao Petróleo na Foz do Amazonas: A Grande Contradição da Esquerda Extrativista



A confirmação técnica da descoberta de petróleo bruto no poço Morpho — localizado na sensível bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial — veio reacender um debate profundo sobre os rumos da política climática brasileira. Apenas dez meses após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ter concedido a licença operacional à Petrobras, em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o achado caracterizando a nova reserva como o seu mais recente "passaporte para o futuro".

Esta celebração escancara o esgotamento de um modelo ideológico: o de uma esquerda que tenta financiar a justiça social de hoje sacrificando o equilíbrio sustentável de amanhã. O discurso ecológico que entusiasmou a comunidade internacional deu lugar a um pragmatismo fóssil que abraça o ecocídio diferido em nome do crescimento imediato, esvaziando a liderança climática do país de qualquer substância ética.

A decisão do Ibama, contestada por pareceres técnicos históricos, abriu caminho para a exploração petrolífera no mar numa área de elevada vulnerabilidade ecológica. Um dos pontos mais graves de todo este processo envolve a violação de direitos humanos basilares e a subordinação das populações locais ao imperativo do desenvolvimento a qualquer custo. Organizações como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp) denunciam abertamente que os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Oiapoque não foram devidamente auscultados através da Consulta Prévia, Livre e Informada, violando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os territórios estão na linha da frente dos riscos de um eventual derramamento de crude, contudo as decisões estratégicas sobre o destino da região continuam a ser tomadas à porta fechada nos gabinetes de Brasília.

O timing do incentivo às novas sondagens marítimas expõe um desfasamento diplomático inaceitável. Pouco tempo depois de o Brasil ter acolhido em Belém a COP 30, onde se apresentou como o grande guardião da floresta tropical e líder da transição energética, o governo pressiona ativamente os órgãos reguladores para expandir a fronteira fóssil. Esta postura reflete a armadilha do neoextrativismo latino-americano, que insiste em ver os recursos naturais finitos como a única alavanca de financiamento público.

As reações das maiores redes ambientalistas mundiais foram devastadoras para a imagem do executivo:
  1. Greenpeace Brasil: através das declarações da coordenadora da campanha de Oceanos, Mariana Andrade, a organização denunciou que a celebração do achado de crude no poço Morpho representa o"risco a ser vendido como conquista". A Greenpeace alertou que insistir na exploração petrolífera no mar na Foz do Amazonas ignora os pareceres técnicos do órgão ambiental, afasta o país dos compromissos do Acordo de Paris e ameaça diretamente o frágil Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
  2. Observatório do Clima: a coligação das principais ONGA brasileiras classificou os avanços da exploração na Margem Equatorial como uma verdadeira "sabotagem à COP 30" e uma "escolha desastrosa" que destrói a autoridade moral da diplomacia brasileira. A rede relembrou que a insistência do governo em contornar a prudência ambiental viola o princípio da prevenção científica e contradiz as decisões dos tribunais internacionais sobre a urgência de travar a expansão dos combustíveis fósseis.
A comunidade científica rejeita categoricamente a tese de que a extração de petróleo no mar serve para "financiar a transição energética". O prestigiado climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazónia, já reagiu à notícia e foi  incisivo ao declarar que a região já está perigosamente próxima do seu "ponto de não retorno" e que não existe qualquer justificativa técnica ou ecológica para abrir novas fronteiras petrolíferas. "Nós temos que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo. 75% das emissões dos gases de efeito estufa vêm da queima dos combustíveis fósseis. É uma emergência imensa" 

O climatologista Carlos Nobre expôs em detalhe, já em 13/02/2025 os riscos ambientais de perfurar poços na bacia marítima da Amazónia nesta entrevista sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Nesta análise em vídeo aborda as dinâmicas de correntes marítimas, os perigos para a biodiversidade e os limites científicos do ponto de não retorno florestal.

Concluindo, para a ciência, não existe justiça social duradoura sobre um ecossistema em colapso. Ao atrelar o desenvolvimento brasileiro a uma matriz ultrapassada, o governo falha na proteção da biodiversidade e insiste num mapa do século XX para tentar navegar na maior crise do século XXI.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Parecer sobre o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis e a respetiva Avaliação Ambiental Estratégica

As Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) subscritoras - Almargem, FAPAS, GEOTA, LPN, SPEA, VCF, WWF Portugal e ZERO - propõem uma aprovação globalmente favorável, mas fortemente condicionada à proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER). 
Estas ONGA reconhecem que a aceleração da implantação de energias renováveis constitui uma condição indispensável para alcançar os objetivos climáticos nacionais e europeus, reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, reforçar a segurança energética e contribuir para a neutralidade climática. 
Contudo, a concretização destes objetivos não depende apenas da quantidade de capacidade renovável instalada, mas sobretudo da forma como essa capacidade é integrada no território, articulada com a proteção da biodiversidade, compatibilizada com os usos do solo, enquadrada por uma visão estratégica da economia nacional e legitimada pelas comunidades afetadas. 
Neste sentido, a criação das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (ZAER) apenas cumprirá os objetivos que justificaram a sua introdução pela Diretiva (UE) 2023/2413 (RED III) se representar uma verdadeira evolução do modelo de planeamento territorial da transição energética e não apenas um mecanismo adicional de simplificação administrativa.

O parecer na íntegra encontra-se disponível aqui

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

RCP8.5 Is Officially Dead

The international committee responsible for the official scenarios that feed into climate modeling that are the basis for most projective climate research and the assessments of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) has just published the next generation of climate scenarios.

Big news: The new framework has eliminated the most extreme scenarios that have dominated climate research over much of the past several decades — specifically, RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0. This is an absolutely huge development in climate science which will have lasting impacts across research and policy.

The future is not what it used to be.

Today’s post commends the researchers who have brought climate scenarios more in line with current understandings, but also raises some significant continuing issues with the scenarios.

Let’s get started . . .

The new scenarios come from the Coupled Model Intercomparison Project (CMIP) — a project of the World Climate Research Programme (WCRP), co-sponsored by the World Meteorological Organization, the International Science Council, and UNESCO’s Intergovernmental Oceanographic Commission.

Under CMIP, now in its seventh iteration, sits another little-known committee with responsibility for developing the scenarios necessary for earth system models to project future climate.1 That committee — called ScenarioMIP — just published the new scenario framework that will underpin the IPCC’s Seventh Assessment Report (AR7) and much of the research that it will draw upon.

In a paper released earlier this month, Van Vuuren et al. (VVetal26) introduce a new set of seven scenarios. The authors write of the obsolete high end emissions scenarios (emphasis added):

“For the 21st century, this range will be smaller than assessed before: on the high-end of the range, the CMIP6 high emission levels (quantified by SSP5-8.5) have become implausible, based on trends in the costs of renewables, the emergence of climate policy and recent emission trends.”

Read that again — The high end scenarios are Implausible.2

I disagree that the implausibility of the high-end scenarios resulted from the falling costs of renewables or the emergence of climate policy, but that is a debate for another day.

What matters today is that the group with official responsibility for developing climate scenarios for the IPCC and broader research community has now admitted that the scenarios that have dominated climate research, assessment, and policy during the past two cycles of the IPCC assessment process are implausible: They describe impossible futures.

Tens of thousands of research papers have been — and continue to be — published using these scenarios, a similar number of media headlines have amplified their findings, and governments and international organization have built these implausible scenarios into policy and regulation.

We now know that all of this is built on a foundation of sand.

What changed
The new CMIP7 ScenarioMIP framework offers seven scenarios spanning a range from “VERY LOW” through “HIGH.” The current naming convention drops the radiative-forcing target labels of the SSP era — there is no “8.5” scenario, and no “7.0” scenario, but as I’ll show below, each scenario has a radiative forcing level in 2100.

I ran the available new scenarios (HIGH, MEDIUM, LOW, and VERY LOW) through the FaIR calibrated and constrained ensemble that Sanderson and Smith (2025) used to characterize the CMIP7 set (FaIR v. 2.2.0 as described in their README file). I then ran each of the five tier-1 SSPs through the same emulator with identical parameters to ensure that the results are apples-to-apples. The full methodology, data, and code is in the appendix to this post.

The headline results follow.
CO₂ emissions: fossil fuels and industry, 2000–2100

The chart above shows fossil-fuel and industry CO₂ emissions for four CMIP7 scenarios alongside the five tier-1 SSPs and the two main reference scenarios from the 2025 IEA World Energy Outlook.

Note the massive gap between the new HIGH and SSP5-8.5. The new HIGH reaches 71 Gt CO₂/yr in 2100 — far below SSP5-8.5 at 128 Gt in 2100. Nothing in the CMIP7 set comes close to SSP5-8.5. The new HIGH also sits below SSP3-7.0 by about 9% in terms of cumulative emissions to 2100. Note also the gap between MEDIUM (solid yellow) and SSP2-4.5 (dashed yellow), which I’ll return to below.

Both of the most recent IEA near term scenarios — which run to 2050 — fall below MEDIUM and SSP2-4.5.

The table below compares the CMIP7 scenarios to their closest AR6 analogues, showing that the overall range has constricted. The higher scenarios have come down and the lower scenarios have come up — except VERY LOW, which moved down.
2100 effective radiative forcing and end-of-century temperature
The table below lists AR6 and CMIP7 scenarios from highest to lowest 2100 radiative forcing. The middle column shows the average global temperature change from an 1850-1900 baseline, under the climate emulator used by CMIP7. The right column shows the average temperature change for the SSPs as projected by the IPCC AR6.
Interestingly, the projected 2080-2100 temperatures of the SSPs decreased from their AR6 values based solely on recent updates to the FaIR climate emulator.3 These changes resulted primarily from the updating of emissions trajectories from 2014 (used in AR6) to 2023 (used by CMIP7). The more moderate emissions trajectories resulted in lower projected end-of-century temperature increases.

The new CMIP7 HIGH is 0.9°C cooler than SSP5-8.5 in apples-to-apples terms (and 1.4°C cooler versus IPCC AR6), and 0.2°C cooler than SSP3-7.0 (-0.6°C against IPCC AR6).

The implausibility of upper-end legacy scenarios is now official.
CMIP7 avoided repeating the past with SSP3-7.0

Last April I argued here at THB that the climate science community was on the brink of repeating the RCP8.5 mistake with SSP3-7.0 — which assumed a 2100 global population approaching 13 billion, well above any contemporary demographic projection and a five-fold expansion of global coal use. Neither assumption survives current understandings of demographics or energy systems.

I don’t know if anyone in CMIP or ScenarioMIP reads THB4 — if not they should! — but regardless, they wisely chose not to adopt SSP3-7.0 as the new HIGH scenario.

The new HIGH scenario sits at 6.7 W/m² in 2100 — below the SSP3 baseline 7.0 W/m² — with 9 percent less cumulative fossil CO₂ through 2100. As I’ll discuss below, this is progress; it is partial but real.

But the new HIGH still sits well above the plausibility range that we identified in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022). We found that of the >1,000 scenarios in the AR5 database, the plausible subset centered on a median of ~3.4 W/m² in 2100, with an upper end near 6 W/m². The new HIGH scenario is well above that upper end.

The authors of Van Vuuren et al. partially acknowledge that the new HIGH scenario is exploratory — a thought experiment, not a projection:

“Clearly, this scenario is not a “business-as-usual” scenario nor the no-policy reference scenario for the other scenarios. The scenario is intended to explore the upper end of GHG emissions resulting from deep political, technological, and structural deviation from current trends.”

Note that first sentence — It means that any future research that compares the HIGH scenario to lower scenarios in order to characterize the effects of climate policy will be fundamentally flawed. The HIGH scenario is not a projective scenario, but a “what if?” exercise.

Unfortunately, Van Vuuren et al. then engage in some unsupported speculation about the plausibility of the HIGH scenario in the real world:

“The are various reasons why such a scenario could emerge. For instance, a rollback of climate policies could result from a lack of public support for the energy transition. This could be related to, for instance, local opposition to building new wind farms or concerns about impacts on fossil industries related to jobs and national energy security. Also, the rapid cost decrease in renewable energy of the past decade could be discontinued, possibly as a result of regional scarcity and limited tradability in materials for solar and wind technologies and EV batteries . . .”

As discussed below, the new population assumptions of the updated SSP3 are ridiculous, and by themselves render the HIGH scenario implausible. The lack of any systematic effort to evaluate plausibility of scenarios remains a fundamental weakness of the scenario development process.
The new scenarios are SSPs in new clothing

The new CMIP7 framework does not start from a fresh socioeconomic foundation. Van Vuuren et al. explain:

“In practice, the IAM [Integrated Assessment Modeling] teams have based their current scenarios on various SSPs, as it was generally deemed pragmatic as these come with already available, suitably rich quantifications and were implemented by the participating modelling teams within the given timeline.”

The CMIP7 scenarios rely on the same narrative architecture as the IPCC AR6 SSPs. The table below shows how the SSP storylines map onto the new scenarios — Confusion is sure to result, as the old SSPs are not the new SSPs.
The new HIGH inherits the SSP3 storyline directly — the same SSP3 whose enormous 2100 population rendered it implausible when used in the IPCC AR6. Remarkably, the IIASA 2024 update to the SSPs did not bring the population projections down. Instead, it increased them, as you can see in the table below.
The 2024 demographic update (KC et al. 2024, IIASA Working Paper WP-24-003, also referred to as WIC2023) revises SSP 2100 populations upward: SSP3 jumps from 12.6 to 14.5 billion. SSP4 increases from 9.3 to 13.3 billion — an eye-popping 43% increase.

The SSP population update assumes that child mortality declines faster than WIC2013 anticipated, fertility declines slower in sub-Saharan Africa, and Africa’s 2020 base-year population was already 76 million higher than WIC2013 had projected. Africa’s 2100 population alone is now 3.55 billion, up from 2.62 billion in the AR6-era projection — a 35% upward revision.

This puts the CMIP7 HIGH scenario in a strange position: The cumulative fossil CO₂ from energy and industry in CMIP7 HIGH (4,629 Gt 2020-2100) is lower than SSP3-7.0 (5,074 Gt), but it has a 2100 population that is 15 percent larger. That means that the implied per-capita emissions trajectory in the new HIGH has a steeper decline.

How much of the new HIGH scenario’s warming is due to its incredible population projection?

I performed a simple sensitivity analysis:Take HIGH as published: 4,629 Gt cumulative fossil CO₂ over 2020-2100, producing about 3.0°C of 2081-2100 warming.
That means per-capita emissions intensity average about 5.2 tonnes of CO₂ per person per year using 11-billion as the mean population across the century.
Hold that per-capita intensity constant and replace the SSP3 population trajectory with the SSP1/SSP5 population trajectory — peaking at 8.5 billion in 2050, declining to 7.4 billion by 2100, averaging about 8 billion.

Under these assumptions, under HIGH, cumulative fossil CO₂ falls to roughly 3,330 Gt, a 1,300 Gt reduction. The IPCC AR6 central TCRE estimate (0.45°C per 1,000 Gt CO₂) gives about 0.6°C less warming. The HIGH scenario with SSP1/SSP5 population thus would deliver about 2.4°C of 2081-2100 warming — slightly cooler than the new MEDIUM at 2.5°C.

Under this simple method, about 0.6°C of the HIGH scenario’s projected warming traces to the population assumption alone. The HIGH scenario may be much less about carbon and much more about assumed human fecundity.

This is a sensitivity analysis, not a coherent scenario — combining SSP3’s per-capita intensity with the SSP1/SSP5 demographic profile is internally inconsistent. But it suggests that the demographic contribution to the HIGH scenario’s warming is significant.
The plausibility vacuum remains

The deeper problem with the SSP/RCP architecture, as Justin Ritchie has documented at length, is that physical climate modeling became decoupled from the underlying IAM socio-economic scenarios.

Under the RCPs, scenario creators identified concentration pathways and the underlying socio-economic assumptions were expected to be filled in later. Whether the underlying assumptions actually described a coherent picture of the world was never systematically assessed.

Ritchie called this a plausibility vacuum — a situation where any combination of climate model inputs could be used without any assessment of the real-world plausibility of the assumptions.

To be fair, the new CMIP7 framework does address some earlier shortfalls. The new design specifies emission-driven runs as the default, which allows for carbon-cycle feedbacks. The harmonization of emissions to observed 2023 data is an improvement — CMIP6 harmonized to 2014, and that harmonization had become well out-of-date by the time AR6 came out.

However, the plausibility vacuum problem remains. Van Vuuren et al. do not evaluate scenario plausibility against observed energy trends, against IEA projections, or against the body of literature critiquing the SSP set.

The 2023 ScenarioMIP workshop report — which kicked off the process of developing these new scenarios — recognized the plausibility problem and committed to addressing it. Van Vuuren et al. does not deliver on that commitment.

ScenarioMIP produces a better scenario set than those of AR6, but the improvement comes from incorporating more recent emissions data and accepting the undeniable collapse of SSP5-8.5’s credibility — not from any methodological reform of how scenario plausibility is assessed.
The MEDIUM scenario is not “current policy”

The walk-back at the high end is the most important change in the new framework. The story in the middle is more complicated.

Van Vuuren et al. describe the MEDIUM scenario as one that “shows the consequences of the current policy situation (as of 2025) and trends continuing over the century.” They specify that MEDIUM includes only policies “actually officially being implemented” — no NDC pledges, no net-zero announcements, unless backed by explicit policy. The framing implies that MEDIUM tracks where the world is actually headed under current policies.

That framing is not consistent with other approaches to defining a current policy trajectory. The CMIP7 MEDIUM scenario produces fossil-fuel CO₂ emissions that rise from about 38 Gt CO₂/yr today to 41 Gt by 2050 — that part compares well to the scenarios (CPS and STEPS) of IEA’s World Energy Outlook 2025, released last November.

However, it is post-2050 where the new MEDIUM scenario diverges from other current-policy projections, with its emissions slowly rising through the second half of the century.
In contrast, STEPS — the IEA’s standard reference for where current and announced policies actually take us — falls below 30 Gt by 2050 and produces about 2.5°C of 2100 warming.

The CMIP7 MEDIUM is more accurately characterized as a “policy stagnation” scenario rather than a “current policy” scenario. Cumulative fossil CO₂ emissions through the end of the century come in 18% higher than SSP2-4.5 — the AR6-era middle-of-the-road scenario — even though the MEDIUM 2081–2100 mean temperature is slightly cooler (explained below).

The figure below shows what happens once SSP2-4.5 and MEDIUM are anchored to the same observed 2020 baseline. The original SSP2-4.5 (black) sits roughly 0.6°C above CMIP7 MEDIUM (red) at 2020 — not because the 21st century plays out differently, but because the SSP framework’s historical emissions are harmonized to 2014 while CMIP7’s are harmonized to 2023. That head start propagates through the entire 21st century trajectory.
Running SSP2-4.5 post-2020 emissions through the CMIP7 FaIR emulator with CMIP7’s updated historical baseline (dashed blue), the picture inverts: SSP2-4.5 produces a 2081-2100 mean of 2.44°C against CMIP7 MEDIUM 2.56°C. On an apples-to-apples comparison, the new MEDIUM results in about 0.12-0.20°C more warming than SSP2-4.5 — due to its 520 Gt larger cumulative CO₂ budget over the century.

This connects to the larger argument in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022): observed CO₂ emissions from 2005 through 2020 tracked closer to the SSP 3.4 W/m² range than to SSP2-4.5. Today, the gap has widened, not closed. IEA STEPS now has emissions falling to under 30 Gt by 2050 — a trajectory consistent with the SSP 3.4 forcing range. The center of the new CMIP7 scenario set sits well above that range.

The new framework compressed the high end. Good.

The middle did not move far enough. The new MEDIUM might be considered a worst-case scenario rather than a current policy scenario. Interestingly, that would mean that there is no real current-policy scenario in the new CMIP7 scenarios, which would be something like a SSP2-3.4 scenario with updated demographics.

Perhaps, if projected demographic changes continue to trend lower, CMIP7 LOW will come to represent something akin to a current policy trajectory.
Why this matters: these scenarios live in policy

The now-implausible upper-end scenarios — RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0 — are not just academic constructs used in esoteric research. They are embedded in the policies and regulations of most of the world’s largest economies, found across the world’s most important multilateral institutions, and used in the climate stress tests that govern hundreds of billions of dollars in bank capital.

The table below provides just a few examples.

National climate impact assessments in the United States, United Kingdom, Germany, Canada, Australia, Japan, and the Netherlands all use RCP8.5 or SSP5-8.5 as a reference scenario. The Network for Greening the Financial System framework, used by more than 140 central banks, has utilized a “Hot House World” scenario calibrated to RCP8.5 physical risk into the bank stress tests run by the European Central Bank, the Bank of England, the Reserve Bank of New Zealand, the Banque de France, and the US Federal Reserve. The World Bank’s Climate Change Knowledge Portal, which provides the climate diagnostics that feed into the Country Climate and Development Reports for more than 100 client countries, defaults to SSP5-8.5 and SSP3-7.0.

The abandonment of the high-end legacy scenarios by CMIP7 will need to propagate through this entire infrastructure. The policy machinery built on RCP8.5 and the other implausible scenarios is systemic.
What this means

The new CMIP7 ScenarioMIP framework represents a real course correction, but with more work to do. SSP5-8.5 is gone. SSP3-7.0 has a successor that is less extreme but arguably remains implausible. The middle of the set is more pessimistic than trajectories of current and announced policies. The plausibility vacuum at the heart of the architecture has yet to be addressed.

All this means that users of climate models and model output based on legacy scenarios will now face decisions about if and how they’d like to realign with the latest scientific understandings versus continuing to rely on outdated research.

Furthermore, there are no doubt many — hundreds if not thousands — of studies in the publication pipeline that depend upon the upper end scenarios. Editors and reviewers should ensure that they are properly characterized as exploratory and are not intended to be interpreted as projective.

We’ve known since 2017 that upper end climate scenarios are fatally flawed. Nine years later, that understanding has now become officially recognized. That is good news.

We can debate whether nine years is short or long for the overturning of scientific understandings with massive economic and policy implications. But today, that overturning is undeniable.

Science is self-correcting. What matters now is what happens next.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Criado site gratuito que ajuda PME a cumprirem diretiva europeia contra “greenwashing”



O Pacto Climático Europeu lançou uma nova ferramenta digital gratuita destinada a apoiar as pequenas e médias empresas (PME) portuguesas no cumprimento das exigências da mais recente diretiva europeia contra o “greenwashing”. A iniciativa surge num momento crítico: a Diretiva 2024/825 deverá ser transposta para a legislação nacional até 27 de março, entrando plenamente em vigor a 27 de setembro, altura a partir da qual as empresas poderão ver as peças publicitárias suspensas e enfrentar coimas significativas por práticas consideradas desleais.

Diogo Abrantes da Silva, embaixador do Pacto Climático Europeu, e o projeto #Pub, para uma comunicação nas empresas mais transparente, criaram uma ferramenta digital gratuita para apoiar as pequenas e médias empresas (PME) em Portugal a cumprirem a nova diretiva da União Europeia que as obriga a ser transparentes quanto à sustentabilidade dos seus produtos e as impede de usar alegações ambientais não comprovadas.

O site “diretivas.eu” pretende funcionar como um guia prático para empresários e gestores. A plataforma permite verificar se as imagens ou páginas de produtos, a sua comunicação institucional ou os seus rótulos estão de acordo com as novas regras europeias. E clarifica também os pontos mais técnicos e intrincados do texto da diretiva.

“A Diretiva 2024/825 é muito positiva, porque reforça a proteção dos consumidores contra práticas comerciais desleais, especialmente o “greenwashing”, e melhora a informação sobre sustentabilidade, durabilidade e reparabilidade dos produtos”, afirma Diogo Abrantes da Silva, gestor de marketing para ONGs, ativista ambiental e embaixador do Pacto Climático Europeu. “A diretiva cria, no entanto, muitos riscos às empresas que desconhecem as suas exigências, expondo-as, a partir de setembro, à vigilância e às sanções da ASAE ou de outras organizações regulatórias”.

A nova diretiva europeia visa reforçar a proteção dos consumidores, proibindo alegações ambientais vagas ou não comprovadas. Termos como “eco-friendly”, “verde” ou “neutro em carbono” deixam de poder ser utilizados sem evidência verificável. A legislação impõe ainda restrições a comparações ambientais enganosas, certificações pouco credíveis e estratégias que reduzam artificialmente a durabilidade dos produtos.

De acordo com uma análise realizada pelo projeto, entre os 286 websites analisados, 119 contêm menções sobre a sustentabilidade dos seus produtos que poderão ser classificadas como genéricas. Neste trabalho foram extraídos dados de websites de empresas deste setor, utilizando diretórios online de referência, como o Peggada. A ferramenta extraiu o texto da página inicial de cada um dos sites presentes na base de dados para verificar a existência de palavras-chave genéricas.

No caso do volume total de menções genéricas por categoria, o comércio online surge no topo da tabela com 197 menções, seguindo-se marcas ligadas à moda, sustentabilidade e ética com 48 menções. O terceiro lugar é ocupado por empresas de cosmética e higiene pessoal com um total de 29 menções.

Entre as restrições incluem-se mencionar que um produto é “neutro em carbono” apenas com base na compensação de emissões fora da cadeia de valor: não basta dizer que a marca planta árvores, ela terá de demonstrar que usa processos que resultam na redução real das emissões do próprio produto. Elementos visuais como folhas verdes ou gotas de água também podem ser interpretados como alegações ambientais implícitas: se a apresentação induzir o consumidor em erro sobre os benefícios do produto, será considerada prática desleal.

“É natural que sejam as empresas que têm a sustentabilidade no centro dos seus negócios as mais expostas às exigências da Diretiva”, afirma Diogo Abrantes da Silva. “Estas empresas têm um bom intuito, não devem ser elas as mais prejudicadas pela nova lei de proteção aos consumidores: o site ‘diretivas.eu’ é sobretudo útil para ajudar as empresas que já estão a trabalhar na transição climática”.

A ferramenta disponibilizada no site inclui um “scanner” capaz de analisar até 500 páginas de um website, detetando linguagem potencialmente proibida. Adicionalmente, um sistema de inteligência artificial avalia imagens e anúncios, identificando elementos visuais que possam induzir em erro — como o uso de símbolos associados à natureza sem base factual.

Para Diogo Abrantes da Silva, o objetivo não é penalizar empresas que já procuram adotar práticas mais sustentáveis, mas sim ajudá-las a comunicar de forma transparente e alinhada com a nova legislação. “Há muitas organizações com boas intenções que podem ser prejudicadas por desconhecimento. Esta ferramenta serve para esclarecer e prevenir riscos”, afirma.

Além da componente de diagnóstico, o site também orienta as empresas no acesso a certificações reconhecidas, como o Rótulo Ecológico da União Europeia, que valida produtos com menor impacto ambiental.

Integrado no âmbito do Pacto Climático Europeu — uma das iniciativas do Pacto Ecológico Europeu — o projeto reforça o esforço comunitário para promover práticas empresariais mais responsáveis e uma transição efetiva para uma economia de baixo carbono.

domingo, 22 de março de 2026

Pobreza de mobilidade: o que significa e como Portugal a quer eliminar. Não é aceitável uma pessoa ter cinco apps para andar de transportes públicos, é desmotivador


Com apenas 14% dos portugueses a usar transporte público e 66% dependentes do automóvel, Cristina Pinto Dias, Secretária de Estado da Mobilidade, alerta para desigualdades profundas entre litoral e interior, onde há crianças que “não podem ficar à tarde para jogar futebol ou aprender piano porque depois não têm transporte para voltar para casa”.

A resposta passa por reforçar a ferrovia, expandir metros, renovar material circulante e avançar com a alta velocidade, mas também por soluções flexíveis como transporte a pedido e tarifários sociais.

“O transporte público está a perder cota modal e o transporte individual a aumentar. Ou seja, 14% das nossas pessoas anda de transporte público, mas 66% das nossas pessoas anda em transporte individual. O ideal seria o contrário. 88% das nossas pessoas estão concentradas em 40% do nosso território e 12% das nossas pessoas dispersas em 60% do nosso território, o que significa que a política pública de mobilidade não é uma receita única que se aplica a todo o país”, explica a governante.

Cristina Pinto Dias sublinha que o país vive uma “revolução” no investimento público, mas que o grande salto depende da integração tecnológica: “Não é aceitável que uma pessoa tenha cinco apps, uma para andar de comboio, outra de metro, outra de Transtejo.” E acrescenta: “Se eu quero trazer pessoas para o transporte público, tenho que convidar de tapete vermelho: ‘Venha para o transporte público, vai ser bem servido.’

A secretária de estado sublinha mesmo a existência de uma revolução dentro do transporte público, “com metas muito concretas”. E detalha: “Estamos a fazer uma expansão das redes de metro, estamos a comprar comboios novos para o próprio metro. Já aqui foi dito neste podcast também pelo presidente da Transtejo, fizemos uma aquisição de 10 navios 100% elétricos para nos fazer a travessia do Tejo. E sim, nós estamos a fazer um investimento, como não há memória, na ferrovia, resultado de longos e prolongados anos de desinvestimento. Estamos a fazer um investimento só para material circulante, incluindo já a alta velocidade de 1,8 mil milhões de euros.”

A integração da bilhética e da informação em tempo real é, para a Secretária de Estado, o passo decisivo para atrair mais pessoas para o transporte público e garantir equidade territorial. Só depois disso será possível pensar num tarifário verdadeiramente nacional.

sábado, 14 de março de 2026

Now comes the heat

Iam (mostly) going to take a break from writing about the war for a day, because big though it is, it’s not quite the biggest thing happening on our planet. Or rather, its widespread destruction is taking place inside a larger context. Trump’s endless folly (first tariffs, now a desperately stupid war that has closed the Strait of Hormuz) has caused what everyone is beginning to understand is widespread economic damage. As the Times reported today, “this is the big one,” and “the fallout is rattling households and businesses in neighborhoods all over the globe.”

On a stable planet, though, the damage might be contained and repaired; someone as incompetent as Trump (who is now describing his war as a “short excursion” and insisting that the Strait is in “very good shape”) will eventually (please God) burn himself out. Our bigger problem, as we’re about to be reminded, is that the planet is the furthest thing from stable. The backdrop is about to become the foreground, and with that the drama will shift once more.

It’s already hot, all over the world and here in the United States. That’s been a little hidden these past months, because the country’s population and power center—the northeast corridor from Boston to DC—has had a cold winter; until the last few days of rapid-onset mud season it’s felt like an old-school winter in New England (with sublime skiing, which has kept me sane). And Minnesota, the source of much of the year’s news so far, was cold too, at least in bursts. But we’ve been the exception: in fact, it was the second-warmest winter on record in the continental U.S., and that’s because the West broke every possible record, usually by a mile.

Several cities can now claim winter 2025-26 as their warmest on record, including locations with over a century of data, like Salt Lake City (152 years of data), Tucson (130 years of data) and Rapid City, South Dakota (114 years of data).

Phoenix, Arizona, obliterated its previous record (a record that was only a year old, mind you) by almost 3 degrees, a pummeling of a record in the realm of three-month temperature data.

Albuquerque, New Mexico, clobbered its previous record warmest winter by 3 degrees, according to the Southeast Regional Climate Center. Helena, Montana, Las Vegas and Lubbock, Texas, were among the other cities record warm this winter.

I don’t want to brush by those numbers. Phoenix and Albuquerque have temperature records going back more than a century. If they were going to beat the old record for a three-month stretch, something that shouldn’t happen very often, it should be by a tenth of a degree. That’s how statistics work on a set that large—or it’s how they did work on a stable planet. Three degrees is insane. And if that’s insane, then what’s going to happen in the next week is truly bonkers. A giant heat dome is set to settle in over the Southwest, bringing new temperature records. As the Washington Post reported today, Palm Springs California is projected to reach 104 degrees on Monday; the old record for the date is 95 degrees. Again, that’s statistically bizarre in a way that makes my head hurt.

This record-breaking heat dome will contribute to worsening drought conditions across the Intermountain West.

In Utah, snowpack remains at record low levels according to Meyer. He said that it would take a foot of snow in Salt Lake City for the season to catch up with even the second-lowest seasonal snowfall total — and that a storm of that magnitude isn’t expected to come.

“The knockout punch comes in the form of Utah’s reservoirs, which are only at 40 percent of capacity right now,” Meyer said. “All this means we are likely going to see some very tangible water supply cuts and conservation efforts by the state this year.”

The weather forecast and climate outlook community in Utah was “filled with trepidation” because drought relief looked unlikely, added Meyer, stressing that much more meaningful impacts were possible for agricultural communities as water conservation efforts grow.

“Right now, every drop is going to count this year,” he said.

Across the region, New Mexico was also reporting its lowest snowpack on record and Colorado was in a similar situation.

Here’s how Daniel Swain and the good folks at Weather West described the heat dome that is forming as of this morning

In fact: the strongest mid-tropospheric ridge ever observed in the southwestern U.S. in March is expected to develop by Friday, and then will probably go on to break that new record (set this week) when it re-organizes into an even broader and stronger ridge next week.

In case you’re wondering, this heat is in no way confined to land. The oceans, which have soaked up most of the planet’s excess warmth, are crazily warm right now too.

Sea surface temperatures off the coast of Southern California have risen as much as five degrees above average for the time of year, causing a strong, Category 2 marine heat wave to develop.

These unusually warm waters will provide a boost to air temperatures near the coast, especially at night, preventing them from dropping off as much as they otherwise would.

“A strong to severe marine heatwave is ongoing off the coast of California,” wrote Colin McCarthy, a storm chaser affiliated with the University of California at Davis.

In early March, ocean temperatures reached the mid- to upper 60s at Scripps Pier in La Jolla, California.

“That’s the average ocean temperature for mid-June,” McCarthy said.

And here’s the kicker. All this is happening during a La Niña “cool phase” of the Pacific, something that will soon change. I alerted you exactly a month ago to the likelihood we were going to see an El Niño kick off sometime this summer; in the last few weeks the chances of that have grown stronger, and more to the point it looks like it could be an exceptionally strong “super” version of the warming current. The normally cautious-almost-to-a-fault climate scientist Zeke Hausfather came out with his new forecast this afternoon, and it was a doozy.

I’ve collected 11 different models that have been updated since the beginning of March. Each of these in turn features a number of ensemble members, so that we end up with 433 total ENSO forecasts…

These clearly show that a strong El Niño is indeed likely to develop later in the year. While I’d probably discount some of the higher values (much above 3C) as outliers here, the median and mean across all the models still gives an estimate around 2.5C, which would put it notably stronger than the 2023/2024 El Niño and close to if not matching what we saw back in 2015/2016.

So what does this mean for global temperatures this year and in 2027? All things being equal, the lag between peak El Niño conditions and the global surface temperature response would result in the largest impacts on 2027 temperatures (as El Niño events generally peak between November and January). It would still boost 2026, but probably not enough to set a new record this year.

However, I have to be a bit cautious here. Long time readers may remember my post in May 2023 where I deemed it unlikely that 2023 would set a new record (given this historical lag in global temperature response to El Niño) and argued that 2024 would instead. I was partially wrong – 2023 was weird, and the heat came much earlier than expected. We think the extended triple-dip La Niña event between 2020 and 2023 may have primed the system for more rapid heating, something absent this time around. But we don’t know for sure. Fool me once, and all that.

Either way, this means that 2027 looks increasingly likely to set a new record, perhaps by a sizable margin if we end up on the high end of the range of El Niño forecasts.

That Hausfather and the brasher Jim Hansen are in basic agreement here should terrify us. We’re going to see temperatures unlike any that humans have seen before, which means we’re going to see chaotic weather unlike humans have seen before. If you think this is some kind of lefty enviro fantasy, check out this source: “Due to the increasing concentration of greenhouse gases, the climate system cannot effectively exhaust the heat released in a major El Niño event before the next El Niño comes along and pushes the baseline upward again,” Defense Department meteorologist Eric Webb said.

Therefore, a super El Niño in 2026-27 would disperse more heat than other very strong events in 1982-83, 1997-98 and 2015-16.

And were not going to know what hit us, in several ways. The substack Future Earth Catalog published an interview today with veteran Florida weatherman John Morales which was the best account I’ve seen yet of what the Trump cuts to our scientific system mean in real time.

The cuts to NOAA and the National Weather Service have been devastating. If you look at the statistics of forecast accuracy for tropical cyclone tracks and intensities from the National Hurricane Center, they were off in 2025. And anecdotally, I’m not the only meteorologist who will tell you that day-to-day forecasting has become more challenging. The weather models are flip-flopping from one solution to the next.

Think about how many times TV meteorologists in the fall of 2025 had to show you two or three models with different solutions and say, “Well, this is what this model says, but yesterday it was saying something different.” That leads to more confusion among the public — and it makes our job of saving life and property more difficult.

We’ve been missing 15 to 20 percent of our weather balloon data. And those missing balloons are upstream — out West, in the Plains, in the Intermountain West, and especially in Alaska. That’s where our weather comes from. We’re no longer able to really know what’s going on out there. And nothing provides the detail weather balloons can: every 15 feet, all the way up to 100,000 feet.

So we may not know what’s coming, but we can guess it’s going to be bad. For instance, I noted before that the western snowpack is at record low levels. Even in California, which, due to a couple of record-level atmospheric rivers off the warm Pacific saw lots of midwinter snow, the early heat in the Sierras has already led to widespread melt. I do not think it’s fear-mongering to warn that fire may be a serious danger this season in the West.

And what’s happening in the U.S. will be paralleled in places around the planet as El Niño takes us up the escalator. A new study just found that rising temperatures are already taking many humans past the point where they can live with any kind of comfort. As Todd Woody reports, " the number of days where extreme heat makes it too dangerously hot to walk the dog, sweep the porch and engage in other ordinary pursuits has doubled around the world over the past 75 years, according to new research."

Scientists determined that on average, those 65 and older experience a month a year when heat prevents them from routine activities. Parts of Asia, Africa, Australia and North America are becoming unlivable for senior citizens, the researchers said. Younger adults also are losing time as climate-driven heat restricts their lives for 50 hours a year.

Overall, more than a third of the global population resides in regions where heat severely affects daily life, according to the peer-reviewed paper published Tuesday in the journal Environmental Research: Health.

But it may be getting too hot for some key physical systems too. It seems likely that this is the year the Colorado River system may finally have to deal with the fact that it simply can’t provide the water people have been counting on. A new study last week found clear signs that the Gulf Stream is beginning to drift northward, a “clear sign” that worries about the collapse of the Atlantic Meridional Overturning Current (AMOC) are no mere phantasm.

The findings indicate that the movement of the Gulf Stream could be a “canary in the coal mine” for the AMOC’s collapse. According to their analysis of satellite data, the Gulf Stream has already been nudged northwards from the coast near Cape Hatteras, North Carolina, since the early 1990s. This is likely to be the result of the AMOC dwindling and losing its grip.

We don’t know for sure how the Iran war will play out, nor the El Niño; at the moment, though, things look ominous. All I’m saying is, the next six months could be the ultimate in teachable moments, with rapidly rising prices for oil, and rapidly rising temperatures. And what do you know, we have a midterm exam coming up on November 3.