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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo

A ilustração contrapõe a marcha inevitável da fauna selvagem rumo à porta da extinção à apatia de uma multidão imersa no consumo frenético, nas redes sociais e na validação individual. A provocação estampada na base - "We didn’t notice them leaving" - expõe não um mero esquecimento coletivo acidental, mas o resultado de um projeto de alienação sistémica. Sob as lentes da ecologia política, da economia ecológica e do decrescimento, o cartaz denuncia como a captura democrática operada por corporações transnacionais desestrutura a resiliência comunitária, coloniza as subjetividades e cega a sociedade para o colapso biológico.

A economia ecológica e a farsa da separação
A economia ecológica demonstra que o sistema económico capitalista é um subsistema aberto, limitado pelas leis da termodinâmica e pela capacidade de suporte da biosfera. O cartaz capta a rutura dessa lógica: a civilização consome como se o ecossistema fosse infinito. O letreiro "SALE" e o carrinho com o "LATEST MODEL" revelam a redução de toda a riqueza natural a valor de troca. A biodiversidade não possui precificação direta no mercado e, por isso, torna-se invisível ao cálculo capitalista até à sua liquidação total. O movimento dos animais simboliza a ultrapassagem dos limites planetários. Enquanto a produção industrial avança, a perda de habitats acelera sem que os indicadores macroeconómicos tradicionais registem essa perda de património biológico real.

Captura democrática, coaptação e ecologia política
A ecologia política desfaz a ilusão de que a destruição ambiental é culpa de uma "natureza humana" gananciosa de forma genérica. Trata-se da ação de atores com poder assimétrico. Grandes multinacionais exercem uma captura direta do Estado e das instâncias decisórias através do fenómeno de regulatory capture. Por meio de lobbying, financiamento de campanhas e estratégias de greenwashing, as corporações bloqueiam legislações ambientais rígidas e desmontam coletivos locais de resistência que historicamente atuam como guardiões da biodiversidade.

Paralelamente, o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), originalmente voltado à restauração ecossistémica integrando saberes comunitários, é frequentemente cooptado pelo poder corporativo para virar mecanismos de compensação que permitem a continuidade da poluição no Norte global enquanto mercantilizam territórios no Sul global. A sacola com a sátira "JUST BUY IT" e os balões de curtidas virtuais corporificam a transferência da culpa do colapso ecológico para o consumidor. O sistema ensina a sociedade a canalizar a sua agência política para escolhas de consumo "sustentáveis" individuais, desmobilizando a organização coletiva.

O decrescimento como ruptura e a redefinição da prevenção ecológica
Para conter a marcha representada no lado esquerdo da imagem, a literatura do decrescimento e da prevenção ecológica defende que ajustes tecnológicos marginais são insuficientes. O modelo que exige a compra constante do "modelo mais recente" é incompatível com a finitude planetária. O decrescimento propõe a redução planeada do consumo de energia e materiais, priorizando a sobriedade, a reparabilidade e o bem-estar social em vez do lucro privado. A prevenção ecológica exige desmantelar a máquina publicitária que associa a felicidade ao acúmulo de mercadorias. A multidão absorta em telemóveis exemplifica a "colonização da atenção", onde o espetáculo digital bloqueia a percepção da urgência ecológica concreta.

O limite da pedagogia, o ambientalismo coercivo e o estado de exceção ecológico
A eficácia da educação ambiental crítica revela-se manifestamente insuficiente perante a dimensão da crise. Apesar de as novas gerações serem expostas a conteúdos de consciencialização ecológica, observa-se a sua rápida absorção pela "mercantilização das mentes". O trabalho pedagógico é constantemente anulado por um ecossistema mediático e de consumo desenhado para converter o conhecimento em apatia funcional e as preocupações éticas em meras tendências de estilo de vida.

Perante o fracasso da pedagogia e a captura anarco-capitalista da democracia liberal, a resposta teórica e prática desloca-se da persuasão moral para a soberania coerciva. No ensaio Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism (2021), Ross Mittiga defende explicitamente que, se os regimes liberais continuarem incapazes de garantir a segurança básica dos seus cidadãos perante a emergência climática, a restrição de certos direitos políticos e o recurso ao estado de exceção ecológico tornam-se moralmente legítimos. Esta incapacidade estrutural já tinha sido diagnosticada por David Shearman e Joseph Wayne Smith em The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy (2007). Para estes autores, a democracia liberal falhou no combate à degradação ambiental devido à sua vassalagem aos mercados e ao poder corporativo, o que exige a transição para uma "epistocracia verde" - um modelo de governação liderado por autoridades técnicas e peritos ecologistas capazes de tomar decisões imunes ao ciclo eleitoral.

Críticos ao Estado de Excepção Ecológica
No entanto, o risco de o estado de emergência ser cooptado pelo próprio capital é alertado por Joel Wainwright e Geoff Mann em Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future (2018). Os teóricos mapeiam a emergência do "Leviatã Climático", uma forma de soberania global de exceção onde o capital transnacional e as forças estatais se fundem para gerir a escassez de recursos sob o pretexto da urgência biológica, preservando contudo as assimetrias da estrutura de classes. Em contrapartida, sob a perspetiva da implementação pragmática, Yifei Li e Judith Shapiro, em China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet (2020), analisam o "ambientalismo coercivo". Os autores demonstram como o uso centralizado do poder estatal - contornando a morosidade e as negociações paralisantes do parlamentarismo liberal - consegue impor metas de restauração ecológica e racionamento de recursos a uma velocidade incompatível com a lentidão das democracias de mercado.

O Diagnóstico de George Tsakraklides: nem reforma de esquerda, nem mercado de direita 

Finalmente temos uma corrente colapsista, ecologia profunda contemporânea e anarco-socialista proposta por George Tsakraklides. Como defende que o colapso da civilização industrial é inevitável por limites biofísicos e termodinâmicos, o seu pensamento não oferece "soluções de políticas públicas" viáveis para aparelhos de Estado ou corporações. Tsakraklides rejeita a viabilidade de reformar o sistema. Para ele, qualquer tentativa institucional de "salvar o sistema" não passa de uma maquilhagem do que ele chama de necrosistema.  George Tsakraklides desenvolve uma crítica incisiva à esquerda tradicional e aos movimentos ecologistas mainstream - como o Extinction Rebellion, a Greenpeace ou intelectuais como George Monbiot -, acusando-os de cobardia intelectual ao transformarem a sobrepopulação num tabu intocável. Na perspetiva do autor, o argumento comum da esquerda de que o problema reside exclusivamente no consumo excessivo do "1%" ou no capitalismo predatório assenta numa falácia estatística, pois ignora que o impacto ecológico absoluto é uma equação direta da pegada per capita multiplicada por biliões de indivíduos a exigir energia, tecnologia e alimentos. Como biólogo, Tsakraklides contesta a utopia ecologista de que é possível reeducar comportamentalmente oito mil milhões de pessoas para as tornar "ecologicamente neutras", sustentando que a espécie humana possui uma tendência biológica evolutiva para a expansão e ocupação de território que nenhuma propaganda ideológica conseguirá travar. O ensaísta defende que o receio de acusações de ecofascismo ou eugenia fez com que as organizações ambientais institucionais capitulassem diante da correção política para protegerem o seu financiamento e aceitação mediática. Além disso, Tsakraklides rejeita propostas como o Green New Deal ou a "transição energética" defendidas pelo ecologismo dominante, classificando-as como ilusões que apenas alimentam uma nova vaga de extrativismo mineral para sustentar uma escala demográfica insustentável, desculpabilizando a responsabilidade do próprio consumo de massa da população global.

A crítica de George Tsakraklides à direita política- abrangendo conservadores, liberais e o Partido Republicano nos EUA - é visceral e intransigente. Se o autor acusa a esquerda de ingenuidade e cobardia por alimentar uma «ilusão sustentável», enxerga a direita como o motor ideológico e o braço executivo do necrocapitalismo. Na sua perspetiva, a direita comete a heresia científica definitiva ao colocar o dogma do crescimento económico perpétuo, da desregulamentação e do mercado livre acima das leis invioláveis da termodinâmica e da biologia. Tsakraklides ridiculariza a crença de que a tecnologia, a inovação privada ou a "mão invisível" resolverão o esgotamento planetário, classificando o mercado livre como um algoritmo cego concebido para devorar matérias-primas e gerar lucro imediato. A acumulação de capital é descrita como uma força patológica que atua como um cancro, consumindo o hospedeiro ecossistémico até ao colapso inevitável.

Sendo a sobrepopulação um pilar central da sua reflexão, o ensaísta ataca frontalmente o natalismo conservador e a oposição aos direitos reprodutivos, sustentando que essas agendas servem unicamente para garantir mão de obra barata e expandingir a base de consumidores para as corporações. Ao alimentar o mito antropocêntrico de uma Terra com capacidade infinita, a direita recusa enfrentar a crise ambiental porque fazê-lo exigiria admitir o fracasso do capitalismo industrial. Em obras como Frankenpolitics, Tsakraklides evidencia como o setor empresarial privado e a direita fundiram o Estado e o capital, reduzindo a política a uma fachada destinada a proteger os lucros das indústrias extrativas enquanto a biosfera colapsa.

Esta transição ecológica desmantela a figura do político mercenário através de imperativos legais e fiscais draconianos: a proibição constitucional do lobbying corporativo, o racionamento severo de recursos primários, a taxação punitiva do sobreturismo e o encerramento forçado de indústrias ecocidas. Quando a deliberação democrática se torna refém da lógica do capital, a sobrevivência exige que a autoridade coerciva intervenha diretamente sobre as forças de mercado. A frase «We didn't notice them leaving» deixa, assim, de ser um lamento sobre o esquecimento passivo para se converter na certidão de óbito da ilusão liberal-democrática perante o ecocídio.

Bibliografia
  1. Agamben, G. (2004). Estado de Sítio. Edições 70.
  2. Carvalho, I. C. M. (2012). Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. Cortez Editora.
  3. Daly, H. E. (1996). Beyond Growth: The Economics of Sustainable Development. Beacon Press.
  4. Escobar, A. (2011). Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World. Princeton University Press.
  5. Georgescu-Roegen, N. (1971). The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press.
  6. Kallis, G. (2018). Degrowth. Handbooks in Health Economic Series, Resilience Press.
  7. Latouche, S. (2009). Farewell to Growth. Polity Press.
  8. Leff, E. (2001). Saber Ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade, Poder. Vozes.
  9. Li, Y., & Shapiro, J. (2020). China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet. Polity Press.
  10. Loureiro, C. F. B. (2004). Trajetória e Desafios da Educação Ambiental Crítica. Editora Cortez.
  11. Mann, G., & Wainwright, J. (2018). Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future. Verso Books.
  12. Martínez-Alier, J. (2002). The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar Publishing.
  13. Mittiga, R. (2021). Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism. American Political Science Review, 116(3), 994-1008.
  14. Ophuls, W. (1977). Ecology and the Politics of Scarcity. W. H. Freeman and Company.
  15. Shearman, D., & Smith, J. W. (2007). The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy. Praeger.
  16. Tsakraklides, G. (2019). The Nothing Manifesto: Building a zero-impact movement. Independently Published
  17. Tsakraklides, G. (2020). Frankenpolitics: How corporate power and technology created a monster. Independently Published.
  18. Tsakraklides, G. (2021). Biology Lessons in Degrowth. Independently Published.
  19. Tsakraklides, G. (2022). Necrocene: The psychology of human collapse. Independently Published.

sábado, 10 de agosto de 2024

Ex-diretora do YouTube e pioneira em tecnologia Susan Wojcicki morre aos 56 anos


São Francisco, Estados Unidos, 10 ago 2024 (Lusa) – A ex-chefe do YouTube e pioneira em tecnologia Susan Wojcicki, que desempenhou um papel fundamental na ascensão da Google, morreu, aos 56 anos, vítima de cancro no pulmão, anunciou o marido na sexta-feira.

Susan Wojcicki passou quase duas décadas ligada às mudanças na Google, mecanismo de busca na Internet lançado na sua garagem, que se tornou um gigante global da tecnologia.

No YouTube, adquirido pela Google em 2006, Wojcicki administrou operações por quase uma década antes de deixar o cargo no ano passado para se concentrar nos seus projetos pessoais, familiares e na sua saúde.

O marido, Dennis Troper, escreveu no Facebook que a esposa lutava contra um cancro do pulmão há dois anos.

“Minha amada esposa há 26 anos e mãe dos nossos cinco filhos deixou-nos hoje”, escreveu.

“Susan não foi apenas a minha melhor amiga e parceira na vida, mas também uma mente brilhante, uma mãe amorosa e uma amiga querida para muitos. A sua influência na nossa família e no mundo foi imensurável”, acrescentou Dennis Troper.

Susan Wojcicki trabalhava na Intel quando os amigos Sergey Brin e Larry Page fundaram a Google na garagem da sua casa, em Menlo Park, Califórnia, em 1998.

Um ano depois, ingressou na empresa como 16.ª funcionária e primeira diretora de marketing.
Na Google, participou da criação do motor de busca de imagens e trabalhou nas aquisições do YouTube e da plataforma de publicidade DoubleClick.

“É difícil imaginar o mundo sem ela”, escreveu o diretor executivo da Google, Sundar Pichai.

Nomeada diretora executiva do YouTube em 2014, Susan Wojcicki introduziu novas formas de publicidade e ajudou a impulsionar o seu crescimento ao lançar um serviço de ‘streaming’ de televisão à medida que os telespetadores recorriam cada vez mais à Internet para programas e filmes.

Também é conhecida por abordar preocupações relacionadas à privacidade das crianças, ao discurso de ódio e à disseminação de desinformação, especialmente durante a pandemia de covid-19.

Grávida de quatro meses quando foi contratada, defendeu a licença parental remunerada.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Os atrasados do clima são os partidos Chega e Iniciativa Liberal- travemos e denunciemos os negacionistas climáticos

Aqui está um gráfico da própria Exxon Mobil, 1982. Ela previu que em 2023, o nosso CO2 atmosférico atingiria cerca de 415 partes por milhão, aumentando a temperatura média global da superfície em ~1,1 graus Celsius.

Atualização: A média de CO2 em 2023 foi de pouco mais de 420 PPM e a anomalia de temperatura média 1.18 ºC


"Perante o que já avançaram ciência e técnica e, em cada um, o ideal de humanidade, são o capitalismo e o socialismo duas formas idênticas e por isso concorrentes de estupidez"
– Agostinho da Silva

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro!"
– Giorgio Agamben

"É preciso, para que essa ilha dos amores possa existir, que o Homem possa entender que o capitalismo existe não para ficar continuamente tendo mais lucros, e descontando mais juros e pagando mais dívidas ou pedindo mais dinheiro emprestado, mas para terminar num ponto em que a economia desapareça completamente, em que haja tudo para todos. E aí, o Homem possa passar à sua verdadeira vida que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo e o mundo poeta para ele, de tal maneira que nunca mais ninguém se preocupa por fazer tal ou tal obra, mas por ser tal ou tal objecto no mundo, a identidade dele, a única, o ser único que existe no mundo entre os tais biliões de seres que no mundo existem"
– Agostinho da Silva

domingo, 26 de junho de 2022

Nações insulares compram terra devido à subida do nível do mar

Nações insulares estão a usar os seus recursos financeiros limitados para comprar terras em países vizinhos, preparando-se para que os seus territórios sejam cobertos pelos mares, disse à Lusa Heidi Schroderus-Fox, representante da ONU.




De acordo com a diplomata da Finlândia, nações insulares estão altamente frustradas com o lento progresso que está a ser feito na ação climática, porque, para muitas nações com atóis particularmente baixos, "esta é uma questão de sobrevivência".

Heidi Schroderus-Fox, alta representante interina da ONU para os países menos desenvolvidos, países em desenvolvimento sem litoral e pequenos estados insulares em desenvolvimento (SIDS), adiantou, em entrevista à Lusa, que neste momento há ilhéus no Pacífico cujas populações estão a mudar de casa devido ao aumento do nível do mar.

"E há nações insulares usando os seus recursos financeiros limitados para comprar terras em países vizinhos, preparando-se para que as suas terras natais sejam perdidas no mar. Esse é o caso da nação insular de Kiribati, que compra terras em Fiji no caso de precisar realocar os seus cidadãos devido ao afundamento das ilhas", relatou.

"Essa é a realidade. Está a acontecer agora. As casas das pessoas estão a ser sacrificadas ao mar porque a ação climática global não está a mover-se com a rapidez e ousadia suficientes para evitar uma catástrofe climática", frisou, lamentando que as gerações futuras de ilhéus tenham de ver as suas terras a desaparecer e perguntar porque é que "nada foi feito quando a ciência estava clara e havia tempo para agir".

Heidi avaliou que as escolhas individuais de cada um de nós tem um impacto significativo na vida das pessoas do outro lado do planeta, dando como exemplo a questão da poluição plástica, que tem um enorme impacto nos SIDS.

Para a diplomata, não devemos subestimar nossa própria influência individual na mudança, especialmente porque vivemos num mundo muito interconectado.

"Os SIDS podem ser a última coisa na mente de alguém quando atiram uma garrafa de plástico para uma lixeira, mas essa garrafa de plástico pode acabar no oceano. O plástico marinho é, infelizmente, um grande problema global, e essa garrafa de plástico poderia chegar ao uma nação insular distante onde eles teriam que lidar com a limpeza", indicou.

Em entrevista à Lusa a propósito da Conferência dos Oceanos, que decorrerá em Lisboa entre 27 de junho e 01 de julho, coorganizada por Portugal e pelo Quénia, a alta representante interina da ONU vê o evento como um catalisador para uma nova geração de parcerias oceânicas em prol das pequenas nações insulares, mas também um impulso na recuperação dos setores oceânicos que foram afetados pela pandemia de covid-19.

Através das suas zonas económicas exclusivas, os SIDS controlam cerca de 30% de todos os oceanos e mares e, por isso, a diplomata acredita que investir numa economia oceânica claramente faz sentido do ponto de vista económico.

"Há um argumento claro a ser feito para apoiar os SIDS na promoção de parcerias relacionadas ao oceano. As projeções sugerem que a economia oceânica pode chegar a mais de três biliões de dólares (2,95 biliões de euros) até ao final da década", argumentou.

A espinha dorsal de muitas economias insulares é constituída pelo turismo e pelas pescas. Contudo, a pandemia abalou fortemente esses setores.

Apenas nos primeiros quatro meses de 2020, as viagens internacionais turísticas com destino aos SIDS caíram 47%, de acordo com a Organização Mundial de Turismo da ONU.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Byung-Chul Han e a Psicopolítica


Em "Psicopolítica. Neoliberalismo e novas técnicas de poder" (Pschopolitik, 2014, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), Byung-Chul Han, pensador prolífico e bem-amado (europeu tardio, veio para a Alemanha depois de abandonar um curso superior relacionado com a metalurgia na Correia do Sul, de onde é originário), defende que a biopolítica, de Michel Foucault e Giorgio Agamben, se transformou em psicopolítica. Nesta nova forma de organização do poder, «O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo absoluto, na medida em que sem qualquer senhor se explora a si próprio de forma voluntária. Não tem diante de si um senhor que o obrigue a trabalhar.» (p. 12) Além disso, a universalização do smartphone, alvo de uma profunda «devoção digital», universalizou o «exame e controle de si». Este livro prolonga Topologie der Gewalt, 2011, (Topologia da Violência, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), no qual observa que a violência deixou de ser exercida do exterior, passando a ser autoengendrada: ela «afasta-se cada vez mais da negatividade do outro ou do inimigo e incide cada vez mais sobre o próprio sujeito.» (p. 11) Passando de uma «deformação» da sociedade disciplinar para uma «depressão» da sociedade do rendimento. A pior das violências não é a da negatividade e do visível, mas a da positividade e do invisível, «exercida sem necessidade de inimigos nem dominação.» (idem, p. 10) Mas acrescenta também linhas de sentido a Was ist Macht? de 2005 (Sobre o Poder — não percebo porque alteraram tanto o título —, tradução Miguel Serras Pereira, Relógio D’Água, 2017), por vezes tanto que parecer ser outro Byung-Chul Han. Neste livro trata-se sobretudo, a partir de Michel Foucault, de criticar a ideia de que o «poder opera unicamente inibindo ou destruindo.» (p. 16) Pelo contrário, ele funciona como um catalisador que influencia ou acelera determinados processos, ele é produtivo. Claro que também há o poder destrutivo, o da opressão de um ditador, que retira liberdade ao sujeito. E talvez seja até maioritário. Mas, o que Han quis fazer neste livro foi realçar o poder como possibilidade de autoafirmação e a sensação de prazer e liberdade que daí emerge.

Regressando à Psicopolítica, não há qualquer tipo de revolução que a partir da incubadora marxista (refere-se sobretudo às ilusões de Antonio Negri com a sua «multidão cooperante») consiga estancar este novo modo de servidão, auto-servidão, auto-exploração. A «sociedade neoliberal do rendimento» abafou toda a resistência possível. Os mecanismos de contrapoder e de escrutínio são tão reduzidos que quase se resumem a um vago imperativo de transparência (criticado, contra a vox populi, pelo autor) para denunciar escândalos políticos (atacam-se as pessoas mais do que as ideias). 

Durante o século xx, o poder foi sobretudo disciplinar e dominado pela negatividade. Este poder, seguindo Foucault (Surveiller et punir, 1975; Histoire de la sexualité Vol. 1. La volonté de savoir, 1975; e, do mesmo ano, o curso no Collège de France, Il faut défendre la société),  surgiu no século xvii e deixou de ser o poder de morte que detinham os soberanos, como se fossem Deus, sobre os súbditos: «Em vez de torturar o corpo, o poder disciplinar fixa-o a um sistema de normas.» (Psicopolítica, p. 29) É um poder normativo que atua sobre o corpo e a mente do sujeito da obediência e do dever. Mas esse poder, coagindo com alguma violência através de preceitos e proibições, foi substituído por um muito mais eficaz: amável, manipulador, afirmativo e sedutor. «Seduz em vez de proibir. Não enfrenta o sujeito, concede-lhe facilidades.» (idem, p. 24) «O neoliberalismo é o capitalismo do “Gosto”. Distingue-se substancialmente do capitalismo do século xx, que operava por meio de coações e de proibições disciplinares.» (idem, p. 25) E Foucault (morreu em 1984, com 57 anos), segundo Han, não efetuou a passagem, apesar dos vários indícios que se podiam ler na realidade social, da biopolítica (poder disciplinar sobre a vida) à psicopolítica. Tal teria acontecido, ainda segundo Han, se Foucault não tivesse morrido precocemente. Han não concede a mesma lucidez a Giorgio Agamben. 

Se o capitalismo do século xx se preocupava, em primeiro lugar, com o biológico, o neoliberalismo atende à psique. Para o conseguir, «A psicopolítica neoliberal é uma política inteligente que procura agradar em vez de submeter.» (idem, p. 46) É por isso que se trabalha tanto o campo das emoções do «sujeito narcísico», a sociedade de consumo compra emoções e significações, muito mais o valor emotivo do que o de uso: «O capitalismo do consumo introduz emoções para estimular a compra e engendrar necessidades.» (idem, p. 55) Daí que, no mercado de trabalho, as competências emocionais quase tenham destronado as cognitivas. E tudo isto se joga ao nível pré-reflexivo, o que dificulta ainda mais a denúncia e a resistência. Tanto mais que o Big Data consegue, a partir das interações digitais, representar com extrema exatidão a «nossa pessoa, [a] nossa alma — uma representação talvez mais precisa ou completa do que a imagem que fazemos de nós próprios.» (idem, p. 71) Essa «lupa digital» favorece uma psicopolítica capaz de ler os nossos desejos mais profundos (talvez ininteligíveis para nós).

É preciso regressar a Topologia da Violência para sabermos o que a sociedade do rendimento, com os seus princípios de liberdade e desregulação, provocou na sociedade. Um campo patológico, vasto e profundo, governa uma grande parte dos indivíduos: na depressão vê-se o «fracasso de sujeito forçado à iniciativa perante o incontrolável» (p. 45); no burnout «é a relação tensa, de sobrecarga excessiva, de si mesmo consigo, que assume traços destrutivos.» (ibidem) Duas formas de autoagressão que não estavam inscritas na sociedade disciplinar. Para um dos seus principais teóricos, Karl Schmitt, a política vive da luta contra o inimigo, a possibilidade real da violência é a essência do político. Agora, o sujeito do rendimento, sem a negatividade do inimigo, vira-se para e contra si, «compete consigo mesmo e procura superar-se a si mesmo. Entra assim numa competição fatal consigo mesmo, num círculo infinito que, a certo momento, caba num colapso.» (idem, p. 62)

sexta-feira, 4 de março de 2022

Justiça ambiental: Cidades mais sustentáveis e justas

Marvila, na zona oriental de Lisboa. Marvila é uma das freguesias lisboetas com menor disponibilidade de espaço verde público. | Foto: © Jessica 

Fonte: aqui, 13/05/2020, por  Jessica Verheij
Muitos dos atuais problemas ambientais acontecem longe da nossa vida quotidiana, como a poluição das águas do mar, as explorações de petróleo espalhadas pelo globo e a desflorestação de zonas como a Amazónia. No entanto, existem também inúmeros problemas ambientais nas cidades e nas vilas onde vivemos: o ar poluído que respiramos, a poluição sonora que não nos deixa dormir, a falta de árvores para dar sombra, os resíduos nas ruas e a predominância de betão e asfalto nos bairros. São problemas que nos afetam diretamente no nosso dia-a-dia, criando riscos graves para a saúde e o bem-estar.

A ideia de justiça ambiental foca-se nestes riscos para o cidadão comum, alertando particularmente para a forma como estes afetam alguns mais que outros.

Os problemas ambientais são problemas sociais

O conceito de justiça ambiental surgiu de um movimento ativista com origens nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX. O movimento lutava para uma maior proteção ambiental de populações mais pobres e marginalizadas, que estavam desproporcionalmente expostas a riscos ambientais, nomeadamente devido à localização de resíduos tóxicos nos seus bairros. Assim desenvolveu-se a ideia de abordar os problemas ambientais como estando intrinsecamente ligados às desigualdades já existentes. De acordo com esta abordagem, a crise ambiental e a injustiça social são duas faces da mesma moeda. Desde então, o conceito de justiça ambiental tem sido aplicado a conflitos ambientais por todo o mundo, muitos deles localizados em meios rurais. No entanto, por lutar contra os riscos ambientais do dia-a-dia, tem uma ligação estreita com os meios urbanos, onde decorre uma grande parte da nossa vida quotidiana.

A justiça ambiental urbana interessa-se por compreender onde os riscos ambientais são maiores na cidade, quais os grupos sociais que são mais afetados pelos mesmos e de que forma é que as políticas urbanas contribuem para ou visam minimizar essa distribuição injusta. Ao mesmo tempo, a justiça ambiental defende o envolvimento ativo das populações nos processos de tomada de decisão que dizem respeito ao meio ambiente dos seus bairros, visando não apenas uma distribuição justa de bens e custos, mas lutando também pelo direito de intervir nos processos que regulam essa distribuição. Assim, a participação pública é um dos elementos fundamentais da justiça ambiental.

Justiça ambiental em Lisboa

Aplicando esta ideia à cidade de Lisboa, há várias questões que sobressaem. A poluição atmosférica e sonora representa riscos graves numa cidade onde o automóvel continua a ser o meio de transporte preferido por muitos, e onde o maior aeroporto do país tem impactos sérios na saúde dos residentes das zonas habitacionais adjacentes. Ao mesmo tempo, Lisboa tem pouca disponibilidade de área verde quando comparado com outras cidades europeias – mesmo que, como importa salientar, Lisboa tenha mais espaço verde por habitante do que a maior parte das cidades do sul de Europa. No entanto, a qualidade ambiental na cidade está longe de ser saudável.

Além disso, a justiça ambiental urbana liga-se diretamente à questão da gentrificação, tendo dado origem ao termo ‘gentrificação verde’ ou ‘eco-gentrificação’. Este termo descreve o processo através do qual certas zonas da cidade são regeneradas com o intuito de melhorar a sua qualidade ambiental, por exemplo através da criação de espaços verdes, da produção de energias renováveis ou do desvio do tráfego automóvel. Estas melhorias causam uma subida dos preços da habitação, tornando-a assim inacessível para uma grande parte da população. Num contexto como Lisboa, onde o mercado de habitação está já extremamente saturado, este tipo de processos põe em causa a forma como os cidadãos podem usufruir dos bens ambientais na cidade.

Justiça ambiental e a pandemia do Covid-19

Com a atual pandemia do Covid-19, estas questões passam a ser ainda mais urgentes. Em Lisboa, apenas 47% da população é servida por um espaço verde de proximidade (segundo dados da Câmara Municipal de Lisboa de 2015). Menos de 35% do território municipal é ocupado por área verde. Com o confinamento imposto pelas autoridades, isso significa que muitos lisboetas não têm acesso à natureza próximo das suas residências, apesar dos inúmeros benefícios de saúde que daí advêm.
 
A ideia de justiça ambiental ajuda-nos também a entender melhor as consequências sociais da pandemia. Tal como é o caso da crise ambiental, esta pandemia não nos afeta a todos por igual. Pelo contrário, agrava as desigualdades sociais já existentes, e afeta desproporcionalmente as populações mais pobres: aquelas que vivem em habitações pequenas, sem espaço exterior, em bairros com poucos serviços de proximidade, sem espaços públicos equipados ou áreas verdes de qualidade. O conceito de justiça ambiental contribui para o tema da saúde pública ao sublinhar a importância da qualidade ambiental. Assim, e tendo em conta esta pandemia, vale a pena questionar-nos se o acesso a espaços verdes urbanos deve ser um luxo apenas para alguns, ou um direito para todos.

O futuro da sustentabilidade urbana

Os problemas ambientais fazem parte de muitas cidades europeias. Cabe aos governos locais assegurar que estes sejam evitados ou minimizados, e que os bens ambientais, como os espaços verdes e a qualidade da paisagem, sejam distribuídos de uma forma justa pela cidade e pela sua população. Sendo certo que a ideia da sustentabilidade urbana tem ganhado força por todo o mundo, falta agora colocar a questão social no mesmo patamar das questões ambientais. A justiça ambiental é inerente à sustentabilidade urbana, uma vez que melhorar a qualidade ambiental só para alguns não é um futuro sustentável. Ao integrar a ideia de justiça ambiental nas atuais políticas de sustentabilidade urbana, podemos assegurar uma distribuição mais justa dos bens e recursos ambientais na cidade, de forma a que um número crescente de cidadãos possa ter acesso a um meio ambiente limpo, seguro e saudável.

Autora

Jessica Verheij é investigadora do Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa, no projeto “ROCK – Regeneration and Optimization of Cultural Heritage in Creative and Knowledge Cities” desenvolvido em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa para regenerar a zona ribeirinha do Beato-Marvila. O seu trabalho incide no papel dos espaços verdes na regeneração das cidades e sobre temas relacionados com justiça ambiental.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Covid-19: Resistam à estupidez


O querer acreditar é a maior força do ser humano. Quando a vontade é muita, somos capazes de acreditar nas coisas mais estúpidas e inverosímeis. E neste momento estamos a transbordar de vontade em acreditar em algo que nos livre deste pesadelo. Roubaram-nos demasiados bens adquiridos, e ninguém gosta de ser roubado. Há os que querem acreditar porque são empresários desesperados, há os que não sabem viver sem festas, há os que estão a morrer de saudades dos abraços que lhes fazem falta e os que simplesmente estão tristes e querem voltar ao tempo em que havia mais sorrisos, e sorrisos a descoberto das máscaras que invadiram a nossa vida. Mas há que resistir. Resistam. Resistam à tentação de querer saber mais do que a ciência. Estão a pôr em risco a vossa vida, dos vossos e de todos nós. É perigoso não resistir à vontade de acreditar em parvoíces. E como a desinformação se espalha mais forte e rapidamente do que o vento, não é fácil ter tempo para desconstruir todas as baboseiras que se dizem por aí.

A ciência aos cientistas. Eu não imagino que alguém se levante do seu lugar num avião a passar por uma tempestade e tente tirar os pilotos do cockpit: “Sai daí! Eu é que sei aterrar este AirBus 380 no meio desta tempestade.” É isto que estamos a presenciar. Doutorados em patetices a dizer que sabem mais do que toda a comunidade científica. Olham para os números e tiram “conclusões”. E neste grupo estão também médicos (poucos, felizmente) que perigosamente por saberem qualquer coisinha sobre ciência esquecem-se de que a sua ignorância é muito maior do que o pouco que sabem. A ciência tem auto-regulação. Aceita o contraditório. Tem avanços e recuos, comete erros, mas aprende e evolui, e será sempre o mais perto da verdade que vamos estar.

“Morrem mais pessoas de cancro!” Sem dúvida, e mais ainda de doenças cardiovasculares. A mortalidade por doenças não-covid sem dúvida que subiu pelos danos colaterais do controlo da pandemia. Mas esta é uma forma simplista de olhar para um problema extremamente complexo. A pergunta que tem de ser feita é: quantas mais morreriam de causas não-covid, se a pandemia estivesse descontrolada? Há uma tentativa de conspirar a favor de forças obscuras que alimentam a teoria que os serviços de saúde só pensam nos doentes covid. Isto não é verdade! À semelhança de uma guerra (e eu detesto esta comparação) as pessoas morrem mais por falta de cuidados de saúde do que por tiros e bombas, mas enquanto houver tiros e bombas não haverá cuidados de saúde, e por isso quem os mata em ambas as situações é a guerra, é a pandemia.

Dinheiro e felicidade. Tendo em conta a forma como eu vejo a vida, desde o primeiro dia que considerei que a nossa saúde mental e felicidade e a catástrofe social dos que ficaram sem casa e sem alimentar os seus filhos têm de ser contrabalançadas com as consequências de saúde pública, sejam elas covid ou não-covid. Mas o que está em causa, e certamente matéria de grande debate em que eu tenho muitas mais perguntas do que respostas, é que o sofrimento colectivo que estamos a passar e a quebra da economia poderiam eventualmente ser maiores se fingíssemos que o vírus é apenas mais um e nos deparássemos com hospitais a transbordar de mortos. O pânico e o medo que daí também viria seria certamente pior do que o que estamos a viver neste momento.

Avante, Fátima, futebol e discotecas. Grandes ajuntamentos de pessoas ao ar livre com uma dispersão razoável e mais ainda se usarem máscaras parece não oferecer grande risco de contágio. Daí que a gritaria contra e a favor, políticas e religiões a propósito de grandes aglomerados, ainda que na minha opinião possam ser antipedagógicos, parecem ser menos perigosos do que um jantar com dez pessoas em casa com amigos ou familiares. Eu adoro futebol e adoro sair à noite, e talvez por saber o que por lá se passa sou obrigado a compreender a proibição de público e de álcool, porque os comportamentos rapidamente transcendem o razoável em ambas as situações. As escolhas são dificílimas, e as comparações principalmente para quem lhes dói no bolso são infinitas, mas vamos mesmo ter de acreditar que quem decide está a fazer o seu melhor perante um desafio épico.

Numerologistas. Parece que basta ir duas vezes ao site da DGS para nos tornarmos especialistas em números. Mas primeiro é preciso saber muito para se saber ler os números, e mesmo para quem sabe muito há muita coisa que os números não dizem: a solidão em que as pessoas morrem que é quase tortura, a gestão da culpa dos que infectaram os seus familiares e que os levou à morte, a absorção brutal de recursos humanos que esta doença consome e o labirinto logístico que é gerir um hospital cheio de covids e com tudo o resto. É mais difícil do que possam imaginar.

Vamos viver um período de histeria colectiva e muitos terão razão, o que é o mesmo que dizer que será dificílimo democratizar o que é melhor para todos. E por isso peço-vos encarecidamente que não alimentem as campanhas de desinformação, conspiração e negação, porque estas são perigosíssimas e põem a vida das pessoas de que mais gostamos em risco. E ver gente a morrer não é bonito. Acreditem.

Há milhões de pessoas a quem a ciência não chega e morrem infinitamente mais do que nós que nascemos rodeados de um mundo de saberes que salvam vidas. Não os neguem, simplesmente aproveitem-nos e não tentem ter uma opinião sobre como pilotar o avião no meio de uma tempestade.

Há muita vontade em acreditar na estupidez. Resistam.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Apagão não impediu debate entre partidos sem assento no Parlamento. Discussão marcada pela gestão da pandemia — e por teses negacionistas

Um problema com a energia interrompeu hoje durante minutos o debate dos 11 partidos sem assento parlamentar que decorre na RTP, quando cerca de metade dos participantes tinha apresentado os seus argumentos para chegarem à Assembleia da República. O momento ocorreu justamente quando se discutia a crise energética. A gestão pelo Governo da pandemia da covid-19 e as restrições foi um dos temas a dominar a noite, assunto que foi apelidado por um dos candidatos de “elefante na sala”.


Élvio Sousa, do Juntos Pelo Povo (JPP), falava do quanto é fundamental estar presente na Assembleia da República, alegando que “os preços estão naturalmente a subir, não só a inflação, mas do também imposto sombra que caiu sobre os portugueses, e sobre as famílias, e sobretudo sobre os que menos ganham”, quando a quebra de energia interrompeu o debate, entretanto retomado.

“As empresas deparam-se com os preços da energia, mas estamos em janeiro e tivemos os preços acrescidos, não só da energia, mas dos combustíveis, na alimentação e no acesso à saúde”, disse.

Antes do “corte”, neste que é o último debate televisivo que opõe os candidatos às eleições legislativas de 30 de janeiro, desta vez com os 11 partidos sem assento parlamentar, Jorge Nuno Sá (Aliança, ex-PSD e antigo líder da JSD), assumiu-se como o “coração da direita” e garantiu que o seu partido “veio para ficar”.

Para Maria Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, que obteve 35 mil votos nas legislativas de 2019, o Parlamento “eclodiu-se” e “precisa de se reconfigurar”.

Sobre novas alianças, lembrou os partidos que “criaram a ilusão de que podiam resolver o problema”, numa referência ao PCP e ao BE, que “apoiaram o Governo, votaram os orçamentos e, ao fim de seis anos, perceberam que a geringonça se desfez”.

Vitorino Silva (Reagir Incluir Reciclar – RIR), que obteve 35 mil votos em 2019, começou por afirmar que, em Portugal, “não há partidos grandes”, pois caso contrário não existiria uma abstenção de 50%.

E sobre as sondagens menos simpáticas para o RIR, afirmou que no dia 30, dia das eleições, estas “vão ter de pedir desculpas”.

José Pinto Coelho, do partido Ergue-te, que em 2019 obteve 17.000 votos, referiu que o seu é “o único partido contra a fraude do sistema”.

Por seu lado, Pedro Soares Pimenta (Partido da Terra – MPT), assumiu-se como o único com uma “agenda política verdadeiramente ecologista para Portugal”.

“Não somos apêndices de ninguém. Não somos radicalistas”, disse, alegando que “a ecologia não pode ser de modas”.

Da parte do Nós, Cidadãos!, Joaquim Rocha Afonso afirmou que “há quatro blocos à volta dos quais giram os 18,2 mil milhões que fogem por ano - cerca de sete vezes mais que o orçamento da saúde”.

“Temos o governo, os chefes das empresas oligárquicas que mandam no nosso país, as grandes sociedades de advogados e os senhores deputados”, disse.

“Se nós conseguirmos eleger deputados que sejam independentes, que não estejam com qualquer ligação partidária, vamos conseguir quebrar este elo”, defendeu.

Bruno Fialho, da Alternativa Democrática Nacional (ADN), apresentou-se no debate por via online, por se ter recusado a fazer o teste à covid-19.

“Não preciso de fazer testes para entrar nos transportes públicos, mas para ir ao estúdio da RTP”, disse.
Gestão da pandemia foi o “elefante na sala” alvo de críticas de partidos sem assento

Foi justamente o candidato da Alternativa Democrática Nacional a apontar que “durante dois anos apenas se falou” deste tema no país e que chegadas as eleições “ninguém fala do elefante na sala” - servindo-se de um elefante de peluche que prometeu manter a seu lado.

Bruno Fialho criticou os critérios utilizados para se realizar testes à covid-19 de forma a ter acesso a determinados locais, entre outras restrições ainda impostas e anunciou que se fosse Governo a sua primeira medida seria “declarar o fim da pandemia”. A sua intervenção foi marcada pela citação de vários valores já desmentidos — como o de que a covid-19 só terá causado oficialmente 152 mortes entre janeiro de 2020 e abril de 2021, o que só remete para um número reduzido de certificados de óbito —, valendo isso o repúdio do moderador, o jornalista Carlos Daniel.

Para Maria Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, a pandemia da covid-19 foi “utilizada para introduzir medida repressivas, intimidatórias, e ao mesmo tempo de confinamento do país inteiro”, considerando que a pandemia “foi mal gerida, não houve rigor, organização, planeamento, não houve o mínimo de disciplina”.

Já Vitorino Silva, presidente do partido Reagir Incluir Reciclar (RIR), questionou se houve restrições a mais ou não, respondeu apenas que “as pessoas decidiram em função do tempo”, acreditando que “não quiseram prejudicar Portugal e decidiram naquele tempo, só que o tempo vai mudando”.

Por seu turno, o presidente do 'Ergue-te', José Pinto Coelho, reconheceu a existência do vírus da covid-19 mas foi bastante crítico das restrições impostas, que na sua opinião são “loucas e insanas” e "destroem relações pessoais" ou o “crescimento natural das crianças”, negando também o impacto na saúde pública da pandemia, o que considerou ser uma fraude.

Pedro Soares Pimenta, do Partido da Terra (MPT), criticou a gestão da pandemia, defendeu que “teve que vir um militar meter ordem na casa” – numa referência ao almirante Gouveia e Melo na coordenação da ‘task force’ da vacinação – e apelou a uma “gestão séria do SNS” e também ao “respeito” pelos milhares de portugueses que morreram devido à covid-19 e suas famílias.

Élvio Sousa, do Juntos Pelo Povo (JPP), considerou que “a saúde deve ser a causa de todas as causas” e que “nenhum Governo tinha um manual de sobrevivência, de funcionamento para uma pandemia deste género”, aditando que o partido não tem nenhuma “muralha ideológica com a contratualização com o privado desde que seja auditado e fiscalizado”.

O presidente do Partido Trabalhista Português (PTP), Amândio Madaleno, considerou que “em determinados casos só os organismos do Estado conseguem garantir a saúde e em boa qualidade mas o problema se deve ser estatal ou privado é uma falsa questão” porque “o que interessa” é saber se estão a ser dados meios aos profissionais de saúde, apontando para uma “falta de investimento”.

Pelo ‘Nós, Cidadãos!’, Joaquim Rocha Afonso apontou que no início da gestão da pandemia “toda a gente ficou de cabeça perdida e foi navegação à vista”, também elogiou Gouveia e Melo mas considerou que “não houve planeamento, qualquer tipo de estruturação ou o mínimo de organização quer política, quer operacional, quer técnica”.

Renata Cambra, porta-voz do Movimento Alternativa Socialista (MAS), defendeu que “é preciso mais investimento na saúde” e que esse dinheiro está “nos roubos que são feitos pelos grandes empresários e pelas administrações de bancos”, considerando também que a gestão da pandemia foi “confusa” e andou “atrás do prejuízo”.

Tiago Matos Gomes, presidente do Volt Portugal (VP), rejeitou fazer “politiquice” ou “política baixa” com a saúde, considerando que o Governo português deu a resposta “possível” e que todo o mundo foi apanhado de surpresa com a pandemia.

O partido federalista europeu salientou ainda o papel da União Europeia na compra de vacinas “em larga escala”.

Também na área da saúde, o presidente do Aliança, Jorge Nuno Sá, defendeu que “evidentemente há um pilar fundamental da garantia da saúde por parte do Estado”, mas criticou o “capricho ideológico de manter apenas o público”, advogando que “o setor privado e social” na saúde “não têm de ser supletivos, podem ser um complemento”.

Mais à frente no debate, o dirigente do Aliança manifestou-se contra mais “aventuras românticas do Estado como a TAP” e entre as medidas prioritárias dos partidos foi defendida a "recuperação da soberania económica e financeira do país" pelo PCTP/MRPP, "aliviar os portugueses da carga de impostos" pelo RIR ou ainda "mais atenção à diáspora" pelo MPT.