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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Starlink de Elon Musk duplica preço do plano de emergência em Portugal. Conheça o outro lado da moeda - os seus impactos ambientais


A Starlink, que fornece internet via satélite, incluindo no território português, está a comunicar aos clientes uma subida de preços que chega aos 100% no plano mais básico para situações de emergência, apurou o ECO. O agravamento ocorre numa altura em que várias famílias adquiriram nos últimos meses equipamentos da marca da SpaceX para se precaverem, depois do apagão do ano passado e das tempestades de fevereiro, e em que o Governo planeia entregar um kit de conectividade desta empresa às juntas de freguesia no âmbito do PTRR. Mas coincide também com o histórico IPO da ‘casa-mãe’, a SpaceX, do multimilionário Elon Musk.

A mensalidade do “Modo Standby”, que permite manter um equipamento Starlink ativo, com serviços mínimos — para que esteja pronto a reativar em caso de necessidade ou emergência –, irá passar de cinco para dez euros por mês. O preço duplicará já em meados do próximo mês de junho, segundo o comunicado enviado aos clientes consultado pelo ECO.

O email obtido não detalha as subidas que serão aplicadas aos restantes pacotes e não foi possível encontrar informação agregada no site da empresa. Nesse sentido, o ECO contactou a Starlink para solicitar a tabela comparativa dos preços, mas ainda não obteve resposta.

Portugal não é o único mercado a assistir a aumentos de preços da Starlink. Nos Estados Unidos, o agravamento das mensalidades varia entre os cinco e os dez dólares, conforme o plano, de acordo com o portal de tecnologia Cnet: 
  1. O plano Residencial 100 Mbps (velocidade máxima de download) vai aumentar de 50 para 55 dólares nos EUA, uma subida de cinco dólares mensais. Em Portugal o mesmo plano custa, atualmente, 29 euros por mês.
  2. Já o Residencial 200 Mbps, que custava 80 dólares nos EUA, irá subir para 85 dólares mensais, o que também representa um aumento de cinco dólares. Em Portugal, a mensalidade atual é de 45 euros.
  3. O Residencial Max irá aumentar nos EUA de 120 para 130 dólares, um agravamento de dez dólares por mês. Em Portugal, custa 65 euros.
Estes planos permitem aceder à internet numa morada fixa definida pelo cliente. Mas os planos Roam, que permitem aceder à internet em qualquer local onde se coloque a antena — incluindo em viagem — também irão sofrer agravamentos:
  1. Nos EUA, o Roam 100 Mbps passará de 50 para 55 dólares, custando atualmente 45 euros por mês em Portugal.
  2. O Roam Ilimitado subirá no mercado norte-americano de 165 para 175 dólares, quando em Portugal custa 95 euros por mês.
“A Starlink está a aumentar rapidamente a capacidade da rede, a expandir a cobertura e a melhorar a fiabilidade para os clientes. A forte procura da Starlink reflete o valor que os clientes continuam a ver no serviço, e os preços podem mudar à medida que continuamos a investir em produtos e serviços acessíveis e de alto desempenho”, justifica a empresa, num conjunto de perguntas e respostas disponibilizado aos clientes.

Este aumento de preços surge cerca de três meses depois de a Starlink ter promovido outras alterações nas suas assinaturas. Em meados de março, a empresa comunicou o fim do plano Residencial Lite, cujo tráfego não era considerado prioritário, passando a limitar a velocidade de download a 100 Mbps e cobrando o mesmo preço. Na prática, tratou-se de um downgrade do serviço, mantendo o preço e a oferta de tráfego ilimitado.

Startlink conquista clientes após Kristin e apagão
A nova política de preços da empresa do homem mais rico do mundo acontece depois de um período de grande expansão da base de clientes em Portugal, sobretudo depois de a operadora ter promovido uma campanha de descontos agressiva no preço dos equipamentos, logo após o grande apagão energético de 28 de abril de 2025, que afetou toda a Península Ibérica.

Ademais, coincide com um momento em que o Governo tem em cima da mesa, no âmbito do plano PTRR (Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência), uma proposta para distribuir uma ligação de dados Starlink por cada uma das mais de três mil freguesias do país.

A ideia é que estes equipamentos sirvam de redundância no acesso à internet numa situação em que as redes de comunicações eletrónicas tradicionais estejam indisponíveis, bastando, para tal, a ligação da antena e do router (se necessário) a uma fonte de corrente elétrica — por exemplo, um gerador. A proposta está associada às tempestades que no início do ano afetaram a zona centro do país.

Starlink é a galinha dos ovos de ouro da SpaceX
O aumento dos preços ocorre também num momento de grande importância para a Starlink, mais propriamente a sua ‘casa-mãe’: a SpaceX vai realizar a maior Oferta Pública Inicial (IPO) de sempre, com a qual espera arrecadar 75 mil milhões de dólares a uma avaliação de 1,75 biliões (ou trillions, como se diz em inglês).

Nesta mesma quarta-feira, 20 de março, a SpaceX entregou ao regulador norte-americano dos mercados financeiros o muito aguardado prospeto com os resultados financeiros. O documento coloca a descoberto que a SpaceX perdeu 4,94 mil milhões de dólares em 2025 e revela que dois terços dos 18,7 mil milhões em receitas foram obtidos através da Starlink.

O documento consultado pelo ECO mostra também que a Starlink chegou ao fim de março de 2026 com 10,3 milhões de clientes, número que compara com os 2,3 milhões de clientes que tinha no final de 2023. A empresa fechou 2025 com uma receita média por cliente de 86 dólares.

Segundo as agências internacionais, é esperado que o IPO da SpaceX arranque por volta do dia 4 de junho, com as ações da empresa a chegarem à bolsa a 11 ou 12 de junho. Poucos dias depois, entrará em vigor o aumento das mensalidades.

Impactos ambientais

sábado, 17 de janeiro de 2026

Kumi Naidoo : For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels


Why is a global fossil fuel treaty needed and what should it look like?
For over 30 years, the world has been addressing climate change without confronting its root cause: fossil fuels. We have been standing in a flooding room, mopping the floor instead of turning off the tap. Eighty-six per cent of climate change is caused by coal, oil and gas, yet the global system still allows – even subsidises – their expansion. A treaty will give us a clear, fair and binding plan to end fossil fuel expansion, phase out existing production and support a just transition for workers and communities.

An ambitious treaty would have three pillars: no new investments in coal, gas or oil projects, a phase-out of existing production, based on science and equity, and a fast, funded transition that supports communities, workers and global south countries. This is a roadmap to turn off the tap at the source, something the current global system has failed to do.

The First International Conference for the Just Transition Away from Fossil Fuels, co-hosted by Colombia and the Netherlands, will take place in Santa Marta, Colombia, on 28 and 29 April, bringing together governments, experts and communities to develop policies for a transition in line with the Paris Agreement.

How can a treaty succeed where the COP series of climate summits has failed?
The COP process requires consensus from almost 200 governments, including many captured by fossil fuel interests. This leads to deals that are full of loopholes and not very binding. In contrast, a treaty can be negotiated by a coalition of the ambitious, set binding rules to stop expansion and deliver a governed, financed just transition.

This approach works. Think of the Landmine Convention or the Ozone Treaties. They didn’t need every country to start, just enough courageous ones to lead. Almost every major treaty began with a small group of pioneers. Once they move, they can set new global norms, shift finance away from fossil fuels and create economic and moral pressure on those lagging behind. A treaty supported by even 20 or 30 determined states can reshape diplomacy and global markets.

And the courage is already emerging. It’s coming from those on the frontlines of climate impacts: Caribbean and Pacific Island states and even some fossil-fuel exporters such as Colombia, Pakistan and Timor-Leste.

Of course there are obstacles. Powerful fossil fuel corporations drive corruption and political capture. Governments fear losing revenue from fossil fuel extraction and old patterns of global inequality continue to shape the global response. But as has been said before, first they ignore you, then they laugh at you, then they fight you – and then you win.

What’s civil society bringing to the process?
Civil society is not just at the table – it’s the one that built the table. This treaty initiative grew directly out of the work of climate justice networks, communities, frontline organisers, Indigenous peoples and youth activists. Over 2,000 civil society organisations now support the Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative, alongside 101 Nobel laureates, 3,000 scientists and academics, the European Parliament and the World Health Organization. In 2023, Pacific civil society groups launched the Naiuli Declaration, the first endorsement of the treaty by an entire region’s civil society groups, demonstrating the power of grassroots leadership in this movement.

Civil society brings moral courage where governments hesitate, people power where institutions stagnate and art, culture and storytelling that reach the heart in ways data cannot. From the anti-apartheid movement in my youth to Greenpeace to Amnesty, I’ve seen that movements are the midwives of progress. There is vast space and an urgent need for civil society leadership.

Why should organisations and states join this initiative?
Because our children will one day ask us a simple question: when the moment of truth came, did you turn off the tap, or did you keep mopping until the flood swept us away?

Joining the treaty means choosing justice over delay, courage over convenience and solidarity over short-term profit. The treaty must directly improve people’s lives, reduce inequality and safeguard democratic space. It’s not about saving the planet, because the planet will survive us. It’s about saving ourselves, our human dignity and our shared future.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos e Dia Internacional dos Direitos dos Animais


O astronauta da NASA Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, afirma que a humanidade está “vivendo uma mentira” após ver, com os próprios olhos, a fragilidade da Terra e vivenciar o profundo Efeito Perspectiva (Overview Effect).

Ao observar o planeta da órbita, Garan percebeu como nossas prioridades estão invertidas: colocamos a economia em primeiro lugar e o planeta por último, mesmo sabendo que a fina atmosfera da Terra é a única barreira que protege toda a vida. Para ele, a verdadeira ordem de importância deveria ser: Planeta → Sociedade → Economia, já que sem uma Terra saudável, nem as pessoas nem os sistemas conseguem sobreviver.

Ele descreve a “mentira” como a ilusão da separação — a falsa crença de que somos divididos por nações, políticas ou identidades. Na realidade, segundo Garan, somos uma única família humana compartilhando um lar frágil. Sua mensagem é um apelo urgente por união, consciência e sustentabilidade, antes que seja tarde demais.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam

Com ferramentas modernas, cientistas teriam identificado no século XIX o impacto do CO₂ emitido pela queima de carvão e madeira na Revolução Industrial

Muito antes de a expressão “alteração climática” entrar no vocabulário da ciência, os primeiros sinais do impacto humano na atmosfera já estavam no ar. Um estudo publicado na revista PNAS indica que, se os cientistas da época tivessem acesso à tecnologia atual, teriam identificado indícios do aquecimento global já em 1885 - antes mesmo da invenção dos carros a gasolina.

A conclusão vem de uma simulação conduzida por investigadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, em parceria com instituições como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade de Washington. A equipa partiu de um cenário hipotético: e se, desde 1860, fosse possível monitorizar globalmente a atmosfera com a precisão de satélites e balões meteorológicos modernos?

Naquela época, a queima acelerada de carvão e madeira já lançava grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera - um subproduto da Revolução Industrial que iniciava os efeitos do aquecimento global.

A resposta veio por meio de um método de análise conhecido como fingerprint (impressão digital), que permite separar os efeitos naturais das alterações provocadas por humanos. Segundo os autores, esse padrão de interferência seria visível na forma de um arrefecimento na estratosfera - uma camada alta da atmosfera - causado pelo aumento do CO₂ e pela perda de ozono.

Por que razão a estratosfera arrefece e a Terra aquece?
Os gases do efeito de estufa atuam de maneira distinta nas camadas da atmosfera. Na parte mais baixa, a troposfera, eles retêm o calor irradiado pela superfície da Terra, provocando o aquecimento. Já na estratosfera, a camada seguinte, o acumulado desses mesmos gases intensifica a reflexão da radiação, fazendo com que parte do calor regresse ao planeta e que a própria estratosfera arrefeça.

Esse arrefecimento da estratosfera, segundo os autores, é um sinal inequívoco da ação humana e teria sido detetável com elevada confiança por volta de 1885. Mesmo com medições restritas ao hemisfério norte, os dados simulados indicam que o fenómeno seria percetível até 1894, apenas 34 anos após o início hipotético da monitorização climática global.

O que é que isto muda?
Na prática, o estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam. Embora a ciência só tenha começado a compreender o papel do CO₂ no aquecimento global a partir da década de 1970, os impactos da Revolução Industrial já estavam a ser registados na atmosfera um século antes.

Os investigadores alertam que os próximos 26 anos deverão trazer mudanças ainda mais intensas do que as observadas desde 1986, especialmente se não houver uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Supremo dos EUA inflige revés a luta contra poluição atmosférica


Washington, 27 jun 2024 (Lusa) - O Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América (EUA), de maioria conservadora, infligiu hoje um revés à Agência de Proteção do Ambiente (EPA) ao suspender a aplicação de um plano de combate à poluição atmosférica.

Os juízes da mais alta instância judicial dos Estados Unidos decidiram, por cinco votos a favor e quatro contra, suspender a aplicação de um chamado plano de “boa vizinhança”, que pretende combater a poluição atmosférica que passa de um Estado para outro, enquanto não estiver resolvido um litígio num tribunal de apelação.

“A aplicação do plano da EPA aos queixosos deve ser suspensa até que os seus pedidos de revisão sejam decididos” por um tribunal de recurso em Washington, declarou o Supremo Tribunal no seu parecer.
A decisão foi tomada por uma maioria de cinco juízes conservadores contra os três progressistas, aos quais se juntou a juíza conservadora Amy Coney Barrett.

Segundo a EPA, o plano deve permitir reduzir o ‘smog’ (poluição atmosférica), que é prejudicial à saúde, mas pode também ter “vantagens económicas”.

Mas a regulamentação foi contestada em tribunal por três estados governados por Republicanos - Ohio, Virgínia Ocidental e Indiana -, apoiados pelas indústrias metalúrgica e do carvão.

De acordo com uma lei norte-americana sobre a poluição atmosférica, os estados federados são responsáveis por regulamentar a poluição pelo ozono a baixa altitude, mas a Agência de Proteção do Ambiente pode rejeitar ou obrigá-los a alterar os seus planos e definir normas comuns.

“A decisão de hoje é prejudicial não só para as comunidades que respiram ar poluído, mas para a própria democracia”, reagiu Holly Bender, do grupo de defesa ambiental Sierra Club, condenando o facto de o Supremo Tribunal “ter ficado do lado dos poluidores e da indústria”.

O Governo do Presidente Joe Biden tentou, nos últimos anos, repor legislação sobre a poluição atmosférica abolida pelo seu antecessor na Casa Branca, Donald Trump (2017-2021).

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Dia Mundial da Terra: Quais são as soluções aos problemas ecológicos globais que enfrentamos?


"Esta frase é na verdade mais uma falácia [...] É uma questão mal formulada porque parte de uma estrutura conceitual errónea".
"Todo o trabalho que fiz nesses 14 anos de divulgação, é resumido em que não há maneira técnica de manter o capitalismo. Não é possível, fisicamente, continuar com o mesmo sistema socioeconómico. Faltarão recursos, faltará energia, e os problemas ambientais e as Alterações Climáticas, em particular, já estão a causar catástrofes em cascata que afectam a execução "normal" do sistema económico".
"Essa questão contém implicitamente a ideia de soluções técnicas para manter o sistema como está. Ao fazer essa pergunta dessa maneira, supõe-se que o capitalismo deve ser mantido e só é aceite ouvir sobre os desenvolvimentos científicos e tecnológicos.
Estamos presos neste momento literalmente décadas. Sabemos há 50 anos que não existem soluções técnico-científicas para manter o capitalismo, mas temos colocado todo o peso da discussão em soluções técnico-científicas há 50 anos.
É a estrutura mental do inimigo. Pensamos com a estrutura mental do inimigo, o que torna impossível encontrar qualquer solução".
"Quais são as soluções?"
Existe apenas uma.
Saia da estrutura mental do inimigo.
Não há solução possível dentro do capitalismo. Simplesmente não há.
O crescimento econômico é incompatível com a preservação ambiental. A própria Agência Europeia do Ambiente diz isso, órgão dependente da Comissão Europeia.
Não há negociação possível com o capitalismo. A única coisa que podemos discutir é a sua conclusão, se queremos ter um futuro.
Existem soluções, mas não são de natureza técnica. Isso não significa que a ciência, a técnica e o desenvolvimento tecnológico não sejam úteis. Eles são; Além disso, eles são uma parte essencial da solução. Mas fora de um quadro capitalista.
Os industriais continuam a fazer barulho repetidamente para nos impedir de parar e perceber que o problema está mal colocado. Que o problema não pode ser resolvido com mais tecnologia, mas sim com mais cultura, mais sociedade, mais pessoas verdadeiramente humanas. O solucionismo distrai-nos da discussão real.
A mudança que precisamos é cultural, é social, é económica, é política e é radical, já que é necessário ir à raiz do problema. Precisamos sair da estrutura mental do inimigo e começar a pensar por nós mesmos, sendo livres, respirando".
António Turiel
(cientista e divulgador, licenciado em Física e Matemática e doutor em Física Teórica pela Universidade Autônoma de Madrid)

terça-feira, 27 de junho de 2023

Funchal no top 10 dos portos com maior poluição por navios de cruzeiro na Europa


Os portos de Lisboa e do Funchal estão no 'top 10' das infraestruturas portuárias da Europa com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro, segundo um estudo divulgado hoje pela associação ambientalista Zero.

"Em termos absolutos, Portugal mantém o 6.º lugar entre os países europeus com maiores níveis de poluição por óxido de enxofre (SOx) emitido pelos navios de cruzeiro, depois de Itália (1.º), Espanha (2.º), Grécia (3.º), Noruega (4.º) e França (5.º)", segundo um novo estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, da qual faz parte a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Esse estudo, que incide sobre os portos da Europa, apresenta os dados de 2022, com a evolução da poluição atmosférica e das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) provenientes dos navios de cruzeiro relativamente aos níveis pré-pandemia de 2019, verificando que houve "um agravamento das emissões de SOx em 9%, de óxidos de azoto (NOx) em 18 % e de partículas finas em 25%".

Estes poluentes são responsáveis por doenças cardiovasculares e respiratórias e contribuem para a acidificação e eutrofização do oceano, com consequências negativas para o equilíbrio dos ecossistemas, referiu a associação Zero, indicando que, "de um modo geral, o transporte marítimo é responsável por cerca de 3% das emissões globais de GEE e por cerca de 250 mil mortes prematuras e cerca de 6,4 milhões de casos de asma infantil por ano em todo o mundo".

Segundo o estudo, em 2022, os 218 navios de cruzeiro que navegaram na Europa emitiram mais óxidos de enxofre do que o equivalente a mil milhões de carros.

"Nos portos da Europa, o teor de enxofre do combustível é limitado a 0,1% (1000 ppm - partículas por milhão), mesmo assim 100 vezes mais que os limites impostos ao combustível dos automóveis (10 ppm)", explicou a associação ambientalista.

O 'top 10' dos portos europeus com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro é liderado pela cidade espanhola de Barcelona, seguindo-se Civitavecchia (Itália), Pireu (Grécia), Palma de Maiorca (Espanha), Lisboa (Portugal), Hamburgo (Alemanha), Southampton (Reino Unido), Mykonos (Grécia), Thira (Grécia) e Funchal (Portugal).

Ocupando a 5.ª posição deste 'ranking', o porto de Lisboa foi o que registou maior tráfego de navios de cruzeiro (108) na Europa em 2022, à semelhança do que se verificou no relatório anterior publicado em 2019, verificando-se um aumento das emissões de óxidos de enxofre.

"Em Lisboa, os navios de cruzeiro emitiram 2,44 vezes mais SOx do que os cerca de 374 mil veículos de passageiros registados na cidade (cerca de 11 toneladas comparativamente a 4,5 toneladas, respetivamente)", informou a Zero, acrescentando que os navios emitiram cerca de 278 toneladas de NOx, o que corresponde a 12% da emissão deste poluente por parte dos automóveis que circularam na capital portuguesa.

No 10.º lugar, o porto do Funchal registou 96 escalas de navios de cruzeiro em 2022, "um aumento acentuado relativamente a 2019, altura em que registou cerca de 75 escalas", o que contribuiu para elevar os níveis de poluição atmosférica, levando-o a integrar o 'top 10' dos portos mais expostos à poluição por SOx, quando antes ocupada na 15.ª posição.

Para a associação ambientalista Zero, "é urgente limitar a poluição oriunda de navios de cruzeiro" com a adoção de medidas mais rigorosas nos portos portugueses e europeus, seguindo o exemplo de Veneza, que em 2019 tinha o porto de cruzeiros mais poluído da Europa e "em 2022 caiu a pique para a 41.ª posição após ter banido a entrada de grandes navios".

Em comunicado, a Zero alertou que "falsas soluções como o gás fóssil aumentam o impacte ambiental e climático destes grandes monstros poluidores", acusando os operadores de cruzeiros de "campanhas de propaganda verde enganosas" e defendendo que as autoridades portuárias devem evitar quaisquer novos investimentos em infraestruturas de abastecimento de gás fóssil, canalizando esforços e investimento para o fornecimento de combustíveis renováveis de origem não biológica.

sábado, 20 de maio de 2023

Climate change and space debris, a vicious cycle



Just when we thought it couldn’t get worse, the satellite constellations threatening our night sky and the climate crisis impacting every aspect of our lives have joined forces. It is now established that numerous and largely unregulated swarms of satellites in low Earth orbit (LEO) have a direct impact on ground-based astronomy, as discussed in this Astrobite. Now, researchers have determined that the decreasing density of the upper atmosphere due to climate change is only worsening the space debris issue, increasing the orbital lifetimes of active satellites and space trash alike and creating an environment of debris cloaking the Earth.
Changes in the thermosphere

The effects of climate change extend beyond the surface of the Earth out to all levels of the atmosphere. A few teams set out to understand the consequences of climate change through a specific lens: how do CO2 emissions impact the upper atmosphere and the space debris environment? In today’s bite, we cover two papers that independently model global conditions and make projections for the future of the upper atmosphere given a changing climate.

Human-induced climate change leads to a global warming at ground level, but if we move up in the atmosphere by 15-500 km, this same increased concentration of greenhouse gasses causes a global cooling in the middle to upper atmosphere. A decrease in temperature causes this part of the atmosphere to effectively shrink, which in turn reduces the air density in the thermosphere (~90−500 km above the ground). While there are a few variables that impact the density of the thermosphere, increasing CO2 concentration at the ground plays a main role in global cooling and contraction of the upper atmosphere.
The thermosphere is home to thousands of LEO satellites, including the International Space Station, and while it hosts satellites, it also naturally pulls them back down to Earth over time. But the rate at which the atmosphere sends satellites back down to the ground is affected when the density of the atmosphere changes – the question is, by how much?

BRAD and other models
The teams validate and then project models of global circulation into the future to make predictions for the state of the thermosphere out multiple decades. Both studies find similar projections of climate change in the upper atmosphere, with Cnossen (2022) predicting a global mean cooling and a decline in thermosphere density for 2015–2070 that is about twice as strong as that of the past.

In Brown et al. (2021), the authors use a method called BRAD, or the Binned Representative Atmospheric Decay debris model. BRAD essentially makes a few clever assumptions to handle the motions and collisions of objects in LEO statistically, working to distill a pretty messy system and figure out how the objects in LEO will decay in their orbits when the density changes. Given a global temperature increase of 1.5ºC, Brown et al. predict a 15-32% decrease from the year 2000 to now in the thermospheric density at 400 km, a reduction that will speed up with any further increases to CO2 concentration. While BRAD inherently doesn’t model effects of large constellations of satellites, their results imply that the thermospheric density will greatly impact lone and constellations of satellites alike, at least doubling (and possibly increasing by 10-20x) the number of trackable objects (meaning both active instruments and the trash left behind).
An atmospheric drag

Why exactly does climate change in the upper atmosphere lead to a doubling of trackable objects in LEO? With density decreased, atmospheric drag is reduced, so orbital lifetimes of satellites increase: reducing atmospheric drag makes it easier for satellites to whiz around the Earth. With easier travels, they can live in their orbits longer, and lead to the accumulation of space debris. For example, Cnossen (2022) find that a decrease in thermospheric density of ~30% maps to an increase in orbital lifetimes by ~30% as well.

Increased space debris poses risk to other spacecraft, which is relevant to – as Cnossen (2022) put it – the “future exploitation” of the LEO environment. Objects that remain in orbit longer are given more chances to collide with other debris or active satellites. Fragmented space debris can quickly trigger a cascade of more collisions, as by introducing more objects in orbit, the potential for two objects to hit each other rises dramatically. From there, the fragments from such an impact increases the number of objects in LEO, and increases the probability of more collisions. This scenario, called the Kessler Syndrome, could mean trouble for future space activities, and in an extreme case space activities could even be made impossible for decades. And, beyond the potential collisions and resulting trash cloud, staying in orbit longer also impacts long-term effectiveness of satellite-based measurements that need to be stable like precise measurements of sea level.

This vicious cycle of satellite population growth worsening climate change, which in turn negatively impacts the satellite debris environment is well-established and exemplifies how our human impacts on Earth are not limited to the ground. Faced with the reality of climate change advancing and satellite megaconstellations continuing to be launched, this Astrobite lists ways to help preserve the global commons that is our night sky. Space trash doesn’t have to be a permanent fixture of our night skies, but we do have to take significant steps in taking satellites down, which primarily depends on action from the two companies (SpaceX and OneWeb) that own nearly half of all LEO satellites. With the satellite population booming and catastrophic collisions becoming more and more common, we may have already reached a point of instability in terms of space trash, and action to mitigate both climate change and satellite overpopulation is more and more critical.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Another global environmental conference is far more successful than UN Climate Conference

In Montreal, the 34th Meeting of Parties on the Montreal Protocol (MOP), dealing with ozone layer damage, just ended. This protocol is ratified by all countries in the world and is very successful. Shiming Yang, university lecturer and member of the Leiden University interdisciplinary programme Global Transformations and Government Challenges, explains why.

Hi Shiming, could you tell us a bit more about the MOP?
‘The Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, adopted in 1987, aims to protect the stratospheric ozone layer from chemicals that deplete it. Widely recognized as the most successful multilateral environmental agreement and the only one with universal ratification, it has phased out 98% of ozone-depleting substances (ODS) compared to 1990 levels. In 2016, the Montreal Protocol adopted its latest amendment, the Kigali Amendment, which aimed to phase-down hydrofluorocarbons (HFCs), a potent greenhouse gas (GHG), by more than 80 percent over the next 30 years. This will avoid more than 80 billion metric tons of carbon dioxide equivalent emissions by 2050 – avoiding up to 0.5° Celsius warming by the end of the century – while continuing to protect the ozone layer.’

The adoption of the Kigali Amendment motivated the Montreal Protocol to expand its scope from an ozone treaty to a climate one. Countries and non-state stakeholders are now going beyond “just” protecting the ozone layer to maximize climate benefits achievable under the ozone regime. For example, the MOP-34 passed a decision to incorporate energy efficiency considerations in replenishing the Multilateral Fund, a decision to enhance energy efficiency while facing down HFCs. There were discussions to bring nitrous oxide, a fast-growing ODS but also potent GHG, under the regulation of the Montreal Protocol. Also, the MOP now discusses climate intervention, the “last resort against global warming”, through methods like stratospheric aerosol injection (SAI). SAI aims to cool down the Earth by injecting aerosols into the upper air to reflect solar radiation that otherwise would add heat to the Earth. It is a highly controversial method because of its ethical implications and scientific uncertainty, hence has received little discussion at the UNFCCC.’

Why is the Montreal Protocol so successful?
‘The Montreal Protocol is among the first multilateral environmental agreements that base policy actions on scientific findings. Its Scientific Assessment Panel (SAP) and Technology and Economic Assessment Panel (TEAP) gather experts on atmospheric science and the ODS sector, who produce scientific and technical knowledge in response to parties’ requests and whose reports serve as foundations for relevant negotiations. This institutional design was adopted by the subsequent UNFCCC, but with limited success because it concerns much more sectors, which made it harder to forge consensus and build trust across sectors. Equally important was the North-South cooperation reflected in the Montreal Protocol institutions. It embodies the Common-but-Differentiated Responsibility Principle with the 10-year grace-period for developing countries’ compliance and the Multilateral Fund, replenished every three years by industrialized countries. Commitments are being fulfilled, which enhanced trust among the participants.’

What is the big difference between Montreal Protocol and the UNFCCC COP going on in Egypt right now?
‘I think the biggest focus of this COP is on climate finance, especially on climate adaption and loss and damage, which are the primary concern for an ever-growing number of developing countries, but its urgency is not shared by all industrialized countries. The US$100 billion promised by 2020 failed to deliver, and without credible commitment from the global North, the trust between industrialized and developing countries are unlikely to re-build. Recovering from the pandemic, no country is in great shape to pay for climate actions beyond their borders.’

How do you think that the negotiations on climate change should be approached?
‘I think a sectoral approach would be more efficient than trying to reach an overall agreement on climate change. Sectoral regimes, such as the Montreal Protocol, International Civil Aviation Organization, and the Minamata Convention on Mercury, are in great positions to reduce GHG emission of the corresponding sectors through direct or indirect measures. These regimes are industry-specific and attended by long-time state representatives and sectoral stakeholders. This setting induces trust-building and efficient communication for complex technical issues.’

domingo, 18 de setembro de 2022

Guiness Record - Van Gogh em Drones


A animação mais longa realizada por veículos aéreos não tripulados (UAVs) é de 26 min 19 seg e foi alcançada pelo EFYI Group (China) e apoiada pela Universidade de Tianjin (China) em Tianjin, China, em 18 de dezembro de 2020.
Eles retrataram a vida do artista holandês Vincent Van Gogh - Noite Estrelada .

O uso de fogos de artifício pode trazer além dos riscos à integridade física e a audição daquele que os utiliza, riscos ao meio ambiente (incêndios, libertação de poluentes, perigo e morte de animais selvagens). Em humanos, reações de stresse e crises podem ocorrer em pessoas que têm autismo. Geralmente, estas pessoas se sentem perturbadas com barulhos muito altos. Quanto aos danos na atmosfera, os fogos de artifício causam uma contaminação a curto prazo, levando ao aumento de partículas em suspensão no ar até 7,16%, sendo nocivo a quem respira e aumentando consideravelmente a emissão de partículas de metais, produtos químicos nocivos e outros componentes que podem causar problemas de saúde, incluindo na tiróide. (estudo aqui).

A revista Nature publicou um estudo que aponta a queima de fogos de artifício durante as festividades de Delhi, na Índia, como uma significativa fonte de emissão de ozono (poluente atmosférico secundário) para a atmosfera.

domingo, 4 de setembro de 2022

Os relatórios do IPCC são um farol da ciência climática. Então, por que esses cientistas dizem que precisam parar?


Em 1990, cientistas de todo o mundo publicaram um relatório que explicava que o clima estava mudando e que nós – seres humanos – éramos a causa.
Se continuássemos a poluir, com os negócios de sempre…
"As emissões de gases de efeito estufa resultarão em um provável aumento da temperatura média global de cerca de 1 grau Celsius acima do valor atual até 2025 e 3°C antes do final do próximo século. O aumento não será constante."
Atingimos 1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais em 2017, e 3ºC ainda está nos cartões para este século, dependendo de nossos caminhos de emissões.
Este foi o primeiro dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com a sexta série de relatórios saído este ano.
Mas enquanto o IPCC continua a fornecer os dados e previsões climáticas mais abrangentes, alguns cientistas estão se recusando a participar de avaliações futuras.

E eles estão chamando seus colegas para fazerem o mesmo. Por quê?

No final do ano passado, os cientistas australianos e neozelandeses Tim Smith, Iain White e Bruce Glavovic publicaram um artigo na revista Climate and Development (depois que vários outros jornais os rejeitaram), chamado "The Tragedy of Climate Change Science" .
Eles argumentaram que o IPCC havia feito o trabalho para o qual foi criado há 30 anos, mas que não era mais adequado para o propósito.
Em vez disso, eles apresentaram o caso para os cientistas adotarem uma abordagem mais radical para combater a "falta de ação governamental transformacional":
“A tragédia da ciência da mudança climática é que evidências convincentes são reunidas, novos alertas emitidos, novas instituições estabelecidas e novas metodologias desenvolvidas para corrigir os problemas. ano após ano…”
O "contrato ciência-sociedade foi quebrado", escreveram eles, acrescentando que continuar com a ciência como de costume não era mais sustentável.
Embora o jornal tenha sido bem-sucedido em iniciar um diálogo, quase nove meses depois, eles dizem que ainda há muito mais mudanças que precisam ser feitas.
“Precisamos tomar uma posição que realmente tire o fôlego de líderes políticos e governos sobre o que a comunidade científica da mudança climática está dizendo e está disposta a fazer”, diz o professor Bruce Glavovic, economista, cientista ambiental e planeador ambiental da Universidade Massey, na Nova Zelândia. 

Lições do apartheid

O professor Glavovic cresceu sob o apartheid da África do Sul – um regime brutal e racista que durou, sob o olhar do mundo, até a década de 1990.
O regime recrutou homens brancos para se defender contra o "comunismo e o nacionalismo africano " - uma luta que ele não considerava legítima.
"Eu iria carregar um rifle e potencialmente receber ordens para atirar em negros sul-africanos porque eles eram chamados de terroristas ou estavam envolvidos em desobediência civil?
"Para mim, isso foi abominável."
Como objetor de consciência, a experiência do professor Glavovic na África do Sul lhe ensinou lições importantes sobre a arquitetura do poder e como os sistemas podem ser distorcidos para proteger os poderosos.
“Eu podia ver os limites da lei – você poderia ter uma situação na África do Sul [onde] nós essencialmente tínhamos um estado de direito, mas sustentava um regime ilegítimo”.
Num mundo ideal, os cientistas forneceriam aos governos suas pesquisas e os governos agiriam. O buraco na camada de ozônio, os CFCs e o Protocolo de Montreal são um bom exemplo de onde isso aconteceu mais ou menos.
Mas hoje, novamente sob o olhar do mundo, o estado de direito está ajudando a sustentar as mesmas indústrias que estão causando as mudanças climáticas, diz o professor Glavovic.
Ele argumenta que continuar com os relatórios do IPCC em sua forma atual ajuda a manter uma fachada – criando a ilusão de que as coisas estão sendo feitas, enquanto as indústrias poluidoras e extrativistas continuam, mais ou menos com os negócios de sempre.
"Nossa arquitetura institucional é organizada em torno do lucro de curto prazo que privilegia os ricos e poderosos às custas do Sul Global e da maioria da população mundial", diz ele.
"Então, como você muda isso?"

Frustrações compartilhadas e respostas hostis

Os pesquisadores não pediram carta branca para um ataque contra o IPCC – cada autor tem suas próprias perspectivas sobre como a ciência deve proceder – mas, em geral, eles estão pedindo que a comunidade científica internacional dê um passo atrás e reavalie a melhor forma de fazer ciência do clima. no contexto desse "contrato quebrado".
As respostas ao seu papel foram misturadas.

Apesar de anos de divulgação científica, os pesquisadores dizem que todos os indicadores das mudanças climáticas continuam. ( Fornecido: Clima e Desenvolvimento )

O coautor do relatório, Tim Smith, geógrafo humano e professor de sustentabilidade na Universidade de Sunshine Coast, diz que eles foram contatados em particular por pesquisadores que compartilham suas frustrações e estão procurando um caminho melhor a seguir.
"Tivemos mais pessoas a bordo dizendo: 'compartilho essa frustração e é algo sobre o qual precisamos discutir'", diz o professor Smith.
Mas eles também tiveram seus críticos. Quando o artigo foi publicado pela primeira vez, explodiu no Twitter.
"Houve algumas respostas muito hostis e negativas. Muitas delas vieram da comunidade científica", diz o professor Smith.
"Mas, como eu disse, este [artigo] não foi um ataque à comunidade científica ou ao trabalho incrível que eles têm feito. Acho que, infelizmente, as pessoas ganham as manchetes."
Embora elogiando sua "coragem para desencadear essa discussão muito importante", outros cientistas responderam em um artigo de acompanhamento no mesmo jornal que mais pesquisas, não menos, eram necessárias para "abordar essas estruturas de poder".
Eles escreveram:
"Discordamos que o contrato ciência-sociedade esteja quebrado e que uma moratória na pesquisa sobre mudanças climáticas seja uma solução sustentável ou significativa".

Parar o IPCC seria uma 'perda significativa'

Mark Howden, diretor do Instituto de Soluções para Clima, Energia e Desastres da Universidade Nacional Australiana, é outro crítico do artigo.
O professor Howden está envolvido com o IPCC desde 1991.
"Estive envolvido no segundo, terceiro, quarto, quinto e agora sexto relatórios de avaliação [do IPCC]", diz ele.
"Acho que sou a única pessoa viva, ou a única pessoa em ponto final, que realmente fez tudo isso."

Mark Howden é "provavelmente a única pessoa viva" a ter trabalhado em cinco relatórios do IPCC

O professor Howden diz que ainda há uma ciência realmente crítica sendo feita, especialmente em torno dos impactos e adaptação do clima, redução de emissões, desenvolvimento sustentável e equitativo e criação de sistemas de energia robustos.
Se essa pesquisa parasse, seria uma "perda significativa", diz ele.
"A perspectiva de cientistas entrarem em greve porque não estão sendo ouvidos não é uma grande ideia.
"Acho que o argumento é bastante claro de que os ataques científicos anteriores foram amplamente ignorados pelo governo."
Mas ele também não está descartando as frustrações dos cientistas.
Em vez disso, ele diz que o caminho a seguir é que os cientistas se envolvam mais com os formuladores de políticas e que eles descubram como intervir de "formas construtivas".
"Ser cientista e comunicador hoje em dia é um papel muito complexo, principalmente se você também se envolver com a política", diz ele.
"Da mesma forma, um formulador de políticas de alto nível lidando com as mudanças climáticas... esse é um papel extraordinariamente complexo, principalmente quando você tem um ambiente político muito intervencionista.
"Então eu acho que compreensão e respeito são cruciais para ter um relacionamento mais produtivo."
— Que opções nos restam?
Mas o professor Smith diz que essa abordagem foi feita.
"As pessoas dizem 'bem, você precisa de melhores parcerias entre governos e sociedade', mas nós tentamos isso também. Então, que opções nos restam?"
O processo de relatório do IPCC se move em ciclos. Estamos no final do sexto ciclo, que provavelmente terminará no início de 2023.
O professor Smith diz que entende que a ideia de uma greve é ​​intragável e que adoraria que alguém tivesse uma ideia melhor, mas que não há tempo para esperar e ver o que acontece.
"Precisamos de um sétimo [ciclo de avaliação]? Vamos esperar mais sete anos para ouvir novamente como as coisas são terríveis?
"Nós simplesmente não temos tempo para isso. Precisamos de uma ação radical e transformadora agora.
"Precisamos apenas fazer uma pausa no que estamos fazendo. Não tentamos antes. Pode não funcionar, mas talvez funcione."
O professor Howden diz que não é contra os cientistas serem ativistas, desde que tenham certeza de que é isso que estão fazendo.
Mas ele acha que os cientistas climáticos e o IPCC já conseguiram grandes coisas e podem conseguir ainda mais continuando a fornecer dados de uma maneira "não prescritiva de políticas".
"Acho que há um grande papel para alguns cientistas se envolverem com o público e no processo político. Mas de uma forma de conselheiro confiável.
“Eu não acho que a comunidade científica deveria estar lá fazendo lobby, a menos que eles estejam deliberadamente se rotulando como lobistas”.
Mas o professor Glavovic diz que a ideia de que a ciência é um empreendimento completamente objetivo e sem valores é um mito.
"A ciência é um empreendimento onde as escolhas são feitas sobre as questões que exploramos, as metodologias que usamos", diz ele.
"Você pode ter ciência socialmente relevante e significativa conduzida com paixão e compromisso de uma maneira robusta, replicável e significativa... isso não reduz o mérito e o valor da ciência."
Os autores não pretendem encerrar completamente o IPCC. Em vez disso, eles dizem que seu artigo foi concebido como uma “provocação” – para iniciar a conversa a fim de reimaginar como o IPCC pode ter o maior impacto.
No sentido de iniciar uma conversa, quase um ano após a publicação de seu artigo, é justo dizer que eles conseguiram e que a conversa está em andamento.
Mas o professor Glavovic diz que serão necessárias ações radicais da comunidade científica para fazer as grandes mudanças necessárias para chegar aos formuladores de políticas.
"Não tenho ilusões - não serão necessários três homens brancos para fazer a diferença nisso - não somos tão imodestos e arrogantes a ponto de assumir que poderíamos ser uma voz para a comunidade científica global da mudança climática.
“Gostaria de ver mulheres e homens do Sul Global e diversos cenários liderando uma carga que realmente mobilize uma massa crítica da comunidade científica das mudanças climáticas”.
Quanto a controlar as mudanças climáticas, ele diz que exigirá uma ação radical de todos.
"Vai exigir mobilização e ação em várias frentes e haverá alguns momentos cruciais de destaque, que você só perceberá com o benefício da retrospectiva.
"É o Rosa Parks - recusando-se a descer de um assento num autocarro."

Fonte: ABC

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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O que é a hipótese de Gaia, que defende que a Terra 'está viva'



Ela foi considerada por mais de quatro décadas uma das teorias mais belas (e criticadas) da ecologia.

Na década de 1970, James Lovelock, um biólogo britânico, propôs uma hipótese que causou escândalo, admiração e suspeita em proporções iguais.

Ele disse que a Terra estava viva.

Lovelock, que trabalhava na época para a NASA (agência espacial dos EUA) e era considerado um cientista respeitável, não se embasava em crenças animistas.

Ele também foi controverso entre seus colegas cientistas ambientais e ativistas porque defendia a energia nuclear.

E embora tenha a chamado de hipótese de Gaia, referindo-se à deusa primordial da mitologia grega, ele embasava suas ideias em paradigmas científicos.

Com sua pesquisa, vislumbrou um sistema que refletia o equilíbrio (e a relação) entre os seres vivos e o resto do planeta.

A hipótese, que estudos posteriores transformaram em teoria, se tornou popular nas universidades do mundo todo e foi central para o entendimento sobre o impacto humano no clima.

E embora tenha sido questionada à exaustão, também consagrou seu principal teórico. Ele morreu em 26 de julho, no mesmo dia em que completou 103 anos.

Lovelock morreu aos 103 anos de idade

Considerado um dos biólogos mais importantes do século 20 no Reino Unido, Lovelock realizou também uma contribuição especial por seu descobrimento de que era possível medir a concentração atmosférica de clorofluorcarbonos, os compostos que eram usados para esfriar geladeiras e o ar-condicionado.

Isso levou ao descobrimento do buraco na camada de ozônio e à proibição dos clorofluorocarbonos em 1987.

Ele também criou um dispositivo ainda usado para medir a propagação de compostos tóxicos criados por humanos na natureza, o que cimentou suas teorias sobre a ação humana sobre o planeta.

No entanto, o que o deixou mais conhecido internacionalmente foi sua hipótese que começou a ver a vida na Terra como um sistema em que cada ser vivo tinha um papel: Gaia.

Da astronomia à ecologia

Lovelock baseou sua hipótese inicial em sua observação científica da atmosfera da Terra e de Marte.

Naquela época, nos anos 1960, ele trabalhava na equipe de exploração espacial da Nasa no Laboratório de Propulsão a Jato, em Pasadena, Califórnia.

Como especialista na composição química dos planetas, Lovelock se perguntou por que nossa atmosfera era tão estável.

Ele considerou que, diferentemente de Marte, algo deveria estar regulando o calor, o oxigênio, o nitrogênio e outros componentes essenciais.

"A vida na superfície é o que deve estar fazendo a regulação", escreveu com a microbióloga americana Lynn Margulis, que foi coautora em seu estudo sobre Gaia.


Lovelock e Margulis avaliaram que os organismos e seu entorno inorgânico na Terra estavam estreitamente integrados para formar um sistema complexo, único e autorregulado.

Isso era, por sua vez, o que mantinha as condições para o desenvolvimento da vida.

"O clima e a composição química do meio ambiente da superfície da Terra estão e têm estado regulados num estado estável para a biota (o conjunto dos organismos vivos)", dizia a pesquisa.

Lovelock trabalhou em sua hipótese inicial por anos e logo recuperou modelos e dados de outras ciências para tentar criar uma teoria.

Foi assim que desenvolveu o modelo chamado "Daisyworld" (sobre como crescem as margaridas num mundo imaginário), que serviu para ilustrar como pode funcionar Gaia.

Segundo a teoria, num planeta imaginário, similar em muitos aspectos à Terra, só crescem margaridas, com abundância de nutrientes e água.

Mas as margaridas brancas e negras competem por espaço.

Ainda que ambos os tipos de margaridas cresçam melhor à mesma temperatura, as margaridas negras absorvem mais calor que as brancas. Quando o sol brilha mais intensamente, aquecendo o planeta, as margaridas brancas se estendem, e o planeta esfria novamente.


Enquanto isso, quando diminui a luminosidade do sol, as margaridas se esticam, aquecendo o planeta.

Dessa maneira, as interações competitivas entre as margaridas proporcionam um mecanismo homeostático para o planeta em seu conjunto.

Em seu livro O futuro do clima mundial, Kendal McGuffie  e Ann Henderson-Sellers explicam que esse modelo ofereceu um "marco matemárico" inicial para compreender a autorregulação da vida na Terra e que tornou Gaia "a teoria ecológica mais ambiciosa baseada na auto-organização".

A fama da teoria fez com que, menos de uma década após ter sido exposta, cientistas do mundo todo tenham se reunido na Universidade de Massachusetts na Primeira Conferência sobre a Hipótese Gaia, cujo tema era: "A Terra é um organismo vivo?"

A hipótese, no entanto, não recebeu uma chancela universal no universo científico.

Muitos pesquisadores a questionaram, fazendo com que Lovelock fosse desenvolvendo novos experimentos e modificações na teoria ao longo dos anos.

Os principais críticos afirmam que a noção de que há um equilíbrio entre os organismos vai contra os princípios da seleção natural. Dizem ainda que a teoria tem um componente teleológico (concebe um fim ou uma meta: a continuação da vida).

Muitos cientistas consideram ainda que ela tem pouco embasamento ou está em desacordo com as evidências disponíveis, a tal ponto que o pesquisador Tyler Volk a classificou de "pensamento otimista".

Mas além dos argumentos favoráveis ou contrários à teoria, uma de suas inovações foi o lugar que ela deu aos humanos dentro desse sistema e como nos apresenta como uma das principais ameaças para o equilíbrio natural da Terra.

"Estamos jogando um jogo muito perigoso. Estamos interferindo diretamente nos principais mecanismos de regulação de Gaia", disse Lovelock à BBC em 2020.

"Minha razão principal para não me aposentar é que, como a maioria de vocês, estou profundamente preocupado com a probabilidade de uma mudança climática enormemente danosa e a necessidade de fazer algo a respeito agora", acrescentou.

Fonte: BBC (BR)

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quarta-feira, 18 de maio de 2022

O mundo está "a aproximar-se cada vez mais da catástrofe climática". O novo alerta de Guterres



Quatro marcadores-chave das alterações climáticas bateram novos recordes em 2021, revelou esta quarta-feira a Organização das Nações Unidas (ONU), avisando que o sistema global de energia está a conduzir a humanidade para a catástrofe.

As concentrações de gases com efeito de estufa, o aumento do nível do mar, a temperatura e a acidificação dos oceanos atingiram novos recordes no ano passado, segundo refere a Organização Meteorológica Mundial (OMM) no relatório "Estado do Clima Global em 2021".

Este documento é "uma ladainha lamentável do fracasso da humanidade em combater as mudanças climáticas", considerou secretário-geral da ONU, António Guterres.

“O sistema global de energia está quebrado e aproxima-nos cada vez mais da catástrofe climática”, alertou Guterres, pedindo para se “acabar com a poluição por combustíveis fósseis e acelerar a transição para energia renovável”, antes de se incinerar o planeta.

A OMM refere que a atividade humana está a provocar mudanças à escala planetária: na terra, no oceano e na atmosfera, com ramificações prejudiciais e duradouras para os ecossistemas.

O relatório desta organização confirmou que os últimos sete anos foram os sete anos mais quentes alguma vez registados.

Os fenómenos climáticos relacionados com o La Nina no início e no final de 2021 tiveram um efeito assustador nas temperaturas globais no ano passado. Mas, apesar disso, 2021 continua a ser um dos anos mais quentes já registados, com a temperatura média global a rondar os 1,11 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O Acordo Climático de Paris de 2015 visava limitar o aquecimento global a +1,5°C em comparação com a era pré-industrial.

“O nosso clima está a mudar diante de nossos olhos”, disse o chefe da OMM, Petteri Taalas, sublinhando: "O calor retido pelos gases com efeito de estufa produzidos pelo homem aquecerá o planeta por muitas gerações”.

“O aumento do nível do mar, o calor e a acidificação dos oceanos continuarão por centenas de anos. A menos que sejam inventadas maneiras de remover o carbono da atmosfera", acrescentou.

Os quatro indicadores-chave da mudança climática "constroem uma imagem coerente de um mundo em aquecimento que afeta todas as partes do planeta", diz o relatório da OMM

As concentrações de gases com efeito estufa atingiram uma nova alta global em 2020, quando a concentração de dióxido de carbono (CO2) atingiu 413,2 partes por milhão (ppm) em todo o mundo, ou 149% dos níveis pré-industriais.

Os dados indicam que estes gases continuaram a aumentar em 2021 e no início de 2022, com a concentração média mensal de CO2 em Mona Loa, no Havai, atingindo 416,45 ppm em abril de 2020, 419,05 ppm em abril de 2021 e 420,23 ppm em abril de 2022, de acordo com o relatório.

O nível médio global do mar também atingiu um novo recorde em 2021, depois de subir uma média de 4,5 milímetros por ano de 2013 a 2021, informa o documento.

O aumento médio entre 1993 e 2002 tinha sido de 2,1 mm por ano, sendo o aumento entre os dois períodos "principalmente devido à perda acelerada de massa de gelo das calotas polares", acrescenta.

A temperatura do oceano também atingiu um recorde no ano passado, superando o valor de 2020, de acordo com o relatório. Espera-se que os primeiros 2.000 metros de profundidade do oceano continuem a aquecer no futuro - "uma mudança irreversível em escalas de tempo de séculos a milénios" - segundo a OMM, que sublinha que o calor penetrou cada vez mais fundo.

O oceano absorve cerca de 23% das emissões anuais de CO2 produzidas pelo homem na atmosfera. Embora retarde o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, este último reage com a água do mar e leva à acidificação dos oceanos.

Enquanto isso, o relatório aponta que o buraco na camada de ozono da Antártida é "invulgarmente profundo e extenso" com 24,8 milhões de quilómetros quadrados em 2021, impulsionado por um vórtice polar forte e estável.

António Guterres propôs cinco ações para iniciar a transição para as energias renováveis “antes que seja tarde”: acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis, triplicar o investimento em energias renováveis, reduzir a burocracia, garantir o fornecimento de matérias-primas para tecnologias de energias renováveis e tornar essas tecnologias - como o armazenamento de baterias - bens públicos globais disponíveis gratuitamente.

"Se agirmos juntos, a transformação das energias renováveis pode ser o projeto de paz do século 21", disse Guterres.

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sábado, 29 de janeiro de 2022

Novo estudo aponta que a poluição química já ultrapassou o limite seguro



Uma equipa de cientistas avaliou o impacto no sistema terrestre da poluição química e chegou à conclusão de que já se ultrapassou o limite seguro planetário para a humanidade. Segundo os mesmos, a produção de produtos químicos já teve um aumento 50 vezes superior desde 1950, e prevê-se que até 2050 este número triplique. Em causa está a produção e libertação incessável de poluentes no meio ambiente, que para os especialistas, excede qualquer hipótese de avaliar os riscos a nível regional e global, mas também de os controlar.

O estudo Centro de Resiliência de Estocolmo, da Universidade de Estocolmo, revela que existem 350 mil diferentes produtos químicos a ser fabricados no mercado, entre eles plásticos, antibióticos, e pesticidas. Os limites identificados que mantém o Planeta Terra estável passam pela camada de ozono, biodiversidade, emissões de gases com efeito de estufa (GEE), acidificação dos oceanos, entre outros, mas no que refere ao limite para este tipo de poluição e de outras novas entidades, o grupo não conseguiu quantificar.

Os produtos químicos afetam a saúde do planeta de diversas maneiras, e a sua produção e dispersão por todo o mundo continuam a aumentar. De acordo com o Centro, atualmente, a quantidade total dos plásticos supera em dobro a quantidade de todos os mamíferos vivos – e 80% dos plásticos já produzidos estão espalhados pelo meio ambiente.

“Alguns destes poluentes podem ser encontrados globalmente, do Ártico à Antártida, e podem ser extremamente persistentes”, refere a autora Bethanie Carney Almroth, da Universidade de Gotemburgo. “Precisamos de implementar um limite fixo na produção e libertação de produtos químicos.”

Para a investigadora Sarah Cornell, a economia circular é também um conceito necessário de aplicar. “Mudar para uma economia circular é realmente importante. Isto significa mudar materiais e produtos para que possam ser reutilizados e não desperdiçados, desenvolver produtos químicos e produtos para reciclagem, e melhorar a triagem de produtos químicos para a sua segurança e sustentabilidade ao longo de todo o caminho de impacto no sistema da Terra”.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

HFC: substituto do CFC, gás também traz impactos


O HFC é um gás de efeito estufa, que tem contribuído para a intensificação do aquecimento global, trazendo problemas graves ao planeta

Os hidrofluorcarbonetos (HFCs) são gases do efeito estufa fluorados artificiais que rapidamente se acumulam na atmosfera. Eles começaram a ser usados como substitutos dos CFCs para aparelhos de ar condicionado, refrigeração, retardadores de chamas, aerossóis e solventes. Apesar de representarem uma pequena fração dos atuais gases estufa, o impacto é particularmente forte no aquecimento atmosférico e, se não forem controlados, esses poluentes climáticos de vida curta poderão ser responsáveis por quase 20% da poluição climática até 2050.

O efeito estufa é um processo que faz com que o planeta se mantenha aquecido e, dessa forma, possibilita a existência de vida e não apenas de geleiras na Terra. Mas o grande perigo está na aceleração desse processo, provocado pela atividade humana. Atividades como o desmatamento de florestas e a emissão de gases de efeito estufa têm sido determinantes no desequilíbrio do balanço de energia do sistema atmosférico da Terra, gerando maior retenção de energia e o aquecimento global. O HFC faz parte do grupo de gases estufa libertados pela ação antrópica que aceleram o aumento na temperatura, embora seja usado para amenizar o impacto do CFC sobre a camada de ozono.

Quando se trata de mudanças climáticas, o dióxido de carbono é o grande vilão da história. Mas a emissão de outros gases, como é o caso do clorofluorcaboneto (CFC), também é responsável por tal aceleramento, uma vez que contribui para a destruição da camada de ozônio. Por conta disso, em 16 de setembro de 1987, foi assinado o Protocolo de Montreal – onde ficou acordado o banimento gradativo do CFC e sua substituição por outros gases que não agredissem a camada de ozônio.

A partir desse novo cenário, o mercado teve de se adaptar à nova realidade e buscar alternativas. Passou-se a usar os clorofluorcarbonetos (HCFCs), que, assim como o CFC, são usados para refrigeração (freezers de supermercado, geladeiras, frigoríficos, etc.) e são bem menos nocivos à camada de ozônio, porém ainda causam danos. Posteriormente, os HCFCs foram substituídos pelos hidrofluorcarbonetos, os HFCs, que são livres de cloro e por isso não prejudicam a camada de ozonio.

Porém, o que parecia ser uma solução acabou, com o tempo, mostrando limitações. Os gases HFC interagem com os outros gases de efeito estufa, contribuindo para o desequilíbrio do aquecimento global.

Hidrofluorcarbonetos (HFC)

O lançamento dos hidrofluorcarbonetos na atmosfera ao longo da segunda metade do século XX foi um dos motivos do aumento desproporcional da temperatura da Terra (como atesta o vídeo ao fim da matéria). O potencial individual e coletivo dos HFCs para contribuir com mudanças climáticas na superfície terrestre pode ser conferido pela sua eficiência radioativa, força radioativa e/ou Potencial de Aquecimento Global (GWP, na sigla em inglês) – que é muito maior que o do dióxido de carbono.

Pesquisadores alertam que o aumento do uso do gás HFC pode complicar o problema em relação ao aquecimento global, gerando uma variedade de impactos potencialmente graves, como o derretimento de geleiras, elevação do nível dos mares e oceanos, prejuízo à agricultura, desertificação de áreas naturais, aumento de desastres naturais como furacões, tufões e ciclones, entre outros diversos entraves.

A expectativa é a de que, só nos Estados Unidos, o uso do HFC dobre até 2020 e triplique em 2030. Caso não haja mudanças na emissão desse gás, este será responsável por 20% das emissões globais de efeito estufa até a metade do século XXI. Isso significaria que a meta de limitar o aumento da temperatura na Terra 2°C acima dos índices do começo do século XX (como os cientistas recomendam) seria impossível de ser atingida.

Os gases HFC também podem influir na temperatura da estratosfera, atmosfera e troposfera, e são responsáveis por um aumento na temperatura da tropopausa tropical (camada intermediária entre estratosfera e a troposfera) de 0.4 Kelvin (K).

Se, por um lado, o buraco na camada de ozônio está diminuindo desde o Protocolo de Montreal, a temperatura do planeta tem aumentado descontroladamente nas últimas décadas por conta (entre outros fatores) da emissão dos chamados hidrocarbonetos halogenados (entre eles o CFC e o HFC).

Então, para erradicar este problema, foi fechado um acordo com quase 200 países em outubro de 2016, em Quigali, capital de Ruanda, que visa a eliminação progressiva dos hidrofluorocarbonos (HFC).

O calendário adotado prevê que um primeiro grupo de países, os chamados desenvolvidos, reduza sua produção e seu consumo de HFC em 10% antes do final de 2019 em relação aos níveis de 2011-2013, e 85% antes de 2036.

Um segundo grupo de países em vias de desenvolvimento, entre eles a China – o maior produtor mundial de HFC -, a África do Sul e o Brasil se comprometeram a iniciar sua transição em 2024. Deverão alcançar uma redução de 10% em relação aos níveis de 2020-2022 para 2029 e de 80% para 2045.

Um terceiro grupo de países em desenvolvimento, incluindo Índia, Paquistão, Irã e Iraque terá redução de 10% em relação ao período 2024-2026 em 2032 e de 85% em 2047.

Como os hidrofluorcarbonetos formam parte dos chamados poluentes climáticos de vida curta e permanecem na atmosfera por entre cinco e dez anos, especialistas acreditam que sua erradicação terá efeitos imediatos na redução do aquecimento global. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o acordo fechado em Quigali evitará um aumento global da temperatura até o final do século XXI de até 0,5°C.

Alternativas

Fica claro então que o gás HFC e outros gases que contribuem para o aquecimento global são motivo de preocupação, devendo-se equilibrar as necessidades humanas com a segurança ambiental.

Segundo Paula Tejón Carbajal, da ONG Greenpeace, o Acordo de Quigali só terá êxito se a comunidade internacional optar por soluções de mudança que preservem o meio ambiente.

Um dos resultados desse acordo foi uma confirmação de certos países participantes de financiarem um compromisso para essa transição. Além disso, diversas empresas europeias substituíram o uso de HFC por hidrocarbonetos de baixo potencial estufa, em especial o ciclopentano e o isobutano.

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