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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

domingo, 13 de outubro de 2024

Crise de dispersão de sementes pode afetar futuro das plantas na Europa


A dispersão de sementes é crucial para a persistência dos ecossistemas, mas as ameaças de extinção e alterações populacionais entre os animais que a realizam poderão impedir a recuperação das populações de plantas em declínio no continente europeu.

Um estudo da Universidade de Coimbra publicado na revista Science indica que 30% das espécies de plantas têm a maioria dos seus dispersores na categoria de elevada preocupação, noticiou na quinta-feira a agência Efe.

Os investigadores focaram-se na forma como a perda de espécies animais na região poderá afetar o processo de dispersão das sementes, uma vez que pouco se sabe sobre a forma como estas duplas dispersores-plantas são interrompidas pela perda de espécies.

A equipa, liderada pela investigadora Sara Beatriz Mendes, reviu a literatura sobre duplas de dispersão entre animais e plantas para reconstruir a primeira rede europeia de dispersão de sementes.

Um terço destas interações cruciais são altamente preocupantes, o que significa que as espécies nelas envolvidas estão listadas como quase ameaçadas, em perigo ou com populações em declínio, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Os dados indicam que cada espécie animal dispersou em média 13 espécies de plantas, enquanto cada espécie de planta teve em média nove dispersores, resume a revista.

O estudo "revela uma crise de dispersão de sementes em desenvolvimento na Europa" e destaca grandes lacunas de conhecimento em relação aos dispersores e ao estado de conservação das plantas cujas sementes são dispersas por animais, "o que exige um maior escrutínio e ação para conservar o serviço de dispersão de sementes", referiu a equipa.

Os investigadores reconhecem que existem lacunas significativas nos dados sobre as relações de dispersão, mas acreditam que as suas descobertas podem ser utilizadas para orientar os esforços de conservação para preservar as relações de dispersores de grande preocupação.

Este é o primeiro estudo abrangente sobre a vulnerabilidade das espécies dispersoras de sementes, realçou o investigador Daniel Montoya, do Centro Basco para as Alterações Climáticas (BC3), citado pelo Science Media Centre, uma plataforma de recursos científicos para jornalistas.

Os autores compilaram uma extensa base de dados de 11.414 interações entre 1.902 espécies de plantas e 455 espécies de animais dispersores de sementes, incluindo 283 aves, 85 artrópodes, 69 mamíferos, 11 répteis, 4 moluscos, 2 peixes e um verme anelídeo.

A perda da função de dispersão "reduz a capacidade de recuperação dos ecossistemas, um fator chave face à recente aprovação da Lei Europeia de Restauração", acrescentou Montoya.

O investigador salientou que os resultados do estudo podem subestimar a vulnerabilidade de algumas espécies dispersoras, para as quais não existe informação sobre as suas tendências populacionais e vulnerabilidade.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

O alerta severo de David Attenborough: Deixar florir os relvados. Parar os cortes até ao fim da floração.


O alerta severo de David Attenborough para evitar tarefas comuns de jardinagem até julho.
Sir David Attenborough exortou os britânicos a 'atrasar o corte' de seus relvados - e disse às pessoas que essa tarefa comum de jardinagem não deveria ocorrer até meados de julho.
O raciocínio por trás deste apelo não é apenas estético, mas também relacionado ao bem-estar de nossas populações de insetos. Insetos como borboletas, abelhas e vespas dependem fortemente de margaridas e outras plantas que crescem entre as lâminas da relva para polinizar e sustentar seus ecossistemas.
Sir David corroborou essas advertências no documentário sobre a natureza das Ilhas Selvagens da BBC. Ele destacou que cortar a grama alta pode perturbar e até matar esses insetos cruciais, que são parte integrante do ecossistema mundial.
Ele disse: “Nenhum lugar aqui é mais rico em flores silvestres e insetos polinizadores do que os nossos tradicionais prados de feno. Infelizmente, nos últimos 60 anos, perdemos 97% deste precioso habitat."

Saber mais:

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Câmara de Coimbra aposta na reconversão de relva para prados


A Câmara de Coimbra vai apostar na reconversão de relva nos espaços urbanos para prados, de modo a reduzir o consumo de água e para promover a polinização, afirmou o presidente do município.

“Queremos aumentar os prados e estender esta iniciativa a mais espaços da cidade”, afirmou o presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva, que falava aos jornalistas durante a apresentação de uma campanha lançada sexta-feira que procura sensibilizar as pessoas para a importância dos prados em meio urbano.

A campanha conta com placas explicativas em oito espaços verdes do concelho com prado em vez de relva.

“Este prado não está a ser cortado [ou regado]. É mesmo assim!”, lê-se numa das placas que salienta a importância do prado em vez da relva, por reduzir o consumo de água (está mais adaptado ao clima nacional) e potenciar a presença de insetos polinizadores.

A autarquia tem avançado com algumas ações de reconversão de relvado em prado, tendo o objetivo de continuar a aumentar as áreas com prado na cidade de Coimbra, disse José Manuel Silva.

“Temos de mudar a mentalidade das pessoas, que pensam [ao olhar para um prado] que isto está abandonado, mas é mesmo assim. Os prados são fundamentais para a resiliência das cidades e para uma Coimbra mais natural e mais verde”, vincou.

Segundo o autarca, a relva exige muito consumo de água e vários cortes ao longo do ano.

Recordou também a importância dos prados para promover a existência de insetos polinizadores.

“Sem polinizadores, não há vida no planeta. Temos de dar o nosso contributo”, salientou.

Também presente na sessão de apresentação da campanha, estava o vereador responsável pelos espaços verdes e jardins, Francisco Queiró, que defendeu, igualmente, a aposta nos prados.

“As pessoas preferem o que ao olho parece bonitinho e arranjadinho, que é o relvado. Mas os prados têm muito mais a ver com o nosso clima”, realçou.

Segundo o município, os prados nos espaços verdes urbanos são compostos por plantas nativas, adaptadas às condições climáticas locais, tendo um aspeto menos uniforme.

No outono e inverno, os prados “parecem relvados e estão verdes, na primavera, estão floridos e pujantes, enquanto na estação seca ficam amarelados”, explicou.

A campanha está inserida no Plano Municipal de Redução e Contingência para o consumo de água de rega dos espaços verdes para 2023.

O plano prevê uma redução de consumo de água de rega na ordem dos 10%.

sábado, 13 de maio de 2023

Abandone a sua pá, esqueça o fertilizante, ouça as ervas daninhas: o guia para uma jardinagem descontraída


Ansioso para colocar os seus canteiros de flores ou hortas em forma, agora que a primavera finalmente chegou? Não tão rápido! A vida é muito mais fácil quando você trabalha com a natureza e não contra ela

Depois de quase 30 anos de jardinagem, vários deles em boas instituições, como a Royal Horticultural Society e Kew Gardens, percebi que muito do que me ensinaram, se não está errado, também não está exatamente certo. Todo aquele esforço trabalhoso – capinar, fertilizar, cavar, cuidar e podar, selecionar e conformar – não está funcionando. Não pelas plantas, pelo solo ou pela comunidade ao seu redor, o que inclui você e eu. Culturas indígenas em todos os lugares basearam suas práticas em observar e honrar a ecologia, enquanto nós, no “mundo desenvolvido”, escrevemos nossas regras. Nossa tentativa de controlar a natureza tem perpetuado relações precárias com todos os seres do jardim, transformando tudo em uma espécie de batalha, ou regimes sem fim, seja ceifando, capinando, regando ou atacando algum bicho. É muito trabalho e hoje em dia muito mais do que estou preparado para fazer. Agora a primavera está finalmente se desenrolando, esta estação de crescimento, talvez, em vez de trabalhar em nossos jardins, todos pudéssemos relaxar um pouco, passar mais tempo olhando e ouvindo, esperando em vez de reagir, estando no jardim tanto quanto jardinando ativamente. Aqui está como é feito.

Deite fora a sua pá
Se você estiver minimamente interessado em jardinagem, já deve ter ouvido falar de “no dig”, no qual você evita sua pá e pega numa enxada. Em vez de revirar o solo, uma estrutura que levou centenas de milhões de anos para ser construída e, portanto, pensou muito sobre qual caminho deveria ser, você capina levemente ou “faz cócegas” no solo para remover quaisquer ervas daninhas indesejadas e deixa suas multidões de micróbios, fungos e insetos intactos, exatamente onde eles querem estar. Micróbios felizes tornam as raízes das plantas felizes, mais capazes de absorver nutrientes, combater pragas e doenças e resistir à seca. Conforme você continuar fazendo isso, haverá menos ervas daninhas para remover.

Todo solo tem seu banco de sementes de ervas daninhas: diz o ditado que uma semente de um ano são sete anos de ervas daninhas, mas na verdade são décadas para várias delas. Eles estão lá não para incomodá-lo, mas para agir como um colete salva-vidas para o solo. O solo exposto e livre de ervas daninhas é muito facilmente danificado ou erodido pelo clima: o sol o queima, o vento assola, a chuva o abate, compactando-o ou se vier um dilúvio, causando escoamento. Mais uma vez, aqueles vários milhões de anos de evolução não eram um sistema parado, mas avançando para um ponto de auto-resiliência. A grande maioria das sementes de ervas daninhas precisa de luz para germinar. Quanto mais você perturba o solo, abrindo-o, cavando coisas, mais luz você deixa entrar e mais o solo tem que correr para se proteger. Ele libera seu banco de sementes de ervas daninhas como uma camada protetora para manter o sistema unido.

Facilitar a remoção de ervas daninhas
Falando em ervas daninhas, é hora de abandonarmos a palavra completamente. Até mesmo a própria exposição de flores de Chelsea já está a redefinir  as ervas daninhas como “plantas heroicas”. Talvez possamos falar deles como pessoas comuns ou anciãos (eles existem há muito mais tempo do que nós), porque cada erva daninha no seu jardim está a tentar lhe dizer algo muito importante.

Quanto mais um tipo domina, mais alto é o sermão. Os dentes-de-leão estão dizendo que seu solo é um pouco compacto, com poucos nutrientes superficiais, principalmente cálcio e potássio; as urtigas dizem que há muito azoto na superfície (não tão bom quanto parece). Uma enxurrada de ervas daninhas anuais – erva-do-mato comum, morugem e agrião-menor – dizem que o seu solo é dominado por bactérias, enquanto cardos, docas, alcanetes verdes e confrei são outro sinal de que a superfície está com poucos nutrientes e apenas aqueles com raízes longas para minar a camada do subsolo pode prosperar. As silvas tendem a proliferar onde há excesso de azoto, mas a terra foi deixada em paz para que elas possam se desenvolver melhor. Há alguma evidência, porém, de que elas têm um papel potencial na regeneração natural de mudas de árvores: os cervos não vão pastar no meio de um matagal e, numa floresta, isso significa que as mudas de árvores não serão mordiscadas, enquanto os fungos micorrízicos vão explorar a rede da floresta para aumentar as mudas com crescimento suficiente para compensá-lo e sair do matagal.

Uma vez que você comece a estudar a ecologia de qualquer coisa que chamamos levianamente de erva daninha, você descobrirá que é fundamental na reciclagem de nutrientes, fornecendo alimento na forma de néctar e pólen para todos os tipos de insetos, em todos os tipos de clima. E não apenas para polinizadores, mas também para coisas como minadores de folhas que se transformam em micro-mariposas e moscas que se transformam em comida para bocas famintas saindo do ninho, que se transformam em comida para aves de rapina voando alto. "Eu sei", eu ouço você chorar. Claro que sim, mas aposto que você ainda sai capinando quando não precisa.

Muitas dessas pessoas comuns chegam para ajudar o solo. Se você diminuir a remoção de ervas daninhas (você ainda terá que intervir algumas vezes) e, em vez disso, prestar atenção ao solo, muitas das pessoas comuns rapidamente se tornarão pessoas ocasionais. Os anuais são um sinal de que o solo se tornou dominado por bactérias, tendo evoluído de planícies aluviais a prados e campos, e prosperando na companhia de bactérias. Eles não prosperam nos solos dominados por fungos das florestas. Os fungos prosperam em solo rico em carbono porque é isso que eles comem.

Se você tiver muitas ervas daninhas anuais, adicione mais carbono ao seu solo na forma de composto caseiro volumoso, papelão (pode ser triturado, pode ser colocado como uma folha, pode ser adicionado à sua compostagem doméstica) ou folhas marrons (você nem precisa fazer molde de folha). Você não precisa cavar - as minhocas irão incorporar tudo no solo. Ou seja, se você desistiu de sua pá porque uma das maiores ameaças às minhocas é nosso hábito de arar e cavar, em parte porque se você for cortado ao meio, não volta a crescer e porque os túneis de minhocas têm sua própria bela arquitetura que suporta o solo, mas não se eles desabaram.

Abrace a podridão e a morte
'Se uma coisa prolifera em um sistema natural, outra coisa virá para aproveitar esta oportunidade.' 

Então, deitamos fora a pá, consideravelmente afrouxada na capina; agora é hora de abrir mão da arrumação. Todos nós fazemos isso, removemos uma folha amarelada ou mordiscada, varremos as folhas gastas e pegamos gravetos, podamos os mortos e moribundos. Em parte porque a ideia era que todo esse material abrigasse lesmas, outras pragas e doenças. Pode, mas a praga de uma alma é o jantar de outra. É verdade que as lesmas adoram uma pilha de folhas húmidas e levemente apodrecidas, mas também os escaravelhos que as caçam.

Esta história se repete continuamente: se uma coisa prolifera num sistema natural, outra coisa, às vezes muitas coisas, virá para aproveitar essa oportunidade, para restaurar o equilíbrio. Um jardim que consegue encontrar esse equilíbrio não tem problemas com pragas ou doenças – tem seres, que vivem e morrem, às vezes prosperando, mas raramente à custa de todo o sistema. Esse acto de equilíbrio leva tempo, vários anos ou mais, mas eu prometo a você: até as lesmas se acalmam. Apodrecimento, doenças, pragas são apenas o sistema de reciclagem da Terra. Não é um grande ato de fé confiar no tempo. As plantas existem há muito mais tempo do que jardinagem, com muito tempo para trabalhar nas nuances da reciprocidade.

Pare de perseguir o crescimento rápido
Desde a II Guerra Mundial, temos adorado falsamente o azoto e o fósforo como reis no jogo dos fertilizantes. Os fertilizantes sintéticos, uma ressaca muito ruim da fabricação de bombas, nos levaram a acreditar que poderíamos manipular o sistema. Usá-los significava que os agricultores podiam transformar cada pedacinho de solo num campo, pelo menos por um tempo, e isso se refletiu na maneira como jardinávamos.

Há um debate muito mais amplo sobre o uso excessivo de fertilizantes , em particular o azoto, na agricultura, mas isso está fora de nosso controle. O jardim não é.

Não há necessidade de produtos químicos manufaturados de qualquer tipo aqui. Em primeiro lugar, todos os solos diferem, mas os fertilizantes sintéticos, particularmente os vendidos a jardineiros, adoptam uma abordagem de tamanho único. Independentemente de onde você esteja, você aplica a mesma quantidade de alimento vegetal. Estes fertilizantes sintéticos não ficam in situ; eles fogem. E há evidências de que, com o tempo, eles podem esgotar o carbono armazenado dos solos , reduzindo a fertilidade, mesmo que a matéria orgânica ainda seja adicionada. Em resumo, se você compra fertilizantes, está pagando por ganhos de curto prazo. O composto caseiro é gratuito e vai construir o seu solo, ajudando a armazenar carbono e a alimentar as suas plantas. Mesmo se você fizer isso muito mal.

Composto in situ

Chega de trabalho pesado... deixe o seu solo fazer o trabalho pesado 

Se você deseja uma abordagem ainda mais despreocupada, pode fazer a maior parte da compostagem sem espalhar coisas. Não limpe as suas colheitas gastas, deixe os caules e as folhas da abóbora, derrube os pés velhos de tomate e feijão e deixe tudo na terra. Você pode cobri-lo para acelerar as coisas - os jardineiros tendem a usar plástico preto por conveniência, mas o papelão é abundante, gratuito e fácil o suficiente para um pequeno jardim. Coberto ou não, permite que os resíduos da colheita voltem direto para o lugar de onde vieram. Se você quiser plantar de volta no espaço que acabou de colher ou limpar, tente cortar, aparar, triturar ou cortar manualmente as colheitas usadas e plantar diretamente nelas. É mais rápido, evita carregar coisas para a pilha de compostagem e vice-versa e cria um solo maravilhoso e friável. Toda aquela noção de capinar e ajuntar o solo para fazer uma boa lavoura para crescer? Acontece que é melhor feito pelo sistema do solo do que pelo seu suor.

Não estou sugerindo que devamos desistir do composto. Ainda é a melhor maneira de lidar com a matéria orgânica doméstica, seja restos de comida, papel e papelão, pêlos de animais, etc. Os métodos de solo podem levá-lo a um solo mais rico com menos esforço e menos custo. E se você trouxer composto, nunca, nunca use turfa. Estamos a destruir preciosos habitats de turfa que precisamos para armazenamento de carbono, água limpa e gestão de enchentes. Os seres vivos que vivem em turfeiras não querem viver em mais nenhum outro lugar, então não vamos destruir a sua casa pelas idiotices da jardinagem.

Incentive a promiscuidade das plantas
Finalmente, vamos abraçar o diverso, o ligeiramente diferente, o variável em nossas flores e alimentos. Durante milénios, selecionamos e cultivamos plantas para que elas nos beneficiem – esta é a nossa história de origem. Mas, por muito tempo, esse foi um processo descontraído de deixar os polinizadores trabalharem, guardando sementes, crescendo e percebendo o que funcionava melhor nas condições em que você estava. É conhecido, tecnicamente, como criando um landrace, uma cultivar antiga que é variável, muitas vezes contendo muitos alelos (formas de genes) que não estão presentes nas cultivares modernas altamente cultivadas. A Jardinagem Landrace é o oposto: semelhante a uma orgia de plantas, você permite que todas as suas variedades de cenoura, ou o que quer que esteja cultivando, se polinizem entre si para criar uma população reprodutora diversificada. É uma estratégia de sobrevivência que diversifica o pool genético, tornando-o melhor preparado para o futuro do que é algo altamente criado.

'Não sabemos para onde estamos indo, mas é melhor irmos preparados com um amplo pool genético.' 

O resultado é uma beterraba ou um feijão ou uma flor que não é uniforme; à medida que os diferentes alelos desempenham sua expressão, uma raça varia em cor, tamanho, textura e até sabor. Qualquer um pode se tornar um jardineiro Land Race . É uma experiência divertida de mais de cinco anos que exige muito pouco esforço e o recompensará com vegetais e flores que funcionam inteiramente para o seu sistema de cultivo e solo. Não quer passar o verão todo regando excessivamente (posso lembrar como o verão passado foi quente)? Crie uma folha verde que não precise dela. Tem solo pobre? Crie uma batata que adora. Quer um tomate com gosto de alguma coisa, mas não se importa com uma geada tardia? É tudo possível.

Semeie todas as variedades nomeadas que tenham as características que deseja, cultive-as e, com a ajuda das abelhas, promova a promiscuidade e deixe-as fazer a polinização cruzada. Selecione e salve sementes apenas daquelas que se dão bem em seu solo. Comece novamente na próxima primavera, semeando a sua semente salva. Até a metade pode não sobreviver, mas você terá muitas sementes, então não importa. Deixe os polinizadores nas novas plantas, selecione as sementes daquelas que estão funcionando e continue. Em algumas temporadas, você pode ter alho totalmente adaptado ao seu solo – pode levar mais alguns anos para encontrar aquela abóbora ou tomate perfeito.

Não sabemos para onde estamos indo no que diz respeito ao nosso futuro neste planeta, mas podemos ir preparados com um amplo pool genético, em relação às nossas plantas populares comuns e as suas comunidades, maravilhados com os nossos insetos, fascinados pelos nossos amigos fungos, com os nossos solos e as nossas energias reabastecidas. E como qualquer grupo de amizade, isso é feito melhor saindo, relaxando e aproveitando a companhia um do outro.

Em tudo isso, não estou defendendo a desistência da jardinagem, mas mudando a perspectiva do que precisa ser feito. Se o dente-de-leão, as azedas ou as amoras não estiverem no caminho que esperava, deixe-as. Se a planta cair numa orgia de pulgões, deixe-a para algum outro ser do jardim limpá-la. Deixe as plantas morrerem no lugar, aprenda a observar e observar antes de fazer qualquer movimento. Você verá que a natureza está muito mais disposta a ajudar do que a causar problemas.

Para saber mais:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Para onde foram todos os pardais? Culpe os pesticidas de jardim


Costumo imaginar que a maioria das pessoas que ama seus jardins também ama a vida selvagem e deseja fazer o possível para ajudá-la a prosperar.

Claro, isso não é inteiramente verdade. Algumas pessoas adoram um jardim com um gramado falso. Alguns não se importam com o que é necessário para garantir que sua horta esteja livre de ervas daninhas e pragas.

Mas a maioria de nós realmente se importa - e se você é uma dessas pessoas e ainda usa herbicida e pesticida, um novo estudo de pesquisadores da Universidade de Sussex certamente fará você pensar novamente. O relatório foi intitulado “Qualidade do habitat, urbanização e pesticidas influenciam a abundância e riqueza de pássaros em jardins” e destacou os efeitos negativos dos pesticidas nas espécies de pássaros.

Descobriu-se, por exemplo, que a abundância média de pardal-doméstico era 12,1% menor em jardins que aplicavam qualquer pesticida, 24,9% menor com glifosato e 38,6% menor com metaldeído.


Como seu autor, Dave Goulson (que também escreveu um livro de alerta sobre o “apocalipse dos insetos”, Silent Earth) resumiu a importância do relatório: “Agora há evidências esmagadoras de que os pesticidas prejudicam a vida selvagem e o meio ambiente.

“Esses produtos químicos simplesmente não são necessários em nossos jardins. Por que pulverizaríamos veneno onde nossos filhos e animais de estimação brincam? Devemos simplesmente proibir o uso de pesticidas urbanos e domésticos, seguindo o exemplo da França”.

Antes comuns, os pardais caíram 70% no Reino Unido. Enquanto isso, o uso de pesticidas de jardim continua onipresente. O estudo constatou que 32% dos jardins participantes usavam pesticidas – embora as taxas de uso fora desse grupo de observação de pássaros autosselecionado provavelmente sejam mais altas. Uma pesquisa online de 2019 do Health and Safety Executive (HSE) do Reino Unido descobriu que, dos jardineiros pesquisados, 42,8% usavam pesticidas.

O pesticida mais amplamente utilizado no estudo de Goulson foi o glifosato. A chamada para proibir este organofosforado não é, obviamente, uma notícia recente. Outros países já o proibiram e a OMS em 2015 o descreveu como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Talvez, no entanto, o que devemos prestar mais atenção seja o seu impacto sobre os insetos. O glifosato, embora seja um herbicida, inibe a capacidade das abelhas de manter suas colónias na temperatura certa.

Foi demonstrado que afeta o sistema imunológico dos insetos e prejudica o microbioma intestinal das abelhas. Os insetos alimentam a maioria dos pássaros e morcegos. Eles são polinizadores e recicladores. O que prejudica a biodiversidade de insetos prejudica a todos nós.

O estudo de Goulson se soma a um corpo de pesquisa que sugere que devemos observar o impacto indireto de um produto químico – sua redução, por exemplo, na disponibilidade de alimentos para pássaros – bem como seus efeitos diretos.

Ainda assim, nós no Reino Unido estamos muito longe de bani-lo até mesmo dos jardins. O Roundup contendo glifosato ainda é vendido em Wickes e Homebase. The Range vende um herbicida glifosato concentrado. Eu poderia continuar com a lista, mas agora corro o risco de soar como um fornecedor querendo ligá-lo a revendedores exatamente das substâncias que não quero que você compre.

Não só isso, mas este produto químico parece estar disponível no Reino Unido por alguns anos, apesar de ser proibido em outros países. A razão para isso é que, após o Brexit, como parte do processo de aprovação, todos os pesticidas com vencimento antes de dezembro de 2023 foram prorrogados por três anos, até 2026.

Um relatório da Ferret no ano passado descobriu que todos os conselhos escoceses ainda usavam glifosato. Nos 31 (de 32) conselhos que responderam ao seu pedido de liberdade de informação, eles descobriram que 40.250 litros do herbicida foram usados. Mais de 18.000 litros foram aplicados pelos maiores usuários, Glasgow, Edimburgo, Fife, Aberdeenshire e Aberdeen City.

Enquanto isso, outros pesticidas também foram associados, por meio do estudo de Goulson, à queda no número de pássaros. Estes incluíram o inseticida acetamiprid, o inseticida deltametrina e o produto químico encontrado em pellets de lesma, metaldeído.

A boa notícia é que os grânulos de balas de metaldeído foram proibidos de vender ou usar no ano passado.

Mas e a deltametrina? Sim, você ainda pode obtê-lo em produtos como Provanto Ultimate Fruit and Vegetable Bug Killer, disponível na Wilko e online.

Precisamos colocar a natureza no centro da jardinagem. Como disse Dave Goulson, “a vida selvagem do Reino Unido está em rápido declínio, mas nossos jardins podem ser um refúgio para muitas espécies. Nosso novo estudo mostra que a maneira como cultivamos tem uma enorme influência no número e na variedade de pássaros que vivem em nossos jardins”.

Alguns podem ficar tristes com a ideia de que o jardim perfeito e de fácil manutenção acabou. Mas é melhor um jardim selvagem e maravilhoso rico em biodiversidade do que um que parece perfeito, mas está morrendo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Universidade de Coimbra coordena projeto que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas

Fonte: Arc 2020

A Universidade de Coimbra (UC) está a coordenar um projeto internacional que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas, e que foi contemplado com um financiamento de cinco milhões de euros para os próximos quatro anos.

O projeto internacional GOOD – coordenado pela professora catedrática do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) Helena Freitas – envolve mais de uma dezena de países europeus, tendo como principal ambição promover a transição agroecológica para a gestão de infestantes e pragas em toda a Europa.

“Ao implementar uma abordagem multidisciplinar, o ‘Agroecology for Weeds – GOOD’ pretende criar, implementar e avaliar práticas, sistemas e protocolos de Gestão Agroecológica de infestantes e demonstrar, em condições reais, como a adoção desta gestão pode reduzir fortemente o uso de herbicidas sintéticos, aumentar a sustentabilidade, produtividade e resiliência dos sistemas agrícolas, explicou a coordenadora do projeto.

Em comunicado, a UC vincou que os sistemas agrícolas da União Europeia (UE) enfrentam desafios crescentes de sustentabilidade e produtividade, devido ao impacto das alterações climáticas em toda a cadeia de valor agroalimentar, agravado pelos efeitos negativos da pandemia causada pela covid-19 e, mais recentemente, pelas instabilidades geopolíticas.

“Estes são dois fatores que ameaçam a estabilidade do setor agrícola e enfatizam a necessidade de mudança na perspetiva/agenda agrícola europeia”, apontou Helena Freitas.

Segundo a UC, as infestantes são um dos fatores mais importantes para determinar a produtividade, rendimento e sustentabilidade da produção agrícolas, o que faz com que “os agricultores dependam fortemente de herbicidas devido à sua alta eficácia contra estas ervas nocivas, e constituem a segunda categoria de pesticidas mais vendida na UE-27, representando, de acordo com o EUROSTAT, 35% de todas as vendas de pesticidas em 2020”.

Perante esta realidade e reconhecendo a necessidade de acelerar a transição para sistemas alimentares sustentáveis, seguros e saudáveis, bem como para enfrentar a ameaça da crise da biodiversidade, várias iniciativas políticas da UE, incluindo o EU Green Deal e sua Farm to Fork (F2F) e Estratégias de Biodiversidade, definiram como meta reduzir em 50% o uso de pesticidas sintéticos até 2030.

Estas iniciativas serão transpostas para os Planos Estratégicos dos Estados-Membros da Política Agrícola Comum (PAC) através dos eco-esquemas.

De acordo com a coordenadora do projeto, a nova proposta sobre o uso sustentável de pesticidas pretende que o foco seja direcionado “para a promoção de adoção de métodos alternativos de controle de infestantes”.

“Ao fazê-lo, está a estabelecer-se, pela primeira vez, uma forte iniciativa para atingir os ambiciosos objetivos da Comissão Europeia com metas juridicamente vinculativas para a redução de pesticidas na EU”, acrescentou.

Helena Freitas defendeu ainda que os aspetos socioeconómicos que envolvem a gestão de ervas daninhas – simultaneamente com o papel dos agricultores na tomada de decisão, a preocupação pública com o uso e a resistência a pesticidas, a segurança alimentar, as questões gerais de saúde humana e as regulamentações governamentais resultantes – “exigem a redução da dependência excessiva de herbicidas”.

Para tal, é necessário o desenvolvimento de “abordagens de sistemas alternativos usando estratégias preventivas, mecânicas, culturais e biológicas, combinadas com ferramentas de agricultura de precisão num contexto de gestão agroecológica de infestantes”.

O projeto internacional GOOD vai desenvolver uma Rede Agroecológica, que engloba um ecossistema de 16 Living Labs (LLs), com a intenção de melhorar a cocriação de conhecimento, a decisão dos agricultores – criação e aceitação do utilizador final de abordagens.

“Esta rede de gestão será tanto uma rede física de LLs, permitindo aos utilizadores e parceiros a partilha de conhecimentos e experiências, como uma rede digital de todos os atores relevantes em toda a cadeia de valor agroalimentar, criando ligações com outros projetos e redes que operam no campo da agroecologia e gestão de pragas”, informou.

Para a concretização deste objetivo final, o projeto propõe diversas soluções focadas no “uso de plantas de cobertura em todos os laboratórios e o aumento de sua capacidade competitiva contra infestantes por meio de inoculação com microrganismos benéficos, a combinação de plantas de cobertura com outros métodos de Gestão agroecológica e soluções digitais num esquema integrado para a redução da pressão de pragas e uso de herbicidas nos 16 LLs”.

Coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional da FCTUC, o GOOD é um projeto Horizonte Europa e envolve, além de Portugal, países como França, Espanha, Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, Letónia, Países Baixos, Sérvia e Chipre.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Amália Rodrigues- Sou Filha das Ervas


Sou Filha das Ervas

Trago alecrim, trago ser amado
Cheira mais jasmim o resto que trago
Trago umas mezinhas para o coração
Foi tantas ervinhas que apanhei no chão

Sou filha das ervas, nelas me criei
Comendo-as azedas todas que encontrei
Atrás das formigas horas que passei
Sou filha das ervas e pouco mais sei

Rosa desfolhada, quem te desfolhou?
Foi a madrugada que por mim passou
Foi a madrugada que passou vaidosa
Deixou desfolhada a bonita rosa

Ramos de salgueiro, terra abrindo em flor
Amor verdadeiro é o meu amor
Papoila que grita no trigo doirado
Menina bonita, rainha do prado

Sou filha das ervas, nelas me criei
Sou filha das ervas e pouco mais sei


terça-feira, 27 de setembro de 2022

Sobre o ervado



A relva não tem valor ecológico (não cria biodiversidade), é uniforme e exigente em água potável. Em muitas regiões, as ervas do relvado estão a tornar-se invasoras.

As pradarias de relva podem interferir na saúde do gado [estudo]. O uso de herbicidas e glifosato no controle de ervas daninhas em relvados contaminam os lençóis freáticos  e na população das abelhas.  Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences expôs as abelhas a níveis da substância encontrados em jardins e plantações e descobriu que, quando ingerido pelas abelhas, o glifosato afeta o microbioma intestinal dos insetos e diminui a sua capacidade de combater infecções.    
      
O ervado é precisamente o oposto: é belo, são plantas silvestres autóctones, não exigem manutenção e geralmente com menos consumos de água potável, um bem escasso. 

Como requerem menos manutenção do que os relvados, ainda ajudam a poupar dinheiro.

As flores silvestres melhoram a produção agrícola e biodiversidade [estudo] e potenciam a população de polinizadores.

E assim somos amigos das abelhas [declínio global dos polinizadores ameaça os ecossistemas e a humanidade], com elas regressam mais insectos, as aves insectívoras regressam e ajudam no controlo de pragas e temos micro-ecossitemas instalados. 

Os polinizadores assumem um papel vital na manutenção das populações de plantas silvestres, que por sua vez albergam muitos outros organismos, e no fornecimento de alimento, com cerca de 75% das nossas culturas a beneficiar de serviços de polinização [webinar- a força dos polinizadores].

Ervas e ervas aromáticas 
Tê-las num jardim é 6x vantajoso: comestível, bom para a nossa saúde, zero de poluição dos lençóis freáticos, bom para os polinizadores, bonito e protector da nossa flora autóctone!

As ervas têm uma grande influência na nossa saúde. Também consideram-se importantes fazer refeições, infusões e tinturas. Elas ajudam na pressão arterial, reduzem os níveis elevados de colesterol e suprimem as alergias sazonais.
 
Os frutos, flores e muitos componentes vegetais são benéficos para a nossa saúde, sobretudo quando frescos.

O ervado também se insere nas medidas destinadas à redução do risco de inundação numa cidade. 

Para obter sementes nativas portuguesas contacte Sementes de Portugal.

Corredores de flores silvestres em estradas e auto-estradas
Em Kingston upon Hull, uma cidade no nordeste da Inglaterra, os separadores centrais e as bermas de muitas estradas, incluindo algumas das mais movimentadas, estão agora cobertos de milhares de flores silvestres.

Kingston upon Hull
Saber mais:

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Pollinators Are in Trouble. Here's How Transforming Your Lawn Into a Native Wildflower Habitat Can Help


Anyone can build a tiny habitat amidst the sea of green that is our lawns. Whether it’s a strip of right-of-way outside your urban apartment, your manicured suburban lawn or many mowed acres surrounding your house in the countryside, we’ve all got a little sod we could consider giving back to nature. Researchers have been learning more and more about declines in native pollinators, all while finding out the ways mowed, watered, fertilized and herbicided lawns can negatively affect the environment. That’s why University of Central Florida entomologist Barbara Sharanowski teamed up with ecologist Nash Turley to create the Lawn to Wildflowers program. They’ve developed an app to coach users on how to turn any patch of lawn into native wildflower habitat; it will also collect valuable data. Discover spoke with Sharanowski about the new project, which launched in May 2020.

Q: Some people might shrink at the thought of more bugs in their yard. What do you wish people knew about them?

BS: I’m an entomologist, and I love bugs. I think everybody should love bugs. Anyone can go out into their backyard and look at plants and see the interactions that they have with beneficial insects. Not all insects are something that you want to kill or you need to manage. Most of them are just doing their thing, and many are even helping us out, either controlling pests naturally, or pollinating our flowers and crops. So, I want people to go look at them, and be excited about bugs rather than afraid of them.

Q: We know that bees are in trouble. How will Lawn to Wildflowers help?
BS: Even though a lot of people talk about honeybees and colony collapse disorder, that’s a non-native, managed species in the U.S. What we really want to promote are native plants that improve biodiversity and abundance of native pollinators, of which there are thousands of species. Meanwhile, there are so many lawns in the world, and they use a lot of water and provide no resources for biodiversity. It’s kind of a waste, especially when even planting a small 6-foot-by-6-foot pollinator garden can really do a lot for the native insects. So we’re trying to get anyone who is able to convert part of their lawn into a pollinator habitat. That’s the whole end goal of the project: Create something that contributes to the greater health of the environment.

Q: What’s in the app?
BS: The app gives people information on how to convert a patch of lawn to wildflowers. There’s information like how to kill the grass in sustainable ways and what plants are best. We recommend using very different plants in different regions, but all you have to do is click your region to find the right mix for pollinators in your area. We also want people to collect data for us, because we want to know about pollinator abundance and diversity in the plots that they’ve made. So we’ve built a training game into the app, which teaches people to recognize major pollinator groups — things like honeybees versus bumblebees versus all kinds of other bees, plus butterflies, and some flies and beetles. People can play those games to study, and then once they get good enough at it, they can start to count pollinators in their plot and submit data we’ll use for our research.

Q: What will you do with the information the gardeners submit?
BS: We’ll use the data to study factors affecting pollinators in the U.S. and Canada. For instance, we want to see how different elements around the neighborhood, like how much natural area is nearby, impact pollinator abundance and diversity [meaning, population numbers and variety of species.]

Q: What are some of the biggest barriers to getting people to do this?
BS: We did a big mail-out survey and discovered that the largest barriers are time, and not knowing how to plant a pollinator garden. Time will obviously always be an issue, but we’re hoping the resources we provide in the app — like videos, howtos and other information — take away that latter barrier. The other persistent barriers are things like homeowners’ associations and local ordinances that might restrict unmowed areas. We can’t do a lot about those, but we’re hoping to motivate people to encourage their homeowners’ associations to provide an allowance for pollinator habitat, because it does beautify things. It doesn’t make it unkempt; it actually makes the neighborhood prettier and better serves biodiversity.

Fonte: Discover

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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Santiago estuda o uso de "ervas" na pavimentação para controlar a temperatura e influenciar o clima urbano

O Consórcio de Santiago e a Universidade (USC) mostraram que as plantas que habitam os pequenos espaços entre as pedras podem baixar a temperatura do solo em mais de 20 graus



O arquiteto do Consórcio Santiago, Ángel Panero, caminhava pela Praça do Obradoiro em Santiago de Compostela durante o confinamento quando notou algo que não existia antes. A ausência de turistas e cidadãos havia incentivado a natureza a se mostrar sem limites e ervas daninhas e musgos brotaram entre as pedras. "A visão era quase a de uma pradaria", resume Panero numa conversa com elDiario.es. Dessa imagem nasceu uma investigação, da qual participa o Grupo de Análise e Conservação da Biodiversidade da Universidade de Santiago (USC) e que rendeu uma descoberta surpreendente: as plantas que crescem nas juntas entre as lajes conseguem reduzir até 25 graus o solo temperatura.

Nasceu uma investigação que visa responder a uma questão transcendental nestes tempos de mudanças climáticas e ondas de calor: é possível baixar a temperatura de uma cidade com pequenas plantas? Os primeiros resultados são promissores.

Miguel Serrano é professor do Departamento de Botânica da Universidade de Compostela. Em conversa telefónica com esta redação, explica que a primeira encomenda que o Consórcio lhes fez limitou-se à elaboração de um catálogo de plantas presentes nas pedras de Santiago. Os técnicos do Consórcio queriam saber se puxar a grama entre as pedras durante os processos de limpeza era o mais correto ou se essas hortaliças poderiam oferecer algumas vantagens na gestão de água, CO2 e oxigénio. O Consórcio de Santiago é um órgão participado pela Câmara Municipal, a Xunta e o governo central e uma das suas funções é proteger a reabilitação e conservação do centro monumental da capital galega e os tesouros que esconde.

A grande surpresa
O que eles não sabiam no Consórcio Santiago era que pesquisadores universitários estavam prestes a fazer uma grande descoberta. Por meio de uma câmara termográfica, obtiveram a comprovação de que as plantas alteram a temperatura da pedra sobre a qual se depositam. O professor Miguel Serrano resume assim: “Decidimos usar a câmara para ver o que encontramos. O pavimento nu marcava temperaturas de 55 graus e a surpresa foi ver que onde havia plantas muito pequenas estabelecemos diferenças de 25 graus com registros de apenas 30 graus ao sol”.

Os pequenos espaços verdes entre as pedras podem parecer insuficientes para mudar as coisas, mas não são. “Tem que pensar que tem 60 mil azulejos quadrados dentro do centro histórico. Se juntarmos todas as juntas que separam as pedras, ainda estamos falando de um campo de futebol verde no meio da cidade. Não é negligenciável”, diz o arquiteto Ángel Panero.

O professor Miguel Serrano também está animado com as possibilidades de que as mudanças de temperatura geradas pelas plantas no solo possam ser percebidas mais acima, onde nós humanos respiramos: “Obviamente tem que haver algum efeito que possa ser detectado pelo homem. Em que nível e em que magnitude é algo que temos que testar mais tarde.

Encorajado pela surpresa que a primeira termografia produziu, Serrano publicou um tweet com a descoberta que logo se tornou viral entre a comunidade científica: “Os alemães retuitaram e os ingleses enviaram para o prefeito de Londres. Tem feito bastante sucesso." Na mesma linha, Panero assegura: “Não conheço nenhuma cidade que esteja trabalhando em algo aparentemente tão inconsequente como juntas de pedra, mas todos estão fazendo coisas sobre a importância do verde para a saúde dos cidadãos. Isso é perfeitamente exportável para todo o mundo”.

Plantas lumpen
Os nomes científicos de algumas das plantas que afetam a temperatura da pedra são os seguintes: Sagina procumbens, Plantago coronopus, Poa infirma, Oxalis corniculata. O professor Serrano assegura que essas espécies sempre foram consideradas como “plantas de caroço”, cujo valor era ignorado e que, quase sempre, foram condenadas a desaparecer, desenraizadas pelos serviços de limpeza das cidades. Uma das características destas plantas é que não necessitam de água sob as raízes e conseguem viver em circunstâncias muito extremas e até suportar o tráfego de veículos ou os passos de vizinhos e peregrinos. Os pesquisadores Patricia Sanmartín, Jesús Aboal e Sabela Balboa trabalham na equipa de Serrano para estudá-los.

O projeto promovido em Santiago propõe uma mudança de paradigma estético e uma reflexão sobre a necessidade de dispensar a pedra excessivamente limpa nos centros históricos. Aqueles que, até recentemente, lutavam diariamente para polir a cidade, agora valorizam outro caminho: incorporar o microverde urbano como parte da paisagem. Ángel Panero é um deles: “O verde está associado à vida e ao bem-estar do ser humano. Foi isso que nos motivou a trabalhar uma ideia à qual damos importância porque os tempos em que vivemos estão a ensinar-nos que as pequenas coisas são muito bonitas”.

Fonte: El Diario

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Em vez de pesticidas, usam-se cabras para comer plantas invasoras em Nova Iorque

Em Riverside Park, há cabras a comer plantas de espécies invasoras. Tudo para não se usar pesticidas.



Mais de uma dúzia de cabras viajaram até Riverside Park em Nova Iorque para comer ervas daninhas. O objectivo foi remover espécies invasoras sem utilizar produtos químicos.

Os visitantes felpudos chegaram a Manhattan vindos da quinta de GreenGoats em Rhineback, Nova Iorque, para devorar vegetação de tamanho excessivo, incluindo algumas espécies perigosas para os humanos, como a hera venenosa.

“Já viram esta encosta? Disseram-me que era a margem mais íngreme a Este de Palisades”, disse John Herrold, presidente interino e chefe executivo do Riverside Park Conservancy. “Imagina tentares equilibrar-te ao mesmo tempo que arrancas plantas invasoras para depois poderes plantar espécies nativas que seguram melhor o solo e permitem um melhor habitat para a vida selvagem.”

Com o seu apetite natural por vegetação verde, as cabras acabam por ser uma abordagem engenhosa para remover ervas, sem recorrer a químicos poluentes. “Elas adoram isto”, diz Herrold. “Comem heras venenosas, bagas de porcelana, rosas multiflora. E é disso que estamos a tentar ver-nos livres.”

Das 20 cabras, quatro vão fazer do Riverside Park o seu lar até ao fim de Setembro, continuando a comer por quase um hectare de parque.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Dia Mundial das Abelhas




Em homenagem às verdadeiras raínhas e reis das flores - os nossos insectos polinizadores !
Abelhas, abelhões, moscas, formigas, escaravelhos, besouros, borboletas...e Outros - observem com atenção - todas as flores silvestres, das maiores às mais pequeninas, têm o seu ou os seus polinizadores- porque também eles evoluíram com elas em tamanho forma, para se ajustarem garantirem a polinização, fecundação e formação dos frutos e sementes - sim ervas espontâneas com flor também dão seus frutos e sementes!

As abelhas são frequentemente associadas ao mel, mas o seu papel na sustentabilidade do planeta vai muito além da produção desse alimento. Elas são os polinizadores mais importantes do mundo, atuando como um pilar invisível que sustenta a biodiversidade, a segurança alimentar global e o equilíbrio económico de diversas nações. Compreender a sua importância é o primeiro passo para travar o declínio alarmante das suas populações.

O Motor da Biodiversidade e do Equilíbrio Ecológico
A reprodução da grande maioria das plantas de flor depende diretamente da polinização, o processo de transferência de pólen das partes masculinas para as partes femininas de uma flor. Ao voarem de flor em flor em busca de néctar e pólen, as abelhas realizam este serviço de forma incrivelmente eficiente. Sem elas, a arquitetura dos ecossistemas colapsaria: a flora nativa reduziria drasticamente, afetando a sobrevivência de aves, pequenos mamíferos e insetos que dependem dessas plantas para alimentação e abrigo. As abelhas garantem, portanto, a variabilidade genética e a sobrevivência das florestas e pastagens do nosso planeta.

Segurança Alimentar e o Impacto na Economia Global
No que toca à alimentação humana, o impacto das abelhas é direto e vital. Estima-se que cerca de um terço dos alimentos que consumimos dependa, em alguma medida, da polinização por insetos, sendo as abelhas as grandes protagonistas. Cultivos essenciais como maçãs, amêndoas, melões, café, cacau e uma enorme variedade de legumes e vegetais dependem crucialmente deste processo para gerarem frutos viáveis e de qualidade. Além da segurança alimentar, existe um impacto económico mensurável: milhares de milhões de euros no setor agrícola global estão diretamente vinculados ao trabalho gratuito destes polinizadores. A escassez de abelhas traduz-se, inevitavelmente, em quebras de produção e no encarecimento dos alimentos.

As Ameaças Modernas à Sobrevivência das Abelhas
Apesar da sua importância inequívoca, as populações de abelhas enfrentam uma crise sem precedentes. O declínio acentuado das colónias — muitas vezes associado ao Distúrbio do Colapso das Colónias (CCD) — é provocado por uma combinação de fatores humanos. O uso intensivo de pesticidas e inseticidas na agricultura moderna (especialmente os neonicotinoides) afeta o sistema nervoso das abelhas, desorientando-as e impedindo o seu regresso à colmeia. A este fator somam-se a perda de habitats naturais devido à urbanização e monoculturas, as alterações climáticas que desregulam o tempo de floração das plantas e a propagação de doenças e parasitas, como o ácaro Varroa destructor.

Conclusão e Caminhos para o Futuro
Garantir o futuro das abelhas é garantir o próprio futuro da humanidade. Proteger estes insetos exige uma mudança de paradigma que passa pela redução do uso de agroquímicos agressivos, pela criação de corredores ecológicos e pela preservação da flora local. Pequenas ações individuais, como plantar flores nativas em jardins e varandas ou apoiar a apicultura local e sustentável, também fazem a diferença. Proteger a abelha não é apenas um ato de conservação ambiental; é uma necessidade urgente de salvaguarda da vida na Terra.

Referências Bibliográficas
  1. Aizen, M. A., et al. (2009). How much does agriculture depend on pollinators? Lessons from long-term international data. Annals of Botany, 103(9), 1579-1588.
  2. FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). (2018). Why bees matter: The importance of bees and other pollinators for food and agriculture. Roma: FAO.
  3. Goulson, D., et al. (2015). Bee declines driven by combined stress from parasites, pesticides, and lack of flowers. Science, 347(6229), 1255957.
  4. Potts, S. G., et al. (2010). Global pollinator declines: trends, impacts and drivers. Trends in Ecology & Evolution, 25(6), 345-353.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Prados Floridos, uma Forma Sustentável de Cobertura do Solo


Os prados floridos são autênticos refúgios para as aves e excelentes oásis para os polinizadores como as nossas tão desejadas abelhas

O solo nu está sujeito à erosão, tem temperaturas mais elevadas e o aspeto estético é desagradável. Recorrer à instalação de um prado é promover a biodiversidade, controlar a erosão, regular a temperatura e estabelecer uma aparência harmoniosa.

Os prados podem ter diferentes funcionalidades e objetivos. Neste artigo, vamo-nos centrar nos prados ornamentais, usados em zonas residenciais.

Quando temos zonas de grande extensão, zonas de pouco uso ou zonas de pomar, é muito frequente usarmos prados como solução de cobertura de solo.

Contribuir para a sustentabilidade e controlo da erosão

Esta solução, além de embelezar o espaço, é uma opção económica e ecológica, uma vez que poderá servir de abrigo a pássaros e outros animais, reduz o gasto de água, aumenta a produção de oxigénio e contribui para a retenção de gases tóxicos das cidades.

Formam-se verdadeiros corredores verdes onde a fauna pode circular, nidificar e alimentar-se, favorecendo a biodiversidade.

O controlo da erosão e a taxa de infiltração de água nos solos também sofrem melhoramentos significativos.

Outro aspeto muito importante e que nos suscita preocupação é a criação de zonas para polinizadores, nomeadamente as abelhas, que se encontram em número reduzido e ameaçadas pelo aparecimento da vespa asiática.

Como escolher o tipo de prado adequado a cada situação?

É uma resposta que requer a avaliação de diferentes itens, tais como limitações de temperaturas, condições de solo, época de sementeira e disponibilidade de água.

A escolha das espécies, a sua consociação e percentagens na mistura merecem uma avaliação criteriosa e de conhecimento científico elaborado.

Assim irei dar alguns exemplos de espécies que se podem usar em prados e que se adaptam na generalidade bem no nosso País.

Espécies sem flor adequadas no controlo da erosão

As plantas utilizadas na fixação de taludes e controlo de fenómenos de erosão são: Festuca arundinacea; Dactylis glomerata; Festuca rubra rubra; Festuca rubra commutata; Festuca ovina duriuscula; Lolium multiflorum; Avena sativa.

Os trevos são também espécies usadas em prados; aqui devemos ter em especial atenção a composição da mistura, uma vez que os trevos são espécies muito agressivas em termos de instalação e a sobreposição a outras espécies é muito frequente: Trifolium incarnatum; Trifolium repens; Trifolium subterraneum

Espécies com flor adequadas de fácil adaptação

Se olharmos com atenção para as flores silvestres que nascem espontaneamente na nossa paisagem, vamos encontrar muitas flores com que estamos familiarizados e que são de adaptação fácil.

Alguns exemplos de flores usadas nas misturas de flores silvestres são: Papaver rhoeas; Centaurea cyanus; Clarkia amoena; Ornithopus sativus; Dimorfoteca sp; Iberis umbelata; Linaria maroccana; Lobularia maritima; Campanula carpatica; Cheiranthus allioni; Coreopsis landeola; Gypsophila sp; Coreopsis tinctoria; Dianthus plumarius; Lupinus luteus; Eschscholzia californica; Myosotis sylvatica; Oenothera sp; Verbena tenuisecta; Phacelia campanularia; Silene armeria; Viola comuta.

Os Cistus ladanifer (estevas), Cytisus scoparius (giestas), Rosmarinus officinalis (alecrim), Lavandula pedunculata (alfazemas) e Arbutus unedo (medronheiro) são também usadas nos prados, embora com porte arbustivo em situações de controlo de erosão e fixação de taludes são espécies de desempenho exemplar.

Numa boa mistura, obtém-se um equilíbrio entre as espécies e um desenvolvimento ao longo dos anos em plena harmonia.

Fonte e mais imagens aqui