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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

domingo, 3 de maio de 2026

Floresta: Portugal vai buscar insetos ao outro lado do mundo para salvar 3.000 milhões de euros por ano de exportações


Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.

A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.

O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.

A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.

O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.

Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.

“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.

Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.

Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.

Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.

Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Falcões aliados dos produtores de cereja, reduzindo 81% de danos na produção e evitando o uso de pesticidas

Mais exemplos de SBN em que os agricultores, morcegos e aves de rapina ambos beneficiam

Os quiriquiri, pequenos falcões, caçam ratos, voles e aves canoras que danificam as culturas de cerejeira. Há décadas que os agricultores adicionam caixas de nidificação para atraí-los.

Podemos tentar cá. Não conheço nenhuma iniciativa destas. Aumentávamos a população de falcões especialmente o Peneireiro-das-torres e Falcão-peregrino e reduzíamos não só o furtivismo assim como reduziríamos exactamente uma das causas principias da vulnerabilidade destas duas espécies: o uso de pesticidas. Segue o estudo académico no Estado de Michigan (27.11. 2025)

Produtores de cereja do Michigan encontram um aliado inesperado na segurança alimentar: os falcões
A colheita da cereja terminou há meses. Mas no norte do Michigan, alguns produtores já antecipam o ressurgimento primaveril de uma pequena ave de rapina que poderá beneficiar a colheita da próxima temporada.

O peneireiro-americano é o falcão mais pequeno dos EUA. Enquanto aves de rapina, os peneireiros dissuadem aves mais pequenas que gostam de petiscar os frutos dos agricultores. No entanto, uma nova investigação sugere que estes "seguranças alados" podem ter um benefício adicional: a segurança alimentar.

Isto de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Michigan (MSU), publicado a 27 de novembro no Journal of Applied Ecology.

“É fascinante observá-los em voo”, afirmou a autora principal, Olivia Smith. Eles pairam no ar enquanto examinam o solo abaixo em busca de insetos, ratos e pequenas aves.

As novas descobertas mostram que, ao afugentarem as aves que picam as cerejas, os peneireiros também evitam que estas contaminem as culturas com os seus dejetos. Segundo os investigadores, a investigação poderá ajudar os agricultores a cultivar alimentos mais seguros e saudáveis, gerando maiores lucros.

O desafio do controlo de pragas
“É difícil manter as aves fora das plantações”, disse Smith, professora assistente de horticultura e membro do Programa de Ecologia, Evolução e Comportamento da MSU.

Os produtores já tentaram métodos como redes, dispositivos ruidosos, espantalhos e pulverizações, mas estas abordagens podem ser dispendiosas e nem sempre funcionam. Mesmo com medidas de controlo em vigor, os produtores de cereja doce em estados como Michigan, Washington, Califórnia e Oregon perdem anualmente entre 5% a 30% da sua produção devido às aves.

As aves famintas representam outro problema: defecam. Algumas pessoas receiam que a sujidade que deixam para trás possa estar contaminada com agentes patogénicos que causam doenças nos seres humanos. Assim, os investigadores decidiram verificar se atrair predadores para patrulhar os pomares poderia ajudar a reduzir os riscos.

Resultados da patrulha aérea
A equipa focou-se em caixas de ninhos instaladas em oito pomares de cereja doce no norte do Michigan e descobriu que os peneireiros — que dependem de cavidades em árvores e outras fendas existentes para criar os seus filhotes — instalaram-se rapidamente.

Posteriormente, registaram todas as aves que conseguiam ver ou ouvir à medida que a época da colheita se aproximava. A equipa descobriu que aves como tordos, estorninhos e graxas tinham muito menos probabilidade de visitar os pomares e devorar os frutos quando os peneireiros nidificavam por perto. Ao afugentarem os visitantes famintos, os peneireiros reduziram a probabilidade de danos nas cerejas em mais de dez vezes.

Mas a sua presença teve outro benefício. Os investigadores também encontraram menos sinais de dejetos de aves nas cerejeiras. A presença de peneireiros foi associada a uma redução de 3 vezes nos dejetos avistados nos ramos.

“Certamente, os peneireiros também defecam”, disse a autora sénior Catherine Lindell, professora associada emérita de Biologia Integrativa. No entanto, o número de aves frugívoras que eles mantêm fora do pomar compensa largamente esse facto, acrescentou. De facto, descobriram que as cerejeiras mais próximas das caixas de ninhos dos peneireiros tinham menos probabilidade de estar cobertas de dejetos.

Segurança alimentar e saúde pública
A análise de ADN revelou que 10% dos dejetos continham Campylobacter, uma bactéria que causa frequentemente doenças de origem alimentar, com sintomas como diarreia, febre e cólicas estomacais.

Os investigadores ressalvam que isto não significa que a próxima taça de cerejas vá causar dores de estômago; nenhum dos surtos de doenças alimentares causados por Campylobacter foi associado a cerejas. Da mesma forma, Smith acrescentou que poderá ser cedo demais para culpar as aves por culturas contaminadas. Apenas um surto foi rastreado até aves: um surto de Campylobacter em 2008 causado por grou-comuns migratórios em campos de ervilhas no Alasca.

Contudo, a investigação sugere que os peneireiros poderiam ser uma forma de melhorar a segurança alimentar noutras culturas que têm sido associadas a surtos, como os vegetais de folha verde.

“Eles são realmente bons a manter o nível de dejetos baixo”, disse Olivia Smith. “Isso significa menos oportunidades de transmissão.”

“Isto não resolverá todos os problemas de aves que os agricultores enfrentam”, admitiu. Um dos problemas de depender dos peneireiros, por exemplo, é que eles têm mais probabilidade de se estabelecerem em algumas regiões do que noutras.

“Mas é uma ferramenta de baixo custo e baixa manutenção para os produtores utilizarem no seu conjunto de ferramentas de gestão de aves”, concluiu Lindell.

Leituras adicionais

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Louva-a-deus - auxiliares da agricultura biológica


O louva-a-deus é um inseto que fascina os humanos há séculos. Os registos mostram que os antigos egípcios, assírios e gregos, acreditavam que o louva-a-deus tinha poderes proféticos e sobrenaturais. Eram capazes de identificar a localização de objetos, animais ou pessoas perdidas. Na França antiga, acreditavam que um louva-a-deus era capaz de levar uma criança perdida para casa.

Nos nossos dias, o louva-a-deus ainda é considerado especial. Em algumas partes de África, acreditam que traz boa sorte se um louva-a-deus pousar num humano. Na China e no Japão, o louva-a-deus é reverenciado por seus movimentos graciosos e formas contemplativas. Inclusive, os seus movimentos inspiraram dois estilos conhecidos de antigas artes marciais chinesas. São muitas vezes vitos como um símbolo de equilíbrio e paciência. Antes de atacar, eles observam atentamente os seus alvos e são conhecidos por fazerem poses estratégicas.

Os louva-a-deus são insetos pertencentes à Ordem Mantodea (do grego mantis - profeta; eidos - aparência). É, por isso, fácil perceber a origem do nome louva-a-deus.  Deve-se ao modo como seguram a frente de seus corpos e posicionam suas enormes patas dianteiras quando estão em repouso, parece que eles estão a orar ou a meditar. 

Atualmente, são conhecidas mais de 2.000 espécies de louva-a-deus e podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. A maioria das espécies habita ambientes tropicais e subtropicais. O tamanho varia muito consoante a espécie. Podem ir dos 3 aos 8 cm, embora algumas espécies tropicais podem crescer até aos 20 cm ou mais.

Em Portugal, são conhecidas nove espécies. A mais abundante é o louva-a-deus-comum (Mantis religiosa). É uma das espécies que atinge maiores dimensões com as fêmeas a atingirem oito centímetros de comprimento.

São especialistas em camuflagem e mimetismo. Muitas vezes, estão ao nosso lado e nem os vemos. A cor mais comum é o verde ou o castanho. Contudo, muitas espécies assumem a cor do seu habitat que as rodeia. Eles podem imitar folhas, galhos, flores e até outros insetos. Algumas espécies tropicais conseguem assemelhar-se tanto com flores que alguns polinizadores chegam a pousar neles em busca de néctar.

A sua estrutura também é fantástica. Têm pescoço longo e flexível que se dobra facilmente, permitindo que girem a cabeça 180° de um lado para o outro, dando-lhes um campo de visão de 300°. Na cabeça, têm uma armadura bucal trituradora, antenas longas e delgadas, grandes olhos capazes de focar o mesmo local ao mesmo tempo e 3 ocelos (órgãos sensoriais que detetam a intensidade e direção da luz, mas não são capazes de formar imagens) entre as antenas. Tórax longo. As patas anteriores são preênseis, com espinhos que ajudam a reter a presa. A rapidez destas é tal que podem caçar moscas em voo.

São animais solitários. As fêmeas são maiores do que os machos. Embora possuam asas, são fracos voadores (as fêmeas voam pior do que os machos). O acasalamento do louva-a-deus ocorre entre agosto e outubro. É frequente a fêmea comer o macho durante ou após a cópula, começando pela cabeça, pois os gânglios nervosos que controlam os movimentos de cópula são controlados nos abdominais que são devorados no fim.

A postura dos ovos ocorre no outono. Os ovos são depositados juntamente com uma espuma que endurece, constituindo uma ooteca (involucro) que pode conter entre 200 a 300 ovos. As larvas emergem na primavera (maio/junho) já com o inseto plenamente desenvolvido.

Utilidade do Louva-a-deus na horta
A sua utilidade na horta é reconhecida há muito tempo. É um dos insetos auxiliares mais uteis. Têm um apetite voraz e comem tudo que lhes passe pela frente, moscas, mosquitos, formigas, traças, grilos, afídios ou gafanhotos e por vezes, podem até alimentar-se de presas três vezes maiores do que eles. Também comem insetos benéficos na horta, mas a sua preferência é pelos insetos que coincidentemente causam os maiores danos às culturas da horta.

Quase sempre atacam de emboscada aproveitando as suas capacidades de camuflagem. Com muita paciência, esperam que as suas presas estejam suficientemente perto, e de seguida, num décimo de segundo, desferem um golpe certeiro com as patas anteriores que são como garras e ajudam a segurar a presa enquanto é consumida.

As crias são caçadoras vorazes logo desde o início. À medida que vão crescendo, o tamanho das suas presas vai aumentando de modo correspondente.

Contrariamente ao que alguns dizem, o louva-a-deus não é venenoso.

São uma ajuda importante no controlo de pragas na horta.

sábado, 21 de dezembro de 2024

Os polinizadores! Sabe quais são?!



Tem a certeza?!
É melhor ver o vídeo.
Neste vídeo só são mencionados os polinizadores insectos.
Tenha em atenção que cerca de 70% dos polinizadores insectos fazem o seu ninho no solo. Assim sendo, envie esta informação aos autarcas que pulverizam as autarquias com herbicidas.

Saber mais e outros vídeos aqui deste projecto da Quercus em 2021 





sexta-feira, 10 de maio de 2024

Menos 40% de andorinhas em Portugal em 20 anos


Proteja as andorinhas.
Elas pesam cerca de 20 gramas, mas voaram mais de 5.000Km e atravessaram o deserto do Sahara para cá chegar.
Elas sobrevoaram o mar Mediterrâneo sem nunca conseguir descansar.
Lutaram contra ventos e tempestades.
Elas regressam a Portugal no local onde nasceram. Não remova os ninhos.
Consomem centenas de mosquitos e moscas por dia! 
Se tivermos a sorte de abrigar um ninho desta espécie no nosso ambiente familiar, um casal sozinho pode eliminar cerca de 1.700 moscas e mosquitos por dia.
Não existe insecticida mais eficaz e ecológico.
Vamos fazer com que se sintam bem vindas.

Saber mais:
Relatório do Censo das Aves Comuns 2004-2020

Fontes: Jornal de Notícias; Wilder

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Documentário: Living Soil (Solo Vivo)


Os nossos solos sustentam 95% de toda a produção de alimentos e, até 2060, os nossos solos serão solicitados a nos fornecer a mesma quantidade de comida que consumimos nos últimos 500 anos. Eles filtram a nossa água. Eles são um dos nossos reservatórios mais económicos para sequestrar carbono. Eles são a nossa base para a biodiversidade. E eles estão vibrantemente vivos, repletos de 4.5 toneladas  de vida biológica em cada 4.046 m2. No entanto, nos últimos 150 anos, perdemos metade do alicerce básico que torna o solo produtivo. Estima-se que os custos sociais e ambientais da perda e degradação do solo apenas nos Estados Unidos cheguem a US$ 85 biliões a cada ano (valores de 2018). Como qualquer relacionamento, o nosso solo vivo precisa da nossa ternura. É hora de mudarmos tudo o que pensávamos que sabíamos sobre o solo. Vamos fazer deste o século do solo vivo.

Este documentário de 60 minutos apresenta agricultores inovadores e especialistas em saúde do solo de todos os EUA. Planos de aula de acompanhamento para estudantes universitários e do ensino médio também podem ser encontrados neste site. "Living Soil" foi dirigido por Chelsea Myers e Tiny Attic Productions com sede em Columbia, Missouri, e produzido pelo Soil Health Institute através do generoso apoio da The Samuel Roberts Noble Foundation.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Musgo: A ‘fénix’ do mundo vegetal que protege os solos e pode ser a chave para a sua recuperação


A presença de musgo pode, aos olhos de muitos, ser considerada sinal de desmazelo ou mesmo de abandono de um dado terreno, pelo que a tentação poderá ser para removê-lo. No entanto, tal pode deixar o solo mais vulnerável, por exemplo, à erosão.

Uma investigação realizada por dezenas de cientistas de vários países aponta mesmo que os musgos, plantas ancestrais não-vasculares que pertencem ao grupo dos briófitos, a meio caminho entre as algas e a primeira flora que colonizou o meio terrestre, são fundamentais para a saúde dos solos em todo o mundo. Estima-se que hoje existam mais de 14 mil espécies diferentes de musgos, espalhadas pelos quatro cantos da Terra.

Num artigo publicado esta semana na revista ‘Nature Geoscience’, os investigadores escrevem que quando o musgo cresce na camada mais cimeira dos solos cria as condições ideias para que as plantas prosperem. Além disso, dizem, poderá mesmo ser um aliado essencial contra as alterações climáticas, uma vez que ajuda a capturar e a reter grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera.

Os mais de 50 cientistas que fizeram parte deste trabalho analisaram amostras de musgo recolhidas em mais de 123 ecossistemas espalhados por todo o planeta, desde florestas tropicais luxuriantes às paisagens aparentemente inóspitas das regiões polares geladas, passando pelos desertos. Contas feitas, os musgos cobrem uma área total combinada de 9,4 milhões de quilómetros quadrados dos ambientes estudados, algo comparável à dimensão do Canadá ou da China.

Para este estudo, os cientistas quiseram perceber “o que estaria a acontecer em solos dominados por musgos e o que estaria a acontecer em solos onde não existiam musgos”, explica David Eldridge, da Universidade de New South Whales, na Austrália, e principal autor do artigo. E constataram que o musgo é o coração pulsante dos ecossistemas de plantas, uma vez que, por exemplo, estimulam a circulação de nutrientes, impulsionam a decomposição de matéria orgânica, o que ajuda a manter o solo saudável, e até promovem o controlo de doenças prejudiciais às próprias plantas e até aos humanos.

No que toca aos seus ‘poderes’ de absorção de carbono, os investigadores calculam que, comparando com solos desprovidos de musgos, essas plantas ancestrais são capazes de armazenar, globalmente, 6,43 mil milhões de toneladas de carbono retirado da atmosfera. Como tal, o seu papel no combate às alterações climáticas é central e, argumentam os autores, podem absorver até seis vezes mais dióxido de carbono do que o que é emitido por práticas agrícolas insustentáveis, como a desflorestação e o pastoreio excessivo

Apesar de não serem considerados plantas superiores, por não terem sistemas vasculares (xilema e floema), os musgos são exemplos flagrantes de resiliência na face da adversidade. Explica Eldridge que em áreas desérticas, os musgos, na ausência de água, secam e mirram, mas não chegam a morrer, “vivem em animação suspensa para sempre”.

O cientista recorda que certa altura foi recolhida uma amostra de musgo completamente seca que se estimava ter cerca de 100 anos. Foi borrifada com água e, tal como a mitológica fénix, renasceu. “As suas células não se desintegram como acontece nas plantas comuns.”

“O que mostramos com a nossa investigação é que onde quer que existam musgos teremos um solo mais saudável, com mais carbono e nitrogénio”, salienta, acrescentando que essas plantas primitivas são essenciais para ajudar a flora a recuperar em áreas degradadas e, assim, para regenerar florestas e muitos outros ecossistemas.

“Os musgos podem muito bem servir de veículos para catalisar a recuperação de solos gravemente degradados em áreas urbanas ou naturais”, observa Eldridge.

terça-feira, 18 de abril de 2023

‘Fungicultura’: Estes besouros aprenderam a usar o odor para distinguir entre fungos ‘bons’ e ‘maus’

Besouro da espécie Xylosandrus germanus

Na madeira de troncos de árvores da floresta, os besouros cuidam dos fungos que são mais importantes para a sobrevivência e prosperidade da comunidade e procuram erradicar aqueles que podem causar doenças e ameaçar a colónia, muito à semelhança do que um agricultor humano faz num campo de cultivo, ao cuidar de certas plantas e arrancar as que podem colocar em risco a cultura.

Um grupo de investigadores de Itália, Alemanha e Estados Unidos da América fala mesmo da existência de uma ‘fungicultura’, própria destes grupos taxonómicos, que tem por base o odor.

Num artigo divulgado na revista ‘Frontiers in Microbiology’, os cientistas revelam que os X. germanus conseguem distinguir entre as espécies de fungos ‘bons’ e ‘maus’ através dos odores.

Antonio Gugliuzzo, da Universidade de Catania, em Itália, e um dos principais autores da investigação, explica que o odor produzido pelos fungos dos quais os besouros se alimentam atuam como ‘feromonas de agregação’, que atraem os coleópteros para árvores que estão já colonizadas por esses fungos.

Acontece que, por vezes, os fungos dos quais os X. germanus se alimentam estão alojados em árvores de fruto, pelo que o ‘chamamento odorífero’ pode atrair grandes números de besouros e levar a prejuízos agrícolas consideráveis. Explicam os cientistas que o X. germanus é considerado uma espécie invasora, tendo já uma distribuição ampla em toda a Alemanha.

“Até agora, não conseguíamos explicar como estes besouros atacavam as árvores em grupos”, reconhece Peter Biedermann, da Universidade de Freiburg, na Alemanha, e outro dos principais autores do artigo. No entanto, as experiências realizadas permitiram perceber que esses coleópteros são atraídos pelo odor dos fungos dos quais se alimentam, e que tinham já sido ‘cultivados’ nos ramos das árvores por membros da mesma espécie.

“Isto permite aos besouros colonizar árvores fragilizadas em número muito maior e tomar de assalto as defesas da árvore mais facilmente”, explica Biedermann, apontando que isso poderá resultar na morte da árvore.

Os cientistas acreditam que, com mais investigações científicas, será possível identificar o componente específico do odor dos fungos que atrai os besouros, e depois usá-lo para criar armadilhas que afastem os coleópteros dos frutos.

Esta relação entre fungo e besouro foi também documentada num outro artigo, publicado no final de março na ‘Symbiosis’. Nesse trabalho, os investigadores revelam que uma outra espécie, a Xyleborinus saxesenii, é também capaz de diferenciar entre os fungos bons e os maus, através do odor.

Neste trabalho, os cientistas conseguiram confirmar que essa capacidade não se cinge aos indivíduos adultos, mas que também as larvas são capazes de distinguir entre os fungos que servem de alimento e os que podem ser prejudiciais à sua saúde.

Os resultados de ambos os estudos, segundo Biedermann, podem resultar em “ideias para a nossa agricultura [a feita pelos humanos] controlar organismos prejudiciais de uma forma sustentável e amiga do ambiente”.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Vespa asiática - uma grande ameaça. Como intervir e travar esta praga? Este texto explica.

Curiosidades sobre o "monstro" de que tanto se fala. Vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax)


Vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax)
Fotografia e texto de José Freitas
Espécie invasora que se presume, tenha chegado a França em 2004. Em 2011 foi detectada em Portugal.
Em 2023.. esqueçam.. está fora de controlo e espalhada pelo país quase todo.
Pensava-se que o Alentejo, mais seco, seria a barreira natural à expansão mas a presença de ninhos em Borba já mostrou que se adaptam bem a todos os tipos de habitats.
Na Ásia, de onde é originária, as abelhas melíferas aprenderam a defender-se com uma técnica quase suicida. As Vespas aguentam apenas 40º de temperatura e as abelhas 42º. Quando uma vespa entra numa colmeia as obreiras formam uma bola à sua volta e batendo as asas elevam a temperatura aos 41º... o limite da sua própria sobrevivência.
Na Europa as abelhas não sabem combater a vespa e quando esta fica a pairar à entrada de uma colmeia, as obreiras formam um triangulo de defesa para proteger a colmeia, tapando a entrada e a refrigeração da colmeia. Matam a colmeia a defendê-la. A vespa fica com caminho livre para dissecar as abelhas e comer o torax (mais nutritivo).
A Vespa crabo, autóctone na Europa é muito semelhante à Vespa velutina ataca directamente as colmeias e as abelhas saem para a defender. É esta diferença no modus operandi das duas espécies que torna a Vespa asiática uma verdadeira exterminadora de colmeias com consequências económicas devastadoras.
Alguns erros dos apicultores e até das autoridades ajudam na expansão da Vespa asiática. Exterminam-se ninhos de Vespa crabo por ignorância e sendo uma espécie que compete pelo mesmo habitat e nicho alimentar que a Vespa asiática, a destruição de ninhos de Vespa crabo deixa o habitat livre para a Vespa asiática.
Por outro lado, os abelharucos (Merops apiaster) são aves que se alimentam de insectos e como comem abelhas a ignorância de muitos apicultores leva-os a destruir milhares de ninhos e a matar aves. O abelharuco é uma das barreiras naturais à expansão da vespa asiática
O Búteo vespeiro (Pernis apivorus) é uma rapina de médio porte que se alimenta exclusivamente de ninhos de vespas. A queda acentuada da população de Búteos (em grande parte massacrados por "caçadores") contribui para agravar o problema e em Espanha existem já programas de reintrodução da ave para combater a vespa asiática. Tarde de mais, penso eu. 
Fala-se muito no perigo para os seres humanos. A Vespa asiática é sobretudo um problema económico. Sendo mais agressiva que a Vespa crabo apenas ataca com ferocidade quando sente o ninho ameaçado. Como perseguem os "atacantes" por longas distâncias, a possibilidade de sofrer várias picadelas é maior e como tal os efeitos alérgicos são superiores.
A Vespa asiática distingue-se da Vespa crabo por ter as patas amarelas. A cabeça mais escura e o dorso e costas mais escuras (amarelo na crabo) conhecer as diferenças evita os erros e a destruição de ninhos de crabo.



segunda-feira, 13 de março de 2023

Besouros iridescentes duplicaram genes para poderem ‘ver’ novas cores

No mundo dos insetos, a visão é algo muito mais complexo do que podemos pensar. Muitos insetos estão equipados com genes que lhes permitem ver luz ultravioleta, uma gama do espectro eletromagnético invisível ao olho humano.

Os besouros da família Buprestidae são facilmente reconhecíveis pelas suas cores extravagantes de brilho metálico, podendo, por isso, ser chamados de ‘besouros-joia’. Tal como acontece noutros grupos taxonómicos, a cor desempenha um importante papel na comunicação, mas, para tal, é preciso que os destinatários desses sinais visuais sejam capazes de os captar.

Imagens magnificadas das carapaças coloridas de besouros da família Buprestidae.
Foto: Nathan Lord (coautor do artigo)

Uma nova investigação científica, publicada na revista ‘Molecular Biology and Evolution’, e liderada por Camilla Sharkey, da Brigham Young University, nos Estados Unidos da América, revela que esses insetos, da ordem dos coleópteros, evoluíram um aparelho ocular intricado que permite que a visão e as cores sejam elementos centrais da sua existência, seja para comunicar com outros besouros, para encontrar parceiros de acasalamento ou fontes de alimento.

Em 2017, um outro estudo indicava que os antepassados dos besouros terão perdido a capacidade para ver luz azul, há cerca de 300 milhões de anos, provavelmente por se terem tornado notívagos. No entanto, ao longo do seu percurso evolutivo, os besouros foram desenvolvendo capacidade para ver luz ultravioleta e a cor verde, através da duplicação dos genes que receberam desse antecessor.

Besouro Chrysochroa fulgidissima, uma das espécies pertencentes à família Buprestidae.

Os cientistas que participaram nesse trabalho, que também teve Sharkey como principal autora, defenderam que esses genes duplicados poderiam ter dado aos besouros atuais a capacidade para verem novas secções do espectro.

Através de técnicas de manipulação genética, os investigadores do mais recente estudo confirmaram que, de facto, os besouros modernos recuperaram a capacidade para captarem a luz azul e também a radiação cor-de-laranja.

Sharkey diz que agora o próximo passo na investigação é perceber se é possível prever a sensibilidade às cores através da análise genética e qual o papel exato da visão na vida dos insetos, “para melhor gerir pragas e insetos polinizadores e, assim, melhorar a produção agrícola”

sábado, 31 de dezembro de 2022

Meta 50% menos pesticidas na UE até 2030


Em toda a Europa, a dependência de pesticidas põe em perigo a nossa alimentação, a nossa saúde e as nossas comunidades. Agora, uma conquista importante que significaria o fim dos agrotóxicos está ameaçada pela ganância das corporações agroalimentares.
50% de redução é pouco. Além disso, há países que encaram mal a medida proposta por Frans Timmermans. 2030 é uma meta em que as ONGA vão empenhar-se ainda mais numa Europa menos aditiva. Consultar o relatório da Greenpeace

A Comissão Europeia quer reduzir pela metade o uso de pesticidas químicos até 2030 sob sua nova proposta de sustentabilidade e biodiversidade. Bruxelas insiste que não é uma proibição total de seu uso, embora a meta de 50% seja juridicamente vinculativa.

“Até 2030, metade dos pesticidas químicos deve ser substituída por alternativas, com práticas como rotação de culturas e tecnologias como a agricultura de precisão. Também propomos a proibição de todo uso de pesticidas em áreas sensíveis, como escolas, hospitais, parques e áreas de trabalho e de recreio ", explicou o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, em conferência de imprensa posterior.

Caso a proposta avance, os Estados-Membros terão de apresentar relatórios periódicos sobre o seu progresso ao abrigo deste novo regime. Além disso, os fundos europeus estarão disponíveis nos próximos cinco anos para cobrir o custo dos novos requisitos.
Mas muitos governos já se opõem aos novos planos. Eles acreditam que, com a atual crise alimentar, não é o momento certo. "O momento para fazer esta proposta é completamente inapropriado porque estamos em um ponto onde a comida é necessária na Europa. Estamos novamente num debate sobre segurança alimentar na Europa e propor estes dois regulamentos agora é simplesmente inapropriado", disse Herbert. Dorfmann, Deputado do Partido Popular Europeu.

Os planos também incluem uma meta obrigatória de recuperação da natureza para os países repararem 20% dos ecossistemas danificados até 2030. O Comissário Europeu para o Ambiente, Virginijus Sinkevičius, explicou à Euronews que esta ideia é benéfica para todo o mundo. “Temos de deixar de viver na ideia de que agir a favor da natureza, recuperar a natureza, é só custos e não benefícios. A nossa avaliação de impacto mostra que um euro investido traz oito euros de benefício”, defendeu o lituano.

Um dos principais objetivos é reverter o declínio de polinizadores, como as abelhas, que, segundo especialistas, aumentam a produtividade agrícola e ajudam a recuperar os ecossistemas de forma natural. Os planos devem ser aprovados pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia antes de se tornarem lei.

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sábado, 24 de dezembro de 2022

Insetos podem sentir dor, dizem evidências crescentes – eis o que isso significa para as leis de bem-estar animal



Pelo menos um trilião de insetos são mortos anualmente para alimentação e ração animal. Os métodos rotineiros de abate incluem calor e frio extremos , muitas vezes precedidos de fome. Em comparação, “apenas” cerca de 79 biliões de mamíferos e aves são abatidos a cada ano.

Os estudiosos há muito reconhecem que o valor da dor para a sobrevivência significa que muitos animais a experimentam, supostamente com exceção dos insetos . Mas pesquisamos mais de 300 estudos científicos e encontramos evidências de que pelo menos alguns insetos sentem dor. Outros insetos, entretanto, ainda não foram estudados com detalhes suficientes.

Também realizamos nosso próprio estudo sobre a resposta dos zangões a estímulos potencialmente nocivos. A maneira como eles reagiram aos estímulos foi semelhante às respostas de dor em humanos e outros animais que aceitamos sentir dor.

Os pesticidas matam triliões de insetos selvagens a cada ano. A verdadeira causa da morte costuma ser paralisia, asfixia ou dissolução dos órgãos internos, às vezes durante vários dias.

Se os insetos sentem dor, a criação de insetos e o controle de pragas causariam sofrimento em massa. No entanto, os debates e as leis de bem-estar animal ignoram quase universalmente os insetos . Uma razão é que, historicamente, os insetos eram frequentemente vistos como muito simples, com uma vida útil muito curta . Mas as evidências de que os insetos sentem dor estão se acumulando.

A questão de saber se os insetos sentem dor é difícil de responder. A dor é uma experiência inerentemente privada. A dificuldade de diagnosticar a dor quando o ser em questão não fala é ilustrada pelo tratamento relativamente recente de bebés durante a cirurgia.

Ainda na década de 1980, muitos cirurgiões acreditavam que os bebés não sentiam dor e raramente usavam anestésicos porque pensavam que as respostas óbvias dos bebés, como gritar e se contorcer, eram “apenas reflexos” . Embora ainda não tenhamos provas de que os bebés sentem dor, a maioria agora aceita isso com quase certeza.

Para qualquer ser que não pode comunicar diretamente o seu sofrimento, precisamos confiar no bom senso e na probabilidade. Quanto mais indicadores de dor encontrados, maior a probabilidade. É importante usar critérios consistentes entre os animais e procurar os mesmos indicadores comportamentais de dor em insetos que se usaria em uma vaca ou cão de estimação.

Dor no cérebro

A maioria dos animais exibe “nocicepção” – o processamento de estímulos nocivos que podem resultar em respostas semelhantes a reflexos. Os cientistas sabem há muito tempo que os insetos exibem nocicepção . No entanto, se um animal detecta estímulos potencialmente prejudiciais, não é necessariamente um indicador de dor “semelhante a” que em humanos é gerada no cérebro. Tanto a nocicepção quanto a dor podem acontecer, até certo ponto, independentemente uma da outra.

Num estudo recente, descobrimos que as respostas das abelhas ao calor dependem de outras motivações. Demos aos zangões quatro alimentadores: dois aquecidos e dois não aquecidos. Cada alimentador distribuía água com açúcar, que os zangões adoram.

Quando todos os comedouros tinham a mesma concentração de água com açúcar, as abelhas evitavam os dois comedouros aquecidos. Mas quando os comedouros aquecidos forneciam água com açúcar mais doce do que os comedouros não aquecidos, os zangões geralmente escolhiam os comedouros aquecidos. Seu amor pelo açúcar superava seu ódio pelo calor. Isso sugere que as abelhas sentem dor, porque (como os humanos) suas respostas são mais do que apenas reflexos.

As abelhas também se lembravam dos alimentadores aquecidos e não aquecidos e usavam essa memória para decidir de qual alimentar-se. Então, o trade-off aconteceu no cérebro.

Os cérebros dos insetos mudam as suas respostas comportamentais ao dano de outras maneiras. Por exemplo, moscas famintas são menos propensas a pular para longe do calor extremo do que moscas saciadas. Moscas decapitadas ainda podem pular, mas não apresentam essa diferença, demonstrando o envolvimento de seu cérebro na prevenção do calor. A comunicação entre o cérebro e a parte responsiva do corpo também é consistente com a dor.

Outros indicadores de dor

A estrutura que usamos para avaliar evidências de dor em diferentes insetos foi a que recentemente levou o governo do Reino Unido a reconhecer a dor em dois outros grandes grupos de invertebrados , crustáceos decápodes (incluindo caranguejos, lagostas e camarões) e cefalópodes (incluindo polvos e lulas). , incluindo-os na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022. A estrutura possui oito critérios, que avaliam se o sistema nervoso de um animal pode suportar a dor (como a comunicação cérebro-corpo) e se seu comportamento indica dor (como troca motivacional). desligados).

Moscas e baratas satisfazem seis dos critérios. De acordo com a estrutura, isso equivale a “forte evidência” para a dor. Apesar das evidências mais fracas em outros insetos, muitos ainda mostram “evidências substanciais” de dor. Abelhas, vespas e formigas preenchem quatro critérios, enquanto as  borboletas, mariposas, grilos e gafanhotos preenchem três.

Os escaravelhos, o maior grupo de insetos, satisfazem apenas dois critérios. Mas, assim como outros insetos que receberam notas baixas, há pouquíssimos estudos sobre escaravelhos nesse contexto. Não encontramos nenhuma evidência de nenhum inseto falhando em todos os critérios.

Nossas descobertas são importantes porque a evidência de dor em insetos é aproximadamente equivalente à evidência de dor em outros animais que já estão protegidos pela lei do Reino Unido. Os polvos, por exemplo, apresentam evidências muito fortes de dor (sete critérios).

Em resposta, o governo do Reino Unido incluiu polvos e caranguejos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, reconhecendo legalmente sua capacidade de dor.

O governo do Reino Unido estabeleceu um precedente: fortes evidências de dor garantem proteção legal. Pelo menos alguns insetos atendem a esse padrão, então é hora de protegê-los. Para começar, recomendamos a inclusão de insetos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, que reconheceria legalmente sua capacidade de sentir dor. Mas esta lei exige apenas que o governo considere o seu bem-estar ao redigir legislação futura.

Se quisermos regular práticas como agricultura e pesquisa científica, o governo precisa estender as leis existentes. Por exemplo, a Lei de Bem-Estar Animal de 2006, que torna crime causar “sofrimento desnecessário” aos animais abrangidos pela lei. Isso pode levar a fazendas de insetos, como fazendas convencionais, minimizando o sofrimento animal e usando métodos de abate humanitários.

A Lei de Animais (Procedimentos Científicos) de 1986 regula o uso de animais protegidos em qualquer procedimento experimental ou outro procedimento científico que possa causar dor, sofrimento, angústia ou danos permanentes ao animal. Proteger os insetos sob esta lei, como os polvos já são, regularia a pesquisa de insetos, reduzindo o número de insetos testados e garantindo que os experimentos tenham uma forte fundamentação científica.

Finalmente, os pesticidas são uma grande preocupação para o bem-estar dos insetos selvagens. Recomendamos o desenvolvimento de pesticidas mais humanos, que matam os insetos mais rapidamente e minimizam o seu sofrimento.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Livro- Agricultura Biológica: Boas Práticas Agrícolas Para o Solo e Para o Clima



Trata-se de um manual de boas práticas agrícolas para melhorar o solo, fixar carbono, reduzir emissões poluentes e eliminar a aplicação de herbicidas, cumprindo assim o objetivo de promoção da fertilidade do solo de forma sustentável face às alterações climáticas."



Como está o solo em Portugal?
  • 63% do território do continente classificado como estando suscetível à desertificação e 32,6% com solos em situação degradada (dados de 2020)
  • Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Agrotóxicos: estamos todos participando de uma experiência química global


"O ser humano é parte da natureza, e sua guerra contra a natureza é inevitavelmente uma guerra contra si mesmo."

A citação é de Rachel Carson, a bióloga e conservacionista americana que causou comoção em seu país ao publicar seu famoso livro Primavera Silenciosa em 1962. O trabalho começa com um convite: imagine uma cidade em que os pássaros sumiram, vítimas do uso excessivo de compostos químicos como agrotóxicos.

Carson não era contra a aplicação seletiva de agrotóxicos e inseticidas, mas era contra seu uso indiscriminado, comum em uma época marcada por uma fé cega no poder da ciência.

A obra teve tanta repercussão que foi uma das catalisadoras do movimento ambientalista nos EUA. Carson não só escrevia com precisão científica como também comunicava com beleza poética o que chamava de "tecido intrincado da vida", no qual tudo está interligado e do qual todos fazemos parte.

Sessenta anos depois da publicação de Primavera Silenciosa, quão preocupante é a atual proliferação de compostos químicos? E qual seria a mensagem de um livro como o de Carson hoje?

A BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) conversou com Joan Grimalt, professor de Química Ambiental do Conselho Superior de Pesquisa Científica da Espanha e integrante do Painel Intergovernamental de Poluição Química (IPCP). O IPCP é um grupo de cientistas que reivindica a criação de um organismo internacional para monitorar agrotóxicos.

BBC: Rachel Carson alertou sobre "a contaminação do ar, da terra e do mar com materiais perigosos e até letais". Esta mensagem é relevante na atualidade?

Joan Grimalt: Sim, com certeza. É verdade que o uso em alguns lugares não é mais permitido. Mas, em geral, o uso de compostos químicos aumentou e o despejo desses compostos no meio ambiente também aumentou.

Existem atualmente cerca de 350 mil compostos fabricados pela indústria. Na época de Carson, eu diria que esse número não passava de 30 mil.

BBC: Em seu livro, Carson falou especialmente de um composto, o DDT.

Grimalt: O DDT foi importante. Mas o problema é que muitos compostos foram criados. Outro problema é a sua ampla utilização, que é o que gerou mais problemas ainda.

O DDT já era conhecido desde o final do século 19. Mas na década de 1940 havia um médico, Paul Müller, que propôs usar o DDT para eliminar os mosquitos do gênero Anopheles (mosquito-prego) que transmitem a malária.

E isso levou à disseminação do DDT em todo o mundo. Deve-se lembrar que isso rendeu o Prémio Nobel de Medicina a Paul Müller, porque esse composto eliminou o mosquito Anopheles em praticamente todos os lugares, exceto nas zonas tropicais, e a incidência de malária caiu drasticamente.

E também é preciso dizer que desde 2005 a Organização Mundial da Saúde recomenda o uso do DDT para combater o mosquito Anopheles em lugares onde a malária ainda é endémica.

Às vezes o que acontece é que uma coisa não é branca nem preta; depende do uso que se dá a ela.

BBC: Quais foram impactos negativos do DDT?

Grimalt: Concretamente, um primeiro efeito foi que nas aves expostas ao DDT, as cascas dos ovos ficaram muito mais finas e, por isso, durante a incubação, muitas ninhadas foram perdidas porque os ovos não aguentavam o peso dos adultos que os chocavam. Isso resultou no desaparecimento de muitos pássaros.

O DDT quase extinguiu a águia-americana, por exemplo, a águia símbolo dos Estados Unidos, e muitas outras espécies.

Além disso, se observou que em humanos o DDT também causava problemas. Há imagens onde você pode ver soldados dos Estados Unidos de cuecas sendo pulverizados com DDT (para matar pulgas e piolhos), porque se acreditava que o DDT não os afetava. Não sabemos como esses soldados estão agora. O DDT é neurotóxico e dentro das células dos organismos, incluindo os humanos, as células que mais se reproduzem são as células nervosas, por isso o dano causado ao sistema neurológico é mais permanente.