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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Drab Majesty - Noise of the Void


Ver vídeo aqui

[Verse 1]
Surrounded by reactive eyes
Mass reaction sadness
Satan hides no more
Love is on a leash today
Branded by the things you
Say-tan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
It's the emptiness, the emptiness

[Verse 2]
Love is a panopticon
Opted out of options
Satan hides no more
Satan hides no more
Death to your autonomy
Searching for that person
Satan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Bridge]
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender the horrendous sound of the hour is everywhere now?

[Refrain]
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)

[Chorus]
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Outro]
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

Narciso no Panóptico: A Desconexão Humana em "Noise of the Void"
Os Drab Majesty são uma banda originária dos Estados Unidos, mais concretamente de Los Angeles, Califórnia. O projeto define o seu som através do termo criativo "Tragic Wave", uma fusão estética que combina elementos de Darkwave, Coldwave, Post-Punk, Dream Pop e Goth Rock de inspiração oitentista.

Integrada no álbum Modern Mirror, a faixa aborda o estado de despersonalização e alienação provocado pelo ecossistema digital contemporâneo. O "ruído do vazio" refere-se à sobrecarga constante de informação, distrações e estímulos virtuais que mascaram a ausência de sentido e desvanecem a identidade individual. A letra sugere que a recuperação da consciência e do eu autêntico exige o silêncio e o afastamento desse ruído contínuo.

O videoclipe foi realizado pelo cineasta australiano Jai Love e filmado em película de 16mm em Sydney. As escolhas visuais contam com uma estética retro e hipnótica que reflete o isolamento urbano e a desconexão existencial descritos na faixa, recorrendo a cenários surreais e composições ritualísticas para ilustrar a busca por transcendência num mundo frio e automatizado.

Neste cenário visual, a presença das duas figuras femininas nuas funciona como um poderoso dispositivo simbólico que aprofunda a temática da obra. A nudez representa a vulnerabilidade do ser humano desprovido das suas máscaras sociais, artifícios urbanos e distrações digitais, criando um contraste direto entre a fragilidade e a pureza do corpo e a frieza dos cenários onde as cenas decorrem.

A narrativa conceptual do tema assenta principalmente no mito de Narciso e Eco, presente nas Metamorfoses de Ovídio, recontextualizado para a dependência moderna dos ecrãs e da autoimagem. No teledisco, a escolha das duas figuras femininas introduz precisamente este conceito da duplicidade e do espelho, em que ambas atuam como o reflexo uma da outra, simbolizando a procura constante da própria identidade através do "outro" ou da projeção do próprio reflexo. Esta dinâmica traduz o transe existencial e o ritual de regresso ao estado original do ser, numa tentativa de despir a mente do "ruído do vazio" e retornar a uma essência pura.

A nível filosófico, a canção cruza o existencialismo e o niilismo de autores como Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre, ao confrontar a busca de sentido no meio do vazio, com a teoria do panóptico e da vigilância social de Michel Foucault e Jeremy Bentham, onde a constante exposição pública resulta na perda da individualidade. A exposição total dos corpos no vídeo dialoga diretamente com esta ideia de vigilância moderna, onde o indivíduo se encontra permanentemente observado, vulnerável e desnudado perante o olhar alheio na sociedade contemporânea.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee