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sábado, 10 de janeiro de 2026

Filme - O Triunfo dos Porcos (1954)


Escrita por George Orwell em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente, na luta contra o eixo nazifascista. Contudo, com o acirramento da Guerra Fria, o livro passa a ser amplamente usado pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo (Orwell  definia-se como um “socialista democrático”) e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto. 

Resumo da obra e filme animado
O Triunfo dos Porcos é uma fábula política que utiliza uma quinta para criticar o totalitarismo e mostrar como o poder pode corromper. Na Quinta do Solar, os animais vivem sob o domínio do Sr. Jones, um fazendeiro cruel e negligente. Inspirados pelo discurso do velho porco Major, que sonha com uma sociedade igualitária sem humanos, os animais decidem rebelar-se contra o seu dono. Após a morte de Major, os porcos Napoleão e Bola-de-Neve lideram a revolta. Os animais expulsam o Sr. Jones e assumem o controlo da quinta, renomeando-a Quinta dos Animais, passando a trabalhar juntos sob o lema “todos os animais são iguais”.

Rapidamente surgem disputas entre Napoleão e Bola-de-Neve. Napoleão utiliza estratégias violentas e manipulação para expulsar Bola-de-Neve, concentra o poder em si, controla a informação e cria uma polícia secreta de cães para intimidar os outros animais. Com o tempo, Napoleão e os porcos começam a viver luxuosamente, enquanto os restantes animais enfrentam dificuldades e veem os princípios da revolução serem alterados. A máxima “Todos os animais são iguais” transforma-se em “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”.

No final, os porcos tornam-se indistinguíveis dos humanos e os animais percebem que a liberdade conquistada foi perdida, com a quinta a voltar a ser dominada por uma elite poderosa e corrupta. O livro transmite uma crítica à corrupção do poder e à manipulação política, mostrando como revoluções podem ser traídas por aqueles que deveriam defendê-las, sendo também uma metáfora da Revolução Russa e do surgimento do totalitarismo soviético.

Personagens

Porcos
Major – Um velho porco doméstico premiado em uma exposição que dá a inspiração que alimenta a rebelião no livro. É uma alegórica combinação Karl Marx, um dos criadores do comunismo, e Lenin, líder comunista da Revolução Russa e da recém-criada União Soviética, onde elabora os princípios da revolução. Seu crânio sendo colocado em exposição pública reverenciado lembra Lenin, cujo corpo embalsamado foi colocado em exposição.

Napoleão – Grande porco da raça Berkshire. De poucas palavras, mas com reputação de possuir um braço forte. É comumente associado como alegoria de Joseph Stalin.

Bola de Neve – Rival de Napoleão e líder após a queda de Jones. É comumente associado como alegoria de Leon Trótski.

Garganta – Porta-voz de Napoleão. É comumente associado como alegoria de Viatcheslav Molotov ou ao Pravda

Equinos
Sansão – O mais devotado dos animais. Trabalhador incansável, segue duas máximas na vida: "Trabalharei cada vez mais" e "Napoleão tem sempre razão", geralmente sendo uma alegoria ao proletariado.

Benjamim – O mais céptico dos animais. Não acredita na revolução e mantém-se alheio às disputas políticas. Há interpretações que o colocam como a representação do autor, na quinta.

Outros Animais
Ovelhas – Limitadas intelectualmente, as ovelhas não sabem ler e não conseguem memorizar todas as regras da granja, resumindo-se a balir incessantemente "Quatro pernas bom, duas pernas mau!". Em diversas passagens, debates são impossibilitados pela barulheira do rebanho.

Cães – Tirados da mãe logo cedo e criados por Napoleão, tornam-se sua guarda pessoal. São eles os responsáveis por ajudar Napoleão no golpe contra Bola-de-Neve e também em mantém os outros animais sob controle, através da violência e do medo, representando a KGB

Moisés – Corvo domesticado de Jones, foge depois da revolução para reaparecer algum tempo depois, sempre incentivando os animais a acreditarem que uma vida melhor os espera no céu, com várias promessas que incluem montanha de amar e feno à vontade. Apesar de não trabalhar, sua presença é tolerada pelos porcos, sendo a representação da Igreja

Humanos
Sr Jones – Dono da Quinta do Solar. Alcoólatra e cruel com os animais, que sofrem pelo chicote e pela fome, sendo uma representação do czar Nicolau II

Sr Frederick – Dono da Quinta Pinchfield, uma pequena fazenda vizinha a A Quinta dos Animais. Entra brevemente em aliança com Napoleão, para depois atacar a Granja. É comumente associado como alegoria de Adolf Hitler, e o acordo e o ataque a Pacto Molotov-Ribbentrop e Operação Barbarossa, respectivamente.

domingo, 2 de março de 2025

Mikhail Gorbatchev



A marca avermelhada na testa acompanhou-o desde o nascimento até à morte e tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Para alguns, um acaso biológico; para outros, um sinal quase mítico. Mikhail Gorbatchev (1931 – 2022) nasceu numa aldeia perdida do Cáucaso do Norte, Privolnoye, e morreria como o homem que presidiu ao fim da União Soviética. Entre o nascimento e a morte, viveu uma existência improvável, moldada pela miséria, pela violência do Estado estalinista e por uma rara combinação de tenacidade e prudência.
Filho de camponeses pobres, Gorbatchev cresceu num país assolado pela fome, pelas purgas e pela guerra. Dois dos seus avós seriam presos durante o terror dos anos 30; um deles chegou a ser condenado à morte, escapando por uma reclassificação administrativa que lhe salvou a vida. A infância foi feita de carências extremas, trabalho precoce e imagens que nunca o abandonariam: animais abatidos para sobreviver, sementes comidas antes de serem lançadas à terra, aldeias dizimadas pela fome.
A Segunda Guerra Mundial acelerou-lhe a maturidade. Com os homens mobilizados para a frente, as crianças tornaram-se mão-de-obra e guardiãs das famílias. A ocupação alemã da região deixou-lhe memórias de cadáveres abandonados e da fragilidade absoluta da vida humana. Quando chegou a notícia da suposta morte do pai, seguida dias depois pela confirmação de que afinal sobrevivera, gravemente ferido, o jovem Mikhail aprendeu cedo a desconfiar tanto da tragédia definitiva como do alívio absoluto.
O regresso à escola foi um ponto de viragem. Sem livros nem cadernos, estudando nas margens de manuais técnicos, destacou-se pelo esforço e pela disciplina. O trabalho extenuante nas ceifeiras-debulhadoras ao lado do pai valeu-lhe, aos 17 anos, uma condecoração estatal rara para alguém da sua idade: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. Esse reconhecimento abriu-lhe as portas da Universidade Estatal de Moscovo, onde se formou em Direito e iniciou a ascensão política.
Em Moscovo encontrou também Raisa Titarenko, estudante de Filosofia, companheira inseparável e figura decisiva na sua formação cultural e intelectual. O casamento, pouco comum na elite soviética pela sua cumplicidade e visibilidade pública, tornou-se uma das marcas do futuro líder. Gorbatchev nunca escondeu a influência de Raisa, nem recuperou verdadeiramente da sua morte, em 1999.
A carreira no Partido Comunista foi constante e cautelosa. Proveniente da província, conhecedor da vida rural e das disfunções do sistema, Gorbatchov chegou ao topo em 1985, quando assumiu o cargo de secretário-geral do PCUS. O país que herdou estava exausto: economia estagnada, sociedade asfixiada, império sustentado mais pela inércia do que pela convicção. A resposta foi dupla e histórica: Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), conceitos que rapidamente ultrapassaram as fronteiras soviéticas.
Ao permitir maior liberdade de expressão e ao recusar o uso da força para manter o controlo sobre a Europa de Leste, Gorbatchov desencadeou um processo irreversível. O Muro de Berlim caiu, os regimes satélites ruíram e, em 1991, a própria União Soviética dissolveu-se. Para o Ocidente, tornou-se o estadista que evitou uma guerra nuclear e abriu caminho ao fim da Guerra Fria. Para muitos russos, ficou associado ao colapso de um império e à humilhação económica dos anos seguintes.
A sua vida posterior foi paradoxal: venerado internacionalmente, marginalizado no seu próprio país. Participou em campanhas publicitárias, criou fundações, foi homenageado em palcos internacionais como o Royal Albert Hall, mas nunca recuperou verdadeira influência política. Permaneceu, até ao fim, uma figura solitária, fiel à convicção de que a mudança pacífica era preferível à violência redentora.
Mais do que o líder que acelerou o fim da Guerra Fria, Gorbatchov foi o produto extremo do século soviético: um homem forjado na fome, educado na disciplina e disposto a aceitar que a história não se deixa comandar por decretos. O seu legado continua a dividir opiniões. Mas a trajetória que o levou de uma aldeia sem livros aos salões do poder mundial permanece como uma das mais improváveis e humanas do nosso tempo.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Historian Timothy Snyder on the future of American Democracy & the Rule of Law


O historiador Timothy Snyder e autor dos livros "Sobre a Tirania" e "Sobre a Liberdade" é um dos principais especialistas em fascismo e na ameaça que os autoritários representam para o futuro da democracia americana e do Estado de Direito. Neste vídeo, discute o futuro da democracia americana e a ascensão alarmante do autoritarismo.

O que precede a política, fundamenta a nossa constituição e nos dá a hipótese de sermos prósperos e livres? O Estado de Direito. Podemos compreender melhor as ameaças contemporâneas a esta liberdade e prosperidade ao recordarmos os fundamentos morais e intelectuais da nossa ordem política.

Timothy Snyder é historiador na Universidade de Yale, especializado em Europa de Leste, totalitarismo e Holocausto. Os seus livros receberam ampla aclamação. O seu mais recente livro, "The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America" ​​​​(O Caminho para a Não-Liberdade: Rússia, Europa, América), conta toda a história da Rússia, do início ao fim, de uma forma coerente e que revela o panorama geral. É também autor de "On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century" (Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX), que explora as formas quotidianas como um cidadão pode resistir ao autoritarismo atual. As suas outras obras incluem "Black Earth: The Holocaust as History and Warning" (Terra Negra: O Holocausto como História e Advertência) e "Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin" (Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Estaline)

domingo, 23 de outubro de 2022

Why Vladimir Putin is beholden to Stalin’s legacy

Não  esquecer que Kherson é uma das quatro regiões que o presidente Vladimir Putin anexou ilegalmente no mês passado.[link]

The Russian president has embraced the Soviet cult of fear and control. His invasion of Ukraine is a colossal gamble to secure his place in history.


Stalin's ideology was Marxism-Leninism, Putin's is a commitment to a revived "Russian world", defined in terms of traditional culture and Orthodox Christianity, though with a distinct lack of emphasis on Jesus' Sermon on the the Mount. From Putin's perspective, Ukraine has special significance, with historical roots going back to Vladimir the Great, the Grand Prince of Kiev, who introduced Orthodox Christianity to the Russian domain in 988 AD.[aqui]

Sebag Montefiore argues that key elements of the old Soviet governance structure persisted into the post-Soviet era, especially the secret police service , though with a new set of initials (FSB vs KGB), that remained largely intact and was crucial to Putin's rise to power.

Putin has gone on the record, including in his long pre-war speech that attempted to justify the invasion, condemning the "excesses:" of Stalin's rule, while effectively forbidding ongoing examination of Stalin's crimes and legacy.

In one key respect, however, he has shown himself to be more dangerous than Stalin. The author contends that Stalin was strategically cautious, and would have been unlikely to have attempted something like the Ukraine invasion.

By the way Sebag Montefiore's book Stalin: The Court of the Red Tsar is a terrific read.

This is no surprise because the modern Russian state that Stalin forged in the early 1920s was never dismantled in the democratic turbulence of the 1990s. Despite its democratic façade, the Russian executive remained an autocracy in which presidents – similar to early tsars – chose their own successors as both Boris Yeltsin and Putin have done. The security organisation founded by Lenin, the Cheka, shaped and micromanaged by Stalin, and known by a succession of dreary acronyms – OGPU, NKVD, MGB, KGB, FSB – was divided by Yeltsin but never disassembled.

A former KGB lieutenant colonel, Putin is a proud Chekist. Then there is Ukraine, a country that was brutally repressed by Stalin and now attacked by Putin. The Russian president shares a part of Stalin’s determination to liquidate the nationality and ­independence of Ukraine at any cost. The differences ­between the two are as great as the similarities. But perhaps it is the similarities that count today.

But the differences are striking too. Stalin was a Georgian, born with the surname Dzhugashvili. Putin, born in Leningrad, emphasised in the early days of the invasion of Ukraine “I’m a Russian”. Stalin was a fanatical internationalist Marxist; Putin believes in the exceptionalist “Russian world” starting with the Orthodox conversion of Vladimir the Great in 988. He despises Marxist ideology, believing the Leninist revolution shattered Russian imperium. Eschewing Communism, he promotes Kremlin-KGB-capitalism. Stalin, who had no interest in money and only possessed a couple of uniforms (though he enjoyed the use of comfortable mansions) would be disgusted by the vulgarity of the yachts and planes of ­Russia’s ultra-rich.

Although Communism is gone, Stalin’s secret police force is intact and remains central to Putin’s reign. Stalin deliberately co-opted Russian criminal culture into the Cheka, personifying this gangster-Bolshevik nexus himself. He won Lenin’s favour by organising bank robberies with a gang of mafiosi and psychopaths in order to fund the Party. When a fastidious Marxist complained to Lenin about Stalin’s thuggery, he replied, “He’s exactly the type we need.” Putin has a special link: his grandfather Spiridon Putin was a chef who started at the Astoria Hotel in St Petersburg, where he cooked for Rasputin, but then joined the OGPU/ NKVD “service staff” who worked at state dachas, serving Lenin and Stalin himself. As a young law student, Putin joined the KGB in 1975. During Leonid Brezhnev’s sclerotic reign (1964 to 1982), the KGB under the talented Yuri ­Andropov was the only organisation that retained its prestige as an order of “Soviet knighthood”. In 1991 Putin was working as a KGB lieutenant colonel in Dresden, east Germany when the Soviet Union collapsed. He drove home despondent.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Nobel da Paz, aos defensores dos direitos humanos na Bielorrússia, Rússia e Ucrânia



O Comité norueguês honrou os que representam a sociedade civil e protegem os seus direitos fundamentais. Os galardoados são o dissidente Bialiatski, a ONG russa Memorial e o Centro para as Liberdades Civis da Ucrânia.

Há muitos anos que "eles têm promovido o direito de criticar o poder e proteger os direitos fundamentais da população". Por isso, e muito mais, um ativista, o bielorrusso Ales Bialiatski, e duas organizações de direitos humanos, a Memorial, uma ONG russa, e o Centro Ucraniano de Liberdades Civis, foram agraciados com o Prémio Nobel da Paz 2022. O Comité Nobel norueguês aponta que os galardoados representam "a sociedade civil nos seus respetivos países" e que eles têm feito "um esforço notável para documentar crimes de guerra, violações dos direitos humanos e abusos de poder". Juntos, prossegue a exposição de motivos, "eles demonstraram a importância da sociedade civil para a paz e a democracia".

Bialiatski, um dissidente bielorrusso"
Ales Bialiatski", explica o Comité, "foi um dos iniciadores do movimento democrático que surgiu na Bielorrússia em meados da década de 1980. Ele dedicou a sua vida à promoção da democracia e do progresso pacífico no seu país de origem" e várias vezes as autoridades "tentaram silenciá-lo". Bialiatski está detido sem julgamento desde 2020, após manifestações em grande escala contra o regime. Antes já havia sido preso de 2011 a 2014. "Apesar das enormes dificuldades pessoais, não cedeu nada da sua luta pelos direitos humanos e pela democracia na Bielorrússia", explica o Comité, que espera que o prémio não prejudique o ativista, cuja imediata libertação foi solicitada.

O ativismo da ONG russa Memorial
O prémio à ONG Memorial, explicou a presidente do Comité norueguês Berit Reiss-Andersen, é em reconhecimento da atividade da organização, baseada na "noção de que enfrentar crimes do passado é essencial para prevenir novos crimes". A Memorial, que foi declarada agente estrangeiro na Rússia e, por isso, foi fechada, foi fundada em 1987 por ativistas da então União Soviética, entre eles Andrei Sakharov e Svetlana Gannuchkina, que "queriam garantir que as vítimas das opressões do regime comunista" nunca fossem esquecidas. Após o colapso da URSS, tornou-se a principal organização de direitos humanos na Rússia.

O papel do Centro de Liberdades Civis na Ucrânia
O Centro de Liberdades Civis, lê-se na motivação, foi fundado com "o propósito de fazer avançar os direitos humanos e a democracia na Ucrânia". Após o início da guerra em fevereiro, "empenhou-se" em esforços para identificar e documentar os crimes de guerra russos contra a população ucraniana. O Centro, explicam, "está a desempenhar um papel central em responsabilizar os culpados pelos seus crimes" e está empenhado em "fortalecer a sociedade civil, pressionando para tornar a Ucrânia uma democracia plena".

domingo, 4 de setembro de 2022

Documentário sobre a ilha da Nazino, um gulag criado por Estaline, em 1933


Na década de 1930, a fome colossal assolou a União Soviética, provocando um grande êxodo. Em dois anos, mais de 10 milhões de pessoas deixaram o campo e migraram para as cidades. Para restaurar a ordem, Etaline resolveu exterminar todos os cidadãos considerados socialmente nocivos de Moscovo e Leninegrado. 6 mil pessoas “indesejáveis” foram escolhidas ao acaso e presas: camponeses, pequenos criminosos, visitantes, vagabundos ou apenas indivíduos que não se encaixavam na estrutura de classes do ideal comunista. Homens, mulheres e crianças foram transportados por comboio durante oito dias para Nazino, uma ilha pequena e deserta na Sibéria, localizada a 3 mil km a leste de Moscovo.

Mapa - Karte Tragödie von Nasino

Deportados para a desolação da Sibéria, onde a temperatura costuma cair abaixo de zero, os prisioneiros foram abandonados apenas com farinha como alimento, algumas ferramentas e poucas roupas. Nazino não tinha nada, nem abrigo, nem infraestrutura. O desespero levou-os rapidamente ao roubo, à criminalidade e à morte pela fome. Havia, inclusive, cenas de canibalismo em massa. Com reconstituições e fotografias de arquivo, este documentário mostra os métodos arbitrários, desorganizados e precipitados usados pelo Regime Soviético para deportar as pessoas.

Ler mais:

sexta-feira, 11 de março de 2022

The Mirror - Directed by Andrei Tarkovsky


Tudo sobre o filme aqui

O filme "O Espelho" representa reflexões, pensamentos da pessoa aqui identificada como o Autor. Não aparece pessoalmente, apenas a sua voz cansada ressoa. E no ecrã, como num espelho, surgem imagens do seu passado. À partida, as memórias parecem dispersas: o amor pela mãe, que o Autor não sabe como exprimir, um sentimento profundo pelo pai, a insatisfação consigo próprio pela relação pouco desenvolvida com o filho… Gradualmente, tudo se torna claro: trata-se de um relato pessoal, de um difícil juízo de consciência, talvez até de uma sentença. O filme ocupa um lugar especial na obra de Andrei Tarkovsky. Nele, retrata a sua mãe idosa, Maria Ivanovna Vishnyakova-Tarkovsky, enquanto, ao fundo, se ouve a voz do seu pai, o poeta Arseny Tarkovsky, a recitar os seus belos poemas. É um filme de confissão, um filme de revelação.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os 10 abusos escondidos contra as comunidades tribais


Young girl of the Kayapo tribe
Todos os dias são Dia dos Direitos Humanos.

Para justificar que, apesar da declaração de 1948, há ainda muito por lutar, a Survival International elaborou a lista dos 10 abusos escondidos contra as comunidades tribais, durante estas seis décadas. Muitos deles, aliás, continuam a ocorrer longe dos olhos das populações e governantes. Veja a lista: 

1. Os aborígenes australianos apenas conseguiram o direito de voto em 1965. E passaram a ser incluídos nos censos nacionais apenas em 1967.

2. Em 2010, os turistas do Botswana relaxavam calmamente junto à piscina, no meio do deserto Kalahari, enquanto às tribos Bushmen era recusado o acesso a água, apesar dos seus direitos históricos. Muitos destes Bushmen morreram à sede.

3. Os pigmeus Batwa, do Uganda, nunca foram caçadores de gorilas. Mas foram expulsos da sua floresta em 1991, supostamente para proteger estes primatas. Hoje, continuam a ter o estatuto de refugiados.

4. O corpo embalsamado de um Bushman, conhecido como El Negro de Banyoles, foi mostrado num museu espanhol (a Survival International não avança qual) até 1991. Depois de vários protestos, ele foi finalmente enterrado no Botswana, em 2000.

5. As doenças e massacres mataram um em cada cinco Yanomani, no Brasil, durante os anos 80, até que a pressão internacional levou o País a expulsar os mineiros.

6. Nos chamados Safaris Humanos, os turistas tratam os Jarawa, na Índia, como animais, atirando-lhes comida.

7. Vários rancheiros brasileiros impedem, consecutivamente, os Guarani de regressar às suas terras.

8. O Potlatch, um ritual de renúncia de bens materiais – e respectiva oferta a familiares e amigos – foi proibido nos Estados Unidos e Canadá em 1884, por ser contrário aos “valores civilizacionais”. Foi reinstituído em 1951.

9. Durante a era de Estaline, os shamans siberianos foram perseguidos. Muitos pensam que terão todos desaparecido nos anos 80.

10. As crianças de algumas tribos aborígenes australianas, como as Torres Strait Islander, foram várias vezes retiradas das suas famílias, até perto dos anos 70.
Tradução por GreenSavers

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nikolai Vavilov: o primeiro guardião da biodiversidade vegetal

É pouco conhecido do grande público. Mas foi o primeiro cientista a perceber que, para salvar a humanidade da fome, era imperativo conservar a biodiversidade genética das plantas cultiváveis do mundo inteiro em “bancos de sementes”. Ironicamente, morreu de fome na prisão durante o estalinismo.

Todos (ou quase) terão ouvido falar, nos media, do grande Cofre-Forte de Sementes Global de Svalbard, uma espécie de congelador gigante, de aspecto futurista, construído numa zona montanhosa do Árctico. Inaugurado em 2008, tem como objectivo proteger o maior número de espécies cultiváveis úteis do mundo – como feijões, arroz ou trigo –, contra as piores calamidades que possam acontecer, de forma a preservar o sustento alimentar da humanidade. Mas o que quase ninguém sabe é que essa ideia de preservação da biodiversidade agrícola nasceu há um século na cabeça de um cientista russo.

Foi precisamente em 1916 que Nikolai Vavilov, biólogo, geneticista, geógrafo, agrónomo e especialista do melhoramento das espécies vegetais partiu para a Pérsia (actual Irão) na sua primeira expedição, para recolher sementes cultivadas em regiões mais e menos “exóticas”. Essa sua actividade intensa de exploração dos quatro cantos do globo continuaria ao longo da sua vida e conduziria à criação, já em 1924 em São Petersburgo (então Leningrado), do primeiro banco de sementes do mundo.

“O sonho de Vavilov era acabar com a fome no mundo e o plano que tinha para o conseguir consistia em utilizar a ciência emergente da genética para gerar ‘super-plantas’, capazes de crescer em todos os locais e em todos climas – dos desertos de areia às gélidas tundras, durante secas ou inundações”, lê-se no site da cadeia global de televisão Russia Today. E para o poder fazer, o cientista precisava de trazer para o seu laboratório a diversidade genética global.

Coleccionador de plantas
Nikolai Vavilov nasceu em Moscovo a 25 de Novembro de 1887. O seu pai era um “próspero homem de negócios tornado milionário”, lê-se numa recensão de 1994, na revista Nature, da primeira da tradução em inglês (publicada em 1992) dos mais importantes trabalhos de Vavilov, coligidos sob o título de Origin and Geography of Cultivated Plants. Depois de acabar o curso no Instituto de Agricultura de Moscovo, Vavilov passou quase um ano, entre 1913 e 1914, no Reino Unido, no laboratório de William Bateson, pioneiro da genética moderna – e que cunhara aliás a palavra “genética” em 1901.

Quando estalou a Primeira Guerra Mundial, Vavilov regressou a Moscovo e, na Universidade de Saratov, (cidade situada a uns 700 quilómetros a sudeste de Moscovo, nas margens do rio Volga) começou a fazer investigações sobre a resistência das plantas às doenças, lê-se ainda na Nature, “virando-se depois para o estudo dos parentes selvagens das plantas cultivadas e formulando a ideia de que todas as plantas domesticadas tinham surgido em áreas de actividade humana na pré-história”. E foi para demonstrar esta hipótese que Vavilov organizou expedições “para sítios onde supostamente tinham assentado as povoações humanas mais antigas”. Identificou assim, primeiro cinco “centros de origem” das plantas cultiváveis. Mais tarde, esse número aumentou para sete ou oito (segundo as fontes).

A paixão de Vavilov pelas plantas vinha de longe. “Vavilov começou a coleccionar plantas durante a infância: tinha um pequeno herbário em casa”, escrevia em 1991 Barry Mendel Cohen (que fizera a sua tese de doutoramento sobre o cientista) num texto publicado na revista Economic Botany.

“Contudo”, prossegue Cohen, “a primeira verdadeira expedição destinada à recolha de plantas foi a sua viagem à Pérsia em 1916” – em plena Primeira Guerra Mundial. Vavilov não fora recrutado pelo exército por razões de saúde e o Ministério da Agricultura decidira então enviá-lo em missão à Pérsia.

Aquela expedição, que durou de Maio a Agosto, foi certamente uma aventura, salienta Cohen. “Primeiro, Vavilov ficou detido na fronteira durante três dias pelas autoridades russas, porque transportava com ele alguns manuais em alemão e mantinha um diário escrito em inglês” – um hábito que tinha adquirido durante a sua estadia no Reino Unido. Vavilov “foi acusado de ser um espião alemão e só foi libertado quando chegou a confirmação oficial da autenticidade dos seus documentos”, acrescenta Cohen.

Mas as peripécias não se ficaram por aí. “A sua caravana percorreu áreas de deserto onde a temperatura ultrapassava os 40 graus Celsius à sombra e chegou a estar a entre 40 e 50 quilómetros da frente de guerra da fronteira russo-turca”, diz ainda Cohen.

A julgar pela lista dos destinos que visitou até ao início dos anos 1930, Vavilov não tinha medo das situações perigosas (fossem elas devidas à topografia, ao clima, aos conflitos ou simplesmente à vulgar criminalidade local) em que por vezes se via envolvido.

Visitou mais de 64 países e aprendeu 15 línguas para conseguir falar directamente com os agricultores. “Foi um dos primeiros cientistas a ouvir realmente os agricultores tradicionais, a gente do campo de todo o mundo, para saber por que é que achavam que a diversidade das sementes era importante nos seus campos ”, declarou em 2010, numa entrevista à rádio pública norte-americana, o ecologista e botânico Gary Paul Nabham, autor de uma biografia de Vavilov.

Depois da Pérsia, sempre a recolher espécies locais, Vavilov fez várias viagens aos Montes Pamir da Ásia Central; atravessou territórios nunca antes explorados do Afeganistão; percorreu países da zona mediterrânica, europeus (incluindo Portugal) e não só. No Sul da Síria, contraiu malária. Esteve na Palestina e, em África, foi até à Abissínia (na actual Etiópia), onde apanhou tifo. Também organizou expedições à China, Japão, Coreia, Taiwan, América do Norte, Central e do Sul.

Diga-se ainda que, em 1921, foi convidado a assistir, com outro colega russo, ao Congresso Americano de Patologista dos Cereais – “um convite de histórica importância”, diz Cohen, “na medida em que foi o primeiro exemplo de cooperação científica entre os Estados Unidos e a recém-criada União Soviética”. O convite também mostra que o trabalho de Vavilov já era, naquela altura, reconhecido fora da Rússia.
Lisenko, inimigo mortal

A partir de 1920 e durante 20 anos, Vavilov dirigiu a Academia Lenine de Ciências Agrícolas da União (mais tarde rebaptizada Instituto Vavilov da Indústria Vegetal da União em sua honra), com sede em Leningrado. Criou 400 estações experimentais, espalhadas por toda a União Soviética e onde trabalhavam cerca de 20.000 pessoas. Publicou centenas de artigos de genética, biologia, geografia e selecção vegetal.

Ao longo de 16 anos de périplos, Vavilov e os seus alunos recolheram umas 200.000 amostras de sementes oriundas da União Soviética e do resto do mundo, que a seguir foram organizadas e estudadas nas diversas estações. “Foi assim que nasceu o primeiro banco mundial de genes de plantas do mundo”, lê-se ainda na já referida recensão da Nature, da autoria do norte-americano Valery Soyfer, da Universidade George Mason.

Mas a partir de 1935, aquele que seria o maior inimigo de Vavilov – e aliás da genética e das ciências da vida soviéticas – começou a ensombrar a vida pessoal e profissional de Vavilov: Trofim Lisenko (1898-1976).

Ao contrário de Vavilov, que era de família burguesa e portanto suspeito – Lisenko era de origem camponesa e tinha conseguido fazer um curso de agronomia. De facto, o próprio Vavilov começou por louvar e promover o trabalho de Lisenko por achar que ele era um digno “filho” da revolução bolchevique.

Em poucos anos, Lisenko tornou-se o “cientista” favorito de Estaline e o promotor de uma “genética soviética” que negava a própria existência dos genes e do ADN. Lisenko também fazia pouco da selecção natural, o processo basilar da teoria da evolução emitida por Darwin em meados do século XIX.

Como explicava Soyfer em 1989, num outro artigo na Nature, hoje ninguém duvida que as actividades de Lisenko tenham contribuído para a destruição das ciências agrícolas, biológicas e até médicas na União Soviética.

Porém, no início da sua ascensão, Lisenko conseguiu uma aparente vitória contra a fome que alastrava na URSS devido à colectivização forçada da terra. E em 1929, anunciou que uma técnica da sua invenção, dita de “invernalização”, iria permitir fazer florescer em pleno inverno o trigo que normalmente só desabrochava na Primavera. O método não foi validado e acabou por não cumprir as promessas de Lisenko de aumento da produção. Mas ele não estava disposto a arcar com a responsabilidade do falhanço e o culpado escolhido seria Vavilov, o homem que tanto contribuíra para o celebrizar. Lisenko tinha-se tornado o seu inimigo mortal.

Assim, após o seu regresso do México, em 1933, Vavilov foi proibido de empreender novas viagens. E a partir de 1934, Lisenko fez dele “o bode expiatório pelas desastrosas políticas agrícolas de Estaline”, lia-se na revistaScience em 2008.

Quando Vavilov percebeu o que estava a acontecer, começou a criticar a “ciência” de Lisenko, numa controvérsia que culminaria com a “vitória” do pseudo-cientista Lisenko – e com uma tragédia: a detenção de Vavilov a 6 de Agosto de 1940 pela polícia secreta soviética.

“Vavilov estava a recolher amostras de plantas na Ucrânia” quando foi detido, escrevia em 2008 na Nature Jan Witkowski, geneticista do Laboratório de Cold Spring Harbor (EUA), a propósito da publicação de um livro sobre o assassínio de Vavilov. Transferido para Moscovo, foi submetido a um terrorífico interrogatório durante 11 meses. Em Julho de 1941, Vavilov e dois dos seus colegas foram condenados à morte. Os colegas foram fuzilados, mas a sentença de Vavilov acabou por ser comutada em 20 anos de prisão… na cadeia de Saratov, aquela mesma cidade onde tinha iniciado a sua carreira 26 anos mais cedo. Sobreviveu dois anos numa cela subterrânea e sem janelas, em condições tais que contraiu escorbuto.

Vavilov morreu de fome em Saratov a 26 de Janeiro de 1943, aos 55 anos de idade. Nem a própria mulher, que voltara a residir em Saratov, sabia que o marido estava ali tão perto.

Vavilov só seria parcialmente reabilitado – e Lisenko definitivamente desacreditado – em 1965 pelo então presidente da URSS Leonid Brejnev, sob a pressão de dissidentes russos como o físico Andrei Sakharov e o escritor Alexandre Soljenitsyne, explica ainda Barry Mendel Cohen.

A ausência de Vavilov não passou despercebida a nível internacional. O próprio Winston Churchill fez vários apelos a Estaline para saber o que tinha acontecido a Vavilov. E, numa carta publicada na revista Science a 21 de Dezembro de 1945, Karl Sax, da Universidade de Harvard (EUA), perguntava: “Onde está Vavilov, um dos maiores cientistas da Rússia e um dos maiores geneticistas do mundo? Vavilov fora eleito presidente do Congresso Internacional de Genética, que decorreu em Edimburgo em 1939, mas não apareceu e desde então não temos tido notícias dele. Recebemos agora a informação da nossa Academia Nacional das Ciências de que Vavilov morreu. Como morreu e porquê?”

Alguns colegas de Vavilov já tinham tido o mesmo destino trágico do que ele – não na prisão, mas no cerco de Leningrado pelas tropas nazis, de 1941 e 1944, que matou à fome dezenas de milhares de cidadãos.

Numa outra carta publicada na Science em 2003, apelando a Vladimir Putin para salvar a preciosa colecção do Instituto de Leningrado (que esteve à beira de ser demolido por promotores imobiliários), três antropólogos norte-americanos resumiam o que acontecera àqueles cientistas: “Apesar de sofrerem eles próprios de subnutrição grave e apesar de trabalharem a poucos metros de uma vasta reserva de alimentos [sementes, tubérculos e fruta], os cientistas preferiram morrer a empobrecer a herança genética do país”, que “percebiam ser indispensável para o futuro da agricultura” soviética. Oito morreram em 1942 e “pelo menos um deles (…), um especialista em amendoins, morreu sentado à sua secretária”, escrevem os autores.

Mas foi o seu gesto, mais do que heróico, que permitiu que o banco de genes do Instituto Vavilov seja, ainda hoje, um dos maiores do mundo.