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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

Ler mais:

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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Plataformas e base de dados

sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

segunda-feira, 30 de março de 2026

Centros de dados criam "ilhas de calor": impacto ambiental da IA vai para além do consumo de energia


Os centros de dados que alimentam a Inteligência Artificial (IA) consomem enormes quantidades de energia, mas, de acordo com uma nova investigação, têm outro efeito preocupante: criam "ilhas de calor", aumentando a temperatura num raio de até dez quilómetros.

Apesar do rápido crescimento dos centros de dados, subsistem lacunas significativas na compreensão do seu impacto, afirma Andrea Marinoni, professor associado do Grupo de Observação da Terra da Universidade de Cambridge e um dos autores do estudo, que ainda será objeto de revisão por pares.

Marinoni e os seus colegas decidiram analisar um impacto menos estudado: o calor libertado pelas operações dos centros de dados que consomem muita energia, como os sistemas de computação e de refrigeração.

Para tal, analisaram 20 anos de dados de temperatura de sensores remotos e compararam-nos com as localizações dos chamados "hyperscalers" - instalações enormes que albergam milhares de servidores e cobrem mais de um milhão de metros quadrados, a maioria das quais foi construída na última década.

O estudo centrou-se em mais de seis mil centros de dados localizados longe de áreas urbanas densamente povoadas para limitar o impacto de outros fatores, como a indústria ou o aquecimento residencial. 

Os investigadores também excluíram as variações sazonais, como as tendências do aquecimento global, entre outros fatores.

Descobriram que, em média, a temperatura da superfície aumentou cerca de 1,8 graus Celsius após a abertura de um centro de dados. Em casos extremos, o aumento chegou a ser de 9,1 graus Celsius.

Estes aumentos foram registados em todo o mundo. Na região de Bahio, no México, que se tornou um centro de centros de dados, foi observado um aumento inexplicável da temperatura de cerca de 3,6 graus nos últimos 20 anos. 

Um padrão semelhante foi observado em Aragão, Espanha, onde também se registou um aumento semelhante que não foi observado nas áreas vizinhas.

É surpreendente o facto de os impactos não se limitarem à área imediata das instalações. O aquecimento estende-se a um raio de até 10 quilómetros, afetando mais de 340 milhões de pessoas. Impacto na sociedade poderá ser "dramático"

Os resultados são particularmente preocupantes, uma vez que se prevê um rápido crescimento dos centros de dados nos próximos anos, numa altura em que as alterações climáticas já estão a intensificar as ondas de calor extremas em todo o mundo.

Marinoni adverte que a expansão planeada dos centros de dados "pode ter um impacto dramático na sociedade", afetando o ambiente, o bem-estar dos cidadãos e a economia.

Deborah Andrews, professora emérita de Design Sustentável na London South Bank University e não envolvida no estudo, afirmou que, embora já existam preocupações sobre o impacto dos centros de dados, este é o primeiro estudo a centrar-se especificamente no calor que geram.

A "corrida ao ouro" da inteligência artificial parece estar a sobrepor-se às boas práticas e ao pensamento sistémico", afirmou, sublinhando que o desenvolvimento está a avançar mais rapidamente do que a criação de soluções sustentáveis.

Outros especialistas consideram que é necessária mais investigação para confirmar os resultados. Ralph Hintemann, do Borderstep Institute for Innovation and Sustainability, observou que os dados são interessantes, mas os valores do impacto "parecem muito elevados", acrescentando que as emissões provenientes da produção de energia para centros de dados continuam a ser a maior preocupação em termos de alterações climáticas.

Marinoni espera que o estudo abra o debate sobre a atenuação do impacto da IA: "Talvez ainda haja tempo para considerar um caminho diferente sem afetar a procura de IA e a sua contribuição para o progresso da humanidade".

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Chegou a hora de repor a permeabilidade do solo nas nossas cidades

Porquê?
1. Redução do risco de inundações e gestão das águas pluviais.
As superfícies impermeáveis ​​impedem que a água da chuva se infiltre no solo. Em vez disso, a água escoa rapidamente para o sistema de drenagem, muitas vezes sobrecarregando os sistemas durante chuvas intensas.

Repermeabilizar o solo:
- Diminui o escoamento superficial;
- Permite que a água se infiltre e recarregue o lençol freático;
- Reduz as inundações superficiais e o transbordo de esgotos, que infelizmente muitas vezes também recebem àguas pluviais.
Isto é cada vez mais crucial à medida que os eventos de chuva intensa se tornam mais frequentes, uma tendência destacada nas avaliações climáticas urbanas globais.

2. Arrefecimento das cidades e redução das ilhas de calor urbanas.
As superfícies impermeáveis ​​​​absorvem e irradiam calor, intensificando o efeito de ilha de calor urbana. Superfícies permeáveis ​​e com coberto vegetal:
- Retêm a humidade, permitindo o arrefecimento evaporativo;
- Reduzem as temperaturas da superfície e do ar ambiente;
- Melhoram o conforto térmico nas ruas e espaços públicos.

3. Recuperação do ciclo urbano da água e recarga dos aquíferos.
Quando as cidades estão totalmente impermeabilizadas:
- Os níveis das águas subterrâneas diminuem;
- A vegetação urbana torna-se dependente da rega;
- As cidades tornam-se mais vulneráveis ​​às secas.
Os solos permeáveis ​​ajudam a reconectar a água da chuva com os ciclos hidrológicos naturais, melhorando a segurança hídrica a longo prazo, o que é especialmente importante em cidades com escassez de água.

4. Apoio à biodiversidade urbana e à saúde do solo.
Solos saudáveis ​​abrigam microrganismos, insetos e raízes de plantas.
Permeabilizar o solo e design permeável:
- Melhoram a respiração e a fertilidade do solo;
- Permitem que as árvores urbanas desenvolvam raízes mais profundas e fortes, mais resistentes às intempéries;
- Apoiam polinizadores e habitats urbanos.

5. Equidade, habitabilidade e ordenamento do território
Em muitas cidades:
- Os antigos aglomerados urbanos estão localizados em zonas sujeitas a inundações e com deficiente drenagem;
- Soluções de engenharia são hoje fundamentais para resolver os problemas do passado, mas não se pode estar atualmente criar novos problemas resultantes de um mau planeamento.

As abordagens permeáveis ​​e baseadas na natureza (valas de infiltração, drenagem com vegetação, pátios permeáveis) são:
- Mais baratas e adaptáveis;
- Mais fáceis de serem concebidas em conjunto com as comunidades.

6. De que forma a permeabilização se parece na prática:
- Pavimentos e áreas de estacionamento permeáveis;
- Permeabilização de passeios, pátios escolares e espaços subutilizados;
- Jardins de chuva, valas de infiltração e trincheiras de infiltração;
- Árvores urbanas com solos estruturais;
- Recuperação de ribeiros naturais ou cursos de água sazonais.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

SOS: Refúgios contra o calor extremo nas cidades


Durante séculos, as cidades encontraram formas inteligentes de combater o calor. Em alguns casos, plantavam árvores ou construíam fontes públicas; noutros, usavam as igrejas como espaços de acolhimento ou aproveitavam a soleira das portas. A imaginação levou algumas comunidades a idealizar práticas simples, como o uchimizu, no Japão, o acto de lançar água ao chão para arrefecer o ar por evaporação.

Hoje, as consequências das temperaturas extremas são cada vez mais visíveis e dramáticas. Segundo um estudo publicado na revista PLOS Medicine, 4,6 milhões de pessoas morreram devido a ondas de calor nas últimas três décadas. Só em 2023, estima-se que mais de 47 mil pessoas tenham morrido na Europa por causas relacionadas com o calor, 1.432 delas em Portugal, de acordo com investigação do ISGlobal publicada na Nature Medicine. Os idosos, as crianças, as pessoas em situação de vulnerabilidade social e os que vivem em zonas densamente urbanizadas são os mais afetados. Portugal surge mesmo entre os 20 países mais atingidos por ondas de calor nos últimos 30 anos. Há dias, o Público falava de stress térmico extremo.

Perante esta ameaça crescente, várias cidades estão a implementar soluções práticas e urgentes. Estações de arrefecimento (cooling stations) e hidratação, espaços temporários ou permanentes onde as pessoas podem descansar, encontrar sombra, aceder a água fresca ou mesmo a ar condicionado, estão a multiplicar-se em locais como Paris, Chicago, Nova Iorque, Tóquio, Tirana e Miami.

Nova Iorque, por exemplo, abre centenas de centros de arrefecimento durante as vagas de calor, identificáveis num mapa online.

Em Paris ou Tirana, surgem estruturas móveis com nebulizadores ou bebedouros, que se tornam pontos vitais para proteger a saúde pública.

Os fenómenos de calor excessivo vão repetir-se e intensificar-se. Os governos, as autarquias e as instituições locais têm de assumir a liderança desta adaptação, pois, lamentavelmente, não parece haver condições para mitigar o problema. É urgente criar planos de contingência para o calor extremo nas cidades portuguesas

domingo, 8 de junho de 2025

6 Ways Trees Benefit All of Us




Trees have been with us throughout our whole lives. They’re the background of a favorite memory and that welcome patch of green our eyes seek as we gaze out our windows.

While they are silent and stationary, trees hold tremendous powers, including the power to make all our lives better and healthier.

1: Trees help fight climate change.
Through photosynthesis, trees absorb carbon dioxide from the air and store it in its wood. Trees and plants will store this carbon dioxide throughout their lives, helping slow the gas’s buildup in our atmosphere that has been rapidly warming our planet.

In the U.S., forests are one of the most promising natural climate solutions—that is actions to protect, better manage or restore nature to store more carbon. Trees are looking out for us, so we have to look out for them. Older, larger trees store a lot more carbon than young trees, so it’s important that in addition to planting new trees, we conserve and protect ancient giants of old growth forests.

2: Trees boost our mental and physical health.
A healthy tree can lead to a healthy you and me. A study by a TNC scientist shows that time in nature—like a walk among the trees in a city park—correlates with a drop in anxiety and depression. In Louisville, Kentucky, researchers have found that planting 9,000 trees improved neighbors' health conditions that are linked to heart disease, stroke and some types of cancer.

The good news: it doesn’t take a lot of time in nature for these soothing powers to kick in. You may have felt the benefits from a short walk or hike in your neighborhood. We’re drawn to green spaces, and for good reason.

Access to nearby green space also contributes to better physical health by encouraging us to move around and exercise. Because we move around more when we have access to trees and parks, nature can help lower rates of obesity.

How does nature improve your health? (2:04) Spending more time around nature can do amazing things for your health. In fact, taking care of the planet is one of the best things we can do to take care of ourselves.

3: Trees clean the air so we can breathe more easily.
Leave it to leaves. Trees remove the kind of air pollution that is most dangerous to our lungs: particulate matter. This pollution arises from the burning of fossil fuels and can reach dangerous concentrations in the largest cities as well as in neighborhoods near highways and factories.

Trees’ leaves will filter this dangerous pollution, but only if they’re planted near the people who need them; most of the filtration occurs within 100 feet of a tree. More trees in cities, especially in lower-income neighborhoods close to highways and factories, can reduce ailments like asthma and heart disease that cause 5% of deaths worldwide.

4: Trees and forests provide habitat for a diversity of life.
A forest is more than a collection of trees. It is a complex ecosystem of diverse plants and animals. And this interconnected relationship of all forest species ensures the whole forest thrives—from soil to canopy. Old-growth forests, the forests that we need to protect most urgently, create habitats at the ground level, at the top of their tree canopies, and everywhere in between. All of these different habitats in a single area allow so many diverse species to thrive.

5: Trees cool down your life, and could even save it.
Trees give us all shade—and that’s a good thing! Temperatures are rising and heatwaves are getting longer due to climate change. Some places feel the heat more than others. Neighborhoods with lots of pavement absorb more heat and can be five to eight degrees hotter than surrounding areas. These areas also stay hotter later into the night, which is detrimental to our health.

Enter our branchy, leafy neighbors. A tree’s shade acts like a natural air conditioning and can even keep down the energy costs of our actual air conditioning systems, which are increasingly working overtime.

6: Trees and forests filter your water, making your drinking supply cleaner and more reliable.
Raise a glass to a tree near you! Actually, raise your glass to trees far from you, as your water has traveled on a long journey to your faucet. Trees store and filter more than half of the water supply in the United States.

Forests do this by removing pollutants and sediments from rainfall and then slowly releasing the water back into waterways and underground aquifers. Thanks to trees, this naturally cleaner water is easier and cheaper to treat before it ends up in your tap. The water supply is also steadier because all of the rainwater didn’t end up in a river right away; it seeped through these natural filters over time.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Cidades esponjas e telhados verdes: as cidades incorporam a natureza para mitigar e criar empregos

Cidade de Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 Km 

As cidades abrigam mais de metade da população mundial e são responsáveis ​​por mais de 70% das emissões de gases com efeito de estufa . Portanto, têm um papel fundamental a desempenhar na travagem e na adaptação à dupla crise da perda de biodiversidade e das alterações climáticas. Chegamos a tempo de atingir as metas do Acordo de Paris, mas isso só será possível se reduzirmos as nossas emissões atmosféricas em 43% nos próximos sete anos. Caso contrário, enfrentaremos as consequências das inundações e das secas, que são cada vez mais frequentes e fazem-se sentir em todo o mundo.

Uma forma de tornar as cidades mais sustentáveis ​​e resilientes é incorporar a natureza na sua gestão e design. Estas soluções protegem, restauram e gerem o ecossistema de forma sustentável, garantindo a biodiversidade, melhorando a qualidade do ar e garantindo maior segurança alimentar e hídrica. As soluções baseadas na natureza são diversas e vão desde a ecologização das cidades até à restauração de zonas húmidas e recifes e à melhoria da gestão das águas pluviais. Não são apenas positivos para o ambiente, mas também para o bem-estar e a economia. Na verdade, têm potencial para gerar mais de 59 milhões de empregos em todo o mundo .

Um grande número de cidades está a adotar soluções inovadoras baseadas na natureza. Por exemplo, Guangzhou (China) embarcou numa viagem em 2017 para se tornar uma cidade esponja com o objetivo de combater a degradação ambiental. Ao aplicar este conceito, Guangzhou e muitas outras metrópoles chinesas reduziram o risco de inundações e melhoraram a gestão da água. Outras cidades, como Toronto (Canadá), implantaram uma política que exige que os novos edifícios tenham telhados verdes, o que pode reduzir a temperatura e o consumo energético dos edifícios, além disso, de proporcionar um habitat para a fauna urbana e melhorar a qualidade do ar. Por sua vez, Medellín (Colômbia) criou um corredor verde de 1,3 quilómetros que oferece ao bairro fácil acesso a áreas verdes.

As soluções baseadas na natureza podem proporcionar mais de um terço da mitigação climática necessária até 2030 . No entanto, apenas 0,3% dos gastos em infra-estruturas urbanas são atribuídos a isto.

Este ano, o Dia Mundial do Metropolitano , comemorado todo dia 7 de outubro, focou no “poder da natureza”. Com este tema, foi feito um apelo aos governos para que trabalhem para além dos limites administrativos das suas cidades e coloquem a natureza no centro da ação local. Mais de 240 pessoas, incluindo representantes políticos, reuniram-se em Istambul (Turquia) para trocar experiências sobre como melhorar a resiliência das suas áreas metropolitanas. Este evento global , organizado pela MARUF, Metropolis e ONU-Habitat, foi seguido por eventos noutras cidades como Kinshasa, Austin, Barcelona, ​​​​Vale de Aburrá e Cidade do México.

Uma das grandes conclusões dos debates é que os desafios que as cidades enfrentam não podem ser resolvidos apenas a nível municipal. Os limites de uma cidade já não reflectem a realidade quotidiana dos seus habitantes, pelo que os governos precisam de olhar para além das divisões geográficas e institucionais tradicionais. A vida é construída em escala metropolitana. Consequentemente, deve ser governado na mesma escala em que é vivido: é um exercício de corresponsabilidade que permite reduzir a desigualdade territorial, superando assim a narrativa binária de ganhar e perder territórios.

Além disso, a perspectiva metropolitana reconhece que as cidades não são fundamentalmente diferentes dos seus arredores. Nem são contrários à natureza. As grandes cidades dependem do seu entorno para aceder a recursos naturais como água, energia ou alimentos e, ao mesmo tempo, têm um grande impacto no seu ecossistema. No cenário global, as cidades são atores-chave nos assuntos mundiais devido ao seu âmbito, tamanho e importância cultural.

Saber mais

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Guerrilha Arbórea


Por mim nem esperava pelo licenciamento, nem resposta da autarquia. Juntava um grupo de pessoas amantes das árvores nas cidades, plantava nessas caldeiras sinalizadas carvalhos, castanheiros, oliveiras e uma ou outra árvore ornamental. Faria guerrilha arbórea. É demais! Tantas podas a árvores saudáveis, canteiros livres e caldeiras inóspitas. Todos sabemos as vantagens do arvoredo urbano. Em 2020 fizemos uma petição para pressionar uma regulamentação da gestão do arvoredo urbano, que foi passado a  Lei n.º 59/2021 de 18 de agosto, um ano mais tarde. Conseguimos. Mas nunca é suficiente!!

Notícia:
P.S. No Instagram do Porto Canal há um sujeito de Coimbra que se queixa das árvores e diz ele que a sua rua até tem árvores de 2 em 2 metros.

Saber mais:

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A escola na «cidade de proximidade»

The Piazze Aperte (“Open Squares”) programme, launched in 2018 in Milan

No conceito de «unidade de vizinhança» idealizado por Clarence Perry há cem anos, a escola era o elemento nuclear da vida do bairro. Gravitava em torno dela a atividade escolar das crianças, à qual se associavam os pais. As redes de amizades (dos filhos e dos pais) cresciam naquele lugar, assumindo um papel de centro social comunitário, para além da sua função educativa.

Com o crescimento urbano, a perda da centralidade espacial e funcional e a consequente erosão das relações de vizinhança, as escolas foram perdendo esse poder de agregação social na vida das comunidades.

A narrativa da cidade de proximidade recupera essa importância da escola na vida dos bairros. Surgem em várias cidades que protagonizam essa aposta - Paris, Barcelona e Milão, por exemplo - projetos que dão corpo a esse desígnio.

A título de exemplo, refiro os Rue aux ecoles, Samedis en Famille e Les cours oasis em Paris, o Piazze Aperte em Milão e os Protegim les escoles e Refugios Climáticos em Barcelona. Envolvem a criação de ruas e praças escolares sem trânsito automóvel, com mobiliário urbano adequado, espaços de jogo e zonas ajardinadas, a abertura das escolas ao fim de semana para atividades comunitárias e o repensar dos recreios como refúgios climáticos, envolvendo as famílias na sua transformação.

É muito importante a dimensão social da proximidade que visa cuidar das relações entre os vários elementos da comunidade e oferecer espaço e tempo para que se construam e reforcem. Mas também a ambiental e urbanística que protege a chegada à escola a pé e responde aos problemas ambientais da poluição do ar e das temperaturas elevadas.


Mais informação:
Perry, C. A., Heydecker, W. D., Goodrich, E. P., Harrison, S. M., Adams, T., Bassett, E. M., & Whitten, R. H. (1929). Neighborhood and community planning. New York: Regional plan of New York and its environs.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Paris quer remover 40% do asfalto para enfrentar picos de calor


O conselheiro para a Transição Ecológica do município de Paris, Dan Lert, alertou que a capital francesa vai enfrentar picos de calor de até 50 graus Celsius e terá de repensar a sua arquitetura, vegetação e remover 40% do asfalto.

Esperamos e prevemos picos de calor muito fortes e muito elevados e vagas de calor de 50 graus. O clima de Paris vai assemelhar-se ao de uma cidade como Sevilha, no sul de Espanha, nos próximos anos”, disse Dan Lert numa entrevista à agência de notícias EFE, depois de um período em que França bateu recordes históricos de temperaturas no final do verão.

Segundo o responsável, Paris está a viver uma “corrida contrarrelógio” contra a crise climática e as ondas de calor extremo são o “desafio número um” para a cidade.

Para responder ao desafio, que representa investimentos avultados, Paris planeia plantar 170.000 árvores até 2026, eliminar lugares de estacionamento e transformá-los em espaços verdes até 2030 e remover 40% do asfalto.

A ideia é passar de uma cidade que é como um radiador, que tem um efeito de ilha de calor urbana, para uma cidade que seja um oásis“, explicou Lert.

Os edifícios residenciais, em particular, terão de ser adaptados, mas a transformação levanta questões importantes sobre a preservação do património parisiense, tão intimamente ligado à estética dos edifícios.

"Temos telhados de zinco em Paris que fazem a beleza de Paris, mas num telhado de zinco estão 80 graus. E quando temos picos de calor que vão dos 40 aos 50 graus, precisamos isolar esses edifícios”, frisou Dan Lert.

Os telhados pretos, por exemplo, concentrariam menos calor se fossem pintados com cores claras, algo que já está a ser feito em alguns edifícios públicos.

As obras necessárias para melhorar o isolamento interior são por vezes travadas por autorizações de conservação do património e o conselheiro apelou para que os Arquitetos dos Edifícios de França mudem os seus procedimentos e se aceite que “a paisagem de Paris vai mudar para se proteger”.

“Uma pessoa idosa que vivesse debaixo de um telhado não isolado tinha quatro vezes mais probabilidades de morrer de calor“, ilustrou o responsável, com base em estudos sobre uma vaga de calor intenso em 2003.

Os ritmos da cidade também terão de mudar para aproveitar as horas mais frescas, acrescentou Lert.

Mais fontes, guarda-sóis e pulverizadores de água em toda a cidade serão também fundamentais e estão a ser implementados já este verão e no período que antecede o verão de 2024, que coincide com os Jogos Olímpicos.

O evento desportivo deixará também outro legado para uma cidade mais habitável em períodos de calor intenso: concretizar a promessa feita no final dos anos 80 pelo então presidente da câmara, Jacques Chirac, de poder tomar banho no rio Sena.

Até agora, não foi possível realizar as provas em águas abertas e de triatlo previstas para agosto, devido às chuvas e aos níveis de sujidade na água, mas as obras planeadas, como as cisternas para armazenar e purificar a água, tornarão esse cenário possível no próximo ano.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Câmara de Coimbra aposta na reconversão de relva para prados


A Câmara de Coimbra vai apostar na reconversão de relva nos espaços urbanos para prados, de modo a reduzir o consumo de água e para promover a polinização, afirmou o presidente do município.

“Queremos aumentar os prados e estender esta iniciativa a mais espaços da cidade”, afirmou o presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva, que falava aos jornalistas durante a apresentação de uma campanha lançada sexta-feira que procura sensibilizar as pessoas para a importância dos prados em meio urbano.

A campanha conta com placas explicativas em oito espaços verdes do concelho com prado em vez de relva.

“Este prado não está a ser cortado [ou regado]. É mesmo assim!”, lê-se numa das placas que salienta a importância do prado em vez da relva, por reduzir o consumo de água (está mais adaptado ao clima nacional) e potenciar a presença de insetos polinizadores.

A autarquia tem avançado com algumas ações de reconversão de relvado em prado, tendo o objetivo de continuar a aumentar as áreas com prado na cidade de Coimbra, disse José Manuel Silva.

“Temos de mudar a mentalidade das pessoas, que pensam [ao olhar para um prado] que isto está abandonado, mas é mesmo assim. Os prados são fundamentais para a resiliência das cidades e para uma Coimbra mais natural e mais verde”, vincou.

Segundo o autarca, a relva exige muito consumo de água e vários cortes ao longo do ano.

Recordou também a importância dos prados para promover a existência de insetos polinizadores.

“Sem polinizadores, não há vida no planeta. Temos de dar o nosso contributo”, salientou.

Também presente na sessão de apresentação da campanha, estava o vereador responsável pelos espaços verdes e jardins, Francisco Queiró, que defendeu, igualmente, a aposta nos prados.

“As pessoas preferem o que ao olho parece bonitinho e arranjadinho, que é o relvado. Mas os prados têm muito mais a ver com o nosso clima”, realçou.

Segundo o município, os prados nos espaços verdes urbanos são compostos por plantas nativas, adaptadas às condições climáticas locais, tendo um aspeto menos uniforme.

No outono e inverno, os prados “parecem relvados e estão verdes, na primavera, estão floridos e pujantes, enquanto na estação seca ficam amarelados”, explicou.

A campanha está inserida no Plano Municipal de Redução e Contingência para o consumo de água de rega dos espaços verdes para 2023.

O plano prevê uma redução de consumo de água de rega na ordem dos 10%.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Relatório avisa que temperaturas na Europa estão a subir duas vezes mais do que a média global


As temperaturas na Europa estão a subir duas vezes mais que a média global e este aumento é mais rápido do que em qualquer outro continente, segundo o relatório “Estado do Clima Europeu 2022” hoje divulgado.

O relatório do Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas Copernicus, um dos seis serviços de informação temáticos do programa de Observação da Terra da União Europeia, indica que o ano de 2022 foi o segundo mais quente na Europa desde que há registo, com 0,9 graus celsius (ºC) acima da média, e o verão foi o mais quente de sempre, com 1,4ºC acima da média.

“A Europa viveu o verão mais quente desde que há registo, agravado por vários eventos extremos, como ondas de calor intensas, condições de seca e incêndios florestais extensos”, precisa o documento.

Segundo o Copernicus, a maior parte da Europa Ocidental teve ondas de calor e as temperaturas no Reino Unido ultrapassaram os 40°C pela primeira vez, além de terem sido também registados os valores mais altos da temperatura média da superfície nos mares da Europa.

O relatório “Estado do Clima Europeu 2022” alerta para as consequências que o calor extremo registado no final da primavera e verão teve na saúde humana, frisando que o sul da Europa viveu um número recorde de dias com “stresse de calor muito forte” devido às ondas de calor extremas durante o verão.

O serviço europeu de observação da Terra sustenta também que a Europa está a assistir a uma tendência ascendente do número de dias de verão com “stresse de calor forte” ou “muito forte” e no sul da Europa existe já “stresse de calor extremo”.

O Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus salienta que um dos eventos mais significativos que afetou a Europa em 2022 foi a seca generalizada, tendo grande parte do continente registado durante o inverno de 2021-2022 menos dias de neve do que a média e muitas áreas chegaram a ter menos 30 dias.

Na primavera, a precipitação ficou abaixo da média numa grande parte do continente, nomeadamente no mês de maio, que registou a menor quantidade de chuva de sempre.

Segundo o relatório, a falta de neve no inverno e as altas temperaturas no verão resultaram numa perda recorde de gelo nos glaciares dos Alpes, o equivalente a uma perda de mais de cinco quilómetros cúbicos de gelo.

“A baixa precipitação, que se manteve durante todo o verão, aliada às excecionais vagas de calor, provocaram também uma seca generalizada e prolongada que afetou vários setores, como a agricultura, transportes fluviais e energia”, refere o relatório, frisando que a humidade nos solos foi a segunda mais baixa dos últimos 50 anos, com apenas áreas isoladas a apresentarem condições de humidade do solo mais húmidas do que a média.

O documento precisa que o ano de 2022 foi o mais seco na Europa desde que há registo, com 63% dos rios da Europa com fluxos abaixo da média e dá conta das condições de perigo de incêndio florestal em 2022, que foram acima da média durante a maior parte do ano, tendo os cientistas do Copernicus que monitorizam os fogos em todo o mundo encontrado aumentos significativos nas emissões de carbono em algumas regiões da Europa no verão do ano passado.

Segundo o Copernicus, as emissões totais de carbono estimadas nos países da UE para o verão de 2022 foram as mais altas desde 2007, com França, Espanha, Alemanha e Eslovénia a registaram os valores mais elevados dos últimos 20 anos e o sudoeste da Europa a registar alguns dos maiores incêndios verificados na Europa.

O relatório indica ainda que as temperaturas no Ártico aumentaram muito mais rapidamente do que na maior parte do resto do mundo, sendo 2022 o sexto ano mais quente desde que há registo, e a região mais afetadas foi o arquipélago norueguês de Svalbard, que teve o verão mais quente de sempre, com algumas áreas a atingirem temperaturas 2,5°C acima da média.

Durante o ano passado, a Gronelândia também teve condições climáticas extremas, incluindo calor e chuvas excecionais em setembro, uma época do ano em que a neve é o mais comum, registando nesse mês temperaturas médias até 8°C acima da média, além de a ilha ter sido afetada por três ondas de calor diferentes, o que causou um derretimento recorde da camada de gelo.

O Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus segue a recomendação da Organização Mundial de Meteorologia para usar o período de 30 anos mais recente (1991-2020) para calcular as médias climatológicas.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O relvado sintético é um disparate estético, ecológico e sanitário


De fato, os relvados artificiais são feitos com os chamados PFAS, substâncias per e polifluoroalquil, que possuem características tóxicas, e alguns ainda são produzidos com pneus triturados, que podem conter metais pesados, benzeno, compostos orgânicos voláteis e outros cancerígenos.

Além de uma aberração estética, são uma praga ecológica, que liberta metano, um poderoso gás de efeito estufa, despeja microplásticos nos cursos de água e contribui para a criação de ilhas de calor.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Mito: Não há necessidade de deixar as bermas das estradas com ervas e arbustos

Manhattan Waterfont

Muitas pessoas pensam assim mas as boas práticas ambientais, de acordo com estudos científicos recomendam a manutenção de corredores ecológicos a ligar as localidades entre as zonas ainda rurais e as urbanas. Esses "corredores ecológicos" são justamente as bermas floridas. Solo vivo com vegetação é uma mais valia. Infelizmente muitas ervas espontâneas da Flora Vascular de Portugal Continental já só ocorrem precisamente em bermas de estradas e há espécies animais, sobretudo insetos, que dependem delas para se abrigarem, efetuarem posturas de ovos e se alimentarem. 

É dramática a redução do número de espécies nativas de ervas espontâneas e paralelamente a expansão assustadora de espécies exóticas invasoras nas bermas dos caminhos e terrenos de Portugal (ex. Erva das Pampas, espanta-lobos, tintureiras, avoadinhas, etc). 

Um dos maiores erros é a aplicação de herbicida, que contamina o solo, o outro o corte das ervas espontâneas em flor, em plena Primavera, antes da fecundação e formação dos frutos e sementes. 

Como são plantas anuais que secam e morrem naturalmente, no fim do seu ciclo de vida, se não completarem o ciclo e não largarem as sementes no solo não se renovam no ano seguinte e vão desaparecendo, acabando por se extinguir.

Uma coisa é o controle e redução das espécies invasoras das bermas, outra coisa é o corte cego e raso. As plantas não são todas iguais.

Sugiro que consulte algumas páginas aqui no Facebook, como a do FLOWer Lab , a da rede polli.NET e Lousada Ambiente para ficar a perceber melhor e ficar a par de boas práticas no que respeita à conservação das ervas e insetos polinizadores, dos quais também depende a produção alimentar. 

Na Alemanha, por exemplo, o mel urbano já rivaliza com o mel das zonas rurais e há quem defenda ser melhor pelo facto de os seus produtores não usarem pesticidas na cidade, ao contrário do que sucede hoje em dia nas zonas rurais. 

Na Alemanha, em Munique por exemplo, o teto das paragens de autocarro e topo dos edifícios é usado para semear ervas (flores silvestres) para alimentar abelhas e outros insetos. Até a Kate, nora do Rei Carlos III contratou arquitetos paisagistas para lhe fazerem um jardim de "ervas daninhas" - flores silvestres- para que as crianças inglesas possam conhecer as espécies da flora selvagem de Inglaterra.

Nós temos uma biodiversidade incrível e damos cabo dela. Mas isto está a mudar. Já vai tarde para as plantas que desapareceram, mas mais vale tarde que nunca.

Benefícios dos Corredores Verdes e de deixar que bermas das estradas tenham ervas e arbustos

Se nos focamos nos benefícios para o meio ambiente, os mais importantes são:
  • Ao haver mais áreas verdes, aumentam a biodiversidade no contexto urbano.
  • Promovem uma mobilidade não poluente: bicicletas ou patinetes, por exemplo.
  • Reduzem a poluição atmosférica e poluição acústica da cidade.
  • Ajudam na não-formação do fenómeno "ilhas de calor", reduzindo a temperatura de forma eficaz.
  • Contribuem para uma melhor gestão das águas pluviais, ou seja, a água das chuvas.
  • Um dos aspectos mais relevantes dos corredores verdes é que, além dos benefícios para o meio ambiente já mencionados, também geram benfeitorias sociais, culturais e económicas. Por exemplo: melhoram a qualidade de vida das pessoas favorecendo a atividade física e o relaxamento mental, promovem a vida cultural ao contar com auditórios ao ar livre ou edifícios para exposições e, em vários casos, são um chamariz turístico com efeitos positivos na economia das cidades.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Santiago estuda o uso de "ervas" na pavimentação para controlar a temperatura e influenciar o clima urbano

O Consórcio de Santiago e a Universidade (USC) mostraram que as plantas que habitam os pequenos espaços entre as pedras podem baixar a temperatura do solo em mais de 20 graus



O arquiteto do Consórcio Santiago, Ángel Panero, caminhava pela Praça do Obradoiro em Santiago de Compostela durante o confinamento quando notou algo que não existia antes. A ausência de turistas e cidadãos havia incentivado a natureza a se mostrar sem limites e ervas daninhas e musgos brotaram entre as pedras. "A visão era quase a de uma pradaria", resume Panero numa conversa com elDiario.es. Dessa imagem nasceu uma investigação, da qual participa o Grupo de Análise e Conservação da Biodiversidade da Universidade de Santiago (USC) e que rendeu uma descoberta surpreendente: as plantas que crescem nas juntas entre as lajes conseguem reduzir até 25 graus o solo temperatura.

Nasceu uma investigação que visa responder a uma questão transcendental nestes tempos de mudanças climáticas e ondas de calor: é possível baixar a temperatura de uma cidade com pequenas plantas? Os primeiros resultados são promissores.

Miguel Serrano é professor do Departamento de Botânica da Universidade de Compostela. Em conversa telefónica com esta redação, explica que a primeira encomenda que o Consórcio lhes fez limitou-se à elaboração de um catálogo de plantas presentes nas pedras de Santiago. Os técnicos do Consórcio queriam saber se puxar a grama entre as pedras durante os processos de limpeza era o mais correto ou se essas hortaliças poderiam oferecer algumas vantagens na gestão de água, CO2 e oxigénio. O Consórcio de Santiago é um órgão participado pela Câmara Municipal, a Xunta e o governo central e uma das suas funções é proteger a reabilitação e conservação do centro monumental da capital galega e os tesouros que esconde.

A grande surpresa
O que eles não sabiam no Consórcio Santiago era que pesquisadores universitários estavam prestes a fazer uma grande descoberta. Por meio de uma câmara termográfica, obtiveram a comprovação de que as plantas alteram a temperatura da pedra sobre a qual se depositam. O professor Miguel Serrano resume assim: “Decidimos usar a câmara para ver o que encontramos. O pavimento nu marcava temperaturas de 55 graus e a surpresa foi ver que onde havia plantas muito pequenas estabelecemos diferenças de 25 graus com registros de apenas 30 graus ao sol”.

Os pequenos espaços verdes entre as pedras podem parecer insuficientes para mudar as coisas, mas não são. “Tem que pensar que tem 60 mil azulejos quadrados dentro do centro histórico. Se juntarmos todas as juntas que separam as pedras, ainda estamos falando de um campo de futebol verde no meio da cidade. Não é negligenciável”, diz o arquiteto Ángel Panero.

O professor Miguel Serrano também está animado com as possibilidades de que as mudanças de temperatura geradas pelas plantas no solo possam ser percebidas mais acima, onde nós humanos respiramos: “Obviamente tem que haver algum efeito que possa ser detectado pelo homem. Em que nível e em que magnitude é algo que temos que testar mais tarde.

Encorajado pela surpresa que a primeira termografia produziu, Serrano publicou um tweet com a descoberta que logo se tornou viral entre a comunidade científica: “Os alemães retuitaram e os ingleses enviaram para o prefeito de Londres. Tem feito bastante sucesso." Na mesma linha, Panero assegura: “Não conheço nenhuma cidade que esteja trabalhando em algo aparentemente tão inconsequente como juntas de pedra, mas todos estão fazendo coisas sobre a importância do verde para a saúde dos cidadãos. Isso é perfeitamente exportável para todo o mundo”.

Plantas lumpen
Os nomes científicos de algumas das plantas que afetam a temperatura da pedra são os seguintes: Sagina procumbens, Plantago coronopus, Poa infirma, Oxalis corniculata. O professor Serrano assegura que essas espécies sempre foram consideradas como “plantas de caroço”, cujo valor era ignorado e que, quase sempre, foram condenadas a desaparecer, desenraizadas pelos serviços de limpeza das cidades. Uma das características destas plantas é que não necessitam de água sob as raízes e conseguem viver em circunstâncias muito extremas e até suportar o tráfego de veículos ou os passos de vizinhos e peregrinos. Os pesquisadores Patricia Sanmartín, Jesús Aboal e Sabela Balboa trabalham na equipa de Serrano para estudá-los.

O projeto promovido em Santiago propõe uma mudança de paradigma estético e uma reflexão sobre a necessidade de dispensar a pedra excessivamente limpa nos centros históricos. Aqueles que, até recentemente, lutavam diariamente para polir a cidade, agora valorizam outro caminho: incorporar o microverde urbano como parte da paisagem. Ángel Panero é um deles: “O verde está associado à vida e ao bem-estar do ser humano. Foi isso que nos motivou a trabalhar uma ideia à qual damos importância porque os tempos em que vivemos estão a ensinar-nos que as pequenas coisas são muito bonitas”.

Fonte: El Diario