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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies PreservadasÁrea Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Invasão do Irão - a complexa teia de conflitos no Médio Oriente: um contributo histórico e teológico


Este cartoon que circula na net é pura desinformação e demonstrativo que há muita ignorância sobre o Islamismo,  o papel dos EUA, Palestina, Irão e Israel e Arábia Saudita e o extremismo muçulmano.
Vamos por partes: 

O Irão era um país governado por xiitas. Uma minoria no mundo muçulmano. 

Geografia
O termo "países sunitas" geralmente se refere a nações onde a maioria da população muçulmana segue o Sunismo, que é o maior ramo do Islão (estimado em 85% a 90% de todos os muçulmanos do mundo).

Diferente do Xiismo, que tem uma concentração geográfica muito clara (principalmente Irão e Iraque), o Sunismo está distribuído por quase todo o mundo islâmico.

Principais países de maioria Sunita
Estes países são centros políticos, culturais ou demográficos do mundo sunita:
  1. Arábia Saudita: considerada o "berço do Islão", abriga Meca e Medina. É a principal potência sunita no Médio Oriente
  2. Indonésia: o país com a maior população muçulmana do mundo, predominantemente sunita.
  3. Egito: sede da Universidade de Al-Azhar, a instituição de ensino sunita mais prestigiada do mundo.
  4. Turquia: embora laico é uma potência regional com uma longa tradição histórica sunita (herança do Império Otomano).
  5. Paquistão: possui uma das maiores populações sunitas globais.
  6. Nigéria: tem a maior população muçulmana da África Subsariana, maioritariamente sunita.
  7. Palestinos são maioritariamente sunitas.
Além disso existem países onde os xiitas não são a maioria absoluta, mas controlam o destino da nação:
  1. Líbano: não há um censo oficial recente, mas estima-se que os xiitas sejam o maior grupo religioso individual (cerca de 30-35%). Através do Hezbollah, os xiitas exercem um poder militar e político que muitas vezes supera o do próprio estado libanês.
  2. Iémen: cerca de 35-42% da população é Zaidita (um ramo do xiismo, como discutimos sobre os Houthis). Eles controlam atualmente a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país.
  3. Síria: o país é majoritariamente sunita (70%), mas é governado pela família Al-Assad, que pertence aos Alauítas (um ramo minoritário e místico do xiismo). Por serem uma minoria xiita governando uma maioria sunita, o Irão é o seu aliado mais vital para se manterem no poder.
As diferenças teológicas entre sunitas e xiitas
A divisão entre Sunitas e Xiitas é a maior e mais antiga cisão do Islão. Embora ambos partilhem os pilares fundamentais — como a crença em um único Deus (Allah), no Alcorão e no Profeta Muhammad — a divergência começou como uma disputa política de sucessão que, ao longo dos séculos, ganhou camadas teológicas profundas. A separação ocorreu logo após a morte do Profeta Muhammad em 632 d.C.
  1. Sunitas: acreditavam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade e os seus companheiros. Eles apoiaram Abu Bakr, um amigo próximo do Profeta.
  2. Xiitas: acreditavam que a liderança era um direito divino e deveria permanecer na linhagem direta do Profeta. Eles apoiaram Ali, primo e genro de Muhammad, afirmando que ele foi designado pelo próprio Profeta. 
Com o passar dos séculos, essa disputa política evoluiu para divergências teológicas fundamentais. A principal delas reside no conceito de Imã. Para os sunitas, o Imã é um líder religioso e de oração, um homem respeitável, mas sem poderes sobrenaturais ou infalibilidade. Já para os xiitas, o Imã é uma figura divinamente inspirada e infalível, que possui um conhecimento esotérico do Alcorão inacessível aos homens comuns. A vertente majoritária do xiismo acredita em uma linhagem de doze Imãs, sendo que o último teria entrado em ocultação e retornará no fim dos tempos como o Mahdi, o salvador da humanidade.

Essas visões de mundo também alteraram a estrutura de autoridade. O Islã sunita é historicamente menos hierarquizado, focando na interpretação de textos por diversos juristas. O Islã xiista, por sua vez, desenvolveu uma hierarquia clerical muito forte e organizada — como os Aiatolás no Irão — onde os fiéis buscam orientação em líderes vivos que representam a autoridade do Imã oculto. 
Até mesmo nos rituais há nuances: embora ambos rezem voltados para Meca e sigam os cinco pilares do Islão, os xiitas costumam tocar a testa numa pequena pedra de argila (turbah) durante a prece e celebram datas de martírio, como a Ashura, com uma intensidade emocional e ritualística que não existe no mundo sunita.

Os Houthis (oficialmente conhecidos como Ansar Allah) trazem uma camada extra de complexidade a essa conversa. Eles são muçulmanos, mas pertencem a um ramo específico e diferente do que discutimos até agora.

Aqui está o "RX" religioso e político dos Houthis:
1. Eles são Xiitas, mas "Diferentes"
Os Houthis pertencem ao Zaidismo (ou Xiismo de Cinco Imames).O que isso significa? O Zaidismo é um ramo do xiismo que existe quase exclusivamente no Iémen.
Proximidade com os Sunitas: teologicamente, os zaiditas são considerados o ramo do xiismo mais próximo dos sunitas. Eles não acreditam na infalibilidade dos Imames da mesma forma que os xiitas do Irão (Duodecimanos) e não partilham a mesma hierarquia clerical rígida.
2. A Relação com o Irão
Embora os Houthis sejam zaiditas e os iranianos sejam xiitas duodecimanos, eles se tornaram aliados próximos por razões estratégicas- O "Eixo de Resistência": O Irão fornece armas, drones e treino aos Houthis.
Inimigo Comum: Ambos se opõem fortemente à influência dos EUA e da Arábia Saudita (que faz fronteira com o Iémen e interveio militarmente contra os Houthis).

Onde eles se encaixam no mapa que montamos?

Para facilitar a visualização de quem é quem nas alianças atuais:

Grupo radical/País

Ramo Religioso

Principal Aliado

Hamas (Palestinos)

Sunita

Irão (Apoio financeiro/militar)

Hezbollah (Líbano)

Xiita (Duodecimano)

Irão (Alinhamento total)

Houthis (Iémen)

Xiita (Zaidita)

Irão (Apoio militar/logístico)

ISIS e Al-Qaeda (Arábia Saudita)

Sunita 

EUA / Países do Golfo


Curiosidade: o Lema Houthi
Se você vir imagens dos Houthis, verá frequentemente uma bandeira com frases escritas em árabe (o Sarkha). O lema deles é bastante agressivo e reflete sua ideologia política: "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islão".

Política e gestão estratégica petróleo e nuclear
Na política do Médio Oriente, prevalece a regra de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Arábia Saudita, de liderança sunita, e o Irão, de maioria xiita, disputam a hegemonia da região há décadas, e o Irão é visto pelos sauditas como uma ameaça muito mais direta e existencial do que Israel. Como Israel também é o maior adversário do Irão, a Arábia Saudita e Israel tornaram-se aliados informais, trocando inteligência e cooperação militar de forma discreta para conter a influência iraniana.

Somado a isso, há a aliança estratégica com os Estados Unidos, já que a Arábia Saudita é um dos maiores parceiros americanos no mundo e o seu exército é quase inteiramente equipado com tecnologia dos EUA. Como Israel é o aliado número um de Washington, uma invasão saudita a Israel seria um suicídio diplomático e militar, pois os Estados Unidos cortariam todo o apoio à monarquia e possivelmente interviriam para proteger o Estado judeu.

O Paquistão consolida-se como uma das nações mais complexas do cenário global, sendo o país com a segunda maior população muçulmana do mundo, atrás apenas da Indonésia. Sua identidade é intrinsecamente ligada ao Islão, tendo sido fundado em 1947 como um refúgio para os muçulmanos do subcontinente indiano — um projeto liderado por Muhammad Ali Jinnah, que, curiosamente, era de origem xiita. Embora o país tenha nascido sob um ideal de união muçulmana contra o domínio britânico e a maioria hindu da Índia, a realidade interna contemporânea é marcada por uma profunda divisão sectária. A vasta maioria da população (cerca de 80-85%) é sunita, predominantemente da escola Hanafi e dividida entre os tradicionais Barelvi e os rigorosos Deobandi. No entanto, o Paquistão também abriga a segunda maior comunidade xiita do planeta (10-15%), o que representa um contingente expressivo de até 30 milhões de pessoas.

Essa composição demográfica coloca o Estado em uma posição diplomática delicada, funcionando como um pêndulo entre as influências da Arábia Saudita e do Irão. Enquanto os sauditas atuam como pilares económicos, fornecendo petróleo e suporte financeiro, o Irã é um vizinho geográfico direto com o qual o Paquistão precisa manter uma estabilidade fronteiriça pragmática. Essa dualidade frequentemente transborda para conflitos internos, onde grupos radicais sunitas realizam ataques sectários alimentados por rivalidades externas. O que eleva drasticamente o peso dessa instabilidade interna é o fato de o Paquistão ser a única nação do mundo islâmico a possuir um arsenal nuclear comprovado, o que torna sua segurança institucional uma prioridade de vigilância global.

Diferente de Estados laicos, a "República Islâmica" integra a Sharia em seu sistema judicial e exige constitucionalmente que seus líderes máximos sejam muçulmanos. Em 2026, o desafio do país permanece o mesmo: equilibrar uma economia fragilizada e as pressões de grupos extremistas internos com a responsabilidade de ser uma potência nuclear em uma das regiões mais voláteis do mapa. A manutenção deste equilíbrio é o que define não apenas a sobrevivência do Estado paquistanês, mas a própria segurança regional no Sul da Ásia.

Neste cenário de equilíbrios delicados, a Turquia desempenha um papel de "irmã estratégica" e modelo político alternativo. Ao contrário do modelo teocrático iraniano ou da monarquia absoluta saudita, a Turquia — historicamente laica, mas sob uma liderança que busca resgatar o prestígio islâmico — oferece ao Paquistão uma parceria baseada na cooperação militar e tecnológica. Ancara é um dos principais fornecedores de hardware militar para Islamabad (incluindo navios de guerra e drones), ajudando o Paquistão a modernizar suas defesas sem depender exclusivamente do Ocidente ou da China. Além disso, a Turquia utiliza o "soft power" cultural, como suas produções televisivas de temática histórica islâmica, para fortalecer laços com a juventude paquistanesa, promovendo uma visão de liderança sunita moderna e resiliente.

Essa aproximação com a Turquia permite ao Paquistão reduzir sua dependência histórica de Riade, embora os sauditas continuem sendo os principais financiadores económicos e fornecedores de petróleo. Enquanto o Irã permanece como um vizinho geográfico que exige uma convivência pragmática para evitar conflitos de fronteira, a Turquia surge como o parceiro ideal para o desenvolvimento industrial e a projeção de voz nos fóruns internacionais. Em 2026, o desafio do governo paquistanês é navegar por esse triângulo de potências (Arábia Saudita, Irão e Turquia) enquanto gere uma economia fragilizada e garante que seu poderio nuclear permaneça sob controle firme, evitando que as tensões sectárias internas alimentadas por rivalidades externas desestabilizem o Estado.

Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos
Atualmente, o foco saudita mudou sob a liderança do Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman, que lançou o plano Visão 2030 para modernizar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Ele sabe que uma guerra regional destruiria os planos de atrair turistas e empresas de tecnologia, pois a estabilidade é melhor para os negócios do que o conflito ideológico. Esse caminho da diplomacia ficou evidente com os Acordos de Abraão, onde a Arábia Saudita estava muito perto de reconhecer oficialmente Israel antes do conflito em Gaza em 2023. Para os sauditas, a causa palestina funciona hoje mais como uma ferramenta de negociação para obter concessões do que como um motivo real para uma guerra aberta.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ainda a invasão da Venezuela por Trump


“Todos os Membros devem abster-se, nas suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qqer outra forma incompatível com os Propósitos das Nações Unidas"
Art. 2º, §4º, da Carta ONU

Meia dúzia de notas sobre Trump e  Nicolás Maduro.
1. Maduro e Trump estão bem um para o outro. Trump, perdeu as eleições de 2020 e recusou reconhecer o resultado, algo inédito na história moderna dos EUA. Tentou pressionar instituições para reverter o resultado eleitoral. Trump tentou manter o poder contra o resultado eleitoral.

2. Em maio de 2018, Maduro foi reeleito para um mandato de seis anos numa polémica eleição, não reconhecida pela oposição, pela Organização dos Estados Americanos e União Europeia, além de países como Estados Unidos e Brasil. Em janeiro de 2019, foi empossado para um segundo mandato. Isso acabou gerando uma grave crise política interna, com a Assembleia Nacional não reconhecendo a posse do presidente e várias nações do mundo removeram os seus embaixadores de Caracas, como protesto. Para a oposição, Nicolás Maduro estava, efetivamente, transformando a Venezuela numa ditadura sob seu comando.

3. Porém, esta intervenção americana é ilegítima e injustificada — representa uma gravíssima violação do Direito Internacional Público. Não é uma manobra de defesa, é uma manobra de dominação geoestratégica. Trump apresenta a desculpa dos cartéis de droga, mas o objetivo é chegar ao petróleo, ao lítio, ao ouro, aos minerais raros. Um regresso à lógica imperialista do século XIX que legitima outras intervenções e ocupações noutras partes do mundo. Uma visão de uma tripartição do globo, em que os EUA dominam o continente americano, a Rússia fica com a Ucrânia e a China ocupa Taiwan.

4. Além disso, esta intervenção na Venezuela é também uma conveniente manobra de diversão para os incómodos Epstein Files. Trump é um perigoso narcísico, um autoritário anti-democrático que só conhece o cotão do seu umbigo e instintos viscerais. Move-se por uma lógica egoísta, transacional e pela lei da força.

5. Mesmo sendo obviamente desejável uma mudança de regime na Venezuela, é assustador que seja feita desta forma.

6. A imposição pela força não pode ser aplaudida, mesmo quando é contra regimes de que não gostamos. Porque a pergunta obrigatória é esta: e quando esta imposição pela força for feita contra regimes, líderes ou países de que gostamos?


Trump anunciou a invasão nas redes sociais. Inédito. Desrespeitou auscultação prévia do Senado e do Congresso!


E quando o próximo ciclo de ficheiros Epstein for libertado, Trump invadirá a Gronelândia!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A máquina da atenção: análise da cobertura do Chega e do seu líder


Há uma pergunta que não podemos evitar sempre que começa uma campanha eleitoral: quem define, de facto, os temas que ocupam o espaço público: os partidos ou as redacções dos Meios de Comunicação Social? Nas Autárquicas de 2025, a resposta ganhou contornos mensuráveis. Um levantamento exploratório do MDP: Movimento pela Democracia Participativa em que participei, baseado em pesquisas diárias realizadas no Google nos principais órgãos de comunicação portugueses entre 22 de setembro e 11 de outubro, mostra como a presença do Chega e, em particular, de André Ventura, foi não apenas dominante, mas também organizada em “ondas” temáticas com alto potencial de amplificação.

Com efeito, a curva de menções a “André Ventura” seguiu o padrão clássico dos ciclos mediáticos eleitorais: um pré-arranque relativamente discreto (André Ventura esteve três dias em parte incerta), uma explosão mediática no início oficial da campanha, um pico pronunciado e, por fim, uma retracção que permanece, ainda assim, acima do ponto de partida. Os números são eloquentes: de 1 700 referências no início da série para 9 080 na recta final, com um pico absoluto de 14 900 a 9 de outubro. Não é só volume; é o “timing”. O auge ocorre precisamente quando a disputa de mensagens é mais valiosa, ou seja, na fase em que os indecisos ainda escutam e os alinhados reforçam convicções.

Esta dinâmica não acontece no vazio: É construída. Entre 30 de setembro e 9 de outubro, a visibilidade de Ventura cresce de forma quase contínua, sinal de uma estratégia de “campanha de choque”: gerar acontecimentos (declarações, polémicas, episódios viralizáveis) capazes de puxar a cobertura para si, antes de a agenda estabilizar ou saturar.

Não basta contar menções: é preciso saber ao que remetem. O estudo isolou cinco enquadramentos discursivos recorrentes no discurso do Chega: justiça, corrupção, segurança, imigração e “comunidades ciganas” e seguiu a tração mediática de cada uma destas “frames”:

  1. A Justiça destacou-se como o eixo mais persistente e volumoso, liderando durante todo o período e batendo o recorde absoluto no dia 10 de outubro. Não é um acaso: “justiça” funciona como ponto de convergência para indignação, moralidade e punição: uma gramática que oferece ao Chega o papel autoatribuído de “voz do povo contra o sistema”.
  2. A Segurança mostrou-se o tema mais estável. Sem fogos-de-artifício, mas sempre alto. Se “justiça” dá a moral, “segurança” dá a ordem e sustenta a narrativa dia após dia.
  3. Imigração e “ciganos” operaram como boosters episódicos. Picos abruptos e quedas rápidas: sinais de ativação deliberada de polémicas com forte valor-notícia. Servem para reconfigurar a conversa nos momentos-chave, mas não se mantém como eixo estrutural da campanha.
  4. No agregado, o retrato é claro: o Chega agarrou a agenda com um tema estruturante (“justiça”), alimentou-a com um tema perene (“segurança”) e potenciou a sua visibilidade com detonadores de curto prazo (“imigração” e “ciganos”).

Comparando com PS e PSD, o Chega liderou o volume total de menções ao longo da série. O PS acompanhou a tendência na segunda metade da campanha, crescendo com intensidade na aproximação ao fecho. O PSD teve um pico precoce e perdeu tração logo depois. Três estilos distintos de presença mediática: exposição contínua e controversa (Chega), mobilização institucional concentrada (PS) e arranque forte com menor capacidade de retenção (PSD).

A consequência é um efeito de sobrerrepresentação temática: quando uma força política consegue impor, com regularidade, os seus temas preferidos, o risco não é apenas assimétrico, é cumulativo. A atenção puxa atenção; a polémica puxa cliques; e os cliques, por sua vez, reforçam o alinhamento editorial com aquilo que “rende”.

Este não é um apelo para “calar” ou silenciar ninguém ou nenhum partido (por muito extremista e radical que seja o Chega). É, sobretudo, um convite à existência de filtros editoriais mais conscientes: diversificar as fontes e os temas; distinguir o facto novo da provocação repetida; exigir contexto antes do título; medir o impacto de cobertura em narrativas que estigmatizam grupos sociais; e, sobretudo, não confundir barulho com relevância pública.

Do lado dos cidadãos, o antídoto chama-se literacia mediática: reconhecer quando um tema reaparece como trigger emocional; perguntar o que ficou de fora enquanto seguimos a polémica da semana; exigir contraditório e escrutínio simétrico para todas as forças políticas.

O estudo do MDP é exploratório, limitado na quantidade de media analisados e na duração dos dias medidos. O estudo assenta em contagens manuais de resultados do motores de busca da Google, restringidas a domínios jornalísticos de referência e recolhidas diariamente, sempre no mesmo intervalo horário. Como qualquer contabilização automatizada, pode incorporar duplicações, variações editoriais e ruído algorítmico. Por isso, o mais prudente é encarar estes números como indicadores de tendência, não como um estudo exaustivo e muito profundo.

Se quisermos um debate mais informado e plural, precisamos de monitorização periódica e transparente da agenda mediática. O MDP propõe-se fazê-la em ciclos regulares, incluindo as presidenciais que se avizinham. Não para limitar a pluralidade mas para iluminar as assimetrias que, invisíveis, decidem o que vemos, quando vemos e com que emoção vemos.

Democracia participativa também é isto: olhar para o espelho dos media, medir o reflexo e perguntar, sem receio, quem está a segurar a câmara ou o teclado que escreve as notícias.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

França e Países Francófonos - um golpe que explora a transição energética

Dezenas de milhares de lâmpadas para iluminar caminhos agrícolas, plantações, trilhos ou jardins privados, distribuídas gratuitamente graças ao dinheiro da transição energética. O sistema dos Certificados de Economia de Energia está no centro de um (novo) enorme desperdício e de uma vasta fraude, que se tornou cada vez mais visível nos últimos meses em França  e países francófonos. Destaca-se a poluição luminosa que interfere na migração das aves e desorientam os insectos. Esta é mais uma operação de lavagem verde de grandes empresas petrolíferas francesas, como TotalEnergies e Esso, assim como a própria EDF e Engie.  

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

USA - Land of the free?

The New Colossus
By Emma Lazarus
November 2, 1883

"Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

Cartoon por Mike Luckovich

Nota: The New Colossus é um soneto escrito pela poetisa norte-americana Emma Lazarus. Ele foi escrito em 1883 com o propósito de angariar fundos para o pedestal da Estátua da Liberdade. O soneto está embutido numa placa de bronze dentro da estátua.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Pepe Mujica

O que significa dar sentido à vida?
É ter uma coisa principal que preencha 
os capítulos e as preocupações da nossa existência.

No meu caso, é o sonho de lutar por um mundo um pouco melhor.

domingo, 11 de maio de 2025

O paradoxo militar e autoritário de Israel


Quando Israel bombardeia a Síria, o Líbano e Gaza, é “autodefesa”. Quando o Iémen responde, de repente é “antissemitismo”.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

COP 29 -126 jatos privados aterraram em Baku entre 8 e 17 de novembro, um aumento de 290% em comparação o mesmo período de 2023

Estes jatos privados são utilizados principalmente por empresas petrolíferas, bilionários e governos pouco interessados em reduzir a sua pegada ecológica. Muitos destes voos são efetuados em aviões alugados ou em leasing, o que permite a certos VIPs dissimular a sua identidade e esconder a extensão das suas viagens.
Ler mais: Reporterre

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Trump e o fim de uma era dourada que nunca o foi


Por Ricardo Paes Mamede
A vitória de Trump nas eleições presidenciais americanas foi recebida com preocupação generalizada e há boas razões para isso. Trump tem um modo de fazer política que degrada a democracia e põe em causa o regular funcionamento do Estado de direito. A sua mensagem é contrária à coesão social e à dignidade da pessoa humana, estimulando o ódio, a intolerância e o desprezo pelo ambiente, pela ciência e pelos factos. Ao nível económico, promete uma redução de impostos que agrava as desigualdades e uma política comercial agressiva que desestabiliza as relações internacionais. Pior ainda, o regresso vitorioso de Trump é um estímulo acrescido a todos os partidos e movimentos que, em diferentes países (Portugal incluído), seguem a mesma linha política. Nada de positivo pode vir daqui.
À boleia das críticas a Trump surge muitas vezes o lamento sobre o fim de uma era de globalização supostamente feliz. O anunciado regresso do proteccionismo americano contrastaria com várias décadas de relações comerciais assentes em regras, que teriam contribuído para um bem-estar alargado à escala global.
Esta narrativa tem dois problemas. Primeiro, ignora que a globalização económica contemporânea, com as suas regras e lógicas de funcionamento, criou um conjunto de problemas sérios nas economias e nas sociedades. Segundo, é incapaz de perceber que o sucesso de Trump — e de outros movimentos políticos semelhantes — é mais consequência do que causa dos problemas decorrentes das relações económicas internacionais.
A forte expansão do comércio internacional e dos fluxos financeiros é um dos traços mais marcantes da economia global contemporânea. Sob a promessa de prosperidade generalizada, as fronteiras comerciais foram desmanteladas, abrindo espaço a uma mobilidade sem precedentes de capital, bens e serviços. Países de rendimentos baixos especializaram-se na produção intensiva de bens de consumo a baixo custo, enquanto as nações mais ricas se concentraram em sectores de alta tecnologia e serviços financeiros. Este processo resultou na criação de cadeias de valor globais, fazendo emergir uma interdependência entre economias que foi por muitos recebida como uma promessa de paz e estabilidade. Na verdade, este modelo trouxe um conjunto de distorções e desequilíbrios que colocam em causa a viabilidade de uma economia mundial integrada nos moldes actuais.
A emergência da China como superpotência industrial, assente na instalação em massa naquele país de fábricas das empresas dos países ricos a partir da década de 1980, foi um dos principais factores que contribuíram para agravar os desequilíbrios globais. A deslocalização da capacidade produtiva para a China pretendia tirar partido dos seus baixos custos de produção e aceder a um mercado potencial de grandes dimensões.
Os resultados foram, por um lado, a acumulação de enormes excedentes comerciais e de capacidades tecnológicas pela economia chinesa; por outro lado, a desindustrialização de muitos países ocidentais, com impactos nefastos nas suas estruturas sociais e no seu endividamento externo. Os poucos países que resistiram à desindustrialização daí decorrente foram aqueles que produziam os bens de que a China necessitava para o seu desenvolvimento económico. Como exemplo mais ilustrativo, a economia alemã, tendo um perÆl de especialização assente em máquinas e equipamentos de produção e transporte, viu crescer as suas exportações como poucos, à boleia da procura chinesa. Tal como a China, a Alemanha seguiu uma política de contenção da procura interna (por via de políticas salariais e orçamentais restritivas), traduzindo-se na acumulação de excedentes comerciais signifcativos face aos seus parceiros.
Assim, a par do crescimento exponencial dos movimentos de bens e capitais, a globalização contemporânea caracterizou-se por enormes desequilíbrios nas contas externas, com efeitos negativos na estabilidade financeira internacional. Os países com elevados superavits comerciais reciclaram os seus excedentes financiando os deficits dos países com contas externas negativas. Isto permitiu aos últimos continuar a consumir, mas à custa de um endividamento crescente.
Estes desequilíbrios têm estado na origem das centenas de crises financeiras e recessões económicas ocorridas nas últimas quatro décadas em diversos pontos do globo (incluindo a crise do euro, que arrastou Portugal entre 2010 e 2013). O excesso de crédito e a especulação financeira dão lugar a bolhas no preço dos activos que, ao rebentar, originam recessões profundas. A pandemia e a guerra na Ucrânia vieram acrescentar à lista de efeitos nefastos da globalização os riscos associados a um excesso de interdependência entre países no fornecimento de bens essenciais.
Longe de ser uma era dourada, a globalização económica contemporânea tem estado assim associada a fenómenos de instabilidade social, financeira e económica. Pelo caminho, milhões de trabalhadores nos países desenvolvidos viram os seus empregos desaparecer, os salários estagnar, a precariedade e as desigualdades aumentar. A capacidade dos Estados para fazer face a estes problemas fragilizou-se. Era difícil que isto não se traduzisse em instabilidade política.
Quem lamenta o fim da globalização como a conhecemos até há pouco não se limita a ignorar os aspectos nefastos das regras em vigor. Parece também confundir as vantagens inerentes às trocas comerciais entre países com uma economia global em que “regulação” significa pouco mais do que impor a cada Estado a abertura descontrolada das suas economias à concorrência internacional.
Não haja dúvidas de que o proteccionismo de Trump é simplista e perigoso. O aumento acentuado das taxas aduaneiras, acompanhado de uma atitude de confronto nas relações entre países, poderá resultar numa guerra comercial generalizada, com consequências graves para a economia global.
A solução para os desequilíbrios resultantes da globalização económica deveria, ao invés, passar por uma regulação mais robusta dos sistemas financeiros e por uma coordenação internacional das políticas cambiais e comerciais que permitisse ajustar as contas externas distribuindo as responsabilidades entre os países com excedentes e os países deficitários — na linha do que Keynes propôs há 80 anos, com pouco sucesso, no âmbito das negociações de Bretton Woods.
Na ausência de tais mecanismos de coordenação, não é de espantar que os países recorram aos instrumentos que têm à sua disposição. A solução não é boa. Desmantelar as fronteiras económicas nacionais e esperar que tudo corra pelo melhor, como em larga medida se fez nas últimas décadas, ainda o é menos.