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sábado, 1 de novembro de 2025

Ghost Cop - All Souls Day

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Os Ghost Cop são um duo de música eletrónica sediado em Nova Iorque, nos Estados Unidos, formado pela vocalista e artista multidisciplinar Lucy Swope e pelo produtor e músico Sean Dack.  A sonoridade do projeto - que a própria banda descreve de forma provocatória como "feel-bad dance music" - assenta numa fusão densa de Darkwave, Synth-pop, Coldwave e Post-punk, profundamente impregnada pela estética e pelas bandas sonoras de filmes de terror e de ficção científica da década de 1970 e 1980. O estilo é de facto inovador precisamente porque o duo não se limita a replicar a nostalgia retro dos anos 80: eles desconstroem o género. Enquanto o Synthwave tradicional tende a ser brilhante ou focado em melodias melancólicas fluídas, os Ghost Cop sobrepõem graves analógicos punitivos, ritmos industriais secos e linhas de sintetizador pontiagudas a vocais frios, sussurrados e etéreos. O resultado é um híbrido cinemático e noturno - uma música dançável, mas que mantém uma tensão e claustrofobia constantes, como se a pista de dança fosse o cenário de um filme slasher ou cyberpunk.  
No tema "All Souls Day" (lançado no álbum Trouble em 2024), a canção explora o significado espiritual e profano do Dia dos Fiéis Defuntos. O tema aborda a fronteira porosa entre os vivos e os mortos, a memória, o luto coletivo e a permanência dos "fantasmas" interpessoais que carregamos. É uma reflexão sobre a finitude, onde a dança serve como um ritual moderno de purgação e invocação, sugerindo que as nossas perturbações e remorsos não desaparecem; apenas mudam de forma e habitam as sombras do presente.  No plano visual e videográfico, os Ghost Cop são conhecidos por realizar e produzir a sua própria identidade estética. O videoclipe de "All Souls Day" utiliza uma linguagem cinematográfica em lo-fi e película texturada, carregada de iluminação contrastada e claros-escuros típicos do cinema giallo e do terror B. O significado do vídeo centra-se na despersonalização e na vigilância: figuras em movimento contínuo que transitam entre a presença e a ausência, transmitindo a ideia de que a cidade moderna é um cemitério de memórias e que os corpos em movimento estão possuídos pelo próprio ritmo da máquina.  
As influências literárias e filosóficas do duo e desta faixa em específico ancoram-se no Existencialismo (a busca de sentido perante a finitude e o absurdo) e nas teorias do filósofo francês Jacques Derrida sobre a "Hauntologia" (Hauntology) - o conceito de que o presente está sempre assombrado pelos "fantasmas" dos futuros perdidos do passado. Do ponto de vista literário, nota-se a forte influência da ficção científica distópica de J.G. Ballard (o erotismo mecânico e a alienação urbana), o terror psicológico de H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe (o medo do invisível e o macabro) e a poesia do Romantismo Negro, onde a beleza e a decadência caminham lado a lado.  

The H. P. Lovecraft Archive

Páginas oficiais
Ghost Cop

domingo, 8 de agosto de 2021

Filme: Last Night in Soho - A Noite Passada em Soho (2021)


O filme Last Night in Soho (2021), realizado por Edgar Wright e coescrito por Krysty Wilson-Cairns, estrutura-se como um thriller psicológico profundamente interdisciplinar que entretece a estética do terror com reflexões sobre a memória, o trauma e a obsessão.

Sinopse
O thriller psicológico realizado por Edgar Wright, ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada. O filme acompanha Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem aspirante a estilista obcecada pelos anos 60 que viaja no tempo e vive a vida de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da época, apenas para descobrir que o glamour do passado esconde uma realidade sórdida de exploração e trauma.

O terror psicológico em Last Night in Soho nasce do desmantelamento da mente da protagonista, Ellie, à medida que a sua obsessão pelo passado deixa de ser um refúgio e se transforma num pesadelo invasivo. Ao contrário do terror tradicional baseado apenas em monstros ou violência física, o filme de Edgar Wright constrói o medo através do confronto constante da personagem com a sua própria perceção, a herança do trauma e a perda de controlo sobre a realidade.

Em primeiro lugar, o terror manifesta-se na dissolução das fronteiras entre a ilusão e o mundo real. Inicialmente, as viagens de Ellie até aos anos 1960 acontecem apenas nos seus sonhos, mas a linha que separa a vigília do sono esbate-se rapidamente. As visões de Sandie e dos homens sem rosto começam a invadir a sua vida quotidiana em pleno dia - em reflexos de espelhos, nas aulas da faculdade ou no local de trabalho. A incapacidade de confiar nos próprios sentidos gera uma paranoia sufocante, intensificada pelo trauma intergeracional e pela herança de doença mental. Sabendo que a sua mãe sofria de esquizofrenia e cometeu suicídio após ter visões, Ellie vive num estado permanente de dúvida interior, questionando se está verdadeiramente a testemunhar eventos sobrenaturais ou se está a sucumbir à mesma espiral de loucura que destruiu a sua família.

Além disso, a empatia obsessiva de Ellie por Sandie transforma-se numa experiência traumática na primeira pessoa. Ellie não é uma mera espectadora do passado; ela absorve e sente o medo, a manipulação e a exploração que Sandie sofreu no meio noturno de Soho. O terror surge quando se percebe presa à tragédia de outra mulher, revivendo abusos sem qualquer poder para intervir ou salvar a vítima.

Por fim, o filme utiliza a desconstrução da nostalgia como a sua maior armadilha psicológica. A idealização romântica dos Swinging Sixties revela-se um ambiente claustrofóbico e de pesadelo. O horror psicológico atinge o seu auge quando a estética vibrante, a música estimulante e as luzes de néon passam a representar a fachada de uma rede sórdida de exploração e violência, transformando o sonho dourado de Ellie numa prisão assombrada pelos fantasmas do passado.

A Hauntologia de Soho - uma leitura médica, social e filosófica do filme

No âmbito filosófico, a obra opera uma desconstrução crítica da nostalgia ao alinhar-se com os conceitos de hauntologia - a assombração do presente pelas ilusões do passado - e com as teorias de Svetlana Boym sobre a nostalgia restaurativa versus reflexiva, desmistificando o mito idílico da "Swinging London" para expor a misoginia e a exploração subjacentes. Em consonância com a teoria crítica feminista, a narrativa aborda a reificação do corpo feminino pela indústria do entretenimento e desafia perspetivas morais maniqueístas, questionando a fronteira entre a condição de vítima e a de algoz no desfecho da história.

No domínio da saúde mental, a fita mobiliza quadros da neuropsiquiatria como motores da tensão e do isolamento. A sensibilidade empática e a sinestesia da protagonista Eloise articulam-se com a herança psiquiátrica de uma mãe vitimada pela psicose, gerando um constante estado de paranoia em torno da dúvida entre o discernimento da realidade e o início de um surto. Paralelamente, a trajetória da personagem Sandie reflete o impacto do trauma complexo (C-PTSD) e da violência sistémica, demonstrando a dissociação como mecanismo de defesa da identidade, enquanto a fixação pela década de 1960 surge como uma resposta de esquiva cognitiva e negação da adaptação ao presente.

A dimensão musical do filme funciona como a ponte sensorial entre a filosofia da memória e a saúde mental da protagonista. A banda sonora dos anos 60 não serve apenas de adorno de época, mas atua como um gatilho auditivo que desencadeia os episódios de imersão e dissociação. A música molda o ritmo das alucinações, transformando canções pop aparentemente ingénuas em ecos assustadores de uma época marcada pelo trauma, onde o ritmo auditivo dita a espiral de degradação psicológica de Eloise.

Sobre o Filme